Capítulo 9
A tempestade que já reverberava com força desde o início da batalha parecia ter piorado e os raios que cruzavam o céu iam até o solo em estrondos violentos, abrindo crateras no asfalto molhado e trincando e explodindo as vidraças restantes das janelas dos prédios. A chuva encharcava os guerreiros parados no meio da rua e lavava as lágrimas do rosto de Serena que tinha uma expressão horrorizada, como se ainda não tivesse assimilado o que havia acontecido enquanto abraçava o corpo sem vida da irmã. Os dedos enluvados e trêmulos deslizavam pelo rosto da jovem princesa, traçando as linhas como se estivesse desenhando a face da menina e tocando a pele pálida e fria com delicadeza, com medo de que a garota fosse quebrar como uma boneca de porcelana.
- Não... - murmurou desolada, apertando a adolescente contra o peito e começando a balançar o corpo para frente e para trás em um gesto cadenciado, como se estivesse ninando a menina mais nova.
O vento começou a soprar em um silvo ensurdecedor, levando consigo os poucos destroços que conseguia varrer com a sua parca força. As neo senshis rodeavam as duas herdeiras do trono, olhando com pesar a cena triste que rolava em frente aos seus olhos, todas ainda não conseguindo acreditar no que havia ocorrido.
Na mente jovem delas, a ilusão de que eram poderosas e imortais perdurava de maneira inocente até que a realidade as tinha atingido sem nenhuma piedade. Em todas as batalhas em que saíram vencedoras, em nenhum momento elas pensaram que poderiam ser derrotadas, que eram tão frágeis como qualquer ser humano comum.
No entanto, agora que viam uma Serena desesperada abraçar-se ao corpo sem vida da irmã, elas conseguiam perceber em como podiam ser aniquiladas tão facilmente. E o que mais as revoltava é que Sailor Estelar não havia nem mesmo sucumbido ao inimigo, mas a si própria. O egoísmo dela as entristecia e as irritava. Que direito a senshi Estelar tinha de tirar a própria vida, as abandonando em plena batalha?
O estrondo de mais um raio descendo violentamente dos céus e atingindo o pára-raios de um prédio que, não suportando a força da descarga elétrica acabou explodindo, acordou as jovens de seu torpor e as fez perceber que algo mais grave, algo maior, estava acontecendo à volta delas. Vésper foi a primeira a notar que o ar ficara mais denso, o ambiente carregado e mais sombrio. As nuvens negras escureciam a cidade fazendo parecer que a noite chegara mais cedo. O vento que soprava cantava uma melodia sinistra ao pé do ouvido das meninas e a loira virou-se lentamente na direção do homem com quem Estelar conversava antes de morrer.
Entretanto, lá parado no meio da rua não estava mais um adolescente, pois este agora se encontrava sem vida caído sobre o asfalto trincado. O que havia agora era estática e corrente elétricas que pareciam cortar o ar com intensidade, partindo a atmosfera com violência como se quisessem abrir caminho para alguma coisa atemorizante, como se tentassem abrir uma porta dimensional em pleno ar.
- Precisamos sair daqui. - disse a empata ao pressentir que algo nada bom estava por vir. Seus olhos azuis correram pelas suas amigas guerreiras, até recaírem sobre a sua líder que ainda encontrava-se ajoelhada no chão abraçada ao corpo da irmã. - Vamos Moon! - falou com tristeza em seu tom de voz, colocando uma mão sobre o ombro da princesa mas esta sacudiu a cabeça em uma negativa.
Não queria se mover, não queria respirar. Doía, tudo em seu ser doía. Tentava a todo custo buscar no elo fraterno algum sinal, alguma coisa que lhe desse um pouco de esperança, que lhe dissesse que ainda poderia salvar a irmã, mas nada encontrava. Sua conexão com Selene havia sido bruscamente cortada no momento em que o cristal foi destruído e isso a desesperava. Um vazio apoderara-se de seu corpo e isto não a permitia se mexer ou reagir para qualquer coisa que acontecia a sua volta.
Queria chorar, gritar, lamentar, mas tudo o que conseguia fazer era soltar pequenos soluços enquanto abraçava o corpo da outra adolescente contra o seu, na vã tentativa de que se a mantivesse quente ainda pudesse ter a chance de trazê-la de volta a vida.
- Sailor Moon. - a voz rouca de Hans a chamou e Serena ergueu os orbes âmbares para mirar com raiva a criatura que era responsável pelo seu sofrimento.
Ao vê-lo tão próximo de si, tão próximo de Selene, teve como primeiro impulso sacar o seu cetro e pulverizá-lo sem piedade, não se importando com as conseqüências. Mas quando viu nos olhos dele a mesma dor que com certeza estava refletida em seus próprios olhos, toda a sua fúria esvaiu-se em um instante e a fez lembrar-se do por que sua irmã havia se sacrificado desta maneira: para que o rei de Zathar não fosse responsabilizado. Mas isto não impedia Serena de culpá-lo.
- Isto é culpa sua. - acusou venenosa, sentindo-se ainda mais vazia por dentro ao perceber que estava aos poucos admitindo para si mesma que Selene estava morta. - É TUDO CULPA SUA! - gritou histérica, percebendo que a raiva antes aplacada com um simples olhar para a expressão sofrida de Hans estava retornando. Depositando Selene suavemente sobre o asfalto, ela ergueu-se logo depois em um pulo, pronta para avançar sobre o soberano mas sendo segurada pelos braços poderosos de Europa.
- Creio que agora não é o melhor momento. - falou Lily em um tom autoritário. Segundo o combinado, pelo que se lembrava, na ausência da líder Sailor Moon, Europa assumiria o comando das senshis por ser a mais velha de todas. E como Serena no momento não estava em estado emocional perfeito o melhor era ela começar o seu trabalho como segunda em comando, pois concordava com Vésper: elas precisavam sair dali e re-agrupar com as outras sailors. - Você! - continuou firme, meneando a cabeça na direção do zathariano. - Pegue a princesa. - e indicou com outro gesto de cabeça Selene no chão.
Sem dizer nada, Hans recolheu o corpo da jovem em seus braços, sentindo um bolo entalar na garganta e seu coração descompassar ao lembrar-se de que vivera cena parecida no passado. Jamais esqueceria o dia em que segurara o corpo de Estela contra o seu. Derrotada, tão frágil e mesmo assim não menos bela. Jamais esqueceria o funeral dela com honrarias de guerreiro, fora no mesmo dia que o funeral de Endymion e a Terra nunca estivera tão triste com a perda de seu príncipe.
Para o zathariano, a perda de Endymion não foi nada comparada à perda de Estela e por meses inteiros o homem odiou o jovem terráqueo que levara a sua amada. Quis rir diante da ironia, pois o Endymion que ele culpou no passado por ser responsável pela morte de Estela foi o mesmo que lhe deu Selene e sabia que quando encontrasse o homem os papéis estariam invertidos, o que lhe dava uma sensação mórbida de vingança. No entanto, não diminuía a sua dor.
- Vamos re-agrupar! - ordenou Europa, deixando que uma frieza racional se apoderasse de seu corpo enquanto ainda restringia Serena em seus braços e a impedia de matar o zathariano que agora segurava o corpo de Selene como se ela fosse o ser mais precioso do Universo. - Vésper e Arcádia! - chamou e as duas sailors prontamente deixaram a tristeza de lado, mirando a nova líder firmemente. - Vocês vão na frente em reconhecimento. Vésper vai guiando o caminho até as outras senshis. Phobos, eu quero você na retaguarda. - ordenou e Phobos assumiu sua posição fechando a roda que começava a ser formada.
Sailor Moon ainda se debatia por causa da raiva e dor e um aperto de Europa a fez parar momentaneamente seus protestos e encarar a amiga por cima do ombro, vendo firmes orbes dourados a mirar duramente, exigindo que ela se controlasse pois tinham assuntos pendentes a resolver.
- Não… - sussurrou a princesa derrotada. - Você não pode simplesmente me pedir para esquecer. - implorou com pesar. Não era fácil esquecer a dor e lembrar-se que ainda tinha um trabalho para fazer. Ela tinha acabado de perder a irmã e isso machucava. Lily não poderia ser insensível a este ponto, sabia que a amiga não era insensível a este ponto.
- Sei que machuca… - a meio elfo começou em tom baixo, apenas para os ouvidos da senshi presa em seus braços. - mas peço que transforme essa dor em raiva e essa raiva em energia para cumprir o que Selene nos ordenou. Ela fez o que fez confiando que nós iríamos eliminar essa ameaça. Você simplesmente não pode jogar o esforço dela fora. Selene confiou em nós. - declarou e as lágrimas rolaram em abundância pelo rosto de Serena, que soltou um soluço estrangulado ao ouvir tais palavras.
- Não, ela não confiou. - disse com a voz rouca e em um choramingo. - Se tivesse confiado não teria feito esta besteira, se tivesse confiado teria me procurado para encontrarmos outra solução além dessa. Por que ela foi me deixar? Por quê? - continuou com uma expressão sofrida e Lily soltou um suspiro, virando a jovem em seus braços e a abraçando apertado contra o seu corpo em um gesto de consolo.
- Eu sinto muito Serena, sinto mesmo. - murmurou no ouvido da menina antes de desferir um soco contra o estômago dela, a pegando de surpresa e vendo enormes e lacrimosos olhos âmbares a mirar chocada antes da princesa desfalecer em seus braços.
- Europa! - Vésper chamou surpresa diante do gesto da companheira que apenas mirou a empata firmemente antes de erguer Sailor Moon nos braços e a jogar por cima do ombro.
- Vamos! - ordenou, seguindo caminho e sendo acompanhada de perto pelas outras adolescentes e Hans, que ainda carregava Selene e vez ou outra encarava o rosto pálido da jovem com uma expressão irreconhecível no rosto.
Apressados o grupo afastou-se da cena que se tornava ainda mais sombria a cada segundo, com correntes de energia e estática cortando o ar e quando eles viraram uma esquina não puderam mais presenciar quando um círculo negro abriu-se no meio da rua e dele saiu um homem com um sorriso vitorioso no rosto. Ele inspirou profundamente, podendo distinguir o odor de pânico e carnificina que preenchia a atmosfera sobre a cidade de Tóquio e seu sorriso alargou-se para algo mais feral. Esticando os braços ao lado do corpo ele começou a planar acima do asfalto destruído e a ganhar altura a cada segundo que se passava.
Agora que estava livre tinha assuntos pendentes para resolver. A começar com a destruição dos descendentes de Zac-Ra, o infeliz que o aprisionou. Depois viria o próspero Reino da Terra e quem sabe, no fim, como espólio de guerra ele conseguisse capturar o famoso Cristal de Prata. Realmente este dia estava sendo muito bom para ser verdade, pensou com divertimento antes de disparar na direção onde sentiu a energia das sailors sendo emanada.
E que a batalha começasse, pois ele sabia que sairia vencedor.
oOo
Fazia minutos que Serenity escondia-se atrás do prédio vazio e destruído de um restaurante, acompanhada por Endymion que a mirava com preocupação. Fazia minutos que ela sentia uma angústia em seu coração que não conseguia reconhecer de onde vinha. Embora não possuísse a empatia de Vésper ou do pai dela, Hideki, ainda sim conseguia perceber quando havia algo de errado com os seus súditos e esse ataque repentino que ocasionou tantas vítimas tinha colocado todos os seus sentidos em alerta.
Entretanto, o pesar que ela sentia no momento era outro. Mais profundo e mais doloroso. Mas no meio de tanto caos ela não conseguia discernir a origem de sua dor. E sabia que Endymion sentira o mesmo, pois quando tal sensação misteriosa a acometeu no meio da batalha, a fazendo encerrar o ataque na metade, Darien também havia parado de lutar subitamente como ela e a arrastado para trás daquele prédio para poder esclarecer melhor este estranho acontecimento.
- Eu não sei. - Serenity suspirou ao ver a expressão confusa do marido sobre si. - É como se algo grande, algo importante tivesse sido arrancado de mim. Eu tenho vontade de gritar e chorar, mas não entendo o porquê. E essa escuridão que toma conta do meu coração, como se fosse um aviso de que algo ruim está por vir me deixa agoniada. - declarou, encolhendo-se contra a parede de tijolos quando uma explosão fez a rua tremer.
Por reflexo Endymion cobriu o corpo da esposa com o seu, bloqueando qualquer reminiscência do ataque que pudesse atingi-los e quando o tremor passou ele se arriscou a sair um pouco da proteção oferecida pelo prédio e mirar o que acontecia no espaço aberto oferecido pela rua. Júpiter tinha acabado de detonar um adversário com os seus poderosos raios, mas outros surgiam com a mesma velocidade com que seus companheiros eram destruídos.
- Recuar! - Vênus ordenou enquanto disparava a sua corrente, impedindo o progresso de alguns insetos biônicos e permitindo que as outras sailor batessem em retirada e fossem se refugiar atrás do mesmo prédio onde estavam o rei e a rainha. - Isso não é bom. Nada bom. Nossos golpes só surtem efeito na primeira vez. Na segunda parece que eles ficam imunes ao nosso ataque. - comentou Mina, ofegante e com alguns ferimentos visíveis em seu corpo.
Ao seu lado, Mercúrio já avaliava com olhos frenéticos na tela de seu computador de bolso qualquer dado que lhes desse uma vantagem sobre o inimigo. Seus dedos enluvados digitavam apressados sobre o pequeno teclado enquanto o visor sobre os orbes azuis brilhava com contas, equações e gráficos sobre a batalha.
- Interessante, muito interessante. - murmurou Ami quando viu números pipocarem na tela de seu computador. - Aparentemente eu me enganei nas conclusões iniciais sobre este adversário. - declarou enquanto ainda avaliava algo no computador, ignorando o fato de que todos os olhares estavam sobre ela. - Ann havia dito que o material que carrega os canhões e reveste essas criaturas é zaphira. Zaphira é um elemento muito usado para a construção de armas de defesa em outros planetas, logo eu presumi que fosse algum tipo de metal. Me enganei. Zaphira é um composto orgânico que tem origem nos solos cobertos pelo gelo de Zathar. E é um composto orgânico extremamente interessante. - murmurou fascinada diante de sua descoberta, voltando a avaliar dados e parando de dar explicações.
- Muito interessante isso Ami. - Rei rolou os olhos ao perceber que a amiga estava extremamente concentrada em seu computador e esquecera-se de esclarecer as dúvidas das outras sailors. - Mas em que isso tem a ver com o fato de que não conseguimos derrotá-lo? - falou e Mercúrio ergueu os olhos da tela de seu palmtop.
- Ele é mutável. É um material orgânico que depois de receber o primeiro golpe absorve os dados do mesmo e adapta-se para poder proteger-se de golpes seguintes. É por isso que as naves e outras armas construídas a base de zaphira são tão eficientes em combate. Uma vez atacadas, o mesmo golpe não funcionará uma segunda vez. Se quisermos derrotá-los teremos que inutilizar aqueles canhões e tirar-lhes daquela armadura. - encerrou, fechando o computador e o fazendo desaparecer em pleno ar enquanto apertava o brinco em sua orelha para desligar o visor.
- Se é assim então - Júpiter estalou os dedos, olhando sobre o ombro para a rua que acabaram de abandonar e vendo que as criaturas já haviam se recuperado do golpe de Vênus e agora avançavam na direção de onde elas estavam. Em um pulo a senshi saiu de seu esconderijo, sendo prontamente seguida pelas outras. - Trovão de Júpiter... Ressoe! - gritou, disparando seu golpe em cima do canhão do primeiro inseto, o inutilizando.
- Serenity? - Endymion chamou ao ver que a esposa não seguia as amigas para a batalha. - O que foi? - continuou e a mulher mirou seus olhos azuis límpidos no rosto do marido com uma expressão preocupada.
- Não é o bastante. Eu sinto que não é o bastante e que isto é apenas a ponta do iceberg. - Darien apenas acenou positivamente com a cabeça, concordando com a mulher.
Seu elo com a natureza terrestre o dizia que o planeta estava sofrendo com este ataque e que algo pior estava prestes a surgir. Sem contar que estava sofrendo do mesmo vazio não identificável da esposa. A sensação de que perdera algo importante ainda lhe comprimia o peito, mas não conseguia dizer que algo era este.
Uma enorme explosão e outro tremor chamou a sua atenção e o casal real virou a cabeça na direção de onde escombros e poeira voavam e preenchiam a rua apenas para ver as senshis serem arremessadas para longe por causa de um ataque conjunto dos insetos. As criaturas formaram uma fileira em frente às sailor caídas, começando a carregar seus canhões e Serenity arregalou os olhos, saindo do seu esconderijo, correndo e postando-se na frente das amigas quando a descarga de energia foi disparada contra as senshis.
Com as mãos estendidas a frente do corpo, a rainha ergueu um escudo de proteção que bloqueou os golpes, mas percebia que o mesmo não duraria por muito tempo. A parede fina de energia tremulava diante da pressão dos ataques que vinham um atrás do outro e rachaduras começavam a surgir no campo de força da sailor.
Neste meio tempo, Endymion ajudava as outras senshis a se erguerem, as tirando da linha de ataque enquanto Sailor Moon segurava aqueles bichos. Quando Marte foi refugiar-se novamente atrás do prédio do restaurante, carregando uma Vênus ferida e mancando nos braços, o rei percebeu que a esposa estava a um passo de ceder sob a pressão do ataque inimigo.
- Serenity! - chamou alarmado. Se a mulher abaixasse o campo de energia, ainda teria tempo de tirá-la do caminho do ataque. Praticamente fez de sua experiência de campo de batalha salvar Sailor Moon na hora H e não seria desta vez que iria falhar em proteger a sua adorada rainha. Moon por sua vez olhou por cima do ombro para o marido, vendo a idéia dele estampada nos olhos azuis escuros e acenou positivamente com a cabeça.
Em um pulo Endymion postou-se atrás da esposa e a enlaçou com os braços pela cintura esguia. Com uma inspirada de ar Sailor Moon abaixou seu escudo e num salto o rei tirou a si e a senshi da linha de tiro dos canhões. Entretanto, as criaturas pareceram registrar muito rápido que o alvo não havia sido atingido, pois logo suas enormes cabeças estavam mirando o céu na direção onde os dois guerreiros tinham pulado e preparavam outro tiro.
- Sailor Moon! - as senshis gritaram ao ver a rainha e o rei prontos para serem atacados e ignorando os ferimentos que latejavam, os músculos doloridos que protestavam diante dos esforços contínuos, todas saíram de seus esconderijos correndo na direção dos dois e disparando seus golpes na esperança de distrair as criaturas.
Endymion pousou sobre um canteiro de flores destruído e rolou o corpo, ainda prendendo Sailor Moon em seus braços, quando uma bola de energia veio na direção deles e explodiu no ponto em que eles estavam segundos atrás. Usando a sua sempre presente capa que fazia par com a sua antiga armadura de batalha, ele a jogou sobre o seu corpo e o da esposa, os protegendo dos destroços.
- Meninas! - Serenity chamou horrorizada ao ver as suas senshis no limite das forças serem mais uma vez derrubadas. Como poderiam ser derrotadas tão facilmente? Uma explosão ao longe lhe chamou a atenção e pelo clarão que se apresentou acima dos prédios a mulher reconheceu o golpe de Saturno.
Precisava re-convocar todas as sailors, pois unidas elas tinham mais chances do que separadas. Porém como fazer isso se a cidade estava praticamente sitiada e ainda havia inocentes perdidos para proteger? O zumbido de energia carregando e o barulho sucção a fez divergir os olhos para os enormes insetos que mais uma vez carregavam os seus golpes.
Surpresa viu que Marte, teimosa como sempre, já estava mais uma vez de pé e pronta para lutar. Com a cabeça erguida e postura firme, Serenity correu para o lado da amiga, trocando olhares motivadores com ela enquanto erguia seu cetro sobre a cabeça pronta para atacar.
- Flecha flamejante de Marte!
- Moon healing scalation! - os dois golpes uniram-se em pleno ar durante a sua trajetória, acertando o adversário com um estrondo ensurdecedor e o derrubando de uma única vez ao menos quatro das dezenas de monstros que elas encaravam, fazendo as criaturas caírem no chão chamuscadas e imóveis.
- Explosão de Phobos!
- Raios Incandescentes de Europa! - fogo e eletricidade abriram uma trilha no asfalto trincado, passando por entre as inner senshis em um sopro de vento e derrubando mais uma leva daquelas criaturas.
- Cascata Inebriante de Arcádia!
- Luz Espiral de Vésper! - agora foi à vez de água e energia se fundirem em um golpe só, derrubando mais alguma meia dúzia de insetos.
Serenity soltou um suspiro de alívio ao ver as neo senshis se aproximando e não parando nenhuma vez de soltarem os seus golpes, cada uma revezando com a outra e criando variações diferentes de ataques conjuntos. Viu que a tática das adolescentes estava dando certo até que um grito chamou a sua atenção.
- Moon Gorgeous Meditation! - a rainha arregalou os olhos quando a explosão de energia criou um enorme clarão na rua e derrubou em um golpe só uma dúzia das criaturas que as atacava, incluindo insetos biomecânicos e zumbis. Ofegou ao ver as neo senshis abrindo passagem para a sua líder e Neo Sailor Moon caminhar a passos decididos na direção do inimigo.
Havia algo de diferente em sua filha. Algo que Serenity não estava gostando de ver. O rosto bonito e sempre sorridente de Serena estava fechado em uma carranca de ódio. Os olhos âmbares e brilhantes estavam apagados e escurecidos pela raiva e os lábios rosados e cheios torcidos em um gesto de desagrado. Pela segunda vez a jovem ergueu o seu cetro com uma expressão determinada no rosto e mais um grito ecoou por entre os escombros.
- Rainbow Moon Heart Ache! - o golpe em forma de coração estourou da ponta da arma da sailor, criando uma trilha de destruição no asfalto praticamente despedaçado e atingindo uma boa parcela do inimigo o transformando em poeira que foi lavada pela forte chuva que caía. Serenity arregalou levemente os olhos ao ver isto e a sua preocupação aumentou ainda mais.
Os golpes de Sailor Moon eram defensivos, com o objetivo de curar e, quando preciso, destruir o inimigo se necessário. Quando Serena soltou mais um ataque, gritando um "Moon Princess Halation!", a rainha percebeu que alguma coisa estava extremamente errada quando a energia liberada pela senshi em vez de ajudar, apenas destruiu os inimigos sem piedade.
- Serena! - a rainha chamou, aproximando-se da sailor enfurecida quando a viu erguer mais uma vez o braço para soltar outro ataque. A adolescente virou-se bruscamente ao ouvir o seu nome, mirando olhos escurecidos e flamejantes de raiva na mãe que recuou um passo assustada ao sentir uma aura de dor, frustração e ódio rodear a filha mais velha.
- MOON PRINCESS HALATION! - gritou mais uma vez, começando a fazer movimentos em zigue e zague com o braço que segurava o cetro, disparando um golpe atrás do outro e atingindo qualquer criatura viva que estivesse nas proximidades. Quando as mesmas viraram apenas poeira para ser acrescentada a sujeira lavada pela chuva, Serena ergueu novamente o braço, com a boca se abrindo para invocar mais uma vez o seu golpe.
- Neo Sailor Moon! - a rainha Serenity deu um passo à frente, segurando com força o pulso da filha e a virando para poder encará-la, para ver se conseguia compreender o que estava de errado com a menina. No entanto, surpreendeu-se ao ver o rosto da princesa marcado pelas lágrimas e os olhos âmbares brilhantes em um misto de fúria e dor.
Com força, a jovem de cabelos rosados soltou-se do aperto da mãe e virou-se para encarar o fim da rua destruída e de onde surgia de uma das esquinas corpos de terráqueos mortos no fogo cruzado e que agora vinham na direção delas.
Em outros tempos, Serena hesitaria e muito em atacar seu próprio povo e se apiedaria do destino que eles tiveram nas mãos do inimigo. Mas este não era outro tempo, esta era uma guerra e, no momento, pensamentos racionais e emotivos era a última coisa que passava na mente dela. Estava com raiva, furiosa, ensandecida. Com raiva do inimigo que causou a morte de sua irmã, com raiva de Selene por ter cedido a pressão e com raiva de si mesma por não ter cumprido a sua função de irmã mais velha e protegido a caçula.
- Você não tinha o direito de me deixar! - gritou para os céus, na esperança de que onde quer que esteja a outra princesa a ouvisse. - MOON - as neo e inner senshis se afastaram de Neo Sailor Moon ao ver a energia crepitando perigosamente em torno dela de uma maneira que não era normal para a defensora da paz e da justiça. - PRINCESS HALATION! - o golpe explodiu da ponta da varinha dela e correu ao longo do asfalto em alta velocidade, chocando-se com os zumbis e os despedaçando sem piedade.
- SERENA! - Serenity soltou horrorizada ao ver o que a filha tinha feito. Apesar de já estarem mortos, aquelas pessoas mereciam um destino melhor, um enterro decente, e não serem pulverizadas pelo poder de uma irada Neo Sailor Moon. - O que deu em você minha filha? - a rainha aproximou-se da menina, a segurando novamente e a virando com força para poder encará-la e lhe dar um sermão. - Estando ou não sob o poder do inimigo, estando vivos ou não, ainda sim temos que respeitá-los. É do nosso povo que estamos falando. E os poderes da Sailor Moon não foram feitos para atacar...
- Não me interessa! Não estou aqui para proteger ninguém! - respondeu a jovem de maneira atravessada e Serenity ficou boquiaberta ao ouvir palavras tão duras saídas da boca da adolescente. - Estamos em guerra majestade e eu não vou ser piedosa com o inimigo ou seus aliados se sei que ele não vai ser piedoso comigo. - prosseguiu e vagarosamente Serenity a soltou, recuando um passo e encarando a filha firmemente.
- O que quer dizer com isso? - perguntou em um tom suspeito e apenas viu quando a jovem desviou o olhar de seu rosto e o fixou em um ponto acima do seu ombro esquerdo. Por algum motivo desconhecido Serenity evitou virar-se para ver o que a filha tanto olhava, mas quando ouviu Endymion ao seu lado dar um ofego e murmurar um "não" em tom sofrido, a mulher rodou sobre os saltos e arrependeu-se amargamente de ter feito isto um segundo depois.
As Neo Senshis abriram espaço na rua, deixando revelar a forma de Hans encharcado pela chuva forte que caía e que trazia nos braços o corpo inerte de Selene. Ao longe a jovem parecia estar dormindo profundamente, mas a palidez excessiva na pele normalmente morena e a ausência dos costumeiros movimentos respiratórios fez o rei e a rainha perceberem rapidamente que o que estava aninhado contra o corpo do homem era apenas o que havia restado da filha deles.
- Não, não, não… - Endymion repetiu debilmente antes de correr em disparada na direção de Hans e parando num deslize sobre o chão molhado em frente ao outro soberano. Sua garganta pareceu fechar-se a cada segundo, impedindo a passagem de ar e as mãos trêmulas ergueram-se lentamente na direção do rosto da jovem que era abraçada pelo zathariano.
Selene estava com o rosto extremamente pálido, os lábios não tinham cor e o rei pôde atestar com infelicidade que a jovem não dava nenhuma demonstração de ter qualquer sopro de vida em seu corpo.
- Não! - soltou Endymion num tom angustiado, tirando a garota dos braços de Hans e a abraçando contra o peito. Sentiu as pernas fraquejarem e num baque ele caiu de joelhos no chão, começando a ninar o corpo inerte da filha como se ela ainda fosse um bebê. Mal notou Serenity ajoelhar-se ao seu lado, cobrindo os lábios com as mãos para poder abafar um soluço, com as lágrimas já descendo pelas bochechas.
Hans recuou um passo ao presenciar o rei e a rainha chorando pela filha e por um momento o cenário pareceu tremer diante de seus olhos e ele pôde ver a si próprio, vários anos mais jovens, abraçando o corpo de Estela no lugar do de Selene contra si. Em vez das lágrimas de Endymion, eram as suas lágrimas rolando de seus olhos claros. Em vez da dor estampada no rosto do rei da Terra, era a sua dor o comprimindo e o sufocando.
Viu os dedos trêmulos da rainha erguerem-se na direção do rosto da princesa, acariciando a pele pálida, os cabelos negros em um gesto delicado, como se tivesse medo de que ela quebrasse apenas com este toque. Serenity soluçava e seu corpo todo sacudia com o choro que ela tentava conter em vão. As outras senshis aos poucos foram formando uma roda em torno de seus soberanos, cada uma expressando a sua maneira o pesar pela perda da princesa, cada uma sentindo seu próprio coração apertar ao ver o sofrimento do rei e da rainha.
Uma explosão pareceu acordar todos de seu transe e as sailors se viraram para ver o que tinha interrompido o momento delas. Um prédio que antes havia sido uma popular loja de departamentos agora era apenas escombros. Intrigadas, as senshis procuraram pela origem do ataque, não encontrando nada visto que a fúria de Neo Sailor Moon mais cedo havia dado uma brecha para elas durante a batalha e o inimigo que quase as dominava tinha sido dizimado. No entanto as mulheres sabiam que seria uma questão de tempo até o exército inimigo se reagrupar e retornar para atacá-las.
Arcádia e Europa recuaram um passo, pois eram as que estavam mais perto do prédio recém destruído, e se surpreenderam ao ver que a construção não tinha simplesmente caído por fraqueza nos alicerces como reflexo de algum golpe errante de mais cedo. Pelo contrário. Ela estava derretendo. Literalmente derretendo. O cimento, as vigas de ferro, vidros e tijolos pareciam estar sendo corroídos por uma espessa névoa de cores turquesa e negra que acabava de dobrar a esquina e agora descia a rua, comendo o que restara do asfalto do mesmo jeito que fez com o prédio.
Alertas, as inner senshis prontamente deixaram o seu lamento de lado ao presenciar a cena do rei e da rainha abraçados ao corpo de Selene e formaram uma roda de proteção em torno deles. Logo as neo senshis copiaram seus gestos, fazendo o mesmo com uma Neo Sailor Moon que agora que ataque de fúria já havia passado, era apenas inundada por tristeza e melancolia, o que a fazia ficar imóvel no lugar onde estava. Junto com a estranha névoa, mais insetos surgiram, inabalados pela densa neblina que derretia tudo o que tocava. E em como em uma cena de filme de faroeste, eles pararam completamente alinhados no meio da rua, em frente as rodas das sailor e em câmera lenta foram se deslocando para o lado, como se estivessem abrindo passagem para alguma coisa.
A névoa bicolor também pareceu pausar como se sob ordem de alguém e as poucos se dividiu como o Mar Vermelho, revelando uma figura que causou espanto às senshis que aos poucos foram arregalando os olhos. A criatura que surgira parecia ser uma cópia em negativo de Hans, com a mesma altura, mesmo porte físico, mas com longos cabelos negros, pele extremamente pálida e um par de olhos negros gélidos que assustavam só de encará-los. O sorriso de dentes brancos e perfeitos era amedrontador e as roupas claras e armadura prata o fazia ter a aparência de um tenebroso anjo da morte.
Quando este mesmo "anjo da morte" deu um passo à frente, as sailors recuaram um passo de maneira vacilante e desconfiadas. Quando o sorriso dele alargou-se e ele ergueu uma mão, com o dedo indicador em riste e mexeu o mesmo em um sinal de negativa, as senshis prontamente puseram-se em posição de batalha. Quando ele abriu a boca para falar, com a sua voz grave e rouca parecendo ecoar por toda a rua, elas pressentiram o pior.
- Tic e tac fez o relógio e o tempo de vocês acabou. Bum faz a Terra... bum faz Zathar. - os olhos negros pareceram brilhar de maneira ensandecida. - E assim termina o reinado dos Zac-Ra. - e miraram Hans com fúria. Logo uma risada de gelar os nervos ecoou vinda do estranho e Hans estreitou seus olhos azuis para o homem que poderia se passar por seu irmão gêmeo às avessas.
- Mar'De-Gra. - murmurou ao finalmente reconhecer aquele que estava o atormentando há meses e que trouxera não apenas desgraça para o seu planeta como também o obrigou a trazer desgraça para a Terra.
Mar'De-Gra apenas abriu mais um sorriso macabro e os atacou.
Continua...
