A música-tema deste capítulo é "Somewhere only we know", de Keane

Ato II – Um lugar só nosso

Assistir o pôr-do-sol deitado no colo de Mu é uma bela maneira de terminar esse segundo dia de visita. A primavera é a melhor época do ano para se aproveitar Jamiel. Há porções de vegetação em meio à paisagem árida onde as flores nascem e as árvores dão frutos. Chamamos essas pequenas faixas verdes de "oásis" e passeamos por elas sempre que venho aqui. Esta é nossa favorita: estamos em frente a um lago onde tomamos banho nos dias de calor e podemos descansar protegidos do sol pela sombra das cerejeiras em flor.

Um aroma delicioso invade-me as narinas e o frescor do local é bastante agradável. Porém, o melhor de tudo, é que Mu me acaricia os meus cabelos calmamente, brincando com os fios dourados. Disse que está se acostumando com a nova cor, mas que preferia a original por combinar melhor comigo. Ainda assim, disse que fico bonito de ambos os jeitos. Esse bom humor é um ótimo sinal – vejo que ele já está totalmente recuperado do ataque que quase lhe custou a vida.

Jamiel é um lugar sagrado para os lemurianos. Mu disse-me certa vez que, durante seu treinamento, não recebia qualquer visita e vivia em isolamento quase que absoluto junto de seu Mestre na mesma Torre que habita hoje. Desse modo, desenvolveu uma personalidade bastante reservada e até mesmo retraída, sendo que até hoje não gosta de receber visitas, com exceção de mim, é claro. Foi um tremendo choque para ele quando cheguei acompanhado de Aiolia e Lithos em minha viagem anterior. Pior ainda foi vê-lo lutar contra Iapetus, o invasor traiçoeiro, sem poder fazer nada para ajudá-lo.

Foi o próprio Mu quem ordenou que nenhum de nós intervisse no combate. Disse que Jamiel era sua casa e que era sua obrigação defendê-la. Acho que nunca passei por uma angústia tão grande em minha vida quanto a de vê-lo lutar sem poder intervir. Contudo, se eu o fizesse, ele não me perdoaria. É um Cavaleiro de Ouro como eu e, embora não admita, também tem seu orgulho de soldado. Mesmo com o combate interrompido, os resultados foram catástroficos. Para me deixar ainda mais preocupado, Mu se negou a descansar antes de reparar a Armadura de Leão, utilizando-se do sangue que escorria de seus próprios ferimentos nesse ritual. O resultado não poderia ser outro: depois de todo o trabalho, desmaiou em meus braços.

Eu tinha ordens para partir junto com Aiolia e Lithos, mas não podia abandonar Mu em péssimo estado. Transportá-lo por uma distância tão longa até um hospital era muito arriscado e podia apenas piorar a situação. Pedi que eles voltassem à vila para buscar remédios, ataduras, gaze, linha de sutura, soro e tudo o mais que fosse necessário para o tratamento. Enquanto isso, procurei ajeitar o local para acomodar meu amado.

Até hoje me pergunto se Aiolia agiu por gratidão pelo fato de Mu ter-lhe consertado a Armadura de Leão ou porque eu estava visivelmente abalado. Não descarto que ele estivesse preocupado com o estado de saúde de meu companheiro, pois há há um coração bondoso escondido sob aquela crosta de instatisfação e orgulho. Deve ser por isso que ele fez a promessa a Mu sem muita relutância – afinal, já estava muito envolvido em assuntos que não lhe diziam respeito.

Seguiram-se dias de interminável agonia. Eu me revezava entre os papéis de enfermeiro, cozinheiro, pedreiro e tudo mais o que fosse necessário, mantendo uma rotina rígida para atendê-lo. Acordava cedo para reconstruir as partes danificadas da Torre, voltando apenas quando Mu estava acordando para lhe dar o café da manhã e os remédios matinais. Deixava-o repousando e voltava ao meu trabalho. Fazia uma breve pausa para preparar-lhe o almoço e retomava os serviços braçais até o cair da noite, quando eu fazia a janta, banhava meu companheiro, dava-lhe as últimas doses diárias de medicamentos e dormia abraçado a ele para protegê-lo do frio.

O medo que tive de perdê-lo é uma sensação indescritível que não desejo nem mesmo ao meu pior inimigo. Por ser um Cavaleiro de Ouro, a recuperação de Mu pode até mesmo ser considerada rápida, mas isso não me deixava mais calmo. Tive de ajudá-lo a voltar a andar quando finalmente pôde ficar em pé e ele frequentemente desmaiava quando teimava em usar seus poderes psíquicos para me ajudar em algumas tarefas. Prolonguei minha estadia ao máximo, tempo suficiente para reconstruir a Torre e ter certeza de que ele estava totalmente recuperado.

Minha vinda aqui essa semana finalmente me tranquilizou. Agora tenho a certeza de que Mu está bem e posso dizer isso não somente por seu bom humor, mas também por seu apetite sexual. Durante a sua recuperação, não pudemos dar qualquer tipo de prazer um ao outro por mais que nossos corpos pedissem – afinal, somos homens jovens e nosso desejo aflora mesmo nas situações mais adversas. Devido à situação caótica no Santuário, tive de partir às pressas.

Ele me cobrou dessa necessidade assim que cheguei a Jamiel ontem. Me surpreendi ao vê-lo me aguardando no pátio, e me surpreendi ainda mais quando correu em minha direção e tomou-me a boca antes mesmo que eu pudesse cumprimentá-lo. Suas mãos ávidas procuravam soltar minha mochila e se livrar de minhas roupas com rapidez, enquanto a boca faminta já deslisava pelo meu pescoço. "Alde, eu preciso de você…" Desisti de tentar compreender o que estava acontecendo e me deixei levar, pois eu também precisava dele. Ah, e como precisava!

Fizemos amor ali mesmo, ao ar livre, matando a saudade que sentíamos um do outro. O desejo nos incendiava – também pudera!, estávamos há quase dois meses sem sexo e nenhuma masturbação solitária se compara ao que fazemos juntos – e não nos importávamos com mais nada. Quando finalmente nos saciamos as primeiras estrelas já despontavam no céu. "Então… como você está?", Mu perguntou-me com uma expressão adorável no rosto, como uma criança que se deu conta que fez uma travessura e tenta consertá-la com um gesto de carinho. Eu gargalhei de alegria e o puxei para mais perto de mim.

"Não poderia estar melhor! E você?" Ele me abraçou pelo pescoço e acomodou-se em meu colo, enquanto olhava-me fixamente. "Maravilhosamente bem! Quantos dias você vai poder ficar?" "Tirou a sorte grande. Consegui cinco dias dessa vez". Um belo sorriso brotou em sua boca e ele me beijou novamente. Ficamos ali até a noite tomar conta do céu, conversando, contando as novidades e namorando. Finalmente, nos levantamos e caminhamos em direção à Torre, lado a lado, com meu braço em torno de seus ombros.

"Você já imaginou se essas rochas pudessem falar? Com certeza estariam abismadas, comentando o que fizemos hoje". Não pude deixar de rir daquele comentário divertido. Mu estava realmente feliz e com um senso de humor delicioso. "Elas provavelmente ficariam com inveja", emendei, arrancando-lhe uma gargalhada. "Pode ser. Afinal, nenhuma delas tem um namorado tão bonito quando o meu", disse o meu querido lemuriano, aconchegando-se mais junto ao meu corpo.

"Ah, espere! Por que estamos andando? Digo, você se importaria se eu nos teleportásse para dentro da Torre?", ele me perguntou com a ansiedade do amante que não quer perder tempo – e eu concordei que já havíamos perdido tempo demais. Num piscar de olhos, estávamos dentro da sala onde fica o pequeno ofurô, no subterrâneo da Torrel. Mu já havia deixado tudo preparado e apenas precisou usar seus poderes para acender as velas aromáticas rapidamente. "Você está ficando exibido. O que aconteceu com aquele cara que me dizia que os dons lemurianos só deveriam ser usados na frente de batalha?", o provoquei, rindo.

"Devo ter pego gosto pela coisa. Afinal, sempre havia um taurino teimoso dizendo que eu deveria treinar mais e, bom… se eu precisar te teleportar novamente até Athenas, preciso estar preparado", a última parte da frase saiu permeada por uma boa dose de preocupação, afinal, Mu havia utilizado seus poderes para me levar a Grécia enquanto um cosmo hostil encobria o Santuário. Temia não conseguir levar-me com segurança até lá, embora eu sempre tenha confiado em seu poder. Ao final, ele me correspondeu à altura e tudo ocorreu bem. "Mas não se preocupe com isso agora, vamos aproveitar!", ele disse um tanto malicioso e empurrou-me gentilmente para a água, que se espalhou por todo o local com a minha queda.

"Ora, empurrando um gigante como eu desse modo vai acabar com a água!", eu disse rindo. Mu não se fez de rogado: acomodou-se por cima de mim e me beijou novamente… uma, duas, várias vezes. "A água é o de menos. Desde que você não acabe, estarei feliz!". Sim senhor, ele está com um senso de humor maravilhoso e eu adoro isso!

- No que você está pensando?

A doce voz de Mu desperta-me de minhas lembranças. Volto os olhos em direção ao seu rosto, admirando sua expressão de curiosidade.

- Você vai achar que estou dizendo isso só para te agradar, mas estava pensando em nós dois.

Ele riu, tomando minha mão direita e depositando um beijo nas costas da mesma.

- Tudo o que você diz me agrada, Alde. Mesmo quando não diz respeito a nós dois.

- E você? No que está pensando? – pergunto, apoiando-me nos cotovelos para poder me sentar ao seu lado.

Ele solta um "hum", aquele mesmo "hum" que solta quando está pensativo pois algo lhe incomoda. Seus olhos passeiam pelo local, analisando-o pacientemente, contemplando todos os detalhes. Finalmente, algo parece deter sua atenção.

- Você se lembra daquela rocha?

- Claro – respondi sorrindo e logo direcionei meu olhar em direção ao objeto em questão.

Mu e eu fomos criados desde jovens para uma missão dura que sempre exigiu sacrifícios e já enfrentamos coisas que deixariam os exércitos mais preparados do mundo petrificados de medo. No entanto, se nos despojassem de nossas autoridades, veriam que não passamos de adolescentes comuns que sabem muito pouco da vida. Somos como qualquer casal de namorados: gostamos de conversar, passar o dia juntos, fazer juras, trocar carícias, fazer amor até cansar… a diferença é que tudo isso vem acompanhando de poderes psíquicos e demonstrações de sobrehumanas de força.

Certa vez, em um de nossos primeiros passeios por esse mesmo oásis, eu contei a Mu que os casais de namorados em meu país têm a tradição de marcar as iniciais de seus nomes em troncos de árvores na intenção de eternizar o romance. "Ora, mas que coisa cruel! As árvores também são seres vivos e merecem respeito!", exclamou indignado o meu companheiro. "Tem razão. Eu também não concordo com essa prática, por mais romântica que pareça. Não leve a mal, disse apenas por causa do momento". Ao final, acrescentou "se a intenção do casal é fazer com que o relacionamento entre para a história, marcar as iniciais em pedra seria muito mais adequado".

Embora Mu relute em admitir, é um romântico incorrigível assim como eu. Por isso mesmo, ao fim daquela frase, eu o tomei pela mão e o levei até diante daquela mesma rocha que encaramos agora. Ele me olhava, curioso enquanto eu ajoelhava diante do corpo negro, levemente coberto de musgo. Tateei o chão procurando por uma pedrinha em forma de cunha. Quando a encontrei, voltei a encarar meu parceiro, sorrindo. "Se era por falta de pedra, problema resolvido", eu anunciei, antes de talhar um A naquele elemento da natureza convertido em documento histórico.

O rosto de Mu se iluminou quando eu lhe entreguei aquela talha improvisada e ele rapidamente esculpiu um M ao lado de minha inicial. Em seguida, antes que ele soltasse a cunha, eu segurei sua mão e a guiei enquanto desenhávamos um coração em torno das letras. Não me importo se foi algo piegas: a felicidade estampada no rosto de meu parceiro enquanto fazíamos essa declaração era algo que não tinha preço.

- Eu quero te pedir perdão – ele disse com a voz resignada, pegando-me de surpresa.

- Há algo errado, Mu?

- Você sempre fez muito por mim, Alde e eu nunca consegui corresponder a altura. Em nossa última visita, você cuidou de mim com todo o carinho mesmo depois de eu ter sido insensível contigo.

- Insensível? Você se refere a quando me teleportou para longe da batalha com Iapetos junto de Aiolia e Lithos?

- Isso também. Mas antes, eu fiz algo bem pior, Alde. Fui grosseiro com você.

- Desculpe, Mu, mas eu não estou entendendo. Se você está se referindo à frieza com que me recebeu quando eu apareci acompanhado, eu entendo. Isso não estava no roteiro e não houve tempo de eu te avisar a respeito.

- Alde, você se lembra do que eu disse a Iapetos quando ele nos atacou?

- Bom, você disse que ia lutar porque Jamiel era a sua casa e ele a estava invadindo.

- Exatamente. Pode me perdoar por isso?

Calo-me. Não entendo onde ele quer chegar com essa conversa. Mu está ansioso pela minha resposta e parece ter algo terrível entalado no coração.

- Ora Mu! O que há de errado nisso? Jamiel não é a sua casa? Você vive aqui desde que se entende por gente, foi treinado nesse local que tem uma conexão profunda com o seu povo. É um lugar que faz parte da sua história e é natural que você queira defendê-lo.

Embora tenha tentado acalmá-lo, minha frase parece que teve o efeito contrário. Seus olhos perdem o brilho e ele abaixa a cabeça, entristecido.

- Mu, me perdoe, mas o que está acontecendo? – digo num tom desesperado, enquanto acaricio seu rosto. Aos poucos, ele retoma a compostura e então, fala comigo calmamente.

- Tudo o que você disse é verdade. Passei parte significativa da minha vida aqui. Fiz meu treinamento, aprendi sobre a história e as tradições do continente perdido, recebi minha Armadura nesse mesmo local que voltou a me acolher quando praticamente fugi o Santuário. Eu teria todos os motivos do mundo para chamá-lo de "minha casa".

Os olhos verdes me imploram perdão. Afago-lhe os cabelos, ouvindo atentamente o que ele tem a me dizer.

- Contudo, por mais que Jamiel esteja presente em momentos importantes da minha vida, eu não me sinto em casa. Antes de ir para Atenas era mais fácil, eu acho, pois apesar de viver aqui com meu Mestre, éramos dois solitários. Logo, eu pensava que era natural usar de minha solidão para criar uma conexão mais forte com esse lugar. Desde que conheci você, tudo é diferente.

- Diferente?

- Sim. No Santuário, você se tornou a pessoa mais importante para mim, alguém que eu aprendi a confiar, a querer bem e, eventualmente, a amar. Quando eu parti, a única coisa que conseguia pensar era se o veria novamente.

Ele sorri com leveza enquanto conclui a frase. O meu coração bate acelerado ao ver Mu abandonar suas reservas para se abrir comigo mais uma vez.

- Eu nunca mais me senti em casa aqui. Nada mudou em Jamiel, mas eu mudei. A solidão começou a me afetar de tal maneira que não conseguia ver alegria em nada. Pensei até mesmo que fosse enlouquecer… E então, você veio e preencheu novamente o vazio do meu mundo. Na verdade, fez mais do que isso. Você aceitou o meu amor e o correspondeu com toda a intensidade. Posso dizer que, desde então, eu me sinto verdadeiramente vivo e feliz.

- Oh, Mu…

- Por favor, deixe-me concluir – ele pede educadamente com certa seriedade na voz, pousando o indicador direito sobre os meus lábios – Quando você chega, Jamiel se torna o lugar mais belo do mundo. Eu esqueço tudo aquilo que me aflige e me faz mal. Sinto-me extremamente bem. Entretanto, quando você vai embora, tudo aqui perde a graça. Não me reconheço em lugar nenhum.

Ele desvia os olhos dos meus, voltando a observar o cenário a nossa volta.

- Perdi as contas de quantas vezes visitei esse oásis na sua ausência e nunca consegui achá-lo bonito. Por mais que as cerejeiras estivessem em flor e o lago com a mesma água transparente, eu só consigo admirá-lo ao seu lado, Aldebaran. E é assim com todo o resto. Passo o mês inteiro esperando por você, vagando sem rumo, da Torre aos arredores, dos arredores à vila, da vila de volta á Torre. Da mesma forma que você marcou sua inicial naquela rocha, você marcou tudo em Jamiel. Esse lugar não faz sentido sem você. E claro, me marcou também…

Olhamos ambos para a pedra onde gravamos nosso amor para a história. Ele aperta gentilmente a minha mão antes de prosseguir.

- Em todos os lugares eu vejo você, penso no que você faria ou diria se estivesse aqui. Temos uma árvore favorita onde descansamos à sombra, temos um local especial para admirar o pôr-do-sol juntos, as trilhas que percorremos, nosso amor cravado na pedra… e após a luta contra Iapeto, deu-me mais uma declaração de amor reconstruindo a Torre que agora, mais do que nunca, traz parte do seu coração nas estruturas. Foi um egoísmo mesquinho dizer "minha casa". Pior! Foi uma mentira! Enquanto você está fora, aqui é apenas o meu esconderijo. Quando você chega é que eu realmente me sinto em casa. Desde que você começou a me visitar, reconstruímos todo esse local juntos. A Torre se tornou nosso lar; os oásis, nossos espaços de lazer. Se hoje posso chamar Jamiel de "casa", é graças a você.

Essas palavras tão diretas, carregadas de carinho, me emocionam. Começo a chorar junto com ele. Ele conduz minha mão direita e a conduz até seu peito. O coração dele bate com força, apressado…

- Quando Iapetos nos atacou, logicamente que eu pensei nas tradições, na história, enfim, na conexão que meu povo tinha com esse local. Contudo, o que me deu forças para lutar era o desejo de que ele não destruísse o nosso lar, o nosso refúgio. Se algo ainda mais grave tivesse acontecido aqui, o Santuário teria todos os motivos do mundo para intervir em Jamiel e perderíamos tudo aquilo que construímos juntos.

Ele faz uma breve pausa e então me olha nos olhos, com o rosto quase colado ao meu.

- Mu de Áries nunca terá uma casa longe de Aldebaran de Touro. Por isso, eu quero te pedir perdão… por ter chamado de "meu" algo que sempre foi "nosso".

Não consigo dizer nada. Apenas balanço a cabeça afirmativamente enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Puxo Mu para mim e o beijo sofregamente, ansioso por sentir seus lábios nos meus, seu corpo colado em meu corpo. Eu o beijo intensamente e ele me corresponde com todo o ardor. Às vezes acho que Mu exagera na dose de autodepreciação, pois está sempre dizendo que nunca faz o suficiente por nós. Eu discordo disso. Ele age na medida certa. E isso inclui chamar a atenção do Touro cabeça dura quando necessário.

- Por favor, Mu, me perdoe por não ter prestado atenção aos seus sentimentos – murmuro em meio aos beijos, arrependido por acreditar que se tratava apenas de mais um exagero do meu amado. Esse é o tipo de coisa que ele costuma guardar para si, que o corrói por dentro e o deixa nervoso. Assim, sei exatamente a importância do desabafo para ele em um momento como esses.

Mu é uma pessoa maravilhosa. Não aceita ouvir que estou errado e tenta tomar para si um erro que é meu. Porém, não tardamos a nos entender em meio a beijos, lágrimas e palavras abafadas. É o tipo de situação que, apesar de se repetir com certa constância, parece sempre nos pegar de surpresa. A parte boa? Ele sempre acaba por fortalecer o nosso relacionamento. Quando nos damos conta, o sol já se pôs e a noite reina no céu.

- Acho bom irmos – comento, beijando-o na testa – Prometi que ia fazer o jantar hoje, lembra?

- Ora, não precisa se incomodar com isso, eu…

- Não é incômodo algum. Apenas quero usar a cozinha da nossa casa para fazer um jantar delicioso para o meu namorado, que apesar de estar fazendo pose, adora a minha comida.

Ele sorri ao ouvir-me frisar as palavras "nossa casa". Abraça-me com firmeza e, num piscar de olhos, estamos de volta à Torre.