A primeira sensação que tive foi a de uma água absurdamente gelada sendo derramada sobre minha cabeça. Abri os olhos em um sobressalto, sentindo a cabeça pesar e o corpo todo ardendo com a sensação fria penetrando em meus ossos, gelando até os confins de minha alma. Suspirei e bati os dentes, tentando em vão ficar de pé e me livrar desse peso frio. Mãos fortes me empurraram novamente para a posição inicial, me fazendo dar um giro pelo local onde me encontro.
Uma banheira grande, que não é a do banheiro comum. É a da suíte do quarto que parece motel. O chuveiro estava aberto e caia água sobre minha cabeça, uma vez que estou deitada na banheira, as costas apoiadas eretas na parede fria da mesma. Estico as mãos e sinto as bordas em meus dedos. Resolvo relaxar, apoiando o pescoço no descanso de cabeça. Até que depois que acostumei com o frio à sensação foi boa, reconfortante, tirando de meu corpo pesado essa sensação duradoura de impotência. Relaxei e fechei os olhos... E então percebi que estava de roupas. Camiseta e Jeans, sem meias ou sapato. Sem pensar, tirei a camiseta por cima da cabeça e joguei ao lado da banheira, deixando a água me preencher melhor. Desci as mãos e desabotoei o jeans, empurrando para baixo a calça. Joguei para fora também. Levei as mãos ao feixe de frente do meu sutiã e não consegui abrir... Tive que abrir os olhos para fazer direito. Um par de olhos azuis me encarava congelado, sem ação diante da cena. Retirei a mão do sutiã como se queimasse e apenas observei Peeta parado do lado de fora da banheira com a camisa toda encharcada e a calça também. Estava com um dos olhos roxo como se houvesse tomado um soco e o lábio do lado direito estava cortado. O sangue descia do ferimento manchando levemente sua pele clara. Engoli em seco quando percebi a gravidade da situação... Quando me lembrei de como cheguei ali.
Restaurante. Bebida. Boate. Aniversário. Segredos. Eu louca. Meus segredos. Os olhos de Peeta. Eu desmaiando e ele correndo para mim. Eu seminua e ele me olhando.
Apertei os olhos e tive vontade de me afogar totalmente na banheira. Ok. Pelo menos não estou completamente pelada... Mas isso realmente não importa. Ele ouviu tudo o que eu disse lá. Ele sabe que sou... Apaixonada... Por ele. A pergunta que me martela o coração agora é se ele se vai citar a passagem. Se ele vai falar comigo sobre o que ouviu ou se irá ficar calado. O que eu devo fazer? Pedir desculpas ou fingir que nada aconteceu, que me esqueci? Cruzo os braços diante do peito.
- Quem te bateu?
Minha voz soa clara e arrastada ainda pela bebida. Como se estivesse realmente cansada. Sinto-me mais leve, porém ainda dolorida. Dolorida de que? A resposta vem a seguir.
- Você. Me deu um soco no olho e...
Mordeu a minha boca.
Ainda parece uma estátua me olhando do lado da fora da banheira. Está parado sem mover um músculo, somente me encarando. O sangue escorre do ladinho de sua boca ainda...
- Mordi é? O que realmente aconteceu... ?
- Bom... – ele dá alguns passos até se encostar a parede a minha frente – primeiro você caiu encima de todo mundo, eles te ergueram e eu te peguei. Levei você pro carro e nesse trajeto teus olhos se abriram e eu levei um soco na cara – falava como se não fosse nada. Senti vontade de rir – depois disso dirigi até aqui, a senhorita dormia e só acordou de novo quando eu te tirei do carro... No elevador, bom... – coçou a cabeça e desviou os olhos para a janela – você mordeu a minha boca. Coloquei-te na banheira e sua consciência voltou. Fim.
- Como mordi sua boca?
- Com os dentes.
- Você me beijou?
Silêncio.
Ele nem precisou falar nada. Estava escrito na sua cara que sim. Meu Deus... Apertei os olhos.
- Onde estão Will e Michelle?
- Não tenho nem ideia.
- Não vai ligar pra ela?
- Não. Você quer que eu ligue?
- Não.
- Vou... Fazer um café para você.
Então saiu sem sequer olhar para trás. Tá legal. Já posso acordar desse sonho idiota? Já posso voltar a ser a menina racional e que não se iludi por nada? Onde foi que eu errei? Sinto-me tonta.
Sai da banheira e fui para o meu quarto cambaleando, nua e pingando, sem nada sobre o corpo. Se Peeta estivesse passando, teria uma visão inesquecível de mim pelada, bêbada e tropeçando. Por sorte isso não aconteceu. Obviamente no momento minha cabeça doía e eu nem sabia o que estava se passando, mas quando me vi desnuda diante do espelho cai em mim e resolvi colocar uma camisa e uma calcinha. Sentei sobre a cama com a sensação de que minha cabeça pesava cem quilos. Com o estomago doendo. Com o mal-estar mais idiota de toda minha existência... E tudo iria piorar. Porque Peeta não dava sinal de vida? De repente comecei a chorar. De repente me lembrei de minhas roupas jogadas no outro banheiro e me arrastei de volta para recolhê-las, porém de tão cansada que a visão da cama foi mais tentadora. Estava ali... Sozinha... Aconchegante... Grande. Cai sobre ela como um peso morto. Com o cabelo pingando e molhando o travesseiro maravilhoso. Com o cansaço deixando por um segundo meu mundo girar. Fechei os olhos quando pensei que poderia relaxar.
- Se liga na delicia desse chá!
A voz dele era próxima e empolgada, levemente úmida de orgulho. Virei-me na direção oposta a ele, deitando com a cabeça sobre um dos braços.
- Vá embora babaca. Quero dormir.
- Não vou arredar o pé daqui antes que prove o meu chá... – nada respondo, nem se quer me movo, tentando vencê-lo pelo cansaço – anda logo. Você está com a bunda virada pra mim, estou vendo tudinho e...
- Ok!
Virei para Peeta vendo um sorriso vitorioso em seus lábios. Fiz esforço para me sentar e pegar a xicara com liquido fumegante nas mãos. Beberiquei com cuidado sob o olhar vigilante e apurativo de Peeta.
- Não era café?
- Pensei melhor. Café tira o sono – explicou – bebe!
- Ok! Estou bebendo... – bebi mais um gole. O liquido quente desceu por minha garganta agradavelmente, me fazendo ficar grata por existir. Aquilo amenizou um pouco minha dor de estomago. O enjoo parecia ir embora a cada gole. Espiei Peeta pelo canto do olho. Ele parecia esperar uma resposta com sua carinha de expectativa. Agora que percebi... Está sem a camisa e o colar bonito pendura em seu peito nu. Também não usa meias, posso ver seus pés. Coro quando ele me pega olhando-o – está muito... Legal o chá.
- Legal? – ironiza. Escondo-me atrás da xicara totalmente corada – esperava ao menos um bom ou quem sabe delicioso... Não um legal.
- Está delicioso Peeta. Obrigado pela gentileza.
Pela primeira vez, talvez, falei algo sem ironizar ou brincar. Sem estar, no fundo, querendo ofendê-lo. Obviamente ele notou... Obviamente isso o fez se aproximar mais um pouco de mim na cama. Comecei a beber descontroladamente o chá apenas para ter algo com que se distrair além da presença masculina na cama. Por favor, não fale nada sobre minha declaração. Por favor, não me questione. Por favor, não sai desse quarto e me deixe sozinha.
- Está se sentindo melhor? – logo concordo e paro de beber o chá. Estendo o xicara para ele, que apanha rapidamente e coloca no criado mudo.
- Sim. Obrigado.
Deito-me na cama grande novamente, de costas para o colchão, olhando direto para o teto. O fato de minha roupa ser pequena demais para um contanto com ele me passa despercebido. É ridículo, mas confio nele. Sei que Peeta jamais seria capaz de me encostar um dedo se eu não quisesse... Claro que teve o beijo, naquela noite, onde ele pensava que eu estava adormecida. E também hoje, quando me beijou enquanto estava bêbada e nem me lembro do fato... Mas... Nada disso me feriu gravemente. Nada disso me fez mal. Apesar de tudo, esse cara é legal. Ele me respeita um pouco.
- Vai dormir aqui? – está sentado ao meu lado, me olhando. Continuo deitada sem olhá-lo.
- Vou.
Minha resposta o faz corar um pouco. Isso sim é inédito!
- Posso... ? – aponta para o espaço ao meu lado. Penso em dizer não, mas relevo. Ele me respeita um pouco. É hora de provar isso.
- Claro.
Afasto-me um pouco para que sobre espaço suficiente para Peeta, que deita ao meu lado com calma e tranquilidade. Ajeita-se confortavelmente e a pele nua de seu braço roça o meu também. Isso é... Legal. Movo-me para ver se quebramos o contato, mas não. Apenas seguimos da mesma forma... Isso é engraçado. Ele pigarreia. Eu suspiro. Ele tosse. Eu sorrio.
- Quer que apague a luz? – sugere.
- Beleza.
Ele se vira e apaga a luz, porém a janela de vidro possibilita que um pouco de claridade entre no quarto. O suficiente para que meus olhos possam captar a presença do colar de prata pousado em seu peito. Avalio-o por um longo momento até ser atraída pela curiosidade e me inclinar para pegar. Meu corpo todo se cola ao de Peeta, sua pele quente roçando a minha dos pés a cabeça. Ele mal se move. É uma pedra sob minhas mãos. Deito a cabeça em seu peito e avalio o colar com a mão. Sua respiração é calma. Posso ouvir seu coração batendo erraticamente, exato ao meu.
- Katniss, eu...
- Não diz nada – sussurro em meio a tudo, pousando o colar sobre seu peito de novo. Fecho os olhos e pouso o palma sobre o pingente, acalmando-me, acomodando-me. Sinto-me confortável. Sei que estou segura, que posso passar toda essa noite aqui... Sei o que ele vai dizer. Ou talvez saiba. Sua mão forte desliza em meu cabelo delicadamente, acariciando-o – por favor, não fala nada...
Talvez esse tenha sido o melhor sono de minha vida.
Naquela fui obrigada a ir deitar mais cedo. Talvez porque meu pai estivesse suspeitando de meu possível envolvimento com algum garoto e me prender em casa fosse à solução. Savannah, Ashley, Peeta, Terry, Ben e eu tomávamos banho de chuva com algumas crianças quando meu pai me chamou da varanda. Tive que ir... Tive que deixa-lo. Fora difícil largar sua mão. Papai, com toda sua desconfiança, jamais acertaria quem de fato roubara meu ingênuo coração. Suspeitava de todos, menos dele. Talvez porque não fosse meu tipo... Talvez porque eu não fosse o estilo de menina que Peeta gosta... Deveras não era relevante. O que me doía era ter que assistir todos tomando chuva de verão, exceto eu.
Depois de tomar banho quente, vesti uma camisola longa e ridícula e me sentei na janela grande de meu quarto, que dava direto para o jardim onde eles brincam. Curiosamente vi Peeta jogando Ashley em uma possa d'água. Os cabelos longos, ruivos e lisos da linda menina esvoaçavam por todas as partes, assim como a franja de cabelos loiros se colava a testa úmida de Peeta. Ambos caíram em uma poça grande e se sujaram. Sorri quando Savannah se aproximou provavelmente tirando o sarro e Peeta pegou a irmã mais velha pelo calcanhar e a puxou para a poça também. Vislumbrei apenas o cabelo loiro e maravilhoso de Savannah voando quando ela caiu... Gargalhei e nesse exato momento os olhos azuis de Peeta foram para mim, reclusa na torre.
Enquanto Savannah e Ashley tentavam se matar, Peeta saiu de dentro da poça de lama e caminhou até mim, sob a janela. Nenhuma menina estranha brincava com ele, apenas as irmãs. Somente olhei quando seus braços se ergueram e ele me chamou. Fiz que não com a cabeça, a expressão triste. Provavelmente fui compreendida. Olhou para o lado... Para o outro... Como se estivesse procurando algo. Então sumiu. O que? Meus olhos procuraram pelo menos loiro até que surgiu a minha frente, exatamente a frente da minha sacada, do lado de fora. Corri até lá. Parei em frente ao vidro, já que a chave da sacada estava com meu pai. Espalmei a mão sobre o vidro e Peeta fez exatamente o que fiz. Uma mão sobre a outra. Sorrimos. Desenhei um coração no vidro embaçado e coloquei um P no meio. Ele riu, mas em seguida escreveu uma frase pequena em baixo do desenho que aos poucos se borrava.
Você é minha alma gêmea.
E eu me perguntava se isso iria durar para sempre...
Acordo com o sol fraco atingindo meus olhos. Sol. Uau... Depois de toda aquela chuva horrenda de ontem, finalmente um dia de sol. Isso sim é bom. Abro os olhos delicadamente, piscando com cautela, e tenho uma surpresa quando olho para cima e vejo quem está adormecido ao meu lado, com os braços ao meu redor. O que aconteceu, afinal?
Seus olhos estão fechados, seu sono é nitidamente gostoso e profundo. A sensação que tenho é de ver um homem contente e... Amado? Tenho medo de me sentar bruscamente e acordá-lo. Tenho medo do que possa acontecer quando ele despertar e se der conta de que dormimos juntos. Logicamente, no sentido literal. Não houve sexo. Não houve nada! Apenas sonhos estranhos. Movo-me desconfortavelmente na cama. Faço uma manobra idiota para me livrar do braço de Peeta que descansa sobre meus ombros. Finalmente consigo sair dali sem acordá-lo, ainda aquecida pela proximidade indesejada de seu corpo. Olho para ele na cama... Como fomos parar nisso mesmo? O que passou ontem?
As coisas começam a aparecer em minha mente, porém não quero realmente descobrir as respostas. Tenho a impressão de que fiz muita porcaria para uma noite só. Saio do quarto e cheiro meu cabelo. Tem cheiro de Peeta, assim como todo meu corpo. Uma fragrância agradável e masculina... Céus. Preciso me livrar disso. Preciso tirar de mim tudo o que envolve a ele! Percebo que estou chutando bagunça, por isso começo a fazer uma faxina de ultima hora. Coloco uma roupa qualquer e começo a lavar as peças sujas, esfregar o chão, lavar o banheiro... A hora corre! Conforme vou limpando, as coisas aparecem em minha mente como uma rajada de memória indesejada.
- Você me beijou?
Derrubo o vaso. O mesmo se faz em caquinhos ao lado dos meus pés, que por pouco não se cortaram gravemente. Suspiro diante da bagunça. Não posso ficar me deixando levar por lembranças, por caprichos, por coisas que há muito deveriam ter sido esquecidas e apagadas... Calço um sapato mais seguro e vou até a cozinha pegar a vassoura e a pá para recolher a sujeira. Noto que já são quase meio-dia e nada de Peeta acordar. Enquanto recolho os cacos de vidro, decido não fazer comida e sim sair para comer em algum restaurante de esquina. Há muito tempo não dedico uma refeição só para mim, tranquila, longe dessa louca que rodeia minha nova vida nesse apartamento. Termino. Passo pelo quarto do meio e espio na entrada... Ele está dormindo em um sono profundo, quase inabalável. Apanho minha roupa já deslumbrando em mente o tipo de lugar que quero frequentar para almoçar. Um simplório restaurante Italiano na esquina de meu trabalho. Parece ser ótimo e barato, exatamente do jeito que procuro. Tiro a roupa com certa aspereza. Mesmo estando suada, o cheiro dele ainda está impregnado em mim pela cama que inocentemente partilhamos. Minha pele suja implora por ser lavada da presença de Peeta, mas no fundo desejo somente estar mais perto.
Nua, adentro ao Box com cuidado, girando a válvula principal em meus dedos. A água que cai sobre mim é quente e agradável. Fecho os olhos diante da maravilhosa sensação que me preenche da cabeça aos pés, porém um grito estridente rompe o espaço quando tudo fica frio. Apenas percebo que fui eu quem gritou quando saio de baixo do chuveiro de água congelante me debatendo, totalmente molhada e tremula. Que porcaria é essa? Desligo. Ligo novamente para ver se volta a esquentar... Nada! Bato no chuveiro com o shampoo. Nada! Passo do frio para o quente umas mil vezes... Nada! Droga.
Enrolo-me em uma toalha nem tão grande assim, mas que pode esconder meu corpo gelado e tremulo de Peeta. Coloco os chinelos e abro a porta do banheiro com os dedos dormentes. Meus passos fazem o chão do corredor úmido, uma vez que pinga água de mim para todo lado. Não acredito que estou me prestando a isso... Espio Peeta novamente. Está dormindo. Aproximo-me. Paro ao lado dele na cama, que está deitado de bruços com o travesseiro sobre a cabeça.
- Peeta? – sussurro e o chacoalho delicadamente - Peeta? Acorda.
- Uhm... – resmunga e continua na mesma posição. Não consigo ver seu rosto encoberto.
- Preciso de ajuda! Anda, sai dessa cama... – chacoalho mais forte – Peeta!
- O que foi mãe? – resmunga dele. Não consigo ficar sem rir, mesmo baixinho. Cruzo os braços em frente ao corpo. Ainda tem o travesseiro sobre a cara.
- Mãe? Katniss, Peeta, Katniss! – ironizo – anda logo, levanta! Preciso de ajuda com o chuveiro! – insisto.
- Chuveiro? – a voz arrastada me faz estremecer – pra que?
- Não sei. É por isso que vim te chamar...
- Ah é? – ainda está da mesma forma. Meus pés começam a bater no chão. Já começo a cogitar jogar um balde d'água fria na cara idiota dele – ok. Mas primeiro você precisa me pedir "por favor".
Reviro os olhos perante a infantilidade dele, mas sei que é assim que vamos jogar. Mordo os lábios de raiva.
- Por favor, Peeta, você pode fazer a gentileza de me ajudar com o chuveiro? – falo em tom doce e inocente.
- Por favor, Peeta, Deus da beleza e sabedoria...
- Já chega! Anda logo seu idiota, sai já dessa cama antes que eu te tire dai aos tapas! – grito puxando o edredom dele, que cai ao chão e revela sua mesma roupa de ontem. Em um movimento brusco, Peeta tira o travesseiro da cama e se senta.
- Mas você é uma chata e... – para de falar quando me vê. Agarro a ponta da toalha um pouco assustada pelo olhar de surpresa que me lançou. Talvez não esperasse me ver seminua assim. Vulnerável pelo modo como estou molhada e tremendo. Vejo sua garganta se movimento, ele engolindo em seco. Isso é tão estranho... Que ideia foi essa Katniss?
- O chuveiro ficou frio – digo querendo quebrar esse clima, essa tensão no olhar dele sobre mim.
- Frio? – sua voz é insegura. Um mero sussurro. Não se move. Não faz nada. Apenas me olha. Tenta disfarçar, mas é constrangedor para nós dois toda essa situação.
- Sim. Do nada... Ficou frio.
Fica de pé. Meu coração para quando ficamos a vinte centímetros de distancia. Ta legal... Esse frio dentro de mim, essa sensação congelante foi embora, dando lugar a uma onda de calor distinta que me toma dos pés a cabeça. Quero me mover. Quero sair daqui, mas não posso. Meu corpo simplesmente não responde! Sinto-me mais bêbada do que ontem à noite, me sinto um emaranhado estranho de sentimentos. Porque ele mexe comigo desse jeito? Sua mão quente toca meu braço delicadamente.
- Você está fria...
- E tremendo – completo a frase. Minha voz é hesitante.
- Vou resolver isso.
Por um minuto pensei que iria me beijar, mas apenas se aproximou demais para se esquivar da cômoda atrás dele. Em um minuto estava longe demais para ser alcançado. Suspiro e o sigo lentamente, não querendo ficar muito perto, porém não desejando tão pouco perdê-lo de vista. Foi até a caixa de força e fez alguma coisa. Rapidamente voltou para o corredor coçando os olhos e passou por mim sem ao menos olhar em minha cara. Obviamente estou mais vermelha que tudo, nervosa e também evito encará-lo. As coisas são fáceis, porém difíceis entre nós. Adentro ao banheiro e lá está Peeta mexendo no chuveiro, em alguma coisa que não sei ao certo o que é.
- Acho que caiu a resistência – comenta olhando para o buraco que abriu no chuveiro. Está encima de um apoio da banheira.
- E o que significa? – questiono impaciente.
- Que vai ter que se trocada! – responde como se fosse obvio. Tira a camisa e limpa alguma coisa com a mesma. Desvio o olhar de seu peito nu.
- E de onde vamos tirar uma resistência? – ironizo. Peeta fecha o chuveiro e desce do apoio, parando a minha frente com a camisa suja na mão. Ele faz de propósito... Aposto que tudo isso é um jogo para me envolver ou no mínimo me deixar constrangida ao máximo! Usa a camisa para secar o peito.
- Temos que comprar.
- E eu tomo banho onde?
- No quarto do meio – revira os olhos ao responder.
- Então vai comprar a resistência...
- Porque eu?
Estou no meio do corredor, indo para o banheiro do quarto, quando a campainha toca. Peeta, parado atrás de mim, logo se alarma, como se estivesse esperando o barulho.
- Está esperando alguém? – seu rosto pálido evidencia a resposta, não preciso nem sequer insistir – Ah... Mais uma vagabunda?
- Katniss... – tenta falar.
- Já entendi! Pode deixar que eu abro a porta para você, queridinho... – sorrio.
- Katniss! – grita, mas já estou a meio caminho, mais na frente do que ele.
Minha intenção? Zoar com a cara dele e me mostrar assim, de toalha, para quem quer que seja a piriguente que veio atrás dele. No mínimo irei afastar de meu apartamento um peso loiro e magro a mais. Não estou a fim de travar uma disputa por território em minha própria casa hoje. A talzinha com certeza vai morrer de ciúmes quando me ver assim com ele. Giro a maçaneta em meus dedos e vejo Peeta absurdamente pálido do outro lado, passando a mão no cabelo exasperadamente. Isso me faz rir. A porta está aberta... Paro de rir no exato momento em que vejo a figura parada no corredor, olhando fixamente e assustadoramente para mim.
Loira. Linda. Olhos azuis e muito familiares. Usa um vestido rosa claro da Dior, sapatos altos e bonitos. O colar em seu pescoço com a letra S me é reconhecível mesmo depois de todo esse tempo, assim como as poucas sardas espalhadas em sua bochecha. Ela sorri e pisca um pouco surpresa. Estreita o olhar antes de apoiar a mão no peito e falar, finalmente.
- Katniss?
Droga. É ela! Savannah! A irmã mais velha de Peeta.
