Capítulo 4

Hans olhou a menina ao seu lado de cima a baixo, como se estivesse medindo o seu valor, e Sailor Estelar cruzou os braços sobre o peito, franzindo as sobrancelhas e perguntando silenciosamente qual era o problema dele. O homem apenas deu de ombros e voltou sua atenção para a mosca gigante que o rei tentava afastar dos fugitivos com golpe atrás de golpe de energia.

- Não vai ajudá-lo? - perguntou finalmente. Afinal, não era a missão das sailors protegerem a realeza?

- Por quê? Ele parece estar se saindo bem. - rebateu Selene. Seu pai era poderoso, sabia se virar, sem contar que se entrasse na batalha agora com certeza iria destruir aquele bicho de cara e Moon falou que não era para matar a coisa. Então, só lhe restava ficar um pouco afastada observando o desenrolar da história e ajudando os pobres errantes que eram pegos no fogo cruzado.

- Não é função das sailors proteger a família real? - falou confuso e Estelar riu.

- De onde você tirou essa idéia? - disse divertida.

- Bem, eu tinha a impressão de que vocês estavam subordinadas ao rei e a rainha. - continuou e mirou chateado a expressão divertida da garota. Por acaso ela estava zombando dele?

- Subordinadas como em uma hierarquia militar. Cada grupo de sailor tem sua líder a qual segue e obedece, mas todas, sem excessão, têm como superiores o rei e a rainha. Eles são apenas nossos "comandantes" e sabem se cuidar muito bem. Afinal, são as criaturas mais poderosas da galáxia. Nossa função é proteger a cidade. - explicou calmamente e Hans teve uma leve sensação de dejá vu e uma voz familiar pareceu soar bem perto de seu ouvido: "Minha função não é proteger o príncipe, isso ele sabe fazer muito bem, mas eu não consigo evitar não é mesmo?". Sacudiu a cabeça como se para afastar essas palavras e prendeu a respiração quando um poderoso ataque foi em direção ao rei. Olhou de esguelha para Estelar que fez um leve movimento, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra em um gesto que parecia inquietude. Os orbes claros dela estavam presos no ataque que se aproximava cada vez mais de Endymion e quando chegou perto o suficiente a garota apenas piscou uma vez antes de desaparecer num rastro dourado e em uma rajada de vento do seu lado.

Quando percebeu o que acontecera, Hans pôde ver a sailor em frente ao rei enquanto uma bolha azul cintilante envolvia os dois e recebia todo impacto do canhão da mosca, empurrando Endymion e Estelar para trás diante da força do golpe. O rei prontamente segurou na cintura da senshi, murmurando algo na orelha dela e o zathariano fechou as mãos em um punho e franziu as sobrancelhas prateadas diante do gesto extremamente intímo. Lançou um breve olhar a Serenity que observava a cena e esperava encontrar no rosto da mulher uma expressão de desagrado. Afinal, o marido dela estava segurando de maneira praticamente possessiva uma das sailors pela cintura e a prendendo contra o próprio corpo. Mas, ao invés disso, o que vira no rosto da rainha foi apenas preocupação.

Voltou sua atenção ao casal mais a frente e viu Estelar acenar positivamente com a cabeça para o que quer que o rei tenha dito a ela e um segundo depois o escudo que os protegia desapareceu e num salto o homem saiu da linha de tiro, levando a senshi consigo e deixando o canhão de energia abrir mais um buraco no chão. Ambos pousaram no topo de uma armação metálica que segurava as placas de sinalização sobre as ruas e Estelar balançou um pouco quando salto de sua bota prendeu nos intricados da armação. Prontamente Endymion apertou mais os braços em torno da cintura dela a estabilizando no lugar e em resposta a garota depositou ambas as mãos sobre as mãos dele. Hans franziu mais a testa. Não duvidava que a realeza e as sailors fossem amigos, mas os gestos do rei com aquela garota iam além de amizade e a rainha parecia nem se importar com isso. O que aquela senshi tinha diferente das outras? Porque o homem não acreditava que o soberano agisse dessa maneira com todas as guardiãs.

- Por que ele não pára de olhar para nós? - Endymion murmurou no ouvido de Selene e essa mirou por cima do ombro o rosto pensativo do pai, seguindo a direção do olhar dele e vendo Hans ainda sobre o caminhão ao longe.

- Deve estar achando que nós temos um caso. - respondeu com um sorriso divertido, dando um aceno matreiro ao zathariano ao longe e piscando um olho para ele.

- Ew, Selene! - Endymion disse ultrajado, voltando o olhar para o rosto da menina. - De onde vem esses seus pensamentos pervertidos? Você não era assim.

- Isso se chama adolescência. - brincou a jovem. - Agora entendi o que a mamãe quis dizer quando falou que o senhor tinha "a pegada". - provocou e segurou-se para não rir quando o rosto do rei ficou rubro de vergonha.

- Mocinha você está se tornando muito saidinha para o meu gosto. - a repreendeu e Selene riu um pouco, mas as risadas dela morreram quando viu a mosca gigante preparando-se para mais um ataque. - Não entendo porque você ainda não fez nada. - perguntou o homem, ainda a abraçando pela cintura. Sabia que as pessoas na rua estavam mais preocupadas em fugir do que prestarem atenção na cena do rei segurando uma senshi intimamente daquela maneira. Sem contar que todos da cidade de Tóquio tinham conhecimento que a realeza e suas guardiãs eram bem próximos, então não viam nada de estranho na cena. Exceto Hans que parecia continuar os olhando com curiosidade.

- Por que você não fez nada? - rebateu a garota. Qualquer ataque de seu pai seria suficiente para desintegrar aquela coisa, mas no máximo o que ele fez foi atrasá-la. Endymion apenas deu um sorriso de escárnio para ela.

- Não foi você que me disse que lutar contra o mal não era mais o meu trabalho? Então? O que está esperando para fazer o seu? - Estelar novamente riu. E depois seu pai ficava se perguntando a quem ela saiu.

- Moon pediu para eu atrasá-lo, não destruí-lo, Arcádia pode querer coletar mais dados. - explicou-se e o rei acenou positivamente com a cabeça compreendendo a situação e a soltou quando a mosca preparou-se para mais um ataque. - E do jeito que elas estão demorando, vou ter que fazer alguma coisa. Ele precisa ficar completamente vivo? - perguntou para ninguém em particular e Endymion deu de ombros.

- Desde que tenha um corpo para contar história e Ann analisar, acho que se estiver vivo ou não é o que menos importa. - Selene assentiu com a cabeça e ergueu o braço ao lado do corpo, conjurando seu cetro.

- Melhor se afastar. - advertiu e Endymion lhe desejou um baixo boa sorte antes de em outro salto sair de cima do poste e ir juntar-se a sua esposa, pois podia sentir a energia estalando e vibrando ao redor da sailor. Quando a mosca abriu mais o bico carregando seu canhão, a menina ergueu a sua arma e disparou seu golpe ao mesmo tempo que a criatura. - Tempestade Estelar! - as várias bolas de energia como uma chuva de meteoros explodiram da ponta do cetro dela e foram a alta velocidade em direção ao bicho, o acertando do lado do corpo e o fazendo balançar no ar por uns segundos antes de cair num estrondo no chão diante da destruição de uma de suas asas.

- Isso foi eficiente, mas creio que vai precisar de um pouco mais. - Estelar deu um pulo no lugar e virou-se sobre os saltos com o cetro erguido pronta para atacar o intruso, mas abaixou a arma quando viu que era apenas Hans. - Por que não o pulverizou como da última vez?

- Não estava a fim. - respondeu, fazendo um gesto displicente com a mão que não segurava o cetro e Hans rolou os olhos diante da atitude irritantemente infantil.

- Se não percebeu aquela coisa está destruindo o lugar e ferindo pessoas. Você é uma guardiã, não é seu trabalho proteger os inocentes? - a repreendeu e viu a jovem o mirar com raiva.

- Não me diga como fazer o meu trabalho, eu sei o que faço. - respondeu petulante e soltou um grito estrangulado quando os braços fortes do zathariano envolveram a sua cintura num aperto longe de ser o aperto delicado que seu pai usou mais cedo e a puxou contra o corpo dele, saltando para fora do poste e fazendo um caminho entre as capotas dos carros destruídos na rua, até chegar a segurança do telhado de um prédio comercial de cinco andares. Estelar apenas ficou mirando o rosto dele estática, tentando compreender o motivo de tal gesto, quando o som de uma explosão chegou aos seus ouvidos. Olhou por cima do ombro para ver os restos do poste com a placa onde eles estavam cair num baque metálico no chão.

- Desatenta. - murmurou sob a respiração e sentiu um tranco em seus braços quando a garota soltou-se com força de suas mãos, o encarando friamente antes de lhe dar as costas e desaparecer com o seu cetro, cruzando os braços sobre o peito e vendo o rei e a rainha guiando o último grupo de pessoas para o subterrâneo antes de lançarem um olhar para ela no topo do prédio. Estelar deu um aceno positivo de cabeça para eles, enviando uma mensagem silenciosa de que tudo estaria bem e apontou para o broche em seu peito, ergueu a mão aberta e depois apontou para o chão dizendo claramente que as Neo Sailors estavam a caminho. Rapidamente o rei e a rainha desceram as escadas do metrô e a jovem pôde ouvir o barulho dos portões de isolamento se lacrando. Soltou um suspiro aliviado. Não gostava de lutar na presença de seus pais, pois não apreciava a idéia deles a avaliando para depois dizerem que ela não era apta ao trabalho ou a paparicando diante de um arrãozinho qualquer.

A mosca gigante novamente começou a se carregar para disparar o canhão, o zumbido irritante como aviso do ataque que viria. Os dedos de Estelar formigaram ao ver a cena, podia sentir que o bicho agora investia sem muito convicção visto que não havia mais pessoas na rua para machucar, apenas coisas para distruir, sem contar que ele andava por entre os escombros tortuosamente por causa da asa faltando e metade do corpo chamuscado pelo golpe que a sailor soltou sobre ele mais cedo. Sabia que se disparasse outro tempestade estelarderrubaria a coisa e Moon queria aquela porcaria inteira e no presente momento ela já estava ficando impaciente. O comichar em seus dedos aumentava e seus instintos clamavam por seu cetro para terminar logo com aquela palhaçada.

- Por que você não ataca? - Hans indagou ao ver que a sailor não fazia nada para derrubar aquela coisa e parecia esperar por algo.

Boa pergunta, pensou Selene contrariada. Onde diabos estava Serena? Não queria admitir, mas pro bem ou pro mal Sailor Moon era a líder das Neo Senshis e como uma nova sailor ela fazia parte deste grupo e tinha que obedecer a irmã na batalha, embora soubesse que, tecnicamente, não se encaixava em nenhum dos grupos de sailors: inner, others ou neo, pois o Cristal Estelar adaptava-se ao tipo de guerreiro recorrente que protegia o planeta em que escolhia moradia. No caso da Terra, eram as sailors senshis.

- Eu estou esperando. - respondeu desgostosa, não estava feliz com essa situação tanto quanto Hans e podia sentir a impaciência dele ao seu lado.

- Isso é tolice. Que tipo de guerreira é você? Espera que aquela coisa desista sozinha e vá embora? Pois vou avisando, esse bicho não vai desistir até conseguir o que quer. - soltou diante da imobilidade da jovem de fazer alguma coisa. Não estava a fim de lutar contra aquela mosca super desenvolvida, não era sua obrigação proteger este planeta e a pessoa responsável por isto estava ao seu lado e não movia um músculo para resolver o problema.

Selene por sua vez lançou um longo e misterioso olhar para Hans ao ouvir a reclamação dele. O homem falara como se tivesse conhecimento de causa. Abriu a boca para dizer alguma coisa mas calou-se quando o som do canhão do inseto gigante disparando ecoou pela rua junto com um outro grito extremamente familiar.

- Cascata Inebriante de Arcádia! - o golpe da sailor chocou-se com o canhão de energia e Estelar sorriu quando as gotas d'água começaram a congelar progressivamente, parando o ataque e fazendo um enorme bloco de gelo cair no asfalto e espatifar-se em milhares de pequenos fragmentos.

- Você demorou. - reclamou a morena quando Sailor Moon pousou elegantemente ao seu lado.

- Eu disse para você não causar muitos estragos. - resmungou Moon, apontando para a asa destruída do monstro e parte do corpo dele machucado.

- Ele está vivo, não está? Então não reclama. - sua atenção voltou-se para Arcádia que digitava freneticamente algo em seu palm top avaliando a criatura enquanto Phobos e Vésper disparavam ataque atrás de ataque em cima do bicho. Quando Ann virou-se para Serena no topo do prédio, fazendo um sinal positivo com a cabeça e guardando seu computador, Estelar soube que ela tinha terminado seu trabalho.

- E então? - Moon perguntou, virando-se para poder encarar a irmã.

- E então o quê? - perguntou a morena desentendida, piscando os olhos para a menina mais velha.

- Você poderia fazer o favor? - continuou a líder das senshis, fazendo um gesto com a mão e apontando para o monstro.

- Por que eu? - retrucou petulante, cruzando os braços sobre o peito.

- Nós já acertamos que os nossos golpes não funcionam com aquela coisa, apenas os seus, então se você não se importa... Eu tenho mais coisas a fazer do que ficar aqui debaixo dessa chuva vendo aquele bicho feio ficar pulando de um lado pro outro. - e abaixou o tom de voz apenas para ela ouvir. - Eu estava em um encontro. - justificou-se e Selene deu um sorriso escarninho para ela.

- Deixa o Sr. Chiba descobrir. - provocou e Serena lhe deu uma careta infantil.

- É pra hoje ou tá difícil? Phobos e as outras não vão aguentar muito tempo. - indicou as sailors que lutavam para derrubar o bicho e Estelar soltou um suspiro sofrido, rolando os olhos levemente.

- Está bem, está bem. - falou com enfado mal notando um Hans inquieto ao seu lado. Na mente do zathariano a atitude daquelas mulheres era totalmente desonrosa para qualquer guerreiro que se preze. Elas não davam o devido respeito ao adversário, mesmo que ele não passasse de um bicho enorme e irracional. Elas não tinham postura de guerreiras e ficavam discutindo em pleno campo de batalha de maneira infantil. O homem não estava acostumado com isso, estava mais habituado com soldados habilidosos e eficientes como aqueles com quem lutou durante todas as batalhas que Zathar sofreu e durante a última invasão. Eles sim mereciam grande respeito, diferente dessas meninhas bobinhas ao seu lado. E este era mais um detalhe. Eram meninas. Não queria ser preconceituoso, mas para ele mulheres não eram instrumentos feitos para a guerra, não tinham o sangue frio necessário para fazer o que fosse preciso. Não achava que fossem fracas, longe disso, mas na sua opinião elas apenas não mereciam tal sofrimento. Fora criado para ser um guerreiro, mas também para ser um cavalheiro, e como tal ele achava que mulher era delicada demais para viver em uma trincheira.

Certo que no fundo ele também achava que elas não tinham potencial para isso, mas jamais falaria tal coisa em voz alta, ao menos não na presença de algumas mulheres zatharianas orgulhosas e menos ainda na presença de meninas de mini saias que tinham poder para destruir meio mundo.

- Estelar, daqui a pouco eu vou criar raiz aqui. - Sailor Moon cruzou os braços e começou a bater o pé impacientemente enquanto a encarava com raiva.

- Estou indo, estou indo... - resmungou sob a respiração, saltando do alto do prédio e pousando com um baque sobre o teto de uma caminhonete, o amassando levemente. - Pra trás! - gritou para as outras senshis que lançaram um olhar por cima do ombro para a princesa e rapidamente sairam do caminho quando viram a posição familiar do cetro estelar e ela começar a invocar o ataque. - Suprema Devastação Estelar! - gritou e a esfera de energia explodiu de sua arma indo contra a criatura e a destruindo com a mesma eficiência que destruiu o besouro gigante na noite passada. - Feliz agora? - gritou para Moon no topo do prédio, colocando as mãos sobre a cintura e nem piscando os olhos quando a garota de cabelos rosados aterrisou ao seu lado com um sorriso divertido no rosto.

- Você está pegando o jeito. - a elogiou. - Veja, o suprema devastaçãocausou menos estragos que o esperado. - e indicou o local onde o monstro estava. O golpe não tinha apenas o eliminado, mas também atingido vários carros e escombros, terminando de destruir o que a criatura tinha começado. Estelar fez uma careta de desagrado e lançou um sorriso sem graça a irmã. - Estranho, seu golpe hoje saiu um pouco do controle mas noite passada...

- Nem tenta racionalizar isto porque nem mesmo eu entendo. - Selene a cortou. - Talvez como você disse ontem foi golpe de sorte, nada mais. - Sailor Moon apenas deu de ombros e gritou para Arcádia ao longe:

- Conseguiu o que queria? - Ann assentiu com a cabeça. - Onde estão mamãe e papai? - perguntou em um tom baixo para a menina mais nova.

- Foram com os civis para o subterrâneo, a essa altura devem ter chegado ao castelo. - explicou e Serena apenas fez um pequeno gesto de compreensão.

- Bem, pelo visto meu encontro babou, pois teremos conferência - saltou do topo do carro e foi para o chão onde as outras sailors uniram-se a ela. - Você vem? - chamou com a mão livre, a outra segurando a mão de Arcádia que estava pronta para teleportá-las. Selene mirou Hans ainda no topo do prédio e depois voltou o olhar para a irmã.

- Vão na frente. - falou, ignorando a expressão fechada de Moon quando viu quem ela tanto encarava. Serena ainda abriu a boca para protestar alguma coisa mas foi interrompida quando sentiu a energia do teleporte de Ann cruzar seu corpo e a irmã desaparecer de seu campo de visão.

Estelar ainda ficou um tempo parada olhando para o ponto onde as outras senshis desapareceram e sentiu um arrepio lhe descer a espinha com a sensação de que estava sendo intensamente observada. Por um momento pensou que fosse Hans, mas a sensação não partia do local onde ela estava, mas sim de outro. Confusa, girou sobre os saltos para mirar a rua que estendia-se longamente atrás de si e era atulhada de veículos vazios e abandonados e teve a impressão de que vira uma sombra se mexer na esquina. Sem pensar duas vezes começou a correr por sobre a carroceria dos carros, seus longos cabelos negros chicoteando contra seu rosto e num pulo chegou a calçada, deslizando na curva que ligava as duas ruas e parando abruptamente, olhando de um lado para o outro a procura da tal sombra. Tinha certeza que alguém estivera ali e agora esta pessoa havia desaparecido.

- O que houve? - dessa vez a menina não pulou ao ouvir a voz e limitou-se apenas a colocar as mãos na cintura e fazer uma expressão pensativa.

- Nada. - respondeu num murmúrio, franzindo as sobrancelhas de leve antes de virar-se para poder encarar o homem. - Venha, eu te levo de volta ao castelo. - disse, estendendo ambas as mãos para ele e Hans arqueou as sobrancelhas, mirando das pequenas mãos da guerreira para o rosto dela.

- Você sabe teleportar que nem aquela outra garota? Qual o nome dela mesmo?

- Arcádia? Não, não sei teleportar que nem ela. Nosso meio de transporte vai ser outro. - e ao dizer isso asas semi transparentes brotaram das costas da jovem, parecendo que eram feitas da mais fina seda, mas vendo de perto elas eram feitas de pura energia. Hans olhou desconfiado para aquele par de asas que pareciam tão frágeis que o surpreendia por não estarem desintegrando sob a chuva forte e depois voltou-se para a garota que mal chegava ao seu peito, era esguia e cujos braços magros pareciam que não suportariam nem 1/3 de seu peso. Aceitar a carona dela com certeza seria suicídio.

- Prefiro ir andando. - declarou e deu a volta por ela, seguindo rua abaixo e ignorando os sons de passos contra as poças d'água.

- Você por um acaso sabe para que lado fica o Castelo de Cristal? - perguntou Estelar. Não que fosse difícil achar o palácio, pois várias placas turísticas na cidade tinham mapas que levavam ao lugar, mas só porque o zathariano sabia falar a língua daquele planeta isso também significava que ele sabia lê-la?

- Não, mas não sou contra em perguntar a alguém. - respondeu ainda andando sem encará-la e Selene riu.

- A quem? - zombou. As ruas estavam vazias naquela região, lojas e prédios fechados por proteção e toda e qualquer pessoa já tinha fugido dali a muito tempo. Ao longe pôde se ouvir os sons das sirenes do corpo de ajuda e resgate especial, uma brigada construída e treinada para poder lidar com o desastre pós combate das senshis. Afinal, alguém sempre tinha que limpar a bagunça. A brigada era comandada por Marte e Saturno e somente depois do aval das duas liberando a área era que as pessoas finalmente voltariam a circular aliviadas pelas ruas. Hans parou de andar por um momento e suspirou. As ruas estavam vazias, mortas como em uma cidade fantasma. Como Za-Xmyr ficou depois da invasão.

- Você não me aguentaria. - atestou, voltando a caminhar. - Não conseguiria sair do chão comigo.

- Está questionando a minha força? As senshis são mais fortes do que parecem...

- Não você. - provocou. Ela era um pingo de gente na sua opinião e parou abruptamente quando viu este mesmo pingo de gente na sua frente com as bochechas estufadas numa expressão chateada e as mãos fechadas em um punho sobre os quadris.

- Repete se você tem coragem. - rosnou entre dentes. Claro que tinha absoluta certeza que aguentaria com ele, não aguentou carregá-lo até a casa de Haruka e Michiru depois do acidente? Destransformada? Agora na forma de Sailor Estelar levá-lo nos braços seria como carregar um balão de ar, não faria diferença alguma.

- Prezo a minha vida menina. - respondeu seriamente, espalmando a mão sobre a cabeça dela como se ela fosse uma criança e afagando de leve os cabelos molhados. - Não quero ficar na ponta do seu cetro e embora você seja forte de energia... - os olhos verdes avaliaram a força física dela de cima a baixo. - não sairia do chão comigo. - terminou e os olhos azuis da jovem brilharam de maneira misteriosa.

- Vamos ver se não! - exclamou, agarrando a mão sobre a sua cabeça e a usando para puxar o corpo dele contra o seu. Hans tropeçou surpreso sobre os pés diante da puxada e mal teve tempo de registrar os braços em volta da sua cintura antes de sentir o vento zumbindo em seus ouvidos e eles ganhando cada vez mais altitude até estarem planando acima de alguns prédios.

- Você é maluca?! - gritou, pela primeira vez perdendo a compostura desde que chegara a aquele planeta.

- Você estava demorando muito para pensar e isso 'tava me irritando. Não quero ficar debaixo dessa chuva pra sempre, saiba disso. - e assumiu uma posição horizontal no ar, ainda o segurando pela cintura e disparando em direção ao castelo. Agora que estava nas alturas conseguia ver melhor a mais alta torre do palácio ao longe.

A viagem dos dois foi feita em silêncio com Hans apenas desviando o olhar vez ou outra das ruas e prédios que passavam a alta velocidade sob eles para a sailor que o segurava com destreza e desviava de uma ou outra antena ou edifício mais alto. Em poucos minutos o palácio de cristal apareceu em frente a eles e a garota rapidamente deu a volta pelo mesmo, pousando em um jardim interno e procurando abrigo sob o telhado que cobria uma das entradas do castelo naquele jardim.

- Pronto, está entregue. - disse em um tom animado e virou-se para entrar no castelo mas foi parada no lugar quando Hans a segurou pelo pulso e a puxou de volta em sua direção. - O que foi? - perguntou enquanto via ele abrir a boca para falar algo mas depois fechá-la como se repensando no que ia dizer.

- Você salvou a minha vida ontem e eu nem tive como agradecer. - falou finalmente e Estelar piscou os olhos confusa até recordar-se do ataque da noite passada e o fato de ter tirado Hans do caminho da bola de energia. Mas ela também recordou-se que apenas o tinha arremessado para longe com a sua telecinese antes de aparecer realmente no campo de batalha. Então como ele sabia... - Você era a pessoa mais perto de mim, então é fácil de se supor que fora você que me ajudou. - fazia sentido, pensou a garota. - E como guerreiro estou em débito. Então se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa... - qualquer coisa que pudesse aproximá-lo da senshi, ponderou o homem secretamente.

- Eu quero... - Estelar abriu a boca sem saber direito porque estava cobrando o favor agora quando poderia usar isso em sua vantagem mais tarde.

- Sim? - perguntou em expectativa.

- Quero que você fique longe da princesa Selene. -o quê? A sua mente gritou alarmada. Por que dissera isso? Não era ela mesma que há poucas horas estava o comendo com os olhos e agora pedia distância? Parecia até que outra pessoa falara por si.

- Como? - Hans não estava muito surpreso com a atitude da guardiã, mas as suas suspeitas ficavam ainda mais fortes de que Selene conhecia Estelar o bastante para saber quem ela era. Afinal, como a mulher podia saber de suas investidas subliminares na princesa? Estreitou os olhos diante do alerta e a imagem da princesa Serena passou pela sua mente. Será que era ela? O cabelo não era parecido, mas o rosto e olhos tinham alguma semelhança e como as sailor possuíam um glamour as acobertando, tudo era possível. Precisava investigar mais sobre isso.

- Esqueça o que eu disse. - eu estou louca, completou Selene em pensamento. - Apenas esqueça. - e soltou-se dele, correndo rapidamente castelo adentro e ignorando os olhares dos serventes ao ver a sailor molhada cruzar os corredores em direção a sala de conferência. Preferia ir para seu quarto se esconder, mas isso poderia levantar as suspeitas dos empregados e, além do mais, as outras deveriam estar na sala em reunião agora e isso significava apenas uma coisa: estava atrasada.


Sailor Moon fingiu olhar para um relógio imaginário em seu pulso quando as portas da sala de conferência se abriram em um estrondo e arqueou as sobrancelhas rosadas para a recém chegada. Estelar deu um meio sorriso forçado para a irmã, adentrando o aposento e indo postar-se automaticamente ao lado dela, voltando a sua atenção para o holograma que projetava as imagens do computador de Arcádia e depois para as outras sailors ao redor da mesa.

- Como eu estava dizendo antes de ser bruscamente interrompida - Ann lançou um longo olhar contrariado a Selene. Estava chegando na melhor parte de sua descoberta quando a princesa entrou esbaforida na sala. - posso dizer com certeza agora que aqueles dois bichos que nos atacaram possuem a mesma origem. Aparentemente são uma espécie de híbridos. Meio biológicos, meio robóticos. O fato de nossos golpes não terem efeito neles é por causa do revestimento robótico que eles possuem em torno do corpo, como uma casca. O canhão também é biônico e apenas por debaixo desse revestimento é que estão as partes frágeis, as partes biológicas. Infelizmente isso não foi o suficiente para saber quem é o autor do ataque, pois experiências genéticas na criação de animais artificiais é conhecida em vários planetas que possuem boa parte de sua fauna extinta. Acho que a origem desse projeto é do planeta Markon no quadrante quatro, e originalmente era apenas para reconstituir a fauna e a flora destruída pela chuva de meteoros que atingiu o planeta há vinte anos, nada mais. E como eles não fazem segredo dessa experiência, qualquer outra pessoa pode tê-la usado como base para fins mais malignos. - esclareceu e inspirou profundamente para recuperar o ar.

- Grande, continuamos na mesma então. - reclamou Bastet, cruzando os braços sobre o peito em uma pose impaciente e soltando um bufo.

- Nem tanto. - Arcádia continuou e mirou cada uma das sailors com uma expressão séria que com certeza precedia a alguma bomba que ela iria soltar. Todas prenderam a respiração apreensivas quando a menina abriu a boca para contar as novidades. - Quando analisei o primeiro ataque, algo naquela criatura me era familiar, algo que este segundo ataque confirmou. A camada de revestimento daqueles bichos é zaphira. - muitas piscaram os olhos sem entender o que a jovem queria dizer e Ann rolou os olhos diante da ignorância delas. Aquelas meninas não prestavam atenção em nenhuma lição de Educação Social e Política?

- A principal fonte de renda de Zathar? - Marjorie respondeu, surpreendendo a todas que viraram chocadas para encararem a loirinha. - O que foi? - perguntou em tom inocente e as outras deram de ombros. Não era sempre que Vésper tinha alguma coisa brilhante para dizer, mas algumas vezes ela tinha seus momentos.

- Isso mesmo, o elemento mais importante de Zathar, fonte de energia para os canhões daquelas coisas e resistente o suficiente para poder servir como escudo protetor. - continuou Ann e dessa vez as outras fizeram expressões de compreensão.

- Pergunta. - Serena ergueu a mão como se estivesse em sala se aula questionando a professora, coisa que ela comumente fazia para as dúvidas mais tolas, o que levava a mulher a loucura. - Se a zaphira torna o bicho mais resistente e impenetrável, com é que o golpe dela funciona?- e apontou para a irmã ao seu lado.

- O suprema devastação estelar é um golpe que consiste em uma simulação de uma bomba atômica. Ele age de dentro para fora, possui duas descargas de energia, a primeira serve para abrir caminho para a segunda descarga, gerando uma pequena brecha que for para a segunda energia penetrar no corpo do inimigo, causando uma explosão interna, como se ele tivesse engolido uma bomba nuclear. O golpe causa uma pequena fissura no escudo diante do impacto e essa fissura é o suficiente para a segunda descarga entrar e causar o estrago. - explicou Arcádia e Estelar adquiriu uma expressão de completo e absoluto choque. Nunca parara para pensar como funcionava cientificamente seus golpes, apenas ficava satisfeita de que eles funcionavam e nada mais. Mas ouvir essa explanação detalhada era assustador.

- Então é por isso... - interrompeu Selene.

- Que você ainda não consegue controlá-lo? - completou Ann. - Sim. Você está lidando com um poder que assemelha-se a explosão que é capaz de desintegrar átomos. Não é algo fácil de lidar, não é mesmo?

- Aí garota, arrasou! - Lily exclamou divertida, dando tapinhas nas costas de Selene que praticamente fez a garota tombar pra frente diante da força empregada. - Bem, diante do que estamos sabendo já temos idéia então do que está acontecendo. - as outras deram acenos positivos de cabeça rapidamente compreendendo a situação porém Marjorie, como sempre, fez uma expressão confusa seguida por um olhar parecido no rosto de Serena. A princesa mais velha também tinha seus momentos de alienação do mesmo modo que Vésper tinha de brilhantismo.

- Se a fonte de energia daquelas coisas é a zaphira, isso só significa que eles vieram de Zathar. Uma coisa daquele tamanho deve necessitar de bastante material e a zaphira não é algo barato. Então isto só leva a crer que esses bichos estão a serviço daqueles que invadiram o planeta e isto só pode dizer uma coisa... - Bastet elucidou aquelas perdidas no assunto.

- Que eles vieram atrás da família real e que colocou o nosso planeta em risco. - Lily respondeu contrariada, socando um punho fechado na palma da mão aberta. - Pior que não ouviremos o fim da história quando contarmos isso para as outras sailors. - reclamou, pensando que agora além de todas as guardiãs ficarem de alerta, que o principal assunto dos jantares em família das meninas seria como as mulheres mais velhas estavam certas em desconfiar dos refugiados e que a rainha precisava pensar mais com a cabeça e menos com o coração.

- Espera aí! - Serena interrompeu. - Não temos certeza se essas coisas realmente vieram de Zathar e se estão atrás de Aldric...

- Aldric é? - Marjorie cortou com um sorriso malicioso, sendo prontamente imitada pelas outras. - Já estão a base do primeiro nome? O que aconteceu com o Matt? - Serena corou diante da insinuação mas rapidamente recuperou a compostura.

- A questão é que não podemos lançar acusações e colocar inocentes sob a lâmina da espada simplesmente porque uma das pistas leva a Zathar. - esclareceu e as outras assentiram em concordância. Era um tiro no escuro, mas ao mesmo tempo era coincidência demais. E, então, as palavras de Hans voltaram naquele momento a mente de Selene: "Espera que aquela coisa desista sozinha e vá embora? Pois vou avisando, esse bicho não vai desistir até conseguir o que quer." Palavras assim eram de pessoas que tinham conhecimento de causa. Hans sabia o que era aquela coisa e sabia seus pontos fortes e fracos. Estreitou os olhos, franzindo a testa e voltou sua atenção para as outras senshis que ainda discutiam a viabilidade de dar o alerta ou não as guardiãs veteranas.

- Eu resolvo isso. - interrompeu, calando as outras adolescentes que viraram-se em um movimento só para encará-la.

- Como? - Serena fez uma expressão descrente.

- Basta procurar na fonte. - deu meia volta sobre os calcanhares pronta para sair da sala.

- Que fonte?! - Arcádia gritou mas já era tarde, Selene havia partido como um sopro de vento.

Os passos de Estelar ecoaram ruidosamente nas paredes dos corredores do castelo enquanto ela subia as escadas que levavam para a ala em que ficavam os aposentos de dormir. Rapidamente ela seguiu ao longo do caminho acarpetado e adornado por pinturas, vasos e outros móveis de decoração e num piscar de olhos encontrou-se em frente a porta que abrigava os zatharianos. Sem ao menos bater a jovem escancarou a madeira, assustando os três ocupantes do quarto e seu olhar azulado vagou pela aposento até se fixar na figura imponente de Hans.

- Podemos ajudá-la? - Eileen perguntou com a mão sobre o peito diante do susto e com os olhos cravados na menina. As únicas sailors que tinha visto foram aquelas que a escoltaram até o castelo e esta parecia ser muito mais nova que as outra mulheres. Além de absurdamente familiar.

Selene sorriu um sorriso falsamente doce para a mulher e com uma postura mais elegante e menos afobada caminhou até ela, fazendo uma breve reverência a dama e depois cruzando os braços as costas, virando-se levemente sobre as pontas dos pés para encarar príncipe Aldric, dando a ele o mesmo sorriso doce. Rapidamente a expressão dela ficou mais dura e séria quando ela virou-se mais uma vez sobre as pontas dos pés para encarar Hans e os braços cruzados as suas costas agora enlaçavam-se sobre o laço no peito.

- Claro que podem! - disse em um tom irritantemente alegre mas seu rosto permanecia impassível. - Poderiam começando a me explicar - e nisso ela deu dois largos passos a frente, espalmando as mãos no peito largo de Hans e o empurrando com força contra o sofá da ante sala do aposento, o fazendo cair sobre o mesmo desajeitamente. - como é que sofremos dois ataques seguidos desde que vocês chegaram aqui? - seu olhar pousou sobre Eileen que ficou mais pálida do que já era e Aldric que desviou o olhar para não encará-la. - Então? - finalizou, encarando Hans abertamente e que parecia ser o único não abalado com a acusação.

- Não compreendo. - disse o guarda, cruzando os braços e seu rosto não transpassando nada do que realmente sentia ou pensava. Atrás de Estelar, Eileen e Aldric lançaram olhares preocupados para ele. Mentir para uma sailor poderia não ser boa idéia, sabe-se lá quais poderes ela possuía, um deles podia ser dectetar mentiras de uma maneira ou de outra.

- Se você não compreende... - novamente soltou no irritante tom alegre. Selene compreendia pouco de suas atitudes e tinha que confessar que não entedia porque estava tão irritada. Será que era diante da probabilidade de Hans ter mentido para ela quando começava a sentir algo mais por ele?

Algo MAIS? Sua mente gritou em volumes assustadores. Como assim algo mais? Não sentia nada por aquele homem misterioso e tão arrogante e que, provavelmente, sabia melhor do que ninguém o motivo dos ataques a Terra o que o tornava parcialmente responsável pelos mesmos.

- Talvez Lady Eileen possa me esclarecer essa dúvida. - falou, aproximando-se da mulher de maneira predatória. Primeira lição que aprendera com Haruka em lídar com um possível adversário: sempre atinja o elo mais fraco e Eileen tinha se mostrado, diante das suas reações, no presente momento, este elo fraco.

A mulher abriu a boca para falar mas gaguejou um pouco. Não tinha medo de Estelar, pois no fundo sabia que a senshi não lhe faria mal. Seu problema era a vergonha que sentia pela jovem estar descobrindo os segredos deles e podia ver nos olhos azuis da guerreira as acusações e o desapontamento. Não gostava de mentir, fora educada para ser uma dama que sempre soubesse lidar com as palavras e com as pessoas sem precisar usar de manipulação. Não tinha coração para usar os outros para o que bem entendesse e por isso sentia-se incomodada diante dos planos de Hans, mas não podia fazer muita coisa para demovê-lo de suas idéias. Era apenas uma nobre, mãe do príncipe herdeiro e isso não era o suficiente para lhe dar autoridade sobre o guarda. Aldric poderia ter alguma força sobre o homem, mas este era independente e teimoso, sem contar que seu filho o respeitava demais para contrariar as suas idéias.

- Creio que isso não seja possível minha jovem, pois não tenho idéia do que fala. - disse por fim e recuou um passo quando a morena deu um passo a frente para poder encarar melhor a mulher. A sailor era mais baixa que a zathariana, o que apenas confirmava que a guerreira não deveria passar de uma menina, ou ser geneticamente baixinha, apostava na primeira opção. Seu rosto era arredondado e embora o uniforme de senshi acentuasse de maneira sedutora as suas curvas, as atitudes dela deixavam claro que por detrás da guardiã deveria haver no máximo uma adolescente. A mulher franziu as sobrancelhas. Não queria questionar a sabedoria da Rainha da Terra, mas neste caso ela se perguntava se a mulher estava louca ou levou muita pancada na cabeça diante de tantas batalhas, pois colocar crianças para protegerem o planeta não parecia ser uma estratégia muito inteligente.

- Hum. - Selene fez um biquinho pensativo e repousou as mãos sobre os quadris, rolando os olhos para mirar o teto do quarto. - Sabe o que descobrimos? Que aquelas criaturas são feitas de zaphira. E eu pensei: que lugar melhor do que conseguir um grande suprimento deste elemento para construir um bicho daquele tamanho? E a não ser que o inimigo seja podre de rico, eu desconfio que quem esteja mandando aqueles troços para cá seja a mesma pessoa que invadiu Zathar. Então me corrija se eu estiver errada... mas eu tenho certeza que a minha teoria é perfeita. Então? Qual de vocês quer começar a explicar isto para mim? - rodou novamente os olhos pelo trio e vibrou mentalmente quando viu o príncipe soltar um suspiro desolado.

- Bem... - Aldric começou mas Hans o cortou ferozmente.

- Nem uma palavra Aldric. - falou friamente e Estelar deu um sorriso zombeteiro.

- Vai deixar que um mero guarda fale assim com você príncipe Aldric? - provocou, enfatizando o "mero guarda" e os olhos de Hans adquiriram um tom gélido. O jovem príncipe mirou seu cavaleiro longamente, incerto sobre o que fazer e Selene não deixou de registrar a hesitação. Podia até compreender a relação deles dois, pois deveria ser parecida com aquela que ela tinha com as senshis. Mas havia um porém, as sailors sabiam se colocar em seu lugar quando a princesa dava uma ordem que elas consideravam justas, mas isso raramente acontecia. Primeiro porque as mulheres eram a sua família, segundo porque mesmo sendo uma herdeira, não era indefesa. Era uma guerreira como elas e isso as colocava em pé de igualdade, com ou sem o título de nobreza.

- Creio que Lady Eileen esclareceu todas as suas dúvidas Sailor Estelar. - cortou Hans, colocando-se na frente do príncipe como se para protegê-lo com o seu corpo de qualquer investida da senshi. - Não sabemos nada sobre os ataques. Quando saímos de Zathar foi as pressas e por isso não sabemos quais eram os planos do inimigo, mal sabemos direito o motivo da invasão, como esclarecemos quando chegamos. Então se você não se importa de parar de nos importunar com isso, eu agradeceria. - finalizou em um tom severo e recuou um passo quando a sailor aproximou-se. Estelar tinha uma postura séria, seus braços pendiam ao lado do corpo e os olhos azuis dela estavam cravados no rosto do moreno, como se tentasse ler a sua mente. Rapidamente a jovem parou a poucos centímetros dele e apesar da diferença de estatura o homem tinha que admitir que sentia-se diminuído diante da intensidade do olhar dela. Uma sensação que era extremamente familiar e que há séculos não o acometia.

- Não preciso ter os poderes de Sailor Moon para saber que você mente Lorde Hans'Ark-Ra e que sabe muito mais do que deixa transparecer. - sibilou em um tom ameaçador. - E quando eu descobrir o que está por detrás dessa sua súbita procura por refúgio na Terra... espero que não me desaponte lorde... se não quiser saber o quanto eu posso causar danos. - e com isto virou-se sobre os saltos, saindo do quarto com a mesma pressa com que chegou, bufando entre os dentes por seu plano ter falhado. Certo que não fora a melhor das estratégias, mas ao menos conseguira alguma coisa, por mínima que fosse.

No que a porta do aposento fechou atrás de si a jovem virou-se para ver Sailor Moon parada ao lado do batente, recostada a parede e com os braços cruzados sobre o peito. Os olhos âmbares da adolescente mais velha percorreu o corpo da irmã e pela postura tensa da mesma pôde perceber que a conversa com os zatharianos não fora muito elucidativa.

- E então? - soltou quando o silêncio entre as duas tornou-se desconfortável.

- Eles estão escondendo algo e sabem mais do que deixam transparecer. - a morena soltou um suspiro sofrido. De todas as senshis talvez ela tenha sido a única que não tinha começado essa relação com os refugiados com o pé esquerdo. Como a sua mãe, havia colocado fé nas palavras deles e lhes dado o benefício da dúvida, sem contar que a presença constante de Hans ao seu lado apenas ajudava a nublar seus pensamentos. Franziu as sobrancelhas.

Engraçado, como Selene cada vez que ela aproximava-se do zathariano sentia-se a adolescente que era, com atitudes bobas e apaixonadas por ter a atenção de um homem bonito, um homem mais velho, o que cegava seu julgamento. Como Estelar, seus pensamentos eram claros e precisos, a presença imponente de Hans não a afetava, pelo contrário, a sua personalidade toda mudava quando estava transformada e ao lado dele. Certo que o encontrara como Estelar apenas umas três vezes, mas em todas as vezes ela não sentiu-se embaraçada, ou seu coração não pulava cada vez que os orbes esverdados a encaravam, ou as suas mãos tremiam. Na verdade em todas essas ocasiões ela sentiu-se mais é frustrada com o homem.

- Talvez eu devesse ler a mente deles. - sugeriu Serena e Selene olhou longamente para a irmã, ponderando a idéia. Algo lhe dizia que elas não teriam sucesso. - O que foi? - continuou a princesa ao ver a expressão da outra guerreira.

- Não acho que seja uma boa idéia. São zatharianos, não sabemos como funciona a fisiologia deles. Talvez alguns de nossos poderes não surta efeito com eles. - explicou-se e Moon assentiu com a cabeça, não tirando a razão da outra garota.

- Venha, vamos falar com as outras sobre o que você descobriu, talvez assim consigamos bolar algum plano. - e pegou na mão dela, a levando pelo caminho de volta a sala de conferência.

Enquanto isto dentro o quarto que Selene acabara de deixar, Hans andava de um lado para o outro pensativo, tentando analisar o que tinha acabado de acontecer. Não esperava que as sailors fizessem uma associação tão rápida entre a chegada deles ao planeta e os ataques mas, ao que parecia, ele tinha subestimado as guerreiras. Afinal, pelo que aparentava, havia cérebro por detrás daqueles laços de fitas, golpes coloridos e saias pregueadas. Mas o pior era saber que a pessoa que primordialmente deixava em aberto as suas suspeitas era justamente aquela pela qual eles vieram a Terra.

- Hans. - Aldric segurou no braço do homem o fazendo parar de andar. - Isso não é bom, além do nosso tempo estar se encurtando, agora temos um grupo de senshis na nossa trilha. - falou preocupado e recuou quando foi mirado pelos gélidos olhos do guarda.

- E você estava prestes a abrir a boca e contar tudo. - o repreendeu e não ficou supreso quando Eileen veio em defesa do filho, como sempre.

- Não posso discordar de Aldric neste ponto, Hans, se contarmos a verdade, ou ao menos meia verdade, pode nos ajudar mais do que nos prejudicar. As sailors provaram serem fortes o bastante para derrubar o inimigo...

- Um bando de insetos gigantes não é nada perto da força do verdadeiro inimigo. - ele a lembrou com amargura. Aqueles bichos mutantes eram apenas peões nesse grande jogo, dispensáveis e totalmente fracos, nada perto da verdadeira ameaça. - E mesmo assim, as sailors só conseguiram derrubar aquela coisa por causa de Estelar e nada mais. Então não venha sugerir novamente pedir ajuda se elas já provaram serem incapazes. Sem contar... - nisso ele deu um sorriso macabro para a mulher. - que você acha mesmo que o rei, a rainha e suas preciosas guerreiras irão nos auxiliar quando descobrirem que nossa intenção é destruir o Cristal Estelar? - diante do olhar atemorizado da mulher ele continuou. - Foi o que pensei.

- E qual vai ser o plano então? - Eileen empinou o nariz e o encarou desafiadora.

- Continuarei com o plano inicial, mas pretendo apressar mais as coisas, nosso tempo está se esgotando.

- Plano inicial? - Aldric comentou. - O de seduzir a princesa para conseguir informações sobre a sailor? Será que ainda é válido?

- Sim. Desconfio de quem seja Sailor Estelar, mas preciso de Selene para me aproximar da mesma visto que ela parece não gostar de mim. Então o plano permanece o mesmo.

- Sabe quem é Estelar? - Eileen perguntou surpresa. - Quem? - disse e Hans abriu a boca, soltando a resposta que chocou os outros dois zatharianos.

- Princesa Serena.

Continua...