Empurro Peeta, que cai sentado no sofá, e vou até a porta ajeitando minha roupa. Sinto um cheiro bom antes de destravar a porta e aperto os olhos pela recordação. A comida! Volto-me para Peeta, pasmo porque o joguei no sofá, e aponto a cozinha.

- Fica de olho no frango!

Torce os lábios perante minha abordagem, mas fica de pé em um pulo para atender meu pedido. Dirige-se para a cozinha e finalmente me sinto segura em abrir a porta. Porque não me agrada a ideia de uma predadora sexual estar no mesmo lugar que Peeta? É o que penso enquanto prendo meu cabelo escuro em um coque no alto da cabeça e abro a porta. Vejo o rosto de Michelle, lindo e maquiado, bem a minha frente combinando com um short curtíssimo e uma camisetinha fofa. Usa um colar com seu nome no pescoço e seu piercing no umbigo está visível, a coisa mais piriguete que já vi. Ao lado dela está um cara alto, de pele morena e olhos verdes. É do tipo musculoso, usa camisa apertadinha e tudo... Caramba. É bem bonito, mas não me impressiona. Perco alguns minutos pensando aonde a tatuagem do pescoço dele irá dar quando o silêncio é interrompido.

- Oi Kat!

Olho para ela com certa confusão. Kat? Ainda estou pasma, com a mão apoiada no batente, enquanto encaro a dupla totalmente sinistra.

- Eu disse que viria, não disse? Aqui estou! – aproxima-se. Me dá dois beijinhos e vai entrando com a maior cara de pau. Só agora me dei conta que trás em suas mãos uma garrafa – esse aqui é o Will, meu... Primo. Eu falei de você para ele...

Coro totalmente quando o Will se abaixa para me beijar no rosto. Droga. Dou um sorriso desgarrado e faço sinal para ele entrar. Parece ser mais educado do que ela, mais um dos motivos para eu crer que Will e Michelle não são primos realmente. Nitidamente não. Reviro os olhos antes de fechar a porta com força e me virar para a sala, vendo Michelle parada no meio do cômodo admirando a decoração.

- Uau! Sua casa é muito bonita. Não é Will? – cutuca o cara, que se sentou no sofá com certa hesitação.

- É sim... Muito legal.

- AI CARAMBA! KATNISS! QUEIMOU TUDO ESSA PORCARIA AQUI E...

Já estou a meio caminho na cozinha quando Peeta põe a cara para fora e vê os dois convidados em meio a sala. O sorriso de Michelle se alarga claramente.

- Com licença galera... Meu colega de quarto está com problemas. Cinco segundos! – saio correndo e empurro a cara de Peeta de modo a ficarmos sozinhos na cozinha. Ele está me olhando com confusão quando tiro as mãos dele da panela e apago o fogo.

- Olha a droga que você fez! – sussurro vendo a grande quantidade de frango queimada. Sou obrigada a jogar grande parte fora.

- Quem são aquele maluco e aquela gostosa?

Está apoiado ao meu lado, um dos braços na pia. Coloco o frango bom dentro de um prato e enfio no micro-ondas. Se não vai dar para todos, para que oferecer? Limpo a mão no pano de prato antes de me virar para ele e responder.

- Vem comigo. Cala a boca e tanta não fazer besteira, ok?

Puxo-o pela mão e volto à sala. Ambos estão sentados no sofá e a garrafa que Michelle trouxe, pelo que vejo, é de vodca. A maior vodca que eu já vi.

- Michelle, Will, esse é meu colega de quarto, Peeta. Peeta – bato no peito dele propositalmente. Ele resmunga algo, mas está com o olhar fixo em minha amiguinha piriguete – essa é Michelle, minha colega de trabalho e esse seu... Primo, Will...

Não preciso nem terminar. Sou obrigada a testemunhar Michelle ficar de pé e correr até Peeta. Eles trocam um beijo no rosto cheios de sorrisos e o tal do Will apenas me olha. Suspiro pesadamente e vou até o sofá. Sento-me longe de Will com cara de acabada.

- Então... O que vocês estavam fazendo na cozinha? – questiona Michelle. Está parada em frente à Peeta, que se sentou perto de mim, com a mão no bolso de trás da calça. É ridícula a forma como ela olha para ele e morde os lábios.

- Jantar. Mas arruinei toda a obra dela e deixei o frango queimar...

- Acontece cara. É isso o que dá quando nos metemos na cozinha – diz Will em uma postura descontraída. Peeta concorda com um aceno.

- Ah, não tem problema! Podemos pedir uma pizza, afinal de contas... – olho para ela com certa antipatia. Realmente não sei por que, uma vez que a garota não faz nada além de dar encima de Peeta como uma cadela no cio. Não deveria odiá-la por isso, deveria? Por sorte Peeta cuida da pizza e acabamos pedindo duas.

- Eu posso comer uma sozinho – Peeta comenta após desligar o telefone. Apenas de presenciar a forma como ele está interessado nela também me deixa enjoada. Peeta volta a se sentar e Michelle praticamente se joga no colo dele, que não faz questão de se afastar. Olho para Will, que está me olhando como se esperasse algo... Ah não.

Fico de pé em um pulo. Pego a garrafa de vodca em mãos.

- Vou beber um pouco disso. Quem aceita? - ficar de porre. É o que preciso!

- Você? Bebendo? Não creio nisso... – brinca Peeta. Enroscada ao seu lado, Michelle ri de qualquer porcaria que ele diga. Olho-o com desdém e saio da sala.

- Eu te ajudo Kat...

Olho para trás e vejo Will arregaçando as mangas de sua blusa de mangas cumpridas apertada. Nem sequer penso em rechaça-lo, logo boto quatro copos sobre a pia e ele vai abrindo a garrafa sem falarmos nada, apenas encobertos pelos risinhos de Peeta e Michelle na sala. Sinto vontade de vomitar na cara deles.

- Você e Peeta são... Somente colegas de apartamento?

A pergunta não me parece oportuna, mas não ligo realmente.

- Graças a Deus sim.

Abro a geladeira e tiro de lá muitos cubos de gelo. Distribuo nos copos igualmente enquanto ele enche os mesmos com o conteúdo da garrafa, que parece ser capaz de encher a cara de muita gente. Ainda sobra vodca dentro dela.

- E você e Michelle... São realmente primos? – pergunto rindo, o que faz parecer que sou interessada na resposta. Claro que não sou, mas e dai se parece? Devo admitir que está me irritando a parceria Michelle e Peeta. Será que vai irritar a ele eu e Will também?

- Oh. O que você aposta? – gargalho e percebo que praticamente virei um copo de vodca.

Will levou a sala os outros copos e deu ao casal, que quando chegamos está rindo e bem próximo. Meu estomago embrulha quando vejo a mão de Michelle percorrendo o peito de Peeta. Arg. Sou obrigada a ir para o lugar no sofá mais longe deles. Cruzo as pernas e desvio o olhar, concentrada em beber. Arranco a garrafa da mão de Will e deixo-a do meu lado.

- Estou muito feliz que você vá trabalhar comigo na floricultura, Kat. Vai ser incrível – ela olha Peeta e sorri.

Claro que vai ser incrível! Sempre vai haver uma desculpa para ela se enfiar em minha casa e ver o idiota. Apenas sorrio com certa desarmonia. Finalmente batem na porta. É a pizza. Peeta vai pegar enquanto fico na sala com Will e a predadora sexual.

- Uau. Ele é lindo! – comenta ela nada baixo, propositalmente para que ele escute de onde está.

- É o que dizem... – comento girando o copo em meus dedos, fazendo o gelo derreter mais.

- Michelle também não exagerou quando estava falando de você, Kat.

Peeta virou o rosto quando Will disse isso. Os olhos azuis ficaram gelados e inexpressivos, algo que não presenciei neles em todo esse tempo. Quase engasguei com a vodca, tipo... Como assim? Afundei-me no sofá junto ao estofado com o copo na mão. Michelle se ofereceu para ajudar Peeta com a pizza, mas seu corte foi rápido.

- Acho que a Katniss não gosta que mexam nos pratos – o modo como deu ênfase no meu nome e olhou para Will me fez corar. Ah... Então é isso? A intimidade que estou tendo com esse estranho ao passo em que o mesmo me chama de Kat o irrita! Bravo! Reviro os olhos e volto a beber.

Eles se empanturram de pizza e o atencioso Will me trás um pedaço. Peeta espia de canto enquanto coloca pizza na boca de Michelle. Reviro os olhos e me seguro para não mandar essa vadia virar gente... Como em silêncio um pedaço de pizza de queijo com Will do lado. Ele fala bastante, pelo que entendi, trabalha em uma casa de assistência aos animais. Ele me prometeu um gato. Quando Peeta promete buscar Michelle no trabalho, me levanto e digo que vou dormir. Somente assim para essa biscatinha sair da minha casa logo! Não sem antes dar um beijo canto de boca em Peeta. Não sem antes fazer Will prometer me buscar no trabalho também. Uau. Encontro em grupo!

Eles vão embora e Peeta se despede dos mesmos. Já estou lavando a louça suja quando aquele babaca entra na cozinha com cara de marrento.

- Já foi embora sua cachorrinha no cio? – questiono esfregando os pratos.

- Foi você quem a convidou...

- Ela se ofereceu.

- Graças a Deus. Finalmente alguém para conversar – ele passa por trás de mim e fica ao meu lado, me vendo lavar a louça. Tenho vontade de manda-lo embora, mas sei que ele não iria e isso apenas o instigaria a ficar. Calo-me e esfrego a louça com raiva.

- Dá próxima vez vocês podem usar o quarto.

- Digo o mesmo de você com o filhotinho de academia.

- O nome dele é Will.

- Que se dane... Não gosto dele. Espero que ele não fique no seu pé.

Gargalho e enxaguo a louça. A garrafa de vodca está esquecida em um canto qualquer. Será que estou doidona por isso? Encaro o Peeta estático do meu lado, esperando uma reação. Simplesmente retiro as mãos molhadas da pia e jogo água em sua cara.

- Idiota. To nem ai se você não gosta dele... – zombo quando vejo as gotinhas descendo por sua cara linda. Já com a louça lavada, vou até a garrafa guarda-la quando sinto uma coisa gelada em mim. Peeta jogou água no meu cabelo! Giro em posição defensiva quando o vejo jogando mais água em minha cara. Grito. Corro até a pia e abro a torneiro, jogando água nele também. Começamos uma guerra ridícula e sem fundamento.

- Você é uma criança de sete anos! – berro para ele, tentando fugir da água que me atira com um copo.

- Você é uma garota chata e implicante – me jogo na frente da pia tentando fechá-la. Consigo, mas quando me dou conta estou prensada na geladeira. O corpo dele sobre o meu. Pisco algumas vezes um pouco nervosa, ofegante e desconcertada. Tento me soltar.

- Me larga seu babaca... Já parei de brincar.

- Eu. Não. Gosto. Dele.

Gargalho novamente e, quando consigo soltar os braços, saio de perto dele. Corro até meu quarto e bato a porta na cara de Peeta, que não insiste.

- Vai dormir vai. Você precisa buscar a Michelle no trabalho amanhã – zombo. Escuto a risadinha dele ao longe.

Finalmente estou em paz. Tranquila em meu quarto. Deslizo para dentro de um pijama confortável e caio na cama, me cobrindo com o edredom e botando os fones de ouvido. Uau. Isso sim é vida! Aciono o despertador para as sete, já que entro as oito, e suspiro ao som da musica e na calmaria. Peeta ficou mesmo bravo com Will. Mas por quê? O cara foi legal comigo... Mudo de posição na cama. Ok. Não vou ficar viajando, quero dizer... Peeta sente ciúmes? Mordo o lábio. Não. Por certo isso foi porque com o Will me comportei direito, não o ofendi nem nada disso. Já com ele o buraco é mais embora... Se estiver com uma faca posso acertá-lo. Com certeza irei tentar.

Já quase durmo quando a porta do meu quarto é aberta. Abro um olho e vejo Peeta, sem camisa, parado ao lado de minha cama. Estou pronta para berrar um "vai embora babaca" quando ele fala...

- Como fica isso dele te chamar de Kat?

Examino seu rosto na luz fraca que vem do corredor. Seus olhos são sinceros, preocupados... Tristes. Fico confusa na hora, me sinto estranha com sua abordagem. Sei que se falar algo irei gaguejar. Sei que se tentar, irei mentir. É melhor fazer o obvio... Pensar que tudo isso é uma brincadeira.

- Porque você não bateu antes de entrar?

- Eu bati. Você não me ouviu.

Pareceu sincero. Não está rindo ou sendo idiota. Apenas me encara com solenidade. Suspiro.

- E dai se ele me chama de Kat?

Dou de ombros. Ele ri sem muita graça.

- Você nem o conhece!

- Você também não conhece a Michelle e estava quase comendo ela no sofá da sala... Como fica isso? – ironizo. Ele não sorri. Não se pronuncia. Apenas passa a mão no cabelo nervosamente.

- Eu sou um homem e ela é uma oferecida e... Você é tão... Diferente. Não é certo eu ficar me privando de tentar e aparecer um idiota e... – estou confusa com suas palavras. Talvez seja por isso que ele desiste. Olha-me com expressão derrotada, se vira e diz ao fechar a porta – Boa noite Katniss.

Espio por baixo do edredom. Droga. Nem amanheceu ainda... Porque estou acordada se terei que ir trabalhar apenas daqui a umas horas? Olho no celular e ainda são seis horas. Não adianta. Nada vai me fazer dormir... Deslizo para fora da cama e calço os chinelos. Carrego o celular e largo os fones na cama. Vou até a sala e me jogo no sofá, vendo a luz fraca do sol começar a surgir ao longe. Nenhum resquício de sono me persegue, resultado da noite mal dormida que passei por causa dele... O idiota. O perturbado. O rançoso.

Como fica isso dele te chamar de Kat?

Essa misera frase me seguira por toda a noite, martelando em minha mente como os ponteiros de um relógio nas badaladas. Qual é a dele, afinal? Em meio às devaneios, cheguei a pensar que talvez ainda exista algum resquício do passado e, todavia, Peeta ainda pudesse sentir algo por mim... Quem saber estar apaixonado e... Mas... E porque então ficou longe todo esse tempo? Porque então quase comeu a Michelle na minha frente, me obrigando a encher a cara de vodca para ignorá-los? Deus... Porque eu fiz isso? Porque esse imbecil me afeta de tal maneira? Esfrego o cabelo nervosamente e me encosto ao sofá, suspirando... Fecho os olhos... Rapidamente me lembro de uma passagem de nossa infância muito doce, porém que mantenho as sete chaves na parte proibida de meu coração.

- Porque você briga comigo? – sussurra ele quando paro de correr e me encosto ao tronco da árvore grande. Tem o rosto convertido em confusão, está muito bonito com aquela carinha confusa e triste, os olhos azuis marcantes no rosto frágil.

- Você implica com tudo o que eu faço... Com todos os amigos que tenho... Com tudo o que falo! – esbravejo sem olhá-lo, encarando o chão como a boba e frágil que cheguei a ser – porque não é capaz de me deixar em paz? De esquecer que eu existo?

Sem explicações, a mão dele toca meu rosto com cuidado. Aquele contato me faz estremecer, meu coração dispara no peito. Sinto o rosto corando quando nossos olhos se encontram, quando vejo sua imensidão azul fixa em mim... Ele me deixa confusa. Sem fala. Sem ação. Espero ansiosamente suas palavras...

- Você não se dá conta? – seu tom de voz é dolorido. De quem sofre. Nada faço, apenas o vejo em frente a mim – depois de todo esse tempo você ainda não percebeu?

- Perceber o que? Que você me odeia? Que tudo o que faço é errado para você Peeta? – uma lágrima cai de meu olho. Ele seca com rapidez suficiente para que eu contenha as demais. Engulo o choro. Ele me odeia... E essa ideia me faz ficar mais louca do que tudo! Não suporto isso... Não suporto que ele me odeie uma vez que eu... Eu o amo. Não sei ao certo se é amor, mas acho que talvez seja. Minha mãe sempre diz que o amor te faz estremecer, te faz esquecer tudo... E que ela tinha minha idade quando aconteceu com meu pai. Quando vejo Peeta tudo apaga. Quando estou com ele nada existe, apenas nós... Será que o amo?

- Não Katniss. Tudo o que você faz é perfeito... Tudo o que você faz é lindo – paro de respirar com isso. Não compreendo suas palavras, por isso fico calada, apenas encarando-o – eu reparo e adoro como um louco cada coisinha que você faz... O problema é que você é tão perfeita que é incapaz de olhar para um idiota como eu.

O que?

- Mas...

- Você não se importa comigo. Você nem me considera seu amigo... Savannah e Ashley são importantes para você, assim como aquele idiota do Gale, seu amiguinho rancheiro. Mas e eu? O que eu sou além de um idiota que você é obrigada a aturar em alguns verões? – pisco olhando-o, totalmente surpresa por suas frases – eu tenho inveja de minhas irmãs por serem suas amigas. Tenho inveja do Gale por ser seu preferido... Tenho inveja de todo mundo que viva perto de você e represente algo... Eu quero ser algo para você... Eu... Eu acho que talvez... Que talvez, você sabe... Eu te... Ame.

Abro os olhos quando escuto uma porta se abrindo. A visão de Peeta de trás me pega de surpresa... Simplesmente porque ele está pelado dou um gritinho antes de fechar os olhos com as mãos diante de meu rosto.

- Ai que droga! Eu juro que não sabia que você estava acordada e... – ele está dentro do quarto, talvez colocando uma roupa. Tarde demais. Ainda tenho na cabeça a imagem perfeita do bumbum dele. Graças a Deus não vi aquela outra parte... Ele estava de costas.

- Eu realmente agradeceria se você usasse roupas.

Destapo os olhos. Ele está agora com uma bermuda escura e o peito ainda desnudo. Tem a cara amassada e o cabelo bagunçado... Está com o rosto vermelho, mas não parece constrangido, e sim sonolento. Arrasta-se para o meu lado coçando o cabelo desajeitadamente. Reparo que existe um colar pendurado em seu pescoço, indo até o meio do peito. É uma bola de metal com um desenho espiral na frente. Nunca vi isso antes... Tem algo em Latim escrito na frente.

- Não foi intencional.

- O que é isso? – aponto o colar quando ele se senta do meu lado todo largado. Apoia cabeça em mim, mas o empurro sem pensar. Peeta resmunga, mas em seguida pega o colar que aponto entre os dedos e, se possível, seu rosto cora mais.

- É um presente... Madrinha me deixou quando se foi – sorri de canto ainda olhando para o colar.

- É um medalhão? Ele se abre e tem fotos?

- Exato.

- O que está escrito?

- Soulmate.

- Jura? – ironizo – o que significa?

- Alma gêmea.

O silêncio domina a sala e antes que eu possa pedir para ver o colar, Peeta sai de perto de mim e vai para o corredor. Entra no banheiro e bate a porta audivelmente, talvez querendo me afastar. Certo. Ele não gosta de falar disso... É melhor nunca perguntar. Me troco para o trabalho sem muito alarde, fazendo uma maquiagem leve. Quando estou saindo, ele pula na minha frente usando jeans e jaqueta.

- Posso te levar hoje? – oferece com o entusiasmo no alto.

Reviro os olhos e ajeito a bolsa nos meus ombros, mas noto de imediato que meus sentidos estão todos voltados para o colar no peito dele. Quero perguntar quais as fotos ele tem. Quero saber sobre aquilo, porque é tão importante a ponto de fazer meu falante Peeta ficar em silêncio. Quem sabe se eu for agradável possa conseguir algo...

- Ok. Tenho certeza que a Michelle vai ficar feliz – ele abre a porta para eu passar. Olho para ele meio confusa antes de sair, mas o faço rindo. Peeta e sua mania de querer me impressionar. Algo novo, mas engraçado.

- Sim, ela vai adorar... Mas eu realmente preciso sair - estamos no corredor, parados lado a lado de frente para o elevador, e ele segue empolgado – vou pedir um emprego na Empresa do meu tio Josh e ficarei fora uns dois dias.

- Ah... Um emprego? Não me impressionaria se você conseguisse. Tudo é tão fácil na vida de um Mellark – zombo mantendo meus braços cruzados contra o peito. Realmente estou morrendo de medo de ele fazer uma piada sobre meu decote. Madame Donner me disse para usar blusas brancas e essa era a mais limpa que eu trouxe. Nem comento o fato dele ficar fora dois dias. Isso não me importa... Ou importa?

- Não tão fácil.

O elevador chega. Peeta tagarela animadamente sobre o tal tio Josh. Eu me lembro dele, é claro. O irmão mais velho de Michel Mellakr, um empresário muito famoso no ramo automobilístico. O mesmo vivia dando encima de minha mãe nos verões em que nos encontrávamos, madrinha o odiava. Josh Mellark era o tipo de homem mais desprezível para as pessoas de onde venho. Dormia com qualquer uma e sempre tinha uma mulher diferente em sua cama... Realmente sempre foi bonito, e pelo que vejo nas revistas o tempo não alterou muito sua beleza. Talvez seja por isso que é padrinho de Peeta. Os dois são farinha do mesmo saco em todos os sentidos! Fala bastante sobre sua viajem. Diz que vai atravessar o Estado de carro e isso, para ele, é foda. Dirige feito um louco e fala pelos cotovelos. Mantenho-me calada apenas rindo de suas palavras. É engraçado vê-lo xingando os motoristas que fazem porcaria no transito.

- É ali na esquina... Obrigado pela carona – finalmente o carro estaciona em frente à floricultura. Tento abrir a porta, mas a mesma está travada. Olho para Peeta com a interrogação estampada na cara. Vejo-o largadão com os braços abertos – que isso agora?

- A carona não foi de graça. Eu quero meu beijo de despedida! Sei que você vai sentir minha falta, por isso, me beije.

Demoro dois segundos para começar a rir demasiadamente, encarando-o um tanto confusa.

- Beijo? Ficou doido? Não vou ficar te fazendo favores sexuais e...

Ele aponta a própria bochecha e sorri inocentemente. As portas estão travadas. São cinco para as oito. Droga. Estico-me e selo os lábios em sua bochecha delicadamente, mas não antes de Peeta passar o braço por meu pescoço e me prender perto dele, enchendo meu rosto de beijos. Eu me debato, o empurro, mas não consigo me afastar. A risada está presa em minha garganta, mas não consigo me entregar a essa brincadeira tão fácil. Ele não pode me pegar de novo! Afasto-me quando tenho chance e ajeito-me.

- Idiota – sussurro sem olhá-lo – você me paga!

Grito antes de sair, assim que as portas destravam. Escuto sua risadinha vindo do carro quando me dirijo a porta da floricultura totalmente descabelada e desarrumada. Paro para me recompor e ele passa por mim e buzina. Mostro a língua para ele antes de revirar os olhos e ir trabalhar... Penso em Peeta. Pensando em minha noite mal dormida. Penso que irei ficar sozinha por dois dias. Imaginando o que há dentro daquele colar.