Acordei cedo. O dia não estava tão belo quanto ontem, diga-se de passagem, uma chuva bem forte iria cair sobre a cidade a qualquer momento. Abri a janela e logo fiquei chateada com o que vi, porém nem isso abalou meu ânimo. Preciso de um emprego o mais rápido possível e também tenho que ir até a faculdade acertar coisas sobre a matrícula... Sinto-me empolgada para ajeitar tudo isso logo, para ingressar de cabeça nessa nova vida. Tiro o pijama e coloco um jeans escuro junto a uma blusa azul clara. Uso botas e casaco para enfrentar o clima frio e também cachecol. Não estou acostumada com esse tempo fechado, tenho pouquíssimas opções de roupa. Não seco o cabelo porque sei que vou tomar chuva. O prendo em um rabo de cavalo e tento dar um jeito nas olheiras com base. Sai praticamente na cara lavada. Ajeito a bolsa com tudo o que preciso e com o nome da mulher que o taxista me indicou.
A floricultura da madame Donner. Indicação de Manny.
É meio improvável, porém não custa tentar! Saio do quarto perfumada e arrumada, mas não é meu cheiro que impregna a casa. Paro na porta da sala espiando para ver se o encontro, mas o energúmeno não está a minha vista. Volto-me para o quarto dele tentando ficar em silêncio, algo impossível porque o salto de minha bota faz barulho demasiado. Espio... A cama está toda zoada, mas ele não está deitado também. Já vejo suas roupas espalhas, os tênis jogados... Reviro os olhos, mas não irei interferir no que diz respeito ao quarto dele. É o limite de Peeta, portanto pode fazer o que quiser ali dentro! O que quiser... Isso por é certo irá dar problema!
- Nossa senhora, é tudo o que eu queria! Acordar e ter uma Deusa desta na minha sala...
Estou de costas, arrumando minha bolsa que está pousada sobre a mesa perto da sacada. Escuto a voz dele atrás de mim e sei imediatamente que vem da cozinha. Nem me viro para olhá-lo, continuo arrumando a bolsa.
- Não começa com suas gracinhas logo de manhã meu querido. Eu queria que você... – Caramba.
Fico parada durante alguns segundos quando espio por cima do ombro e dou de cara com Peeta usando uma cueca box na porta da cozinha. A cueca é vermelha. Caramba. Também está de meias, isso é broxante, mas os pés não me importam. Tento deixar passar batido aquele volume... Mas não dá. Coro quando ele me pega olhando. Viro o rosto, totalmente transtornada com a visão. O maldito é bonito!
- Você queria que eu... ? – não sei o que pensar quando ele passa a falar. Já estou tremendo e totalmente nervosa! Não sei mesmo lidar com isso! Coloco a bolsa de lado e começo a andar para o quarto em busca de um documento que falta. Ele fica na sala.
- Queria que você sumisse, mas como é impossível ficaria grata se ao menos usasse roupa dentro de casa. Sou uma mulher e acho que mereço respeito, uma vez que não fico pelada na sua frente – pego o documento e volto para sala disposta a fugir correndo, porém quando chego lá o vejo mexendo em minha bolsa. Está com meu registro na mão.
- Uau. Você ficou bem na foto do registro... – comenta quando me aproximo com toda a coragem que tenho e o empurro pelo peito nu. Caramba... Quanto encosto no peito dele sinto o meu corpo todo pegando fogo. Maldito bastardo!
- Não mexa nas minhas coisas. Essa é a regra número dois.
- Qual é a número um? – está parado bem do meu lado. Meu mundo dá voltas, mas me mantenho com a cabeça no lugar. Deus... É só um homem de cueca! E meias broxantes...
- Não ficar pelado em casa – coloco a bolsa no ombro e começo a caçar as chaves. Estou nitidamente desnorteada!
- A número três, por acaso, é não comprar camisinha?
- Não! O número três é não transformar nosso lar em motel vinte e quatro horas – ele ri baixinho. Para na porta da cozinha quando acho as chaves, me barrando de passar. Aperto os olhos e suspiro. Se ele não sair da minha frente logo, juro que enfio a mão na cara bonita dele!
- Você vai demorar a voltar? – questiona realmente interessado. Sou obrigada a rir de sua carinha de triste por minha ausência. Cruzo os braços.
- Vou. Tenho muito para fazer hoje... Você se vira com sua comida. O meu numero de celular está pendurado na geladeira – abro passagem por seu braço e passo reto por ele, que apenas fica me olhando do outro lado da sala – tchau idiota. Espero que esteja de calça quando eu retornar!
- Posso fazer motel meio-período?
É tudo o que escuto antes de bater a porta na cara dele e sair correndo daqui. Se pudesse, nunca mais voltava para esse apartamento, porém sei que é o único lugar que me resta depois de ter saído de casa.
Sigo em busca da tal floricultura da Madame Donner. Não é difícil de achar, uma vez que o comércio de suas flores é talvez o maior do ramo na cidade. Não fica nem a duas quadras da Av. Opposite Sides. Caminho sob a garoa fraca e consigo chegar lá antes da chuva forte. Vanglorio-me pelo feito ao me deparar com a fachada rosa e verde, cores meio opostas. Opostos... Isso está me perseguindo não é mesmo? A floricultura é gigantesca perto do que esperei. Vende-se todo tipo de flores aqui, pelo que noto. Logo adentro e vou direto para o balcão, dando de cara com a menina que atende. É uma ruiva baixinha, mas muito bonita mesmo. Tem olhos azuis e perfeitos, usa uma maquiagem como nunca vi antes e parece uma Barbie usando roupa de frio. Tem um corpo que me deixa com inveja... É o tipo de mulher que o idiota iria querer.
- Boa tarde. Em que posso ajudar? – diz em tom simpático. Um pouco molhada, aproximo-me um tanto envergonhada.
- Boa tarde... Bem, eu gostaria de falar com madame Donner. Um amigo chamado Manny me disse que... – ela me interrompe com um tom de voz surpreso.
- Manny? Um minuto... – pega o telefone e aperta um botão. Espero do lado de fora do balcão redondo que a cerca. Diz alguma coisa no telefone que não escuto e desliga – madame te espera na sala ao final do corredor. É só subir as escadas – uau. Foi tão fácil! Sorrio para ela.
- Obrigado.
Subo as escadas. Vou em direção ao final do corredor e dou de cara com a tal Madame Donner ao ser autorizada a entrar na sala grande e totalmente decorada em rosa. É como a sala da Barbie. Sinto-me deslocada ali. Madame Donner é aquele tipo cinquentona que não se tocou. Tem o cabelo loiro e muito bem cuidado. O mesmo lhe cai até a cintura e enrola nas pontas, é mesmo um show. Os olhos são escuros e marcantes, negros como a noite. Usa um casaco branco e felpudo junto a brincos extravagantes. Tem nitidamente implantes de Botox e os lábios cheios artificialmente. Sua cara é puxada ao máximo. Mas não é tão horrível... Não consigo sorrir para sua figura engraçada.
- Bom dia. Eu sou...
- A menina da Av. Opposite Sides – me interrompe com um sorriso curto – eu estava esperando sua visita. Sente-se – indica-me a cadeira com um gesto delicado e sublime. O faço com certa hesitação e fico do outro lado da mesa branca – Manny me falou sobre você... Realmente preciso aumentar meu quadro de funcionários e uma futura estudante da faculdade de Engenharia me interessa muito. Isso aqui é uma floricultura, porém é uma das dezesseis lojas que tenho por todo o país. Preciso de uma administração consistente e você se encaixa no perfil, mesmo que isso não seja sua área especifica. Por hora, acredito que seja de bom tamanho.
Paro para pensar. Caramba. A mulher realmente tem uma grande rede de floricultura. Ótimo. Não posso recusar nada e ainda tenho a possibilidade de crescer ao longe do tempo. Não hesito em aceitar a proposta de trabalho. Trocamos informações sobre salário, benefícios e endereço. Digo que não precisarei de transporte porque moro perto e ela garante que esse é mais um dos motivos pelo qual fui contratada. Quase todos seus funcionários desta loja moram na Av. Opposite Sides.
- E ai garota? Conseguiu? – sussurra a garota da recepção quando retorno.
- Sim! Vou começar amanhã... Por enquanto vou ficar com você na recepção – paro para conversar. Fazer amizade com ela será interessante.
- Meus parabéns! Bem-vinda! Sou Michelle... Espero que sejamos grandes companheiras – trocamos um aperto de mãos básico. Ela mastiga chiclete... Caramba, exatamente o tipo de Peeta.
- Sou Katniss. Você mora por aqui? – questiono curiosa. Será que é minha vizinha de prédio?
- Sim. Moro no edifício 34 da Av. Opposite Sides – meu queixo cai.
- Sério? Eu também! Acabei de me mudar!
- Foi você quem mudou para o corredor cinco? – questiona totalmente empolgada – meu Deus! Aquele Deus Grego é seu namorado não é? O loiro bonitão que chegou com malas ontem... Não te vi ao lado dele, mas sei que ele está no corredor cinco.
- Ah... – meu ânimo se esvai com a menção dele. Suspiro – é o Peeta. Ele não é meu namorado, apenas somos colegas de... Apartamento.
- Jura? Ai que ótimo! Não me diga que ele é solteiro? – comemora – posso ir a sua casa hoje a noite?
- Claro... Será muito legal.
Concordo porque simplesmente não tenho como dizer não para a garota. Seremos colegas de trabalho, negar será falta de educação. Saio de lá tão rápido como cheguei. A chuva é demasiadamente forte, por isso caminho rápido até a Faculdade de Engenharia, muito próxima ali. Resolvo todos meus problemas com a recepção e quando estou saindo... Um carro me fecha na calçada. Pulo para trás disposta a correr quando ele abaixa o vidro.
- MALDITO! – grito para Peeta quando o vejo sentado ao volante. Está muito forte a chuva e não posso ver direito. Aproximo-me do vidro – o que está fazendo aqui? De onde tirou esse carro?
- Entra logo. Depois a gente conversa...
Penso em dizer não, porém a chuva me obriga a entrar. Estou encharcada quando boto os pés dentro do carro dele, tenho que afastar o cabelo úmido do rosto para poder ver. Ocupo-me em tirar o casaco e ficar mais seca, isso resolve. Suspiro aliviada e encosto-me ao banco quente, absorvendo o ar condicionado. Lanço um olhar experimental para Peeta, que está dirigindo sem muito problema na chuva. O carro dele é moderno e tem aqueles para-brisas que limpam o vidro a cada segundo. Fica sério dirigindo e é mesmo bonito... Droga.
- Como sabia onde me achar? – sussurro um pouco tímida. Ele me salvou da chuva! Seriam dois quarteirões grandes até em casa de baixo de um diluvio e tanto! Devo ficar no mínimo agradecida.
- Foi coincidência – deu de ombros e me pareceu sincero. Estava usando uma jaqueta de couro, mas desta vez preta. Jeans e Nike. O cabelo está levemente úmido pela chuva – estava voltando da concessionária e o caminho era este. Reconheci você de longe... Quem mandou ter uma bunda desse tamanho?
- Não começa – ele riu de minha cara de brava. Revirei os olhos e corei. Pelo jeito vou ter que me acostumar com as piadinhas tolas de Peeta e levar na esportiva. Já notei que ele realmente não vai tentar se meter comigo. É só um palhaço, como sempre. Apoio o braço na janela e ficou olhando a rua enquanto o carro se move. Ele não está realmente indo para casa – você sabia onde me encontrar. Aposto.
- Claro que sabia. Você só poderia estar por perto. Saiu sem dinheiro e sem cartão – olho-o com a interrogação estampada na face. Logo saca e prossegue – não mexi nas tuas coisas. Não precisa dar chilique. Apenas entrei no seu quarto para fechar a janela porque estava chovendo e vi o dinheiro e o cartão encima da mesinha. É só.
Lembrei-me do dinheiro sobre a mesinha e do cartão também. Ficamos em silencio durante o trajeto. O idiota para em um posto para abastecer. Nada diz.
- É um belo carro... – comento sem olhar para ele, admirando o automóvel por dentro.
- Sim, muito legal. Um dos últimos sucessos da Toyota – parece feliz com minha interrupção de silencio – você pode pegar ele se quiser. Eu deixo você dirigir quando precisar sair de carro.
- Valeu, mas não sei dirigir.
- Ah. Isso é um problema.
O cara que abasteceu o carro volta com a chave e vamos embora. Devo contar que arrumei emprego? Olho para ele de cantinho e penso sobre partilhar a vida com esse cara... Nós nos conhecemos a vida toda, mas é como se nunca houvéssemos vivido o que aconteceu no verão em que eu tinha treze anos e ele dezesseis. Agora é como se fossemos dois estranhos... Meus lábios torcem de vontade de falar. Minha língua coça. Ok. Lá vamos nós!
- Eu... Começo a trabalhar amanhã.
- Sério? – realmente parece feliz. Torço as mãos em meu colo um pouco tímida, corando pela felicidade dele – isso é... Legal. Parabéns. Você merece!
- Sim, muito legal...
- É por perto? Vou ter que te levar todos os dias? – encaro-o com surpresa. Desvio o olhar rindo ironicamente.
- É bem perto Peeta. Mesmo se não fosse você não tem obrigação nenhuma comigo. Na realidade, não precisamos nem nos falar – dou de ombros. Ele se cala imediatamente. Parece constrangido – mas de qualquer modo obrigada pela hospitalidade.
Mais uma vez o silencio. Agora sim ele está indo para casa. Droga... Fui muito dura? Que seja! Não posso ficar dando trela para ele... Quero que ele se vá logo de uma vez e me deixe sozinha. Se ficar sendo boa irei acabar arruinando tudo.
- Tem uma garota louca que trabalha lá na floricultura e mora no nosso prédio – digo quando estaciona o carro em nossa vaga.
- Floricultura? Você, a rainha das patadas, vai vender flores?
Nitidamente está ressentido com meu corte no carro. Percebo porque desce e nem me espera, anda na frente. Justo ele, o rei da educação. Reviro os olhos e sigo atrás dele, que entra no elevador primeiro que eu. Corro para alcança-lo, mas a porta se fecha. Enquanto nos encaramos e a porta metálica vai se fechando, ele dentro do elevador e eu no corredor, tenho um acesso de lembranças. Encarando seus olhos verdes através do espaço, vejo aquele verão diante de meus olhos. O final dele.
Estou de braços cruzados, parada em frente à casinha de bonecas. Está sol, todos estão lá dentro agora se despedindo da parte rica da família. Quero mais é que todos sumam, principalmente ele. Choro. As lágrimas caem, mas me mantenho dura. Não posso ir lá dentro e ser fraca na frente de todo mundo. Não posso implorar para ele ficar aqui e ser a tola de tudo isso... Se Peeta quer voltar para sua vida perfeita e moderna em Londres, que vá logo e me deixe em paz!
- Não vai se despedir do seu querido?
Meu irmão está correndo em minha direção quando vejo. Seu cabelo cortado em forma de tigela sacode com o vento, é escuro e contrasta com sua pele branca queimada pelo sol. Está usando botas, camisa xadrez e jeans velho. Para em minha frente com cara de bobo.
- Vá embora Terry. Some daqui!
- Ui. Calma! Não fui eu quem escolheu te deixar, foi ele... Desconte sua raiva no seu mauricinho de meia-tigela – ergue as mãos em sinal de paz e vai se afastando no jardim – pelo menos vá dizer Adeus e sair por cima. Ou vai deixar o cara muito cheio de si com suas lágrimas. Katniss bobinha.
Mostro a língua para ele. Terry some para dentro de casa quando decido entrar na casinha. Choro ao me sentar no tapete das bonecas. Apoio às mãos no rosto e sinto o coração sangrar... Maldito Peeta! Porque entreguei meu jovem coração a ele? Porque cheguei a pensar que com treze anos iria encontrar um amor para toda vida? Terry, Ben, Savannah e Ashley tem razão... Peeta é muito mais velho. Quer coisas que não posso dar... Será que foi por isso que ele está indo embora? Porque não posso ir para a cama com ele? É isso o que Savannah diz... Peeta é um safado. Gosta dessas coisas com as meninas e sou muito jovem. Não posso ser assim. Não agora.
Ergo os olhos ao ouvir um barulho na casinha. É ele! Vejo seus olhos azuis bem a minha frente quando ergo o rosto e imediatamente o empurro para fora da casinha de bonecas. Fecho a porta na cara dele e vejo aqueles olhos lindos indo embora. Longe de mim. Fecho a porta e ele bate com força. Travo com o trinco por dentro.
- Katniss! Por favor, me deixa entrar... Por favor!
- Vá embora seu maldito! Eu te odeio! Eu te odeio e irei te repudiar para sempre! Nunca mais chegue perto de mim... Nunca mais!
- Mas Katniss... Deixe-me falar que...
- Não! Não quero mais ouvir suas mentiras! Vá embora! Vá embora!
O elevador não se fecha. Peeta coloca a mão no meio e a porta se abre. Volto do devaneio quando entro ao lado dele, no mínimo estorvada pela lembrança que me assolou. Suspiro longamente e aperto sobre a sobrancelha com os dedos.
- Desculpe por eu ser...
- Grossa? – interrompe.
- Você é um idiota.
- Você é uma... Caipira metida.
- Folgado.
- Só porque você tem esse bundão fica se achando...
A porta do elevador se abre no corredor cinco. Peeta sai a minha frente e se dirige a porta, destravando-a com a chave. Fico para trás totalmente boquiaberta! Porque sempre que ele fala de minha... Meu bumbum... Eu fico sem palavras? Esse idiota me desconcerta! Já saquei o jogo dele! Entramos no apartamento. Peeta tira a jaqueta e a camisa quando adentra a sala, ficando com o peito desnudo no mesmo momento. Não falo nada, apenas passo para o quarto. Minhas regras o fazem mais forte não é? Ele sabe como irritar... Pois bem. Vou para meu quarto e pego as coisas para o banho. Peeta está na sala vendo a TV sem camisa e jogadão no sofá como um príncipe. Passo por ele e pego a roupa dele no chão e arremesso em sua cara.
- Deixa de ser porco!
- Deixa de ser chata.
Bato a porta do banheiro com a raiva batendo no céu. Tomo banho rapidamente, ignorando a vontade de ir lá e dar na cara dele com muita força. Fecho-me no quarto, seco o cabelo e ouço música. Músicas que infelizmente me fazem lembrar de casa... Música que lembram minha infância... Quando me dou conta já é sete da noite! Pulo da cama e visto um short jeans e uma camisa decente. Saio do quarto com o cabelo seco e carregando meu celular com o fone. Vou para a cozinha e nada do energúmeno... Coloco uma música qualquer e começo a preparar o jantar. Frango xadrez. Sim... Isso é bom. Não me importa se ele gosta. Não estou nem ai para o...
- Nossa. Que cheiro bom é esse?
Reviro os olhos quando aparece sem camisa na cozinha. Aquilo me deixa constrangida, mas sigo mexendo o frango que cozinha na panela. Finjo não estar ouvindo, mas Peeta puxa um fone do meu ouvido e sua voz soa clara em minha cabeça.
- Alô marciano, aqui quem fala é da terra – cantarola em meu ouvido. O empurro rapidamente e quase derrubo a panela no chão. Peeta segura no lugar errado e queima a mão. Ele não grita, apenas xinga em palavrões altos e claros.
- Quem mandou ser idiota e ficar se intrometendo na cozinha? – coloco a mão dele sobre água gelada na hora – nem está tão feio assim...
- Porque não foi sua mão, né?
Afasta a mão de mim e fica xingando mais. Vou até o armário de remédio e pego uma pomada para queimaduras que trouxe comigo de viajem. Geralmente me queimo com o sol pela mínima exposição. Agarro-o pelas mãos rapidamente, mas Peeta me evita. Sai para a sala totalmente irritado.
- Deixa de ser criança! É só uma pomadinha boba... – sigo-o. Ele se acomoda no sofá com raiva, segurando uma mão sobre a outra – seja macho!
- Tá doendo essa porcaria. Sou macho, mas não de ferro – balança a mão. O empurro contra o estofado e me sento ao seu lado. Peeta nada diz, apenas fica olhando para meu rosto enquanto aplico a pomada em sua mão com cuidado – sua grossa... – diz quando termino.
- Mariquinha.
Levanto-me para guardar a pomada quando escuto a campainha. Peeta, do sofá, se levanta. Imediatamente me lembro da voz cansativa da menina da recepção dizendo: posso ir a sua casa hoje a noite?
Droga... É a Michelle!
