O que irei fazer agora, uma vez que jamais contei com isso?
Peeta está na varanda faz quinze minutos em total silêncio, pensando também. Sei que para ele não é toda essa maravilha que fez parecer minha companhia, por isso se sente tão desnorteado. Nenhum de nós esperava se deparar com o outro assim, muito menos dividir o apartamento com outra pessoa... Somos tão diferentes. Somos tão opostos... Isso tem como funcionar? Suspiro profundamente ainda jogada no sofá da sala e pensativa. Por onde devemos começar? Minhas malas estão espalhadas na sala e as dele no corredor. Dividir o espaço talvez seja bom. Parece que ele pensa do mesmo modo, já que volta para a sala fechando a janela da varanda com calma. Para a minha frente e evito encará-lo, olhando para outros lugares deitada no sofá como desculpa.
- Você já escolheu seu quarto? – sua voz é calma, tranquila... Aparenta normalidade, porém quando o encaro noto em sua expressão certa obstinação em fazer isso dar certo. Tanto eu quanto ele estamos enfiados até o talo em uma sinuca de bico. Seus braços estão cruzados em frente seu peito de forma protetora.
- Não – reviro os olhos diante dele, me sentando no sofá com rapidez. Sinto-me vulnerável assim perto dele – você já escolheu o seu? – questiono e agarro-me as bordas do sofá.
- Bom... Temos três opções. Há três quartos – dá de ombros e caminha até o corredor. Sem hesitar o sigo de perto e nós dois ficamos a uma bela distancia; quatro portas compõe o corredor mediano – aqui é o banheiro – Peeta me mostra uma das portas.
Vou até a primeira e destravo, ele por sua vez entra na segunda. O banheiro é simples, decorado em verde, tem uma banheira simplória sob o chuveiro grande, atrás do Box. Agradável, diga-se de passagem. Saio de lá e entro na segunda porta, Peeta já foi para a terceira. É um quarto de solteiro com uma cama de centro e um armário grande para colocar roupas. Possui uma bela estante, ventilador de teto e uma grande janela agradável. Basicamente é todo branco e preto. Adorei. Pulo para a próxima e vejo, na terceira porta, bem ao centro, um quarto de casal. O que? Espio sem ultrapassar a porta, com medo do que isso significa. Porque madrinha fez um quarto de casal? A cama de centro é king size e o edredom sobre ela é vermelho forte. Também tem acesso a uma sacada e possui um tapete fora de série de tão espetacular... O armário é espaçoso, tem uma mesinha, um sofá pequeno e... Um banheiro! Adentro. Vou até a porta do mesmo e destravo a maçaneta. Uma suíte. Uau. O banheiro é tão bonito quando o quarto diferente do simples que temos no corredor. A banheira é redonda e o piso de porcelanato. Porque tem óleo de banho ao lado dela? Porque isso parece um ninho para amantes? Fecho a porta engolindo em seco. Saio rapidamente do banheiro, antes que começo a ver imagens minhas e de Peeta partilhando da mesma cama e... ARG! A quarta porta... Ele está lá quando entro; parado em meio ao quarto. Também é de solteiro, parecidíssimo com o primeiro. Aperto as mãos em punhos ao lado do corpo. Coro só de lembrar o quarto ao lado.
- Viu a suíte? – comenta Peeta me olhando com um pequeno sorriso. Aceno positivamente e ele sorri – parece um quarto de motel... – coro absurdamente. Mordo os lábios - não acha?
- Não sei... – eu nunca fui a um motel. Completo em mente – já escolheu seu quarto?
- Sim, eu fico com esse – cruzou os braços olhando para a cama – você pode ficar com o primeiro. É mais perto do banheiro... Ou se quiser pode ficar com a suíte. Não tem problema por mim, verdadeiramente – dá de ombros e reviro os olhos.
- Ok. Fico com o primeiro. Não preciso de uma cama de casal, não pretendo ficar trazendo homem para cá e espero que você também não faça o mesmo – a cara de sacana que adota me faz corar. Saio do quarto para evitar seu olhar intenso e vou para a sala pegar minha mala. Peeta está a meu encalço, pega sua mala também.
- Claro que não pretendo trazer homem para cá. Pode ficar sossegada... Já mulher... – solto um muxoxo de decepção ao colocar as malas em meu quarto.
- Isso não me surpreende em nada! – grito do meu quarto esperando que ele escute. Abro a mala grande sobre a cama e começo a tirar as roupas de dentro da mesma – já não me basta ter que morar com você, agora tenho que lidar com seu lado cachorro e ficar vendo você trazer uma piranha por noite para casa. É tudo o que esperei de você... Sem tirar nem por.
Sua risadinha cínica é ouvida de longe. Não obtenho resposta, mas sei que é exatamente o que irá acontecer. Droga. Bato a porta. Chuto a mala, chuto a cama... Estou irritada! Em tempo recorde desfaço a mala e nem sinal dele... Separo minha roupa para tomar banho quando ele parece, abrindo a porta do meu quarto sem avisar. Encaro-o com raiva, segurando minha toalha e roupa.
- O que acha de irmos ao supermercado? Realmente precisamos de comida e não acho que eu seja a pessoa mais qualificada para lidar com o cardápio de uma casa – passo por ele o empurrando e vou em direção ao banheiro.
- Nunca mais entre em meu quarto sem antes bater na porta. Entendeu seu bastardo? – entro no banheiro e bato a porta, travando-a. Peeta bate com força do lado de fora.
- Katniss? Sim ou não? Vai comigo ou posso trazer apenas Heineken e amendoim? – tiro a roupa e abro o chuveiro, deixando a banheira encher – Katniss! – grita e bate na porta com força.
- Peça desculpas... – sussurro entrando na banheira. Escuto seu muxoxo com um sorrisinho vitorioso no rosto. Demora até ele falar.
- Ok. Desculpe-me por ter entrado no seu quarto sem antes bater. Agora vai ou não comigo? – parece mais calmo. Controlado, talvez. Sorrindo, respondo.
- Ok. Espere-me tomar banho. Agora some! – grito. Escuto sua lamentação.
- Garota maluca... – afundo-me na banheira sorrindo. Isso vai ser engraçado também. Ele é tão bruto e idiota... Como podemos fazer funcionar? Talvez eu o irrite o suficiente e ele me deixe. Será que dá certo?
Desisto de pensar no idiota manipulador e relaxo contra a banheira pequena. A água quente aos poucos vai esfriando, me obrigando a ficar de pé e esvaziá-la. Termino de me lavar no chuveiro enquanto penso que pelo tamanho da banheira ser reduzido, Peeta não vai caber aqui; ele é tão alto que talvez seus pés fiquem um pouco de fora e... Porque estou pensando nele mesmo? Quase soco a parede a minha frente enquanto tiro o excesso de sabonete do corpo. Por sorte tinha um pacotinho fechado no armário junto à shampoo e condicionador, de modo que pude usar. Realmente madrinha pensou em tudo... Desligo o chuveiro ouvindo protestos do lado de fora. Que porcaria Peeta está fazendo lá? Seco-me com a toalha correndo, visto meu jeans azul e meu tomara que caia branco; abro a porta do banheiro secando meu cabelo úmido e vejo a figura idiotamente bonita de Peeta parada de frente para o corredor, ficando exatamente em minha direção. Nos encaramos através do espaço; ele usa agora uma camisa preta em gola v com óculos de sol. Está girando uma chave em seu dedo indicador e parece muito bonito assim.
Sua beleza não me afeta. Não depois de ele ter sido um idiota comigo há nove anos.
- Já chamou o táxi? – vou até meu quarto em passos lentos. Calço um chinelo de dedos branco para combinar com o tomara que caia e coloco um par de brincos pequenos. Nem me dou ao trabalho de passar maquiagem, somente vou até o banheiro e paro em frente ao espelho com a escova. Desfaço os nós sem muito trabalho, alisando-o. Apenas noto que Peeta está parado atrás de mim quando me ergo e vejo sua imagem refletida no espelho. Quase pulo de susto!
- Sim, já chamei. Mas não se preocupe... Amanhã comprarei um carro e não precisaremos mais disso para ir ao supermercado – guardo a escova e me viro para ele com as mãos na cintura e o rosto impassível.
- Ah... Você vai comprar um carro amanhã? – meu tom é totalmente irônico, perplexo com a capacidade que ele tem de fazer tudo o que quer na hora em que quer. Eu tenho vinte e dois anos e nunca tive um carro! Ele, por um motivo banal, vai adquirir um amanhã!
- Claro... Ou acha que vou ficar andando por ai a pé? – dá de ombros de maneira despreocupada. Ainda gira a maldita chave em seu dedo! - ademais, carro não é luxo, é necessidade! – ressalta com certa ênfase na frase. Sorri de canto de modo tentador.
- Não! Não me refiro a isso... Refiro-me ao fato de você ter dinheiro para comprar um carro amanhã e insistir em ficar aqui, no meu apartamento! – saio do banheiro evitando ficar nesse ambiente tão pequeno ao lado dele. Respiro fundo quando me livro de sua companhia; entro em meu quarto em direção ao criado mudo e tiro de lá meu celular. Enfio no bolso, pego meu cartão do banco que na verdade não será tão útil já que todo meu dinheiro é para a faculdade, e volto-me para finalmente sair. Quase caio para trás quando o vejo parado na porta do meu quarto.
- Você está certa. Eu tenho sim o dinheiro para comprar uma casa na hora em que quiser – sua voz é monótona. Passo por ele apenas ouvindo e vou até a porta. Não posso abrir porque a chave mais próxima roda no dedo de Peeta; paro com os braços cruzados em frente ao corpo e olho-o – porém não devo dispensar a herança que madrinha deixou para nós dessa forma. Se ela nos deixou esse apartamento, deve ter algum motivo.
Peeta destrava a porta e saio em seguida. Ele o faz também e vou até o elevador sem esperar que feche a porta. Praticamente corre para me alcançar, para não deixar que a porta se vá. Entramos juntos no elevador vazio, ficamos em lados opostos do cubículo de ferro. Estou com a cabeça a mil... Com os nervos a flor da pele! Porque ele é tão difícil?
- Madrinha não queria fazer distinção entre nós. Apenas isso! – digo depois de muito tempo em silêncio – você sabe que sempre fomos melhores que os filhos foram para ela e a sua consideração por nós sempre foi imensa... Deixar o apartamento foi um presente, não tem qualquer significado... – tento clarear a visão dele.
- Para você pode não ter. Para mim é diferente – o elevador se abre.
Não o espero novamente, passo feito uma bala por ele e voo para o táxi, que realmente aguarda em frente ao prédio. Adentro ao carro amarelo de braços cruzados, logo Peeta está sentado meu lado e pedindo indicações para o supermercado. O taxista é amigável e explica tudo corretamente, porém não dou muita atenção. Porque isso é importante para ele? O que tem demais morar comigo nesse apartamento? Vejo a vista magnifica da cidade passando diante de meus olhos enquanto os dois tratam de conversar... Peeta não me engana. Ele quer é uma faxineira, alguém para lavar suas roupas e fazer sua comida. Estreito o olhar para ele enquanto não me olha de volta. Safado! Se estiver pensando que vou servir de escrava está muito enganado! Não vou nem sequer tirar o prato dele da mesa! O motivo pelo qual foi deserdado ainda ronda em minha mente também... Tento pensar em vários motivos e a única explicação que me aparece está relacionada a mulheres. Sempre ouvi madrinha dizer que seu afilhado era muito mulherengo e nunca parava com uma só; por certo Peeta aprontou com alguma garota e a coisa ficou feia. Mas... O que seria tão grave?
Ele paga o táxi antes que eu saia. Fico olhando para ele com certa timidez, uma vez que não tenho mais dinheiro em nota para usar. Gastei tudo com o táxi na primeira vez. Dinheiro... Está ai o único lado positivo de tudo isso! Tudo o que tenho estou usando para bancar os livros da faculdade e guardo para as contas. Peeta tem bastante e vai me ser útil dividir as despesas. Mas é só! Entro no supermercado e vou logo pegando o carrinho; quando pisco Peeta está a meu encalço.
- Sabia que quando se sai com uma pessoa esperá-la para seguir a diante é uma demonstração de boa educação? – sorrio de canto enquanto empurro o carrinho pelo setor de massas – você gosta de macarrão?
Não digo nada, apenas coloco uns três pacotes grandes no carrinho. Peeta, para demonstrar que aprova a escolha, seleciona diferentes tipos de molho e também coloca no carrinho. Nos olhamos com certa cordialidade e ele trata de empurrar o carrinho em sinal de... Cavalheirismo? Vou ao seu lado, entre ele e a prateleira, espiando os objetos para compra.
- E ai Katniss... Como anda sua família? Você nem me disse nada sobre eles, faz muito tempo que não ouço falar sobre a parte caipira da família – reviro os olhos diante de sua abordagem, porém acredito que devamos ficar mais próximos se vamos morar juntos. Enquanto avalio os preços, respondo.
- Estão todos bem. Meus irmãos estão casados, meus pais ficando velhos... A fazenda do mesmo jeito... Nada muda! – apanho algumas frutas e pêssego enlatado. Peeta não diz nada, presumo que aprove minhas escolhas.
- Seus irmãos casados? Terry e Benjamin? Caramba... Você já é tia? – sorrio perante a lembrança. Sou a caçula da família, tenho dois irmãos mais velhos. Terry é veterinário e mora perto da casa de meus pais. Benjamin está estudando biologia e mora fora, porém ele pode, é claro! É homem! Já eu, sendo mulher, sou taxada de vadia.
- Sim, sou tia. Terry e sua esposa tiveram um bebê ano passado, o nome dele e Dylan – adentramos ao corredor de higiene pessoal - e as suas irmãs? Como vão Ashley e Savannah?
- Ah, o de sempre... Savannah está com o marido engomadinho e o filho problemático. Ashley está de compromisso sério com uma tal de Brooklyn – eu o encaro com certo espanto - meus pais estão pirando, mas devo admitir que ela é uma gata! – sou obrigada a gargalhar. Ele está dizendo que a namorada da irmã lésbica dele é gata! Tem que ser Peeta mesmo para falar uma coisa dessas!
- O filho de Savannah deve estar enorme. Quando o vi na casa de nossa madrinha, há uns dois anos, já tinha por volta de seis ou sete... – Peeta pega coisas de homem depois que apanhei uma quantidade de meu sabonete favorito, shampoo para cabelos oleosos e creme depilatório. O vejo decidir-se entre duas marcas famosas de gilete e três loções caras. Torço os lábios perante sua carinha confusa... O desgraçado é muito sexy.
- Pois é. Christopher já tem nove anos. Acho que estou ficando velho – vejo-o colocar o que escolheu no carrinho. Realmente Peeta tem um gosto fino, apenas compra coisas caras.
- Você já esteve em um mercado antes? – questiono quando nos olhamos novamente. Ele ri sem graça.
- Na verdade não... É a primeira vez – rodo os olhos perante a afirmação. É claro que é a primeira vez... Sendo nascido em berço de ouro, sempre teve tudo na mão – você já usa absorvente?
Coro absurdamente quando dou atenção a ele e o vejo segurando um pacote de Always cor de rosa. Caramba! Porque ele faz isso comigo? Cruzo os braços de maneira envergonhada e finjo que não o conheço.
- É claro que eu uso absorvente seu idiota! Sou uma mulher, por Deus! – arranco o pacote da mão dele com certa brutalidade e jogo no carrinho quando as pessoas começam a olhar. Peeta ri de minha cara de taxo. Pego mais alguns pacotes e coloco no carrinho. Será que devo agradecer porque ele me lembrou da menstruação? Por um momento me esqueci de pegar isso. Começamos a andar novamente.
- Ah é! Acabei de lembrar o dia em que você menstruou pela primeira vez... Eu estava na casa da madrinha, você tinha uns onze ou doze anos. Acho que estava acontecendo alguma festa ou sei lá e... – o interrompo.
- Era meu aniversário de doze anos. Pedi para que você me erguesse de modo que eu pudesse pegar a bola encima do muro, você o fez e começou a me xingar quando percebeu que tinha sangue nas minhas pernas e nos seus braços – falei tudo isso com certa raiva.
- Exatamente! Você menstruou em mim! Como pude me esquecer? – seu sorriso é descontraído enquanto guia o carrinho. Paro para pegar mais enlatados.
- Se você esqueceu não sei, mas sempre irei lembrar-me de você gritando para todo mundo ouvir "A Katniss menstruou em mim!" – sua risada foi alta e a minha também. Naquele dia senti toda a raiva do mundo, mas agora parece absurdamente cômico! – foi muito chato!
- Bons tempos... Bons tempos.
Seu rosto é de total gratificação. Está mesmo feliz ali comigo relembrando os velhos tempos? Engulo a risada e volto a ficar tensa... Não devo ficar dando trela para Peeta. Devo encarar nossa convivência como um... Negócio. Um obstáculo pelo qual devo passar para me formar. Isso e nada mais!
Já é tarde quando voltamos para casa, cerca de cinco e meia. Peeta parece exausto e meio tenso por causa das compras, que realmente foram demasiadas e exaustivas. Levamos praticamente todo o básico e gastamos uma fortuna! Insisti em pagar por metade das coisas, porém Peeta já havia pagado a conta quando resolvi relutar. Ok. A única coisa que ele pode fazer de bom é pagar as coisas... Sou uma aproveitadora? Não... Somente o faço pagar como pode por estar enchendo minha vida, de modo que se canse logo de mim e vá embora para sempre.
- Nunca me senti tão cansado. Pelo amor de Deus! – suspira quando adentramos ao apartamento após terminarmos de subir as compras. Uma bagunça de sacolas desenha o chão da cozinha e nós, cansados e estorvados pelo dia de viajem, encaramos aquilo com desanimo – não me olhe assim... – me cutuca com um dedo nas costas. O afasto quase brutamente, impelindo-o para o lado – vou te ajudar a guardar tudo.
- Tudo bem... Pode tomar seu banho e descansar. Eu me viro – coço a cabeça antes de desempacotar o primeiro lote e começar a guardar as coisas. Comida. Bastante comida!
- Não. É injusto te deixar sozinha. Você também está cansada como eu e... – interrompo-o quando jogo a loção e o shampoo dele sobre seu colo. Peeta agarra ambos com destreza e me encara um pouco confuso.
- O seu discurso de companheirismos não vai mudar minha opinião sobre nós nessa droga de apartamento. Quando digo que está tudo bem é porque está tudo bem! Você vai guardar tudo errado se ficar aqui e iremos acabar brigando... Quero as coisas no lugar nessa casa, então é melhor por nessa sua cabecinha oca que eu mando na organização dessa casa e AI de você se colocar um guardanapo fora do lugar... Entendeu? – por incrível que pareça meu tom é calmo e tranquilo enquanto empilho as latas no armário de mogno da cozinha moderna. Peeta está parado atrás de mim, já que subi em uma cadeira no trajeto.
- Entendi – responde em toda obediência. Dou um sorriso de lado a lado.
- É melhor não se acostumar. Nós dois moramos aqui e eu não serei sua empregada... – olho-o rapidamente e pego seus olhos grudados em meu traseiro. Reviro os olhos - agora para de ficar olhando para minha bunda e vai logo tomar banho! – como se houvesse sido apanhado fazendo algo errado, Peeta sai de uma vez, porém lança olhares admirados por cima dos ombros. Antes que suma, para e fica olhando para mim.
- Por mais que o tempo tenha passado Katniss, querida, você continua com uma saúde... Parabéns! – brinca. Coro. Apanho um pacote de algodão que comprei para fazer minhas unhas e lanço sobre ele, que ri alto enquanto sai de minha vista. Idiota! Ele sempre foi assim... Nunca perdeu a oportunidade de ficar citando meus atributos físicos. Atributos estes que nenhum outro jamais reparara, apenas ele. Talvez o faça porque sabe que me irrita... Talvez o faça porque gosta de qualquer tipo de mulher, sendo o safado que sempre foi... Idiota!
Demoro quase uma hora para organizar tudo... Quinze minutos desse tempo dedico para tentar pegar com algum tipo de luva o pacote de camisinhas que Peeta trouxera do supermercado. Como ele trouxe isso sem que eu pudesse notar? Maldito. Não pode estar pensando que conseguirá algo comigo! Ele sabe muito bem que sou uma garota difícil, não me entrego a qualquer um, muito menos a um que me fez sofrer tanto no passado, mesmo quando meu coração ainda era jovem o suficiente para pensar em amar. Com uma luva de borracha, pego as camisinhas presas em fileiras e marcho até o quarto dele em polvorosa! Irei esfregar isso na cara dele de uma vez, deixando claro que por mais que o tempo tenha passado, as coisas não mudaram entre nós!
Bato na porta fechada. Meu rosto ferve de raiva, sinto a vista até turva... Esse imbecil tem o poder de me deixar louca com pouco. Demora um tempão para abrir, quase faço escândalo! O que será que está fazendo... ? Somente de pensar, coro. Será que está nu? Será que fala ao telefone com alguém ou está se mast... Não! Não posso ficar pensando nisso... Idiota. Ouço o barulho da chave rodando na maçaneta. Meu estomago embrulha de ódio, porém tudo dentro de mim se modifica quando o vejo sem camisa, apenas com uma toalha envolta na cintura e os cabelos pingando no peito. Encara-me diretamente sem qualquer pudor, como se estivesse totalmente seguro do quanto... Atrai-me.
Sim. Ele me atrai. Somente isso.
- O que foi? – diz me olhando com certa curiosidade em seus olhos azuis. Ele tem o cheiro daquela loção pós-banho que pegou no supermercado e era muito cara. Mordo os lábios e aperto os olhos... O que ele quer fazer comigo meu Deus? - Katniss? Que foi gatinha, tá tudo bem?
Antes que minha mente possa projetar imagens de nós dois fazendo coisas inapropriadas, arremesso o pacote de camisinha na cara dele, que pega com naturalidade.
- Que porcaria é essa? – digo em alto e bom som.
- Camisinha.
- Para que você comprou isso e trouxe para cá com as compras? – continuo irritada perante sua calmaria.
- Ué? Não sabe para que serve camisinha? – um risinho sacana corta sua fala – comprei porque sou um cara... Uhm... Responsável. Isso é atestado de responsabilidade.
- Não! Isso é atestado de que vai ter sem-vergonhice nesse apartamento e deixo bem claro que se está pensando em usar uma dessas coisas com...
- Não – conclui meu raciocínio no mesmo momento em que coro o suficiente para não conseguir terminar a frase. Se aproxima de mim dois passos, porém não recuo. O encaro e com a cabeça erguida – não tenho a mínima intenção de relar um dedo em você – realmente não sei se isso me enobrece ou entristece, porém ele prossegue – não porque não me atraia ou coisa assim, mas por respeito. Você tem razão. Eu não presto, sou um safado e como todas mesmo... Porém sei com que tipo posso mexer e com certeza você não está entre elas, Katniss. Não me meto com garotas direitas.
A frase "mas um dia a garota direita te interessou a ponto de você querer pegar nos meus peitos, não é?" vem a minha garganta, porém morre quando me dou conta que ele está sendo sincero. Cruzo os braços protetoramente contra o peito e reviro os olhos diante de suas palavras.
- É bom que isso esteja muito claro em sua mente.
Saio de lá antes que a conversa fique mais constrangedora. Vou para meu quarto e colocar uma roupa confortável para dormir, esperando que esse safado não me perturbe ao menos durante o sono. Em minha cabeça, gira apenas uma frase... Poderia ser pior?
