Capítulo 5
O cenário era diferente de seus outros sonhos. Não havia um grande e belo palácio ao fundo, ou ruas movimentadas e mercado lotado, ou até mesmo o legendário Milênio de Prata ruindo diante dos olhos desesperados de seus guardiões. Na verdade era um vazio imenso, imerso em névoa e escuridão. Mas, mesmo assim, ainda conseguia ver o seu corpo como se ele fosse à única fonte de luz do lugar. E, estranhamente, estava vestida com o seu uniforme de Sailor Estelar. Nunca tivera um sonho na vida em que estivesse transformada, nem mesmo quando se tornou uma guardiã.
O som de passos suaves ecoou na escuridão e um vento frio soprou, afastando um pouco a neblina que pareceu abrir passagem para uma figura que se aproximava. Automaticamente Selene pôs-se em guarda enquanto esperava apreensiva o estranho se aproximar. Mais uma vez a brisa soprou, parecendo revelar a misteriosa figura que vinha em sua direção e parou a poucos metros de distância. E o que viu chocou a garota. Era quase como olhar para um espelho.
A recém chegada tinha longos cabelos negros que eram presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça e, diferente dos seus fios lisos e retos, os dela possuíam largos e brilhantes cachos. Os olhos eram azuis como o planeta Terra visto do espaço, seu rosto era arredondado, a pele levemente morena e as roupas completamente diferentes da que usava. Vestia trajes militares, com direito a ombreiras douradas, peitoral, caneleira, joelheiras e cotoveleiras de mesma cor e aparentando ser de um tipo de material resistente e pesado, como ouro puro. Por baixo da armadura havia uma roupa branca, uma camisa justa que parecia ser feita de cetim, assim como a calça que usava. Uma bota de cano longo até o joelho e igualmente branca finalizava o uniforme. E, para completar, no topo da cabeça havia um arco de formato intricado e curioso e no cinto também dourado estava presa uma longa espada cuja lâmina parecia ser feita de vidro e o punho de ouro cravejado de diamantes e esmeraldas.
Ela era a mesma mulher que vira em seu outro sonho, correndo desesperada na vã tentativa de salvar o príncipe da Terra, lutando contra o Reino Negro, morrendo nos braços de seu amado, tentando impedir um desastre. Essa era Estela, sua predecessora e ex-guardiã do Cristal Estelar.
- Pela sua expressão não preciso me apresentar. - disse a jovem com um ar nobre e voz suave e polida. Toda a postura dela era elegante, a postura de uma princesa, coisa que Selene não sabia ser direito.
- O que faz aqui? O que faz na minha cabeça? - Selene recuou um passo, firme em sua pose de batalha.
- Precisava conversar com você... pessoalmente, mas você ainda não estava pronta. Até descobrir quem eu era, você ainda não estava pronta. - justificou-se e a sailor estreitou os olhos para ela, tantas perguntas ecoando em sua mente, tantas dúvidas que somente essa mulher podia lhe responder. - Sei que tem dúvidas...
- Sabe? Que interessante, por que acha que eu tenho dúvidas? Será que são por causa dos sonhos que vocême mandou? E por que você me mandou esses sonhos? - acusou irritada. Agora que tinha a quem culpar pelas suas noites insones por causa de pesadelos sobre uma vida que não era a sua não iria perder a chance.
- Você precisa estar preparada... preparada para o que está por vir. - explicou-se e Selene soltou um resmungo de escárnio.
- Sinto estourar a sua bolha de felicidade, mas eu não vejo em que ficar sonhando com você dando uns amassos no rei de Zathar vai me ajudar para uma possível batalha. - zombou e Estela apenas riu diante das atitudes infantis dela.
- Nunca disse que era uma batalha. - falou com o sorriso alargando-se em seu belo rosto.
- Então? - Selene relaxou a sua postura, piscando confusa para a mulher. Então se não era para uma batalha, por que dos sonhos?
- Você precisa aprender sobre o passado para assim compreender o que acontecerá no futuro... e assim perceber que existem coisas maiores do que nós neste mundo. E precisa passar este conhecimento adiante.
- Não compreendo. - disse, ficando tonta diante de tantas palavras enigmáticas. Em que saber sobre a relação de Rhian e Estela lhe ajudaria eventualmente no futuro? Em que saber que eles se amaram apesar da diferença de classes, de opiniões, do fato dela ter responsabilidades as quais não podia ignorar em favor de uma paixão que estava apenas fadada a dar errado, iria a ajudar?
- Sacrifícios serão feitos Sailor Estelar, e quando chegar à hora você terá que saber fazer a escolha certa.
- Assim como você fez ao escolher seu príncipe ao amor de sua vida? - alfinetou e viu uma expressão de tristeza passar pelo rosto de Estela.
- Amor é uma palavra de vários significados. Eu amava Rhian, assim como amava Endymion e a minha missão. E, no fim, deixei minha cabeça e insegurança dominarem meu coração e botei tudo a perder...
- E agora que está morta está tentando refazer o seu erro? Bem, se quiser mesmo saber o rei Endymion está vivo e feliz com a rainha dele e esse tal de Rhian, sinto dizer, está morto... Então não posso fazer nada por você, sinto muito. - cruzou os braços sobre o peito de maneira desafiadora e Estela deu mais um sorriso.
- Não é por mim que você vai fazer... é por você. Está na hora do Cristal Estelar retornar ao seu dono Selene e parar de vagar pelo universo, mas para isto acontecer... você tem que escolher. - isso confundiu mais a garota que deu um passo a frente em direção a outra mulher que começou a recuar, afastando-se dela gradativamente e sumindo aos poucos na escuridão e névoa.
- Como assim voltar ao seu dono? O cristal não tem dono! - gritou para a figura que se afastava. - E que escolha? Que escolha eu tenho que fazer?
- Escolher... - Estela disse antes de desaparecer de vez. - Entre sua cabeça e seu coração.
Selene acordou num salto e mirou a sua volta apenas para ver que estava em seu quarto que era iluminado pelos raios que ainda cortavam os céus escurecidos da cidade na tempestade que perdurava desde o dia anterior. Lentamente chutou as cobertas e congelou quando ouviu um resmungo ao seu lado. Virou-se na direção do som apenas para ver uma Diana enroscada em um dos travesseiros da cama, ressonando baixinho contra a almofada. Deu um sorriso. A gatinha real adolescente tinha um quarto, óbvio, mas preferia ficar alternando suas noites de sono entre os aposentos das princesas e às vezes do príncipe quando ele era mais novo. Mania de felinos, vai entender.
Silenciosamente desceu da cama para não despertar a gata e retesou o corpo quando um trovão ecoou sobre a cidade, parecendo querer acordar a todos no meio da madrugada. Seus olhos se voltaram para a felina sobre a cama e viu que esta apenas coçou a orelha inconscientemente com a pata dianteira e voltou a ressonar. Engoliu umas risadinhas e pé ante pé saiu do quarto, fechando a porta quietamente atrás de si.
A passos lentos seguiu pelos corredores do castelo, aprofundando-se ainda mais no palácio até que chegou a área da cozinha e derivados, empurrando a porta do aposento vagarosamente apenas para ver se ainda tinha alguém lá dentro. Quando percebeu que o caminho estava livre, entrou na cozinha e caminhou decidida até a geladeira, escancarando a porta da mesma e deixando a luz do aparelho preencher o local.
- Não acha que está um pouco tarde para comer? - a voz ressoou pelo aposento e a garota bateu a porta com força, virando-se bruscamente e recostando-se contra a máquina, tentando divisar nas sombras a pessoa que tinha falado. Um vulto mexeu-se sobre um dos balcões da cozinha e deu um passo à frente, permitindo que a luz exterior do pátio do palácio iluminasse seu rosto apenas para revelar-se ser Hans. Selene soltou um suspiro aliviado e rolou os olhos, voltando para a geladeira e reabrindo a sua porta. Será que a sua sina seria a de sempre encontrar o homem nos lugares mais inusitados? Se não soubesse melhor diria que o sujeito a estava seguindo.
- Quem pediu a sua opinião? - respondeu petulante, batendo novamente a porta do aparelho ao trazer um pote de doce nas mãos e recostando-se na enorme bancada que havia ao longo da parede sob a avaliação intensa do homem que parecia estar ponderando algo profundamente.
Desde o acidente os dois não se falavam direito e o curativo que antes adornava a cabeça dele agora tinha sido retirado, mas ainda sim se podia ver entre os fios esbranquiçados a vermelhidão do local onde havia o corte. Quanto ao seu braço, o ferimento havia cicatrizado em meras 24 horas, mas nos últimos três dias ela andara com uma blusa de manga comprida somente por precaução e para não levantar as suspeitas do homem.
- Engraçado, dias atrás você não era tão arisca. - comentou Hans divertido e cruzando os braços sobre o peito. - O que mudou? - perguntou com interesse. Não conseguiria se aproximar da princesa se a mesma agora parecia imune a ele. Selene abriu a boca para responder, mas a fechou em um estalo, lançando um breve olhar pela janela enquanto franzia as sobrancelhas. Alguma coisa estava errada, podia sentir, apenas não sabia dizer o quê. Contudo, a resposta veio quando um bipar ecoou dentro da silenciosa cozinha.
Em um salto ela desceu da bancada, lançando um olhar incerto a Hans que a mirava com intensidade e com uma expressão curiosa para saber de onde vinha tal barulho. Com um sorriso sem graça ela deu as costas para o homem e abriu a porta da geladeira novamente, guardando o pote no lugar que pegou. Sentiu que algo se mexeu atrás de si e quase soltou um grito alarmado quando uma mão grande foi espalmada contra o aparelho, o fechando e a prendendo entre o corpo quente do zathariano e a máquina fria.
- Será que o acidente afetou as suas idéias? - sussurrou o homem perto da orelha da jovem, lhe causando vários arrepios. - Ou foi outra coisa? - provocou matreiro e Selene engoliu em seco, suprimindo uma vontade vergonhosa de soltar um pequeno gemido ao mesmo tempo em que sua pele toda parecia queimar com a proximidade do guarda. Seu cérebro parecia ter pedido férias no momento que sentiu o peito largo dele roçar contra as suas costas e um braço envolver sem licença a sua cintura, mas quando sua mente estava prestes a por um pé dentro do limbo, o apitar do seu comunicador a trouxa de volta ao mundo real.
- Eu tenho que ir! - disse com uma voz esganiçada, conseguindo desvencilhar-se dele e saindo correndo da cozinha, deixando para trás um Hans com um sorriso vitorioso no rosto.
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O fogo crepitava e suas chamas eram refletidas pelos olhos escuros da jovem que se ajoelhava e frente à mesma com a posição usual de quem estava prestes a meditar enquanto as roupas impecáveis de sacerdotisa adornavam o seu corpo. Os longos cabelos negros estavam presos com uma fita branca na altura da nuca e as mãos juntas em prece complementavam o quadro. Silenciosamente a porta da sala abriu-se e a figura de uma mulher mais velha adentrou do aposento. Usava roupas parecidas com as da menina, mas a aura de poder que a envolvia era muito maior.
Rei ajoelhou-se ao lado da filha e ficou a olhando seriamente por longos segundos antes de a adolescente tremular as sobrancelhas e virar-se para encarar a mãe que a observava com uma expressão fechada. Soltou um suspiro desolado e relaxou na postura.
- O que foi? - perguntou irritada e Rei jogou os cabelos escuros sobre o ombro.
- Você não está se concentrando o suficiente. Não espera que o fogo lhe diga alguma coisa se está com a metade da cabeça aqui e a outra metade na lua. - a repreendeu e Bastet soltou um bufo entre dentes. Este discurso não lhe era estranho e já o ouvira várias vezes, então não precisava que a mãe ficasse repetindo isto.
O problema era que ela não conseguia.
Não via graça em ficar sentada por horas em frente a aquelas chamas tentando tirar alguma coisa delas. No inverno até que poderia ser interessante, a sala era quentinha, mas no verão era o inferno. E não havia concentração que perdurasse quando o suor estava escorrendo pelas suas costas e fazendo as roupas pesadas grudarem em sua pele melada.
- Mãe! - Bastet choramingou. Rei Hino exigia dos filhos ao menos cinco horas de prática diária nas tarefas do templo, e duas dessas cinco horas envolvia leitura do fogo. A jovem simplesmente não conseguia ficar parada por tanto tempo, era fisicamente impossível. A garota tinha o que Ami havia classificado quando a morena era criança de hiper-atividade. Rei ao ouvir o diagnóstico do por que a sua filha ser tão dispersa e nunca concentrar-se em uma coisa só por mais de vinte minutos, quase teve um treco. Ela esperava um problema desses nas filhas de Serena, que afinal estavam mais do que pré-dispostas a herdarem a cabeça de vento da mãe, e não em uma cria sua.
- Não Bastet! - a repreendeu longamente. Quando criança a menina era pior do que era agora e foi somente os longos treinamentos que envolvia sessões de meditação e relaxamento que aumentou a concentração da garota e a acalmou um pouco. - Seu pai e eu não viveremos para sempre e você e seu irmão precisam aprender a administrar este templo. - disse com a voz firme. Quem ouvisse pensaria que a mulher estava impondo um futuro pré-programado aos filhos, mas era completamente diferente.
Brenton e Bastet tinham a liberdade de serem o que desejassem se não quisessem seguir esta tradição de família, entretanto os dois gostavam. Podia ver nos olhos deles, mesmo sob muitos resmungos e pedidos de folga dos treinamentos, o prazer que eles sentiam ao aprender a controlar um poder novo, adquirir uma nova habilidade que os diferenciava das outras crianças de sua idade. Do respeito que eles recebiam das pessoas que visitavam o templo e de como as crianças os olhavam admiradas ao encontrarem duas criaturas tão poderosas. Sem contar que a paz interior que você obtinha neste tipo de "profissão" era recompensa mais do que suficiente para qualquer esforço.
- Mas mãe... - a menina abriu a boca para protestar novamente quando uma sensação que estava aos poucos se tornando familiar apoderou-se de seu corpo. A sua reação foi mais lenta que a de Rei que num pulo estava de pé e caminhando até a saída da sala, abrindo a porta corrediça em um estalo e mirando com as sobrancelhas franzidas a cidade ao longe.
Bastet rapidamente acompanhou a mãe e parou sob o batente da porta apenas para ver ao longe, sobre Tóquio de Cristal, as nuvens negras de chuva começarem a formar um roda moinho que estava prestes a transformar-se em um tornado.
- Desde quando há tornados nesta cidade? - indagou a menina bestamente. O rei da Terra vivia na cidade e por isso fora as ocasionais chuvas e tempestades de neve, Tóquio e o restante do Japão não sofriam com as usuais catástrofes naturais como antigamente. Ao menos nesse caso Endymion abria uma exceção sobre controlar a mãe natureza. Dizia que a cidade já sofrera muito no passado com ataques e precisava de uma folga, mesmo que fosse do próprio planeta.
As nuvens que começavam a rodar cada vez mais rápido no céu pareciam estar formando um ataque improvisado justamente em cima da torre mais alta do palácio e antes que Bastet pudesse abrir a boca para expressar qualquer pensamento, um flash de luz vermelha a cegou por alguns instantes e um segundo depois, parada ao seu lado, estava Sailor Marte. Ow, ela é boa, pensou a garota diante do tempo de reação da mãe ante a um propenso ataque.
- O que você está esperando?! - vociferou Marte para a menina que piscou os olhos, a mirando confusa por instantes, antes de finalmente seu cérebro parecer ligar e num flash de luz vermelha e alaranjada a garota cedeu lugar para seu alter ego: Sailor Phobos. Em passos apressados as duas mulheres saíram dos domínios do templo em direção ao castelo onde as nuvens negras rodavam cada vez mais rápidas e os ventos começavam a tocar o solo.
Dentro do palácio, a rainha Serenity abriu os olhos num estalo e sentou-se na cama num pulo, saindo de sob as cobertas apressadamente. Na grande janela que dava vista para a cidade estava Endymion que observava o estranho fenômeno com uma expressão fechada no belo rosto, mal notando a chegada da esposa ao seu lado, mas virando a cabeça para encará-la quando esta segurou em sua mão firmemente.
- Darien, não é você... - a pergunta ficou vagando no ar. Não era a primeira vez que Darien extravasava seu humor através do clima. Uma vez, quando ele estava particularmente irritado por causa de um problema político, causou uma ressaca nas praias de metade do litoral do Japão, China e Austrália e precisou de muita persuasão da rainha para acalmar o seu rei enfurecido. Entretanto, a mulher não conseguia puxar pela memória qualquer incidente recente que pudesse ter causado a fúria do homem para explicar tal situação atual.
- Não. - respondeu o moreno com a expressão ficando ainda mais fechada. - Algo grande está por vir, sinto isso, então se prepare. - alertou e num piscar de olhos suas roupas de dormir deram lugar as tradicionais vestes militares que costumava usar no passado, na época do Milênio de Prata. A rainha também trocara sua longa camisola de seda pelo usual vestido de camadas e com bordados em dourados no peito e erguia o cristal de prata em uma das mãos em antecipação, convocando o escudo de proteção do castelo quando o primeiro tornado atingiu o pátio do palácio.
Em outra parte do castelo, Selene corria as pressas pelos largos corredores, sua atenção fixada no pequeno comunicador em suas mãos e no rosto da irmã que parecia aflita com alguma coisa.
- O que foi? - perguntou a princesa mais nova com as sobrancelhas franzidas. Se Serena a estava contatando pelo comunicador das sailors, isso queria dizer que ela não estava em casa, e se não estava em casa, onde diabos a garota estava?
- Eu senti uma vibração estranha e estou ligando para saber se está tudo bem. - falou a jovem que tinha uma expressão extremamente alerta no rosto para alguém que supostamente acordou no meio da madrugada ao sentir uma "vibração estranha". As sobrancelhas de Selene ficaram ainda mais curvadas.
A tal vibração com certeza foi o sexto sentido de Serena a alertando que a família real estava em perigo, ou melhor: a alertando que Selene e Endie corriam em perigo, pois isto era algo que os três irmãos compartilhavam e ninguém conseguia entender. Os três herdeiros da Terra tinham uma ligação que era capaz de às vezes dizer o que o outro estava sentindo e se estava ferido ou não. Algumas vezes isso poderia ser irritante, outras vezes era bem útil, como agora quando a morena parou de supetão ao sentir o chão do castelo tremer.
- Aparentemente estamos sob ataque querida irmãzinha. - avisou em um tom mal humorado. - Então se você fizesse o favor de aparecer, eu seria grata. - encerrou a chamada antes que Serena pudesse dizer alguma coisa e apressadamente subiu as escadas que levavam a ala do castelo reservada aos aposentos de dormir. Num estrondo entrou no quarto do príncipe, o encontrando sentado e alerta na cama, abraçando um travesseiro contra o peito e com os olhos azuis largos e transparecendo temor. Rapidamente correu até a cama do garoto, o abraçando fortemente e Endie envolveu a irmã pela cintura rapidamente e escondeu o rosto no ombro dela.
Em um flash de luz dourada, a princesa cedeu lugar a Sailor Estelar e esta se ergueu da cama com o menino no colo, fincando os saltos das botas no chão quando outro tremor assolou o castelo e Endie soltou um gemido de pavor diante do que acontecia. Ficou com pena do garoto. Endymion podia ter a sua cota de poderes que se assemelhavam extremamente com as habilidades do pai deles de manipular a natureza terrestre, mas ele ainda não sabia controlá-los o suficiente para proteger-se sozinho. E, além do mais, o menino ainda era uma criança e como tal reagia da mesma maneira que todas as crianças de sua idade diante de um propenso ataque: com medo.
- Alteza! - um grito veio da porta e Diana em sua forma humana entrou deslizando no quarto. A gatinha podia farejar pavor no ar e sabia que geralmente este sentimento vinha do pequeno príncipe.
- Venha! - Estelar ordenou e saiu do quarto do menino com a gata em seu encalço, apenas para encontrar no corredor Eileen e Aldric com uma expressão aturdida nos rostos pálidos.
- O que está acontecendo? - Eileen perguntou confusa e com uma postura tensa e Estelar a avaliou de cima a baixo. Da outra vez que encontrara a mulher em sua forma sailor estava ocupada demais discutindo com Hans para dar qualquer atenção extra a zathariana, mas agora que a observava melhor podia sentir que ela tinha um grande poder emanando de sua pessoa. O mesmo valia para o príncipe Aldric. Não se surpreendia diante desta descoberta. Zathar era movido à magia e como família real era normal eles serem poderosos e, com certeza, treinados para se defenderem de qualquer imprevisto.
- Preciso que vocês me façam um favor. - disse em uma voz autoritária e os dois visitantes assumiram uma postura séria, com certeza reconhecendo no tom dela a gravidade da situação. - Vocês com certeza devem saber se defender, estou certa? - afirmava mais do que perguntava e ambos assentiram com a cabeça como se temessem de dizer um não para a guerreira e sofrer as conseqüências do desagrado da garota. - Preciso que cuidem do príncipe Endymion para mim. - pediu e o mencionado príncipe manifestou-se, erguendo o rosto do ombro da sailor e mirando os dois zatharianos.
- Não! - disse o menino apavorado. Não queria largar da irmã, Selene iria protegê-lo, sabia disso, e queria ficar perto dela para protegê-la se alguma coisa desse errado. Não queria sentir novamente aquela dor no peito que sentiu meses atrás quando a sua irmã desapareceu no tempo indo atrás de um bandido que tinha atacado a cidade. - Eu quero ficar com você! Eu quero! - falou petulante, fechando os braços com mais força em volta do pescoço da senshi e essa suspirou, abaixando-se e ajoelhando-se no chão e colocando o menino sobre os próprios pés, com esse ainda agarrado na sua nuca.
- Endymion. - começou em um tom suave, fazendo-o se afastar para poder mirar nos olhos límpidos dele. - Eu não posso proteger a cidade sabendo que você não está seguro, não é mesmo? E eu não gosto da idéia de você não estar seguro. - disse em um tom afetuoso, acariciando os cabelos castanhos dele.
- Eu estarei seguro! Com você eu estarei seguro! - gritou, segurando na mão enluvada dela e tentando puxá-la na direção do quarto, mas Estelar permaneceu imóvel. Selene suspirou e por um momento pensou em ceder à expressão suplicante do irmão, mas quando um estrondo e mais um tremor assolou o castelo, ela pareceu voltar ao mundo terreno e trocou um longo olhar com Diana, erguendo-se decidida e empurrando o menino pelos ombros em direção a garota.
- Leve-os para o abrigo do castelo Diana. - ordenou, indicando com a cabeça que Eileen e Aldric também deveriam ser levados. - Quando eu voltar se ele tiver um arranhão... - continuou para os dois zatharianos, apontando levemente na direção do príncipe. - eu arranco a cabeça de vocês. - ameaçou e com um beijo estalado na testa do menino, saiu correndo em direção a saída do palácio. Diana soltou uma risada sem graça diante da frase de despedida de Sailor Estelar e virou-se para encarar os dois soberanos.
- Ela é... super protetora, não liguem. - avisou e com um gesto rápido segurou firmemente na mão do príncipe e com outro guiou os visitantes para o abrigo anti-ataques que ficava nas profundezas do castelo e que, quando eles chegaram, já estava praticamente cheio com os funcionários do palácio que aguardavam em expectativa o desfecho de mais aquele embate.
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Phobos e Marte foram as primeiras a chegarem ao palácio e pararam aturdidas diante do que viam. Cada vez que um tornado descia dos céus como uma nuvem negra de poeira girando em cone e atingia o chão, sumindo segundos depois, deixava em seu lugar criaturas que pareciam uma versão horrenda de zumbis saídos de filmes de terror de terceira categoria.
Bastet soltou um grito enojado ao vê-los. Eles eram pálidos, com os olhos contendo apenas os globos brancos, as roupas eram apenas trapos envoltos em mofo e sujeira e a pele de seus corpos ainda estava em estado de decomposição. Obviamente, diferente dos filmes de terror, eles não andavam em passos duros e com os braços esticados em frente ao corpo, mas a expressão vazia e a atitude de alguém que não possuía mais nenhum pensamento racional estava lá.
- Fogo de Marte! - o grito assustou a menina, a tirando de sua silenciosa contemplação, e o jato de fogo cruzou o espaço entre elas e a primeira fileira de zumbis, os acertando em cheio. As criaturas cambalearam diante do ataque, muitas pegaram fogo, mas, mesmo em chamas, continuaram andando em direção a elas a passos desengonçados.
- Explosão de Phobos! - Bastet soltou seu golpe. Os poderes de Marte, ainda mais o último golpe, tudo o que faziam era queimar na esperança que isso fosse o suficiente, como um maçarico aceso bem em cima do inimigo. O de Phobos pelo contrário explodia, como uma bomba jogada sobre o inimigo, e isso foi o suficiente para desintegrar os zumbis flamejantes.
- Oh não! - gritou Rei ao ver que parte da frota daquelas criaturas estavam tomando o rumo da entrada do palácio. Sabia que as barreiras de Serenity impediam qualquer ataque, mas será que reconheceriam uma ameaça vinda de coisas mortas? - Você fica aqui cuidando deles e eu... - calou-se quando viu que num salto os zumbis colaram-se as paredes de cristal do castelo e as subia como aranhas disformes e maltrapilhas.
- Mas o que eles estão fazendo? - gritou Phobos ao presenciar a visão bizarra daquelas coisas encontrando brechas para invadirem o palácio nas mais mínimas aberturas, desde pequenas janelas a grandes varandas.
- Flecha Flamejante de Marte! - disparou Rei, acertando alguns e os derrubando no chão. - Vamos! - ordenou a filha, correndo em direção ao castelo, mas brecando sobre os saltos quando outro tornado desceu dos céus bem em frente às duas guerreiras. Como antes, a nuvem negra de poeira e vento dissipou-se, mas, em vez de outra leva de zumbis, o que surgiu em frente a elas foi uma mulher. Uma bela e estonteante mulher.
Ela tinha longos cabelos dourados e pele azulada, membros longos e elegantes e usava um vestido esvoaçante e quase transparente. Seus lábios eram cheios e vermelhos, seus olhos como duas íris alarajandas de gato e seu rosto era bem formado e com uma expressão serena. E então, ela sorriu e abriu a boca. Marte e Phobos colocaram-se em posição de combate, esperando o ataque, mas o que receberam foi uma bela canção saída dos lábios da estranha.
Perto da saída do castelo, Estelar parou quando ouviu uma estranha canção soar ao longe e virou o rosto para todos os lados a procura da origem da música. Soltou um som estrangulado do fundo da garganta quando viu entrar por um dos largos vitrais no alto do corredor um grupo de coisas estranhas que caíram num baque abafado sobre o caro carpete que forrava o chão azulejado. Recuou um passo quando os zumbis começaram a vir em sua direção e fez um gesto largo com a mão esquerda no ar e seu cetro apareceu em um piscar de olhos.
- Tempestade Estelar! - soltou sem hesitação, explodindo alguns dos zumbis e fazendo uma careta quando viu seu golpe deixar várias marcas de queimado na parede atrás de onde estavam as criaturas. Assim que a fumaça abaixou, sua atenção voltou-se para a música que ouvia ao longe e somente agora ela pôde perceber que a mesma... Era linda.
A melodia era inebriante e parecia acalmar sua alma e esvaziar a sua mente. O som que entrava pelos seus ouvidos e era registrado pelo seu cérebro afastava todo e qualquer pensamento coerente além de relaxar todos os músculos de seu corpo como se estivesse prestes a entrar em transe, a um ponto de alcançar o nirvana. Um sorriso bobo surgiu em seu rosto e seus dedos moles soltaram o cetro que caiu com um tilintar de metal no chão. Aquela canção era tão, tão linda que ela tinha que saber de onde vinha, quem era o ser magnífico que a cantava.
Sem pensar, seus pés começaram a guiá-la em direção as grandes portas principais do palácio, ignorando a horda de zumbis que invadia o castelo. O sorriso ainda estava em seu rosto e suas mãos ergueram-se com vontade própria para a maçaneta da porta quando alguém a segurou com força pela cintura.
- NÃO! - gritou como uma criança que tinha sido desprovida de seu brinquedo favorito. - Me solta, me solta! - debateu-se quando foi erguida do chão e seu corpo desobediente jogado sobre um ombro largo. - ME SOLTA! - gritou mais alto ainda, socando com os punhos fechados as costas da pessoa que a segurava.
- Estelar! - uma voz grossa soou dentro de seu cérebro enevoado pela canção e lá no fundo ela vagamente reconheceu a pessoa, mas a lembrança rapidamente a escapou.
Por seu lado, Hans lutava com todas as forças para manter a senshi presa em seu ombro, mas esta se debatia violentamente e o socava com força nas costas que, com certeza, no dia seguinte teria grandes manchas roxas. Rodou sobre os pés pronto para voltar para dentro do castelo, para bem longe daquela música, quando seu caminho foi bloqueado por um bando de criaturas estranhas. O corpo em seu ombro ainda remexia-se com força e gritava em seus ouvidos sensíveis e, frustrado, o homem colocou a guerreira sobre os pés, a segurando por um braço e ergueu a outra mão em direção a cabeça dela.
- Me desculpe por isso. - falou enquanto percorria a palma da mão sobre os olhos azuis da senshi. - Durma. - ordenou e num piscar de olhos a jovem caiu adormecida nos braços do zathariano que novamente a jogou sobre os ombros e voltou sua atenção para os zumbis que bloqueavam seu caminho apenas para sentir sua respiração entalar na garganta.
Aquelas coisas paradas na frente dele e com expressões vazias eram zatharianos. Zatharianos que foram mortos na invasão do planeta.
Sentiu seu peito comprimir com pesar quando divisou nas primeiras fileiras das criaturas o General Tarik-Zhor da Casa de Roan, um dos homens com quem serviu em várias batalhas e que fora seu mentor quando jovem. O primeiro que caíra em combate quando Zathar foi subjugada. Sentiu seu sangue correr apressado em suas veias, queimando por onde passava. Diziam que zatharianos tinham sangue frio e que por isso eram frios e isso explicava o motivo de conseguirem viver em um planeta com um clima extremamente adverso. Mas, no momento, Hans sentia-se pegando fogo. Como aqueles malditos tiveram a coragem de denegrir um homem como o General Tarik? Isto era uma desonra tamanha e não iria jamais perdoar aqueles que fizeram isso com o homem.
- Perdão velho amigo. - pediu em um tom de prece e ergueu a mão livre para o alto, fazendo um pequeno movimento circular com ela e um som de sucção ecoou no corredor. Estalos foram-se ouvidos como se uma corrente elétrica invisível estivesse brotando no ar e se juntado para formar uma bola de energia azulada que pairava acima da palma aberta do homem. - Que os Grandes Deuses me perdoem. - disse e disparou o ataque contra os zatharianos, sentindo seu coração parar por um breve momento ao ver os corpos sendo consumidos em frias chamas azuis gelo até desintegrarem-se por completo.
Com uma última prece silenciosa aos Deuses pelas almas de seus conterrâneos, Hans partiu castelo adentro ainda carregando nos ombros uma Estelar adormecida, procurando um local longe o suficiente para que a música que inebriara a mulher não fosse ouvida pela mesma quando esta acordasse. E esperava que ela não o matasse quando acordasse.
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Júpiter e Vênus chegaram à cena de batalha apenas para presenciarem um acontecimento estranho. Zumbis ainda subiam pelas paredes do castelo que agora parecia sem defesa alguma e eram acompanhados por versões menores dos insetos que atacaram a cidade dias atrás. Marte e Phobos estavam paradas no meio do pátio de entrada do palácio sem moverem um músculo e pareciam em transe, observando ao longe uma mulher extremamente exótica que parecia cantar uma canção desconhecida que ao mesmo tempo deixava as duas sailors com expressões abobalhadas nos rostos e incitava os zumbis a atacarem com mais violências as guerreias imóveis e que não erguiam um dedo para se defenderem.
- Beijo de Beleza e Amor de Vênus! - gritou Mina e seu ataque cortou o ar, retirando um grupo de zumbis de sobre as duas sailors e correndo em direção a elas duas para socorrê-las.
- Espera Vênus! - Litha chamou, ainda tentando pará-la, mas foi tarde demais, quando a loira chegou perto o suficiente para discernir melhor à canção, ela rapidamente entrou no mesmo estado que as outras duas. Júpiter hesitou, não sabendo direito o que fazer. De onde estava ainda podia ouvir a música fracamente e esta já inebriava os seus sentidos levemente, mas não a colocava em transe como as outras sailors, mas sabia que se chegasse perto da mulher, acabaria como as outras.
- Hei! - alguém a chamou e a sailor dos raios virou-se para ver um olhar preocupado nos belos orbes dourados do marido. O fato de ele estar no campo de batalha com ela não era estranho, visto que o homem a tinha surpreendido mais cedo no restaurante enquanto Mina e ela fechavam o caixa e cuidavam do inventário do estabelecimento.
Às vezes as duas mulheres costumavam perder a noção do tempo depois do expediente ao deixarem tudo preparado para o movimento do dia seguinte e, por isso, seus maridos sentiam-se na obrigação de irem arrancar a força suas esposas super trabalhadoras do restaurante e as forçarem a relaxar. Principalmente o seu marido, cujo tempo na terra era curto e ele gostava de aproveitar o máximo a presença da companheira enquanto podia.
- Alguém pode explicar o que aconteceu com a minha mulher? - Hideki apontou para uma Vênus ao lado de Phobos e Marte e sentiu seu coração dar um pulo ao ver a mulher sendo impiedosamente atacada. Deu um passo à frente pronto para socorrê-la, mas a mão de Júpiter em seu ombro o parou.
- Não! Aquela coisa lá a está controlando... - a senshi apontou para a criatura azulada ao longe que mexia a boca como se estivesse dizendo algo e sacudiu a cabeça para espantar os efeitos da canção da mulher em sua mente. - com algum tipo de música hipnótica. - finalizou e os dois homens ao seu lado piscaram os olhos confusos.
- Música? Que música? - Eckhard mirou a esposa como se ela estivesse louca e os olhos verdes da mulher o encararam em surpresa.
- Você não está ouvindo? - será que o fato dele ser um elfo permitia que ele não fosse afetado pela canção?
- Eu também não ouço nada. - completou Hideki e Litha o olhou surpresa. Ou talvez o fato deles serem homens os protegia dos efeitos da música. Que estranho, se aquela criatura estava hipnotizando as sailors com música, isto a faria quase como uma sereia e pelas lendas sereias hipnotizavam homens, não mulheres, Júpiter racionalizou.
- Certo... - um outro ataque dos zumbis fez Phobos cair de joelhos e a sailor pensou em ir ajudá-la, mas Eckhard a parou.
- Chame Mercúrio, precisamos saber como parar essa coisa. Aproveite e chame Daiki também, e Nicolas... Brenton também, o poder de fogo dele pode ser extremamente útil. Se aquela coisa não nos afeta, melhor cuidarmos disso. Você fica aqui. - aconselhou à esposa que só pôde concordar com a cabeça. Eles seriam as melhores opções agora do que um bando de senshi em transe. - Hideki, eu vou abrir caminho pra você entrar no castelo. Se as sailors estão assim, não quero nem imaginar as princesas... Ou pior, a rainha. - Hideki fez uma careta e concordou, acompanhando Eckhard que começava a derrubar os zumbis, dando chance a ele de seguir para o palácio.
No castelo, neste exato momento, a situação também não era das melhores. Endymion sacudia Serenity pelos ombros, tentando acordá-la do transe que ela pareceu ter caído e vez ou outra, entre suas tentativas frustradas de despertá-la, ele erguia sua espada e atingia com força um zumbi que entrava aos saltos pelas grandes janelas do quarto, intercalando os golpes com a arma com golpes de energia e voltando-se segundos depois para a esposa.
- Serena? Serena! - a sacudiu com mais força, mas o sorriso bobo ainda estava no rosto da soberana e os dedos moles dela se abriram, soltando o cristal de prata que caiu lentamente no tapete e rolou para baixo da grande cômoda ao canto do aposento. Outra horda de zumbis adentrou o quarto e Endymion virou-se bruscamente, invocando uma enorme bola de energia que atingiu o adversário em cheio, os lançando contra as janelas e estourando seus vidros, explodindo as criaturas a poucos metros de distância do balcão e em pleno ar. Com um gesto de mão o homem convocou o cristal esquecido que saiu de sob o móvel num disparo e veio até a sua mão, o guardando em um bolso do casaco. Com outro ele começou a puxar a esposa para fora do quarto.
Sem as defesas de Serenity no palácio este estava vulnerável ao inimigo e com a rainha sem controle de seus poderes, ela também ficava a mercê do desconhecido oponente. Logo, no momento, a melhor saída era abrigá-la com os outros enquanto ele descobria o que fazer. E, com isso, o homem foi a passos mais que depressa para o abrigo do palácio arrastando uma Serenity relutante atrás de si.
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Estelar sentiu como se um balde de gelo derretido tivesse sido jogado sobre o seu corpo o que a fez acordar num pulo e sentar-se rapidamente, tentando afastar a água fria inexistente e vendo, com surpresa, que seu uniforme de sailor continuava impecavelmente branco e seco. Piscou os olhos confusa e virou-se apenas para ver que Hans estava ajoelhado ao seu lado, com as mãos erguidas e uma estranha expressão aliviada no rosto geralmente impassível.
Com um gemido, a jovem mexeu-se, sentindo todos os seus músculos estranhamente doloridos e começando a reconhecer uma dor de cabeça irritante. Rodou o olhar ao seu redor apenas para atestar que estavam nas estufas do rei e compreendeu menos ainda já que a última coisa que se lembrava era de ter entregado Endie aos cuidados de Diana e partido para a batalha.
- O qu... - sentiu a voz entalar na garganta e soltou um pigarro. - O que houve? - conseguiu dizer e Hans abaixou as mãos lentamente, erguendo-se do chão e lançando um olhar desinteressado para as plantas ao seu redor.
- Você foi pega no feitiço da Dama do Lago. - explicou o homem com as palmas das mãos fechadas em um punho e um olhar distante. Estelar não sabia o que ele tanto observava, visto que a única coisa que tinha ali dentro eram potes, terra e flores, sem contar que o local estava escuro e precariamente iluminado pelas distantes luzes dos postes ao longe.
- Dama do Lago? - repetiu bestamente, levantando-se do chão e cambaleando um pouco. Rapidamente Hans a amparou, trazendo seu corpo menor contra o seu físico avantajado e a encarando diretamente nos olhos.
- A Dama do Lago... - disse mais uma vez, lambendo os lábios secos e com este gesto atraindo a atenção dos orbes azulados para a ponta da língua rosada que se movia lentamente sobre aquele detalhe do belo rosto do zathariano. - é uma criatura mística de Zathar. Diz à lenda que ela era uma mulher que foi assassinada pelo amado e a amante dele em um lago e por causa disso passou o resto da eternidade atraindo homens infiéis para afogarem-se no lago em que ela foi morta. - Selene riria se isso não fosse piorar a sua dor de cabeça. O que estava os atacando era uma criatura que parecia ter saído de uma história de terror digna de uma noite de reunião em volta da fogueira durante um acampamento no meio do mato? Que interessante, pensou com escárnio.
- E como a destruímos? Convocamos o amante dos mortos pra pedir perdão? - zombou e Hans rolou os olhos, a soltando bruscamente e a pegando de surpresa, quase a fazendo cair no chão.
- Eu disse que era uma criatura mística, não disse que era inexistente. - explicou-se o homem com raiva diante da zombaria da jovem sobre as histórias e tradições de seu povo.
- Você disse que a Dama do Lago era uma lenda! - afirmou Selene. Não estava a fim de acreditar que o que estava os atacando era um conto de fadas, ou de terror, o que fosse. Isso era ridículo!
- Eu disse que a história dela é uma lenda. A Dama do Lago é um ser mágico criado pelos Deuses que tem como função guardar os portões de Zambora... - Selene fez uma expressão de tédio, não compreendendo metade daquela história. Seus ensinamentos limitavam-se apenas a situação socioeconômica e política de um Estado, não as suas lendas e crendices. - o mundo dos mortos. - isso pareceu chamar a atenção da jovem. Não era difícil acreditar que Zathar também tivesse guardiões de portões para o mundo dos mortos. Afinal, Sailor Júpiter era casada com uma versão terrestre da Dama do Lago. - Nunca foi confirmado, mas a entrada de Zambora, supostamente, ficaria no Lago Ekinawa, um dos maiores lagos do grande continente. A questão é que a canção da Dama tem a função de atrair as almas errantes que perderam seu caminho para Zambora e não de hipnotizar mulheres e muito menos controlar mortos vivos. Então isso quer dizer...
- Que aquela Dama é falsa. E por que o nosso misterioso inimigo mandaria uma falsa Dama do Lago para cá? Não é como se ela tivesse muito significado para nós não? - ponderou Estelar.
Não compreendia porque Hans tinha lhe contado essa história, mas avaliando bem à situação, parecia que a tal criatura mística estava servindo como uma espécie de mensageiro para passar um recado alguém e a princesa apostava que este alguém era os zatharianos. Afinal, quem mais poderia conhecer a tal lenda senão eles? O que confirmava a suspeita das neo sailors. O inimigo estava relacionado aos visitantes e Estelar desconfiava que quem quer que esteja atacando a Terra era a mesma pessoa que atacou Zathar.
Num movimento impulsivo a garota ergueu o punho e com um soco bem dado derrubou o moreno no chão que ergueu os olhos para mirá-la com uma mistura de choque e raiva.
- Mas que diabos! Por que você fez isso? - rosnou ameaçadoramente e Selene recuou um passo. Talvez ter batido no sujeito no calor do momento não tenha sido boa idéia. Afinal, ele era o triplo do tamanho dela. Por outro lado não se arrependia do soco bem dado que deu no homem. Ele trouxera a ameaça para a Terra diante de seu "inocente" pedido por refúgio e deveria pagar por isso. Estava sendo irracional, sabia disso, a sua mãe ficaria muito desapontada se soubesse que tipo de pensamentos a sua filha estava tendo e a rainha jamais acusaria outra pessoa pelos problemas que estavam passando no momento. Mas que, de certa forma, Hans e sua trupe eram responsáveis por toda essa confusão, isso eles eram.
- Por sua causa estamos sendo atacados! Vocês não tinham outro lugar para se esconderem com o rabinho entre as pernas, não?! - algo perigoso parece brilhar dentro dos olhos verdes do zathariano depois da tirada da sailor e num salto ele pôs-se de pé, esfregando o queijo dolorido e aproximando-se a passos ferinos da senshi, que recuou mais ainda.
- Como ousa nos acusar de covardes? - sibilou ferozmente. Ela não tinha este direito, não sabia metade da história. Os zumbis que a Dama do Lago usava para atacar o castelo eram apenas à sombra do que um dia foram valentes guerreiros, homens e algumas mulheres que lutaram e morreram para proteger Zathar da invasão e muitos desses encontraram seu fim ao protegê-los, dando possibilidade a família real e alguns refugiados de fugirem e procurarem abrigo em outro lugar para assim completarem a missão que libertaria o planeta deles. Essa fedelha não tinha o direito de acusá-los de nada!
- Você não espera que eu engula que um planeta como Zathar, tão bem equipado e treinado com o melhor sistema de defesa do quadrante 2 tenha facilmente sucumbido ao que quer que o tenha invadido, espera? - rebateu igualmente irritada, embora seus joelhos tremessem, pois podia sentir, praticamente ver, a energia de Hans crepitando em volta dele diante da raiva contida. Talvez tenha falado demais no momento e tocado em algum ponto sensível de toda essa história.
- Eu não espero que uma princesa mimada nos compreenda! - retrucou ferozmente e Selene piscou os olhos para depois arregalá-los, extremamente surpresa diante do que ouviu. Como assim princesa? Ele havia descoberto? Sabia quem ela era? A sua mãe iria matá-la se soubesse disso.
- Como? - balbuciou com o coração aos pulos e Hans deu um sorriso de escárnio para ela.
- Eu sei seu segredinho... Princesa Serena. - disse com um sorriso vitorioso e Selene piscou mais ainda para depois cair na gargalhada.
- Prin-prin-princesa Serena! - e riu mais ainda, dobrando-se sobre o próprio corpo e apoiando-se em uma bancada cheia de vasos de lírios.
- Qual a graça alteza? - o homem a avaliou de perto, tentando compreender onde estava a piada e só depois de longos minutos rindo é que Estelar finalmente acalmou-se para poder respondê-lo.
- Você! - e o estapeou no peito, parando um momento para apreciar como ele era ao mesmo tempo sólido e macio, e depois sacudiu a cabeça para espantar esses pensamentos. Não era hora de relembrar de como ele era sem camisa. - De onde você tirou a idéia estapafúrdia de que eu sou a princesa Serena? Você não acha que está faltando alguma coisa? - e rodou o braço sobre a cabeça, fazendo Hans adquirir uma expressão confusa. O que poderia estar faltando nela? - Os cabelos exóticos presos no penteado mais estranho que eu já vi. Além da cabecinha de vento. - e soltou mais uma risadinha. - Sério mesmo, a sua imaginação me impressiona.
Hans a olhou atentamente, tentando discernir entre as palavras dela alguma coisa que não fosse verdade, mas a reação da jovem havia sido genuína demais para ele encontrar qualquer contra argumento diante da confissão dela. Então Estelar não era a princesa Serena e de certo modo isso o aliviava. Não estava a fim de gerar uma guerra entre planetas diante do que pensava em fazer com a senshi, o que já era um grande progresso.
- Se você não é a princesa Serena, quem é você? - indagou com um tom de pouco caso e Estelar soltou outra risada.
- Boa tentativa, mas não cola. E se você não se importa, eu preciso ir ajudar as outras sailors. Se o que aconteceu comigo estiver acontecendo com elas, o castelo está indefeso... - ela passou pelo homem para poder sair da estufa, mas uma mão grande segurou o seu pulso fino e a puxou de volta, a jogando de maneira brusca sobre a bancada de lírios. - O que foi agora? - a jovem sibilou irritada por ter sido interrompida.
- Volte lá sua idiota e você ficará no mesmo estado que antes, com a cara mais sonsa do que já é. - advertiu e viu a senshi inflar de ódio diante das ofensas.
- Quem você está chamando de idiota... E sonsa?! - gritou em um tom estridente o que fez os ouvidos de Hans zumbirem dolorosamente.
- Se você quiser ajudar as suas amigas... - o homem continuou, ignorando a birra da jovem e murmurando algumas palavras sob a respiração esticou uma mão aberta na direção dela quando algo brilhou na palma da mão dele e depois desapareceu, deixando em seu lugar dois pequenos objetos feitos de borracha e em forma de rolha. - use isto. - estendeu os tampões de ouvido para ela e Estelar olhou para as pequenas peças com uma expressão desconfiada. - Não vão te morder! - falou exasperado e hesitante a garota pegou os tampões.
- Como você pode ter certeza de que apenas isto será o suficiente? - disse desconfiada, avaliando os objetos e Hans deu de ombros. Não sabia, mas não custava tentar.
- Só para garantir irei com você. Aparentemente a tal música dela não me afeta...
- Por que será? - Estelar soltou num tom de escárnio e o olhou com suspeita, mas o homem a ignorou.
- Por que você não enfia isso logo no ouvido e pára de me encher? - Hans bradou, arrancando os tampões das mãos dela e os levando em direção as orelhas da garota. Estelar retesou o corpo diante dos gestos bruscos dele, temerosa do que viria a seguir. O zathariano não estava no melhor dos humores, podia perceber pelo fato de que ele estava explodindo com facilidade diante de uma simples discussão e, portanto, tinha razão por sentir-se incomodada quando as mãos do homem encontraram caminho por debaixo dos fios finos de seus cabelos negros em direção as suas orelhas.
Os dedos grossos de Hans percorreram os fios negros e macios, prolongando-se neles mais que o necessário e com gestos mais delicados ele deslizou as pontas dos dedos sobre o pescoço da garota, que tremeu diante do toque, até as orelhas dela, as traçando suavemente e depois colocando os tampões no lugar. Recolheu as mãos, demorando mais uma vez entre as mechas negras até abaixar os braços completamente quando se viu sob a avaliação intensa de brilhantes olhos azuis.
- Melhor irmos. - avisou e Selene fez uma expressão confusa, franzindo as sobrancelhas como se tentasse compreender o que ele dizia. Perfeito, o tampão funcionava, agora ele apenas esperava que tivesse o mesmo efeito contra a Dama do Lago. Hesitante pegou na mão da sailor e a guiou para fora da estufa de volta ao campo de batalha.
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A cena que Estelar e Hans encontraram quando chegaram ao pátio principal do palácio não foi nada animadora. Sailors Marte, Phobos e Vênus estavam amarradas a uma árvore pelo que parecia ser uma versão precária da corrente de Vênus, com certeza obra de Sailor Vésper. Júpiter e as outras inners senshis mantinham-se distantes o bastante para a música afetá-las apenas superficialmente, lançando golpes atrás de golpes sobre a Dama do Lago, mas os mortos vivos sempre entravam no caminho para poder impedi-las, e a distância entre as sailors e a mulher também não ajudava no efeito dos ataques.
Os maridos das sailors, mais Brenton, por outro lado lutavam avidamente contra os zumbis, mas eles não eram de grande ajuda. Poderiam ser poderosos, mas ainda sim estavam em menor número e sem o poder de fogo de suas esposas guardiãs e das neo senshi que também se mantinham afastadas, nada poderiam fazer.
Selene notou que entre os homens constava a figura de seu pai, mas não divisara entre as mulheres a forma elegante de sua mãe. O que será que tinha acontecido com ela? Pensou, não querendo cogitar a possibilidade de ela estar ferida em algum canto, até porque Endymion jamais deixaria o lado da esposa se isto tivesse acontecido. Talvez ela também tenha sido enfeitiçada e com isto estava presa em um lugar seguro.
Seu olhar recaiu sobre Mercúrio e Arcádia que com seus computadores avaliavam freneticamente o inimigo e murmuravam uma coisa ou outra para as outras sailors, mas as suas expressões não eram animadoras. Com um suspiro, a garota checou se os tampões estavam bem presos e com um salto e uma cambalhota no ar colocou-se no meio do grupo de homens que estavam cercados por vários zumbis.
- Estelar! - a jovem viu a boca do rei se mexer dizendo seu nome, mas não ouviu nenhum som sair dela. Virou-se na direção da Dama do Lago para ver que esta ainda mexia os lábios cantando, mas não conseguia ouvir a música que ela soltava e deu um aceno positivo de cabeça em direção a Hans para avisá-lo que o plano deu certo. O zathariano retribuiu o gesto com um parecido e foi até as sailors, começando a conversar com elas e distribuindo pequenos objetos as mulheres.
- Volto já. - disse ao grupo, girando uma perna e acertando o zumbi mais próximo, abrindo caminho e esgueirando-se pela brecha fornecida em direção a mulher. Agilmente deu várias cambalhotas em direção a ela e com uma estrela bem dada seus pés acertaram o rosto da estranha, a desnorteando e finalmente a fazendo calar a boca. Ergueu o joelho com força, a acertando na altura da barriga e a fazendo se curvar diante da dor e mirar ferozmente a sailor por ter sido interrompida. Os olhos laranja brilharam de raiva e os lábios vermelhos retorceram em ódio, deixando a mostra um canino.
Subitamente a pele azulada começou a ganhar um tom cinza doentio e as belas vestes transformaram-se em trapos mofados e sujos. Estelar afastou-se num pulo, observando a transformação boquiaberta. Asas esqueléticas de morcego brotaram das costas da criatura e os longos cabelos dourados adquiriram um tom marrom enlameado. O rosto ficou mais afilado, pontiagudo e de expressões medonhas. O nariz achatou-se, deixando apenas duas fendas ofídicas e os dedos das mãos rapidamente viraram garras que desceram com violência contra a sailor, atingindo seu uniforme na barriga e abrindo quatro talhos dos quais começou a escorrer um grosso filete de sangue.
Por reflexo a senshi recuou mais ainda, levando a mão ao ferimento e o observando chocada. Não era uma coisa muito fácil penetrar o uniforme da sailor e para quem achava que aquela roupa era apenas enfeite se enganava. Ela protegia de verdade.
O laço no peito dava uma proteção extra ao coração, as luvas aos pulsos e braços, o laço das costas a base da espinha, a tiara na testa evitando qualquer ataque direto na cabeça e a gargantilha proteção ao pescoço, principalmente sobre a aorta. E o lenço de marinheiro proteção à área do coração pelas costas. Só a saia era enfeite, mas ajudava na mobilidade. Portanto, saber que um único golpe conseguiu atravessar a sua armadura não era uma descoberta muito feliz.
Seu uniforme imaculadamente branco estava começando a ficar vermelho na altura do abdômen e embora não pudesse ouvir por causa dos tampões, podia sentir as sailors ao longe gritando pelo seu nome. Cambaleou sobre os pés, sentindo que alguma coisa estava errada. O golpe poderia ter sido profundo, mas ainda sim demoraria mais tempo para ela sentir-se desse jeito, não? Com a cabeça leve e o corpo mole.
- SELENE! - o grito ecoou em sua mente e a jovem reconheceu a voz da irmã. Viu em frente aos olhos a tal Dama preparar outro ataque e por instinto ergueu o braço que não segurava o ferimento, trazendo o cetro em forma de meia lua consigo e bloqueando o golpe das garras da criatura.
- Temp... - abriu a boca para dizer, mas a voz lhe falhou e ela sentiu seus membros ficarem se forças, derrubando a arma no chão e seu corpo começando a cair para trás.
- MOON HEALING ESCALATION! - o golpe veio à alta velocidade, acertando a criatura em cheio no peito e a desintegrando entre uma explosão pirotécnica de luz e energia. Selene apenas observou com desinteresse e olhos desfocados a Dama do Lago desfazer-se bem na sua frente antes de sentir ser amparada por um par de braços calorosos. O olhar azul preocupado do rei entrou em seu campo de visão e uma das mãos do homem comprimiu seu ferimento na barriga, tentando estancar o sangue.
Hans veio deslizando para perto da dupla, ajoelhando-se ao lado do monarca e da sailor caída com uma sensação de deja vu enorme em seu coração. A cena que presenciava lhe era familiar, esquecida por causa dos milhares de anos dentro de suas lembranças. Em um gesto brusco rasgou metade do casaco que usava, utilizando as tiras de pano para envolver o ferimento da garota enquanto o rei a segurava em seus braços. Aos poucos outras senshis foram se aproximando à medida que conseguiam livrar-se dos zumbis restantes. A primeira a chegar ao grupo foi Mercúrio que com o seu computador começou a avaliar os estragos, fazendo uma expressão nada animadora diante de cada dado que aparecia na tela do aparelho.
- Majestade... O golpe era venenoso. - declarou Ami ao ver os sinais vitais de Selene enfraquecerem mais e mais na tela. Endymion ergueu a cabeça bruscamente e mirou a sailor como se a acusasse de ser a responsável por todo aquele estrago.
- Não me diga a extensão dos ferimentos, me diga apenas que eles podem ser curados! - vociferou o homem, acariciando inconscientemente o rosto da sailor que piscava os olhos tentando mantê-los abertos. Num estalo, trovões e raios ecoaram nos céus, descendo a terra e pulverizando mais um bando de mortos vivos e logo depois apareceram ao lado do grupo Júpiter e Europa.
Lily ajoelhou-se perto da princesa sem saber direito o que fazer. Seus instintos gritavam que ela precisava ajudar à amiga, embora não fossem tão próximas assim, mas ao mesmo tempo sua mente rebatia que ela não tinha como fazer isso. Seus olhos dourados foram até a figura de seu pai que se aproximava do grupo, perguntando silenciosamente se ele não poderia ajudar. Afinal, ele era o guardião do mundo dos mortos e por isso tinha algumas cartas na manga em situações como essa.
Sentiu o seu peito comprimir quando o elfo franziu as sobrancelhas negras e inclinou a cabeça para o lado como se estivesse ouvindo algo que apenas ele era capaz de escutar. A jovem arregalou os olhos ao reconhecer o sinal de que seu pai estava sendo chamado aos portões com certeza para receber alguma nova alma. E se ele estava sendo chamado no meio de sua estadia na terra, isto queria dizer que tal alma era de alguém importante.
- Não! Não! - gritou a senshi dos raios e voltou-se para a companheira caída que agora tinha uma das mãos sendo seguradas por uma desesperada Sailor Moon que parecia não saber direito o que fazer. - A rainha, a rainha não pode ajudar com o Cristal de Prata? - ofereceu rapidamente e o rei sacudiu a cabeça de um lado para o outro.
- Serenity está inconsciente, precisei fazê-la dormir para levá-la a um lugar seguro por causa da música. - explicou-se Darien, levantando-se de supetão. A tal mulher que estava hipnotizando as outras senshis tinha sido destruída, agora era seguro e talvez pudesse acordar Serena. O problema era: será que daria tempo de ir ao castelo e voltar com a mulher? Tinha a sensação que não.
- Eu posso usar o cristal de prata. - ofereceu Sailor Moon e o rei a olhou incerto.
A princesa ainda estava praticando as habilidades de controlar o cristal de prata e há de se convir que a menina não possuía força o suficiente para reter o poder da pedra. Serenity levara anos para conseguir esta façanha e cada vez que usava o cristal ao máximo no passado, sem o treinamento suficiente, acabava se ferindo gravemente, ou então gastando todas as suas forças. Lembrava de todas as vezes que aparara uma Sailor Moon fraca depois de uma batalha e de usar o cristal. E curar usando o poder da pedra mágica era um grande feito o qual a princesa não estava pronta para realizar.
- Sabe que você não conseguiria e seria mais uma sailor ferida em nossas mãos. - disse o rei e Sailor Moon bateu um punho fechado no chão de concreto.
- Ao menos não me custa tentar! - rebateu petulante.
- O cristal está com a rainha que está no abrigo do castelo... a não ser que você tenha aprendido a convocar a pedra ao seu bel prazer... terá que ir lá buscá-la e nós não temos tempo para isso. - Endymion vociferou, não estava disposto a discutir com a sua primogênita em um momento tão crucial como esse.
- GENTE! - Lily gritou interrompendo a briga entre pai e filha. - Calem a boca! - ordenou aos dois e voltou a sua atenção a Estelar que mirava o rosto da mestiça intensamente. - Vai ficar tudo bem, okay? - a meio elfo acariciou os cabelos negros da jovem. - Vai ficar tudo bem. - suspirou, levando uma mão ao abdômen dela inconscientemente enquanto ainda afagava os cabelos da menina e com isto não notando o que estava acontecendo neste momento.
Toda e qualquer discussão ou falatório encerrou-se quando um brilho dourado iluminou os rostos das pessoas que formavam um círculo em torno da senshi ferida. Europa abaixou os olhos exóticos do rosto de Selene para ver a sua própria mão emitir tal brilho, fechando aos poucos o ferimento na barriga da garota e deixando por fim apenas as marcas que as garras da Dama do Lago causaram na roupa da sailor. Estelar piscou os olhos que voltaram ao normal, perdendo aquela expressão vazia e desorientada e aos poucos ela foi se sentando e sendo amparada por Lily.
- Como... - perguntou a Europa que olhava para as próprias mãos com uma expressão chocada.
- Eu não sei... - uma risada foi-se ouvida dentro do grupo e todos os olhares caíram sobre Eckhard que deu de ombros.
- Eckhard... - Júpiter aproximou-se do marido que tinha uma expressão de que sabia mais da situação do que ela.
- Depois eu explico. - falou o elfo, indicando com a cabeça a figura de Hans ainda ajoelhado perto de Estelar e que olhava a menina intensamente com uma expressão de alívio aparente em seu rosto.
Selene deu de ombros displicente. Bem, não importava como havia sido feito, o importante é que havia sido feito e ela estava curada. Lentamente pôs-se de pé e mal estava equilibrada nas duas pernas quando algo sólido chocou-se contra o seu corpo e ela viu-se envolvida por dois pares de braços magros, mas ao mesmo tempo poderosos, que a apertavam contra uma Sailor Moon histérica que chorava copiosamente em seu ombro.
- Ah... Moon? - Estelar ergueu uma mão, afagando a cabeça de cabelos rosados da jovem enquanto esta soluçava mais contra si, o corpo dela tremendo por causa das lágrimas.
- Eu deveria te matar, como você me dá um susto desses?! - Serena choramingou em seu ombro e Selene franziu as sobrancelhas. Conseguia ouvi-la? Por quê? Inconscientemente levou a mão a uma das orelhas apenas para atestar que o tampão tinha sumido. Talvez Hans tenha desfeito o feitiço que conjurou a proteção depois que a Dama do Lago fora destruída, era a única explicação.
- Sailor Moon... está tudo bem, está tudo bem. - tentou consolá-la, lançando um olhar para o seu pai, mas viu que não conseguiria obter ajuda do homem para soltar a garota de si. O rei tinha uma expressão extremamente fechada no rosto e agora que a confusão tinha passado e a adrenalina abaixado, ela podia perceber que os céus de Tóquio estavam extremamente negros e que um vento frio e forte soprava pela cidade e a jovem tinha a certeza que isto não era coisa do inimigo porque Endymion apertava as mãos em um punho firme e o seu corpo tremia levemente. Com uma virada sob os calcanhares o homem tomou o caminho do castelo já soltando ordens enquanto voltava ao palácio.
- Inner senshis comigo para verificarmos os estragos! - gritou para as mulheres que mais do que depressa o seguiram, sabendo que no humor que o homem estava era melhor não contrariá-lo no momento. Sem contar que com certeza ainda deveria haver alguns zumbis errantes dentro da construção prontos para receber em cheio a fúria de Endymion.
- Eu acho que ele está fulo com você. - Vésper comentou, aproximando-se das duas irmãs e mordiscando a ponta do dedo enluvado.
Europa suavemente desprendeu Sailor Moon de Estelar quando esta pareceu se acalmar o suficiente diante do susto de quase ter perdido a caçula e se viu sob um forte abraço com Serena agora a agradecendo repetidamente pela ajuda, embora ela não soubesse direito o que tinha feito. Curar nunca foi uma de suas especialidades, mas, aparentemente, seu pai não parecia surpreso ao vê-la manifestar tal poder. Mal podia esperar pelas explicações que viriam mais tarde. Sabia que o guardião Eckhard não tinha contado nada com temor de revelar as identidades delas para Hans que ainda estava no pátio observando as Neo Sailors.
E por falar no zathariano, este por sua vez estava intrigado diante de tudo o que aconteceu, mas principalmente da conversa que testemunhara quando Estelar fora ferida. Sailor Moon havia se oferecido para poder usar o poder do Cristal de Prata para curar a companheira senshi, cristal este que até onde ele sabia só podia ser controlado pelos descendentes da família real lunar. Os olhos verdes do guarda cravaram-se sob a figura da senshi da lua aos prantos e começou a avaliá-la lentamente. Desde os cabelos presos em duas marias-chiquinhas aos olhos âmbares e o corpo esguio. Algo pareceu tremular na imagem da garota como um aparelho de TV com estática e por um breve momento ele conseguiu enxergar através do glamour. Quase sorriu. Então era assim que funcionava a coisa? Que interessante.
Parecia que no momento que a pessoa descobria a identidade da sailor a magia de disfarce não funcionava mais. Mas não se engane, ela ainda estava lá, podia sentir a energia que protegia o segredo sobre quem eram as senshis rodeando Sailor Moon, cobrindo detalhes básicos de sua aparência que jamais seriam associados com de outra pessoa, mas isto parecia não afetá-lo mais com tanta força e por debaixo daquela uniforme de marinheiro o homem podia ver claramente a figura da princesa Serena. Que tolice, por que não pensara nisso antes?
No passado a Sailor Moon que precedeu a Neo Sailor Moon fora a própria rainha, todos sabiam disso, pois a antiga guerreira sempre estava de posse do cristal e este podia somente se usado pelos descendentes de Serenity. Então era mais do que normal à nova Sailor Moon ser a herdeira do trono. O que descartava totalmente o fato da mulher ser Sailor Estelar e o que o levava a estaca zero. Entretanto, no momento, ele tinha outro problema para resolver.
- Com licença! - falou, interrompendo a reunião emotiva das sailors depois do quase encontro com a morte de Estelar. - Quero falar com você, agora! - disse e segurou no pulso da mencionada senshi, a tirando do meio do grupo em um puxão e a afastando das outras antes que a menina pudesse reagir e ignorando totalmente os gritos enfurecidos de Sailor Moon.
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As estufas reais continuavam escuras e mal iluminadas quando o par transpassou as portas de armação de metal e vidro, com a figura maior puxando uma menor que parecia muito relutante em continuar sendo carregada por entre as bancadas de flores. Hans continuava a puxa Estelar pelo pulso enquanto esta protestava intensamente atrás de si, tentando de todas as maneiras impedir que ele continuasse a arrastá-la estufa adentro. Não compreendia o motivo da atitude do homem, mas podia ver pela expressão do rosto dele que ele não estava muito feliz.
Em contrapartida, Estelar não poderia estar mais certa. Hans'Ark-Ra estava longe de estar contente, pelo contrário, ele estava furioso, fervendo de ódio e pronto para descontar as suas frustrações na menina que carregava a força dentro daquele lugar. Como ela podia ter sido tão burra a ponto de se deixar atacar daquela maneira imbecil pelo inimigo? Ela não fazia nenhum jus à fama dos poderosos guardiões estelares. Ela era uma desonra a longa linhagem de guerreiros protetores do cristal. Ela quase lhe deu um ataque do coração quando foi ferida daquela maneira tão brutal pelo adversário e o único jeito que ele sabia lidar com esse tipo de sentimento associado ao medo e apreensão era com raiva.
Bruscamente a jogou contra várias caixas de fertilizante e a sailor tropeçou precariamente sobre os pés antes de recuperar o equilíbrio perdido. Seus olhos azuis cravaram no rosto fechado do homem e ela ostentava uma expressão que também não era feliz. O que tinha dado nele para tirá-la do campo de batalha daquela maneira? Quem ele pensava que era? Tinha coisas a resolver, uma reunião de senshis para atender e um pai irado para acalmar. Sem contar que ela tinha prometido que iria buscar o pequeno Endie que neste momento deveria estar roendo as unhas até a carne de preocupação. Conhecia seu irmão caçula, ele poderia ser o mais novo da família, mas não menos protetor.
- Você é uma estúpida! - vociferou, passando as mãos pelos cabelos pratas na vã tentativa de se acalmar. Estelar apenas piscou os olhos e cruzou os braços sobre o peito, o encarando de forma desafiadora, mas nada disse em resposta a ofensa proferida. - Depois de todas as precauções que tivemos você comete a imbecilidade de se deixar atingir daquela maneira pelo inimigo! O que você tinha na cabeça sua menina lesada? - continuou a repreendendo, sentindo-se da mesma maneira que se sentia quando um de seus oficiais subordinados fazia uma burrice que geralmente ocasionava em um acidente ou pior, a perda da vida de alguém.
Confessava que ele mesmo não conseguia racionalizar de onde vinha tantas emoções diferentes. Não conhecia a sailor tão bem assim para ter se apegado a ela em tão pouco tempo, mas, ao mesmo tempo, tinha algo na garota que o atraía como ímã. Algo que ele sentiu no primeiro momento que pousou os olhos na guerreira quando ela o salvou. Sua pele toda formigava ao tocar na jovem e uma sensação inconsciente de protegê-la de todo o mal aflorava e isso, definitivamente, não era um bom presságio.
Tinha uma tarefa a cumprir naquele planeta, uma que envolvia Sailor Estelar, e deixar-se envolver pela mulher não colaboraria na sua missão. Mas, mesmo assim, ele não conseguiu impedir de seu coração praticamente vir à boca ao ver as garras descendo contra o corpo da senshi, seus olhos alargarem ao ver o sangue escorrendo sobre o uniforme impecavelmente branco e seus instintos gritarem ao ver a menina parada no meio do pátio, olhando o ferimento como se fosse algo que ela não conseguia compreender.
- Eu não acredito que a rainha Serenity colocou criatura tão incapaz para proteger a cidade se no primeiro ataque mais elaborado ela se deixa ferir dessa maneira! - continuou a extravasar sua raiva, ficando ao mesmo tempo mais irritado e extremamente incomodado pelo fato de que ela não reagia. Estelar permanecia na mesma posição com os braços cruzados sobre o peito, ambas as sobrancelhas erguidas e os olhos intensamente azuis o mirando com o rosto em uma expressão impassível. E aquela postura, estranhamente, lhe era absurdamente familiar.
Um flash de memória invadiu a sua mente e ele viu em frente aos seus olhos outra pessoa o encarando na mesma postura, mas, dessa vez, era uma mulher um pouco mais velha, com os mesmos intensos olhos azuis e em vez de estar trajando o uniforme das sailors, ela vestia uma armadura dourada e branca que protegia o seu corpo. Com a mesma rapidez que veio a lembrança se foi e Hans recuou um passo aturdido diante dessa ilusão causada pela sua mente e suspirou aliviado quando viu que na sua frente continuava a mesma sailor impassível e que agora descruzara os braços, os apoiando nos quadris arredondados e inclinando um pouco a cabeça para o lado.
- Terminou? - disse em tom de voz sério e mal humorado. Quando o zathariano abriu a boca para responder, uma mão enluvada pôs-se sobre os lábios do soldado o impedindo de dizer qualquer coisa. - Agora é a minha vez de falar e a sua vez de ouvir. - ordenou impaciente e recuou o braço, o encarando longamente para ver se ele diria alguma coisa. Quando Hans permaneceu quieto, ela continuou.
- Primeiramente, não ouse nunca mais me chamar de imbecil ou você verá o quão desagradável pode ser ficar na mira do meu cetro. Segundo, incapaz é a senhora sua mãe e se você ousar novamente me chamar de incompetente eu quebrarei todos os ossos do seu corpo... - quando o homem a olhou descrente, com uma expressão que dizia claramente que este fato seria completamente impossível, ela amarrou a cara. - e acredite, eu consigo isso e não vai ser uma coisa bonita de se ver não é mesmo? Terceiro, você não é de longe o meu oficial superior e eu não sou um de seus soldados. Neste planeta você não passa de um refugiado sob a vigilância das Sailors Senshis, portanto não me chame a atenção, não me dê ordens e até onde diz respeito EU ainda sou sua superior e se você não quiser terminar nas prisões reais, eu sugeriria que calasse a sua boca!
Silêncio prevaleceu entre os dois ao fim do discurso dela e novamente Estelar cruzou os braços sobre o peito, o encarando firmemente como se o desafiando a falar mais alguma coisa. Quando Hans nada mais disse, ela deu a volta pelo homem na plena intenção de ir embora, mas, novamente, ele a segurou com força pelo pulso a obrigando a recuar e a virando bruscamente para encará-lo nos olhos. O modo como ela falara com ele fizera o zathariano ver mais semelhanças entre a jovem e a mulher que há minutos atrás invadiu as suas lembranças o confundindo por um momento. Aquele fora o mesmo discurso que Lila lhe dera num momento que, irritado pela preocupação que a mulher lhe causara, ele descontara a sua raiva e frustração sobre a mesma ao lhe dar um longo sermão e a resposta da morena havia sido a mesma.
"Você não é de longe o meu oficial superior e eu não sou um de seus soldados então não ouse nunca mais usar esse tom de voz comigo". Aquela havia sido a primeira vez que Lila tinha o desafiado, batido de frente com ele, esquecido toda a sua boa educação e formalidade e o mirado com fúria e desprezo e, a partir daquele dia, ele aprendera a confiar nas habilidades da mulher e acreditar que ela sabia, melhor do que ninguém, fazer o seu trabalho.
- Quer alguma coisa? - Estelar cortou os pensamentos do homem com o seu tom frio de voz e olhando com um desprezo desmedido para a mão em seu pulso. Como se tivesse sido queimado, Hans soltou a garota e essa lhe deu um último breve olhar antes de girar sobre os saltos e sair às pressas da estufa.
Assim que a figura da guerreira sumiu em uma curva do palácio, Hans deixou seu corpo relaxar e apoiou-se em uma bancada cheia de vasos vazios. O que tinha acontecido agora pouco era a pergunta que ficava ecoando em sua mente. Por que ele tinha feito aquilo? No que ele estava pensando? Nunca conseguiria completar a sua missão se se apegasse demais a este planeta, mas, principalmente, a um de seus guardiões. Estelar não era Lila, foi o que percebeu com horror, e mesmo que a presença da garota despertasse sensações que há séculos não invadiam o seu corpo, ainda sim ela não deixava de ser uma menina sem talento e extremamente irresponsável. Sem contar que não podia sentir pena, jamais poderia sentir pena e justificava as suas atitudes com a desculpa de que precisava da mulher viva, por enquanto, para completar o seu trabalho.
- Interessante... - uma voz sem dono ecoou pela estufa e Hans colocou-se em alerta, desencostando da bancada e girando a 360 graus em volta do corpo à procura da origem da voz. Ela lhe era familiar, mas não queria nem começar a especular o que ela fazia ali. - Lorde Hans'Ark-Ra da casa de Ra, pensei que tínhamos um acordo. - algo se mexeu nas sombras e Hans fez um gesto largo com as mãos, invocando duas espadas de lâminas curtas e curvadas, as cruzando em frente ao corpo e as apontando em direção a intruso.
- O que faz aqui? - rosnou entre dentes. Ainda tinha tempo, seu prazo não havia terminado, então o que aquela criatura queria?
De entre alguns vasos de bromélias surgiu uma aparição fantasmagórica. Um corpo transluzente cruzou a bancada sem se importar com o obstáculo e parou em frente às duas lâminas afiadas, erguendo um dedo pálido e com divertimento tocou a ponta da espada, vendo o seu dedo atravessar o metal com facilidade e comprovando que ele não passava de um espectro sem corpo, mas mesmo assim era possível ver todos os detalhes do intruso.
O visitante era diminuto, podia se passar por um adolescente no início da puberdade, possuía longos e trançados cabelos azulados, três orelhas pontiagudas em cada lado da cabeça, olhos da mesma cor que o cabelo, pele descolorada, branca como uma folha de papel e parecia misturar-se com as roupas brancas e douradas que usava. Tinha um rosto bonito, afilado, quase angelical, mas a expressão fria e os olhos sem vida mostravam que ele estava longe de ser um anjo.
- Dizem que a terceira vez dá sorte, um ditado terrestre, mas que eu não posso desconsiderar. Você recebeu três avisos Hans'Ark-Ra. Tic e tac faz o relógio e o seu tempo está acabando. - falou o rapaz pálido, sacudindo o dedo em uma negativa. - Aparentemente o Cristal Estelar está na Terra e você sabe o que precisa fazer...
- Não posso simplesmente pegar o cristal visto que Sailor Estelar vive cercada por senshis. Não conseguiria dar um passo com o cristal na mão sem antes ser pego. Sem contar que ainda não sei quem é a mulher por detrás da guerreira e por isso não tenho sempre contato direto com ela. - desculpou-se e apertou as mãos no punho de suas espadas quando os olhos azulados estreitaram-se em uma expressão de desagrado.
- Não me interessa! - o grito ribombou na estufa e uma rajada de vento arrancou pétalas e folhas de flores, lançando Hans contra uma das paredes de ferro e vidro da construção. - Cada minuto que você perde para pegar o cristal é um minuto a mais que seu povo sofre. Meu exército de zumbis aumenta a cada dia, soldado, assim como a minha fortuna. Continue neste ritmo e o seu adorado príncipe Aldric terá apenas um planeta em ruínas para governar e cadáveres para comandar! - soltou uma risada macabra e ignorou completamente o olhar de ódio que o zathariano lhe lançou quando finalmente ergueu-se do chão.
- Farei tudo ao meu alcance. - respondeu submisso e o estranho ficou sério rapidamente.
- Faça o impossível Hans'Ark-Ra. - disse em tom sombrio, acariciando desinteressado as pétalas macias de uma rosa vermelha que começou a murchar diante de seu toque até não sobrar nada além de pétalas negras e sem vida. - Serei caridoso com você. Terá uma semana meu caro... Antes que Zathar faça "boom". - riu como uma criança ao contar uma piada, uma risada que fez arrepios percorrerem a espinha de Hans. - E lembre-se...
- Não posso dizer a ninguém a verdade sobre a minha missão se não quiser ver Zathar sofrer. - respondeu petulante e o visitante riu divertido.
- Está aprendendo cavaleiro. - o zathariano apertou as mãos com força sobre a espada e num gesto impulsivo ergueu a lâmina na direção do sujeito, mas apenas encontrou ar. A figura a sua frente desintegrou-se por um momento antes de voltar ao normal e o rosto branco deu um sorriso macabro e amedrontador. - Em uma semana eu virei vê-lo novamente e espero ver o Cristal Estelar destruído. - sentenciou. - Ou o destino deste planeta e do seu não será muito bonito. - e com isto desapareceu tão rapidamente quanto apareceu, deixando um zathariano irado para trás.
Hans fez desaparecer as suas espadas e com toda a força socou o tampo de madeira sólida de uma das bancadas.
- Droga! - gritou frustrado.
Uma semana, ele tinha uma semana para poder conseguir arrancar o cristal de Sailor Estelar e destruí-lo. Uma semana para colocar seu plano em prática e conseguir arrancar alguma coisa de Selene. Ela era o elo fraco da família real e ele aprendera em batalha que a melhor maneira de conseguir algo era atingir o elo fraco. Mas quem foi que disse que isso seria fácil? Afinal, nunca era fácil matar alguém a sangue frio, mas, principalmente, matar uma Sailor Senshi.
Continua...
