One Piece (c) Oda Eiichiro, ou seja, DEUS

Avisos: Esta fic contém cenas fortes de violência, tortura e mutilação. Linguagem imprópria, ZoSan YAOI (relacionamento homossexual entre homens). Caso algo disso não te agrade, não prossiga.

Essa fic partiu de uma forte inspiração sobre a doujinshi "Spit Out your Soul", do Circle ROM-13.

O yaoi é leve. Mas existem cenas que deixam isso explícito. A ideia principal da fic, porém, é o que acontece ao Zoro e não o relacionamento com o Sanji. Obrigada a quem se interessar e boa leitura :3


Euforia

(Algumas horas antes)

- Então, kenshi-san, o que quer tomar?

Zoro e Robin estavam num dos bares da cidade; só eles queriam fazer isso, então acabaram indo juntos. Robin pediu um café preto e o espadachim pediu por uma cerveja com fermentação especial, após vê-la no cardápio. Sentaram-se no balcão do bar mesmo ao invés de numa mesa e assim que os pedidos chegaram, ambos concentraram-se no que bebiam, sem conversar.

Era natural. Os dois tinham essa natureza calada. E como estavam em paz – já que como a mulher havia dito para todos, não haveria problemas porque a Marinha não ia para lá –, não tinham sobre o que conversar... E Zoro não gostava de falar sobre si mesmo.

Continuaram por lá até que um homem estranho aproximou-se de Robin e começou a conversar com ela. O espadachim apenas observou, notando que sua nakama estava ficando um pouco pálida demais... E era impossível alguém ficar daquela maneira depois de tomar meia xícara de café que mais parecia uma tinta de tão forte que era. A única coisa que ele pensava é que ela estava sendo exposta à kairouseki. E o cara a estava tocando com o mineral, de alguma forma.

E quando ele percebeu... Aquele homem chegava perto demais e Robin caiu do banquinho, de costas ao chão.

Zoro levantou imediatamente e sacou uma das katanas, colocando a ponta na altura do pescoço daquele indivíduo. Ele não pareceu se afetar.

Mas ao invés de olhar para o lado como faria sempre, o espadachim manteve os olhos nele porque acreditava que aquele homem – e apenas ele – estava querendo alguma coisa esquisita para cima da arqueóloga. E isso resultou em receber uma chave de braço, prendendo-lhe a garganta e o golpearam nas costas com uma agulha. Muito perto da coluna vertebral, mais um pouco e poderia ter lhe deixado paraplégico ou algo assim.

E um incômodo lhe subiu direto à garganta. Soltaram o rapaz e ele vacilou nos joelhos, apoiando-se no balcão do bar. As pessoas que nada tinham a ver com a coisa toda fugiram rapidamente.

- Obrigado pelos oitenta milhões de berries, Roronoa Zoro.

Era o valor pela cabeça de Nico Robin.

- Vou voltar para buscar o resto.

Zoro apertou a katana com força e, num movimento rápido até demais, decapitou a pessoa que estava atrás de si e que o havia golpeado com aquela agulha e injetado "seja-lá-o-que-for" nele. Só teve tempo para observar a cabeça sair rolando pelo chão e uma euforia fantástica tomou conta de seu corpo e alma. Algo incrivelmente satisfatório. O fez sorrir, alucinado, mas logo, seu sorriso desapareceu e ele voltou a olhar para onde estava sua nakama e aquele homem estranho, mas... Não estavam mais lá.

- ROBIN! ROBIN!

Correu para a porta, mas já não via mais aquela pessoa. Correu mais e procurou-o, mas havia desaparecido. Tentou se informar e apenas uma pessoa havia dito que o viu indo para a floresta... E "tentou" correr para lá, visto que obviamente se perderia com muita facilidade.

Enquanto corria, aquela coisa que sentiu antes subiu com ainda mais intensidade. Era porque foi recente?

Havia um homem sentado num banco, numa rua isolada. Zoro perfurou seu coração.

E um rapaz regando as plantas na parte de trás do jardim de sua casa. Zoro arrancou seu braço e o matou em seguida. E o sujeito que apareceu após ouvir o grito de, talvez, seu filho, teve sua cabeça arrancada sem nem ter tempo de contestar.

E ele seguiu matando, matando... E matou quinze pessoas. Teve que parar para tomar fôlego e segurou sua própria garganta, puxando o máximo de ar que conseguia, para tentar entender que merda acontecia com seu corpo. Não sentia aquela vontade mais, pelo menos não agora, mas sentia-se muito estranho. E enquanto respirava fundo, foi encontrado por Franky e Usopp.

Explicou a eles o que houve e o que fez, sem titubear. Mesmo com um Usopp apavorado, decidiram ir para a floresta porque estavam bem longe dela.

E no caminho para lá, foram encontrando o restante de seus nakamas e reunindo-os para irem procurar a mulher, e Zoro ia contando para eles tudo o que aconteceu enquanto corriam a esmo por entre as árvores.

E encontraram um alçapão no meio da floresta.

- Só pode ser aqui. – Falou a voz assoprada de Sanji porque ele soltava fumaça pelo nariz. – Vamos entrar.

(...)

- Robin!

Zoro estreitou os olhos. O local onde estava era escuro, iluminado por tochas, mas fedia a esgoto.

Não era o problema estar ali ou não, mas sim, o motivo por estar naquele lugar. Seu corpo estava ardendo. Quente, impaciente. Duas katanas em suas mãos enquanto a outra ainda permanecia na bainha. Por causa dele— porque não havia sido rápido o suficiente, deixou-se atingir e agora Robin estava presa.

Mas ele sabia o que aquilo significava.

Mesmo estando atrás de sua nakama, não fazia a menor ideia de onde estava... Entretanto, era apenas por falta de senso de direção, como lhe era costumeiro. – Merda, onde eu me enfiei? – Balbuciou, ofegante.

Seu corpo já estava sujo. Ensanguentado e com alguns cortes, mas grande parte daquele sangue não lhe pertencia. Mas não era o bastante, não era... Ele sentia sua alma queimar, desesperada. Aquele cheiro de sangue – a mistura do sangue de tantas pessoas diferentes – era alucinante.

Queria matar. Queria tirar vidas. Derrubar pessoas por onde quer que passasse. Qualquer um que fosse... E desde aqueles indivíduos que matou na cidade, matou mais dois enquanto percorria aqueles túneis escuros. Mas como conseguia querer salvar Robin? Mesmo que ele quisesse, ainda pensava que talvez encontrasse com ela e sentisse uma vontade enorme de cortá-la em vários pedacinhos. Sabendo ou não da força da mulher, ele sabia que, com aquela sede de sangue que secava sua garganta, talvez aquelas mãos não fossem o bastante para segurá-lo.

Mas ele tinha que ter força. Se ele era forte o bastante para matar todas aquelas pessoas, por que não ser forte para não matar? Não matou seus outros nakamas, não é? E estava com eles. Mas estava calmo aquela hora...

Aquilo voltou agora.

Não entendia como aquele ímpeto ia e vinha, de repente. Na realidade, a ida do desejo era apenas quando conseguia arrancar a vida de alguém, e ter certeza disso... Mas para voltar, aparentemente não avisava. E para conseguir controlar-se e não matar seus nakamas, precisava de muita força de vontade.

Havia ido procurar Robin na companhia de Sanji, Franky, Brook e Luffy, mas acabou perdendo-se deles. Foi mais porque Sanji não parava de tagarelar sobre o quanto ele era idiota por ter se deixado enganar e porque a morena só estava presa daquela maneira por causa dele. Porque se ele não tivesse sido segurado, se ele não tivesse se perdido enquanto a procurava, se ele... Argh. Então acabou se perdendo por vontade própria.

Robin foi a primeira a ser capturada.

- ROBIN! FALA COMIGO! – Exclamou. Queria ser guiado por ela. Mas a morena não respondeu... Então como ele sentia o cheiro do sangue dela? Por acaso ela foi arrastada? – Robin... – Murmurou.

- Kenshi-san! – Ele ouviu. Mas era muito baixinho. E segundos depois, ouviu uma exclamação de dor. Ela fora atingida... Mas foi baixo demais, ele não conseguia saber pra que direção ir. Teria que escolher uma qualquer e tentar a sorte. E foi. Começou a andar por aquele corredor que se direcionava a algum lugar onde certamente Robin estava... O que passava na cabeça daquelas pessoas de construir uma coisa como aquela? Uma casa enfiada na terra?

Só que, o caminho que ele tomou obviamente foi o errado e quando Zoro deu por si, estava olhando para a superfície, debaixo do sol. Subiu para agarrar-se à borda daquele alçapão estranho e seus olhos encontraram o restante de seus nakamas, que esperavam do lado de fora. – Oe, Zoro! – Usopp correu na direção dele, agachando-se porque Zoro deitou o torso para fora. – O que houve?

- Eu não sei. Não consegui encontrá-la... – Resmungou enquanto subia para o solo firme. Só conseguia resmungar. Sua voz não saía direito. Pôs-se de pé e colocou as katanas nas suas respectivas bainhas. Ergueu os olhos e percebeu que Usopp voltara para se encontrar com Nami e Chopper, que estavam mais adiante.

Eles estavam com medo... Medo dele.

Merda.

Respirou fundo, forçando a saliva a descer por sua garganta ainda seca. Caminhou na direção deles e percebeu que Nami acuou-se. – Eu não vou tocar em você, mulher... – Ele disse, soando ofendido. A ruiva ajeitou o corpo, mostrando-se segura, embora obviamente não parecesse ter certeza do que ele dizia.

- Você se perdeu deles, Zoro?

- Sim, Chopper. – Ele virou os olhos para olhar a rena. – E não encontrei a Robin, acabei voltando para cá sem perceber... Vou voltar para lá.

- Não! – Nami exclamou e reprimiu-se em seguida, tapando a boca. Zoro a olhou e viu aqueles olhos abrindo-se mais do que o normal. – Não, digo... Melhor esperar aqui, ok? – Disse então.

Balançando a cabeça, o espadachim sabia que ela estava com medo de ele fazer uma besteira, embora ali também pudesse fazer uma. E talvez ela tivesse razão – só talvez. Estavam num lugar isolado, e só havia os quatro ali, por enquanto. Assim ninguém se tornaria vítima.

Ele jamais mataria seus companheiros, nem que morresse por isso.

Houve um barulho e, a uns duzentos metros de onde estavam, os braços de Luffy esticavam-se para o alto, levando consigo uma boa quantia de terra e árvores. Zoro começou a correr e ouviu a voz de Usopp pedindo-lhe para esperar. Mas não deu ouvidos. Apenas foi.

Talvez tivesse alguém lá de quem ele poderia arrancar a cabeça.

Quando chegou, Sanji pulava para a superfície, e Franky e Brook subiam pelos lados. Robin estava nas costas do cyborg, com diversos cortes abrindo suas roupas coloridas e ela tinha apenas um dos seus sapatos nos pés. O cabelo grudava no rosto pelo suor, a pele suja, com cortes e sangue. E isso fez as sobrancelhas do espadachim se apertarem. Assim que Franky ficou de pé, Zoro aproximou-se dele, parando ao seu lado para poder olhar a nakama. – Está bem?

- Sim... – Ela sussurrou, olhando-o com aqueles olhos azuis que diziam que a culpa não era dele. Por que ela sempre fazia isso?

Zoro olhou em volta e aproximou-se do buraco no chão que foi aberto pelo seu capitão; lá embaixo, havia uma sala de piso e paredes brancas, mas agora imundas por causa da sujeira. E algumas pessoas caídas.

Uma ânsia subiu à garganta do espadachim. Ele sabia que não estavam mortos. Sacou uma das katanas e pulou lá para baixo. – Zoro! – Luffy exclamou e saltou atrás dele, sendo seguido por Sanji. Nesse meio tempo, Zoro já havia arrancado a cabeça de dois daqueles homens que estavam mantendo Robin presa. E ele não sabia, agora, se os estava matando por isso ou apenas se era porque queria. Porque era um prazer quando aquele sangue das artérias espirrava em seu peito. E aquelas cabeças sem vida rolando até pararem, eventualmente com os olhos vidrados para cima.

Sentiu os braços de borracha de seu capitão se enrolarem em seu corpo e o apertarem com força. – Zoro, pare com isso! Vamos embora. – Ele usou um tom sério e os olhos escuros injetados do espadachim encararam Luffy. Sabia que ele achava aquilo errado. Foi-se um instante antes de respirar derrotado. Assentiu, e o garoto o atirou para cima usando seus braços.

Zoro caiu deitado e logo, Sanji e Luffy voltavam para lá. Chopper atendia Robin, que estava deitada no chão, cercada por Nami, Franky, Brook e Usopp. Luffy correu para ver sua nakama ferida.

O espadachim não quis levantar. Ficou deitado onde estava, com a katana na mão e olhando o céu azul tingido com poucas nuvens brancas. De repente, o sol foi tapado pela cabeça loira de Sanji. – O que está acontecendo com você?

- Você sabe muito bem, cook.

- Não é isso. – Sanji pegou um cigarro, pendurou nos lábios e riscou um fósforo para acendê-lo. – Você falou. Mas você não consegue parar de matar... Como não nos mata no processo?

- Se quiser te mato aqui mesmo. – Zoro fechou os olhos. Não estava falando sério, era apenas seu jeito de insultar Sanji. Sabia que se o atacasse, ia acabar gerando uma confusão e aquela sede de sangue, que havia se acalmado depois de matar aqueles dois homens lá embaixo, mas voltaria a qualquer momento, podia se manifestar enquanto ele estivesse brigando com o cozinheiro.

- Zoro... Você tem que engolir esse ímpeto. Essa vontade de matar... Eu sei que você tem sede de sangue naturalmente – brincou Sanji assoprando aquela fumaça clara para o alto. – Mas isso... Que você está fazendo, matando sem razão, não é normal.

- Eu matei aquelas pessoas porque elas estavam ferindo a Robin.

- Não seja idiota. Sabendo que eles estão derrotados você jamais iria lá para matá-los, assim, sem mais nem menos. Você foi porque sentiu vontade.

O espadachim abriu os olhos e encarou o rosto sério de Sanji. É... Ele tinha razão. Definitivamente tinha.

- Você sabe que não é apenas vingança. Você matou pessoas inocentes, Zoro. E essa não é a sua natureza.

- Você acha que eu gostaria de matá-los?

- Sanji, Zoro, vamos voltar pro Sunny! – Nami chamou e, imediatamente, o cozinheiro foi atendê-la para ajudar Franky a levar Robin para o navio. O espadachim pôs-se de pé, seguindo os demais.

Algum tempo depois, com o sol já se pondo, eles saltavam no navio e Chopper levava Robin para sua sala de atendimento, enquanto Sanji ia fazer algo para o jantar e o restante dos mugiwara se reunia na sala da cozinha. Exceto por Zoro, porque depois de tomar um banho ele havia subido ao ninho do corvo para treinar um pouco.

Na realidade, ele só queria ficar sozinho.

O bando começou então a conversar a respeito do que houve e de acordo com o que o espadachim contou para todos eles, chegaram à óbvia conclusão de que ele estava sofrendo os efeitos de alguma coisa estranha – uma droga misteriosa, de acordo com Luffy – e que ele não conseguia fazer aquela vontade de matar sumir. Uma boa discussão concluiu que eles não concordavam, principalmente Luffy, mas que a vida de Zoro era mais importante e que não sabiam o que podia acontecer a ele caso deixasse de seguir o que aquela vontade estranha o fazia desejar.

E todos concordavam que, mesmo tirando vidas inocentes, coisa que não era do feitio deles, abrir mão de Zoro estava completamente fora de cogitação.

Poderiam esforçar-se para evitar mortes, mas não iriam fazê-lo sofrer ainda mais do que provavelmente já estava sofrendo.

- Eu acho que devíamos amarrar o Zoro e deixá-lo aqui, enquanto vamos atrás deles.

- Não seja tão drástico, Usopp. Não ouviu o que falamos agora? Além do mais, aposto que você nem vai atrás daquelas pessoas. – Nami apoiou-se na mesa e fez uma expressão cansada. – Por mais que ele esteja com esse instinto assassino, não podemos simplesmente prendê-lo. E se quando o Sanji-kun for dar comida para ele, Zoro matá-lo porque não matou outras pessoas?

- É, até porque, eu não vou dar comida na boca dele nem nada do tipo.

A ruiva lançou um olhar aborrecido para o cozinheiro. – Por mais que eu não queira que ele mate as pessoas – ela fez uma pausa. – Não quero que nos mate... Aliás, melhor falando, não me importo de ele matar outros. Mas não quero que perca o controle e machuque um de nós. E o que pode acontecer ao corpo dele caso não mate?

- Além do mais, tem pessoas atrás de nós e sequer podemos sair da ilha por causa do Log Pose. – Franky passou a mão no queixo. – Quanto tempo que demora, mesmo?

- Uma semana. – Respondeu Nami.

- E Zoro foi infectado justo agora... Estamos só no primeiro dia e ele já matou umas vinte pessoas.

- Ele vai acabar com a ilha! – Usopp falou logo depois que Franky terminou, segurando as bochechas, apavorado. – Acho que devíamos seguir meu conselho e—

- Nem pensar. – Luffy interrompeu. – Temos que ir atrás de quem fez isso com ele e chutar o traseiro desse cara até ele fazer o Zoro voltar ao normal.

- Será que existe um antídoto? – Brook fez-se ouvir. – Quando eu era vivo, sabe, eu ouvi umas histórias sobre alguém que sofreu algo parecido. Mas essa pessoa morreu depois de lutar com alguém muito mais forte, seguindo seu desejo de matar.

Houve um instante de silêncio.

- Ainda bem que ele não pode me matar, eu já estou morto mesmo! Yohohoho!

Nami deu um cascudo na cabeça de Brook, fazendo-o calar-se após choramingar um pouco. – Não te bati por causa da piada. Mas sim, por insinuar que o Zoro pode morrer sem ser curado dessa coisa.

- Não quero ser pessimista, Nami-san, mas...

- Não. Nem continue.

Eles ficaram em silêncio novamente, e acabaram por ficar assim por um bom tempo enquanto Sanji terminava de preparar o jantar. Por causa do calor, ele preparava pratos frios porque assim o pessoal sentia-se melhor; a única coisa da qual ele não podia fugir era da carne de Luffy, que tinha que ser sempre quentinha. Era difícil um clima pesado do tipo instalar-se entre os mugiwara, mas... Nessas condições, não dava para evitar.

- Acham que devemos parar de ir à ilha? – Perguntou Franky, após longos instantes.

- Não vai adiantar nada. Se ficarmos todos reunidos no navio, assim, o tempo todo, vamos ser um alvo muito mais fácil. – Respondeu Sanji enquanto tirava o café fresquinho que havia feito para Robin beber quando acordasse. – Melhor que a gente vá andar pela cidade em grupos, sempre equilibrados de preferência, para sobrevivermos à semana e darmos o fora daqui.

- Ele tem razão... – Usopp virou-se para seu capitão. – Luffy, o que acha?

- Ninguém vai nos matar. Mas não vamos fugir. – Disse um Luffy seguro de si, como sempre. – E não iremos ficar aqui, confinados no navio. Quanto mais cedo encontrarmos o cara, menos pessoas o Zoro vai ter que machucar. Eu quero achar quem fez isso com eles, e para isso não posso ficar aqui parado. Tenho que sair para procurá-lo.

- Luffy, como só o Zoro e a Robin sabem quem foi, vamos esperar o dia amanhecer. A Robin está ferida e o Zoro está com problemas agora, então só amanhã. – Nami afirmou numa voz autoritária. – Entendeu bem, não é?

- Err... Pode ser, mas só. – O garoto fez um bico, mas voltou com sua expressão séria em seguida. – Vou acabar com esse maldito que os feriu. E nós vamos sair daqui sãos e salvos.

Voltaram a ficar em silêncio por um breve instante.

- Vou levar comida para o marimo, que com certeza não vai querer comer aqui e— Robin-chan! – Ele interrompeu-se quando a morena saiu pela porta da salinha de Chopper, acompanhada pela rena. Sanji adiantou-se na direção dela e pegou-lhe uma das mãos. – Como você está?

- Bem melhor, graças ao doctor-san. – Ela manteve seu olhar sereno para o cozinheiro. – Perdão pelo incômodo.

- Não é incômodo, Robin-chan, seu bem-estar vem primeiro.

- Não, quis dizer... Por ter sido capturada.

- Esquece isso, Robin! – Luffy fez um sinal com o osso que tinha na mão, depois de ter devorado a carne que o envolvia. – Não foi culpa sua, agora venha comer porque está uma delícia! Coma um pouco da minha carne porque vai te deixar forte e— ai! – Nami golpeou o alto da cabeça do capitão. A arqueóloga riu baixinho.

- Fiz café para você, Robin-chan. Vou te servir, só um minuto.

A morena agradeceu de forma muda e foi sentar-se na mesa junto com os outros. Alguns instantes e Sanji enchia uma caneca de café fumegante e forte para ela, isso depois de colocar um prato de comida diante da mulher. De qualquer forma sabia que só discutiriam o assunto do cara quando todos estivessem reunidos – incluindo o espadachim.

- Preciso verificar o que posso fazer pelo Zoro – disse Chopper. – Quem sabe haja algum tipo de antídoto...

Sanji então, teria que ir levar a comida a Zoro como havia dito que faria anteriormente. Encaminhou-se com Chopper até o ninho do corvo, com um prato de comida na mão e assim que subiu lá, viram o rapaz sentado no banco, esfregando o pescoço com uma toalha.

- Jantar, marimo.

Ele olhou para o cozinheiro e a rena e esticou a mão para pegar o prato. Começou a comer e Sanji permaneceu observando-os. Chopper aproximou-se do nakama para retirar uma amostra de sangue e ir verificar. – O que foi? – Perguntou o espadachim ao chef, de boca cheia. Por mais que ele descansasse, aqueles olhos não relaxavam. Continuavam injetados e caídos, atentos demais para uma circunstância como aquela. Era como se Zoro estivesse sem dormir há uma semana.

Sanji queria dizer a ele que estava preocupado, mas não ia engolir seu orgulho assim. Mas não era necessário falar que estava preocupado para Zoro saber que estava.

- Vou analisar isso e ver se é algum tipo de veneno, ok? Devo dar a resposta amanhã de manhã. – O doutor fez um sinal com a seringa cheia de sangue e olhou para Sanji. O loiro fez um sinal para que ele saísse e Chopper o fez; desceu as escadas para voltar à sua sala.

- O que você sente... Quando mata alguém? - Perguntou Sanji num tom de voz baixo, acendendo um cigarro em seguida. O espadachim ergueu a cabeça para olhá-lo e ainda demorou uns instantes para responder. Havia tantas sensações que era até difícil descrever, mas...

- Euforia. – Resumiu assim, mudando o curso do olhar para o mar lá fora, através da janela. Sanji estreitou os olhos, perguntando a si mesmo se era realmente assim tão bom matar alguém, para ele. E resolveu vociferar a indagação.

- Não é apenas alívio?

- Alívio?

- Não sente alívio em matar esse desejo insano?

- Realizar qualquer desejo provoca euforia, cook. Mesmo aquela vontade de comer um pedaço de carne de peixe... Ou a de ver alguém cuspindo sangue e morrendo sufocado nele. É a mesma euforia interna.

- Não posso acreditar que seja a mesma euforia. Como... Beijar uma mulher pela qual você está fascinado?

Zoro estreitou os olhos de leve para o cozinheiro, aborrecido por esse mesmo papo de sempre. – Deve ser. Nunca me fascinei por mulher alguma.

- Hah! Não pode ser!

- Pode sim. – Ele disse com a voz baixa e então, sentiu uma pontada violenta em sua cabeça. Ainda queria entender o que diabos desencadeava aquela vontade repentina. Mas ela estava subindo e lhe dando um calor insuportável por dentro. E secando sua garganta. Ele apertou as têmporas, tapando o rosto. – Vá embora.

- Por quê?

- Quer que eu te mate?

- Está sentindo de novo?

Zoro não respondeu, porque devia ser óbvio o bastante para que uma confirmação fosse desnecessária. Sanji assoprou a fumaça perto do espadachim e ficou observando-o. Como se esperasse que ele o atacasse... Era um maldito idiota. – Suma daqui, cook.

Ele não obedeceu. Tragou o cigarro novamente e expirou a fumaça, imaginando se aquela sensação era a mesma que Zoro tinha quando matava alguém... Aliás, ele gostaria muito de entender tudo isso. – Quer que eu pegue alguém pra você matar?

- Você está querendo alimentar essa coisa?

- Prefiro isso a você atacar um de nós no meio da noite. Por que não vamos dar uma volta?

- Acha mesmo que eu mataria um de vocês? – Soou irritado.

Mas, só de pensar naquele convite, o espadachim sentia seu coração bater feito louco. Era como se pudesse sentir o cheiro de sangue... Sem nem estar perto dele. Zoro sabia que alguns de seus sentidos ficavam ainda mais aguçados quando estava naquele estado. Olfato, audição e o tato. Qualquer barulhinho era bastante para chamar-lhe a atenção. Chegava a um estado vampiresco, apenas pela diferença de que não sugava o sangue de suas vítimas.

Mas que gostava de vê-lo escorrer, ah...

- Direi aos outros que vamos dar uma volta para você tomar um ar...

- Vai encobrir meus crimes? – Zoro riu aborrecido. – Vai te tornar meu cúmplice.

- Não sei se percebeu, marimo – Sanji tragou o cigarro. – Mas todos nós já nos tornamos seus cúmplices.

O espadachim suspirou. Seu corpo estava implorando por isso e se Sanji estava disposto a ir junto... Levantou-se e se agachou para sair do ninho do corvo e foi seguido pelo cozinheiro. Eles ainda foram à cozinha para explicar que dariam uma volta porque Zoro queria tomar saquê, mas... Todo mundo sabia o que estava acontecendo. Claro que sabiam; oras, havia saquê dentro do navio, por que sair dele para beber? Nem adiantava dizer que ele queria algum tipo especial, Zoro não era exigente.

Mas nenhum deles falou qualquer coisa. Nami apenas gritou como de costume para que não arranjassem confusão e fossem discretos, mas... Foi apenas desencargo de consciência.

Que pelo menos eles não fossem capturados.

Saíram do Sunny e foram caminhar pela cidade portuária da ilha – dizia-se que havia outra cidade do outro lado. O que as separava era uma floresta de árvores afastadas e não muito grandes.

A cidade em si era bonita. Organizada, com comércio centralizado e pessoas civilizadas – na medida do possível, pelo menos. Quando chegaram naquela ilha, Robin explicou que ela era completamente isolada porque a Marinha não ia até lá, dizendo que não tinha tamanho o suficiente e era considerada apenas "vila". Mas era mentira; além da cidade ser relativamente grande, na realidade, havia um grupo de piratas dominando-a e por isso ela era tão "civilizada". Era apenas medo. Medo porque a Marinha não enfrentava aquelas pessoas, e era paga para isso. E por esse motivo, brigar com elas era pedir para morrer.

Eles exigiam pagamento de impostos todo ano, puniam crimes e todo o resto como um governo comum, mas... Era uma espécie de ditadura ideológica. Ninguém podia falar que era algo ruim para a cidade. E no fim, não falavam porque a ilha era próspera, e os piratas que iam lá não arranjavam confusão com as pessoas que dominavam o local. Ficavam mais interessados na paz que encontravam já que a Marinha nunca ia lá.

E eram essas pessoas que estavam atrás do bando do Chapéu de Palha, os piratas de 700 milhões e cinquenta berries, recém-chegados na cidade. E diferente do normal, foram logo atacar um dos elos mais fortes: caçador de piratas, Roronoa Zoro.

Os dois mugiwara andavam lado a lado por ali, com os olhos atentos do cozinheiro guiando-os pela região. Zoro não conseguia concentrar-se no que fazia e bem, ele tinha que ser guiado de qualquer forma. Mas seus olhos começavam a ficar inquietos novamente, com mãos trêmulas e nervosas. Não acreditava que estava tremendo. Cerrou os punhos e respirou fundo. Sanji desviou seu olhar para ele.

- Que tipo você quer?

- Um tipo que talvez mereça morrer. – Resmungou.

O cozinheiro já tinha um cigarro aceso pendurado nos lábios e assoprou a fumaça para cima. – Hum, isso não parece difícil nessa cidade... Apesar de bonita e aparentemente pacífica, as pessoas parecem tão suspeitas...

Continuaram caminhando, caminhando... E logo, chegavam aos arredores da cidade, onde as casas eram construídas de forma mais afastada e havia menos iluminação. Era tudo muito quieto, mas... Zoro ouviu um barulho por ali. E com esse barulho, ele sentiu seu coração retumbar com ainda mais força no peito.

Começou a guiar-se através desse barulho e impediu Sanji de falar antes mesmo de ele tentar.

E quando chegavam perto da abertura semelhante a um beco que havia entre duas casas... Conseguiram enxergar um homem que se debruçava sobre uma moça acuada no "L" da parede. – OE, O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZEN—

Zoro pôs a mão no peito de Sanji para impedi-lo de avançar, sacou uma de suas katanas e avançou para cima do homem. E começou a cortá-lo.

A menina correu e agarrou-se ao pescoço do cozinheiro, chorando muito, escondendo o rosto no peito dele e agradecendo mil vezes.

Mas Sanji, diferente do normal onde estaria derretendo-se pelo fato de estar sendo abraçado daquela maneira... Não conseguia tirar os olhos do espadachim. Ele já havia matado aquele homem. O indivíduo estava caído no chão, com muito sangue empoçado em volta de seu corpo e sujo, mas Zoro não parava de golpeá-lo na vertical, ou de cortá-lo com a lâmina afiadíssima da katana.

Simplesmente parecia que ele queria arrancar todo o sangue daquele homem. Sem piedade, sem pensar duas vezes... Com um impulso incontrolável.

Quando a menina tomou coragem para olhar, Zoro ainda mutilava o agressor dela. E ela começou a chorar ainda mais, apavorada. O cozinheiro a impediu de olhar. – ZORO, PARE COM ISSO! ELE JÁ MORREU!

O espadachim enfiou a katana na testa daquela pessoa e perfurou-lhe o crânio até fincar no chão. Apoiou-se na arma e começou a ofegar tanto... Sentia um pingo de suor escorrer por sua testa, ouvindo sua respiração ruidosa. A euforia já o havia dominado e só quando ouviu a voz de Sanji é que conseguiu parar o que estava fazendo.

Escutou a menina correr aos prantos e o cozinheiro aproximou-se de seu nakama, puxando-o para longe do homem. Seus olhos mal acreditavam na quantidade de sangue que escorria e naquela katana partindo o crânio do sujeito ao meio, deformando-lhe o rosto de sobrancelhas grossas. E então é que Sanji imaginou o quanto Zoro talvez ficasse agoniado quando aquela coisa lhe dominava.

Olhou para o espadachim, espiando-o por cima do ombro. Ele tapava o rosto com as duas mãos e respirava tão forte que seus ombros iam para cima e para baixo. Sanji voltou sua atenção para o corpo morto aos seus pés e puxou a katana, liberando-o. Ergueu a arma na altura dos olhos, e em seguida, passou para o dono. Quando percebeu, Zoro pegou-a e colocou na bainha sem demorar demais.

- Cook, eu—

- Zoro. – Sanji procurou um cigarro, mas sua carteira já estava vazia. Suspirou e virou-se de frente para o espadachim, olhando-o seriamente. – Tudo bem. Só que você vai ter que se limpar. Se chegarmos ao Sunny e você estiver desse jeito... A Nami-san vai nos matar. – Virou o rosto por apenas um instante para olhar a vítima e, depois, voltou a encarar seu nakama. – Deus... O que diabos está acontecendo com você?

O espadachim ignorou a pergunta e virou as costas para o corpo daquela pessoa que havia matado. – Vamos deixá-lo aqui. Já estão nos procurando, mesmo... – Ele começou a andar para sair de onde estava, passando a mão pela testa. – Cook... Eu não vou trocar de roupa ou me limpar.

- E por que não, idiota? Vai andar na rua desse jeito? Já não basta o que fez, só vai piorar, não vamos poder entrar em estabelecimento algum assim... As pessoas já estão com medo. – Ele fez uma pausa. – Ninguém viu você, mas vão saber quem foi desse jeito.

- E a menina que eu acabei de salvar?

Sanji estreitou os olhos.

- Ela não nos viu, está escuro demais. E de qualquer forma, você falou exatamente o certo... Você a salvou. Ela jamais te denunciaria, a não ser que mate a família dela.

Zoro não continuou a conversa. Tirou a camiseta, esfregou o rosto e os braços para livrar-se do sangue ainda úmido e enrolou a peça o mais apertado possível, mantendo-a em sua mão. Respirou fundo. Sanji sacudiu a cabeça e eles começaram a andar novamente pela cidade, para voltarem ao Sunny. Em completo silêncio. Nenhum deles queria falar... Até porque, o espadachim já pensava em coisas o bastante para ter que falar qualquer coisa naquele momento.

- Não vou esconder dos meus nakamas o que eu fiz como se eles não soubessem. Eles não são idiotas...

- Mas você está agindo como um!

Zoro virou-se irritado para olhar o cozinheiro, e eles se encararam por um longo momento. O espadachim bafejou e continuou seu caminho, completamente aleatório, tendo que ser recolocado no eixo correto por Sanji. Contrariado, mas foi.

E eles voltaram para o Sunny.

Quando chegaram ao navio, Zoro foi tomar um banho de novo e ofereceu-se para ficar de vigília pela noite. Apesar de contrariados, os mugiwara obedeceram a seu capitão que garantiu que o espadachim não traria problemas. Assim, Luffy e os outros foram deitar-se e Zoro ficou acomodado na grama do convés, com uma garrafa de saquê na mão.

Só queria fechar os olhos e dormir fácil e em paz como sempre... Evitar que aquela ânsia subisse ao seu peito de novo. Ou correr o risco de ferir um de seus companheiros...

Merda.

Se queriam capturá-los pelo dinheiro, por que tinham que fazer isso com ele?

Mas é claro... Era para quebrar um dos elos fortes. E abalar o bando; tornar todos muito mais fáceis de capturar. Por sorte, Zoro não era do tipo que correria do navio, acreditando que era tudo sua culpa, e por isso ele não devia ficar perto dos outros.

Não... Nesse momento ele tinha era que ter ainda mais força para poder ficar perto de seus nakamas e não cometer nenhuma besteira. E precisaria de muita força para isso.

No fim, subiu para o ninho do corvo pegar um de seus pesos e desceu novamente para treinar no convés mesmo. Sabia que não era a força física que devia ficar mais forte, mas, ele sempre treinava sua mente e espírito quando se esforçava dessa forma. Conseguia se concentrar naquilo, e em nada mais.

E precisava muito focar-se em apenas alguma coisa para passar a noite sem problemas...