Capítulo 6

O dia seguinte à batalha amanheceu novamente nublado e chuvoso, como todos os dias anteriores e Serenity sabia que, desta vez, não era obra da mãe natureza aquela tempestade, mas sim a mesma era causada pelo temperamento difícil de Endymion. Seu marido andava de muito mau humor desde o ataque e a rainha não podia tirar-lhe a razão. Sua filha quase tinha morrido e mesmo que estivesse inconsciente quando isto aconteceu, quando a mulher ouviu os relatos sobre o combate seu coração veio a boca e quase saiu do peito quando as senshis, muito relutantes diga-se de passagem, contavam a parte em que como Estelar tinha sido ferida e quase morrido, sendo salva em cima da hora pelo novo poder de Europa. Por um longo tempo a rainha abraçou a filha mais velha de Litha, a agradecendo pelo feito, embora a garota não soubesse direito como tinha feito aquilo. Eckhard não hesitou em explicar.

Lily era meio elfo, mas não era somente isso, ela era filha de um "guardião dos mortos" por assim dizer. Eckhard era um guia espiritual e com isto lidava com a vida e a morte todos os dias e embora guardiões não desenvolvessem muito o poder da cura para não interferirem com o mundo dos vivos e o destino, não significava que eles não tivessem tal dom. Eckhard podia "curar" almas perdidas e desamparadas, mas não podia curar pessoas vivas, ao contrário de sua filha. Lily era meio mortal e como tal tinha metade de seu destino preso a terra logo, o poder de cura que herdou do pai tinha efeito em vivos e podia ou não manifestar-se dependendo da força de espírito de cada um. E não tinha ninguém mais espirituosa que sua filha, logo esse novo dom brotou em um momento mais do que satisfatório.

Entretanto, nem mesmo o poder de cura de Sailor Europa seria o suficiente para amainar os estragos que o gênio de Endymion estava causando. Serenity compreendia que seu marido não estava com raiva da filha, longe disso, mas para alguém que nunca foi muito bom em expressar o que sentia, ele recorria a métodos que não eram lá muito... usuais. O medo dele o homem manifestava com raiva e suas frustrações com mau humor. Darien era órfão e apesar dos anos nada apagaria do coração e da mente dele o fato de que por várias vezes a solidão e a idéia de que nunca teria alguém em sua vida costumavam assolá-lo de maneira arrebatadora.

O moreno dizia que Serena havia sido a luz que iluminara a sua vida, com ou sem reencarnação e Milênio de Prata como pano de fundo para a história deles. Ele dizia que com ela o homem começou a pensar na possibilidade que talvez ele não fosse mais ser sozinho, que em vez de ficar desejando ter de volta a família que perdeu, poderia construir a sua própria e a mulher ficou mais do que satisfeita em oferecer-se ao cargo de mãe e esposa.

Se fechasse os olhos ainda podia ver na sua frente o rosto de seu adorado rei quando o primeiro filho deles nasceu. Da insegurança que ele sentia ao pegar uma princesa Serena tão pequena nos braços com medo de machucá-la, das expressões de horror que ele fazia diante da idéia de trocar uma fralda, das noites que ele passava contando histórias sobre a poderosa Sailor Moon para a filha dormir.

Podia lembrar-se da expressão de surpresa quando ela anunciou que estava grávida novamente, das lágrimas de alegria ao pegar Selene no colo. Do sorriso largo que ele deu ao ver que a menina parecia-se demais com ele, diferente de Serena que era a cópia da mãe. Lembrava por fim de quando anunciou sua terceira gravidez e esta com certeza chocou Darien. Foi poucos anos depois do ataque da Black Moon, a cidade ainda se recuperava do trauma, a família real ainda se recuperava do trauma e a rainha tinha certeza que foi o nascimento do terceiro herdeiro que ajudou a colocá-los novamente na trilha de uma vida feliz.

Riu, recordando de como eles juravam que seria mais uma menina. Nas outras gravidez Serenity nunca pediu para saber o sexo da criança pois sempre podia dizer que era uma menina e nas duas vezes esteve certa. Eles praticamente tinham escolhido tudo do bebê na espera da nova garotinha, tinham até um nome: Serenity. Não era original claro, mas a mulher queria seguir a tradição dos nomes com S e relacionados à mitologia lunar. E então, Endie nasceu para o choque dos pais. Era um menino, um inesperado, mas não menos amado menino que Darien mais do que feliz batizou de Endymion. O mesmo Endymion que agora brincava nos grandes jardins reais cobertos com o pai enquanto a rainha observava da entrada do palácio os dois homens de sua vida.

Um trovão ressoou pelos céus da cidade acima da cabeça deles e os olhos azuis da rainha se voltaram para a armação de cristal e ferro que cobria os jardins e depois se voltou para os dois homens ao longe. Darien estava sentado em um banco enquanto observava com olhos atentos Endymion praticar seus poderes em um canteiro de hortênsias. Sorria vez ou outra divergindo a atenção dos documentos em seu colo para o menino que sempre corria para perto do pai para mostrar seu novo feito. Com uma expressão suave o rei elogiava o talento do garoto, lhe afagava os cabelos castanhos, dizia alguma coisa a ele que Endie respondia com um aceno positivo de cabeça e saía correndo de volta para o canteiro deixando o pai voltar aos seus afazeres e fechando a cara novamente.

- Assim inundará a cidade meu amor. - comentou a mulher ao aproximar-se do homem no banco. O rei não desviou a atenção dos papéis que lia e Serenity tinha a certeza de que ele estava no mesmo parágrafo nos últimos dez minutos em que ficara o observando.

- Não sou eu fazendo isso. - defendeu-se o moreno e a rainha deu um leve sorriso divertido para depois soltar um suspiro desolado.

- Darien... - disse com pesar e isto chamou a atenção do homem. Serenity apenas o chamava pelo nome que recebera nesta vida quando o assunto era sério. - Não me agrada em nada colocar as minhas filhas em perigo tanto quanto agrada você. Se eu pudesse, voltava atrás na minha escolha...

- Você pode. - interrompeu o homem. - Você pode revogar o poder de Sailor Moon e destituí-la do cargo. - falou convicto e a mulher soltou outro suspiro.

Esta discussão sobre ter transformado Serena na nova Sailor Moon era antiga. Darien não tinha aprovado a idéia de a filha substituir a rainha como a senshi lunar e durante todos os anos de casados essa fora a única vez que eles discordavam em algo. Entretanto a princesa tinha provado o seu valor quando foi capaz de usar, ainda sendo muito pequena, o Cristal de Prata, embora não soubesse controlá-lo completamente até hoje, mas estivesse aprendendo. Serenity teve que pensar muito nos prós e contras quando a própria filha lhe pediu uma chance de ser a nova Sailor Moon, queria seguir os passos da mãe em todos os sentidos e queria começar cedo e, por isso, depois de muito relutar, ela cedeu ao pedido da menina. Darien, não precisa se dizer, não ficara nada feliz.

E era por isso que ele estava irritado. Selene e Endie ainda não tinham sido atingidos pelo peso de serem os filhos das criaturas mais poderosas da galáxia e por isso não carregavam nos ombros a responsabilidade de protegerem aquele planeta, sendo eles apenas os protegidos. Endie podia ter os seus poderes, mas era novo demais para usá-los e Selene, até onde eles sabiam, só tinha a sua telecinese. Isto até que o poder do Cristal Estelar manifestou-se na filha mais nova deles e o mundo de Endymion ruiu.

Sua menininha foi "convocada para a guerra" e nada ele poderia fazer para mudar isto. O Cristal Estelar parecia ser uma entidade própria que desprezava a opinião de pais preocupados e escolhia aquele que bem lhe conviesse para atender as suas vontades, mesmo que esse alguém ainda fosse uma criança aos olhos de muitos.

- Não posso destituir Serena, pois isto não é uma coisa que eu impus a ela, foi uma escolha da própria e ela aceitou esta responsabilidade. E não posso fazer o mesmo com Selene, pois nós dois sabemos que o Cristal Estelar está fora de nossa jurisdição. Tudo o que podemos fazer é ficarmos quietos, recuar e observar nossas meninas virarem mulheres diante de nossos olhos sem podermos fazer nada. - aconselhou a rainha, lançando um olhar afetuoso a Endie quando este lhe sorriu ao longe.

- Certo, mas isso não quer dizer que eu sou obrigado a concordar ou aceitar este acordo. - resmungou o rei e Serenity riu, lhe acariciando uma bochecha e beijando-lhe levemente os lábios.

- Ninguém pediu isso meu amor... enquanto nossas poderosas neo guerreiras nos tiverem nos bastidores as protegendo, tudo ficará bem. - sorriu confortador para ele, mas Darien não pareceu melhorar o humor.

- Nem tanto... ontem...

- Darien... nós dois sabemos que os ferimentos, a experiência de quase morte, são os riscos deste "trabalho". Eu fico com o coração na mão cada vez que elas vão para a batalha. Todas nós ficamos. - disse, lembrando-se das conversas que tinha com suas amigas nos encontros semanais com as outras senshis e de como o assunto principal delas eram os filhos, mas, principalmente, as filhas sailors. De como cada uma ficava apreensiva cada vez que as meninas iam para a batalha.

Mesmo que não tenha ocorrido muitos incidentes durantes os últimos anos, sempre havia uma invasão menor aqui e acolá e embora muitas vezes o inimigo fosse fraco, isso não diminuía a preocupação das mães. A vontade de muitas delas era de trancar as meninas em seus quartos e elas irem para a guerra. Mas as inners senshis não eram mais tão novas, embora aparentassem ser, e a "guerra" já as tinha estafado o suficiente e deixado várias marcas que elas não sabiam se iriam suportar.

As senshis admitiam que era hora de ceder lugar a nova geração, mas, mesmo assim, relutavam em deixar o posto visto que suas substitutas eram aquelas que as mulheres juraram proteger com a vida enquanto as carregaram em seus ventres por nove meses.

Diziam que conciliar trabalho e maternidade era difícil, e elas poderiam dizer que sofriam do problema em dobro. Por um lado tinham que lutar ao lado das filhas e prepará-las para assumirem seu lugar, as repreendendo e as ensinando como suas sênior. Por outro o instinto materno gritava para tirar aquelas meninas da linha de fogo e protegê-las pelo resto da vida em uma redoma de cristal. Uma contradição imensa que com certeza nunca seria aplacada não importa quantos anos passem e o quão competentes as Neo Sailors se tornassem.

- E se não confiarmos nelas jamais conseguiremos dormir a noite. - completou a mulher e Darien soltou um suspiro desolado. Serena estava certa, sempre estava certa e ele não podia tirar a razão dela. Aos poucos a tempestade foi passando e o céu clareando, voltando a ser azul e límpido em poucos minutos. - Agora você precisa pedir desculpas a sua filha e fazê-la ver que você não está irritado com ela. Selene está com a tola impressão de que tem uma ameaça iminente de castigo sobre a cabeça dela. - o rei fez uma careta de desagrado. Pobre de sua filha, a culpa nem tinha sido dela desta vez e a pobrezinha deveria estar achando que estava com problemas.

Decidido, ele ergueu-se do banco e ajeitou as roupas de maneira displicente, guardando os documentos que lia em uma pasta e a estendendo para Serenity. Com um beijo de despedida afastou-se da esposa, indo cochichar alguma coisa no ouvido do filho que sacudiu a cabeça positivamente e continuou a praticar. Assim que o homem sumiu dentro do castelo, a rainha foi até o seu caçula, ajoelhando-se ao seu lado e começando a conversar com ele.

- E então? O que o meu pequeno príncipe aprendeu hoje? - Endie deu a mãe um enorme e brilhante sorriso e Serenity não pôde deixar de admirar em o quanto ele se parecia com o pai quando sorria, e começou a explicar para a mulher o que conseguira fazer com os seus poderes até agora, os entretendo até a hora do almoço.

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Era como se ela tivesse mudado da água para o vinho, Hans pensou quando observou de longe da varanda de seus aposentos a chegada da princesa Selene. Ela vestia o uniforme da escola, o mesmo que dias atrás lhe deu uma bela visão da jovem durante uma certa tarde de tempestade. Carregava em um dos ombros sua bolsa e tinha um ar abatido ao seu redor.

Inconscientemente os olhos do zathariano vagaram para o relógio pendurado em uma das paredes apenas para ver quem eram três e vinte da tarde. Se não estava enganado, as escolas terrestres terminavam seu horário de aula as três, não era verdade? De qualquer maneira o problema não era este, mas sim o fato da princesa ter mudado. Não com as outras pessoas é claro, com elas parecia não haver diferença nenhuma nas atitudes da garota, mas, com ele, a história era outra.

Selene não mais corava quando ele flertava com ela, embora os longos olhares apreciativos ainda estivessem lá, pelo contrário: cada vez que o homem se aproximava da jovem ela mudava completamente a sua postura, fechando as expressões e o encarando com desconfiança como se estivesse avaliando qual seria o próximo passo dele. Procurava manter distância e evitar ficar sozinha no mesmo aposento que o homem e Hans tinha que confessar que isto estava começando a lhe dar nos nervos. Tinha apenas uma semana para arrancar da garota quem era Sailor Estelar e não conseguiria nada se a menina continuasse a ignorá-lo como se ele fosse uma praga.

Decidido, deu meia volta pronto para sair do quarto e interceptá-la, resolvendo que agora pegaria pesado em seus planos, quando foi barrado pela entrada de Eileen no aposento. Franziu as sobrancelhas para a mulher, confuso sobre o que ela fazia ali. Outra coisa que também o estava tirando do sério era o fato de como Aldric e Eileen tinham se acostumado com a vida no palácio mesmo diante de todos os problemas que eles estavam enfrentando. Era que se os dois tivessem esquecido do verdadeiro motivo da vinda deles a Terra.

Aldric passava parte de seu dia ou na biblioteca do castelo ou conversando assuntos sobre a cultura terrestre com o conselheiro do rei, Artemis. E na outra metade ficava xavecando com a princesa Serena. Eileen passava quase o dia todo na companhia da rainha em conversas de mulheres e tornando a soberana a sua mais nova melhor amiga e não se surpreendia das duas terem se dado tão. Afinal, na personalidade elas eram muito parecidas. E quanto a ele? Ele era o idiota que sofria tendo que resolver todos os problemas sozinho e isto era frustrante.

- Eu sei o que está pensando Hans... - disse a mulher quando viu a expressão no rosto do homem. - também me preocupo com o que poderá acontecer se não conseguirmos completar a nossa missão. Acha que quero ver meu povo sofrer? Mas ao mesmo tempo sinto remorso. A rainha Serenity e seu povo não merecem a apunhalada que lhe daremos pelas costas. - falou e viu o rosto dele fechar-se mais ainda. Hans poderia não sentir-se culpado e usar a justificativa de tudo ser por "um bem maior" para poder desculpar seus atos, mas ela sentia remorso. Os soberanos deste planeta os abrigaram sem muitas perguntas e confiaram neles, apenas para serem traídos de maneira tão vil.

- Pare de sentir pena! - o homem vociferou. - Não estamos declarando guerra contra a Terra... estamos aqui atrás apenas de uma pessoa e isso não afetará em nada este planeta.

- Acha que ele não virá atrás da Terra depois de ver que esta carece de um guardião? - explicou Eileen e Hans soltou um ruído de escárnio.

- Esse não é o interesse dele, sabe disso, então esse planeta que parece que você está aprendendo a amar mais que Zathar estará seguro. - zombou e a mulher fez uma carranca, apontando um dedo em riste em frente aos olhos dele.

- Jamais diga que eu deixei de amar Zathar. - esbravejou. - Jamais diga que eu não seria capaz de sacrificar tudo pelo nosso povo e é por isso que eu digo que o que estamos fazendo é cruel. Serenity sempre sacrificou tudo pelo povo dela e eu sei como eu me sentiria se estivesse no lugar dela e fosse traída...

- Pare o drama! Ela só vai perder uma sailor, depois supera. - Hans já estava ficando cansado dos sermões da mulher e sinceramente não tinha mais tempo para isso.

Eileen apenas o olhou longamente com uma expressão estranha no rosto e o cavaleiro teve a sensação de que estava sendo deixado de fora de alguma coisa, alguma coisa importante. A zathariana parecia saber de algo e ele tinha a impressão que o segredo dela era justamente o que ele estava procurando.

- Você sabe de algo, não sabe? Por isso está me pedindo misericórdia. - acusou, aproximando-se dela e segurando com força em seu braço magro. - O que você sabe? - exigiu, a sacudindo com força, mas Eileen permaneceu impassível e calada. Hans apenas a olhou longamente a avaliando e depois de um breve momento pareceu encontrar a sua resposta. - Você sabe quem é Sailor Estelar!

Eileen apenas ficou olhando para o homem depois desta acusação, virando o rosto desinteressada para ele não ver a verdade estampada em seus olhos azulados. Sabia quem era Sailor Estelar, confessava, descobrira isto no primeiro momento que vira a guerreira, como Hans não conseguia ver? A semelhança da senshi com a segunda princesa era gritante e o modo como ela interagia com o casal real era mais do que pista.

Serenity e Endymion dispensavam as suas guardiãs o mesmo tipo de preocupação quando elas se feriam em batalha, mas com Sailor Moon e Estelar a atitude dos dois soberanos era diferente e Eileen sendo mãe conseguia facilmente reconhecer nos gestos e palavras do rei e da rainha a preocupação paterna. Somente Hans não via o óbvio e a mulher não iria ajudá-lo neste caso. Amava seu planeta, amava o seu povo, mas ao mesmo tempo sofria em pensar o tamanho do mal que faria para poder ajudar a sua gente. Era mãe e, no momento, seu coração de mãe sobrepunha-se as suas responsabilidades e não tinha coragem de enfiar este punhal no peito da rainha e feri-la desta maneira.

- Eileen... - o homem começou em tom de ameaça, mas ficou quieto quando frios olhos azulados o encararam.

- Não Hans! Eu quero tanto quanto você salvar Zathar... mas estou começando a reconsiderar esta idéia absurda. Ferir alguém no processo... É uma vida, não importa que seja apenas de uma pessoa, é uma vida. Uma vida não vale mais ou menos do que milhares. - o advertiu e virou-se bruscamente, saindo do quarto com o seu longo vestido farfalhando ao passar pela porta.

Hans soltou um suspiro exasperado, passando as mãos pelos cabelos em um gesto nervoso. Eileen sempre fora a sua consciência, mas, no momento, estava dispensando os conselhos dela. Situações desesperadas pediam por medidas desesperadas. Decidido saiu do quarto a procura da princesa esquiva e a encontrou no meio do corredor conversando a baixas vozes com o rei.

Observou quieto e de longe os gestos corporais de ambos, o modo como a garota parecia tensa enquanto Endymion falava e falava até que o homem soltou um suspiro, passou a mão pelos cabelos negros e sorriu levemente para a jovem, a puxando pelo ombro e lhe dando um abraço que obviamente, pela expressão no rosto dela, a pegou de surpresa. O rei sussurrara algo no ouvido da menina, pois logo a face surpresa foi desfeita para dar lugar a um grande e brilhante sorriso e a garota afastou-se do pai, dando-lhe um estalado beijo na bochecha e dizendo algo para o homem que praticamente o fez irradiar de alegria. Endymion afagou o rosto da filha e com algumas últimas palavras e um sorriso ele partiu, deixando a menina sozinha no corredor.

O zathariano continuou observando em silêncio em como a adolescente parecia muito mais relaxada depois da conversa com o pai e em como o rosto dela ainda ostentava o sorriso que parecia não querer sumir de jeito maneira. Saltitante ela virou-se para seguir seu caminho, mas quando os seus olhos recaíram sobre a postura quieta do guerreiro o sorriso morreu em questão de segundos e a expressão fechada que ela costumava adquirir nos últimos dias perto dele retornou.

Inspirando profundamente Hans começou a andar em direção a ela sentindo seu coração estranhamente pulsar mais rápido no peito e suas mãos tremerem. Fechou os dedos em um punho firme até que chegou perto o suficiente da jovem para conversar com ela em um tom baixo e discreto.

- Oi. - disse bestamente e sentiu vontade de se bater não compreendendo o que tinha acontecido. Tudo o que conseguira dizer na presença da garota era um mísero oi? Por quê? O que tinha mudado no relacionamento deles nas últimas horas? Isso se pudesse chamar seus encontrões pela cidade ou pelo castelo e as conversas que se resumiam com ele a flertando e ela corando de relacionamento. Por seu lado Selene apenas arqueou uma sobrancelha para ele e deu meia volta pronta para seguir seu caminho quando foi parada pela mão poderosa do homem em seu pulso. Suspirou, eles já não tinham vivido esta cena antes?

Uma sensação de dejá vu invadiu Hans diante da posição que eles se encontravam e por um breve momento as lembranças pareceram aflorar e se mesclarem em uma só, causando uma confusão aos seus olhos. Por segundos o que ele vira era Lila sendo segura pela sua mão para depois a imagem dela ser trocada por Sailor Estelar até finalmente retornar a figura da princesa que o observava com uma expressão curiosa no rosto. Aturdido a soltou bruscamente sem dizer palavra e ficou a encarando sem saber direito o que fazer e com perguntas pipocando em sua cabeça. Será que o estresse estava começando a afetá-lo? Porque com certeza ele estava vendo coisas.

- Bem, se isso é tudo o que você tem a dizer. - Selene virou-se novamente com toda a intenção de desta vez ir embora, mas o chamado de Hans a prendeu no lugar e ela soltou um grunhido sofrido.

- Princesa Selene. - disse em um tom mais firme e aparentemente normal a seu ver. Seu coração parecia ter recuperado as batidas e suas mãos não mais tremiam, o que era um progresso. - Não compreendo, eu fiz alguma coisa a vossa alteza para subitamente ser tratado com tamanho desprezo? - perguntou em seu tom polido e refinado e Selene franziu as sobrancelhas. Se ele tinha feito algo? Bem, tecnicamente ele tinha.

O homem tinha a repreendido se achando no direito de lhe passar um sermão como se fosse o seu superior e isto havia enfurecido a garota. Poderia agüentar os chiliques de Sailor Moon como líder das neo senshis, afinal, tecnicamente, ela era a sua sempai, mas ele não. Hans não era o seu comandante e por isso não tinha o direito de adverti-la de nada. O problema era que não poderia dizer isso a ele pelo simples fato que quando o homem fizera isso ela estava como Sailor Estelar em vez de Selene.

- Me desculpe. - disse com dificuldade, pois a última coisa que sentia era culpa pelo tratamento frio que estava dispensando ao zathariano. - É aquele dia do mês. - justificou-se mal humorada e não conseguiu disfarçar um sorriso ao ver a expressão confusa do outro. - Bem... não sei o quanto o sistema reprodutivo das zatharianas diferem das terráqueas... mas ainda acho que elas uma vez por mês. - fez um gesto deslizando a mão acima do abdômen em direção as pernas e pela primeira vez viu com prazer as bochechas morenas adquirirem um tom rosado. Então o impenetrável Hans'Ark-Ra era capaz de ficar embaraçado? Que progresso.

- Oh... entendo. - falou com a voz quase sumida e o descompasso em seu coração retornou e suas mãos agora suavam frio. O que diabos havia de errado? Será que fora algum efeito colateral do encontro que tivera com ele? - Mesmo assim... - pigarreou tentando recuperar seu tom calmo de voz. - ainda sinto que fiz algo errado e preciso compensar pela minha gafe. - explicou-se e Selene apenas o ficou encarando esperando até onde essa história iria. - Gostaria de saber se a princesa me concederia a honra de sua companhia em um passeio. - finalizou, estendendo o braço em um convite.

Os olhos azulados fixaram-se na mão estendida e depois se voltaram para o rosto sério do zathariano sem saber direito o que fazer. Essa era nova. Geralmente Hans lhe lançava olhares de luxúria e falava em tons sedutor que sempre a faziam corar, mas, desta vez, sua postura era tranqüila, seu rosto estava impassível e seus orbes verdes possuíam um certo brilho na esperança de que ela aceitasse o convite.

- Agora? - falou incerta, procurando na memória qualquer desculpa que pudesse a livrar deste embaraço. Nunca estivera em um encontro antes, mesmo que a oferta com certeza tenha sido feita com intenções amigáveis, mas, mesmo assim, a sua mente adolescente não podia ignorar o fato de que estava prestes a sair com um homem mais velho. Um homem mais velho e extremamente belo e sedutor, o que a fazia se sentir um pouco boba e ao mesmo tempo deliciada.

- A não ser que a princesa tenha algum outro compromisso inadiável... - completou cortês e com um sorriso que fez Selene sentir-se como das outras vezes em que Hans sempre dispensava a sua completa atenção a ela. Suas pernas viraram gelatinas e borboletas começaram a revirar-se em seu estômago, ajudando o sangue a circular mais rápido até as suas faces.

- Não! Quero dizer, estou livre como um pássaro. Se você apenas esperar um momento para eu me trocar. - e apontou para o uniforme que vestia antes de sair em disparada em direção ao seu quarto e entrar afobada no mesmo, jogando a mochila no chão e abrindo as portas do closet, praticamente o colocando abaixo a procura de uma roupa adequada para o passeio e quase arrancando os cabelos ao ver entre as centenas de peças nada que fosse satisfatório. Por um momento pensou em atacar o guarda roupa da irmã até que conseguiu achar em meio as suas coisas algo adequado.

Hans esperou pacientemente por dez minutos e ficou surpreso quando viu a menina retornar apressada para onde ele estava.

Sorriu um pouco ao ver a figura se aproximando com os cabelos presos em uma longa trança, deixando alguns fios soltos aqui e acolá. Ela usava uma maquiagem leve e quase imperceptível, uma saia jeans que ia até parte das coxas com uma bata branca com algumas rendas e um laço de fita azul bebê e um tênis branco e azul completavam o visual. Era tudo muito simples, mas que denunciava a idade dela de tal maneira que fez outra onda de culpa assolar o zathariano antes de ele sacudir a cabeça espantando este sentimento e estendendo mais uma vez a mão para ela. Selene mais do que depressa se pendurou no braço forte e deixou-se feliz ser guiada para fora do castelo.

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O centro comercial estava cheio e agitado e nos primeiros momentos em que eles entraram no local rapidamente atraíram a atenção de várias pessoas que apontavam para o casal nada usual. Muitos cochichavam o nome da morena em seus braços, a reconhecendo como a princesa de Tóquio de Cristal, alguns até aproximavam-se deles pedindo para bater fotos e por alguns autógrafos.

Selene poderia não ser uma artista, mas ainda sim era uma pessoa famosa e por isso o surpreendeu com a paciência com que recebia as pessoas e atendia os seus pedidos, sempre sorrindo ao assinar seu nome em uma folha de papel ou para a câmera digital ao bater a foto. Quando o furor da presença da jovem diminuiu, novamente ela pendurou-se em seu braço e com uma força descomunal para uma menina da idade e físico dela, começou a arrastá-lo pelas ruas cheias, parando de vitrine em vitrine e apontando para as peças expostas, soltando um comentário uma vez ou outra sobre os produtos.

- Olha que lindo! - gritou extasiada, soltando-se dele apressadamente e serpenteando as pessoas que iam em todas as direções, correndo até uma loja do outro lado daquela praça e parando em frente a vitrine onde um longo vestido azul cintilante era exposto. - Não é lindo? - perguntou quando o homem aproximou-se e parou ao lado dela.

Hans apenas deu de ombros. Nunca tivera bom gosto para nada, principalmente para roupas, e geralmente quem escolhia o seu guarda roupa era a sua irmã caçula que não suportava a idéia do guardião ficar feliz andando em tecidos baratos e que aparentemente eram extremamente desconfortáveis. Ainda preso nessas lembranças assustou-se quando uma mão pequena envolveu a sua e o puxou para dentro da loja.

Enquanto isto, Selene conversava animadamente com a atendente e apontava para o vestido na vitrine, ainda segurando a mão do zathariano e nem se importando com o fato de que esse simples gesto despertava os olhares curiosos de quem estava dentro do recinto e gerava alguns cochichos nada silenciosos.

- Será que estão juntos? - comentava um grupo de senhoras perto de um provador.

- Ele é muito velho para a princesa, não acha? - disse outra mulher.

- Velho? Ele me parece muito bem apessoado. - mais uma entrou na conversa, apontando para eles enquanto falava.

- Eu estou apenas dizendo... quantos anos ele deve ter? Trinta? Princesa Selene só tem quinze anos... Quem é este homem? Como o rei Endymion permitiu isto? Será que ele sabe disso? - continuou a mulher, mas calou-se quando percebeu o olhar gelado de Hans sobre a sua pessoa. A senhora deu um sorriso sem graça ao homem e voltou aos seus afazeres com o rosto vermelho de vergonha por ter sido flagrada.

- Eu volto já! - a voz de Selene chamou a atenção dele para ela e sua mão formigou de saudade quando a mão dela soltou-se da sua. Mexeu os dedos para espantar a sensação antes de escondê-los no bolso da calça que usava e observar quieto a alegre princesa entrar em um provador com o vestido em mãos. Resignado, encaminhou-se até umas cadeiras acolchoadas e sentou-se elegantemente nelas, apenas esperando.

Quando convidou a menina para sair para assim aproximar-se dela, não tinha em mente ser arrastado para as compras pela garota até que a conversa das mulheres o lembrou que estava lidando com uma adolescente. Entediado, esperou pacientemente enquanto ela se trocava até que a cortina do provador abriu-se em um deslizar. Desinteressado ergueu seus olhos de um fio solto na manga de sua camisa para a jovem parada na sua frente em expectativa para saber a opinião dele.

Hans franziu as sobrancelhas. Admitia que o vestido tinha caído muito bem na garota abraçando todas as suas curvas, com o decote discreto automaticamente chamando a atenção de qualquer um para o vale entre os seios bem formados e as pequenas e trançadas tiras que serviam como alça deslizavam sobre os braços com suavidade, deixando os ombros desnudos e o colo mais amostra. Ela deu um giro, expondo o enorme decote em v nas costas esguias enquanto o tecido da saia descia suavemente como ondas de seda e mais seda até cobrir os pés que ele viu divertido ainda estavam dentro do par de tênis.

- Alteza! - uma vendedora aproximou-se da jovem com um par de sandálias brancas o que fez rapidamente a menina descartar seus calçados e colocar as sandálias, a fazendo ganhar alguns centímetros a mais de altura e impedindo que a barra do vestido esfregasse no chão. Satisfeita ela correu até um espelho para corpo inteiro na parede aos fundos da loja, ao lado dos provadores, e ficou se avaliando.

- E então? - Selene virou-se em expectativa para um Hans ainda calado. - Não vai dizer nada? - perguntou ao homem extremamente quieto e neste momento daria tudo para ter o poder da irmã e saber o que ele estava pensando. O zathariano por sua vez pensava em como ela ficava bem naquela roupa e imaginava se ela ficaria melhor sem o vestido. Ou sem nenhuma peça de roupa para dizer a verdade.

Seus olhos alargaram-se de maneira imperceptível e ele inspirou profundamente para espantar tais pensamentos impuros. Não tinha mais idade para ficar reagindo como um jovem controlado por hormônios na presença de uma mulher bonita.

- Ficou... interessante. - disse por fim para retirar aquele olhar intenso de sobre si. Selene fez um biquinho frustrado e cruzou os braços sobre o peito indignada e ele viu com interesse que as vendedoras lhe lançavam olhares assassinos. Será que era por que não havia bajulado a princesa como era esperado de todos?

- Que falta de educação dizer a uma dama que ela está interessante... - as mesmas senhoras de mais cedo comentaram. - Não se diz a uma menina tão bonita que ela está interessante, é falta de tato! - as mulheres o repreenderam e Hans apenas as encarou com uma expressão impassível, o que arrancou uma risada de Selene.

- Está tudo bem. - a jovem disse para poder acalmar as mulheres que estavam prontas a colocar algum senso a força dentro da cabeça dura do zathariano. - Eu sempre tive a impressão de que ele nunca fora de soltar elogios de graça, então acho que o interessante é mais do que bem vindo. - explicou-se e ainda rindo voltou para o provador, retirando o vestido e as sandálias, colocando a sua roupa novamente e entregando a peça a vendedora que perguntou algo a ela que a princesa respondeu com um aceno negativo de cabeça. A adolescente voltou para perto do homem, estendendo a mão a ele que prontamente aceitou e novamente de mãos dadas ambos saíram da loja.

- Não vai levar o vestido? - perguntou curioso, pois ela parecia ter gostado da roupa.

- Não... até porque nem saberia quando usá-lo. Não há uma festa ou coisa parecida agendada nas tarefas reais pelos próximos dois meses, então seria desperdício de dinheiro. - deu de ombros, voltando a puxá-lo pelo centro comercial.

A tarde passou surpreendentemente rápida para ambos e Hans tinha que admitir que embora a maioria dos programas escolhidos por Selene estava fora de sua faixa etária, ainda sim ele se divertira. A princesa tinha uma energia que sinceramente o fazia se questionar de onde ela herdara tanto pique visto que o rei e a rainha pareciam ser tão calmos, mas seus filhos não. Durante todo o tempo do passeio a garota o levara para vários pontos diferentes da cidade e o curioso é que a maioria deles nem eram pontos turísticos que faziam milhares de pessoas ao redor do mundo irem para Tóquio apenas para vê-los.

Ao contrário.

Ela o levara a sua lanchonete/loja de jogos favorita, uma cadeia que aparentemente pertencia a um velho amigo da família real. O levara a um parque onde ela costumava se isolar quando queria tranqüilidade, a um velho templo de alguns conhecidos, ao cinema, e por fim o encontro deles terminara com ambos sentados no topo de uma das torres do palácio de cristal e cujo acesso era um longo lance de escadas que desencorajava qualquer um. Os dois tinham cones de sorvetes quase terminados e derretendo nas mãos e observavam em um silêncio calmo o sol se pôr no horizonte.

Quando a primeira estrela surgiu no céu, Selene terminou o seu sorvete, lambendo displicente alguns dedos sujos pelo doce antes de voltar a sua atenção para as últimas cores que o astro rei pintava na atmosfera terrestre. Logo ele desapareceu no horizonte, cedendo lugar ao manto negro que cobria a cidade e a lua cheia e vigorosa que nascia por detrás de um monte a distância.

A atenção da menina voltou a sua companhia que parecia extremamente fascinado em observar um fenômeno aparentemente tão banal e a garota perguntou-se como deveria ser o pôr-do-sol e o nascer da lua em Zathar. Era diferente? Tinha a mesma magia quando observado mais atentamente? O planeta do homem tão misterioso ao seu lado era semelhante ou diferente da Terra?

- Como é? - deu voz as suas perguntas e Hans inclinou um pouco a cabeça para poder a olhar melhor.

- Como?

- Como é o pôr-do-sol em Zathar? E o nascer da lua? - continuou genuinamente curiosa e o guardião voltou-se para mirar a lua cheia que subia lentamente aos céus.

- O sol de Zathar é mais fraco e, portanto, não ilumina tanto ou produz cores tão belas quanto este. - começou a explicar em um tom baixo de voz, sentindo que se falasse mais alto quebraria todo o encanto da cena. - O planeta tem três luas que usamos para contar os ciclos... o que para vocês seriam anos. Cada lua de zathar leva quatro meses de rotação em torno do planeta para completar todas as suas fases. Com três luas levando quatro meses de rotação temos um ano. Um ano de ciclo lunar é como é contado o tempo em nosso planeta. Sem contar que cada lua possui uma cor diferenciada que a fez receber nomes que as associem a esta cor. Satélite Niphyr é a lua vermelha, niphyr é vermelho em nossa língua. Satélite Uake é a lua azul, uake é...

- Azul na sua língua? - completou Selene com um sorriso e Hans assentiu positivamente com a cabeça.

- Satélite A-aiê é a lua cinza. Não preciso dizer o que a-aiê significa, preciso? - a menina deu um aceno negativo com a cabeça. - Nenhuma de nossas luas é tão branca e tão pura quanto a de vocês e por isso o espetáculo não é tão encantador. Mas, mesmo assim, Zathar não deixa de ser um lindo planeta com sua beleza gelada e seu povo caloroso apesar do clima frio. Suas cidades movidas a magia e suas crenças, festas e alegria. - dizia em um tom saudoso com a visão distante como se pudesse observar ao longe a capital Za-Xmyr bem diante de seus olhos, movimentada com as pessoas indo de um lado ao outro seguindo as suas vidas, as crianças correndo pelos parques sob o olhar atento das mães, os magos e feiticeiras, sacerdotes dos templos dos Deuses, os cientistas, empresários, estudantes, pessoas comuns dando bom dia uns aos outros mesmo que fossem meros desconhecidos.

E o palácio no topo do morro acima da cidade onde a vista era plena e privilegiada, cercado por altas grades de prata e cobre e com os portões sempre abertos para acolher qualquer pessoa com problema. Tudo destruído por causa de uma única pessoa.

Não sabia o nome dele, apenas sabia que ele apresentara-se como "senhor", exigia ser chamado como tal e chegara de surpresa em Zathar com o seu exército incontável que reunia mercenários, piratas, bandidos, traficantes, feiticeiros das trevas, guerreiros desonrados que recolheu de todos os cantos do universo.

A primeira vista pensou que ele queria o mesmo que todos os outros que tentaram invadir o planeta antes: o controle absoluto sobre a extração e exploração da zaphira, mas não, o que ele queria era bem pior. Queria algo que era contado de pai para filho em lendas que construíram a cultura de Zathar, algo que não era registrado nem em livros.

Ele queria Mar'De-Gra.

A história não era clara, somente sacerdotes muito antigos e estudiosos da cultura do planeta a conhecia em partes, mas o pouco que aprendera sobre ela durante seus anos de treinamento fazia o seu corpo tremer só de imaginar.

Mar'De-Gra fora um Deus que há muitos milênios atrás vivera pacificamente com os outros Deuses no panteão de Zathar. Ao menos Deuses eram os títulos que eles recebiam. Hans sabia que os homens e mulheres para quem o seu povo rezava e pedia por bençãos na verdade foram apenas criaturas extremamente poderosas que cansados das injustiças ao longo do universo resolveram procurar abrigo em um lugar diferente, construir uma sociedade utópica que centenas de séculos depois se constituiria no planeta que ele conhecia hoje. E De-Gra fora uma dessas criaturas. No início dócil e solícito em realizar com os companheiros tal sonho que aos poucos foi prosperando e tornando-se realidade e aí que o problema começou.

As disputas de quem assumiria este sonho tornaram-se violentas, logo eles começaram a discordar sobre a divisão da liderança entre várias pessoas. De-Gra e mais alguns outros companheiros tinham idéias próprias de como governar Zathar, seu povo que aos poucos crescia e se desenvolvia, sua economia que começava a se expandir diante da descoberta da zaphira, sua relação com os outros planetas. Idéias essas cujas conseqüências não seriam as mais favoráveis para o planeta e com isto eles encontraram oposição em Noir'Zac-Ra e em seus aliados no que resultou em uma "guerra santa" inigualável que quase levou a extinção de Zathar.

No final, a lenda dizia que Zac-Ra conseguira durante o ápice da batalha unir todo o seu poder e os de seus aliados e trancafiar De-Gra em um mundo escuro e desconhecido e criara uma chave que era o único acesso a este mundo. Uma chave extremamente poderosa, uma entidade constituída de pura energia e vida e que parecia ter uma inteligência própria. Algo tão grandioso que Zac-Ra a temia imensamente, não com medo que ela se voltasse contra ele, mas com medo que ele a traísse e quisesse para si todo o seu poder.

Com isto, o Deus libertou a chave no Universo com a instrução de que ela procurasse guardiões dignos de seu poder e que fossem usar este novo dom para proteger os inocentes da mesma maneira que Zac-Ra a usou para salvar Zathar e com isto a chave desapareceu por milênios. Até que um tempo depois começou a vagar por todos os quadrantes os boatos de uma raça de guerreiros que se denominavam "Guardiões Estelares" e que tinham, dentre tantos poderes, a capacidade de abrir portas para outros mundos.

- O que foi? - Selene o chamou quando o viu por minutos perdido em pensamentos.

- Nada... só lembrando. - Hans justificou-se e recebeu da menina um olhar de compreensão que ele não entendeu.

- Deve ser difícil largar tudo para trás, um lar que se ama por causa de alguém ganancioso. - murmurou a jovem e o homem assentiu com a cabeça. - Entendo como se sente. - completou e o zathariano a encarou brevemente.

- Entende? - perguntou descrente. Quando ela poderia compreender o que ele estava sentido? Sua frustração, sua raiva, seu medo pelo povo que deixou para trás e pelos tão poucos que ele conseguiu salvar? Viu o rosto bonito da garota fica extremamente sério e ela começar a explicar o porquê de compreendê-lo tão bem.

- Quando Black Moon atacou o reino foi tão de repente que não tivemos como reagir, minha mãe foi ferida e aprisionada em coma em uma redoma de cristal criada pelas senshis por proteção. As inner senshis usaram seu poder para erguer uma barreira em volta do castelo visto que não era possível usar o poder do Cristal de Prata, lugares e pessoas destruídos e mortas, meu pai ferido e também em coma, somente a projeção dele perambulando pelo palácio como um fantasma. Eu tinha quatro anos, mas eu me lembro completamente da escuridão que tomou conta dos céus por meses, do aroma de medo e morte no ar. Minha irmã tinha sumido no tempo e espaço a procura de ajuda e eu fiquei para trás sozinha em uma casa que mais parecia um mausoléu. Eu visitava a minha mãe todos os dias e contava o que tinha feito e me sentia como se estivesse visitando uma tumba. Meu pai estava sempre ao meu lado, mas eu não podia abraçá-lo pedindo conforto para os pesadelos e o olhar triste que ele sempre carregava era desesperador. As others senshis praticamente foram a minha família nesta época e é por isto que eu me relaciono melhor com elas do que com as outras sailors. Meu lar tinha sido destruído e eu confinada a um mundo estranho que estava longe de ser aquele no qual eu cresci. - completou com um suspiro sem perceber que havia lágrimas escorrendo de seus olhos.

Inconscientemente Hans levou a mão até o rosto da menina, secando as lágrimas que deslizavam sobre a pele macia e acariciando a bochecha rosada em um gesto instintivo. Levemente ela inclinou a cabeça a apoiando na palma da mão do homem e soltando um suspiro apreciativo diante do gesto de conforto. Os dedos de Hans deslizaram da bochecha aos cabelos da jovem, forçando as mechas para fora da trança até que o laço que o prendia caísse esquecido no chão e os fios negros rodeassem a garota como um manto, causando um grande contraste com a sua pele clara. Selene ofegou diante do gesto de afeição e seu coração deu um pulo quando aos poucos o zathariano foi guiando o rosto dela para mais perto do seu.

Hans'Ark-Ra não sabia o que fazia e no presente momento não se importava, apenas sabia que quando a viu sentada ao seu lado sendo banhada pela luz da lua como alguma entidade mitológica não conseguiu evitar em se aproximar dela com a avidez de um mero mortal querendo alcançar uma Deusa e sabendo que estava cometendo uma heresia só de pensar nisto.

No momento que as primeiras palavras saíram da boca da princesa e ela adquiriu uma postura tão triste, tão séria, quis absurdamente consolá-la, trazer de volta aquela menina radiante que o acompanhou pela tarde inteira para cima e para baixo pela cidade. Ao ver os belos olhos azuis marejados quis de qualquer maneira afastar as suas lágrimas e fazê-la sorrir novamente. Não conseguia entender de onde tantos sentimentos tinham brotado de maneira tão súbita quando até ontem ela não passava de mais um peão em seu grande e perigoso jogo de xadrez, mas agora não conseguia reprimir e quando deu por si os seus lábios já cobriam os lábios vermelhos e bem desenhados da menina.

O beijo não fez estalar fogos para ambos, ou trazer aquela sensação de friozinho na barriga que diziam que vinha com ele, mas na verdade trouxe uma sensação de paz e compreensão entre os dois inexplicável. De certa maneira eles sentiram neste simples roçar de lábios que estavam ligados, apenas não sabiam dizer o porquê e a medida que a língua do zathariano explorava a boca da princesa, qualquer pensamento racional fugia de sua cabeça. As mãos tímidas da jovem apoiaram nos ombros largos antes de deslizarem pela nuca dele e embrenharem-se nos cabelos claros, aproximando mais seus corpos e fazendo o guardião perceber em como eles se encaixavam com perfeição.

O beijo encerrou-se tão subitamente quanto começou e aos poucos eles se afastaram, olhando nos olhos um do outro em silêncio e depois virando o rosto para encarar a lua sem dizer uma palavra. Ficaram assim por incontáveis minutos com cada um ponderando o que tinha acontecido entre eles, tentando compreender de onde viera aquela reação tão instintiva, mas que, ao mesmo tempo, pareceu tão natural. Diziam que o primeiro beijo de um casal era estranho, era o beijo da descoberta, onde eles ainda aprendiam a aceitar o toque íntimo alheio. Mas entre os dois pareceu que o toque já era mais do que conhecido e que ambos já haviam passado da fase do estranhamento para a familiaridade em poucos segundos.

Selene ainda silenciosa tateou o chão a sua volta à procura de seu prendedor de cabelo, o encontrando a poucos centímetros de distância de seu corpo e com os dedos penteou as mechas negras antes de começar a puxá-las para formar um rabo de cavalo. Quando estava prestes a prender os fios, uma mão grande sobre a sua a parou e ela abaixou os braços com uma expressão interrogativa no rosto ao encarar Hans.

- O que foi? - perguntou ao ver que o zathariano tinha criado subitamente uma grande fascinação pelo seu cabelo, pois agora deslizava os dedos por entre os fios escuros de maneira quase reverente.

Levemente ele deu um puxão nas mechas, forçando a cabeça da jovem a se inclinar um pouco para frente e mais uma vez tomou os lábios vermelhos e cheios com os seus, os explorando vagarosamente como se fosse a primeira vez que os provava. Desta vez o beijo prolongou-se, com eles disputando uma luta silenciosa de lábios contra lábios e as mãos distraídas vagando pelos braços, ombros, cabelos e qualquer parte do corpo que fosse permitido tocar sem ultrapassar nenhum limite.

Segundos pareceram séculos até que ambos se separaram, a respiração descompassada e as bochechas levemente rubras a única pista de seus atos anteriores. Distraída, Selene voltou o seu olhar para o céu que começava a ser pipocado por várias estrelas brilhantes e para a lua que terminava a sua ascensão pelo manto negro. Soltou um suspiro, apoiando as palmas das mãos no chão as suas costas e inclinando um pouco o corpo para trás para poder observar quieta o espetáculo noturno. Hans apenas abraçou um joelho perto do peito e apoiou o queixo sobre os braços cruzados. O silêncio entre eles estava longe de ser do tipo constrangedor, aquele que surgia depois de alguma cena ou ato vergonhoso, na verdade era confortável e bem vindo, até que um som estridente o quebrou de maneira violenta.

A princesa deu um pulo no lugar e recolheu do bolso o que pareceu aos olhos do zathariano uma versão moderna e extremamente compacta de um palm top e percebeu que a garota lhe lançou um olhar incerto antes de pedir licença, erguer-se de seu lugar e ir para outro ponto mais isolado da torre, ficando de costas para ele. Não conseguia ouvi-la dizer nada, mas podia perceber que pelo modo como os ombros da jovem tencionaram que o que quer que esteja acontecendo era importante. Minutos depois ela guardou o palm top e voltou para perto do homem com uma expressão fechada e um olhar distante.

- Preciso ir. - declarou com um tom firme e incerto, já se virando para partir. - Ah! - parou subitamente na entrada da torre, lançando um olhar por cima do ombro para o guerreiro, acompanhado de um sorriso. - Eu me diverti muito hoje. - e num gesto impulsivo voltou-se para ele, estalando um beijo no canto da boca do homem em uma atitude ousada, antes de desaparecer castelo adentro em uma correria só.

- - - - - - -

Não era uma coisa incomum ver Lily circular pelo quarto de Marjorie como se conhecesse cada canto daquele aposento. Sendo Mina e Litha vizinhas desde que se casaram, as primogênitas das duas mulheres se acostumaram a crescer na companhia uma da outra. Surpreendentemente as duas inner senshis não entendiam como as suas filhas conseguiam ser mais próximas do que as mesmas em relação aos próprios irmãos. Marjorie e Lily eram mais grudadas que unha e carne e onde uma estava poderia se ter a certeza de que a outra estaria atrás e por isso da familiaridade que cada uma tinha com o quarto da outra.

No presente momento as duas meninas riam e tagarelavam enquanto viam uma coisa ou outra no computador de Marjorie e a música alta preenchia o ambiente abafando as suas gargalhadas. Por cinco vezes Hideki batera na porta do quarto da filha pedindo que ela diminuísse o som e por todas às vezes fora ignorado, o que fez o homem soltar um suspiro exasperado e rolar os olhos.

A rainha Serenity e as outras mulheres diziam que Marje era extremamente parecida com a mãe quando jovem, não apenas fisicamente como também na personalidade. Era alegre, barulhenta, gostava de agito e era um pouco avoada, nada com que o empata não estivesse acostumado a lidar. E, se fosse pensar melhor, ao menos a menina não estava cantando ao topo dos pulmões tentando sobrepor-se a música vinda do reprodutor, o que era um grande progresso.

- Oh que fofo! Ele está me mandando rosas on-line! - Marjorie gritou excitada, apontando para a tela do site de bate-papo onde um ícone com a figura de uma rosa piscava.

- Que ridículo. - caçoou Lily, não vendo a graça de arrumar um namorado on-line. Uma tela de computador não substituía beijos ou toques mais ousados e ela não conseguia compreender como Marjorie se derretia por um gesto tão mundano quanto enviar rosas. E olha que nem eram verdadeiras, eram virtuais. Mais sem graça ainda. - Você tem cinco namorados on-line e nenhum na vida real, quer coisa mais entediante do que isso? - resmungou a meio elfo, sentando-se pesadamente na cama da loira e recolhendo uma das inúmeras revistas largadas no chão, começando a folheá-la.

- Você não é nada romântica Lilian! - Marjorie repreendeu a amiga.

Lily era do tipo independente, que não gostava de prender-se a compromissos. Não era como a mãe que anos atrás tinha feito um voto de ser a "senshi solitária" e mudado de idéia drasticamente quando conheceu Eckhard. Lily não gostava de solidão, pelo contrário, adorava companhia, adorava envolver-se, flertar, namorar, ficar, e a sua beleza fora do normal colaborava em muito em atrair homens de todas as idades para a "teia" dela.

Esse também era outro plus, a jovem gostava de sair com homens mais velhos, pois sabia que eles não estavam procurando uma relação estável e duradoura. As outras meninas, mais sonhadoras que a amiga descolada, ainda procuravam seu príncipe encantado que iria carregá-las em seu cavalo branco em direção ao pôr-do-sol ou direto para o altar. Lily Kino por seu lado estava mais interessada em saber quem seria a sua companhia naquela noite para a balada.

- E você é diabeticamente romântica... - começou, mas foi cortada pelo familiar som estridente do comunicador que ecoou duplamente no quarto. As duas em movimentos iguais e precisos recolheram o aparelho para dar de cara com Serena do outro lado da linha. - Princesa... isto daqui não é um celular! Quer me matar de susto? Pensei que o mundo estava acabando. - repreendeu a sailor das tempestades esperando o usual sorriso matreiro da líder delas, mas o rosto da princesa continuou extremamente sério.

- Preciso de vocês na zona portuária leste. - avisou quase num sussurro e Lily ergueu os olhos dourados para mirar Marjorie que tinha uma expressão igualmente confusa no rosto.

A zona portuária leste estava desativada há anos desde o ataque da Black Moon que praticamente dizimara o lugar e mesmo com o prospecto de reformar o local, seus funcionários com medo de retornar a área que fora palco de várias mortes recusaram a possibilidade de trabalhar naquele porto. Logo, a única coisa que restara daquela zona fora ruínas de galpões velhos de armazenagem e talvez containeres enferrujados e empilhados uns sobre os outros fazendo companhia aos guindastes que eram corroídos pela maresia com os anos.

- E o que você faz aí? - perguntou Marjorie desconfiada e Serena rolou os olhos.

- Escuta, eu também não estou muito feliz... eu estava em um encontro bem produtivo quando meu sexto sentido resolveu apitar por perigo. Vocês têm dez minutos. - ordenou e encerrou a chamada num clique. Lily e Marjorie apenas trocaram olhares antes de saírem às pressas de casa na direção ordenada.

Entrementes, Sailor Estelar corria pelas ruas menos movimentadas naquela noite, usando becos e topos de prédios como rota para evitar qualquer pedestre curioso. Deu um relance para a sua esquerda quando um rastro vermelho começou a acompanhá-la em sua jornada e reconheceu imediatamente o uniforme multicor de Sailor Phobos. Ambas fizeram gestos positivos com a cabeça em cumprimento e continuaram seu caminho em silêncio até pararem no topo de uma armação de concreto e vigas em ruínas, única lembrança do que um dia foi o setor administrativo da zona portuária.

Ao longe se podia ver as sombras dos guindastes cortando a escuridão de maneira fantasmagórica e os raios lunares refletindo nos containeres velhos e galpões abandonados, gerando contrastes de luz e sombra que pareciam ter saído de um filme de terror.

- Ótimo! - Bastet resmungou, cruzando os braços sobre o peito. - Como vamos achar aquela maluca? - continuou. Sailor Moon tinha pedido a presença delas naquele lugar, mas o porto abandonado era imenso e não era como se elas tivessem algum tipo de localizador para poder rastrear senshis perdidas.

- O velho método de se separar e procurar? - sugeriu Estelar, recebendo um olhar nada animador de Phobos.

- Eu não sei... - murmurou a outra morena com uma expressão contemplativa no rosto. A zona portuária por si só já causava arrepios, ainda mais a noite, mas, no momento, a aprendiz de sacerdotisa sentia outras vibrações mais perigosas emanando do lugar. Seja lá no que Serena tenha se metido, com certeza a princesa estava com grandes problemas.

- Bem vale a pena... - começou a jovem, mas calou-se quando sentiu um arrepio percorrer seu corpo e uma pontada na boca do estômago, seguida por outra na altura do peito lhe tirando momentaneamente o fôlego.

- Estelar? - Phobos perguntou confusa quando viu a companheira dobrar-se sobre o próprio corpo ofegando.

- Serena... - foi a última coisa que a senshi disse antes de saltar para fora do prédio e embrenhar-se zona portuária adentro.

- - - - - - -

Sailor Moon cruzou os braços na altura do peito, bloqueando outro ataque direto e sentindo seu corpo todo protestar diante da força do golpe de energia. Seus joelhos já tremiam de fraqueza diante do esforço, mas mesmo assim a sua determinação a mantinha de pé. Atrás de si, caído contra um container antigo estava a forma do príncipe Aldric ferido e desacordado ao tentar proteger a princesa Serena da súbita investida do misterioso inimigo, e a mesma agora tinha que admitir que trazer o visitante de Zathar para uma área condenada pela defesa civil tinha sido péssima idéia, mas ela não pensou nisso no momento que tinha sido convidada para sair.

Quando o zathariano a abordou pela parte da tarde no corredor do castelo a convidando para um passeio, pedindo um tour privado pela cidade, ela decidiu que seria uma "idéia legal" levar o rapaz ao porto desativado, pois o lugar era usado por ela e as outras neo senshi como área de treinamento. O local abandonado servia de cobertura para qualquer olhar curioso e seus ataques poderiam causar o estrago que quisessem que não gerariam nenhum prejuízo. Sem contar que ela conhecia o labirinto formado pelas ruínas muito bem e sabia andar por eles com segurança. E claro que ela jamais iria prever um ataque surpresa e nem conseguia compreender porque estavam sendo atacados.

Mentira, na verdade ela compreendia um pouco. Afinal, era a herdeira do trono da Terra e Aldric o herdeiro do trono de Zathar, de onde eles desconfiavam o inimigo ter partido. E claro que como bom cavalheiro que era, quando o adversário deu a sua primeira investida, Aldric a protegeu com o próprio corpo e depois partiu para a batalha.

Serena tinha que confessar que ficou surpresa ao ver o talento do jovem príncipe em guerrear e o rapaz era um ótimo soldado. Entretanto, estava em desvantagem contra o exército de insetos biônicos (uma versão menor do que os primeiros que atacaram a cidade) e os zumbis que faziam o rosto do zathariano ficar mais branco do que era quando os mirava, o que confundia a princesa. Sabia que o garoto não estava com medo da batalha, mas algo em suas expressões denotava um grande pesar cada vez que ele derrubava um dos mortos vivos, algo que se assemelhava a culpa.

Por várias vezes a garota sentiu-se tentada a se transformar, arriscando-se a expor um segredo de séculos a uma pessoa que ainda era considerada pelas guardiãs da cidade de não ser de confiança e ficara levemente aliviada quando num golpe mais forte do adversário, Aldric acabou desmaiado e ela pôde entrar na luta sossegada. O problema era que agora estava perdendo... e feio.

Quando o adversário deu uma brecha na sucessão de golpes, Serena aproveitou essa folga para invocar seu mini cetro e girá-lo entre os dedos antes de invocar o seu ataque.

- Moon Spiral Heart Attack! - o raio de energia despontou da ponta do pequeno cetro em direção ao grupo de zumbis e insetos, atordoando alguns, destruindo outros, mas causando o efeito desejado e criando tempo o suficiente para a senshi erguer um Aldric que começava a despertar e sair arrastando rapidamente o rapaz para fora dali.

Aos poucos eles foram embrenhando-se no labirinto de containeres, usando as sombras causadas pela luz da lua como modo de esconder-se das vistas do adversário. Várias partes do uniforme de Sailor Moon possuíam talhos e o laço do peito estava praticamente destruído, assim como fios de cabelos soltavam-se do penteado exótico. Pernas e braços que estavam suscetíveis aos golpes apresentavam ferimentos que estavam criando grandes hematomas ou sangravam levemente. Mas ela não sentia nada, a adrenalina pulsando em seu corpo a impedia de sentir o latejar dos machucados e a vontade de levar Aldric a um lugar seguro a cegava para o sangue que manchava as suas roupas. Tinha uma meta a cumprir: proteger um inocente, e não se deixaria abater até que conseguisse isso.

Soltou um suspiro quando os seus olhos recaíram em uma armação de metal de quatro andares que no passado começou a ser construída para servir como sede de escritórios de várias empresas exportadoras, mas que nunca conseguiu ser terminada. Rapidamente embrenhou-se entre as ruínas e quando achou que estava seguro o suficiente, apoiou Aldric contra uma pilastra de ferro, ajoelhando-se em frente a ele e observando em silêncio as pálpebras do rapaz tremularem antes de exibirem os claríssimos olhos azuis.

- O que aconteceu? - gemeu o jovem príncipe, levando a mão a cabeça em um gesto instintivo na vã esperança de eliminar a dor que a mesma apresentava. Tentou mexer-se e levantar-se do chão, mas as mãos de Sailor Moon em seus ombros o mantiveram no lugar. Confuso, o garoto mirou quem estava na sua frente e franziu as sobrancelhas quando viu a senshi. - O que você está fazendo aqui? - perguntou e subitamente os olhos dele arregalaram e o rapaz endireitou-se em um salto. - Serena! - tentou levantar-se e cambaleante conseguiu pôr-se de pé. Sailor Moon apenas o acompanhou, observando quieta as atitudes do jovem. - Onde está Serena? - frenético ele avaliou a área onde estavam apenas para atestar que não havia sequer um sinal da princesa da Terra.

- Príncipe Aldric... - Serena começou a se explicar apenas para se ver mirada por um rapaz com uma expressão de terror no rosto.

- Ela pode estar lá fora, sozinha, correndo perigo. Por que você me salvou e não a ela? A sua missão não é proteger este planeta e seus soberanos? O que está esperando? Anda, anda! - disse em tom autoritário e impaciente e a jovem colocou as mãos na cintura e soltou um bufo irritado.

- Príncipe Aldric, é isso que eu estou tentando... - começou, mas novamente foi interrompida pelo zathariano.

- Nada de príncipe Aldric pra mim! Se você não sabe fazer o seu trabalho direito, eu o farei. - e começou a mancar em direção a saída sob o olhar divertido da guerreira. Por um lado Serena tinha que admitir que estava lisonjeada com a preocupação do rapaz, mas por outro estava frustrada. Se ao menos ele a ouvisse.

- Aldric! - chamou com mais força e em um tom de comando e o jovem virou-se para poder encará-la, deparando-se com uma senshi nada satisfeita com os braços cruzados sobre o peito e o bico da bota batendo repetidamente no chão. - Princesa Serena está perfeitamente bem, eu garanto. Agora se não se importa, temos problemas mais sérios a tratar aqui. - e mal terminou de falar um estouro soou perto da entrada onde eles estavam.

Rapidamente Sailor Moon pôs-se em frente ao zathariano para protegê-lo e viu para seu extremo contra gosto zumbis e insetos adentrando a armação e os cercando. Na primeira investida do inimigo ela invocou sua varinha, bloqueando o ataque de um louva-deus e usando um chute para afastar o mesmo. - Corra! - gritou para Aldric que permaneceu imóvel no lugar.

- Mas e quanto a você? - não iria correr com o rabo entre as pernas e deixar uma dama sozinha para lutar. Seu mentor teria uma síncope se descobrisse que tinha feito isso, pois era totalmente desonroso.

- Eu estou bem, já chamei reforços! Corra! - gritou com mais ênfase. Não sabia quanto tempo levaria para todas as sailors chegarem ao porto, e quanto mais levaria para achá-la no meio daquela confusão enegrecida, mas tinha que distrair o inimigo o suficiente para que Aldric se salvasse. Sentia as suas forças diminuindo, sua energia esvaindo aos poucos e não sabia por quanto tempo conseguiria segurar a sua transformação enquanto o príncipe estivesse ali.

- Eu não vou partir sem você! - rebateu teimoso e Sailor Moon o fuzilou com o olhar. Com certeza, pensou o garoto, esta era o tipo de mulher que não gostava de ter as suas ordens contrariadas ou questionadas e por isso não era à toa que era a líder das neo senshi.

- Você não me serve de nada se não conseguir se defender com a sua magia! Então vá embora antes que me atrapalhe mais! - estava furiosa, claro que estava, mais por causa do desespero do que pelo fato de Aldric estar em perigo. Onde estavam as suas senshis? Já fazia meia hora que as tinha chamado. Talvez elas precisassem de um ponto de referência.

Arriscando tudo ou nada, ela apontou seu cetro para o céu e gritou:

- Moon Spiral Heart Attack! - o golpe atravessou por entre as brechas da armação de metal, iluminando momentaneamente aquela área e chegando a escuridão dos céus noturnos de Tóquio. E com isto, com esta última investida, sua energia esvaiu e sua transformação retrocedeu.

- Se-Se-Serena? - Aldric gaguejou embasbacado ao ver Sailor Moon sumir e dar lugar a princesa diante de seus olhos enquanto a menina sorria sem graça para o rapaz.

- Er... oi? - disse sem jeito e arregalou os olhos quando o jovem gritou em seu ouvido:

- CUIDADO! - o zathariano a abraçou pelos ombros, girando o corpo de ambos e encolheu-se em uma bola sobre a princesa para protegê-la do golpe das garras do louva-deus que descia violentamente contra as suas costas.

Apreensivo esperou pela dor que logo viria, mas quando o tempo passou e nada aconteceu, ele ergueu a cabeça e olhou por cima do ombro para ver que havia uma senshi na frente deles bloqueando o ataque do inseto com um cetro que possuía uma lua crescente de pontas desproporcionais em uma das extremidades.

- Estelar! - Serena suspirou aliviada e Estelar usou seu cetro para afastar o inseto e dar-lhe te po o suficiente para avaliar o estado físico da irmã e não gostando do que viu.

- Corram. - ordenou a senshi de uniforme dourado e Aldric rolou os olhos. Ele não tinha vivido esta cena antes? Sabia que Serena iria protestar, querer ficar para ajudar, e por isso assustou-se quando a mesma segurou em sua mão e começou a puxá-lo para longe do campo de batalha.

- Hei! Espera! - chamou o rapaz a medida que se distanciavam mais e mais da sailor e do inimigo. Não poderia deixar uma pessoa apenas lidar com todos aqueles adversários quando era óbvio que Sailor Moon e ele nem ao menos tinham conseguido dar conta da situação e perecido rapidamente. Era covardia, era suicídio. - Temos que ajudá-la! - continuou protestando, ainda sendo arrastado pela princesa até um galpão vazio.

- Não somos de ajuda a Estelar se tudo o que conseguirmos fazer é preocupá-la mais e tirar a atenção dela ao tentar nos proteger. - esclareceu Serena. Também não gostava da idéia de deixar a irmã sozinha, mas ainda estava fraca, precisava de um tempo para recuperar as forças e precisava do poder de cura de Europa que, ela esperava, tivesse aprendido a controlar melhor o seu novo dom. Somente assim poderia voltar e ajudar a outra princesa. - Sem contar que apesar de Estelar agir conosco, os poderes dela estão no nível de uma other senshi... - explicou. - ou até mesmo além. - completou em um sussurro.

Nunca acreditou que o fato de sua irmã não conseguir controlar o Suprema Devastação Estelar fosse porque a jovem ainda era novata neste ramo de ser guardiã da cidade. Serena também levara um tempo para conseguir controlar todas as transformações e golpes de Sailor Moon e manifestá-los ao seu bel prazer e embora isso tenha levado longos meses de treinamento e prática, no final de dezesseis semanas ela tinha tudo sob controle.

Estelar apenas tinha uma transformação e dois golpes para controlar, então o que poderia haver de difícil nisso? Logo a teoria que a princesa mais velha chegou era que o problema não era a falta de prática, o problema era que a própria sailor era poderosa demais e despreparada para agüentar este poder. Selene não tinha ainda total conhecimento de sua força, mas Serena podia sentir a energia bruta emanando da menina cada vez que ela soltava um suprema devastação e desconfiava que ainda deveria existir um golpe superior a este que a irmã ainda não descobrira.

- Acredite - completou mais convicta - ela vai ficar bem. - e pegou seu comunicador na esperança de tentar localizar as outras senshis, mas foi com surpresa que viu que o aparelho apenas apresentava estática.

- O que houve? - perguntou Aldric ao ver o diminuto palm top na mão da princesa e cuja tela apenas mostrava chiados.

- O comunicador não está funcionando. - disse alarmada e o príncipe não conseguiu compreender a gravidade da situação.

- Talvez tenha quebrado no ataque...

- Ele não quebra no ataque! Ele nunca quebra no ataque! - gritou histérica.

- Talvez as senshis estejam muito longe para ter algum sinal...

- Este comunicador consegue pegar até na lua! - continuou alarmada. Tinha alguma coisa errada, podia sentir, seu sexto sentido praticamente gritava em seus tímpanos por perigo e quando uma névoa densa e esbranquiçada começou a invadir o porto Serena percebeu que estavam em uma grande encrenca. - Isso não é bom. - murmurou, segurando a mão de Aldric firmemente quando notou que não conseguia mais enxergar um palmo a sua frente. - Nada bom. - completou quando o som alto de uma explosão ecoou pelo lugar.

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Selene percebeu que alguma coisa estava extremamente errada no primeiro minuto depois da fuga de Serena e Aldric do campo de batalha. Os ataques do inimigo haviam ficado mais fracos e todos caíam como moscas diante de golpes mundanos. Quando a névoa branca e densa começou a inundar o lugar ela percebeu que algo grande estava para acontecer e que não iria gostar do que estava por vir. Preparada, esperou qualquer investida do adversário que poderia vir de qualquer direção, mas depois de minutos no mais completo silêncio e nenhum golpe surpresa, seus instintos praticamente berravam para ela sair dali, ainda mais que todos os pêlos de seu corpo estavam arrepiados diante do cenário desconhecido.

O som de passos rapidamente quebrou o silêncio sepulcral e Estelar ergueu seu cetro em posição ofensiva pronta para atacar qualquer intruso. A névoa começou a tremular com a aproximação do estranho e a jovem forçou os olhos para enxergar além da imensidão branca para o recém chegado. Seu coração aos pulos pulsava dentro de seu peito e a sua respiração ofegante condensava no momento que transpassava seus lábios rosados. Minutos depois uma sombra conseguiu se distinguir em meio a neblina e à medida que ela se aproximava tomava forma aos poucos.

O que apareceu foi um adolescente de cabelos longos, azuis e trançados, com três orelhas de formato pontiagudo em cada lado da cabeça, olhos azuis, pele alva e rosto bonito. Usava vestes verde água que consistiam de uma calça e bata e pés descalços.

A primeira vista ele parecia ser inofensivo, como se fosse um civil perdido em meio a aquela confusão, mas um olhar de Estelar dentro daqueles orbes claros inexpressivos disseram a garota que pelo contrário, aquele estranho era uma ameaça e extremamente perigoso. As mãos segurando o cetro tremeram quando o rosto bem desenhado do visitante torceu-se em um sorriso macabro e antes que ela pudesse se segurar, sua boca abriu-se pronunciando apenas uma frase.

- Mar'De-Gra. - e o mencionado riu o que fez a jovem perceber que a Terra estava oficialmente condenada.

Continua...