Capítulo 7

Mar'De-Gra riu uma risada que causaria arrepios até mesmo no mais valente dos homens e aos poucos foi se aproximando-se da guerreira que recuava a cada passo dado do intruso, o que parecia aumentar a sua graça diante da situação. Estelar ergueu ainda mais o cetro na altura dos olhos e a ponta dele brilhou ameaçadoramente diante do golpe que estava apenas a espera de uma ordem de sua mestra e o homem parou de movimentar-se, mas o sorriso não saiu de seu rosto bonito e gélido.

- Estou impressionado... você se lembra de mim, embora no momento eu não esteja em meu corpo habitual. Mas este rapaz por enquanto me serve muito bem. - justificou-se e ameaçou dar mais um passo a frente o que fez a senshi dar um leve pulo para trás, arrancando mais uma gargalhada divertida do homem.

Selene não sabia dizer como havia reconhecido a criatura na sua frente, mas isso para ela não importava, o que importava era o fato de que ela sabia que o ser que ria de alguma piada que apenas ele compreendia era perigoso e precisava ser eliminado. Mas o que ela não conseguia compreender era o que ele fazia na Terra. Este era o responsável pelos ataques dos últimos dias? Mas por quê? E por que somente agora ele resolveu mostrar as caras?

- Porque meus ataques não estão direcionados a vocês. - o estranho explicou e a sailor sentiu um bolo entalar em sua garganta. Ele tinha lido a sua mente? Pensava que tinha aprendido a bloquear telepatas perfeitamente visto que crescera com uma. - Não tão bem assim princesa Selene. - continuou no mesmo tom morbidamente animado e soltou mais uma risada quando viu o rosto da garota ficar pálido. - Surpresa? Não deveria. Não me tornei conhecido até agora porque a minha presença ainda não era forte o suficiente para possuir este corpo por completo. - disse, alisando displicente uma dobra de sua bata verde. - Este rapazinho aqui foi um guerreiro tentando lutar contra a minha invasão, mas no fim eu acabei conseguindo, só não sei dizer por quanto tempo. Ele está ficando fraco, logo morrerá, e achar criaturas poderosas para possuir não é uma coisa muito fácil. Talvez eu tente uma das sailor senshis, o que acha? - sugeriu como se fosse uma coisa banal apoderar-se do corpo de uma guardiã e Estelar soltou um rosnado sob a respiração.

- Nem tente. - ameaçou ainda com os músculos tensos diante da presença daquele homem que mais uma vez riu e isto estava começando a irritar a princesa. Não via nenhuma graça no que ele estava fazendo e nos ataques que enviava. Afinal de contas, o que ele queria com este planeta?

- Com a Terra? No momento nada. Estou aqui apenas para garantir que Hans'Ark-Ra faça o seu trabalho. - e fez uma expressão contemplativa quando viu que o rosto da senshi ficou ainda mais branco. - Oh, parece que você o conhece. - bateu palmas como uma criança extasiada por ter ganhado o presente que queria de Natal. - E o conhece bem. Mas não tão bem quanto parece não é mesmo? Pois está surpresa de saber que ele trabalha para mim. Pois é, ele trabalha para mim. Mas não! Não fique com raiva ainda! Ele não trabalha por vontade própria, foi obrigado mesmo. - gargalhou. - Alguém tinha que fazer o serviço sujo e eu não tinha poderes suficientes ainda para isso. Mas só para não estragar a imagem dele diante de seus olhos, talvez seja melhor mostrar o que aconteceu. - ele ergueu uma mão e Estelar tencionou ainda mais esperando pelo ataque que nunca veio.

Ao invés disso a névoa tremulou mais uma vez e aos poucos a fumaça foi tomando forma até que a senshi viu-se dentro de um enorme e longo corredor de piso azul claro e pilastras de mármore branco além de grandes janelas de vidro ao longo de uma das paredes, cobertas por grossas cortinas de veludo vermelho e que davam vista para um imenso jardim e, ao longe, no pé do monte que aparecia pela janela, erguia-se uma enorme cidade.

Uma porta a sua esquerda abriu-se e a jovem virou-se abruptamente, pronta para qualquer imprevisto e prendeu a respiração quando viu a figura de Hans surgir através batente, mas ele estava diferente do homem que conhecia.

Embora foram as roupas surradas de guerreiro que ele costumava usar e em seu lugar ele vestia trajes brancos com detalhes em azul gelo. A calça parecia ser feita do cetim mais fino e confortável e uma bota negra de couro ia até o joelho. O casaco possuía belos bordados que ela notou eram feitos com pequenas pedrinhas azuladas. Era largo nos ombros, justo no peito e descia até o meio das coxas, uma longa capa branca era presa em um dos ombros por uma corrente dourada e caía por sobre o outro até arrastar-se no chão e todo o conjunto apenas o deixava mais belo e mais... Aristocrático.

Ao lado de Hans estava um homem desconhecido que usava roupas mais escuras, em tons acinzentados, quase negro, e uma armadura que denotava a sua posição como soldado e conversava e gesticulava com o outro homem freneticamente. Ambos vinham caminhando em sua direção, mas pareciam não ter notado a sua presença e Selene levou um susto quando os dois aproximaram-se o suficiente sem dar um relance para ela e passaram por seu corpo como se a jovem fosse um fantasma.

E foi aí que ela percebeu que não estava em um lugar real, mas, no mínimo, dentro de uma lembrança.

Satisfeita com isso resolveu seguir os dois e viu-se cruzando largos e extensos corredores até chegarem a uma enorme sala de conferência que possuía uma grande mesa oval de madeira maciça com vários lugares já ocupados pelo que a jovem assumiu ser mais soldados devido às armaduras.

Quando Hans entrou na sala Selene viu que qualquer e todo burburinho rapidamente silenciou-se e acenos de cabeça foram feitos na direção do homem, como pequenas reverências em sinal de respeito. Franziu as sobrancelhas diante dessas atitudes, mas ficou quieta e, mesmo que dissesse alguma coisa, duvidava que eles pudessem ouvir. Hans sentou-se à mesa e assim a conversa começou, algo que envolvia questões de Estado e negociações de exportações.

Em um piscar de olhos Selene sentiu-se entediada. Detestava assuntos políticos e o sujeito a tinha jogado em uma lembrança que se tratava basicamente disso. Por um momento estranhou o fato de Hans estar lidando com esse tipo de coisa, mas então recordou que ele era o conselheiro de Aldric e como tal tinha acesso a esse tipo de decisão. Frustrada, recostou-se em uma parede e pôs-se a esperar pelos acontecimentos interessantes.

- Meu senhor, os importadores exigem uma baixa de preço na comercialização da zaphira para os planetas do quinto quadrante... - um dos zatharianos sentados a mesa falou em um ponto e Hans soltou um suspiro exasperado.

- Já dissemos que não podemos baixar o preço. O custo do transporte do elemento até esse quadrante é alto. Por causa dos indivíduos mais suspeitos do Universo a segurança empregada nas naves vale dinheiro. Se eles querem custo baixo por que não mandam as próprias naves? - o homem que sugeriu a proposta ficou quieto. Os outros planetas não faziam o transporte da zaphira porque apenas Zathar tinha força de fogo o suficiente para combater os piratas do espaço. - Próximo assunto? - continuou Hans e assim a conversa prosseguiu com Selene soltando pequenos bocejos vez ou outra. Afinal, o que ela fazia ali? A sua pergunta foi respondida minutos depois quando um tremor interrompeu a reunião.

- O que é isso? - um dos soldados exclamou, erguendo-se de sua cadeira ao mesmo tempo em que Estelar desencostava da parede. Parecia que a ação iria começar. Hans também se levantou diante do tremor e quando gritos começaram a transpassar a brecha oferecida pela porta da sala, rapidamente os outros homens correram para fora do aposento para ver o que acontecia. Selene mais do que depressa os acompanhou e seus olhos ficaram largos diante do que via:

Era como se a Black Moon estivesse atacando novamente. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto inconscientemente quando viu pelas janelas de vidro os insetos que atacaram Tóquio de Cristal sobrevoarem a cidade, milhares deles, disparando seus poderosos canhões sobre as construções, sobre pessoas inocentes que corriam e gritavam por ajuda. Soldados tentavam pará-los, mas rapidamente eram mortos em um simples ataque. O que parecia ser feiticeiros disparavam a sua magia para salvar os poucos inocentes que sobraram nas ruas e resistiam um pouco mais antes de serem brutalmente assassinados.

Ao seu lado, ouviu Hans sair de seu torpor quando a voz horrorizada de Eileen, acompanhada por Aldric, chegou ao grupo. Rapidamente o homem começou a dar ordens aos homens que o cercava e virara-se para a lady que parecia aturdida sem saber o que fazer.

- Vocês dois vão para o abrigo, agora! - comandou e estava pronto para partir quando a mulher segurou-lhe o braço o fazendo parar. Selene observou apreensiva o desenrolar da conversa e quando a zathariana abriu a boca esperou ansiosamente pelo que ela iria dizer. E as próximas palavras dela praticamente gelou o sangue da senshi.

- Mas Rhian...

- Não Eileen! Preciso de você segura minha irmã, senão não lutaria em paz. - soltou a mão dela de seu braço.

- Pelos Deuses. - pediu desesperada enquanto pela janela Za-Xmyr sucumbia a invasão do inimigo desconhecido em questão de minutos. - Tome cuidado. - completou, segurando a mão do filho e saindo as pressas dali.

Selene ainda estava aturdida demais para dar-se conta de que o cenário a sua volta estava mudando. Rhian? Lady Eileen tinha chamado Hans de Rhian? Não, não poderia ser o mesmo Rhian de Estela, apenas era uma grande coincidência. Afinal, não era um nome extraordinário, então nada para se alarmar. Quando se deu conta agora se encontrava em meio aos escombros do que um dia pareceu ser o corredor que ela estava há momentos atrás e um Hans ferido terminava de matar uma última versão compacta dos insetos biônicos e agora encarava Mar'De-Gra com fúria nos olhos.

- Majestade. - Mar'De-Gra começou com o tradicional sorriso mórbido e qualquer dúvida que Selene tinha sobre Hans e Rhian serem a mesma pessoa sumiu de seu sistema. E foi como um soco de tirar o ar que as memórias dos sonhos voltaram a sua mente e o rosto do amante de Estela finalmente ficava claro, liberto de seu subconsciente por alguma força misteriosa e revelando ser o mesmo Hans que ela conhecia, uma versão bem mais jovem, talvez recém coroado, mas o mesmo homem. - Um prazer finalmente encontrá-lo. - disse em um tom cordial.

- Quem é você sua besta assassina? - bradou Hans com ódio e De-Gra apenas riu.

- Quem eu sou não importa... ainda. O que você irá fazer para impedir que eu continue a destruir seu amado planeta é o que interessa no momento. - o rei não tinha abaixado a guarda durante o breve discurso do invasor, mas a sua expressão mostrou-se interessada. - Sua paixão por Zathar e seu povo é tocante... ridícula, mas tocando. Como seu adorado antepassado, Noir'Zac-Ra, estou certo? - Hans pareceu surpreender-se pelo desconhecido saber desta informação. - Ficaria surpreso com o que sei Rhian Hans'Ark-Ra da Casa de Ra. - gracejou ao usar o nome completo dele. - Me diga então majestade, o que o senhor estaria disposto a sacrificar para salvar o seu povo? - perguntou com divertimento.

- Minha vida! - respondeu o homem com convicção e os olhos de De-Gra brilharam de contentamento.

- Bom saber... mas infelizmente, no momento, você me é mais valioso vivo majestade. Mas vamos fazer um acordo... eu poupo seu povo se você conseguir algo em troca para mim. - ficou em silêncio apenas para causar suspense. - O Cristal Estelar. - declarou e Hans piscou os olhos confuso.

- O cristal não está em Zathar. - respondeu prontamente.

- Eu sei majestade, mas também sei que você conheceu seu último guardião, então tem uma pista de onde ele possa estar.

- Se quer o cristal por que você mesmo não o procura? - desafiou e De-Gra deu um meio sorriso.

- Este corpo fraco está impossibilitado no momento a grandes viagens. Mas eu permitirei que o senhor saia do planeta em busca do cristal, que tal? - continuou e vagarosamente Hans foi abaixando suas espadas, pensativo.

- Eu, Eileen, Aldric e ao menos meu conselho e a família deles. - negociou.

- Tsc, tsc, tsc, não tente aproveitar-se da minha boa vontade majestade.

- Você ainda terá o resto do planeta e milhares como reféns para garantir a minha volta. Não estou pedindo muito. - continuou e De-Gra pareceu considerar por um breve momento.

- Certo, acordo feito. Você tem quatro meses majestade.

- Quatro meses para procurar pelo Universo inteiro um cristal? - exclamou ultrajado.

- Isso ou Zathar faz boom!

- Mas eu nem sei por onde começar!

- Claro que sabe, no fundo você sabe. - disse divertido.

- Certo - continuou irritado. - em quatro meses eu trago de volta o cristal e te entrego. - nisto o outro homem riu como se tivesse ouvido uma piada engraçadíssima.

- Não falei nada sobre me entregar rei Rhian, eu quero que você destrua o Cristal Estelar. - e com isto a imagem se desfez e quando Selene recuperou-se do choque de ouvir aquela conversa viu que estava novamente dentro da construção de ferro com Mar'De-Gra na sua frente.

- Você está mentindo! - acusou a sailor, apontando o cetro para o homem com lágrimas deslizando pelas bochechas pálidas.

- Tsc, eu nunca minto princesa. E o tempo de Rhian está se esgotando, tique e taque faz o relógio. Acha mesmo que ele estava interessado em você? Rei Rhian de Zathar faz qualquer coisa por seu povo, até mesmo seduzir uma menina para poder descobrir a identidade de uma sailor e roubar-lhe a sua fonte de força. E depois dizem que eu sou cruel. - o rosto dele mostrava claramente o quanto ele divertia-se com toda aquela situação. - Só que eu tenho que avisar que a minha paciência está se esgotando. - subitamente ele ficou sério e gélido. - E todos os avisos que dei a Rhian entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Ele está tornando isto extremamente... pessoal. Então resolvi te alertar minha cara que, agora, a Terra também corre risco de fazer boom! Então a decisão está em suas mãos. - finalizou e viu interessado um sorriso de escárnio cruzar o rosto da jovem.

- Se você quer tanto o cristal por que simplesmente não o pega? Estamos sozinhos aqui, você teve oportunidades o suficiente, mas não fez nada. - nisto ela deu uma gargalhada sardônica e De-Gra recuou um passo quando a voz da jovem ficou um pouco mais rouca. - Mas você não pode não é mesmo? Suas mãos imundas e manchadas de sangue inocente não conseguem tocar algo tão puro. Kolie precisou do poder do Cristal de Prata para roubar o Estelar, mas você não tem isso então precisa de um legítimo herdeiro de Zac-Ra para fazer o seu trabalho sujo. - continuou em tom de deboche e De-Gra torceu os lábios em um meio sorriso.

- Oras... é muito ousada para ser a princesa Selene. Então quem é você?

- Eu? - Selene arqueou as sobrancelhas e ergueu o cetro. - Sou Estelar... SUPREMA DEVASTAÇÃO ESTELAR! - gritou, mas antes que o golpe pudesse atingi-lo, o homem desapareceu, levando a névoa consigo e fazendo o ataque explodir uma fileira de contêineres ao longe. Estelar apenas ficou parada observando sem piscar o fogo consumir as enormes caixas de metal e seus músculos fracos e mãos dormentes deixaram o cetro cair e este desapareceu antes mesmo de tocar o chão. O vento frio do oceano soprou, secando as lágrimas que trilhavam o rosto da jovem e abafando os gritos a distância.

Serena chegou na construção de ferro acompanhada de Aldric apenas para ver a irmã mirar com os olhos desfocados um ponto fixo no ar mais a frente deles sem dizer nada ou mover-se um centímetro, como se estivesse paralisada. Seu rosto estava pálido como se tivesse visto uma assombração e o peito subia e descia em longas inspiradas e exaladas de ar.

- Estelar? - a chamou, tocando seu braço e ficando ainda mais preocupada quando a mesma não respondeu. Tinha sido loucura retornar ao campo de batalha ainda sem forças, mas quando a névoa sumiu com a mesma velocidade que apareceu e o som da explosão ecoou por todo lugar, ela não pensou duas vezes em virar nos saltos e correr para onde Selene estava. Sem contar que a sua ligação fraternal lhe dizia que a sua irmã precisava de ajuda e que havia alguma coisa errada com ela. O problema era que agora que a via percebia que a jovem não ostentava um ferimento sequer, mas parecia estar em algum tipo de choque profundo do qual Serena não conseguiu despertá-la.

- Desculpe... o que você disse? - Selene falou depois de minutos mergulhada em um torpor desconhecido e quase levando a irmã a um ataque de pânico. Viu que Aldric a mirava com intensidade e sentiu uma vontade insana de socá-lo até o rosto do jovem príncipe ficar irreconhecível, pois sabia que o garoto tinha conhecimento dos planos de Hans... Hans não, Rhian, ele se chamava Rhian e seria assim que se referiria a ele daqui para frente.

Com certeza Eileen e o príncipe sabiam das armações de seu rei que resolveu fingir ser um mero guarda para assim ter mais liberdade em sua busca e mentir descaradamente para as pessoas que de boa vontade os acolheram e estavam lutando contra este novo inimigo os protegendo inconscientemente de seus próprios erros. E a rainha ainda tinha dito que eles eram de confiança. Sua mãe ficaria tão desapontada. Seu pai com certeza ficaria fulo pelos estrangeiros terem se aproveitado da inocência da esposa e quanto a ela, Selene, ela estava com os pensamentos confusos demais para saber o que fazer no momento.

- ESTELAR! - Serena gritou no ouvido da garota que piscou os olhos e encarou a outra adolescente com uma expressão confusa. - Você desligou do mundo de novo. O que foi que aconteceu? O que aconteceu quando a névoa surgiu? Onde está o inimigo? A explosão que ouvi foi obra sua? - as perguntas da princesa estavam começando a causar uma dor de cabeça na sailor que no momento estava muito desnorteada com todas as descobertas para saber o que dizer.

Precisava de respostas, e precisava delas para ontem.

De-Gra tinha deixado uma clara ameaça de que Rhian não estava fazendo o trabalho como planejado e por isto colocando Zathar ainda mais em perigo e, agora, a Terra, e que dependia da própria Sailor Estelar terminar com tudo isto. Como, Selene não fazia a mínima idéia. O homem queria destruir o Cristal Estelar para finalmente se ver livre da prisão dimensional em que foi colocado por Zac-Ra e era louco o suficiente para pedir a própria guardiã do cristal para fazer isto. Mas será que Selene seria capaz de arriscar a sua vida dessa maneira?

Ser um Guardião Estelar implicava mais do que ter dentro do corpo a chave que abria as portas para dimensões paralelas, mundos desconhecidos, ao longo do universo. Era proteger os povos desses mundos, proteger aqueles inocentes que não eram capazes de sozinhos se defenderem do mal. Quando o cristal escolhia um guardião no planeta que fosse assumia para si a responsabilidade de defender aquele planeta, olhar por seus habitantes como um anjo da guarda. E se os inocentes estivessem em perigo não era para medir esforços para salvá-los.

Era mais ou menos o que as senshis faziam, o que Sailor Moon no passado cansou de fazer. Mas diferente dela, a rainha Serenity tinha o Cristal de Prata para trazê-la de volta a vida assim como as suas guerreiras. Se Selene destruísse o Cristal Estelar seria o fim. Seria o mesmo que arrancar o coração fora e pisotear nele sem chances de recuperação e não haveria legendário cristal lunar que mudasse este fato.

E então viria o depois. Com o cristal destruído De-Gra se veria livre e mais poderoso do que nunca, buscando vingança sobre aqueles que o aprisionaram milênios atrás e todo o ódio acumulado por anos seria descontado em Zathar, na Terra e em qualquer outro planeta que estivesse na linha de visão do homem e não haveria garantias de que alguém conseguiria pará-lo, não é mesmo?

Será que as sailors seriam o suficiente? O rei ou a rainha seriam o suficiente? E Rhian? Ele era descendente do homem que criou o Cristal Estelar, será que tinha poderes o suficiente para parar essa ameaça? Será que Selene podia confiar no homem para parar De-Gra? Precisava de respostas para as suas dúvidas, precisava saber se o sacrifício valeria a pena, se teria coragem para isso e se poderia acreditar que Rhian e os outros zatharianos ajudariam as senshis a destruir De-Gra e na sua mente somente uma pessoa podia fazer isto.

- Eu preciso ir. - declarou, já começando a planar uns centímetros acima do chão, pronta para alçar vôo e Serena piscou aturdida diante da ação repentina da irmã.

- Ir? Pra onde? - falou preocupada. Selene não parecia estar em seu estado mental perfeito e não tinha certeza se isso era resultado da batalha ou se o inimigo tinha feito algo a ela.

- As outras senshis estão chegando, vão te escoltar para casa. - declarou, apontando ao longe as figuras coloridas das outras sailors que se aproximavam as pressas do trio.

- Mas... - Serena começou a protestar, mas prontamente foi interrompida.

- Nos falamos mais tarde. - cortou Estelar, disparando em direção aos céus e sumindo no horizonte com um destino certo em sua mente, um que ela tinha a esperança que fosse resolver todos os seus problemas.

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Quando Eckhard abriu a porta de sua casa esperava ver tudo parado na soleira, menos uma senshi afoita que foi entrando na moradia sem pedir licença. Surpreso, fechou a porta assim que a garota passou e observou em silêncio ela perambular pela sala por incontáveis segundos até ele aproximar-se o suficiente para ver-se sob a mira de um par de intensos olhos azuis.

- Como eu faço para falar com os mortos? - Selene disparou e o elfo piscou os olhos dourados em uma reação chocada e depois abriu a boca para responder, a fechando rapidamente sem saber o que dizer e depois a abrindo novamente finalmente emitindo algum som.

- Como? - perguntou abobado. Já tinha ouvido muitas perguntas das amigas de suas filhas e das amigas de sua mulher sobre o outro mundo, mas essa era a primeira vez que uma questão dessas saía da boca de uma das meninas.

- Eu preciso falar com uma pessoa que já está morta faz um bom tempo... - continuou Selene inabalada pela expressão ainda confusa do elfo.

- Quanto tempo? - Eckhard resolveu ignorar a estranheza daquela conversa e partir para os negócios, pois era melhor do que ficar ponderando o porquê de Sailor Estelar estar querendo fazer uma sessão mediúnica no meio da sua sala de estar.

- Alguns... milhares de anos. - hesitou em responder e o elfo cruzou os braços em uma expressão pensativa.

- As chances dessa alma ter reencarnado...

- Não reencarnou. Eu sei que não! - interrompeu Selene e o moreno arqueou uma sobrancelha para ela, querendo saber como ela tinha conhecimento desta informação. - Eu ando tendo sonhos com essa pessoa então posso assumir que ela ainda está no plano astral, não posso? - explicou-se rapidamente com uma expressão esperançosa e Eckhard considerou.

Uma maneira de os mortos se comunicarem com os vivos era através dos sonhos, mas era completamente incomum uma alma ficar mais de cem anos no outro plano, quanto mais ficar milhares de anos. Claro que havia casos especiais, como a rainha Serenity do Milênio de Prata, mas isto era porque a mulher equiparava-se a uma Deusa, era uma alma antiga que optou por não reencarnar.

- Espera um instante. - o homem ergueu a mão para interrompê-la no que fosse que a jovem iria dizer a seguir. - Está querendo me dizer que uma alma anda mandando mensagens através de sonhos para você? - disse desconfiado. Um morto tentando alcançar um vivo era algo muito sério e estritamente proibido, sendo permitido apenas em casos especiais e de emergência. Como ele não ficou sabendo disso? Ainda mais que o vivo em questão era a princesa da Terra.

- Sim. - declarou a garota. Se iria querer ajuda precisava ser sincera.

- Quem?

- Er... Estela. - respondeu não acreditando que Eckhard fosse saber quem era Estela, já que deveria haver várias no outro mundo.

- Estela, Estela... - repetiu o nome baixinho como se tentando puxar pela memória quem era essa pessoa e depois lançou um olhar a senshi apreensiva na sua frente. - A sua predecessora como guardiã estelar, Estela? - respondeu com olhos largos e Selene ficou surpresa diante da boa memória do homem.

- Como você chegou a ela tão rapidamente? Deve existir centenas de Estelas no outro mundo. - perguntou embasbacada.

- Mas nenhuma foi prima de seu pai na outra vida e guardiã estelar, não é mesmo? Então é a opção mais lógica.

- Então, é essa Estela mesmo com quem eu quero falar. E por que ela não reencarnou? - completou curiosa.

- Ela sempre dizia que não estava pronta, que havia algo que precisava fazer antes de voltar a este mundo. - Eckhard respondeu, dando de ombros.

Não sabia o porquê de Estela persistir em continuar morta e muitas janelas de oportunidades para renascer havia se aberto e fechado diante da negação dela. Muitas vezes o próprio elfo tentou convencê-la a seguir em frente como uma alma comum, mas a mulher era teimosa e depois de uma conversa com os seus superiores, ela conseguiu comprar mais tempo no outro mundo para fazer o que tinha que fazer. O que, o elfo ainda não sabia até hoje.

- Falar com uma alma não tem feitiço ou mandinga que faça isso, apesar de muitos médiuns clamarem serem capazes de falar com os mortos. Os vivos não entram em contato com os mortos, é o inverso e isto é feito apenas em sonhos. Uma pessoa adormecida tem o corpo e a mente aberta a aproximações, pois a sua alma tende a desprender-se do corpo físico em estado de sono profundo, o que dá brecha a um morto comunicar-se com ela. É neste momento que a porta entre os dois mundos fica mais próxima, durante o sono.

- Ótimo! - disse animada, batendo as duas mãos uma na outra. - Então tudo o que eu preciso fazer é dormir pra contatar Estela.

- Não é assim tão fácil. Não ouviu quando eu disse que os mortos é que entram em contato com os vivos e não o contrário? Estela tem que vir a você e não você a ela. - Eckhard explicou pacientemente e Selene fez uma expressão de desagrado.

- Pois eu não tenho tempo e muito menos paciência para esperar vossa alteza real dar o ar de sua graça em meus sonhos. Temos uma situação de emergência aqui, uma situação "sailor" de emergência! - a jovem bateu o pé irritada e o elfo consideraria isto uma atitude mimada se não tivesse ouvido a palavra sailor. Conhecia pelo linguajar das meninas durante as batalhas que quando era uma emergência sailor era algo grave que estava acontecendo, tinha acontecido ou iria acontecer e pela impaciência da princesa e petulância, coisas incomuns na garota, era algo importante que precisava ser resolvido imediatamente.

- Deite no sofá. - ordenou e mais do que depressa a senshi acomodou-se no sofá. - Eu vou colocá-la pra dormir e usar você como condutor para o outro mundo e com isso eu irei a procura da alma de Estela e a trarei até você. - explicou, colocando uma mão sobre os olhos fechados da garota que logo caiu em sono profundo.

Em questão de segundos o cenário da sala de estar de Litha dissolveu-se e Selene viu-se em pé em meio a escuridão, bem acordada e ainda trajando suas roupas de sailor, olhando a sua volta a procura de qualquer pista para seguir, para onde ir. Subitamente a escuridão sumiu e num sopro de vento o reino do Milênio de Prata destruído surgiu sob os seus pés e a figura de uma pessoa desviando de escombros e aproximando-se da jovem foi vista.

Em minutos Estela atravessou o espaço que as separava e parou em frente a garota e em vez de estar usando seu usual traje de guardiã estelar a mulher usava um simples e longo vestido branco que ia até os pés descalços e cuja saia balançava diante da brisa inexistente. Os longos cabelos negros estavam soltos e chegavam até as coxas em largos cachos e ela sorria um sorriso sábio que irritou Selene.

- Esperava um campo de flores com borboletas coloridas voando. - disse a princesa em tom sarcástico.

- Este não é o paraíso, mas sim o vácuo que fica entre o mundo dos vivos e dos mortos, aqui o cenário pode ser transformado de acordo com a minha vontade. - explicou Estela.

- Por que o Milênio de Prata?

- Por que não? Você é uma lunariana, ou ao menos em partes, e sempre teve fascínio pela história e passado desse reino, achei que se sentiria confortável aqui para conversarmos. - continuou a mulher em um tom irritantemente calmo na opinião da sailor.

- Aqueles malditos sonhos que você me mandou, as suas lembranças, foram para quê? Diminuir a culpa do seu adorado Rhian? - acusou em um tom venenoso e viu com prazer o sorriso que Estela ostentava no rosto morrer aos poucos.

- Então você descobriu a verdade. Os sonhos foram apenas para você ver que Rhian é o tipo de homem apaixonado...

- Poderia me enganar, do jeito que ele é frio e calculista. - debochou, cruzando os braços sobre o peito.

- Apaixonado quando está focalizado em algo. Quando o conheci Rhian tinha acabado de assumir o trono, era um jovem idealista pronto para fazer o melhor por Zathar. A sua vinda a Terra era para apresentar aos planetas que tinham relacionamentos com Zathar o seu novo rei, estreitar os laços de amizade. Quando o conheci desconsiderei seus avanços, achei que ele estava brincando comigo, mas ele persistiu, apaixonado, teimoso, até que eu cedi. E nunca me arrependi disso. Rhian tem a capacidade de amar com todo o seu ser. Ele me amou e depois que morri fechou-se para qualquer tipo de romance e resolveu direcionar todo o seu afeto ao seu povo o qual ele seria capaz de tudo para proteger.

- Eu fiquei sabendo. Ele é capaz de tudo, até mesmo tirar vidas inocentes. - continuou ácida, não sendo convencida por essa explicação de Estela. Ela fora amante do homem, claro que o veria com bons olhos não importa o que ele fizesse.

- Selene... você não é tão inocente assim. - declarou a mulher em um tom cortante e expressão gélida. - Jamais é inocente aquela que está disposta a tirar a vida de outros. Não foi o que fez com o pirata Kolie e sua trupe, assim como outros invasores da Terra?

- Eles eram vilões! - defendeu-se a garota.

- Eram vidas. - rebateu Estela.

- Eu fiz isto para proteger pessoas inocentes! - berrou ultrajada.

- E Rhian está fazendo o mesmo. - completou Estela em um tom calmo ao chegar ao ponto que queria.

- Não! - continuou Selene teimosa. - Não é o mesmo, o que ele vai fazer só vai trazer desgraça.

- E mesmo assim você considera fazer o mesmo... e mesmo assim você considera destruir o Cristal Estelar com as próprias mãos. Por quê?

- Eu...

- Se no fim o cristal será destruído, por que não deixar Rhian fazer isto? - Estela aproximou-se dela um passo e aturdida Selene recuou outro ao ver olhos azuis iguais aos seus a mirarem com intensidade como se quisessem ler a sua alma.

- Porque...

- Porque se ele fizer isso terá todas as senshis no encalço dele, não é verdade? Seria aprisionado, julgado e com certeza condenado ao exílio ou morto por ter assassinado a princesa da Terra, não é mesmo? E você não quer isso, senão não se importaria de tirar este fardo das costas dele e carregá-lo por si só. Além, é claro, do fato de que com o cristal destruído Mar'De-Gra conseguirá o que quer e então quem poderá pará-lo senão o herdeiro do homem que o aprisionou pela primeira vez, não é verdade?

- Não! - Selene negou veementemente. - Eu não tenho pena de Rhian, ele me enganou, enganou a todos que o acolheu e seu povo sem fazer muitas perguntas, acreditando que eles eram realmente as vítimas. Para mim ele pode se ferrar que eu não ligo!

- Verdade? E mesmo assim você quer ajudá-lo. Você não pode odiá-lo e ao mesmo tempo amá-lo, Selene. - disse sabiamente e a garota abriu e fechou a boca abismada diante da ousadia dela de dizer que estava apaixonada.

- Eu não estou apaixonada por ele. - falou com uma expressão de escárnio. - Eu mal o conheço!

- E isso não a impediu que caísse de amores por ele. Não impediu Rhian que caísse de amores por você. - disse a mulher em um tom divertido.

- Isto é ridículo, talvez tenhamos uma atração carnal um pelo outro, talvez tenhamos saído uma vez, dado uns beijos, mas isso não é amor. Eu não acredito em amor a primeira vista...

- E mesmo assim é fascinada pelo romance proibido de seus pais na outra vida. Endymion soube que amava Serenity com um olhar e vice-versa.

- Talvez ele esteja apenas me usando de escape, já pensou nisso? Somos parecidas, talvez ele a veja em mim. - apertou os braços em volta do corpo em um gesto defensivo e ficou ainda mais irritada quando Estela riu divertida.

- Fisicamente sim, na personalidade somos dois pólos opostos de um planeta. E acredito que foram as diferenças e não as semelhanças que atraíram Rhian.

- Como você pode ter tanta certeza do que ele sente por mim? - desafiou e a mulher riu mais ainda.

- Porque ele hesita. Rhian teve várias oportunidades de roubar o cristal e mesmo assim hesita, arruma desculpas e cega a si próprio...

- Ele não sabe que Selene e Sailor Estelar são a mesma pessoa.

- Ah, ele sabe, mas no fundo nega-se a ver a verdade.

- Isso não muda o fato de que eu ainda tenho vontade de quebrar a cara dele!

- Faça como preferir, mas a principal questão é o que você vai fazer agora que sabe a verdade.

- Você está perguntando pra mim? Quando eu vim aqui para pedir ajuda?

- Não posso ajudá-la nisso Selene.

- O QUÊ?

- Você é a guardiã do cristal agora e qualquer decisão envolvendo o mesmo é única e exclusivamente sua, mas a questão é se você está preparada para as conseqüências.

- Destruir o cristal me parece ser a única saída, comprará tempo e depois eu tenho que acreditar que as senshis conseguirão destruir De-Gra.

- Acha mesmo? Mar'De-Gra é uma criatura poderosa que foi elevada ao cargo de Deus na cultura de Zathar. Alguém nesse cargo só denota poder.

- Minha mãe, meu pai, minha irmã e minhas amigas são poderosas também. Elas conseguem.

- Conseguem? Mesmo diante da dor da perda? E quanto a Rhian?

- O que tem ele?

- Você está cometendo o mesmo erro que eu Selene.

- Como?

- O mesmo erro que me trouxe a este mundo e fez Rhian fechar-se para o dele.

- Eu tenho uma missão a cumprir, proteger os inocentes é a função de um guardião estelar. Foi para isso que fomos escolhidos, para isso o cristal foi criado e para isso morreremos.

- Você tem muita convicção para uma menina de quinze anos. Muita paixão, como Rhian, mas ainda muita ingenuidade e tudo o que eu posso fazer é rezar por você. - aos poucos a mulher foi se afastando da garota que apenas ficou parada no lugar a observando sumir aos poucos entre as ruínas do Milênio de Prata até que este desapareceu, trazendo Selene de novo para escuridão antes de ela acordar de vez e encontrar-se novamente na sala de estar de Litha.

- E então? - Eckhard falou sentado na beirada do sofá perto da cabeça da garota. - Conseguiu o que queria? - perguntou, afastando-se e cedendo espaço para Estelar sentar-se sobre as almofadas macias.

- Mais ou menos. - a jovem suspirou, erguendo-se do sofá e lançando um olhar agradecido ao elfo. - Eu tenho que ir. - caminhou em direção a porta de saída mais foi parada pelo homem.

- Vá pelos fundos. Demos sorte de ninguém ter visto Sailor Estelar aparecer na minha porta, mas não sabemos se não terá alguém olhando agora. - disse e Selene deu um sorriso sem graça. Estava tão chocada com tudo que descobrira que nem parara para pensar o furor que causaria se alguém visse uma sailor na porta da casa de uma simples mulher que era dona de um restaurante. Seria extremamente suspeito.

- Claro. - respondeu, caminhando em direção a cozinha. - Obrigada por tudo Eckhard. - e sumiu casa adentro para minutos depois levantar vôo dos jardins dos fundos em direção ao palácio.

- - - - - - -

O barulho de uma porta batendo violentamente ao longe foi à primeira coisa que alertou Serenity de que algo estava errado. O grito de fúria que se seguiu foi à segunda coisa e a soberana trocou um olhar confuso com Eileen com quem compartilhava uma conversa agradável acompanhada de um chá com biscoitos no solário do palácio. Outra porta batendo fez a monarca levantar-se de seu assento e a passos leves e decididos ir na direção do barulho sendo acompanhada de perto por uma zathariana preocupada e curiosa. Quando ambas as mulheres chegaram ao corredor principal do palácio foi para ver uma cena incomum.

Sailor Estelar tinha acabado de lançar um grande vaso de decoração contra a parede e observado este se espatifar com um sorriso estranhamente satisfeito no rosto. A primeira reação de Serenity foi repreender a menina como uma boa mãe faria, até que se lembrou que estava na companhia de uma pessoa que não sabia das identidades das senshis.

- Estelar... há algum motivo para você estar destruindo propriedade real? - perguntou a rainha em um tom calmo e Estelar fez uma expressão culpada quando se virou para mirar a mulher mais velha.

- Mil perdões majestade. - pediu, inclinando a cabeça em uma reverência em sinal de respeito. - As... outras senshis já voltaram? - resolveu mudar rapidamente de assunto. Não estava disposta a explicar para a mãe o porquê de ter destruído um vaso que, pelo que se lembrava fora presente de sua avó pelo aniversário de casamento de seus pais no ano anterior.

- Sim... e elas pareciam bem preocupadas. Você sumiu depois da batalha sem dar satisfações e explicar o que aconteceu. Todas estavam tentando te contatar. Estão te esperando na sala de conferência. - declarou a loira, dando as costas para a filha e tomando o caminho para a dita sala sendo seguida por Eileen com quem começou a conversar a baixas vozes. Resignada e lançando um último olhar para o vaso quebrado, a senshi acompanhou a soberana em silêncio até chegarem ao local de destino.

Quando as portas da sala de conferência se abriram pode-se ouvir claramente o burburinho que ocorria por todo o local e Estelar viu surpresa que, dessa vez, a reunião não apenas incluía as neo senshis, assim como as others, inners e a monarquia de Zathar, acompanhada pelo rei Endymion e os gatos conselheiros reais. Não sabia dizer se alguma coisa havia mudado na última hora desde que estivera na casa de Lily conversando com Eckhard, mas pelas altas vozes das pessoas que discutiam dentro do aposento e pelo clima tenso, algo grave deveria ter acontecido.

- O que houve? - Selene perguntou, anunciando a sua presença e a da rainha e Eileen para os outros e todos os olhares recaíram sobre a sailor.

- O que aconteceu no campo de batalha Estelar? - Serena tomou a voz de comando e a jovem princesa arqueou as sobrancelhas negras para a irmã. A outra garota não estava transformada logo não tinha autoridade para mandar nela, mesmo que a sua posição de realeza lhe desse esse poder. - Você desapareceu depois que a névoa clareou e eu devo lembrar que não parecia estar em estado mental perfeito. - continuou e vários pares de olhos curiosos miraram a senshi que soltou um resmungo e mirou cada pessoa dentro daquele salão até seus orbes azulados caírem sobre a figura de Hans recostada em uma parede aos fundos da sala.

Seu sangue começou a ferver só de observar o homem que parecia tão calmo, tão alheio ao mundo a sua volta como se estivesse no topo de um pedestal e nada pudesse alcançá-lo em sua fortaleza de mármore. Como ele tinha a audácia de parecer tão inabalado quando por culpa dele a Terra corria perigo? Fechou as mãos em um punho apertado, mordeu o lábio inferior e desviou o olhar quando percebeu que o zathariano a observava intensamente.

- Não interessa. - respondeu seca a irmã e quando viu que seu pai iria abrir a boca para colocar mais autoridade na pergunta de Serena a obrigando a responder pelo simples fato de que era seu pai e o rei, ela o cortou com outra pergunta. - O que aconteceu? Não é sempre que fazemos uma conferência com todas as senshis. Concordamos que as neo seriam as guardiãs ativas da cidade e que somente diante de uma grande emergência que as outras sailors seriam convocadas. - continuou e dessa vez Phobos resolveu esclarecer a dúvida da garota. Não tinham tempo a perder com o protetorismo de Serena sobre a irmã quando casos mais sérios precisavam ser discutidos.

- Garota, você não vê os noticiários? Ao menos checou seu comunicador nas últimas horas? Quando a névoa inundou a cidade, não foi apenas Tóquio que ela atingiu. Várias outras grandes metrópoles do mundo foram atingidas, os sistemas de comunicação saíram do ar completamente e quando voltaram era tarde demais.

- Tarde demais para o quê? - Estelar perguntou vagarosamente, não gostando das expressões sombrias nos rostos das mulheres e o olhar distante de seu pai. Europa a respondeu ativando o telão que havia na sala e sintonizando em um canal de notícias internacionais.

"Já temos confirmado mais dez ataques em grandes metrópoles" dizia o apresentador do jornal. "Hong Kong, Londres, Madrid, Washington..." a imagem do homem relatando os acontecimentos foi subitamente substituída por outra de uma cidade destruída e na parte inferior da tela havia uma tarja com a legenda de que aquela cidade um dia fora Paris.

Ao fundo da imagem tremida, bem ao longe, Estelar pôde divisar o que parecia ser pequenas aeronaves que disparavam seus canhões sobre pessoas e construções. Quando o câmera deu um zoom para captar melhor o que acontecia Selene viu que as tais aeronaves na verdade eram os insetos biônicos de De-Gra. O homem começou seu ataque a Terra, em uma quantidade pequena e menos devastadora do que fez em Zathar, apenas para dizer que o tempo estava acabando e as forças armadas que apareciam no vídeo lutando contra as criaturas não estavam tendo muito sucesso nesta batalha.

- Quando os ataques estavam restritos apenas a Tóquio de Cristal ainda tínhamos algum controle deles e os estragos eram menores. Nossa população é treinada para este tipo de eventualidade. Mas está se alastrando pelo planeta inteiro, o que mostra que o alvo deste invasor não é apenas o reino de cristal, mas toda a Terra. - Júpiter começou a falar, atraindo a atenção de todos para si. - Ainda acho que a melhor estratégia é a mais antiga de todas. Dividir e conquistar. - completou e viu Marte dar um aceno negativo de cabeça.

- Muito arriscado. Fora Sailor Arcádia que pode teleportar-se para vários lugares em questão de segundos, não temos como nos mover tão rápido. Talvez Sailor Moon consiga voando, mas as outras... Não temos como montar guarda em todos os pontos do planeta. Os ataques são aleatórios, portanto não sabemos qual será o próximo alvo e assim partir para defendê-lo. Sem contar que temos uma sailor em baixa. - e lançou um longo olhar a Netuno que abriu a boca para protestar, dizendo que não estava inválida, mas foi calada por uma mirada séria das outras sailors.

Michiru era uma mulher teimosa e forte e que às vezes se esquecia de sua atual condição. As outras senshis não a culpavam, pois passaram pelo mesmo que ela. Todas, sem exceção, nunca pensaram que viveriam o suficiente para constituir família e quando isto aconteceu, nos primeiros meses de gravidez elas esqueciam que havia outra vida que dependia da segurança delas e muitas quase partiriam para a batalha neste estado se as amigas não estivessem por perto para lembrá-las deste fato. Logo Michiru sairia desta fase quando a barriga começasse a crescer e a realidade a atingisse de vez.

- Se ao menos soubéssemos quem é o inimigo... - Saturno ponderou, lançando automaticamente um olhar para as analistas do grupo e Arcádia e Mercúrio trocaram olhares idênticos e invocaram seus mini computadores em gestos iguais como perfeitas mãe e filha.

- Todos os dados que temos remete a origem do inimigo de Zathar. - Arcádia lançou um olhar aos três zatharianos na sala e Aldric foi o único a responder a encarada ao dar de ombros.

- Já dissemos que foi um ataque surpresa, o inimigo não se manifestou, não disse quem era, a que veio, nada.

- E estranhamente ele deixa a família real fugir com um número considerável de sobreviventes e vocês decidem vir para a Terra que, convenhamos, está bem longe de Zathar. Interessante. - Estelar cortou o jovem, cruzando os braços sobre o peito e o encarando com uma expressão de descrença. - Experiências passadas de ataque a Terra me ensinaram que a primeira coisa que o invasor busca é destruir o rei e a rainha para depois tentar dominar o planeta. Zathar tem criaturas tão poderosas quanto a Terra e pelo que sei a família real é a primeira nesta lista. Dizem que eles descendem dos Deuses. - falou enquanto se aproximava de Aldric em uma pose ofensiva e parava em frente a ele, o encarando firmemente com as sobrancelhas franzidas e ombros tensos. - Você se agüentou muito bem defendendo a princesa Serena quando ela foi atacada nas docas, então como não conseguiu derrotar esse adversário?

- Ataques surpresas são chamados assim por um motivo: por serem surpresas. Não estávamos militarmente preparados. Zathar não sofria uma invasão há mil anos. - defendeu-se o príncipe, abrindo a boca para continuar a falar, mas Selene o cortou friamente.

- Isso não é desculpa para abaixar a guarda, não é mesmo? Quem são eles Aldric? O que eles querem? Que acordo fizeram com vocês para deixá-los partir? Por que estão na Terra? Se realmente não se importassem com a família real e se eles tivessem deixado vocês irem por simples desinteresse, não os teria seguido não é mesmo? Qual é a jogada pequeno príncipe? O que vocês estão escondendo? - disparou as perguntas uma atrás da outra, aproximando-se passo por passo do jovem zathariano, o fazendo recuar diante da atitude agressiva da sailor até que foi encurralado totalmente contra a parede.

- Pare com isso! - a voz grossa e fria ribombou na sala e isso pareceu ser a gota final para entornar o copo d'água, pois Estelar virou-se sobre os saltos como uma pantera pronta para dar o bote em sua inocente vítima, causando espanto a todos ao ver a postura da jovem que parecia que estava prestes a entrar em uma batalha em vez de estar apenas conversando estratégias de defesa com as outras senshis.

- Por quê? Você vai me esclarecer o que quero saber Hans'Ark-Ra? - Hans notou como o seu nome saiu em tom de deboche pela boca da guerreira e percebeu de imediato que alguma coisa estava errada. Algo grave aconteceu durante o breve tempo em que Sailor Estelar resgatou Serena e Aldric naquele porto e o tempo que eles ficaram separados e a névoa surgiu.

- Estelar! - Endymion intrometeu-se na conversa, não compreendendo a atitude da filha. Selene tinha um certo temperamento, óbvio, era parecida com a mãe nesse aspecto. Teimosa e cabeça dura como a rainha, mas jamais tinha agredido alguém verbalmente desta maneira, incitando respostas e coagindo uma pessoa, a encurralando e deixando-a sem saída. Não era do feitio da garota, nunca fora, como Selene ou como Sailor Estelar. Algo ela estava escondendo, com certeza, toda as suas atitudes refletia um tipo de raiva contida que mostrava que alguma coisa aconteceu durante a batalha no porto e que ela se recusava a dizer.

- Não se intrometa! - vociferou a menina e seus olhos azuis brilharam de maneira perigosa ao encarar o pai, a cor deles escurecendo mais um tom e o homem recuou surpreso, lançando olhares para as outras senshis que também pareciam aturdidas.

- Serena... - Endymion chamou em um tom baixo pela filha mais velha. Era errado o que iria fazer, sabia disso, Selene o odiaria mais tarde, mas como um bom pai preocupado com as atitudes fora do normal da menina ele não tinha outra escolha a não ser recorrer a atitudes drásticas. - Scaneie a mente dela. - ordenou e Serena piscou os olhos uma vez como se para absorver a informação antes de voltar à atenção para a irmã que tinha dado as costas ao grupo, voltando a interrogar Aldric, e tentar aproveitar esse momento de distração dela para ver o que havia de errado. O inimigo poderia estar a possuindo e se este fosse o caso, penetrar na mente da adolescente poderia ser a única maneira que descobrir a verdade.

Aos poucos sentiu seu poder atravessar as barreiras mentais da irmã pouco a pouco, invadindo as lembranças daquele dia vagarosamente, vendo pelos olhos da menina o que ela tinha vivenciado. Vendo a ida dela ao centro comercial com Hans, os passeios, as lojas por onde passaram, os locais que visitaram até que o encontro culminou com ambos no alto da torre do Palácio de Cristal observando o pôr-do-sol, compartilhando histórias até tudo ser encerrando com um beijo.

Franziu as sobrancelhas ao ver isso e lançou um olhar de esguelha a Hans ainda parado observando Estelar praticamente avançar sobre Aldric exigindo respostas, e depois voltou a encarar a irmã, vendo o momento que ela recebeu a chamada de socorro de Sailor Moon, transformou-se, foi até o porto, salvou a princesa e quando estava chegando na parte em que a névoa tinha tomado conta do local, foi expulsa da cabeça da senshi como se tivesse levado um enorme empurrão que a fez até tropeçar nos pés diante da força do tranco.

- Quantas vezes eu falei para você ficar fora da minha mente? - Selene esbravejou, virando-se para encarar a irmã com uma expressão gélida e Serena apenas ergueu ambas as mãos em um gesto de paz. Aldric por sua vez aproveitou essa distração para poder escapar da senshi inquiridora, mas no primeiro passo que ele deu em direção a sua mãe e Hans, sentiu seu corpo erguer-se no ar e ser arremessando contra uma parede por uma força invisível e ficar grudado na mesma com os braços e pernas abertos em forma de estrela.

Estelar sabia que estava exagerando, que estava fazendo perguntas pipocarem na cabeça de seus pais e das outras guerreiras. Podia ver pelo canto dos olhos Eileen remexer-se inquieta pronta para parar com aquele absurdo, mas sendo segurada por Serenity. As outras senshis estavam divididas entre impedir a princesa e aguardar para ver até onde essa situação se estenderia. Serena também se mexeu para resgatar o príncipe mas a mão firme do pai delas no ombro da menina a prendeu no lugar.

E era isso que ela queria: nenhuma interrupção alheia.

Sabia que atacar Aldric era covardia quando o que realmente queria era arrancar membro por membro de Hans por ele ter mentido para ela, a usado de maneira tão vil, mas o homem tinha milhares de experiência à frente dela em combates. Era um soldado antes de ser um rei e, portanto, não seria os gritos e ataques histéricos de uma adolescente que o faria abrir a boca, mesmo que fosse uma sailor. Mas como aprendeu tão maravilhosamente em seus treinos: sempre mire no elo fraco. Aldric era o sobrinho do rei, o herdeiro do trono, pois parecia que Rhian não havia se casado desde Estela, e o rei não deixaria seu herdeiro e membro da família morrer.

Não que Selene fosse matar o rapaz, longe disso, mas até onde Hans conseguiria se manter impassível enquanto a morena prendia o príncipe de Zathar contra a parede com a sua telecinese e fazia perguntas atrás de perguntas, acusação sobre acusação para um rapaz que estava ficando branco e adquirindo uma expressão de desespero no rosto. Quando ela fez um gesto com a mão que imprensou mais o corpo de Aldric contra a massa de concreto, o comprimindo como se ele fosse atravessar a parede e tirando o ar dos pulmões do garoto e fazendo-o gemer, alguém se manifestou.

- Pare com isso! - Hans comandou, já não gostando daquela palhaçada. Sabia que Estelar jamais feriria Aldric gravemente, os soberanos da Terra e as outras sailors não a deixaria chegar tão longe e a única coisa que os fizeram ficar parados no lugar fora o fato de que a jovem não tinha apresentado ameaça até o momento.

No entanto, essa ainda era Sailor Estelar e ela parecia não estar em seu juízo perfeito e se realmente perdesse o controle, será mesmo que todas aquelas pessoas dentro da sala seriam capazes de segurá-la? Por seu lado Selene deu um meio sorriso ao ouvir a voz do homem e pensou com escárnio o quão rápido ele tinha cedido a pressão. Com outro gesto de mão ela soltou o corpo do príncipe que caiu como um boneco de cordas no chão.

- Ficou louca? O que pensa que está fazendo?

- Arrumando respostas meu caro! - ela virou-se para encará-lo e Hans sentiu o peso da ira da sailor recair sobre a sua pessoa. Mas afinal o que havia de errado com ela? Certo que Estelar e ele nunca se entenderam as mil maravilhas, mas não chegava ao ponto da mulher ter uma reação tão hostil a sua presença. Será que ela descobrira o plano de seduzir Selene para poder descobrir a identidade da senshi? Se sim, explicaria toda essa atitude raivosa. O quão próxima da princesa mais nova ela seria?

- Nós já dissemos que sabemos muito pouco sobre... - Hans começou mais foi cortado por um violento:

- NÃO MINTA PARA MIM! - todos na sala encolheram-se diante do grito e ofegos de susto foram ouvidos quando foi a figura imponente de Hans que desta vez voou pelo aposento, chocando com uma força dolorosa contra a parede e assumindo a mesma posição de Aldric minutos atrás. Em vão o zathariano tentou libertar-se, mas parecia que havia correntes invisíveis o comprimindo contra a massa sólida, esmagando seus músculos e ossos como se uma mão de ferro estivesse o apertando. - Não minta para mim rei Rhian de Zathar! - acusou e os olhos de Hans alargaram-se uma fração de centímetros ao ouvir o título sair da boca da jovem.

- Como? - Endymion e Serenity balbuciaram ao ouvir o nome e cautelosa a rainha aproximou-se de onde o homem estava preso, observando as feições dele com mais atenção e viu com surpresa o feitiço quebrar revelando a verdadeira identidade do guarda de Aldric. Os olhos verdes foram descolorando até adquirirem o tom azul gelo e a loira percebeu que o homem usara sobre si a mesma magia que as sailors possuíam para poder esconder suas identidades quando transformadas. Como não percebera antes?

- Rei Rhian de Zathar? Não deveria estar morto? Faz tanto tempo... - Endymion gaguejou. As suas poucas lembranças da outra vida aflorando ao ver o zathariano na sua frente. O rosto maduro do homem preso à parede tremulou por um breve segundo e o rei da Terra viu em seu lugar uma fisionomia mais jovem, menos marcada pelas desgraças e dores da vida e com um brilho mais jovial e divertido no olhar. Mas assim como a imagem veio ela sumiu.

- Eu sabia que tinha algo de errado nele. - Plutão murmurou para as outras sailors que estavam perto dela.

Algo no zathariano tinha despertado a sua desconfiança e cautela no momento que ele pôs os pés em solo terrestre, mas não soube dizer o que. Depois da morte de Estela e queda do Milênio de Prata, Rhian havia voltado para Zathar e nunca mais a mulher ouvira falar dele. Quando a princesa reencarnou com as outras senshis, ainda sim não ouvira uma palavra do homem. Quando Tóquio de Cristal começou a ser construída e o reino estender seus contatos políticos e comerciais a outros povos do universo Zathar ainda sim parecia meio reclusa, ainda mais seu rei, pois nada era ouvido sobre ele fora dos limites do planeta, então a sailor apenas presumiu que ele tinha perecido com o tempo. Vê-lo depois de milhares de anos, praticamente o mesmo que conheceu, ao menos fisicamente, era uma surpresa.

- Como descobriu? - Hans perguntou com calma, ignorando os olhares curiosos das outras pessoas na sala diante da descoberta e encarando apenas o rosto fechado de Estelar. A jovem deu um meio sorriso, usando sua telecinese para deslizar o homem pela parede até os pés dele tocarem o chão, mas não o libertando de sua prisão invisível.

- Um passarinho me contou. - a garota respondeu ao inclinar-se nas pontas dos pés para poder sussurrar na orelha dele. - Me contou tudo. - completou e ouviu com prazer a inspirada de ar que ele deu. Aos poucos foi se afastando, encarando diretamente nos olhos claros do homem, vendo o desespero de seu segredo ter sido descoberto, a apreensão sobre o que Estelar iria fazer agora que obtinha esta informação e a desesperança por saber que seu povo estava condenado, pois não conseguiria cumprir a sua missão.

- Eu sinto muito... - Hans pediu em um sussurro.

Deveria ser mais fácil, sabia que deveria ser mais fácil. Seu povo acima da sua moral, vidas inocentes acima da sua consciência, mas como ele poderia se desprender emocionalmente do que estava prestes a fazer enquanto via os orbes azuis escuros o encarando como se quisessem arrancar fora a sua alma somente com o olhar. Havia tanto desapontamento, tanta desilusão dentro dos belos olhos, tanta traição pelo que ele iria fazer.

Compreendia a raiva de Estelar, como não sentir raiva daquele que iria te matar? Mas não compreendia os outros sentimentos que ela expressava agora que a fúria parecia estar evaporando de seu corpo. Por que ele tinha a sensação de que acabara de arrancar o coração dela ainda pulsante do peito e o esmagado com as próprias mãos?

- Não... - continuou a adolescente em um murmúrio. - Não sente. - finalizou em tom de pesar. - Ah... - falou, aproximando-se mais uma vez dele, colocando-se novamente sobre as pontas dos pés e aproximando seu rosto do rosto do homem, deixando seus lábios a meros milímetros de distância dos dele. - talvez eu deva facilitar o seu trabalho, não? - o hálito quente dela roçou contra o rosto do zathariano que sentiu um tremor percorrer o seu corpo diante das várias implicações que a frase dela poderia oferecer. - Eu... - um brilho de luz dourada o cegou por um breve momento e quando a sua visão retornou ao normal ele pegou-se encarando tristes olhos azulados. - sou Sailor Estelar. – completou.

Rapidamente afastou-se dele e deixou que Hans tivesse uma visão completa da princesa Selene antes dessa dar meia volta e sair da sala às pressas, seu poder libertando o homem da parede e esse, com os joelhos fracos, a respiração descompassada, os olhos largos e o coração palpitante diante da descoberta se deixasse cair no chão com uma expressão de desespero no rosto e um peso na consciência que ele sabia não o deixaria dormir pelo resto da eternidade.

Continua…