Capítulo 10

A névoa foi soprada pelo vento, sendo prontamente dispersada e revelando uma vasta escuridão que depois de poucos segundos foi reconhecida como o negrume do Universo pintado por pequenas estrelas que adornavam o seu manto. A dispersão da névoa também revelou não apenas o espaço frio, mas também o deserto branco característico da paisagem lunar, acompanhado pela construo esplendorosa que era o castelo símbolo do Milênio de Prata.

Confusa, a jovem deu um passo a frente, ouvindo o som estalado característico de algo se partindo sob os seus pés. Seus olhos prontamente divergiram para eles e surpreendeu-se ao ver suas pernas envoltas pela bota branca de cano longo. Franziu as sobrancelhas, dando mais um passo a frente em direo a uma fonte onde no centro da mesma havia a estátua da Deusa da Lua e água cristalina jorrava da ânfora que ela trazia nas mãos.

Inclinou um pouco o corpo para ver o seu reflexo na superfície da água e surpreendeu-se quando o que viu foi Sailor Estelar a mirando de volta. Afastou-se bruscamente da fonte, virando-se sobre os pés e voltando o olhar para o Milênio de Prata imponente e fascinante ao mesmo tempo apresentando-se em frente aos seus olhos.

O que, afinal, estava acontecendo?

Seria este outro de seus sonhos?

- Intrigante, não? - praticamente pulou de susto ao ouvir a voz e virou-se abruptamente na direo da mesma para ver Eckhard trajando belas roupas cerimoniais ao seu lado. - Quando uma alma desprende-se do mundo terreno e atravessa, ela ainda passa um tempo entre o vazio que liga os dois mundos enquanto se é decidido que fim ela irá levar. Quando isso acontece, o vazio costuma tomar a forma do lugar que dita alma sentia-se mais confortável para assim prepará-la para a travessia. Em todos os meus anos de serviço já vi paisagens, casas, ruas serem formadas no vazio. Mas você, você construiu um reino inteiro. Um reino extinto. Por quê? - o elfo aproximou-se da jovem, percorrendo seus olhos dourados pela paisagem ao seu redor e os fixando na enorme esfera azulada que era o planeta Terra ao longe.

- Eu morri? - Selene perguntou bestamente. A última coisa da qual se lembrava era de que Tóquio estava sendo atacada, ela despedira-se de Endymion e então, depois disso, havia apenas um espaço em branco na sua mente.

- Foi uma atitude estúpida Selene. - Eckhard a repreendeu em um tom desapontado. Enquanto assistira a cena de Selene se sacrificando ele sentiu vontade de impedir que a garota cometesse tamanha burrice. A rainha e o rei ficariam devastados, todos ficariam devastados e não teriam cabeça para concentrar-se na grande batalha que estava por vir. Por mais altruísta que a menina tenha sido, esta fora uma tática estúpida. O poder do Cristal Estelar talvez fosse o único capaz de derrotar este novo adversário, como aconteceu no passado, e Selene tinha simplesmente o destruído.

- Eu sei. Mas foi preciso. Eu acredito nas outras senshis, sei que elas vão conseguir. Elas precisam conseguir. - respondeu a garota com firmeza. - Mas se o cristal foi destruído... por que eu estou vestida assim? - estendeu um dos braços para mirar a mão enluvada. Sem o cristal ela não podia se transformar em Sailor Estelar. Então como explicar o uniforme que trajava no momento?

- O inconsciente, quando morremos, também nos faz usar a roupa a qual estamos mais confortáveis para acelerar a adaptao. Aparentemente Sailor Estelar é o que a torna confortável em sua própria pele. - respondeu o elfo, dando de ombros. Logo em seguida ambos ficaram em silêncio até que em um ponto o homem franziu as sobrancelhas pensativo e ergueu a cabeça, mirando o céu escuro e depois voltando a sua ateno para a menina na sua frente.

- O que foi? - perguntou Selene curiosa ao ver a expressão intrigada no rosto do guardião.

- Aparentemente seu destino foi decidido. - a jovem sentiu o corao dar um pulo ao ouvir isto. Havia sido rápido, não? Para onde ela iria? Céu, inferno, purgatório? Havia um céu, inferno e purgatório? Eckhard nunca especificou muito o que ocorria no pós-vida e se havia elfos como guardiões do mundo dos mortos, talvez toda a crença sobre esse mesmo mundo estivesse errada. Queria acreditar que era errada. Até porque, tecnicamente, ela era uma suicida e em velhos costumes religiosos este tipo de pessoa só ia para um lugar... - Espere aqui. - ordenou e desapareceu como fumaça no ar.

Selene soltou um suspiro, caminhando até um banco de pedra e sentando-se no mesmo, pondo-se a esperar. Não sabia quanto tempo tinha passado sentada ali, mas sabia que havia sido ao menos mais de vinte minutos e nada de Eckhard voltar. Soltou mais outro suspiro de tédio.

- Decepcionante, não? - uma voz sem dono ecoou pelo ar fazendo a garota erguer-se prontamente em um pulo do banco e olhar tudo a sua volta a procura do visitante. - Você é decepcionante. E ainda se considera uma guardiã estelar. - repreendeu o desconhecido.

- Quem está aí? - Selene chamou em um tom irritado.

- Em que saber quem eu sou interessa? O que interessa é que você nos desapontou. - outra voz surgiu no ar e diferente da primeira esta tinha uma entonao mais feminina, mas igualmente contrariada.

- Desapontei quem? Em que? Nem sei quem são vocês. - continuou a garota em tom desafiador, girando sobre os pés ainda a procura de qualquer ameaça desconhecida.

- Pois deveria. - a primeira voz respondeu e um sopro de vento as suas costas chamou a ateno da princesa, a fazendo girar e deparar-se com um homem alto e de ombros largos. Sua pele era de uma cor branco cera, com marcas de risco negras nas bochechas, três em cada lado. Ele possuía duas orelhas de felino no topo da cabeça, brotando entre os fios azul petróleo do cabelo. Os olhos eram riscados, de cor laranja. Vestia uma armadura negra e dourada que lhe cobria ombros, peito, ante braços, coxas, pernas e pé. E na testa havia um símbolo tribal desconhecido. - Você ainda é decepcionante. - continuou no mesmo tom grosseiro e Selene rangeu os dentes de raiva.

- Cala a boca! - rugiu a garota, erguendo um punho para desferir um golpe sobre o abusado, mas antes que o soco o alcançasse, ele sumiu no ar.

- E ainda se considera uma guardiã estelar. - a voz feminina de antes completou e a princesa virou-se novamente para se ver frente a frente com uma mulher pequena, mal chegando ao seu peito, pele morena cor de jambo, cabelos curtos esverdeados e olhos dourados. Possuía orelhas pontiagudas de elfo e seus trajes constituíam de um longo macacão colante ao corpo feito de lycra e uma espada de lâmina larga presa as costas.

- Quem é você? - Selene já não entendia mais nada. Será que estava sendo julgada ou coisa parecida? Mas algo lhe dizia que o que estava ocorrendo não era nada relacionado para onde ela iria depois que a sua alma atravessasse aquele vazio.

- Você me desapontou Princesa Selene da Terra. - e a figura da estranha elfa sumiu para então aparecer em seu lugar Estela, vestida da cabeça aos pés com o seu uniforme de guardiã estelar.

Aos poucos, atrás da mulher, outras pessoas foram aparecendo. O mesmo homem gato de mais cedo, a garota elfa e mais outras centenas de guerreiros de várias espécies diferentes. Muitos com aspecto humanóide, outros mais animalescos, mas todos trajando algum tipo de uniforme de batalha e portando armas das mais variadas formas. Todos, atestou Selene com surpresa, ex-Guardiões Estelares.

- Eu fiz o que foi preciso fazer. O que fomos incumbidos de fazer. - respondeu a jovem com petulância, percorrendo os olhos pelos rostos de cada ex-guardião e finalmente mirando os olhos azuis de Estela.

- E acabou tendo o mesmo fim que os outros. - respondeu Estela com pesar, soltando um suspiro e indicando as pessoas atrás de si. - Me diga Selene, o que você vê de semelhante entre todos esses guardiões? - perguntou e novamente a princesa percorreu os olhos pelos rostos desconhecidos, dando de ombros ao não reparar nenhuma semelhança entre eles. Todos eram únicos. Provindos de raças, planetas, dimensões diferentes. A única coisa que os ligava foi o destino como guerreiro estelar.

- Nada? - respondeu por fim e Estela deu um meio sorriso para ela.

- Errado. Todos morreram pela causa... e morreram jovens. Sozinhos. Tão concentrados em seu destino como guardiões que esqueceram simplesmente de viver como uma pessoa comum. Quando lhe mostrei aqueles sonhos foi para você ver o que os meus erros me custaram. Minha família, meu amor. Eu deixei de lado a mulher para ser apenas um soldado e prometi a mim mesma que não partiria deste mundo antes de impedir que o meu sucessor cometesse o mesmo erro. E qual foi a minha surpresa ao ver que a minha sucessora foi a filha de Endymion. Este não era para ser o seu destino. - completou Estela e Selene recuou um passo com uma expressão intrigada no rosto.

- Como? - falou em um ofego.

- Você deveria herdar o Cristal Dourado de Endymion como segunda herdeira do trono, assim como a sua irmã vai herdar o Cristal de Prata. Mas, aparentemente, o Cristal Estelar é uma força que desafia o destino. Ele te escolheu para ser a sua guardiã, o fruto de um amor tão puro que transcendeu vidas. Alguém perfeito para ser o dono definitivo do cristal.

- Espera aí... Você não está querendo me dizer que o Cristal Estelar...

- Cansou de vagar sem rumo pelo Universo. Todos esses anos ele apenas procurava alguém digno de ser o seu dono novamente. E o encontrou em você. - interrompeu Estela, dando um passo a frente e ficando a poucos centímetros de distância de Selene.

- Então foi mal ter estragado os planos dele e o destruído, mas acho que ele vai entender. - respondeu, achando estranho referir-se a uma massa de energia como alguma coisa viva. Porém ela sabia que era isso que o cristal era. Algo vivo, inteligente e independente.

- Mar'De-Gra não pode ser destruído sem o Cristal Estelar. - continuou Estela em um tom sombrio e Selene ofegou. Como é que era a história? Claro que ele poderia. O Cristal de Prata e o Cristal Dourado eram poderosos o suficiente para isso e... - O Cristal de Prata é uma força defensiva, basta ver pelo modo como ele foi utilizado todos esses anos pela realeza lunar. Ele tem a funo de proteger, curar, não destruir. O Cristal Dourado é ligado a Terra e usá-lo de forma ofensiva seria causar grandes danos ao planeta. Sem eles dois as senshis não têm chances.

- E o que você espera que eu faça? - rebateu Selene irritada. Estela não poderia ter dito isso a ela antes dela se sacrificar por nada? O Cristal Estelar agora não existia e os cristais de seus pais não seriam o suficiente. - Estou morta, se ainda não percebeu, e o cristal não existe mais.

- E é por isso que estamos aqui. - Estela recuou vários passos, aproximando-se dos outros guardiões que observaram toda a interao entre as duas mulheres em silêncio. - Diz a história que cada vez que o Cristal Estelar deixa o corpo de um guardião a procura de outro, ele leva os conhecimentos do mesmo consigo. Golpes, estratégias de batalha, coisas que possam ser passadas para o próximo guardião na hora precisa. Entretanto esta é uma troca harmoniosa. O Cristal Estelar também deixa um pouco de si para trás. - simultaneamente todos os guardiões ergueram as mãos na altura do peito, acompanhados por Estela, imitando a mesma posio que Selene fez ao convocar o cristal mais cedo para destruí-lo.

- Com o passar dos anos o cristal tornou-se muito mais poderoso do que era quando foi gerado e criou um plano de apoio para quando algo deste porte acontecesse a ele. - uma luz dourada começou a brilhar entre os dedos dos guardiões.

- Está querendo me dizer que o Cristal Estelar fez um back-up de si próprio? - Selene perguntou atônita e a única resposta de Estela foi um sorriso.

- Está na hora de você cumprir com o seu destino Selene. - a jovem pulou de susto ao ver Eckhard materializar-se ao seu lado e segurar o seu braço. Num piscar de olhos ambos sumiram daquela projeo do Milênio de Prata e retornaram para a cidade de Tóquio ainda sob o ataque de De-Gra. Selene viu que eles haviam se tele transportado para onde o seu corpo estava, escondido entre as paredes de dois prédios comerciais e sendo guardado por Eileen de maneira feroz.

Mais a frente, na rua que era exposta aos seus olhos, as outras senshis junto com o seu pai, Hans e príncipe Aldric lutavam freneticamente contra as máquinas biológicas de De-Gra e o seu exército de zumbis, com o mesmo gargalhando diante do seu triunfo e a tentativa fracassada dos guerreiros de tentarem se aproximar dele, mas sendo impedidos pelos lacaios do homem e a densa névoa ácida que o cercava.

Sua ateno voltou-se para o seu próprio corpo caído no chão e que agora era rodeado pelos ex-guardiões estelares cujos corpos brilhavam mais intensamente com uma luz dourada.

- O que está acontecendo? - Selene perguntou aturdida quando os ex-guardiões direcionaram a tal luz para o seu corpo que começou a brilhar no mesmo tom que a energia que pulsava entre as mãos deles.

- Não cometa os mesmos erros uma segunda vez Selene. - Estela aconselhou suavemente e a garota piscou os olhos confusa.

- Eckhard você poderia me explicar... - a menina virou-se para encarar o guardião mas este apenas lhe sorriu, erguendo a mão e a deslizando em frente aos seus olhos. Subitamente as suas pálpebras ficaram pesadas e antes que pudesse perceber, caíra no sono.

Quando acordou novamente foi para sentir o ar entrando em seus pulmões com força por causa de uma golfada, seu corpo todo formigando como se tivesse levado uma alta descarga elétrica e pontos negros piscando em frente aos seus olhos quase cegados pela forte luz emitida pelos raios. Ao longe seus ouvidos registraram alguém soltando um ruído de surpresa e com os membros ainda dormentes virou-se sobre o corpo, apoiando os cotovelos no chão e tentando erguer-se parcialmente.

- Estelar? - uma voz trêmula soou perto de sua cabeça e ela viu de rabo de olho Eileen ajoelhando-se ao seu lado com uma expressão extremamente surpresa no rosto mais pálido que o normal. - Pelos grandes Deuses. - a mulher ofegou, arregalando seus olhos azuis e afastando-se a medida que via a jovem mexer-se mais, apoiando as palmas das mãos no chão de concreto e tentando se levantar.

Com dificuldade a adolescente foi se erguendo, ofegante e com os braços e pernas trêmulos como se os tivesse exercitado demais. Aos tropeços finalmente pôs-se de pé, com Eileen acompanhando cada movimento seu com a expressão ainda aturdida. Selene estava morta, sentira o corpo dela sem vida em seus braços quando Hans a entregou para protegê-la. Mas agora a menina encontrava-se de pé na sua frente, com a cabeça baixa e a franja negra do cabelo cobrindo-lhe os olhos.

- Princesa Selene? - chamou mais uma vez quando percebeu que a garota não respondia. Desconfiada, recuou alguns passos e a sua mão direita começou a brilhar ao invocar uma bola de energia. Será que De-Gra tinha usado o corpo da princesa e a transformado em zumbi? Ele não seria tão abusado. Além do mais, ela estava transformada em senshi quando há minutos atrás ainda usava as roupas comuns que vestia quando saíra com Hans. - Estelar? - tentou mais uma vez e assustou-se quando num estalo Selene ergueu a cabeça, mirando Eileen diretamente.

A zathariana ofegou ao ver que os orbes antes azuis da menina agora eram uma miríade de cores. As íris tremulavam com todas as cores conhecidas que pareciam possuir vida própria. Quando Selene inspirou profundamente para tragar mais ar para os pulmões e piscou os olhos, os abrindo novamente em segundos, Eileen viu que eles haviam voltado a antiga cor azul escuro e pensou se não havia sido um truque de luz o que vira mais cedo.

O som de explosão chamou a ateno da sailor que lentamente virou-se sobre os saltos na direo que veio o barulho. Carros queimavam a céu aberto enquanto o zumbido dos canhões carregando ecoava pelas paredes dos prédios vazios. Os gritos das senshis soltando os seus golpes, tentando parar aquelas coisas enquanto De-Gra ria da frustrao delas chegou aos seus ouvidos.

Os orbes azuis acompanharam a postura de Hans, altivo, no meio da rua, com os braços erguidos em frente ao corpo e invocando a sua magia para assim conseguir abrir uma brecha na parede ácida criada por Mar'De-Gra que os impedia de alcan-lo para assim ter uma batalha direta. Mordendo o lábio inferior, Sailor Estelar aos poucos foi esticando o braço ao lado do corpo e com um estalar de dedos o seu cetro surgiu em suas mãos.

Eileen observou silenciosa a sailor conjurar a sua tradicional arma, mas arregalou os olhos quando esta começou a dissolver-se até que a ponta em forma de lua crescente deu lugar a um tridente. O corpo da senshi também brilhou brevemente e o uniforme dela aos poucos foi mudando. O laço do peito deu lugar a uma armadura brilhante como ouro branco que cobria toda a parte superior do tórax, com direito a ombreiras. Nas botas surgiram caneleiras e joelheiras de mesma cor e com detalhes em dourado.

Os cabelos negros agora estavam presos no alto da cabeça enfeitados por um diadema prata e a tiara dera lugar ao símbolo de lua crescente da família real, acompanhado por uma diminuta estrela de oito pontas. Os olhos azuis novamente adquiriram a miríade dançante de cores e as sobrancelhas escuras franziram ao ouvir outra gargalhada zombeteira de De-Gra ecoar pela rua.

- Suprema - a jovem começou num murmuro, apontando o tridente na direo do sorridente Mar'De-Gra. - Devastao - a ponta da arma começou a brilhar, com a bola de energia crescendo e estalando, soltando faíscas e descargas elétricas que acabavam chocando-se contra as paredes do beco e arrancando várias lascas do cimento que as revestia. - Estelar! - terminou de pronunciar o ataque no mesmo tom calmo e num estouro a esfera de energia disparou da ponta de seu tridente, com o clarão iluminando o local como a luz do sol e obrigando Eileen a cobrir os olhos.

De-Gra apenas teve poucos segundos para perceber a diferença na pressão do ar antes de ver o golpe vir em sua direo. Em um ofego ele desapareceu da linha de ataque, deixando a bola de energia passar direto e atingir um prédio atrás de si. Foi como ver a construo ser implodida por várias dinamites, pois em questão de segundos um arranha-céu de cinqüenta andares virou literalmente pó, sobrando-lhe apenas os alicerces.

- Mas o quê... - Mar'De-Gra murmurou surpreso, seus cabelos negros sendo chicoteados pelo vento. Novamente a atmosfera ao seu redor mudou e ele apenas moveu-se por instinto, saindo rapidamente da trajetória de corte da lâmina de uma longa espada. Seus olhos miraram surpresos seu atacante e ele ofegou ao ver, parada na sua frente, Sailor Estelar.

Ela vestia um uniforme diferente do usual, mas as luvas, o colante branco, o laço nas costas e a saia pregueada eram as únicas coisas que indicavam que era realmente Sailor Estelar, pois agora ela portava uma arma diferente, uma longa e aparentemente pesada espada. Sua expressão era séria e vazia, seus olhos tremulavam com as cores do arco-íris e os longos cabelos negros balançavam suavemente enquanto as gotas de chuva pareciam não atingi-la.

- Impossível. - murmurou o homem quando a viu caminhar lentamente na sua direo com a lâmina da espada direcionada para o chão e arranhando o mesmo em uma linha fina com a ponta ao ser arrastada pela jovem enquanto ela se aproximava do adversário. Ainda não acreditando no que via, De-Gra invocou a sua própria espada, preparando-se prontamente para a batalha, mas ainda não conseguindo compreender o que estava acontecendo.

Sailor Estelar estava morta, a tinha visto morrer no momento em que destruiu o cristal. Mas, então, o que ela fazia ali na sua frente e o mirando como se não o reconhecesse. Como se todas as suas aes fossem automáticas e pré-programadas.

Ao mesmo tempo, as outras senshis, Endymion, Hans e Aldric observavam o surgimento triunfal de Sailor Estelar com uma mistura de surpresa, confusão e alívio. Serena sentiu lágrimas escorrerem de seus olhos ao ver a irmã viva e prontamente moveu-se para falar com ela, mas foi bruscamente impedida por Phobos.

- Não Sailor Moon. - advertiu a sensitiva. - Tem alguma coisa errada, alguma coisa diferente com Selene. - explicou-se e procurou os olhos da mãe com os seus, vendo Rei assentir positivamente em concordância com ela. Ambas percebiam que a Selene a poucos metros de distância não era a princesa que elas conheciam. Tinha algo diferente na garota, pois uma energia pulsava ao redor dela, poderosa, selvagem e perigosa.

- Mar'De-Gra. - a voz fria, distante e sem vida de Selene soou ao longo da rua. Ela ergueu o braço com a espada, apontando a mesma na direo de De-Gra. - Desta vez irei garantir que não sobre nada de você para ser aprisionado. - completou a sentença em um tom mórbido e o homem na sua frente franziu os lábios ao ouvir a ameaça.

- Princesa Selene... voltou do mundo dos mortos. Ousada, não? - provocou em tom de zombaria, posicionando para o ataque e viu o rosto bonito de Selene retorcer-se em um sorriso de escárnio.

- Princesa Selene? Me ofende caro irmão. Não lembra mais de mim? - continuou a jovem e os olhos de De-Gra arregalaram-se levemente.

- Noir'Zac-Ra... - murmurou incrédulo. Zac-Ra estava morto, sabia disso. Hans e Eileen eram os últimos descendentes do antigo Rei de Zathar. Então, o que ele fazia ali, naquele momento, no corpo daquela menina? - Não compreendo. - falou incrédulo, recuando um passo mas não abandonando a postura ofensiva.

- O Cristal Estelar tornou-se mais poderoso do que eu pude imaginar e o que Selene guardava dentro de si não era nem um terço deste poder. - começou a explicar, erguendo o braço lentamente acima da cabeça, trazendo a longa espada consigo. - Parece que ele estava prevendo que este dia chegaria e, com isto, deixou um pouco da sua energia em cada guardião que habitou. E estes guardiões deram esta energia a Selene, reconstruindo o cristal. A Princesa Selene da Terra agora detém os poderes dos melhores guerreiros de todas as dimensões. Meu caro irmão... Afinal, é disso que consiste o Cristal Estelar. - explicou e De-Gra soltou um sorriso de deboche.

- Você fala demais e luta de menos. Sempre foi assim Zac-Ra, desde que éramos criança. E não conseguirá me derrotar. Não o fez no passado, preferindo me aprisionar naquela dimensão fria e solitária. Não creio que fará o mesmo agora. Essa sua chave de portais é muito vagabunda!

- O Cristal Estelar é mais do que uma chave de portais, ele é um banco de poderes. É assim que ele evolui. Deveria saber disso querido irmão, pois o esboço para criar esta arma veio de sua mente brilhante. Ele absorve e guarda os poderes de cada guardião depois da morte do mesmo e passa para o seguinte. Entretanto, nestes milhares de anos, esta é a primeira vez que o cristal resolveu liberar todo o seu potencial em apenas um guardião. Parece que a Princesa Selene foi escolhida para ser a dona definitiva do cristal. Parece que ele encontrou um lar. E devo lembrá-lo caro irmão que não é nada bonito se apossar do corpo de outras pessoas. - o repreendeu e De-Gra soltou outra risada.

- Olha só quem fala. Você está fazendo o mesmo com a princesinha.

- Errado. Cada guardião deu o pedaço do cristal que tinha dentro de si para trazer Selene de volta. Agora ela tem um pouco da essência de cada antecessor dela dentro de si. E eu devo lembrá-lo meu caro quem foi o primeiro a utilizar os poderes do Cristal Estelar? - a jovem sorriu zombeteira para De-Gra, seu braço erguendo-se mais acima da cabeça.

- Você. - ofegou o homem, começando a compreender as implicaes daquelas palavras.

- Então você sabe que como criador eu, melhor do que ninguém, sei usar o cristal em toda a sua capacidade, não? - completou em um tom de triunfo, descendo o braço violentamente e usando a espada para cortar o ar em um gesto circular, criando uma onda de energia que foi violentamente na direo de De-Gra. Num salto o homem desviou-se do ataque, retribuindo com outro igual que foi rebatido com força pela espada de Selene e arremessado contra uma loja de departamentos, a destruindo. - Eu vou fazer o que deveria ter feito há milhares de anos De-Gra. Desta vez... - o tom mudou para algo mórbido e gélido. - eu vou matar você.

oOo

- Rhian! - Eileen veio correndo na direo do irmão, parando ao seu lado num tropeço por causa do asfalto encharcado e trincado como resultado da chuva e das batalhas e não surpreendeu-se ao ver que ele, assim como o rei, a rainha, Aldric e as senshis haviam parado, chocados, ao verem a nova Sailor Estelar que havia ressurgido do mundo dos mortos.

- Como assim não pode ser a Selene? - Neo Sailor Moon virou-se com uma expressão confusa para Phobos ao ver Estelar girar a gigantesca espada que carregava acima da cabeça, cortar o ar e disparar um arco de energia na direo de MarDe-Gra. Este desviou-se do ataque com facilidade, com um simples salto, deixando o golpe seguir a sua trajetória e explodir em um monumento atrás de si, terminando de destruir uma praça que já estava em pedaços por causa da batalha. Estelar soltou um grunhido de insatisfao e trouxe a espada a frente do corpo, segurando o punho da mesma com ambas as mãos. A arma brilhou em uma luz dourada e quando ela afastou os braços agora cada mão segurava uma lâmina menor e curva e Hans ofegou.

- Não pode ser. - balbuciou surpreso e Europa mirou o monarca com uma expressão intrigada.

- O que não pode ser? - a única resposta de Rhian para a senshi foi o brilhar das suas palmas e nas mesmas surgirem armas idênticas a que Estelar empunhava. - Mas que diabos! - exclamou Lily.

- As lâminas gêmeas estão sob posse da Casa de Ra desde os tempos dos Deuses, foram forjadas pelo próprio NoirZac-Ra e passadas de gerao para gerao de herdeiros do trono. - Eileen acrescentou, os olhos claros cravados na figura de Estelar que movia-se com a ferocidade e a elegância de um guerreiro com experiência de décadas de batalha. Mas, pelo que ela sabia do pouco tempo que estava na Terra, era o que Selene não tinha. Os poderes dela haviam se manifestado aos quatorze anos e a própria ainda não tinha controle absoluto sobre os mesmos. E pelo modo como ela agia desde que voltara do mundo dos mortos, parecia que ela mesma não tinha controle sobre si própria.

- A conversa está boa aí no canto de vocês? - Marte soltou com deboche e quando os três a encararam, foi bem a tempo de verem todas as sailor, Aldric e Endymion saírem da linha de ataque de um dos monstros de De-Gra. Embora tivesse derrotado parte do exército dele, embora os próprios soldados de defesa de Tóquio de Cristal além das senshis estivessem fazendo um trabalho excelente de proteo do reino, comandados pelos maridos das sailor que durante uma crise deste porte assumiam as suas posies de líderes das defesas armadas da cidade, ainda sim a batalha estava longe de terminar e o retorno de Sailor Estelar conseguira distraí-las por breves minutos.

- Interessante. - De-Gra soltou com deboche ao ver as lâminas gêmeas surgirem nas mãos de Estelar e as suas próprias mãos brilharam, sendo envoltas pela névoa preto-arroxeada que foi se tornando mais densa até tomar a forma sólida de duas longas espadas cujas lâminas pareciam ser feitas de cristal negro e o punho de prata. - Isso me traz recordaes, com a diferença que você era mais alto e um pouco menos agradável aos olhos. - riu divertido e um sorriso de escárnio surgiu no canto dos lábios rosados de Selene.

- Suas piadas continuam sem graça mesmo depois de milênios. - comentou com enfado, afastando as pernas em busca de equilíbrio e pondo-se em posio ofensiva, fazendo gesto parecido com os braços, erguendo uma espada curta as costas e outra a frente do corpo, com a ponta na direo de De-Gra. Os orbes que antes eram uma miríade de cores agora tinham atingido um tom sólido de um verde cristalino, como água do mar, e MarDe-Gra percebeu nisto que NoirZac-Ra tinha se apossado completamente do corpo da princesa.

A perna direita de Selene que ela usava como apoio para o peso de seu corpo mexeu-se e com um impulso ela saltou na direo de De-Gra que antecipando o ataque ergueu as suas espadas de cristal, chocando as suas lâminas contra as de Estelar e absorvendo o impacto do golpe dela com violência. A pressão da investida foi tamanha que a mesma comprimiu o corpo de De-Gra contra o asfaltou, fazendo veias correrem pelo mesmo e rachaduras surgirem em sua superfície. O encontro das suas armas ocasionou faíscas e a mesma névoa ácida que MarDe-Gra costumava invocar como escudo desprendeu-se das espadas, envolvendo ambos os combatentes. Selene prontamente sentiu algo queimar a sua perna, justamente onde a névoa tocou e uma ferida surgir na mesma, a pele desprotegida sendo derretida pelo veneno desprendido da neblina ácida.

Com outro salto afastou-se de De-Gra, pousando do outro lado da rua e perdendo o equilíbrio, caindo sobre um joelho quando sua perna fraquejou ao sentir a dor cruzar seus músculos. Os olhos verdes cristalinos miraram com fúria o homem do lado oposto que agora gargalhava e xingou baixinho. Aquele ataque era novo. Quando lutou com De-Gra da última vez ele não tinha aquela habilidade venenosa. O que o homem andou aprendendo nos últimos milênios quando ficou trancafiado no vazio? Não havia levado este detalhe em considerao. Se o seu irmão sobrevivera até agora aprisionado no vácuo, com certeza vivera da própria magia e força de vida e por tanto tempo, com certeza estava mais poderoso do que antes.

- CUIDADO! - alguém gritara ao longe e percebeu tarde que o aviso era para si, pois uma esfera de energia vinha na sua direo. Tentou erguer-se, mas amaldiçoou o fato de que a perna ferida era a mesma que usava como base para os seus movimentos e seu ataques, por isso a mesma lhe falhou na hora. Surpreendeu-se quando sentiu algo envolver a sua cintura e num segundo em frente aos seus olhos o que havia era o golpe preste a acertá-la e no segundo seguinte era o céu de Tóquio acinzentado pelas nuvens de chuva e tendo as mesmas iluminadas pelos clarões resultados das batalhas que aconteciam em vários pontos da cidade.

- Você está bem? - a voz grave lhe perguntou e um arrepio percorreu o seu corpo. Os olhos antes verde agora iam escurecendo e gradativamente adquirindo o tom azul escuro habitual e quando a jovem virou-se para encarar seu salvador, foram esses orbes que Hans viu sobre a sua pessoa, as mesmas íris brilhantes que ele pensou que jamais veria novamente. Seu corpo todo tremeu e seu corao pulou no peito. Era surreal e ao mesmo tempo um milagre.

Inconscientemente estendeu o braço na direo do rosto da adolescente, deixando as pontas de seus dedos tocarem a bochecha molhada pela chuva, querendo atestar que aquilo era mesmo verdade. O calor da pele dela entrou em choque com a sua e fez o homem ofegar. Não era um sonho. Selene estava viva e na sua frente e quando os dedos enluvados dela fecharam-se sobre os seus trêmulos ele ficou sem reao. Sua vontade era de cair de joelhos e pedir perdão por suas atitudes estúpidas, pela traio, mas sabia que aquele não era o momento para isto. Estavam no meio de uma batalha e por mais que quisesse envolvê-la em seus braços e levá-la para longe dali, garantir que ela jamais se ferisse novamente, sabia que não poderia fazer isso. Precisaria da força de Estelar, como no passado, para acabar com De-Gra.

- Ai! - o resmungo o tirou de seus devaneios e o fato dela ter tropeçado nos próprios pés o fez retornar a ateno do porquê teve que tirá-la da trajetória do ataque. A coxa dela sangrava e com gestos rápidos e precisos Hans rasgou a manga de sua camisa, improvisando uma atadura com a qual envolveu o ferimento da jovem, a apertando de modo a estancar o sangue.

- Obrigada. - Selene murmurou, piscando os olhos e sacudindo de leva a cabeça, subindo o olhar da perna enfaixada para o próprio corpo e não compreendendo o que via. Seu uniforme de sailor estava diferente do normal e suas mãos carregavam duas espadas e assim que repousou os orbes sobre elas, ambas brilharam e desapareceram em uma luz dourada. A armadura que envolvia o uniforme da senshi foi o que desapareceu em seguida e ele voltou a sua forma original.

- Como você conseguiu... - Rhian perguntou, ainda aturdido com tudo o que estava acontecendo, estendendo novamente a mão na direo do rosto da jovem e ela sacudiu a cabeça em uma negativa. Nem mesmo a princesa entendia o que estava acontecendo. Pelo que sabia, a última coisa da qual se lembrava era de ter destruído o Cristal Estelar e então tudo ter ficado escuro e agora quando voltava a si estava no alto daquele prédio, trajando uma armadura de batalha sobre o seu uniforme de sailor com Hans a olhando como se ela fosse a oitava maravilha do mundo.

Um estouro e gritos acordaram ambos da atmosfera que os envolvia e os estava prendendo dentro dos olhos um do outro, os lembrando que ainda havia uma guerra a ser vencida. Selene olhou por cima do beiral do terraço do prédio e vira que De-Gra acabara de atacar as inner senshis, mandando cada uma das guerreiras sobre uma construo e agora lançava um golpe sobre Sailor Moon que erguera um escudo de proteo e era empurrada para trás por causa da força do impacto enquanto tentava segurar o ataque. Endymion prontamente investiu por detrás de MarDe-Gra, apenas para ter sua progressão impedida por um dos insetos do Deus que surgira em sua defesa.

- Cascata Inebriante de Arcádia! - Ann gritou, o golpe estourando de suas mãos enluvadas na direo de De-Gra que usava a névoa ácida como barreira. Veneno e gelo se encontraram e neo e inner senshis surpreenderam-se ao ver que a neblina preto-arroxeada congelou sob o ataque de Arcádia. Porém, isto não pareceu impressionar MarDe-Gra que intensificou o seu golpe, derrubando a rainha e desviando a sua ateno para a neo senshi das águas.

- Agora chega! - Lily rosnou enfurecida. Os ataques não funcionavam e aquela batalha estava causando mais estragos na cidade do que no inimigo propriamente dito. O tempo que já estava fechado pareceu piorar e as nuvens cinzas adquiriram um tom mais escurecido, quase negro. Trovões ressoaram, fazendo vibrar os poucos vidros sobreviventes nas construes que ainda se mantinham de pé e raios desceram violentamente contra a terra, sua luz azul elétrica iluminando a escuridão que parecia ter dominado o reino.

Europa ergueu as mãos acima da cabeça, juntando as palmas num som estalado e um raio desceu com um estrondo na direo das mesmas, os braços longos parecendo dois pára-raios por onde sobre a pele descargas elétricas percorriam. A atmosfera ao redor dela estalava e emitia estática e as sailor que estavam mais próximas conseguiam sentir todos os pêlos dos seus corpos se arrepiando.

- Tempestade de Raios de Europa! - foi uma explosão que terminou de quebrar os vidros que antes tremeram com os trovões e cuja luz forte obrigou as senshis a cobrirem os olhos. Litha ainda conseguiu ver por ume brecha entre os dedos os raios descerem dos céus e usarem a sua filha como condutor e despontar das pontas dos dedos dela como jatos de energia e ir na direo de MarDe-Gra. Este invocou a sua névoa característica como barreira, sendo que a mesma absorveu boa parte do ataque e refletiu outra parte. Zumbis e insetos não tiveram a mesma rapidez de pensamento que seu mestre e em questão de segundos foram carbonizados diante da descarga elétrica.

- Essa é a minha garota! - comemorou Júpiter quando o show pirotécnico terminou e aproximou-se de Lily, postando-se ao lado dela e encarando a jovem com ar orgulhoso. A adolescente sorriu para a mãe e lhe deu um aceno positivo de cabeça e juntas ambas partiram novamente para a batalha.

- Isso não vai ser o suficiente. - Rhian falou ao lado de Selene. - Zac-Ra precisou do poder de todos os seus aliados, todos Deuses, para conseguir aprisionar De-Gra. Europa pode ter desenvolvido um novo golpe, mas o mesmo não surtiu efeito algum. Milênios preso no nada cultivando ódio e desejo de vingança parece ter fortalecido MarDe-Gra em vez de tê-lo enfraquecido. - Estelar assentiu com a cabeça, concordando com o homem, e lançou um olhar para Serenity e Endymion que lutavam ao lado de Marte e Vênus. Neo Sailor Moon ajudava a erguer uma Vésper ferida e a entregava a Mercúrio que levara a jovem para Eileen que usara um beco como enfermaria improvisada e erguera um escudo para proteger a si e Marjorie enquanto tratava dos ferimentos da guerreira mais nova.

Um tiro fez as estruturas frágeis dos prédios tremerem nas bases e nem mesmo De-Gra pôde prever este ataque, por isso foi pego de surpresa pelo projétil que veio na sua direo, lhe dando apenas tempo de erguer uma barreira e fazer com que o mesmo estourasse contra esta, o lançando longe com a força do impacto e o atordoando por breves segundos. Ami ergueu os olhos para ver Daiki tirar dos ombros um lança míssil e ofegou ao presenciar o marido vestido como um verdadeiro soldado, trajando camuflado da cabeça aos pés e com alguns ferimentos e hematomas nas poucas partes visíveis de seu corpo.

Outros soldados vinham atrás dele, vestidos da mesma maneira e carregando armas igualmente enormes e potentes que apontavam com precisão para os insetos que armavam seus canhões prontos para dizimarem aquela nova ameaça. Mais tiros ecoaram ao longo da rua, com o plasma chocando-se com mísseis e balas, causando explosões e ondas de energia que fez sacudir todas as estruturas que ainda se mantinham fracamente de pé e derrubar algumas senshis e soldados naquele campo de batalha.

A cena fez MarDe-Gra gargalhar histericamente e lançar um olhar de zombaria para a rainha que auxiliava alguns soldados a erguer-se do chão.

- Acha realmente que isso vai me deter? Enquanto vocês brincam de guerrear minhas máquinas destroem o seu mundo. E elas não vão parar cara rainha, a não ser que vocês me parem. E isso é impossível. - riu mais ainda e Serenity ofegou quando no horizonte uma nuvem negra parecia se aproximar em uma velocidade impressionante e quanto mais perto ela chegava, mais a mulher pôde ver que eram outros insetos biônicos de De-Gra.

- Ele os controla. - Selene murmurou ao ouvir o que De-Gra dissera a rainha, seus olhos perdendo o tom azul e voltando a ser multicor. - Não é apenas a zaphira que lhes dá poder. Assim como os zumbis, ele controla aquelas criaturas. - os olhos dela estreitaram e Hans arqueou as sobrancelhas ao perceber como o tom da jovem ficara mais distante, mais sombrio e num brilho a armadura que antes cobria o uniforme dela retornara.

- Selene? - chamou. Algo na ressurreio da adolescente parecia ter dado extremamente errado, pois a mesma não estava agindo de forma coerente e lutara ao lado dela algumas vezes para saber o modo de pensar de Sailor Estelar e ela nunca tinha apresentado aquela expressão impassível no rosto. Quando a garota virou-se para encará-lo, sua respirao prendeu na garganta. As íris multicor tremeluziam, com cada cor girando dentro da mesma e fundindo-se aos poucos até assumir uma única colorao, um dourado intenso da mesma tonalidade do ouro.

- Preciso que me prometa Rhian... - o fato dela lembrar quem ele era o aliviou um pouco, mas o tom de voz e a expressão distante ainda fazia o seu corao quase sair pela boca. O que estava acontecendo com Selene? - HansArk-Ra da Casa de Ra. - ofegou ao ouvi-la pronunciar o seu nome completo e segurar as suas mãos entre as dela pequenas e aparentemente frágeis. - Como último herdeiro da linhagem dos Ra que irá usar de seu direito como descendente do criador do Cristal Estelar. - o olhou diretamente nos olhos e Rhian ficou sem entender.

- Selene... - iria dizer algo mas os lábios quentes e úmidos dela sobre os seus, o calando, o impediu de qualquer protesto. O corpo esguio e diminuto colou-se ao seu, uma das mãos dela soltou a sua e envolveu a sua nuca, brincando com os fios claros que adornavam a mesma, aprofundando o beijo, o deixando inebriado e sem fôlego. Quando finalmente o soltou ambos ofegavam e a jovem tinha uma expressão decidida no rosto.

- Prometa. - exigiu.

- Eu prometo. - falou, mesmo não sabendo ao que estava se compromissando. Selene sorriu ao ouvir a sua resposta e afastou-se com um passo. Suas mãos brilharam e nelas surgiram as lâminas gêmeas. Com uma última mirada sobre a figura do homem ela saltou para fora do prédio, pousando novamente na rua bem a tempo de impedir um raio de energia que ia na direo do grupo de soldados comandados por Daiki. Serenity havia erguido um escudo com o Cristal de Prata, mas este não foi necessário pois quando a esfera de energia chocou-se com as espadas de Estelar, girou por segundos sobre as mesmas, soltando faíscas até perder a intensidade e desaparecer em um clarão de luz.

- Voltou então irmão? - De-Gra zombou, erguendo as suas espadas de lâmina escura de cristal e franziu as sobrancelhas negras quando o rosto de Selene adquiriu um sorriso arrogante e ela chocou uma lâmina gêmea na outra, ocasionando um tilintar de metal e um estalo seguido de um brilho. As espadas converteram-se em uma alabarda de prata e ouro e o homem recuou um passo ao perceber que não era mais Zac-Ra que dominava o corpo da princesa. - Então, a quem devo a honra de destruir? - gracejou e o sorriso de Selene alargou.

- Muito prazer MarDe-Gra. - a voz suave e melodiosa ecoou na rua destruída. - Eu sou o Cristal Estelar.