NA: Para as cenas Hans & Selene, eu costumo usar como trilha sonora a música "Planetarium" da Otsuka Ai. Adotei essa música como tema deles porque a letra combina. Sugiro que a ouçam para esse capítulo, dá um "tchan" a mais. Beijos a todos, Daphne.
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Capítulo 8
Todos na sala de conferência ainda estavam em choque diante dos acontecimentos que ocorreram minutos antes da saída intempestiva de Selene e ninguém ainda tinha aberto a boca para soltar um comentário que fosse, mais preocupados em repassarem a cena mentalmente para saber o que tinham perdido naquele embate.
Apenas Serena parecia menos confusa do que os outros visto que ela havia entrado na mente de Selene mais cedo, mas quando perguntada por suas amigas a explicação para todo o drama que havia ocorrido, a princesa apenas dava de ombros e dizia que não sabia de nada, e não estava mentindo. Tudo que a jovem tinha conhecimento era que a irmã e o zathariano tinham algum tipo de relacionamento mais íntimo, mas que por algum motivo que com certeza veio depois da batalha, esse se desfez e ela tinha a certeza de que tudo ia além do fato da garota ter descoberto a verdadeira identidade do homem. Tinha alguma coisa a ver com o fato dela ter revelado ser a Sailor Estelar para ele.
Aos poucos todos começaram a sair do torpor em que estavam mergulhados e burburinhos começaram a brotar aqui e acolá ao longo da sala, cada um querendo compreender ao seu modo o que tinha acontecido e compartilhando idéias e teorias com o companheiro mais próximo. Logo as discussões tornaram-se um pequeno caos com vozes altas querendo sobrepor-se as outras ao darem o seu ponto de vista sobre a situação. Silenciosamente Serenity aproximou-se de Hans e ajoelhou-se em frente a ele, o encarando nos olhos e vendo com surpresa o homem encolher-se e conseguir ficar pequeno mesmo diante de todo o seu físico avantajado.
- O que aconteceu Rhian? - perguntou em um tom suave e o zathariano inspirou longamente, sugando o ar como se fosse um aspirador. - O que Selene não nos contou? - pediu e Hans sentiu-se a pior das criaturas no momento, com a sua mente disputando uma batalha voraz entre seus deveres e racionalidade contra a sua consciência e moral. Como poderia dizer a mulher que o encarava no momento sem nenhuma acusação em seu tom de voz ou olhar, apenas pura curiosidade, que ele viera a Terra com a intenção de matar a filha dela? Estava desesperado, mas não tanto assim não é mesmo?
- Seja lá o que tenha acontecido, a culpa é dele! - o grito de Serena sobrepôs-se as discussões e a jovem apontou furiosamente para o soberano ainda ajoelhado no chão em frente a rainha. Em passos largos a garota aproximou-se da dupla e desferiu um sonoro e dolorido tapa contra a bochecha morena do homem.
- Serena! - Serenity exclamou surpresa e ergueu-se num pulo, segurando a filha a tempo, pois ela preparava-se para desferir outro golpe no zathariano e desta vez com o punho fechado.
- Eu o mandei ficar longe da minha irmã, mas você me ouviu? Não! Claro que não ouviu! E agora ela está sofrendo e eu sei que ela vai fazer uma besteira, eu sinto isso. E é tudo culpa sua! - continuou exaltada com lágrimas rolando dos olhos e debatendo-se nos braços da mãe tentando se soltar. Inabalado, Hans respirou profundamente e levantou-se lentamente do chão, recuperando seu autocontrole em uma velocidade impressionante e encarando a princesa com gélidos olhos azuis.
- Eu fiz o que foi preciso fazer. - declarou em um tom baixo e sério. - Me desculpe majestades se menti sobre a minha identidade, mas foi preciso. O inimigo crê que o rei de Zathar está morto... - mais uma mentira saiu de seus lábios e ele surpreendeu-se com a facilidade com que tinha de criar histórias para enganar as pessoas. Estava se tornando um hipócrita ao negar todo o juramento que fez sobre sempre ser sincero consigo mesmo e o seu povo quando foi coroado e transformado em rei. - não pensei que o adversário pudesse nos seguir até aqui. Eu sinto pelos ataques, eu mesmo não os compreendo. O motivo do inimigo é desconhecido a nós e o motivo que ele ataca a Terra também. Sinto muito. - finalizou com um gesto polido de cabeça, ignorando os olhares reprovadores de Eileen e o culpado de Aldric.
Não tinha tempo para a comiseração deles no momento. Sua missão estava pela metade, pois agora que ele sabia quem era a Sailor Estelar, só precisava pegar o cristal dela. Aturdida, Eileen viu no rosto do irmão a mesma expressão de determinação que vira várias vezes quando ele ainda era apenas um garoto tentando ser o melhor espadachim de sua classe, apenas um jovem tentando ser um bom rei, apenas um homem apaixonado tentando conquistar a mulher amada. Ele não tinha desistido da idéia, não tinha desistido de pegar o cristal e agora parecia ainda mais convencido a fazer isso. Abriu a boca para dizer alguma coisa, pará-lo, mas ele a ignorou, lhe dando as costas e saindo as pressas da sala.
No momento que a porta fechou às costas do homem a mulher virou-se num pulo para todos e antes que a sua mente pudesse registrar o que fazia, ela já despejava as palavras sem nenhum controle em cima daqueles que ainda pareciam aturdidos demais para estarem preparados para outro baque.
- Ele mente! - declarou com convicção.
- Mamãe! Não! - Aldric tentou impedi-la, mas o usual olhar materno que garantiria uma longa semana de castigo se ele se metesse o calou prontamente.
- O inimigo não nos deixou fugir sem querer algo em troca. - continuou com a voz mais firme ao ver que tinha a atenção de todos. - Ele disse que pouparia Zathar, pouparia o nosso povo, se lhe trouxéssemos o Cristal Estelar. - sentenciou e todos ficaram mudos por breves segundos antes de Phobos soltar uma gracinha.
- Estamos evoluindo. Antes todos queriam o Cristal de Prata, agora eles querem o Estelar... Progresso!
- Phobos! - Rei sibilou para a filha e deu-lhe um beliscão no braço que fez a menina contorcer-se e ficar quieta.
- Não é a primeira vez que o Cristal Estelar é roubado. - Plutão soltou e Endymion e Serenity a miraram com ferocidade. - Me desculpe majestades se não contei antes, me desculpe se usei meus poderes para apagar essa lembrança de seu passado, mas quando Kolie voltou no tempo ele conseguiu tirar o cristal de Selene por alguns minutos... Mas nós o recuperamos e ela voltou ilesa.
- Ilesa? Ilesa! - Endymion esbravejou. - Você chama o fato da minha filha morrer mesmo que por minutos de ilesa?
- Darien. - Serenity colocou uma mão trêmula sobre o braço do marido, procurando conforto e ao mesmo tempo oferecendo. - É passado, é passado, precisamos nos preocupar com o agora. O inimigo quer o cristal, isto compreendemos, mas você sabe para quê?
- Ele quer o cristal destruído. - Eileen respondeu em um tom fúnebre e explosões ecoaram pela sala com todos falando ao mesmo tempo. - Gente? Gente! - gritou, chamando a atenção deles de volta para si.
- O cristal destruído? Por que o cristal destruído? - Serena soltou a pergunta que estava na ponta da língua de todos.
- A destruição do Cristal Estelar implica em destruir a chave dos portais. - começou Plutão, sobrepondo-se a Eileen na explicação. - O inimigo escolheu Zathar como primeiro alvo porque é de lá que o cristal se origina. A história diz que a construção do planeta foi feita pelos Deuses que no fim entraram em conflito e um deles resolveu aprisionar o Deus conflitante em uma dimensão escura e sombria, criando assim uma chave a qual ele soltou no Universo para assim encontrar guardiões dignos de protegê-la de qualquer mal. - esclareceu a senshi.
- Mais ou menos isso. - continuou Eileen. - Os Deuses na verdade eram apenas criaturas poderosas do Universo que escolheram Zathar para criarem seu reino perfeito, mas que no fim acabaram discordando de como deveriam seguir governando este reino, criando uma Guerra Santa, por assim dizer. Mar'De-Gra, o Deus das Trevas, na batalha final foi aprisionado por Noir'Zac-Ra, o Deus da Luz, e Zac-Ra criou o Cristal Estelar como chave para trancar De-Gra. Com o tempo Zac-Ra decidiu que o cristal era poderoso demais e tinha medo de ser corrompido por este poder e o liberou no Universo com a instrução de procurar guardiões dignos de sua força, que usariam seus poderes para proteger os inocentes de todas as dimensões e garantiria que De-Gra e outros vilões aprisionados nunca fossem libertos. E esse é o grande problema. Se o cristal for destruído...
- Seria como destruir todos os cadeados do Universo. - completou Serenity. - Cada portal seria aberto, tanto para bons mundos quanto para maus mundos. E De-Gra e outros vilões...
- Se ainda estiverem vivos. - complementou Eileen.
- Estariam soltos. - encerrou Serenity.
- Kolie precisou do Cristal de Prata para poder roubar o Cristal Estelar. - Plutão soltou de repente.
- O Cristal Estelar é energia pura, energia boa, que não pode ser tocada por pessoas corrompidas. Por isso ele deve ter usado o poder do Cristal de Prata para atrair o Estelar. - explicou Eileen.
- Não sei quanto a você, mas Hans não me parece tão santo assim. - Serena debochou. - Então como ele conseguiria... - mas foi Plutão novamente, com um olhar de espanto e terror, que a interrompeu.
- Selene falou que a família real descende dos Deuses... Hans'Ark-Ra da casa de Ra. Vocês descendem de Zac-Ra! E se são descendentes daquele que criou o cristal...
- Temos o poder de capturá-lo. - completou a zathariana com pesar.
- Não se pararmos vocês primeiro! - Vésper falou, posicionando-se para disparar seu golpe. - Acha que a deixaremos chegar até Estelar assim, no mole?
- Já é tarde Vésper! - Europa a cortou ao perceber um pequeno detalhe. - Hans não está aqui! Isso só pode significar... - Serena abriu a boca para responder quando um estouro ensurdecedor a interrompeu e o palácio começou a tremer nas bases.
- O que é isso? - falou abismada no mesmo momento que Diana entrou num disparo sala adentro.
- ESTAMOS SOB ATAQUE! - e neste momento senshis e os demais perceberam que a próxima cidade alvo do inimigo era Tóquio.
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Selene sentiu o primeiro tremor antes mesmo que este alcançasse a estufa onde ela estava e com antecedência pediu aos funcionários que cuidavam do local para procurarem abrigo rapidamente. Segundos depois as armações de metal e vidro começaram a sacudir e trincar, com fragmentos caindo sobre os vasos de plantas bem cuidadas não se importando com o estrago que estavam fazendo.
Firmemente apertou as mãos sobre o tampo da mesa e fechou os olhos com força quando os familiares gritos ao longe chegaram aos seus ouvidos acompanhados pelo som de canhões de energia cortando o ar. Parecia que Mar'De-Gra tinha esgotado a sua paciência e resolvera que já era hora de dar o aviso final ao povo da Terra. Ou o cristal ou a destruição total.
Com toda a sua determinação tentou ignorar os gritos de pavor das pessoas, o chamado do cristal de ir salvá-las e colocou a sua mente no lugar sobre o que faria a seguir. Destruir a chave de portais causaria um estrago maior do que libertar um Deus, poderia libertar outras criaturas desconhecidas e ainda mais poderosas que futuramente poderiam ameaçar a Terra e todo o reino de paz que a sua mãe lutou para criar seria destruído diante de um ato seu. Não haveria sucessor para guardião porque não haveria nada para guardar. A sua decisão poderia causar mais danos do que ajudar. Então, será que estava pronta para carregar este fardo?
Outro tremor assolou o palácio e os gritos aumentaram unidos ao choro e desespero. O cheiro da carnificina começava a inundar o ar e ironicamente os céus escureciam com nuvens negras e relâmpagos somavam-se ao cenário do massacre.
No passado a sua irmã se sacrificara para salvar o planeta e ela era apenas uma criança. Então ela poderia fazer o mesmo, não poderia?
Uma mão em seu ombro a fez abrir os olhos e soltar a mesa, virando-se rapidamente para ver quem estava atrás de si e ficou surpresa ao encarar o rosto impassível de Hans. Como ele ainda tinha a ousadia de aproximar-se dela depois de tudo o que fizera?
- Selene... - murmurou e a jovem pôde ver dentro dos olhos azuis antes gélidos conflitos parecidos com os seus.
Cá estava ele com a chance de cumprir a sua missão, salvar o seu povo, mas e depois? Depois que o inimigo conseguisse o que queria, o que com certeza traria conseqüências sombrias para o Universo, será que ele conseguiria viver com a lembrança de que matou um inocente? Que matou a mulher que... Não! Não queria nem cogitar esta hipótese, não queria analisar o que os seus sentimentos queriam lhe dizer nos últimos dias, o que seu coração acelerado e mãos trêmulas queriam lhe dizer. Se colocasse em palavras o que sentia não conseguiria seguir em frente e isso seria a sua destruição.
- Faça... - Selene sussurrou de volta. Talvez assim fosse mais fácil. Uma vez ouvira de alguém que não recordava que era mais fácil você ser morto pelas mãos de uma pessoa que amava do que pelas mãos de um desconhecido. Era poético, irônico, mas poético o fato de que estava vivenciando isto agora. Talvez Estela estivesse certa, talvez um olhar tenha bastado para ela se apaixonar, talvez ela seja a nova Serenity e Hans, quem sabe, o novo Endymion e, como seus pais no passado, o amor deles estava fadado a tragédia.
- Você sabe o que está me pedindo? - a voz dele foi abafada por uma explosão e inconscientemente o homem aproximou-se mais dela.
- Você não estava tão decidido? O que mudou? - o desafiou em um tom fraco e Hans inclinou a cabeça para beijá-la, mas parando bem próximo de sua boca.
- Eu não posso. - havia uma conotação de dor em sua voz e Selene prendeu a respiração.
- Não pode o quê? Me beijar ou me matar? - a calma com que ela falou isto fez o homem ficar com o corpo tenso e recuar lentamente para encará-la nos olhos e ver a seriedade dentro deles.
- Eu faço tudo pelo meu povo... Tudo menos isso. - declarou com pesar. Achava que seria fácil, mas como pode ser fácil enquanto você arranca a alma de uma pessoa e a vê perecer diante de seus olhos por sua culpa, o brilho se apagando das belas esferas azuladas e o rosto fechando-se para sempre em uma expressão fria e distante?
- Então Estela estava enganada. Você não é um homem apaixonado, é apenas um covarde. - declarou sem piedade e Hans franziu as sobrancelhas.
- Estela?
- Estela. A minha antepassada, minha predecessora como guardiã, a mesma que há semanas me atormenta com sonhos sobre o romance de vocês, tudo para me mostrar o quão boa pessoa você é. Foi por isso que você fez uma cara surpresa quando me conheceu? Por que somos extremamente parecidas? - acusou levemente e o viu recuar outro passo.
- Cheguei a pensar que você era a...
- Reencarnação dela? Sinto desapontá-lo, mas ela continua morta. O que você viu em mim fora a possibilidade de descobrir a identidade de Sailor Estelar? - continuou com as perguntas de modo agressivo e avançou um passo na direção dele. Mais uma explosão e mais tremores seguidos continuaram a balançar a cidade e a estufa que os rodeava começou a ruir aos poucos.
- Precisamos sair daqui. - declarou tentando mudar de assunto.
- Não antes de obter a minha resposta Rhian.
- O que eu vi em você? - repetiu e ponderou um pouco. - Eu vi... você. Nada além da princesa Selene. - as expressões fechadas dela pareceram suavizar um pouco e ela mirou um ponto além das janelas trincadas da estufa.
- Alguns meses atrás um pirata espacial chegou a Terra tentando fazer seu comércio ilegal aqui. O típico sistema de invadir, pilhar e usar habitantes do planeta para vender no mercado negro de escravos. Não teve sucesso, pois as senshis são extremamente poderosas, mas eu tinha acabado de virar sailor, não sabia direito controlar os meus poderes. Então ele roubou o meu cetro, usou a energia acumulada nele depois de um ataque fracassado da minha parte e abriu um portal do tempo para o passado. A idéia era destruir a minha mãe, meu pai, as sailors do passado que eram muito mais fracas do que as de hoje. Eu fui atrás dele com a tola idéia de que deveria consertar o meu erro e acabei me ferrando. Ele conseguiu roubar o meu cristal usando o Cristal de Prata. Acho que neste breve momento em que o cristal ficou fora do corpo do guardião o poder dele desestabilizou-se, enfraquecendo a tranca dos portais. - explicou calmamente e Hans não compreendeu onde ela queria chegar.
- E daí?
- A batalha do porto... o inimigo mostrou as caras, ele me disse a verdade sobre você. É apenas um corpo possuído pela consciência de outra pessoa. Quando o meu cristal foi roubado e os portais foram enfraquecidos durante o tempo e espaço, Mar'De-Gra - viu quando Hans arregalou os olhos diante do nome. - conseguiu se apossar de um corpo e reunir um exército para pegar o cristal.
- Não é possível. - disse com um tom de pavor.
- Mas é. E agora ele está destruindo a Terra e quer o cristal em troca para parar.
- Mas ele não o terá! - declarou convicto e Selene deu um riso sem vida.
- Por quê? Você parecia tão determinado a destruir o cristal...
- Isso antes de saber que o inimigo é uma criatura do porte de Mar'De-Gra!
- Ele não vai parar até conseguir o que quer e eu não posso deixá-lo destruir a Terra. - continuou, o encarando firmemente nos olhos e aos poucos a compreensão começou a abater Hans.
- Não!
- Por que não? Você estava disposto a vender a sua alma para poder salvar Zathar, o que o torna tão especial que me impeça de fazer o mesmo?
- É suicídio! - gritou, a segurando pelos ombros e a sacudindo com força e Selene soltou uma risada genuína ao vê-lo perdendo a calma daquela maneira. Era engraçado e ao mesmo tempo triste. Parecia que começava finalmente a compreender Hans, mas não viveria o suficiente para saber usar esse aprendizado melhor. Era uma pena.
- Quando eu me for, preciso ter a certeza de que você conseguirá pará-lo, irá ajudar os outros a pará-lo. - pediu serenamente, como se o fato de que estava prestes a se sacrificar não a atormentasse em nada. Na verdade ela estava estranhamente calma e em paz para alguém que iria a caminho da morte.
- Eu?
- Você é descendente de Zac-Ra, é poderoso e com certeza deve igualar-se em força ao seu antepassado e junto com as outras senshis será capaz de detê-lo. Eu preciso dessa certeza Rhian. Eu preciso saber que o que farei não será em vão! - falou em um tom suplicante, o segurando pelo colarinho da camisa. - Por favor. - continuou e por longos e dolorosos segundos ele ficou em silêncio antes de ceder com um suspiro de pesar.
- Eu retiro o que disse... - disse em um tom contido e com os olhos flamejando numa mistura de desespero e raiva. - você é mais parecida com Estela do que imaginei. - Selene arregalou os olhos surpresa diante dessa declaração. - Ambas estão dispostas a me abandonar. - afirmou, roçando os lábios sobre os dela em um beijo leve e breve. - Vá antes que eu mude de idéia. - continuou, desviando o olhar para não encará-la.
- E você não mudou com os anos. - Selene falou quando já estava no portal de entrada da estufa. - Sempre disposto a se deixar abandonar. - e partiu sem dar um único relance para trás, compreendendo agora o que Estela tinha dito sobre estar repetindo os erros dela. Doía, óbvio que doía deixar tudo para trás, mas doeria mais saber que ela foi capaz de impedir todo esse caos e não fez nada. E era com essa idéia na cabeça que ela caminhou passo a passo em direção a sua extinção.
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Suas mãos tremiam e para poder controlá-las as fechou em um punho firme e as escondeu às costas quando viu Diana descendo o corredor trazendo Endymion pela mão. Os olhos avermelhados da gatinha arregalaram e ela apressou o passo para poder aproximar-se da sailor que estava parada em uma das portas de saída do palácio. Rapidamente os dois chegaram perto o suficiente para as suas vozes sobreporem-se as explosões e tremores e a menina começou a falar mil palavras por segundo.
- O que fazem aqui? - Estelar prontamente a cortou com a voz firme, totalmente o inverso de seu corpo trêmulo.
- O que você faz aqui Estelar? As outras Sailors estão doidas atrás de você. As inners foram para a cidade tentar conter o ataque, as neo estão a sua procura e as others estão tentando convencer Netuno a ir para o abrigo. O rei e a rainha resolveram entrar na batalha e... - ia continuar falando, mas percebeu que a jovem não lhe dava muita atenção, apenas a encarava firmemente com uma expressão fechada e depois voltava o seu olhar para um Endie silencioso que encarava tudo a sua volta com olhos largos.
Quando uma pintura pendurada na parede tremeu e caiu com um estrondo no chão por causa do terremoto, o menino deu um pulo no lugar e se grudou mais a Diana, seu corpo todo sacudindo de pavor.
- Não deveria estar levando Endymion para o abrigo? - Selene cruzou os braços sobre o peito para poder esconder seu estado de nervos da outra jovem.
- E eu estou. - respondeu prontamente e Estelar viu sobre o ombro da menina a aproximação de Luna e Artemis.
- A rainha quer que ele seja levado para um dos abrigos subterrâneos ao norte, pois acha que o castelo não é mais tão seguro. - esclareceu Artemis ao aproximar-se do trio. - Ela também quer que você vá para lá. - completou e não ficou surpreso ao ver-se sob o olhar confuso e irado de Estelar.
Depois que descobriu o verdadeiro motivo do inimigo estar atacando a Terra e ter atacado Zathar, Serenity deixou ordens expressas de que Sailor Estelar precisava ser protegida a todo custo, mesmo que tivesse que ser arrastada a força para um abrigo e amarrada contra uma pilastra de concreto. A mulher não queria se arriscar a presenciar a morte da filha quando tinha o poder de impedir isso.
- Você vem Selene? Vai vir comigo? - a voz fraca de Endie fez a menina desviar sua atenção dos conselheiros reais para o garotinho que usava o corpo de Diana como um escudo natural para qualquer perigo. Sentiu um aperto no coração ao ver a expressão aterrorizada no rosto do menino e por um breve momento relutou em sua decisão.
Teria coragem de entrar de cabeça na cova dos leões e deixá-lo para trás? Desde que era pequena acostumara-se a ver aqueles límpidos olhos azuis a mirarem com admiração e orgulho, como um irmão mais novo mirava o mais velho, como ela costumava, e ainda costuma, mirar Serena. Endymion buscava em Selene seu exemplo para ser uma pessoa melhor e a garota sempre fez de tudo para não desapontá-lo.
O mimara com a mesma intensidade que os pais deles mimaram o garotinho, o protegia não apenas de ataques como da vida com a mesma força com que Serena a protegia. Era como se fosse um acordo silencioso entre os três irmãos. Sabiam que apesar de todos os seus poderes, seus pais não viveriam para sempre e quando eles partissem, fosse pela ordem natural das coisas ou por causa de mais um ataque, eles teriam apenas um ao outro com quem contar. Aprenderam a se proteger e proteger ao próximo.
Serena obrigou-se a amadurecer para assim estar preparada para qualquer eventualidade em que tivesse que cuidar dos irmãos mais novos. Selene dedicou-se ao seu treinamento para assim tornar-se mais forte e nunca deixar que Endymion se machucasse e foi pensando nisso que, neste momento, a garota compreendeu as atitudes de sua irmã mais velha e isto a fez sorrir. No fundo elas eram mais parecidas do que diferentes, no fundo os três eram três partes de um todo, o príncipe e as princesas da Terra.
Com um suspiro a senshi apoiou-se em um joelho no chão e chamou o garoto com os braços estendidos em sua direção. Endie prontamente soltou-se do aperto da mão de Diana e jogou-se nos braços da irmã que o apertou com força contra o seu corpo como se quisesse defendê-lo de qualquer mal somente com aquele abraço. Vagarosamente começou a acariciar os cabelos castanhos e macios enquanto sentia o menino segurar-se a ela como se a sailor fosse a sua bóia salva-vidas em um mar revolto.
- Não vá... - murmurou Endie e Selene não ficou surpresa com o pedido dele. - Não me deixe. - pediu com mais convicção e mais uma vez ela relutou. Teria coragem de partir sabendo que quebraria o pequenino coração do príncipe em milhares de pedaços? Ele era tão novo, tinha tanto a viver ainda e não merecia um sofrimento desses. Mas, ao mesmo tempo, era isso que a convencia a seguir em frente, a chance de dar um futuro de paz para ele a motivava a fazer o que iria fazer. Queria o melhor para todos, queria o melhor para ele, e seria pensando nisso que ela se entregaria a mercê do inimigo.
- Eu não vou. - disse, afastando-se um pouco para encará-lo nos olhos e ver que o rosto redondo dele estava marcado por lágrimas. - Enquanto você me tiver aqui - colocou uma mão espalmada sobre o lado esquerdo do peito do menino. - eu sempre estarei com você. Vamos, não chore. - continuou, usando as pontas dos dedos para secar as lágrimas dele. - Quem é meu corajoso e intrépido guerreiro da Terra? - perguntou com um sorriso ao lembrar-se de todas as vezes que vira Endie correr pelos jardins do palácio dizendo que era um guardião da Terra poderoso como o pai deles, sacudindo um graveto como uma espada e lutando contra monstros imaginários.
- Eu sou. - respondeu o príncipe com um soluço e mais lágrimas.
- E quem é a bela e inteligente parceira do guerreiro da Terra? - ela piscou um olho matreira para o irmão, pois quando ele resolvia brincar de guardião sempre convocava Selene para ser a sua parceira.
No começo a garota aceitava relutante, mas era somente passar alguns minutos e os dois já estavam rindo e correndo pelos jardins enquanto a jovem usava a sua telecinese para poder mover um objeto qualquer e fingir que este era o inimigo que Endie deveria derrotar. E, por outras vezes, Serena unia-se a brincadeira assumindo o papel de um vilão desajeitado e estúpido que fazia o menino rir horrores.
- Você é. - continuou com uma expressão tristonha.
- E você sabe qual é a missão de um guerreiro da Terra? - completou Selene com uma expressão séria, acariciando as bochechas dele com as pontas dos dedos.
- Proteger nosso belo planeta e nosso belo povo. - ditou Endie o discurso que ele sempre gritava quando ia derrotar seus inimigos imaginários.
- E é isso o que vou fazer. Você entende? - perguntou e o viu assentir vagarosamente com a cabeça antes de abraçá-la com força mais uma vez.
- Eu amo você Sel. - murmurou contra os cabelos negros da irmã e Estelar deu um sorriso triste, sentindo um bolo entalar-se em sua garganta diante de três palavras tão simples e ao mesmo tempo tão poderosas.
- E eu amo você pequeno príncipe. - respondeu em um sussurro, o soltando logo depois e o direcionando para Luna, Artemis e Diana que presenciavam a cena em silêncio e com lágrimas nos olhos.
Prontamente Artemis ergueu o menino no colo como se ele não pesasse nada e assentiu com a cabeça em um gesto de despedida para ela, começando a andar e sendo seguido pela sua família. Estelar apenas ficou parada observando o grupo se afastar e viu Endie dar um aceno de adeus por cima do ombro de Artemis, gesto este que ela retribuiu com um sorriso fraco e logo os quatros sumiram porta afora com certeza indo com vários outros na direção do abrigo indicado pela rainha.
Outra explosão a tirou de seus devaneios e com uma profunda inspirada de ar ela tomou o caminho para fora do castelo. Tinha que encontrar De-Gra antes que a situação ficasse pior, mas o problema era que nem sabia por onde começar. Quando chegou ao pátio destruído do palácio e alcançou as ruas seu estômago embrulhou.
Corpos e sangue cobriam o chão, muitos de soldados que defendiam a cidade junto com as sailors, outros de policiais, bombeiros, mas a maioria de civis que não conseguiram fugir a tempo. Escombros estavam espalhados por todo o lado e um zumbido chegou aos seus ouvidos.
Virou-se para ver com extremo horror que os insetos geneticamente alterados planavam acima dos destroços e os corpos mortos um a um erguiam-se do chão como se puxados por fios invisíveis. Instintivamente esticou o braço ao lado do corpo e invocou o seu cetro, vendo as criaturas aproximarem-se cada vez mais. Com um suspiro de pesar ela fechou os olhos e abaixou a cabeça antes de dizer em um sussurro:
- Suprema Devastação Estelar. - o golpe criou um clarão na rua deserta e quando a poeira abaixou nada mais restava dos insetos ou zumbis. Sentiu um enorme aperto no peito ao pensar no que tinha acabado de fazer. Embora aquelas pessoas já estivessem mortas, ainda sim não aliviava a culpa de ter dizimado inocentes.
O som de aplausos foi-se ouvido e a jovem virou sobre os saltos apenas para encarar a figura de De-Gra desviar-se da destruição e parar a apenas alguns metros de distância dela. A postura e expressão mostravam que o sujeito não estava nem um pouco abalado com o cenário de carnificina que os rodeava, com os corpos que os encaravam com olhares vazios e a destruição que assolava a cidade. Ele pouco se importava com o estrago que estava fazendo, com o sofrimento que estava causando, e isto fazia o sangue de Selene ferver de ódio.
- E então princesa? - disse em um tom desinteressado. - Já se decidiu? A Terra ou o cristal?
- Que garantia eu tenho que depois que você conseguir o que quer deixará este planeta em paz... e Zathar? - o homem gargalhou longamente.
- Zathar? Em que lhe interessa o bem de Zathar? - acusou com um sorriso de escárnio no rosto e um brilho de compreensão nos olhos gélidos. - Ah, entendi. - murmurou divertido e Estelar apenas franziu o cenho para ele. - Tem a minha palavra de honra que retirarei o ataque depois que conseguir meu corpo de volta. - declarou, fazendo um sinal de v com os dedos e Selene apenas deu um sorriso zombeteiro.
- E você acha que eu nasci ontem? No momento que conseguir o que quer vai destruir os dois planetas e tantos outros. - falou e De-Gra gargalhou. Ela não era tão estupidamente boazinha quanto imaginava, do tipo que acreditava nas promessas vazias da criatura que estava ameaçando a segurança do seu planeta.
- Verdade. Mas pode ser que eu os destrua, pode ser que não, isso é uma coisa que você nunca terá certeza não é mesmo? - comentou divertido para segundos depois ficar extremamente sério. - O cristal princesa.
Selene suspirou, o encarando nos olhos por breves segundos antes de abaixar a cabeça e mirar o chão. Ao longe ouviu um grito emitido por uma voz familiar ao recitar o golpe mais poderoso de Sailor Moon. Era o grito de sua mãe. De rabo de olho viu um clarão acima dos prédios e percebeu que as inners senshis deveriam estar lutando bem próximo de onde estava. Ergueu novamente a cabeça e um movimento sobre uma das calçadas lhe chamou a atenção e surpreendeu-se ao ver a figura de Eckhard parado lá.
A imagem dele estava quase translúcida e ele usava uma veste dourada e prata ricamente decorada com vários bordados com símbolos que desconhecia. De-Gra parecia não ter notado a presença do elfo e a jovem compreendeu rapidamente o motivo dele estar ali. Ele seria o responsável por buscá-la. Deu um sorriso sem vida para o homem antes de mirar o broche preso ao laço em seu peito.
Lentamente ela levou os braços a altura do laço, as mãos posicionadas em um formato como se estivesse segurando uma bola. Seu corpo brilhou uma energia dourada que começou a se concentrar em frente ao broche, entre seus dedos curvados. A luz emitida cegou Mar'De-Gra por segundos e um vento forte soprou pela rua.
No céu os relâmpagos pararam de cortar o ar e os trovões silenciaram-se. As explosões e gritos da batalha também desapareceram e um silêncio sepulcral tomou conta da cidade. E, de repente, começou a chover sendo apenas o barulho das gotas de água chocando-se contra o asfalto e lavando o sangue do chão a única coisa a preencher o ambiente.
Subitamente a luz diminuiu e entre os dedos de Selene pulsava uma energia poderosa que aos poucos foi tomando o formato de um cristal de várias pontas que parecia imitar a imagem de uma estrela brilhando ao longe no céu.
O rosto da princesa estava pálido, sua respiração ficando cada vez mais fraca, e ela sabia que era apenas os resquícios da energia do cristal que a mantinha viva. Percebeu que De-Gra a observava intensamente como uma ave de rapina prestes a dar o bote e em gestos lentos foi abaixando o cristal na direção ao chão.
A figura de Eckhard na calçada parecia que a cada minuto tornava-se mais nítida e o silêncio de antes foi quebrado violentamente e como um só o som das batalhas, dos trovões e dos gritos assolaram seus ouvidos. Teve a impressão, por um breve momento, de escutar som de passos, pesados calçados de salto chocando-se contra o pavimento molhado em sua direção. Por um instante achou ter ouvido a sua irmã a gritando enquanto mais e mais ela abaixava o cristal até a altura dos pés.
- Faça! - De-Gra ordenou impaciente e lentamente Estelar ergueu uma perna. O que iria fazer era drástico e rude, um fim nada digno ao lendário Cristal Estelar, mas o problema era que ela não conseguia desviar o olhar da energia pulsante aos seus pés e que a acusava de ser uma louca. - FAÇA! - comandou o homem ao mesmo tempo em que outro grito sobrepôs-se ao dele.
- SELENE! - e com força e determinação Selene esmagou o Cristal Estelar com a ponta da bota, tendo como última imagem antes de seu mundo ser engolfado pela escuridão a pedra espatifar-se em milhares de pedaços e a energia dissipando-se nas cores do arco-íris.
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Hans apoiou-se em uma das bancadas de flores, sentindo que se não usasse a mesa como suporte suas pernas trêmulas o trairiam e o deixaria cair dolorosamente no chão. Havia chegado tão perto de completar a sua missão e bastou apenas um olhar de Selene para toda a sua resolução ir por água a baixo. Deixara-se levar pelo encanto da princesa, mesmo que nos primeiros momentos ignorasse esse fato. Mas todas as pistas estavam lá.
A sua idéia doida de seduzi-la para descobrir quem era Sailor Estelar era apenas o cume do monte. Poderia ter obtido essa informação de várias outras maneiras, mas a possibilidade de estar perto de Selene, de estar perto da garota que se assemelhava espantosamente com a mulher que morreu em seus braços era tentadora demais. Mas havia algo mais, havia algo em Selene que o fazia vê-la apenas como a princesa da Terra e não como um fantasma de Estela.
Suas divagações foram interrompidas quando sentiu mãos segurarem o colarinho de sua camisa e o seu corpo ser arremessado contra a mesa, derrubando vários vasos no chão, o som do barro seco quebrando-se e da terra espalhando-se ecoando pela estufa. Aturdido, Hans virou a cabeça para ver quem tinha ousado tocá-lo dessa maneira e viu-se sendo encarado pelo par de orbes cinzentos de Sailor Arcádia que estava ladeada por uma Phobos de braços cruzados e impaciente, Europa que estalava os dedos e parecia segurar-se para não socá-lo e Vésper que tinha as mãos na cintura e uma expressão insatisfeita.
- Onde está a princesa? - vociferou a sailor das águas e de rabo de olho o homem viu Sailor Moon com um uniforme diferente entrar na estufa. Serena estava transformada no último estágio, sendo Sailor Moon Eternal, mas os tons de azul de seu uniforme agora eram rosa, assim como a bota, assemelhando-se ao que era o uniforme de Sailor Chibi-Moon.
A jovem deu um meio sorriso ao ver a expressão confusa do zathariano, mas não estava disposta a explicar que essa sua versão de transformação somente ocorria quando a rainha também se transformava em Sailor Moon. Serenity resolvera ir com as inners e others senshis para a batalha para proteger a cidade e para isso usou o Cristal de Prata para transformar-se na original guerreira lunar, com o mesmo uniforme que Serena costumava ostentar nas lutas. Por isso, quando havia duas Moons em combate, a rainha tinha o privilégio de ficar com a transformação original.
Hans desviou o olhar para um vidro que tinha acabado de estourar, fazendo Arcádia e as outras encolherem-se, cobrindo as cabeças para protegerem-se dos cacos que dispararam em todas as direções. Desinteressado ficou acompanhando um vidro trincar a cada momento que o tremor ficava mais intenso até que ele partiu de vez.
A estufa estava começando a desmoronar a volta deles e as outras senshis discutiam sobre o que fazer enquanto o caos aumentava a cada segundo e estranhamente ele estava anormalmente calmo diante de toda aquela confusão. Subitamente parecia que toda a preocupação havia desaparecido e o vazio o preencheu. Se bobeasse ele poderia até rir da tragédia que era o fato da Terra estar prestes a deixar de existir e o sistema solar passar a ter apenas oito planetas.
- Hans! - o grito de Sailor Moon e o tranco que ela deu em seu corpo ao puxá-lo pela frente da camisa o fez acordar de seu torpor e mirar seus olhos azuis nos âmbares da guerreira. - Onde está Sailor Estelar? - pontuou cada palavra como se assim fosse fazer o homem compreender melhor o que estava perguntando e o mesmo piscou os olhos pensativo. - O que você fez com ela? - acusou com uma veia pulsando na testa de raiva e diante da imobilidade do zathariano de responder ou fazer qualquer outra coisa.
- Ela se foi. - disse por fim, segurando o pulso fino de Serena e desprendendo o punho dela de sua roupa com força, a empurrando em direção as outras senshis e Phobos rapidamente aparou a amiga quando esta tropeçou e perdeu momentaneamente o equilíbrio.
- Seu desgraçado! - Europa gritou possessa, os braços esticados por onde correntes elétricas corriam e crepitavam, pronta para atacar. - Você tirou o cristal dela! - berrou e Hans riu por um breve momento antes de sua gargalhada desaparecer e ele encarar com uma expressão sombria todas as senshis, uma por uma, até o seu olhar recair sobre Sailor Moon.
- Não. Deveria conhecer a sua irmã o suficiente para saber que nada é feito contra a vontade dela. - disse diretamente a princesa que ofegou levemente. - Tudo tem que ser de acordo com os seus planos e a sua vontade. Ela tem que ter o controle, sempre tem que ter o controle. - terminou e Serena sentiu como se o mundo a sua volta tivesse congelado diante das palavras de Hans.
Selene com certeza jamais deixaria que lhe roubassem o cristal, lutaria até a morte contra quem quer que fosse, mesmo que essa pessoa fosse o homem por quem ela tinha se apaixonado. Mas, ao mesmo tempo, ela nunca suportaria a idéia de que a única chance de salvar este planeta fosse o fim de sua vida. E ela não deixaria ninguém tirar essa responsabilidade dela, ela tinha que ter o controle de tudo, de cada detalhe ou ação. Desde pequena era assim: teimosa, decidida, quando alguém dizia que tinha feito algo de errado ela sempre arrumava uma resposta para contradizer a repreensão por isso das várias brigas que as duas sempre tinham.
Serena com seu super protetorismo sempre quis cuidar dos irmãos dentro de uma redoma de vidro. Evitava que Selene fosse para as batalhas, fazia questão de lembrá-la sempre quem era a líder das senshis, achando que se conseguisse incutir na mente da irmã a idéia de hierarquia conseguiria comandá-la, controlá-la, tirá-la da linha de perigo e a outra princesa sempre discutia. Sempre achava desculpa, brechas em suas ordens, em seus motivos, para fazer tudo ao contrário do que ela tinha pedido.
Ela não admitia que outra pessoa tivesse as rédeas de suas decisões, podia cometer os erros, mas fazia questão de consertá-los ao seu modo. Por isso ela foi atrás de Kolie no passado, não apenas pelo orgulho ferido diante da falha em sua missão, mas porque ela não podia deixar esse problema não resolvido, não podia permitir que outros ajeitassem as suas bobagens. E agora ela estava fazendo tudo de novo. Mas Serena não entendia o porquê.
- O fato da Terra, de Zathar, estarem sendo atacados é porque meses atrás houve uma instabilidade nas trancas dos portais o que conseguiu libertar parte dos poderes de Mar'De-Gra. - todas prenderam a respiração ao ouvir o nome já familiar. - O que está ocasionando todo este estrago. - explicou-se com pesar. - Logo...
- Selene incumbiu-se de consertar este problema. - completou Serena com os olhos largos. - Você não está querendo insinuar... - murmurou a princesa, encarando com horror a expressão séria do homem e sentindo o seu sangue ferver de ódio e lágrimas rolarem de seus olhos escuros. - Ela não seria louca o suficiente, ela não faria isso! - riu sem divertimento algum como se achasse extremamente absurda a idéia que surgiu em sua cabeça da irmã ser capaz de se matar para dessa maneira salvar o planeta. - Destruir o Cristal Estelar não fará bem algum! - gritou histérica e Hans apenas sacudiu a cabeça em uma negativa.
- Ela conta conosco para poder segurar De-Gra quando tudo estiver terminado. - completou o zathariano.
- Como ela espera que façamos isso? Como ela tem a coragem de fazer isso comigo? QUEM ELA PENSA QUE É PARA ME DEIXAR? - berrou a jovem de cabelos rosados. - Por que você a deixou ir? - continuou, dando um passo a frente e começando a socar o peito de Hans, com o homem impassível deixando que ela extravasasse toda a sua raiva. - Como você pôde deixar a mulher que ama ir? - soluçou, perdendo as forças e parando de bater nele, deixando os braços cair ao lado do corpo e abaixando a cabeça derrotada.
- Sailor Moon... - Europa segurou a amiga pelos ombros em um gesto de consolo, seus olhos também marejados de lágrimas ao ouvir toda a história. Não sabia dizer se Selene era burra demais ou corajosa demais para fazer o que iria fazer sem pensar nas conseqüências de seus atos.
- Não! - a voz de Serena ecoou na estufa despencando com um tom decidido e ela ergueu a cabeça em um estalo, secando as lágrimas com força. - Eu não vou deixar que ela faça isso! - declarou e virou-se em um pulo para as outras senshis. - Nós vamos procurá-la, agora! - e começou a caminhar a passos largos para fora da estufa, sendo seguida pelas outras e Hans, cortando o caminho por dentro do palácio vazio até chegarem à porta de entrada que estava escancarada e praticamente caindo das dobradiças por causa dos tremores.
- Como vamos encontrá-la nessa confusão? - perguntou Phobos quando eles chegaram a grande praça que ficava em frente a entrada principal do castelo.
- Vésper? - Serena virou-se para Marjorie que arqueou as sobrancelhas loiras. - Você pode localizá-la, não pode? - perguntou. A garota tinha herdado a mesma empatia do pai e, portanto, tinha a habilidade de sentir os outros, o que sinceramente Sailor Moon não considerava um poder muito útil em batalhas até agora.
- Sim... mas... a cidade está um caos, pessoas apavoradas, feridas, morrendo, se eu resolver desbloquear a minha empatia para localizar Estelar nem quero pensar na enxaqueca que vou ter depois. Além do mais se ela estiver morta eu... - foi bruscamente interrompida por Sailor Moon.
- Ela não está morta! E ande com isso e me dê menos desculpas. - ordenou grosseira e a loirinha teria ficado ofendida e discutido com a amiga se não compreendesse que o fato da princesa estar com os nervos em frangalhos era por causa das atitudes doidas da irmã.
- Okay. - suspirou e fechou os olhos, abrindo a sua alma e concentrando-se, recebendo prontamente sentimentos de desespero, dor, angústia, desesperança, raiva e vários outros que se embolavam em sua mente. Pôde sentir bem perto de onde estavam as mães delas lutando contra as criaturas que estavam atacando a cidade. Por um momento chegou até a canalizar os poderes delas com a sua empatia e usou este link para poder encontrar Estelar. Se conseguisse sentir a energia de sailor de Selene, talvez a localizasse.
Quando depois de minutos nada aconteceu, finalmente ela teve a sua resposta ao ouvir ecoar perto de seu ouvido a voz de Selene invocando o seu golpe. Em um estalo abriu os olhos.
- Para lá! - apontou rua abaixo e prontamente Serena disparou na direção indicada sendo acompanhada pelos outros. Marjorie apressou o passo para acompanhar a amiga e assim soltar as direções enquanto elas corriam em disparada entre corpos e escombros.
Sailor Moon dobrava esquinas e pulava destroços, ouvindo atenta as instruções de Vésper, suas pernas em ritmo acelerado e parecia que o solado de suas botas mal tocavam o chão diante de seu desespero. As outras senshis e Hans a seguiam de perto, ou ao menos tentavam acompanhar o ritmo frenético da jovem, sabendo que a única coisa que movia a garota neste momento era a adrenalina, que nenhum pensamento coerente estava passando pela cabeça dela e com os olhos fixos em um ponto no fim da rua ela prosseguiu o seu caminho, virando de esquina em esquina sem desviar a sua atenção para nada que acontecia a sua volta.
Inesperadamente a vitrine de uma loja explodiu e corpos voaram por entre os cacos de vidros.
Uma a uma as sailors foram deslizando pelo asfalto até frearem de vez, observando quietas o desenrolar dos acontecimentos e vendo horrorizadas as pessoas que tinham voado pelo vidro erguerem-se vagarosamente do chão como defuntos saindo da cova, com ferimentos ao longo do corpo que mostrava que não tinha como elas estarem vivas.
Irritada, a princesa invocou seu cetro e mirou com ferocidade o obstáculo que se punha entre ela e a salvação de sua irmã. Sabia que aquelas pessoas inocentes eram apenas mais vítimas das loucuras de um homem sedento por poder, mas, no momento, nada disso a importava. Se estivesse em pleno controle de seus sentimentos saberia que mais tarde se sentiria culpada pelo que iria fazer, mesmo que para aquela gente ser eliminado por uma senshi era uma maneira mais honrosa de morrer do que deixar seu corpo ser manipulado pelo inimigo, mas nada disso importava no momento, nada iria colocar-se entre Selene e ela.
- SAIAM DO CAMINHO! - gritou, girando a varinha no ar. - MOON SPIRAL HEART ATTACK! - numa explosão de luz rosada os zumbis desapareceram e antes que as outras pudessem registrar direito o que tinha acontecido, Serena já tinha saído em disparada mais uma vez e tudo o que restou as outras sailors foi tomar fôlego e seguir a líder.
Mais uma vez o grupo dobrou uma esquina, chegando a uma avenida destruída, com prédios caindo aos pedaços, carros de ponta cabeça chamuscados e abandonados pelos próprios donos durante o pânico e lá, no meio da larga rua, em uma clareira conveniente feita pelos veículos que foram tirados do caminho pelos canhões de plasma estavam Selene e De-Gra.
Sailor Moon parou de correr abruptamente, observando fascinada os cabelos negros da irmã balançarem com o vento enquanto a sailor de costas para si parecia com a atenção focada no broche em seu peito. Segundos depois ela levou as mãos na altura do broche e este começou a brilhar. Um clarão inundou o local e as senshis assustaram-se ao ouvir a sua líder soltar um gemido de dor, fechar o punho sobre o coração e dobrar-se sobre o próprio corpo.
- Princesa? - Hans chamou preocupado ao ver a reação de Sailor Moon e quando a luz retrocedeu, voltou à atenção a Selene ainda de costas para eles. Algo parecia brilhar entre as mãos da menina e inclinando-se um pouco para o lado ele viu um cristal de várias pontas refletindo a luz dos raios em sua superfície.
- Não... - sussurrou Serena ao ver a irmã movimentar-se ao poucos, levando o cristal que flutuava entre as suas mãos na direção do chão. - Não... Selene. - murmurou, a sua mão apertando ainda mais o peitoral do uniforme sobre o coração. Neste momento ela adoraria ter a telecinese da outra princesa, pois assim poderia enfiar aquele cristal a força dentro do corpo dela. - Não... SELENE! - gritou, incitando as suas pernas a correrem, a tirando do estado de morosidade quando viu a outra senshi depositar o cristal no asfalto e erguer o pé na menção de pisá-lo.
Vésper, Europa, Phobos, Arcádia, mas, principalmente, Hans pareciam congelados no lugar e observavam com olhos largos, respiração suspensa e coração palpitando de apreensão o desfecho daquela cena. Viram com horror Estelar descer a perna em direção ao cristal e com um único e decisivo golpe esmagar a chave de portais sob a sola da bota.
Serena soltou um grito estrangulado, não se deixando abalar pela forte onda de energia que o cristal emitiu ou pela luz multicor que dispersou com a sua destruição, e apenas continuou correndo enquanto via o corpo de sua irmã se destransformando aos poucos e voltando as roupas originais começar a cair.
Com um deslize sobre o asfalto ela acolheu Selene nos braços, a abraçando contra o peito e caindo de joelhos no chão sob o peso da menina. A cabeça da jovem princesa pendeu para o lado, o rosto pálido e os olhos fechados a fazendo parecer que apenas dormia, mas Serena sabia bem, sabia que se abrisse aquelas pálpebras não encontraria nenhum brilho de vida nos olhos azuis e com isto sentiu seu coração quebrar no momento em que o link fraterno que as unia se despedaçou. Soltou mais um grito de dor e abraçou com mais força a outra adolescente contra si, começando a chorar copiosamente contra os cabelos negros.
Enquanto isto, em um abrigo ao norte da cidade, príncipe Endymion levantou-se do chão em um salto, assustando as pessoas a sua volta e atraindo a atenção de Michiru para o menino. A mulher trocou um olhar curioso com Artemis e Luna e arqueou as sobrancelhas quando o ouviu ofegar como se tivesse recebido uma pancada forte no peito que o fez perder o ar. Os olhos claros do garoto começaram a encher-se de lágrimas que rolaram abundantes sobre as bochechas macias e com um único soluço ele choramingou:
- Selene. - e foi com pesar que sentiu o link que o ligava a sua irmã ser arrancado de sua alma e descobrir de maneira dolorosa que a tinha perdido... para sempre.
Continua…
