O aeroporto de Nova Jersey é mais cheio do que esperei. Claro que em minha pequena cidade do Texas as coisas são mais atrasadas, porém não cogitei que a distância causada pela tecnologia fosse tanta! É estranho ficar imersa em meio a uma multidão e ser somente mais uma. Isso não faz parte de meu antigo cotidiano e temo pelo que vem a seguir. Céus. Pego as malas em uma esteira estranha... Isso talvez se deva ao fato de que nunca andei de avião e é tudo muito novo. Que seja. Caminho quase tropeçando nas pessoas a minha frente e sou jogada para fora com os demais, me dando de cara com um mundo diferente. Cidade grande. Lugar distinto. Táxi. Pois é, é exatamente isso que vi nos filmes... Sair do aeroporto como uma Deusa e pegar um táxi. Um segurança está postado estrategicamente ao lado da entrada e, puxando minha mala preta de rodinhas, aproximo–me com dificuldade.

– Por favor, senhor, onde posso pegar um táxi por aqui? – questiono na maior humildade, porém em cinco segundos minha resposta é atendida.

Uma grande quantidade de pessoas está aglomerada em volta de um ponto repleto de carros amarelos. Sorrio desconsertadamente para o homem de preto que me olha por trás de seus óculos escuros. Assustador! Volta e meia, dirijo-me novamente para o posto e paro ali com dificuldade. Meu casaco pesa, sinto muito calor; minha cabeça dói pelo barulho demasiado e a mala está pesada. Caramba... É realmente cansativo viajar! Vejo que minha primeira impressão fora errônea. Existem mais táxis livres do que pessoas interessadas. Um velhinho simpático se aproxima sorrindo com seus óculos de grau pendurados na blusa azul de gola grande.

– Boa tarde senhorita. Bem-vinda a cidade. Para onde devo levá-la? – oh! Finalmente alguém que não me acha um ET de casaco e botas.

– Av. Opposite Sides, 34, por favor – não preciso explicar mais nada. O senhor parece compreender perfeitamente o endereço na primeira e isso me faz pensar que o bairro talvez seja bom. Realmente não me importa; amigavelmente me pede para esperar ajeitar as malas no carro e espero na calçada com os braços cruzados. Sinto-me uma alienada, uma estranha nesse mundo novo... É tão diferente.

– Ah não... – ouço uma voz conhecida soando do meu lado direito e paraliso uns segundos antes de dirigir o olhar para a pessoa que falou, carregando também suas malas – você.

É ele. O babaca de casaco caramelo. O idiota do café. O gostoso de braços forte. Suspiro pesadamente ao me lembrar do dedo do meio e da célebre irritação que me causara. Viro-me para ele com o pouco de educação que me resta e encaro seu rosto totalmente bem-humorado. Agora está usando óculos e, se possível, mais bonito.

– Prazer em te reencontrar também – sorrio totalmente irônica; os braços cruzados ao redor de mim mesma pela vergonha que sinto das pessoas olhando para meu casaco e botas do interior – agora será que pode parar de me gratificar com sua maravilhosa presença?

– Eu poderia dizer que foi o acaso, porém seria uma mentira – voltei–me para o táxi novamente, ignorando–o. O homem ainda tenta arrumar um jeito de guardar minha grande mala e parece estar tendo sérios problemas. A ineficácia dele me resulta em um momento perturbador – te vi parada aqui e pensei que poderíamos dividir o táxi...

O que?

Somente sorri ironicamente e suspirei alto. Vi o rosto dele com a visão periférica e um sorriso presunçoso desenhava sua bela face; ah meu Deus. Era o que me faltava! Ele está me tirando ou o que? Mordo os lábios antes de olhá-lo novamente.

– Já não bastou meu café, agora quer também meu táxi? Sinto muito cara... Mas esse ai é meu!

– Não, você entendeu errado... Só quero dividir, não roubá–lo – aproximou–se mais. Recuei dois passos e fiquei um tanto surpresa. Realmente ele está me tirando! Nos olhamos um tempo e isso foi estranho. Quando em Roma eu o conheço? Talvez não seja somente pela minha cabeça que se passa esse pensamento. Os olhos estreitos dele também me revelam que existe algo aqui, como se averiguasse de onde me conhece – eu te conheço de algum lugar?

Sussurra. Sua voz é enigmática, seu olhar é curioso. Nego com um aceno curto e desvio o olhar... Isso está mesmo acontecendo? O homem, após colocar a mala no local apropriado, acena para mim com entusiasmo ao lado do táxi. Correspondo com um aceno.

– Bom, tenho que ir. Boa sorte com seu táxi – de inicio não olho para ele, apenas sigo em linha reta objetivando chegar ao táxi, porém antes de adentrar a porta que o simpático senhor me abre lanço um furtivo olhar para trás. Ele ainda me olha quando um homem se aproxima e oferece um táxi. Isso é tão estranho, é como se uma sensação triste de que nunca mais irei vê-lo preenchesse todo meu peito. Que droga!

Desvio o olhar. Ignoro-o. Adentro ao táxi e sento no estofado de couro duro. Está frio ali, diferente da temperatura ambiente. Cruzo os braços ao redor do peito e tento não olhar para a janela. Tento. Curiosamente o táxi dele sai ao mesmo tempo em que o meu, sem muita delonga. Nitidamente tinha menos bagagem que eu. Não posso vê-lo, uma vez que o vidro é escuro, e mesmo assim tento ficar focada em conhecer meu novo endereço. Em viver a nova vida. Coloco o fone de ouvido enquanto o moço dirige, mas o cara parece mesmo empolgado em me fazer perguntas.

– A senhorita está na cidade a passeio ou para adquirir residência? – é obvio que sou de fora, por isso a questão. Removo um dos fones para responde-lo.

– Recebi um apartamento como herança de minha madrinha e ele fica aqui na cidade. Resolvi aproveitar e vir estudar aqui, na faculdade de Engenharia próxima a Av. Opposite Sides – esclareço sem enrolar também. Faz tempo que não falo com ninguém... Meus pais me viraram as costas assim que sai de casa com as coisas e tenho certeza que para ambos agora estou morta. Agora não passo de uma lembrança... Uma perdida que foi se aventurar na cidade dos homens.

– Av. Opposite Sides... – suspira enquanto ultrapassa uma ponte gigantesca. Olho pela janela maravilhada com a vista espetacular e mordo os lábios novamente. É disso que preciso! De gente, de oportunidade... Isso parece não parar nunca, sempre estar crescendo e em movimento. De repente me sinto otimista. Tudo parece reluzir – é um ótimo bairro.

– O senhor conhece? – pergunta meio idiota para se fazer a um taxista não é? Reformulo – quero dizer... O que pode dizer sobre o lugar?

– Posso dizer que tem uma ótima vista para o parque e que muitos dariam a avó para morar em um daqueles apartamentos – seu tom de voz é audacioso e cômico – quero dizer... É realmente bonito. Realmente vangloriado. Se um dia você resolver vender estará feita. Pegará uma grande quantia pela venda. O comércio ao redor é grande, contando com padarias e floriculturas... Tem até um hospital na esquina e claro, a faculdade de Engenharia bem próxima. A senhorita já tem um emprego?

Apesar de achar meio indelicado a abordagem, prossigo porque o assunto me interessa.

– Não. Porém realmente estou interessada em um... – sorrio preocupada. Emprego é realmente um dilema, uma vez que nunca trabalhei em meus vinte e um anos. Vivi todo esse tempo na barra da saia do meu pai e ele me sustentava até minha madrinha deixar a herança.

– Vá até a floricultura da madame Donner na segunda e leve seu currículo. Diga que foi o Manny quem te indicou... Ela é uma velha amiga e está precisando de moças para ajudar na recepção – anoto em meu celular o nome da floricultura e quando vejo já está encostando o carro em uma calçada bonita e cinza, trabalhada em azulejos de mármore branco. Desço do veiculo e minha mala está postada na calçada a minha espera. Tiro da bolsa um molho de chaves e uma nota de vinte dólares. Pago o homem e aperto sua mão.

– Aqui estamos... Av. Opposite Sides, 34.

– Muito obrigado pela ajuda. Realmente agradeço pela indicação – sorrimos um para o outro e ele assente positivamente.

– Boa sorte garota. Tomara que tudo dê certo.

Ele volta para seu táxi enquanto encaro totalmente maravilhada a construção a minha frente. É um prédio de no mínimo vinte andares com aparência genuinamente agradável. Alto, realmente de frente para o parque e tem sacadas! É um edifício azul escuro e formal com um belo jardim ao redor. Assim que subo as escadas e dou de cara com o porteiro me sinto a menina mais sortuda do mundo... Isso é meu graças a minha maravilhosa madrinha, Blanca Jenkens. Explico para o homem toda história e ele fica me encarando meio confuso, desconfiado. Porém mesmo depois de conferir meu nome e meu RG ainda está estranho. Deseja-me boas-vindas e diz que a qualquer problema posso chama–lo. Não que farei... O cara é sinistro! Subo pelo elevador em completa alegria. Manter isso aqui deve ser difícil, porém madrinha deixou também uma boa quantia em dinheiro que poderei usar até conseguir um trabalho. Com sorte, tudo dará certo.

Aqui estou. No corredor cinco da Av. Opposite Sides, 34. Meu corredor! Respiro fundo e deslizo para fora do elevador com elegância, puxando minha mala e carregando a bolsa de mão. Sinto–me uma diva, uma estrela de Hollywood quando paro na porta vinte e quatro e coloco a chave na fechadura. A porta é grande e de madeira branca, combinando com a decoração superfina do corredor majestoso. É coisa de rico, não de provinciano do interior. Agora compreendo porque madrinha escolheu aqui... Aquele idiota do afilhado dela com certeza iria se adaptar fácil. Giro a chave na maçaneta tentando esquecer aquele bendito cara idiota. A porta se abre facilmente e nem paro para admirar, apenas arrasto minha mala para dentro do apartamento e travo a porta, fechando-me ali.

Finalmente, depois de arrastar a mala até o meio do hall, paro para dar uma boa olhada. Apoio às mãos nos quadris para girar o olhar em todas as direções que pude captar. O teto é mais alto do que pensei; a decoração é de um bom gosto incrível, algo que jamais vi, assim, tão de perto. Fui novamente pega de surpresa com esse fator. Decoração. Madrinha já deixara tudo prontinho e devidamente em seu lugar. Deveras não entendo... Porque tamanha generosidade? Qual era o interesse dela em adquirir esse imóvel do outro lado do país? Compreender não me vale, apenas admirar. O sofá é grande e negro, fazendo uma curva agradável e espaçosa. A janela é ampla e bela, possibilitando de longe uma vista privilegiada do parque em frente. Respiro fundo com a maravilha de tudo isso... A TV é grande. Existe também um tapete felpudo e branco como a neve, dá até dó de pisar sobre o mesmo. É muito simplório, porém agradável. Viúva duas vezes, agora entendo onde minha madrinha gastara toda a herança de seus maridos. O lugar é realmente agradável.

Consegui. Estou aqui! Será que algo pode ser tão fácil?

Ando em direção ao centro da sala com cuidado, prevendo cada passinho... Chego à janela e afasto a cortina branca com delicadeza e sinto cheiro de mofo. Realmente precisa de uma limpeza. Planejo guardar as coisas e ir atrás de uma loja de material de limpeza quando escuto um barulho vindo do corredor longo, que por certo leva aos quartos. Viro-me em direção. Estreito o olhar. Que diabos foi isso? Mais um barulho alto. Mais som de passos!

Passos.

Tenho certeza que tem alguém aqui! Meu sangue gela. Posso ouvir meu próprio coração soando nos ouvidos. Estou louca? Ando até o vaso pequeno pousado sobre o criado mudo e o apanho delicadamente. É uma arma ridícula para ser usada, mas quem pode estar aqui agora? Ando em direção ao corredor com o coração na mão, o pensamento voando em milhares de direções... Cogitei tudo, menos o que veio a seguir. Um barulho estrondoso se faz quando o vaso desliza de minhas mãos e se choca contra o chão. Por sorte era de plástico e não quebrou. Tapo a boca com as mãos, porém grito alto em seguida quando ele grita também. Ele. Isso é... Potencialmente problemático! Eu reconheceria aquele olhar de safado e aquela blusa com palavrão escrito na frente em qualquer lugar.

– VOCÊ? – digo quando paramos de berrar um para o outro. Abaixo as mãos ao lado do corpo e o olho como se fosse um alienígena. Porque está parado dentro de meu apartamento na frente do banheiro? Porque está aqui? Como entrou? Cadê o casaco caramelo sedução? – Como entrou aqui? Por acaso está me seguindo? Céus! Vou chamar a policia...

- O que você está fazendo aqui? – grita ele também quando pego o telefone em mãos. Não tem linha, é claro. Largo-o no sofá – esse apartamento é meu! – parece indignado! Tento encontrar uma explicação em mente, mas não encontro nada!

- O que? Seu? Está ficando maluco? – encaro-o pelo espaço e gargalho ironicamente – SAIA JÁ DA MINHA CASA! Seja como for que tenha chego aqui, vá embora! – aponto para a porta totalmente transtornada – eu não tenho nada para ser levado, vim do interior só com a roupa do corpo e acredito que você tenha um gosto melhor para mulher e não irá querer me estuprar... Agora some!

Ele ri com minhas palavras, porém me olha como se eu fosse louca.

- Espera ai... – cruza os braços e me encara com o rosto torcido – você tem uma chave também – aponta para a chave do apartamento que ainda está pendurada em meu bolso do jeans. Coro porque ele estava olhando para minha região baixa.

- CLARO QUE TENHO UMA CHAVE! Esse apartamento é meu seu idiota! – berro e aponto para a porta novamente – vá embora!

Antes que eu possa terminar meu raciocínio, o cara tira do bolso um molho de chaves idêntico ao que o advogado de minha tia me deu na leitura do testamento. Caraca... Mostra-me o molho de chaves por um longo tempo e fico apenas observando. Ele está aqui. Ele tem as chaves. Ele me parece familiar. Ele é... Não! Não! Corro mais uma vez o olhar por seu rosto familiar... Por seu corpo gostoso. Cara... Olhos azuis. Aproximo-me dele dois passos. Um flash vem em minha mente. Uma coisa do passado...

- Eu nunca vou te esquecer... – diz ele correndo atrás de mim na chuva.

- Eu te odeio! – grito de volta, correndo em sua frente, segurando na barra de meu vestido amarelo e sujo de lama. Meus pés estão no chão e o cabelo gruda em meu rosto. A chuva é forte.

- Fica comigo? – me pega pelo braço bruscamente e me vira em sua direção. Pressiona-me contra a porta da casinha de boneca. Empurro-o. Liberto-me.

- NÃO! Vá embora! – grito em seu rosto.

Antes que eu termine de falar, mesmo molhada pela chuva forte que cai sobre nós, ali, em frente à casinha de boneca de nossa prima, ele me pega em seus braços jovens e me beija. Um beijo molhado. Um beijo infantil. Um roçar de lábios desconexos. Estremeço totalmente... Borboletas voam em meu estomago. É tão bonito. Tão romântico... Em treze anos nunca senti isso. Em todo esse tempo pensei que o amor fosse mentira! Então o afasto... Nos olhamos durante bons segundos e a única imagem que tenho dele até hoje fixa em meu coração são os olhos. Doces olhos azuis molhados pela chuva de verão que levara consigo meu primeiro beijo.

- Peeta? – sussurro sem muita coragem, afastando-me dois passos de perto dele.

– Katniss? – é como se não acreditasse no que vê. Percorre-me o corpo com os olhos confusos, os olhos assustados! Como ele pode estar tão diferente? Naquela tarde, ele tinha dezesseis anos e eu treze; fora há nove anos e ele está tão... Distinto. Tão mais formal. Másculo. Bonito. Sexy... Caramba! É mesmo aquele garoto estranho e chato que me atormentava nas brincadeiras? É o outro afilhado de minha madrinha que sempre que me via tinha que implicar? Eu o odeio... Sempre odiei! E ele está aqui! Um sorriso irônico pinta seu rosto belo – não posso acreditar! É claro... Como pude pensar que não te conhecia... – sussurra mais para si do que para mim.

– PORQUE VOCÊ ESTÁ AQUI? – grito novamente, totalmente alucinada por sua presença – porque não está na porcaria de Londres com seus pais? Você não faz faculdade de Economia? Porque está aqui?

Demora um bom tempo para Peeta absorver minhas palavras. Caramba... Droga! Não! Passa a mão no cabelo nervosamente e sorri. Ainda sorri.

– Já terminei a faculdade. Decidi ficar um tempo longe dos meus pais, sabe como é... – dá de ombros delicadamente – e você? Porque não está ordenhando as vacas no Texas? – numa atitude impensada, senta-se no sofá todo largadão e me olha totalmente à vontade. Como se estivesse alheio à situação! Oh! – Quase nem te reconheci... Você está tão...

- Cala boca! – suspiro totalmente nervosa. Peeta me olha confuso, os braços abertos no apoio do sofá. Isso me irrita – por quanto tempo você pretende ficar?

- Não sei... Diga-me você – dá de ombros novamente. Sinto tudo rodando. Sento-me no sofá ao lado dele, quero dizer, há uma boa distância, e apoio o rosto nas mãos.

- Vou fazer faculdade aqui. Ficarei pelo menos cinco anos – minha voz soa abafada pelas mãos.

- Cinco anos? É pouco... Eu pretendo ficar uns oito ou nove... – abro os olhos ao mesmo tempo e fico em pé num pulo. Jogo uma almofada nele com força, que se esquiva e me olha transtornado – está louca garota? – grita.

- NOVE ANOS? Louco é você! Nós. Dois. Não. Podemos. Viver. Juntos! – silabo olhando-o com raiva. Com ódio. Droga! Eu não contava com isso... Com essa presença maligna em meu apartamento! E o pior de tudo é que o bendito tem direito! Cinquenta por cento do apartamento é dele! – será que isso é difícil de entender?

- Não – admite tirando o sapato com a maior cara de pau – compreendo e concordo – sorri. Pela primeira vez sinto alivio, mas não dura muito – você quer ajudar para descer suas coisas?

Pisco olhando para ele durante segundos. Como pode existir um cara tão idiota? Tão cara de pau? Tão safado? Reviro os olhos. Não vai ser fácil lidar com ele, porém preciso de cautela. Não consigo computar direito o que está acontecendo, uma vez que a coincidência de cruzar com ele no avião sem reconhecê-lo e encontra-lo aqui, em nosso apartamento, é no mínimo coisa de outro mundo. Como pode acontecer isso? Como pode ser tão minimamente calculado? Se não fosse a cara de taxo dele e a surpresa em me ver eu diria que isso fora planejado, porém conheço suficiente esse babaca para sacar que ele não se daria ao trabalho de apenas me sacanear. O que ele iria ganhar ficando aqui, sendo que sua família, ao contrário da minha, é milionária? Mordo os lábios. É impossível ficar sob o mesmo teto que ele. É impensado! Se minha família já me acha vagabunda somente por ter saído de casa, o que dirão de descobrirem que moro com um homem?

- Peeta... – sussurro com a voz baixa, caminhando até a frente dele. Apoio às mãos na testa para seguir em frente, praticamente sem rumo, abalada – eu não tenho para onde ir! Não posso ir embora! É difícil explicar tudo, por hora posso dizer que meus pais me odeiam agora e... – sou interrompida somente pelo olhar dele. Engulo em seco, com medo. Pela primeira vez vejo seriedade em seu olhar. Ele parece endurecido de tensão ou sei lá. Temo pelo que vem a seguir e até mesmo me sento. Nunca vi o babaca assim... Nunca o vi sério, sem aquele sorriso idiota. Apoio às mãos no joelho e torço os dedos em meu colo vazio.

- Bom, então estamos no mesmo barco! Meus pais também me odeiam. Estou deserdado.

Ergue os olhos azuis para mim assim que fala, esperando uma reação. Pisco algumas vezes em total confusão, tentando encaixar um nexo nisso tudo. Phoebe? Michael? Ambos deserdaram o filho caçula e totalmente xodó? Porque motivo? Se me recordo bem Peeta é o filho mais novo de uma família de três irmãos. Savannah, sua irmã mais velha, já é casada, médica pediatra de sucesso e tem um filho adotivo, uma vez que não pode ter filhos. Ashley, sua irmã do meio, acabou de fazer vinte e nove e é considerada a mulher com menos de trinta anos mais bem-sucedida no mundo dos negócios atualmente. Sua opção sexual é discutível, uma vez que acabou de ser fotografada andando por ai com mulheres e em bares homossexuais. Um verdadeiro escândalo para a tão tradicional família Mellark. E ele... Peeta. A esperança da família! Madrinha sempre disse que os pais botavam toda a expectativa encima de Peeta. Pelo menos ele poderia seguir com os negócios de Diamante da família e dar a Phoebe e Michael um neto consanguíneo. Porém, pelo que estava vendo, Peeta fora longe demais! O que poderia ter colocado o mesmo a frente de Ashley nas surpresas, sendo deserdado por tal motivo?

- Deserdado? – sussurro para ele, que torce os lábios - por quê?

- Não quero falar sobre isso... – sua reação é repentina e até mesmo me assusta. Seu sorriso morre. Ele fica de pé e se afasta de mim, parando perto da janela – porém não se preocupe. Se eu ficar, tenho condições de manter a casa porque confesso que tenho muito dinheiro guardado e acabei de receber uma alta quantia da empresa de meus pais, já que me demiti e vim morar aqui.

- Você está desempregado? – isso fica mais louco a cada minuto! Dois desempregados juntos...

- Sim, mas dinheiro não é um problema – pisca amigavelmente. Reviro os olhos. Para ele não é mesmo um problema, já para mim... Céus! – além disso, fiz uma ótima faculdade e posso ingressar a qualquer momento em uma empresa da redondeza. Vai ser fácil. Nós dois dividiremos as despesas, você faz sua faculdade, eu provo aos meus pais que sou um cara responsável e pronto!

- Então... Você pretende mesmo ficar? – questiono ficando de pé e parando em frente a ele em total espantamento. Oh não...

- Pretendo e vou! – estica a mão para mim, olhando em meus olhos – a partir de hoje somos colegas de residência... – ergo a mão delicadamente e toco a sua. Um sorriso grato desenha em seu rosto... Aquilo me faz estremecer – bem vinda a Av. Opposite Sides, 34.