Essa fanfic é presente para Renata Thaís, minha amiga secreta no primeiro evento do Palaestra! Renata, amei te tirar e tentei fazer algo que tentasse satisfazer tanto a sua vontade quanto a sua curiosidade. Essa fanfic aqui é pela parte da curiosidade. Espero que goste. É de coração. Beijos!

Também quero agradecer à Lune Kuruta por toda a ajuda que me deu na produção dessa fanfic. Obrigado mesmo, Lune!

PS: A versão completa (songfic) pode ser conferida no Archive of Us Own (AO3). A música-tema para o primeiro capítulo é "Up Where We Belong", de Joe Cocker e Jennifer Warnes. Obrigado!

O Refúgio

Ato I – Um lugar longe do mundo

Ontem, a mesma cena se repetiu. Ou melhor, se repetiu em quase todos os detalhes. Dessa vez, Aiolia não fez uma só brincadeira ou ergueu o punho cerrado para me criticar por eu abandonar novamente o meu posto. Ele não acompanhou Milo em suas troças de humor ferino, nem me lançou um olhar gelado como o de Camus quando anunciei que estava de saída. Por mais irônico que seja, parece que até mesmo os desunidos Cavaleiros de Ouro estabelecem um pacto quando a oportunidade de ridicularizar um companheiro surge. E eu, o "gente boa" do Santuário, pago o preço por tentar manter relações cordiais com todos os meus companheiros de batalha.

Céus, esse "olhar gelado do Camus" foi um péssimo trocadilho! Mu riria, com certeza! Mas enfim, isso não é hora de me perder com pensamentos esdrúxulos. Olho para o alto. Ainda me falta um bom pedaço de chão até chegar ao cume… E ele me aguarda tão ansiosamente que é um verdadeiro pecado diminuir o ritmo agora! Um pecado para com ele e para comigo, que também estou morrendo de saudades de tê-lo em meus braços, cobri-lo de beijos e fazer amor até cansarmos.

Na bagagem, levo um pouquinho de tudo aquilo que ele gosta. Frutas, roupas, algumas quinquilharias para casa, todo o tipo de coisa simples que ele recebe como se fosse o maior dos tesouros. O dono da venda aos pés da montanha disse-me certa vez "espero que a pessoa que recebe esses presentes também lhe dê algo bom em troca". Eu apenas ri. Sim, eu recebo algo bom em troca. Maravilhoso, na verdade: recebo o carinho do homem que amo.

As coisas foram um pouquinho diferentes dessa vez. Não posso considerar nenhum dos Cavaleiros de Ouro meu amigo – com exceção de Mu, naturalmente – mas ainda assim, compartilhamos certos espaços. O mais popular é a Taberna das Oliveiras em Rodório, um barzinho simples mas muito agradável que podemos frequentar sem chamar muita atenção. Costumo ir até lá quando não estou de plantão ou antes de viajar para Jamiel quando consigo minhas licenças. Tomo apenas uma cerveja ou um cálice de vinho, o suficiente para me animar para a longa travessia. Frequentemente encontro meus irmão-em-armas por ali. Infelizmente, nunca passa de um encontro. Dificilmente dividimos a mesma mesa ou conversamos sobre assuntos corriqueiros; a típica conversa de bar. O ego de meus parceiros é tão inflado que nem sei como conseguem passar pela portinha estreita do local! É uma cena verdaderiamente triste, tenho de admitir.

À mesa de Afrodite e Máscara da Morte nunca faltam candidatos para se sentar. É sempre a mais animada e a que mais consome, afinal de contas, em tempos sombrios, todos querem um lugar ao sol – e o modo mais fácil de consegui-lo é puxando o saco das pessoas certas. No que diz respeito aos demais, cada um ocupa sua mesa sem fazer estardalhaço, no máximo trocando um leve aceno para cumprimentar algum colega que entra ou sai. Milo aparece muito ocasionalmente. Shura, se pudesse, acabaria com a bebida do local. Aiolia é a ovelha negra, logo, ninguém nem mesmo pensa em lhe fazer companhia. Creio que eu não poderia eesperar outro comportamento, afinal, as coisas são assim dentro do Santuário.

Nesses momentos sinto falta da época em que Mu estava ali, apenas a um lance de escadas de minha casa. Poderíamos tanto ir à Taberna das Oliveiras quanto à praia; ao centro da cidade ou qualquer outro lugar que bem entendêssemos. Ou quem sabe, ficaríamos em casa, aproveitando a companhia um do outro após mais um dia de trabalho duro, como já fizemos tantas outras vezes. Ele nunca foi muito do tipo de sair, mas também nunca negou um convite meu. No entanto, as coisas mudaram. Para a própria segurança, ele precisou ir embora. E eu perdi até mesmo a vontade de levantar da cama de manhã.

O clima em Atenas está ainda mais tenso do que na época em que Mu partiu. Afrodite e Máscara da Morte consolidaram suas posições de conselheiros junto ao Grande Mestre, que faz vistas grossas aos abusos de poder cometidos pelos dois. Aos poucos, o prestígio de Shaka também começa a crescer, de modo que eu não me surpeenderia ao vê-lo integrar esse grupo tão bizarro no futuro. Os demais mantêm a lógica do "cada um por si e salve-se quem puder". Talvez, a possível exceção seja o meu próprio grupinho bizarro: Shura – que tem andado mais melancólico do que de costume – e, claro, Aiolia. Entretanto, não vejo muito futuro nessa… como eu poderia dizer? Aliança é um nome forte demais. Enfim, não vejo muito futuro nesse trato ou qualquer que seja o nome que eu possa lhe atribuir. É como se Holden Caulfield, Heathcliff e Atticus Finch tentassem firmar um acordo para situações de emergência, ou seja, não há a menor chance de dar certo.

Mas Aiolia está em outro patamar, afinal, agora ele sabe. Pode não imaginar que estou envolvido em uma "missão secreta", mas ele sabe muito mais do que os outros. E é justamente por isso que ele não riu ou caçoou de mim. Simplesmente baixou os olhos para a caneca de cerveja e suspirou pesadamente, enquanto os demais se comportavam de forma habitual. As "escapadas do Aldebaran" já se tornaram piada pronta entre meus colegas e muitos já tentaram descobrir para onde vou, o que faço e, principalmente, quem é a minha "amante", a mulher que eu visito tão religiosamente sempre que posso.

"Ela deve te dar um verdadeiro chá de sexo, hein Touro?"

"Deve ser uma delícia pra te fazer sumir por tantos dias!"

"Que nada, ele tá treinando pra virar padre! Aposto que passa os dias recolhidos na clausura e rezando pelo bem da humanidade que tanto quer proteger!"

"Olha, grandão, porque você não deixa que eu resolva isso? Ela não deve ser mais bonita do que eu e você pode subir até a minha Casa Zodiacal sempre que desejar!"

Já me acostumei às zombarias. Francamente, não me importo com o que dizem. Falta pouco para que o Santuário se torne oficialmente uma casa de loucos e eu preciso sair de vez em quando para manter a sanidade. Só encontro isso bem longe de Atenas, no alto do Himalaia, ao lado de um belo lemuriano que faz meu coração bater mais forte. Mu é quem me coloca nos eixos, quem me dá forças para continuar. Sigo adiante sem grandes danos por causa dele, apenas esperando pelo dia que esse exílio termine e possamos viver lado a lado novamente.

Acredito que Afrodite e Máscara da Morte sabem exatamente para onde vou e me provocam apenas pelo prazer de me verem em uma situação desconfortável. Câncer já até mesmo tentou causar uma briga, mas mantive o controle para não colocar tudo a perder. Só espero que não notem a mudança de comportamento por parte de Aiolia e venham a pressioná-lo para saber o que ocorre em Jamiel. Apesar de tudo, confio em Leão: ele fez uma promessa a Mu e creio que a cumprirá.

Há muito em jogo agora. Não falo apenas da minha felicidade, mas da própria segurança de Mu. Se fosse outro, qualquer outro, nem mesmo gosto de imaginar o que poderia ter acontecido… Como se não bastasse a invasão de Iapetos, que deixou meu companheiro em péssimo estado por umas boas semanas, ainda teríamos de lidar com a intervenção do Santuário em minha "missão confidencial". Por sorte – se é que isso pode ser chamado de "sorte" – foi Aiolia que viu tudo. E ele acatou aos meus pedidos desesperados e à promessa de meu amante. Assim, pude gastar o tempo necessário para cuidar de Mu e nossos encontros continuam garantidos por enquanto.

Apresso o passo. Ele prometeu que ficaria bem e eu confiei em sua palavra. Ainda assim, a preocupação não me abandona, de modo que preciso me certificar de sua saúde com meus próprios olhos. Agradeço aos céus por terem liberado minha "dispensa" sem muitos empecílios, mesmo que eu tenha estado aqui em Jamiel há menos de um mês e por um período significativo de tempo. O Santuário vê minha "missão" como essencial e eu, como bom soldado, "cumpro" tais ordens sem questionar.

Surpreendi-me quando fui chamado pelo Grande Mestre para aquela reunião privada há aproximadamente dois anos. A notificação que recebi deixou-me ainda mais ansioso. "Assunto: Mu de Áries. Caráter: Emergencial/Confidencial". Eu estava bastante confuso devido aos acontecimentos recentes no Santuário e a ausência de Mu, fazia com que eu me sentisse totalmente perdido. Mais do que depressa, rumei ao encontro de meu superior.

Fui recebido sem muita cerimônia e o Grande Mestre falou-me com sobriedade embora mantivesse um tom assustadoramente paternal. "Esses são tempos difíceis, Aldebaran de Touro. Devemos agir com cautela", disse, para em seguida elencar a fatídica série de acontecimentos que se iniciava com o atentado ao bebê Athena e terminava com a partida de Mu "que muito se assemelhou a uma fuga". Eu havia notado que meu melhor amigo estivera nervoso desde o início desses tumultos, mas não esperava uma atitude tão drástica.

"Aldebaran de Touro, creio que é doloroso para você ouvir isso, mas se Mu de Áries continuar a se comportar de modo suspeito, o Santuário terá de agir". As palavras me deixaram assombrado. "Agir" era um eufemismo. Naquele momento, não consegui pensar em outra coisa que não fosse a segurança de Mu. Ainda não éramos namorados à época, mas eu já tinha certeza de que o amava.

"Contudo, Áries não é um desertor. Mesmo partindo de forma tão repentina, explicou-me tudo em uma carta". Lutei contra minha ansiedade enquanto esperava o próximo movimento do Patriarca. Então, havia uma carta? Se esta explicava a situação de Mu, porque era mantida em segredo? O Grande Mestre então retirou de sua gaveta uma pequena folha de papel e entregou-me. "Você era o Cavaleiro mais próximo de Áries. Por favor, leia".

Mantive a calma, embora minha vontade fosse a de lhe arrancar a carta da mão. Reconhecer a caligrafia de Mu sobre o papel me encheu de alegria e tive de morder os lábios para conter um sorriso. O texto era formal e curto, direto no recado: ele havia se retirado para Jamiel, seu antigo local de treinamento, para aprimorar suas habilidades no conserto de armaduras e estudar as tradições de seu povo, os lemurianos. A ideia me pareceu absurda, mas eu me senti um pouco aliviado pelas notícias. Aparentemente, Mu estava bem.

"É realmente reconfortante quando recebemos notícias de um amigo querido, não é?" Não esbocei reação. Naquela época, os boatos sobre as mudanças de humor e a conduta questionável do Grande Mestre sobre determinados assuntos já começavam a circular pelo Santuário, e eu temia pela segurança de Mu. Um sorriso, uma expressão facial, um gesto… algo me dizia que qualquer ação que eu fizesse poderia colocá-lo em perigo.

"Aldebaran de Touro, o Santuário precisa de você. Talvez esta não seja uma missão agradável, mas é seu dever como Cavaleiro Dourado. É um trabalho confidencial, então, reporte única e exclusivamente a mim". A partir daquele dia, eu deveria utilizar minhas licenças prolongadas – folgas mensais de três a cinco dias – para viajar à Jamiel e espionar Mu, devendo relatar qualquer tipo de comportamento considerado perigoso ou suspeito, além de servir como elo entre o Santuário e o único ferreiro de Armaduras ainda vivo. Segundo ele, eu estava em uma posição privilegiada, uma vez que era o amigo mais próximo de Mu e não levantaria suspeitas. "Sei que é difícil sacrificar os dias de descanso, mas sacrifícios são necessários pelo bem de Athena".

Ora, mas que se danassem os dias de descanso! Aquele homem estava usando o nome de Athena, a Deusa que juramos proteger, para brincar com a minha vida e com a vida da pessoa que eu amo! Estava usando nossa amizade para um joguinho político egoísta e… não pude deixar de me lembrar de Shura e Aiolos. Porém, eu não podia fazer nada. Por mais que meu sangue fervesse, por mais que eu sentisse vontade de avançar contra o Grande Mestre, eu me contive. Se eu me exaltasse, com certeza seria castigado, e um Cavaleiro qualquer poderia ser enviado para trazer Mu à força para o Santuário. Ou coisa pior…

Além do mais, eu precisava saber se aquilo era verdade, se Mu estava realmente bem. E foi apenas nisso que pensei enquanto voava para Katmandu. Do aeroporto, um jipe militar me conduziu à vila aos pés da montanha de Jamiel. Quanto mais eu me aproximava de meu destino, mais minha ansiedade crescia. Eu precisava ver Mu. Ao mesmo tempo em que temia que a situação fugisse de meu controle: o papel de espião não me agradava nem um pouco e o Santuário poderia "agir" quando bem entendesse.

Por mais que eu estivesse ansioso, prosseguia com certo cuidado, já que eu conhecia os perigos da montanha mística de Jamiel. Além do terreno traiçoeiro e do ar rarefeito, o próprio Mu havia me dito que o caminho até sua Torre era guardado por um exército maldito, soldados que haviam perdido a vida tentando chegar à Torre em que ele havia vivido quando aprendiz. Ainda me lembro perfeitamente quando fui surpreendido por esses seres durante a primeira travessia. Por mais que eu lutasse, os esqueletos nunca cessavam de vir. Não era uma luta complicada, mas eu sentia pena daquelas pobres almas atormentadas, como se pudesse sentir a tristeza e o amargor que emanavam deles.

E então, eu senti aquele cosmo queimando, aquele cosmo que eu conhecia tão bem…

"Muralha de Cristal!"

Mal pude acreditar em meus sentidos. Mu havia se teleportado e estava diante de mim, usando seu escudo para nos proteger, mandando os esqueletos pelos ares. "Venha!", disse, tomando minha mão e correndo pelo espaço que havia aberto com o golpe. Eu apenas o acompanhava sem pensar em mais nada: Mu estava ali, e estava bem! Não me dei conta por quanto tempo corremos, mas quando estávamos em segurança, diante da Torre de Jamiel, ambos arfávamos e o suor escorria por nossas faces.

Quando eu finalmente me recuperei e me preparava para dizer algo, Mu praticamente pulou em meu pescoço, abraçando-me. Ele me envolvia com carinho, parecendo temer que aquele encontro não passasse de um sonho. Eu sentia o mesmo e por isso o abracei de volta, com a toda a minha força. "Então é mesmo verdade! Você veio", disse-me com uma voz embargada pelo choro, erguendo o rosto para olhar em meus olhos. Não conseguindo segurar as lágrimas, eu apenas sorri e apertei ainda mais o abraço. Naquele exato momento, pude confirmar aquilo que meu coração já sabia: aquele homem não era um traidor.

Tomei-lhe gentilmente as mãos e as beijei numa impulsiva demonstração de carinho. "Não se preocupe. Eu estou aqui". Mu pareceu confuso com aquele gesto, mas não me reprimiu. Na verdade, olhou-me com ainda mais ternura. "Eu senti saudades de você. É assim que se fala, não é? Na sua língua…" E eu balancei a cabeça afirmativamente, puxando-o para mim.

Mu não havia mudado em nada. Talvez estivesse um pouco carente devido ao isolamento, mas continuava agindo como o meu querido amigo. Me recebeu em sua Torre e tratou-me com a mesma amabilidade com que me recebia na Casa Zodiacal de Áries. Estava realmente feliz, embora isso não o fizesse cego diante de meu nervosismo. "Alde, o que está te incomodando?", perguntou-me, enquanto me servia uma xícara de chá.

Eu não podia mentir para ele. Mesmo que tentasse, ele descobriria. Então, pedi que me ouvisse atentamente, pois iria lhe dizer toda a verdade, ainda que nos colocasse em risco. E como bom ouvinte, ele agiu dessa forma. Quando terminei de lhe contar tudo, Mu se levantou e foi até a parede mais próxima, desferindo alguns socos contra a mesma, bufando de raiva. "Cretinos! Quem eles pensam que são? Querem fazer conosco o mesmo que fizeram a Shura e Aiolos?" Eu nunca havia visto Mu tão irritado, de modo que me levantei e fui até ele, virando-o de frente para mim, segurando-o pelos ombros. "Eu não vou permitir que te façam mal".

Embora ele não duvidasse da minha coragem, vi em seus olhos que também temia por minha segurança. "Não posso permitir que você me proteja. Vai se colocar em risco por minha causa e eu não aceitarei isso! Também sou um Cavaleiro de Ouro!" Ele estava tão furioso quanto eu, todavia, romper relações com o Santuário seria ainda pior para Mu. "Nós já estamos em risco", eu comecei a lhe explicar, pausadamente, "O que eles querem é apenas que eu te monitore e atue mantendo a ligação entre o Santuário e o ferreiro que está aprimorando suas técnicas em um lugar distante. Enquanto eu disser que você não apresenta riscos e você continuar consertando as Armaduras que eu trouxer, tudo ficará bem".

"O que está dizendo? Está planejando em escrever mentiras nos seus relatórios, Aldebaran de Touro?" Fazia um bom tempo que Mu não me chamava pelo nome oficial completo e, desde que nos tornamos amigos, só costuma fazer isso quando está irritado comigo. Tentando contornar a situação, ri confiante e então me afastei, cruzando os braços. "Bom, você está planejando explodir o Santuário à distância? Está tramando uma conspiração contra o Grande Mestre?" "Ora, mas é claro que não!" "Então não escreverei nenhuma mentira!"

Ele me olhou perplexo. Por um momento, achei que fosse me mandar para longe com algum de seus ataques. No entanto, ele sorriu e balançou a cabeça negativamente. "A sua sorte é que estou muito feliz em te ver ou estaria te dando uns bons socos agora. Como é que você pode encarar tudo isso com tamanha facilidade?" "Você sabe que sou assim. Já deveria ter se acostumado", respondi, enquanto tomava-lhe novamente as mãos, tentando conduzi-lo de volta à mesa, "venha, nosso chá está esfriando".

Porém, ele desvencilhou-se de meus toques de modo abrupto, lançando-me um olhar carregado de preocupação. "Pelos deuses, Alde! Você pode parar de agir como se isso fosse algum tipo de brincadeira?! Acha que vou me perdoar se algo acontecer a você?!" "E quem disse que eu estou levando isso na brincadeira?! Acha que eu conseguiria viver em paz se eles te fizessem algo?!", eu bradei furiosamente. Mas o pior de tudo foi que dei um tremendo soco na parede da cozinha que fez toda a Torre tremer. Mu se afastou assustado, já que nunca havia me visto agir daquela forma.

Aquela cena me cortou o coração e eu compreendi que havia passado dos limites. O encarava totalmente perdido, apenas querendo consertar o estrago. Suspirei arrependido e encostei minha testa à parede, fechando os olhos. Mu continuava imóvel e calado. "Me desculpe. Não era o tipo de reencontro que eu planejava", disse, sentindo as lágrimas rolarem pelo meu rosto. Naquele momento, temi que a única pessoa que eu realmente me importava, a pessoa que eu amava, fosse me expulsar de sua vida. Não consegui encará-lo e apenas esperei pelo pior.

E então, eu senti seu corpo junto ao meu novamente, a mão levemente áspera pelo trabalho na forja tocando o meu rosto, limpando as lágrimas. "Não há motivos para você me pedir desculpas. Meus inimigos é que deveriam pensar duas vezes antes de agir sendo que eu tenho um defensor tão determinado", disse, segurando a minha mão, a mesma mão que havia socado furiosamente a parede da Torre, e a beijou carinhosamente, retribuindo o meu gesto de pouco tempo antes. "E os seus que também se cuidem! Pois eu não vou deixar que te façam mal, Alde", ele completou, com um olhar determinado no rosto.

Eu abracei-o com toda a força, acolhendo-o junto ao seu peito. Pensei que ele fosse protestar, porém, correspondeu-me. Ficamos ali juntos, abraçados um ao outro, nos olhando em silêncio. Nossos rostos estavam bastante próximos – mais próximos do que nunca – e eu não conseguia deixar de encará-lo, de analisar cada centímetro daquela face tão bela. Nossas respirações se misturavam… nem mesmo percebi quando fechei os olhos e levei meus lábios em encontro aos dele.

E o beijei lentamente.

Provei sua boca num misto de ansiedade e receio de que ele fosse me repelir. Era um beijo desajeitado, mas carinhoso. Não ousei me aprofundar muito nessa primeira incursão, embora a maciez e a doçura de seus lábios fossem convidativas. Agia por impulso, já não podendo segurar mais aquilo que estava há tanto tempo guardado dentro de mim. Quando a consciência falou mais alto, eu me afastei de modo um tanto abrupto que surpreendeu meu companheiro.

Mu me encarava com aqueles olhos brilhantes, como se não acreditasse no que estava acontecendo. Antes mesmo que eu pudesse me desculpar, ele esticou-se na ponta dos pés e também me beijou. Foi o suficiente para que eu deixasse o Santuário, minha missão e tudo o mais de lado. Tomei-o no colo e fomos para a sala onde poderíamos ficar mais à vontade. Enquanto o carregava, ele disse baixinho ao meu ouvido "Eu sei que deveríamos conversar de coisas mais sérias agora mas… mas eu te amo tanto… esperei tanto por isso…". Selei seus lábios com os meus e então disse, talvez com o mais belo sorriso que eu já tenha dado um dia. "A única coisa que importa agora é que eu te amo, Mu. Teremos muito tempo para conversar sobre os outros depois".

Passamos o resto daquele dia nos beijando, trocando carícias e promessas, relembrando histórias, fazendo perguntas e toda a sorte de coisas que há muito tempo esperávamos poder fazer um com o outro. Mal nos contentávamos de tanta alegria. Para mim, nada mais importava: tendo Mu em meus braços, sentia que poderia sobreviver até mesmo à mais terrível das catástrofes.

E claro, fizemos amor. Se alguém pudesse ver as minhas lembranças, talvez julgasse que foi uma primeira vez monótona e atrapalhada de adolescentes, mas para nós, foi especial. Apesar do nervosismo, há muito aguardávamos por aquele momento. Exploramos os corpos um do outro, ávidos em conhecer cada detalhe. Não cessamos de trocar juras de amor enquanto nossas bocas se encontravam ou passeavam sobre nossas peles suadas. Os gemidos se assemelhavam a canções de prazer que tomavam a sala.

Nos tornamos um só pela primeira de muitas vezes. Eu temia que acabasse por machucá-lo, mas Mu entregou-se a mim sem medo. Eu correspondi a esse sentimento com todo o meu ser: amei-o intensamente. E de novo, e de novo, e de novo… Perdemos a noção do tempo. Também me entreguei a ele. Trocamos de papel, sem qualquer tipo de preconceito. Tudo aquilo era novo para nós. O sexo não passava de um conjunto de imprudências que nos faziam rir envergonhados, mas que também nos arrebatava como a corrente de um rio. Não tínhamos pressa, seguíamos respeitando nossos tempos, fazendo pausas quando necessário. Quando a lua ia alta no céu, adormecemos nos braços um do outro, exaustos e felizes.

Só conseguimos conversar sobre os assuntos "realmente sérios" no dia seguinte, embora continuássemos na cama, abraçados. Ambos concordávamos que havia algo errado em Atenas, embora nossas suspeitas não passassem do nível da especulação. Levei quase o dia inteiro para convencê-lo a entrar no jogo de aparências que nos mantem unidos até hoje: continuaria a visitá-lo como se estivesse cumprindo minha missão junto ao Santuário e ele continuaria a consertar as armaduras que eu trouxesse como se não soubesse de nada. No mais, aproveitaríamos o tempo livre juntos, como um casal de namorados realmente merece.

Tínhamos plena consciência de que não seria a situação mais confortável do mundo, contudo, era a única forma de amenizar o nosso descontentamento com a realidade, bem como, nossa solidão. "Há uma música brasileira que eu gosto muito cujos versos dizem algo mais ou menos assim 'é melhor se sofrer junto que ser feliz sozinho'. Nossas mãos estão atadas Mu. Estando eu longe ou perto, a situação não vai mudar, então, porque não aproveitamos um pouco as brechas do sistema a nosso favor?" Ele suspirou, finalmente reconhecendo que não ia fazer com que esse Touro teimoso mudasse de ideia. "Você é mesmo impossível, não é? Mas eu adoro isso em você".

Jamiel se tornou o nosso refúgio, um local acima de toda a confusão instaurada no mundo lá de baixo. Desde então, minha vida tem se constituído de duas coisas. A primeira são as esperas: a espera pelas dispensas mensais; a espera no avião, no longo caminho até Katmandu; a espera no veículo oficial que me traz até a aldeia aos pés da montanha; a espera para cumprir logo minha travessia chegar até onde ele está. A outra coisa são os nossos dias juntos, quando posso despir-me de minha autoridade e ser simplesmente o namorado de Mu. Creio que é apenas durante a minha "missão" que eu realmente vivo. O restante, é apenas a expectativa de poder viver.

Ao mesmo tempo que minha peregrinação até Jamiel é marcada pela alegria, a tristeza também se faz presente: o tempo é curto e precisamos aproveitá-lo da melhor maneira possível, pois logo sei que teremos de nos despedir novamente. Por mais que estejamos habituados a isso, o processo nunca se tornou menos doloroso. Na verdade, parece que é cada vez pior. A minha vontade era de resolver tudo para ter Mu novamente ao meu lado. Entretanto, Atenas está envolta em trevas e parece não haver luz no fim do túnel.

Então, nada mais adequado que eu escale o pico mais alto do mundo em busca do sol. Não é uma tarefa fácil, mas sou um taurino nato: teimoso, cabeça dura e não desisto até conseguir o que quero. Já estou próximo do pátio da Torre. Nesse momento, deixo o mundo terreno para trás. Já me sinto perto do céu e meu belo anjo lemuriano logo virá me receber.

*oOo*

Holden Caulfield- Protagonista do livro "O Apanhador no Campo de Centeio" (The Catcher in the Rye) de J. D. Salinger. Jovem descontente com a realidade, incapaz de confiar nas pessoas, cansado da hipocrisia do mundo, mas também altamente indeciso. Sua única amiga é a irmã mais nova. Por isso mesmo, a associação com Aioria.

Heathcliff- Protagonista de "O Morro dos Ventos Uivantes" (Wuthering Heights) de Emily Brontë. Jovem ambicioso que enlouquece após a morte da amada Cathy, acreditando ter culpa no acontecimentos. Associado a Shura.

Atticus Finch- Protagonista de "O Sol é para Todos" (To Kill a Mockingbird) de Harper Lee. Viúvo, pai de família e advogado idealista, esforça-se para se manter ético e correto num mundo movido por preconceitos, incertezas e jogos de interesse. Associado a Aldebaran.