Capítulo 11

Serena arregalou os olhos e ofegou ao ouvir aquilo e desejou imensamente que Plutão estivesse ali, naquele momento, para iluminar a sua mente confusa. Mas a other senshi estava com um outro destacamento, em outra parte da cidade, defendendo o reino dos ataques. Mirou as companheiras sailors para averiguar se não tinha sido a única a ter ouvido aquilo e pelas expressões das amigas e de seus pais teve a certeza de que não tinha enlouquecido. Selene dissera que era o Cristal Estelar. E isto era loucura. O Cristal era apenas uma arma... Uma arma feita de energia e nada mais.

- Então a lenda é verdadeira. - Eileen ofegou e levou as mãos a boca quando mirou a guerreira ao longe que posicionava-se para atacar De-Gra com tudo de si.

- Que lenda? - exigiu Serena atordoada e a zathariana percorreu os olhos de senshi a senshi e depois voltou o olhar para a sailor que partira para o ataque e agora travava uma batalha de força e técnica com Mar'De-Gra.

- A de que o Cristal Estelar já teve uma forma humana. Os Deuses deram uma forma humana ao Cristal para que este o ajudasse na batalha como um aliado com vontade própria e não apenas uma mera arma. - Rhian surgiu ao lado da irmã. - E foi por esta forma humana que Zac-Ra foi apaixonado. A história diz que ele libertou o Cristal no Universo com a orientação de que ele procurasse um herdeiro digno de seus poderes não porque ele temia ser corrompido pelo poder como Mar'De-Gra foi, mas porque ele sabia que algo tão grandioso e puro como o Cristal Estelar não podia ser aprisionado pelo egoísmo do amor de um homem. Zathar fora beneficiado com o seu poder e seria a vez de outros planetas, outras dimensões, por isso Zac-Ra despiu o Cristal de sua forma humana, o retornando apenas a energia inteligente e o libertou no Universo. Ele foi o criador e considerado o primeiro guardião por ter usado os poderes do cristal ao seu favor. Mas ninguém melhor do que o próprio Cristal Estelar para conhecer as suas capacidades e como derrotar o inimigo.

- E agora o cristal se apossou da minha irmã? - Serena soltou com fúria. Só lhe faltava essa. Além de ser responsável pela morte de Selene, esse maldito Cristal agora possuía o corpo dela como se fosse uma marionete. Se não soubesse que destruí-lo iria matar a segunda princesa, já o teria feito há muito tempo.

- Não entenda errado Sailor Moon. O Cristal Estelar é energia pura que assumiu forma humana graças aos Deuses do Panteão da Luz e depois foi revertido a energia sem perder a sua consciência. Não o inverso. - Eileen explicou e Rhian assentiu com a cabeça.

- Sem contar... - o homem virou-se na direção da batalha entre Estelar e De-Gra e abaixou-se em um reflexo, sendo acompanhado pelos outros quando um grito do rei Endymion os alertara do perigo. Um golpe entre Estelar e De-Gra tinha acabado de soltar um bloco de asfalto que voara na direção deles, passando rente a cabeça de todos que estavam agachados. - Creio que não é apenas Selene que está nesta batalha. - a miríade de cores que vira nos olhos da princesa mais cedo o fez ter a sensação de que estava mirando várias almas sendo refletidas por aquelas íris, almas de vários guerreiros que pareciam ter voltado do mundo dos mortos com Selene para batalhar contra Mar'De-Gra.

- Droga! - Bastet gritou injuriada e ergueu-se num pulo só. - Esses bichos não vão acabar? - resmungou quando a nuvem de insetos finalmente chegou ao campo de batalha, começando a disparar seus canhões e sendo revidados pelos soldados comandados por Daiki. Os olhos escuros da sacerdotisa flamejaram de raiva e um brilho laranja-avermelhado a envolveu. Em um gesto brusco ela ergueu o braço direito acima da cabeça e a energia que a rodeava começou a circundá-la como arcos, indo acumular-se na palma de sua mão que estava em formato de concha.

- Phobos? - Marte chamou surpresa ao ver a filha. A pele dela brilhava em um tom dourado e os olhos pareciam duas chamas crepitando.

- Fogo Sagrado de Phobos... Ataque! - ela apontou o braço para os insetos que se aproximavam e fogo explodiu da mão dela, quente como lava e tendo o enfeito de derreter o inimigo como a mesma.

- Mesmo que continuemos os atacando, mais surgem. A não ser que derrotemos Mar'De-Gra de nada adiantará. A Terra estará completamente devastada e não sobrará muito de Tóquio ou das outras grandes cidades para contar história. - Serenity ofegou, o cansaço já se mostrava aparente no rosto da rainha, assim como nos das outras senshis. Um grito e um estouro chamou a atenção deles e todos viraram as cabeças para verem Sailor Estelar ser arremessada contra um viaduto, causando uma depressão no formato de seu corpo no mesmo.

- Selene! - Serena gritou apreensiva, correndo na direção da irmã que caiu como um peso morto na estrada abaixo do viaduto. Estava quase a alcançando quando o seu progresso foi impedido pelo próprio De-Gra. - Sai da minha frente. - rosnou, erguendo o seu cetro na altura do peito e estreitando os olhos âmbares para o homem que riu zombeteiro. Sailor Moon viu que apesar de estar em pé e com ar vitorioso, De-Gra não parecia assim tão inabalável. Ferimentos assolavam a pele clara aqui e acolá e uma queimadura feia marcava o antebraço direito, sendo mostrada por causa do enorme rasgo que a manga da roupa dele apresentava.

- Não tão rápido Sailor Moon. - sorriu o seu habitual sorriso de gelar o sangue nas veias e atacou. Serena só teve tempo de jogar seu corpo para o lado e sair da direção do golpe, pousando desajeitada sobre a calçada bem a tempo de sentir um impacto doloroso sobre o seu rim, fazendo o ar escapar dos seus pulmões e a arremessando sobre uma árvore. A velocidade e o peso de seu corpo quebrou o tronco da planta e fez as suas costas protestarem de dor. Outra gargalhada de De-Gra e com a visão turva a senshi o viu vir na sua direção com espadas em punho, dar um salto e descer as lâminas prontas para cravá-las em sua barriga. Foi parado quando outra espada entrou em seu caminho.

- Fique longe da minha filha. - Endymion rosnou e girou o pulso, afastando o ataque de De-Gra e o próprio da princesa caída, pondo-se na frente da mesma como um escudo de proteção.

- Que cena emocionante. - gargalhou. - Tenho até vontade de chorar. - completou em tom enojado, avançando sobre o rei e cruzando espadas com ele, começando um duelo de forças. Os braços do rei tremiam diante da pressão e força que De-Gra impunha sobre as pesadas espadas que carregava e Darien sentiu os olhos arderem e ar lhe faltar quando novamente a névoa ácida envolveu o homem. Tentou afastar-se daquela armadilha, mas Mar'De-Gra havia prendido sua lâmina nas dele de modo a obrigá-lo a permanecer no lugar enquanto sentia o veneno começar a corroer pedaços de sua armadura e roupa e chegar a sua pele.

- Cascata Inebriante de Arcádia! - o jorro de água fria sobre si e De-Gra foi um bálsamo para Endymion que já sentia a pele queimar e a névoa congelando e depois quebrando-se em vários fragmentos, distraindo o seu adversário, foi o suficiente para fazê-lo se afastar em um salto, ajudar uma Serena caída a erguer-se e sair da linha de ataque de De-Gra.

- Garota enxerida! - disparou uma rajada de energia negra sobre Arcádia que ofegou e cruzou os braços em frente ao corpo em um gesto instintivo de proteção, recebendo o ataque em cheio e sendo arremessada contra uma vidraça.

- Ann! - Daiki e Ami gritaram ao mesmo tempo, ainda mais quando viram um brilho azul celeste envolver a filha e a transformação da mesma retroceder. Aos tropeços Ann tentou se levantar, mas tudo o que conseguiu foi cair novamente de joelhos e arregalou os olhos cinzentos quando outro ataque de De-Gra veio na sua direção. Mercúrio pôs-se a correr, mas sabia que não chegaria a tempo de salvar a filha e seu coração veio a boca ao ver que a energia se aproximava perigosamente da adolescente. Quando a mesma aproximou-se o suficiente pareceu que os instintos e o cérebro de Ann resolveram voltar a funcionar e a jovem desapareceu em um estalo, reaparecendo no mesmo beco onde Eileen e Ami cuidaram de uma Vésper ferida mais cedo.

- Graças a Serenity. - murmurou Mercúrio ao ver a filha se teleportar para longe da linha de tiro e reaparecer ao lado de Vésper no beco.

- Esse sujeito não morre? - Lily resmungou quando viu que Ann quase fora morta e De-Gra ainda permanecia inteiro. - Por que você não morre? - gritou irritada, disparando seus relâmpagos sobre ele e o homem apenas riu. As sailors estavam ficando desesperadas e isto era bom. O desespero delas era a sua vitória.

- Milênios trancado no vazio, somente treinando e treinando, sonhando com este dia, fez isto comigo minha cara. Me tornou imortal. - riu diante da ironia. Zac-Ra o havia trancado em uma dimensão vazia achando que assim acabaria com o irmão para sempre, mas tudo o que conseguiu foi fortalecê-lo mais e prepará-lo para a vingança que agora estava saboreando lentamente.

- Essa eu gostaria de ver. - De-Gra arregalou os olhos quando sentiu algo afiado e frio cruzar o seu ombro e uma dor aguda percorrer o seu corpo. - Mas quem diria... Você sangra. - a lâmina saiu de sua carne, manchada com o vermelho escuro de seu sangue e o homem virou-se para ver Estelar parada na sua frente, a armadura arranhada em vários pontos, o rosto sujo, suado e ferido pela batalha, o uniforme de senshi com alguns rasgados, mas os olhos possuíam o mesmo tom dourado e a determinação de antes.

- Peste maldita! - vociferou, girando o braço não ferido em um arco, tentando acertá-la com a sua espada, mas ela habilmente saiu do raio de ataque. - O que eu preciso fazer para matá-la? - Estelar sorriu diante da fúria dele.

- Milênios vagando pelo Universo, pulando de guardião para guardião, batalhando e batalhando, fez isto comigo meu caro. Me tornou imortal. - De-Gra rosnou ao ouvi-la proferir suas palavras contra ele e avançou em um ataque, usando apenas o braço não ferido para manusear a espada e o ferido para soltar golpes de energia. Logo o embate tornou-se acirrado, os golpes mais violentos, a energia que acumulava-se em torno dos dois crepitava e oscilava, soltando faíscas que destruíam tudo a sua volta e o que tocavam. De-Gra emanava mais de sua névoa mas, desta vez, Estelar parecia ser imune a mesma, pois aproximava-se do homem e o atacava como se o veneno não lhe causasse nada em contato com o seu corpo.

A passos vagarosos as senshis e os soldados de Tóquio de Cristal foram recuando, pois podiam perceber que as coisas pareciam estar saindo de controle pouco a pouco. Estelar e De-Gra pareciam tão presos em seu mundo, tão entretidos em derrotar um ao outro que agora atacavam e lançavam golpes um sobre o outro sem se importar com o que ou quem estava no caminho. Estelar principalmente. Quando um Suprema Devastação Estelar errou o alvo e acertou uma cabine telefônica onde um grupo de soldados estava perto, os fazendo voar longe, Serenity logo percebeu que algo ruim estava prestes a acontecer.

- Rhian. - chamou ao ver que a névoa emanada por De-Gra também derretia seus próprios aliados e logo a rainha e o rei ergueram um escudo em torno daqueles que se encontravam no campo de batalha. - O que aconteceu na primeira Guerra Santa? Como Zac-Ra conseguiu enfraquecer De-Gra para aprisioná-lo em outra dimensão? - perguntou preocupada pois logo tremores começaram a percorrer o solo, como se a própria Terra estivesse sentindo o desequilíbrio que o encontro de energias entre Estelar e De-Gra estava causando. O céu ficava mais escuro e de repente parecia que aos poucos anoitecia no Japão, mesmo com a rainha sabendo que ainda era de tarde.

- Ele teve a ajuda dos outros Deuses e naquela época De-Gra não tinha a força que tem hoje. - explicou e ofegou quando um raio de energia chocou-se contra o escudo do rei e da rainha, fazendo o mesmo tremer. - O que está havendo? - estreitou os olhos intrigado e preocupou-se quando viu Serenity levar uma mão ao peito e franzir as sobrancelhas loiras em um gesto pensativo.

- A energia deles cresce a cada minuto. Principalmente a de Selene. Ela está perdendo o controle, sinto isso. Temos que pará-la. Sei que ela irá utilizar de todos os artifícios possíveis para destruir De-Gra, mas a que custo? A Terra pode não aguentar. - a Terra pode não aguentar. Pensou Rhian e então a conversa que tivera com a princesa no topo do prédio voltou a sua mente e finalmente ele conseguia compreender o que ele havia prometido a jovem.

- Me deixe sair. - falou em um tom de voz firme e Serenity o mirou intrigada.

- O quê?

- Me deixe sair daqui. - mirou a barreira e além dela, para Selene e De-Gra que batalhavam ferozmente. Serenity seguiu o olhar dele e franziu mais as sobrancelhas, tentando entender o que se passava na cabeça dele, mas não conseguindo. Sabia que ele planejava algo, mas não tinha ideia do que. Lançou um olhar a Endymion que assentiu levemente com a cabeça e juntos ambos abaixaram a barreira, cedendo passagem a Hans que os agradeceu com um aceno de cabeça. Com postura firme e olhar decidido caminhou em direção aos dois combatentes, ignorando os arrepios que percorriam pelo seu corpo por causa da energia desprendida pelos guerreiros e quando Estelar pulou para longe de De-Gra, pousando bem na sua frente, ele a segurou pelo pulso, a assustando.

Uma lâmina prontamente repousou sobre a sua jugular e olhos dourados miraram os seus azuis gélidos, com uma conversa muda passando entre eles, e a mulher inspirou profundamente, assentindo com a cabeça e dando as costas para ele novamente, voltando a encarar De-Gra do outro lado da rua. As espadas gêmeas sumiram para dar lugar ao tradicional cetro de Sailor Estelar e os olhos adquiriram a miríade de cores até finalmente fundirem-se em um azul intenso como a Terra vista do espaço.

- Despedindo-se de sua amada, herdeiro de Ra? - De-Gra zombou. - Parece ser uma sina do destino não? Um Ra se apaixonando pelo Cristal Estelar mais uma vez. - Estelar franziu as sobrancelhas negras em desagrado e seus olhos azuis faiscaram de raiva. A armadura que sobrepunha seu uniforme desapareceu, deixando para trás apenas o uniforme de sailor senshi e o Deus gargalhou. - Acha que como uma mera senshi vai me vencer? Ou pretende usar o direito de sangue da Casa de Ra para acessar o poder do Cristal Estelar? É isso princesa?

- Você fala demais. - murmurou Selene, erguendo o braço com o cetro e sentindo Hans posicionar-se atrás dela, deslizando a mão ao longo de seu braço esticado e fechando os dedos sobre o seu pulso. A outra mão livre ele espalmou um pouco abaixo de seu pescoço, bem sobre o decote em V do uniforme e por onde o zathariano podia sentir coração da guerreira palpitando desesperadamente.

- Eu estou aqui. Eu seguro você. - Selene engoliu em seco ao ouvir as palavras dele e fechou os olhos. Era bom o homem realmente fazer o que tinha prometido, ou então voltaria do inferno para atormentá-lo. Sentiu algo comprimir na boca do estômago, como se estivesse esmagando os seus órgãos e depois subiu pelo seu peito e garganta e pressionou o seu coração. Um calor percorreu as suas veias e esquentou a sua pele. Seu braço tremeu, mas a mão de Hans o segurando o manteve firme.

Pontos pretos surgiram em frente aos seus olhos e aos poucos foram clareando, tornando-se cinzas, brancos, e ficando maiores, mais claros, como pontos de luzes. Viu Mar'De-Gra se mover em um ataque, mas estava concentrada demais no que ia fazer, no que ia arriscar, para se importar. Ainda sob a esfera de proteção, a rainha, o rei, os soldados e as senshis observaram atônitos o corpo de Sailor Estelar começar a brilhar e este brilho ficar cada vez mais forte, como se fosse uma estrela que estivesse prestes a nascer. Desviaram o olhar, pois a luz ficara intensa demais, mas ainda podiam sentir os reflexos desse fenômeno. O chão tremia, os céus estavam turbulentos, pedaços dos edifícios caíam e os insetos na proximidade da senshi desapareciam quando eram iluminados pela energia dela.

- Ela vai destruir tudo! - gritou Phobos, tentar sobrepujar a sua voz ao barulho ensurdecedor que o planeta estava fazendo diante desta manifestação de poder. - Ela é louca! Ela pretende destruir De-Gra nos matando junto? - Serenity arriscou um relance para onde a filha estava e se arrependeu instantaneamente, pois a luz quase a cegou e não pôde tirar a razão de Bastet. Estelar estava liberando energia o suficiente para eliminar De-Gra e a Terra junto, mas por outro lado tinha a sensação de que o motivo de Rhian ter pedido para ir juntar-se a senshi não foi por mero capricho. Algo lhe dizia que ele sabia o que estava fazendo.

- Eu confio nela. - declarou a rainha. - Eu confio neles. - reiterou.

- Eu seguro você. - Estelar ouviu a voz murmurar mais uma fez em seu ouvido e apertou os dedos com mais força em torno do cetro. Era o único jeito. Sabia disso, apenas não sabia se seria capaz de parar. Quando viu que De-Gra aproximava-se o suficiente resolveu que agora era tudo ou nada.

- Prime - a primeira palavra saiu hesitante, isto até Mar'De-Gra rir com deboche e subitamente juntar as suas duas espadas as transformando em uma só e erguendo a enorme lâmina sobre a cabeça. A névoa que o rodeava foi sugada para dentro da mesma e depois expelida em uma mistura de fumaça e energia que crepitava de maneira mortal e vinha na direção de Selene, pronta para dar um fim a senshi. E se fosse o seu fim, seria o fim de todos. - Universal - continuou firme. - BIG BANG! - a explosão que brotou da ponta do cetro dela fez jus ao nome do golpe, pois foi praticamente similar a explosão que criou o Universo e quando encontrou-se com o ataque de De-Gra o engoliu como um enorme monstro faminto, continuando o seu percurso inabalado até alcançar o seu alvo e fazer o mesmo com ele.

Selene até comemoraria a vitória se não fosse um porém: o golpe ter saído de controle e começado a destruir tudo ao seu redor com mais velocidade e de maneira assustadora. Serenity reforçou as barreiras em torno de todos com a ajuda de Endymion quando a energia chocou-se contra a mesma, mas sabia que mão aguentaria por muito tempo. Era poder demais, poder que a magia defensiva do Cristal de Prata não seria capaz de lidar e o mesmo parecia querer engolir a energia do cristal sagrado da família real como se fosse sua fonte de alimento.

- Selene! - Serena gritou pela irmã na vã tentativa de tentar fazê-la controlar o ataque, mas a mesma não conseguia nem mesmo reconvocar a energia para dentro do seu corpo. Péssima hora que o Cristal Estelar resolveu despertar de vez, liberar seus poderes. Não estava preparada, nunca estaria, e agora destruiria o planeta inteiro por causa disso.

- Eu estou com você. - a voz de Hans era confortadora e o aperto dele no seu pulso era firme, mas não mudava o fato de que o seu poder estava destruindo a Terra, que Tóquio de Cristal estava praticamente sendo consumida pela energia do Cristal Estelar e que não demoraria muito as defesas de sua mãe iriam sucumbir e as senshis e os monarcas seriam alvos de seu poder. - Eu invoco o meu direito como herdeiro da Casa de Ra. - a mão espalmada em seu colo o pressionou com força e Selene sentiu uma energia estrangeira percorrer o seu corpo, a energia de Rhian querendo sobrepujar, subjugar, a energia do Cristal Estelar.

Seu corpo novamente ficou quente, com o sangue parecendo ferver nas veias e o estômago contrair dentro de sua barriga. O cristal estava brigando de volta com Hans, não querendo ser domado agora que finalmente tinha sido libertado em toda a sua plenitude e Selene sentiu lágrimas rolarem de seus olhos. Seria responsável pela fim do planeta por qual deu a vida para proteger.

- Selene - a voz de Rhian era calma. - você agora é a dona do cristal. Os poderes dele são seus. Você o controla e não o inverso. Então o controle. - queria que fosse tão fácil fazer quanto falar, mas não era bem assim, era? - Você é a filha de Endymion e Serenity, faça jus a sua herança. - ofegou e cerrou os olhos com força. Ele tinha razão. Endymion controlava o Cristal Dourado, poderoso, ligado a Terra, e era o Rei da mesma. Serenity controlava o Cristal de Prata, conhecido pelo Universo, cobiçado por muitos, lendário e sagrado. Ela também seria capaz de controlar um cristal milenar.

Novamente o seu estômago embrulhou e o ar lhe faltou, a energia oscilou, seu corpo brilhou como o de uma estrela, mas desta vez como uma estrela prestes a se apagar e com um clarão tudo sumiu. O golpe, seu cetro, seu uniforme, os insetos, Mar'De-Gra e sua consciência.

oOo

Um bipe foi a primeira coisa que ouviu quando aos poucos a sua consciência foi retornando. O som sibilado de ar comprimido foi a segunda e a terceira coisa que percebeu era que todos os músculos do seu corpo doíam, da cabeça aos pés. Com dificuldade piscou as pálpebras, abrindo vagarosamente os olhos e vendo apenas um borrão. Franziu a testa ao perceber que apesar de tudo estar embaçado, a única paisagem que via era uma extensão branca e brilhante.

O bipe ficou mais alto, assim como o sibilar de ar comprimido, barulho que começou a incomodar os seus ouvidos. Tentou mexer os dedos das mãos, sendo bem sucedida com a direta mas percebendo que a esquerda parecia presa em algo. Lentamente revirou os olhos e as íris azuladas encontraram fios rosadas espalhados sobre o seu braço esquerdo e dedos pálidos segurando os seus. Sua mente registrou a cena, reconhecendo a pessoa como a sua irmã Serena e percebeu que agora a sua visão estava mais clara. Com isto a percorreu ao seu redor.

O que encontrou foi um quarto de hospital equipado com aparelhos que monitoravam o seu estado e atulhado de vasos de flores, balões, bichos de pelúcia e cartões coloridos. A porta do mesmo estava fechada mas por baixo da fresta dela podia ver sombras se movimentarem e pela janela em uma das paredes notou pelos raios que passavam pelas cortinas que o sol estava ou se pondo ou nascendo no horizonte. Tentou se mexer mais uma vez, começando pelos ombros e o gesto pareceu não incomodar Serena que dormia pesadamente ao lado de sua cama. Sorriu.

O mundo poderia estar acabando que a irmã não se abalaria nem com isto.

Hum... Mundo acabando. Franziu a testa mais uma vez diante desta associação. Agora que parava para pensar, por que estava no hospital? E há quanto tempo estava ali? Tentou puxar na memória as lembranças dos últimos dias, mas tudo vinha em fragmentos sem sentido e nada se encaixava com nada, como se a sua mente fosse um quebra-cabeças e alguém a tivesse chacoalhado, espalhando as peças que ainda estavam levando um tempo para se recomporem. Entretanto, mesmo sem as memórias, a sensação de tristeza e culpa apoderava-se de si como se tivesse feito algo grandioso e muito grave.

Remexeu-se mais uma vez e a pele sensível de seu pescoço sentiu algo roçar contra ela, o que a fez levar a mão livre ao local e tocar algo gelado com as pontas dos dedos, percebendo que havia um cordão descansando sobre a camisa do pijama que vestia. Confusa, o ergueu a altura dos olhos, observando o pingente que havia no mesmo. O metal do qual ele era feito tinha uma coloração diferente, um tom dourado que contra a luz ganhava um brilho prateado, quase branco. O formato recordava os antigos brasões de famílias europeias de séculos antigos e pequenas pedras preciosas em um tom azul gelo o enfeitava.

Era uma bela joia, a qual nunca tinha visto antes e não fazia ideia de onde tinha surgido. Dando levemente de ombros, a guardou sob a gola do pijama e soltou um suspiro, ao mesmo tempo em que a porta do quarto abria-se vagarosamente e Ami Mizuno adentrava o mesmo com os olhos azuis escuros escondidos pelo par de óculos mirando o computador na palma de sua mão. O jaleco branco farfalhava as suas costas e por entre as brechas oferecidas pelo tecido a jovem pôde ver a silhueta de duas sailors montando guarda na porta que fechou-se atrás da médica.

- Oh... - Ami soltou ao erguer as íris azuladas da tela do computador e ver que Selene estava acordada, guardando de pronto a máquina no bolso do jaleco e indo a passos largos até a garota sobre a cama, averiguando com gestos precisos e experientes as máquinas ao redor da paciente. - Como se sente princesa? Tontura, enjoo, cansaço?

- Dolorida... - Selene disse com uma voz raspada e sentiu a sua garganta arranhar, lhe causando dor e incomodo. Ami sorriu de maneira maternal para a jovem e foi até uma mesa mais distante da cama, derramando uma boa quantidade de água de uma jarra dentro de um copo e retornando até a princesa, apoiando a borda do vidro nos lábios pálidos e ressecados e permitindo que ela desse pequenas goladas no líquido fresco. - Quanto... - quis perguntar e embora sua garganta tivesse aliviado com a água, ainda sim parecia fraca com a falta de uso. Seus olhos azuis desceram para a cabeça de Serena ainda adormecida e alheia ao que acontecia a sua volta.

- Parece que finalmente a princesa dormiu. Estava quase cogitando dar um sossega leão para esta menina. - Selene franziu as sobrancelhas negras. - Você está inconsciente faz umas duas semanas, o que nos deixou bem preocupados. Todos os seus exames deram normais, apesar dos ferimentos, sua ondas cerebrais estavam normais e ativas, então não havia explicação para o súbito coma. Marte e Júpiter tiveram que arrastar a rainha e o rei para o castelo, pois eles também não arredavam o pé do hospital, o que poderia levantar suspeitas. Para todos os efeitos a informação oficial é que quem está internada é Sailor Estelar. Mas como você vê... - Ami indicou com uma mão a jovem ainda adormecida ao lado de sua cama e segurando a sua mão. - Serena recusou deixar o seu lado. Alegou que como líder das Neo Senshis ela tinha a obrigação de permanecer aqui.

Ao fim da explicação Selene esboçou um sorriso fraco e conseguiu com muito esforço soltar a mão que era firmemente segura pela mão da irmã, a levando aos fios rosados da outra adolescente e os acariciando afetuosamente. Inspirou profundamente, trazendo mais oxigênio puro para dentro de seus pulmões e lançou um olhar para a janela do quarto cujas cortinas estavam cerradas, filtrando toda a claridade.

- É manhã? - perguntou, pois tinha perdido toda a noção de tempo.

- Sim... Acabou de amanhecer. - Selene assentiu levemente com a cabeça.

- Posso ver? - pediu com os olhos ainda fixos nas janelas cobertas e a médica hesitou.

- Melhor não princesa.

- Por que não? - Ami não respondeu, apenas aproximou-se da garota e retirou do bolso de seu jaleco uma pequena lanterna a qual mirou o feixe de luz diretamente nas íris azuladas dela, a fazendo franzir a testa diante do incomodo repentino sobre a sua visão ainda sensível.

- Suas pupilas estão com reações lentas. - ponderou Mizuno com uma expressão preocupada. - Selene... Qual a última coisa da qual se recorda? - a princesa abriu a boca para responder e depois a fechou com um estalo, fazendo uma expressão pensativa e tentando buscar na memória qual era a sua última lembrança. - Por que está aqui Selene? - a médica continuou e Selene remexeu-se na cama, apoiando as palmas sobre o colchão e as usando como alavanca para sentar-se apoiada a cabeceira. Ami a auxilou ao ver o que ela tentava fazer e ajeitou os travesseiros sob as costas dela.

- Lembrança... - tentou puxar mais pela memória. O quebra-cabeça ainda estava com as suas peças espalhadas, mas pouco a pouco elas encontravam o seu lugar em seu cérebro.

Recordava alguma coisa sobre visitantes de um planeta chamado Zathar. Sonhos de sua antecessora. Lembrava-se de sorrisos e uma tarde no centro comercial enquanto levava consigo pelas mãos um homem alto e de pele morena como a canela e expressão sempre séria. De um pôr-do-sol na mais alta torre do Castelo de Cristal e um beijo de parar o mundo a sua volta. E então veio o ataque. Os ataques que estavam ocorrendo desde a chegada dos zatharianos e o inimigo misterioso revelou-se ser uma grande ameaça. Rhian... Rhian era o nome do homem alto e sério, Rhian Hans'Ark-Ra... Rei de Zathar. Aquele que fora incumbido pelo inimigo de destruir o Cristal Estelar.

Ofegou.

O Cristal Estelar. O cristal que ela destruiu. O cristal que a trouxe de volta.

- Selene? Selene! Pare com isto! - o chamado de Ami a trouxe para o mundo terreno, mas ela o ignorou, assim como o fato de que o seu corpo movia-se automaticamente enquanto livrava-se dos fios dos aparelhos de monitoramento e do tubo de oxigênio. A balbúrdia finalmente acordara Serena que levantou a cabeça e coçou os olhos preguiçosamente, mirando com a vista embaçada uma médica que apoiava a paciente que descera da cama e quase fora ao chão diante da fraqueza de suas pernas.

- Selene? - a princesa mais velha chamou ao reconhecer a irmã bem desperta e isto a fez acordar de vez e erguer-se de sua cadeira em um pulo com os olhos largos. - Selene, o que você está fazendo? - deu a volta na cama apressada, indo ajudar Ami a amparar a outra princesa e a levar de volta ao seu leito, mas a morena estapeou as mãos das duas com uma força anormal para alguém que ficou inconsciente por duas semanas e aos tropeços afastou-se delas, usando móveis como apoio enquanto caminhava em direção a janela e derrubando jarros de flores e outros presentes no caminho.

A confusão acabou chamando a atenção de Vésper e Arcádia que montavam guarda na porta do quarto, o que fez as duas entrarem as pressas no aposento apenas para presenciarem uma Selene enfraquecida fechar os dedos pálidos no tecido das cortinas e com um puxão as abrir, deixando os raios do sol entrarem por completo no quarto assim como ceder visão do que ela considerou a pior coisa que seus olhos miraram em toda a sua vida.

Através do vidro ela viu Tóquio de Cristal, mas não a cidade bela e imponente, o reino pacífico e próspero pelo qual seus pais lutaram tanto para construir e manter. O que havia na sua frente era apenas os restos mortais disto. Prédios em ruínas estendiam-se até o horizonte, a perder de vista, asfalto trincado, a natureza dos parques e jardins destruída, ruas desertas, apenas com as equipes de segurança e resgate e operários percorrendo as mesmas e vários sacos pretos estendidos ao longo das calçadas, indicando que dentro deles estavam o que foram um dia súditos daquele reino.

O coração da jovem contraiu e ela sentiu as parcas forças que habitavam o seu corpo sumirem de vez, a fazendo tombar para frente e apoiar-se contra o vidro grosso da janela do hospital. Fechou fortemente os olhos, o que fez as lágrimas rolarem pelo seu rosto, e quase pôde ouvir mais uma vez os gritos de desespero e os sons de destruição. E então a pior de todas as lembranças veio a sua mente como uma espada cravando dolorosamente em suas entranhas:

Foi tudo culpa sua, pensou, liberando um grito de dor que assustou as senshis e alertou Ami e Serena que correram para o seu lado, a amparando antes que ela fosse de joelhos ao chão.

Cada construção caída, cada morto contabilizado. Culpa sua no momento que deixou o orgulho dominá-la e ir ao passado atrás daquele pirata que roubou o seu cristal. Culpa sua quando destruiu o cristal para assim dar uma chance as outras senshis. Mas o pior de tudo... Culpa sua quanto permitiu que o Cristal Estelar assumisse o seu corpo e causasse toda aquela destruição. Porque agora ela lembrava. Lembrava do poder percorrendo o seu corpo, fugindo do seu controle, devastando tudo ao seu redor, praticamente levando De-Gra e a Terra junto apenas para alcançar o seu objetivo e se não fosse Rhian, a quem pediu ajuda em seu único momento de lucidez...

Fora um tiro no escuro, mas ao menos fora válido. Hans era descendente de Zac-Ra, criador do cristal e talvez ele conseguisse usar desta vantagem para controlar, nem que fosse um pouco, a energia do cristal se esta fugisse de controle. Afinal, De-Gra não estava o usando para roubar a chave de portais tendo como vantagem esta mesma informação? E graças aos grandes deuses a ideia funcionou. Mas ainda sim não aliviava a dor, não aliviava o fato de que aquele maldito cristal só serviu para uma coisa até agora:

Destruir não apenas a sua vida, mas a de outros.

E a partir daquele dia uma decisão estava tomada. Não haveria mais Guardiã Estelar.

A partir deste dia ela nunca mais usaria o poder do Cristal Estelar.