Partida

O dia amanheceu nublado.

Zoro mantinha-se acordado e era a segunda noite que passava sem dormir. Mas dessa vez teve companhia; pelo menos em uma boa parte da madrugada. Sanji agora dormia na grama ao lado do nakama, jogado de bruços e usando os antebraços como travesseiros. O espadachim estava sentado ao lado dele.

As nuvens acinzentadas tomavam conta do céu e não havia mais ninguém acordado.

Tá certo que Sanji fazendo companhia a Zoro resultou em alguns xingamentos, discussões idiotas e uma Nami furiosa por ter sido acordada durante a noite, mas depois de terem levado umas pancadas da navegadora, acabaram por coexistir em paz nas próximas horas. Ou pelo menos na medida do possível.

Embora o espadachim não tenha tido um ímpeto repentino, Sanji tentou alguma coisa mesmo assim; ele queria que Zoro se concentrasse em outra coisa que não fosse matar e, para tal, começou a fazê-lo beber litros de saquê e até tentou fazê-lo fumar, mas depois de quase tossir o pulmão para fora, o maior desistiu. "Vou tentar da minha maneira", ele afirmou.

Não é como se tivesse desaparecido com seus ímpetos, mas de certa forma, se manteve estável durante algum tempo, sem ter aquela ânsia crescendo desenfreada como acontecia. E depois de discutirem aos resmungos sobre um assunto idiota qualquer novamente, Sanji acabou caindo no sono. Zoro pensou em levar o cozinheiro para o quarto, mas francamente... Pegá-lo no colo seria degradante, se ele quis dormir na grama, que ficasse. Ou talvez ele apenas queria uma companhia – mesmo que fosse Sanji, e que ele estivesse dormindo.

Por mais que Zoro fosse solitário à sua maneira, no fundo ele amava estar na companhia de seus nakamas e era isso que o deixava feliz. E assim queria ficar. Por isso, só de pensar que Franky e Chopper estavam presos, ele ficava furioso. E isso não era nada bom para aquela coisa que ele estava tentando controlar.

E o espadachim sozinho aos seus próprios pensamentos piorava uma situação que ele estava tentando fazer melhorar. Fez a vontade borbulhar, e começava a ficar com ainda mais sede de sangue, misturando seus desejos de morte com a raiva que sentia. Indagou a si mesmo se caso Sanji estivesse acordado, aquilo estaria diferente, mas também não quis acordá-lo para testar. Não ia simplesmente pisar no seu orgulho daquele jeito.

Conhecendo-se bem, ele sabia que as coisas estavam piorando, ao passo que o terceiro dia amanhecia.

Sanji despertou quando sentiu a movimentação de Zoro ao seu lado, que se levantava. O cozinheiro se espreguiçou, soltando um longo bocejo e coçou o olho. – Oe... Por quanto tempo eu dormi?

- Umas duas ou três horas.

- Nossa, tudo isso? – Ironizou. Mal estava de pé e já tateava o bolso atrás de seus cigarros. Zoro olhou-o de canto de olho e perguntou-se se o loiro não cansava daquela porcaria, se era alguma espécie de válvula de escape, ou se era simplesmente um hobby, como era o álcool para o espadachim.

- Preciso sair.

- Não vai sozinho. Vou com você antes dos outros acordarem... – Quando o cozinheiro estava de pé, espreguiçou-se gostosamente, esticando os longos braços para cima. Pegou sua caixa de fósforos, riscou um e acendeu o cigarro numa longa tragada já inicial. Assoprou a fumaça para cima, que flutuou sobre sua cabeça até dissipar-se, já que não havia vento naquela alvorada. – Assim volto a tempo do café. Não posso deixar a Robin-chan sem o café, ou a Nami-san sem o suco – ele falou o final da frase em meio a um bocejo.

- Tá, tá, vamos logo... Preciso tomar um banho.

- É, acho que precisa mesmo. Você tomou banho ontem?

- Claro que tomei, idiota, entrei no chuveiro logo que você saiu!

- Ahh, é mesmo.

Sanji deu uma risada de quem está debochando e caminhou pelo convés até saltar do navio. Zoro ficou olhando lá de cima uns instantes até o cozinheiro virar-se para ele. – Tá esperando o quê, alguém vir se suicidar?

- Ainda acho que você está se divertindo com isso... – Sussurrou Zoro para si mesmo, embora estivesse falando diretamente ao outro. Respirou fundo e saltou do convés, pousando ao lado do nakama e eles começaram a caminhar. Eles já tinham destino certo e não havia muito que errar.

No Thousand Sunny, a segunda pessoa a acordar – sendo a primeira, Sanji – foi Usopp. O atirador saiu do dormitório masculino e dirigiu-se à cozinha, que também era usada como uma espécie de sala de reunião, ou algo assim. Reparou que o cozinheiro do navio não estava ali, muito menos o espadachim. Certamente haviam saído para resolver os possíveis problemas de Zoro.

O fato é que o navio parecia estar começando a ficar muito vazio, se comparado às manhãs normais. E isso era um incômodo para todos que, por mais que negassem, eram apaixonados pelo caos que caracterizava o bando do Chapéu de Palha.

Quando os dois voltaram, Nami já havia se reunido com Usopp e eles estavam conversando na mesa.

- Nami-san, mil perdões, eu—

- Tudo bem, Sanji-kun, por favor... Acho que nem estamos com fome...

- Mas comer é necessário, para ficarmos firmes. – Disse o rapaz com seu tom de cozinheiro legítimo, entrando sozinho no cômodo.

- Onde está o Zoro? – Perguntou Usopp, notando a ausência do outro nakama que certamente havia saído com Sanji mais cedo.

- Foi tomar um banho.

- Sanji-kun... Você já tentou falar seriamente com ele sobre isso?

- O que quer dizer com seriamente?

- Quer dizer... Claro que mesmo ele matando essas pessoas, não teremos qualquer tipo de problema em relação a ele porque tomamos uma decisão. Mas... Ele não irá ficar com a cabeça muito pesada depois que isso passar? Ou que essas mortes recaírem nas costas dele?

- O marimo tem consciência de que estamos passando por cima de certos princípios em prol do bem-estar dele. E que essas mortes estão acontecendo para que possamos nos proteger...

- Eu sei, eu mesma falei que eu prefiro que ele mate os outros, mas é que...

- Nami-san. – Sanji a interrompeu, mas sem soar grosseiro; jamais, claro. Ele tinha um tom de voz macio e polido, ao passo que se aproximou dela e escorou-se na mesa, próximo à navegadora. – O Zoro é o tipo que engole todos os seus problemas sozinho. Só o fato de ele estar confiando em mim a ponto de me levar com ele quando sai para matar... Mesmo que considere isso errado... Já é muito importante. Mas eu não posso abusar disso, agora. Se eu falar qualquer coisa sem pensar, talvez ele deixe de confiar em mim e não queira envolver mais ninguém nisso. Mesmo que ele não queira se afastar de nós... Não vai querer dividir isso com nenhum de nós.

Nami soltou um longo suspiro.

- Por favor, Nami-san, deixe comigo, que eu farei tudo que estiver a meu alcance, certo?

- Certo... Obrigada, Sanji-kun.

- Mas o que é isso, não é problema algum! – Ele usou seu típico tom de voz satisfeito pelo fato de ser a navegadora conversando com ele. Ela sacudiu a cabeça de leve e ao olhar para Usopp, percebeu que ele também tinha um pequeno sorriso no rosto e parecia confiar muito em Sanji, e isso era realmente muito importante.

O loiro foi preparar o café da manhã e no meio tempo, todos os que estavam no navio reuniam-se ali, inclusive Zoro, depois de voltar de seu banho. O cozinheiro serviu a comida e apesar de nem todos terem comido tanto quanto de costume, foi o bastante – apenas Luffy manteve seu ritmo normal. Até um pouco mais, dizendo que precisaria de forças. Depois de terminarem de comer, todos se acomodaram para que conversassem sobre o que iriam fazer, então.

- Bem, eu acredito que hoje nós temos que organizar tudo e nos preparar para sair amanhã de manhã, bem cedo, para começar a andar pela floresta. Koukaishi-san, você já começou a fazer um mapa desta ilha?

- Não, bem, eu não tive tempo, mas acredito que tenho algumas informações sobre ela... É bem grande. Deve demorar umas cinco ou seis horas para atravessarmos a floresta inteira até chegar ao outro lado.

- Tudo isso? – Lamentou-se Luffy. O capitão era obviamente o mais ansioso para que saíssem do navio e fossem logo atrás de Zanell, e provavelmente em breve ele ia desembestar e sair sozinho sem esperar ninguém. Mas por enquanto ele estava sobre a ameaça de Nami.

- Por aí. Então temos que levar mantimentos, muita água e irmos bem descansados. – A navegadora disse com um tom de voz pensativo e, simultaneamente, de quem estava dando uma ordem. – Hoje é melhor que fiquemos um pouco pela cidade, dormimos no navio e depois vamos para a floresta. Alguém tem que ficar de vigília...

- Oee, mas por que não vamos com o Sunny mesmo? – Perguntou Luffy.

- Porque não é uma cidade portuária. – Explicou Robin.

- Quem vai ficar de vigília? – A voz de Zoro sobressaiu de uma maneira inesperada; ninguém esperava que ele se manifestasse tão cedo. Claro que a pergunta feita também deixava claro que não seria ele a ficar de vigília por ali, de jeito algum.

- Hum, acho que eu posso cuidar de tudo por aqui. – Brook fez um sinal com a mão.

- Um só é o bastante?

- O que eles podem fazer Sanji, me matar? Yohohoho!

- Agh! – Nami exclamou diante a risada de Luffy. – Ele pode te prender e levar o navio, Brook, mas isso não vai acontecer! Ok, Brook cuidará do navio e nós iremos, certo? Agora todos vamos organizar nossas coisas e dormir bem cedo!

- Ahnn, eu não sinto vontade de esperar... – Resmungou o capitão com um tom de voz chateado e a navegadora soltou um longo suspiro.

- É importante, Luffy.

- Mas—

- Luffy. – Ela interrompeu. – É importante.

- Ah... Ok... – O rapaz estreitou os olhos de forma curiosa.

Por algum motivo, todos os mugiwara tinham quase certeza que Luffy não iria esperar por coisa alguma, mas torciam que ele fosse compreensivo – ou que apenas estivesse com medo de apanhar de Nami, o que poderia acontecer com muita facilidade se ele fosse inconveniente. E isso era algo muito fácil de ocorrer, também.

Depois de tudo resolvido, o bando dispersou-se pelo navio para organizar suas coisas. Zoro, Sanji e Robin permaneceram no Sunny enquanto os outros foram para a cidade a fim de comprarem algumas coisas que seriam importantes na hora de atravessar a floresta.

Era o meio da tarde e o cozinheiro estava preparando os bentou que seriam levados para que parassem a um determinado momento, como acontecia de costume em caminhadas longas como aquela. E era responsabilidade de Sanji que todos tivessem comida e água, então, era disso que ele estava cuidando naquele exato instante – sem falar que de organizar suas próprias coisas, também. Mas isso, ele fez antes de organizar a refeição, o que era particularmente mais difícil. Inclusive a parte onde ele fazia o bentou de Luffy, maior que o de todos eles.

Robin preparava suas próprias coisas – muda de roupa, fazia um pedido de café em garrafa para o cozinheiro do navio, livros úteis, etc.

Já Zoro, concentrava-se bravamente no seu treinamento que, em teoria, o ajudaria a pensar em outra coisa que não fosse sangue e morte, mas francamente, não estava obtendo muito sucesso com suas tentativas. Acabava exercendo mais força contra os aparelhos de musculação, o que também não era interessante. Quanto mais sentia o coração bater forte, pior ficava.

Largou os aparelhos, tomou uma boa golada de água e decidiu ir à cozinha. Recentemente – sem nem perceber – encontrava-se em contato muito maior com Sanji do que com qualquer outro membro do bando. Aliás, nunca achou que fosse passar tempo com ele dessa maneira; mesmo que não fosse exatamente "passar um tempo" como se fosse algo bom. Exceto por essa noite, que a despeito das discussões de sempre, havia sido boa e calma para ele.

Quando chegou lá, Sanji preparava o café de Robin e o cheiro gostoso da bebida inundava o cômodo.

- Ah. Terminou seu treinamento ou sei lá o quê? – Disse o loiro ao erguer a cabeça e olhar o nakama.

- Não conseguia me concentrar...

- Não me diga que veio aqui pedir minha gentil companhia? Não podemos deixar a Robin-chan sozinha no navio.

Zoro estreitou os olhos; até parece que Robin era uma completa inútil. – Ela é grandinha, mais velha que você e eu, sabe muito bem se cuidar sozinha...

- Ela é uma dama, marimo.

- Certo. – Rosnou. – Eu preciso dissecar alguém. Quer ser a vítima? – Disse num tom estranhamente aborrecido.

Só então que Sanji olhou realmente para Zoro e percebeu que ele tinha o rosto ligeiramente corado, e respirava fortemente. Talvez estivesse sendo engolido pelo calorão que subia pelo seu corpo, o qual ele havia descrito durante a madrugada. Por fim, com um longo suspiro, o cozinheiro decidiu por bem ir com ele. Se estava criando qualquer tipo de ligação, que fosse uma interessante. Mesmo que o início de tudo fosse um pouco conturbado.

- Vou fechar tudo e vamos...

Depois de alguns minutos, Sanji foi avisar Robin da saída e eles partiram para um caminhar pela cidade que já estava começando a virar rotina; isso porque era só o terceiro dia. Com sorte, depois de atravessarem a floresta e encontrarem Zanell, isso que intoxicava Zoro poderia ser combatido após toda a fúria passar.

E de certa forma, Sanji sabia que muito do que fomentava aquele desejo era a raiva que ele sentia por seus nakamas estarem em cárcere. Quem sabe fosse uma das coisas que realmente despertava aquilo. E foi bem perceptível visto que mesmo com todo o esforço do espadachim para controlar-se, depois da captura de Franky, as coisas ficaram muito piores.

Só restava torcer para ninguém mais ser capturado.

Chegaram à periferia da cidade e Zoro perguntava-se até quando aquilo ia durar... E só conseguia entender que tinha que lutar contra seu problema, e de forma bem rígida, aliás.

Sanji indicou um homem de idade avançada e roupas maltrapilhas que perambulava sozinho na rua; parecia estar completamente abandonado à sorte. Má sorte então ter cruzado com os dois mugiwara. O cozinheiro o pegou e eles caminharam metros adentro da floresta, onde Zoro sacou sua katana. E apesar de estar seguindo a linha de "um golpe, morte rápida", não pôde evitar perfurar o pulmão para vê-lo cuspir sangue e sufocar por um instante, antes de realmente matá-lo, golpeando o coração.

Era um desejo sádico e vergonhoso. E preferia que Sanji não houvesse percebido.

O cozinheiro tragou o cigarro que fumava enquanto observava o outro guardar sua arma. – Isso está fugindo realmente do controle, Zoro...

O espadachim não respondeu. Moveu a cabeça e encarou-o com seus olhos castanhos e pequenos, ainda mais injetados e cansados do que antes. Sanji sustentou o olhar.

- Sabe, Zoro... Esses dias me deixaram ver que existem certas coisas que eu gostaria de compartilhar com você. Ou dizer a você. – Disse enquanto acendia um cigarro com a ajuda da brasa do outro.

- Então vá em frente e diga.

- Nesse estado em que você se encontra... Não quero.

- Não quer o quê?

- Dizer. Você não está em condições de usar seu único neurônio para pensar no que eu te direi sendo que tem que pensar nos seus próprios problemas.

O espadachim encarou o outro com visível aborrecimento em sua expressão. – Pare de ser idiota e fale logo.

O loiro suspirou. – Façamos o seguinte: faremos vigília esta noite novamente e, então, eu vou testar uma coisa quando você sentir vontade de matar de novo. Então não será necessário eu "dizer", você vai saber sozinho.

Zoro suspirou irritado e revirou os olhos, assentindo de forma visivelmente inconformada. Quando retomaram a caminhada, o mais alto encarou o outro e estreitou os olhos. – Espero que seja importante. – Grunhiu, virando a cabeça para frente novamente, embora não soubesse para onde estava indo. Apenas seguia a direção que Sanji tomava.

- Claro que é, marimo idiota.

O espadachim até pensou em encher o outro de pancadas, mas apenas fez um som esquisito com a garganta.

Enquanto caminhavam, Zoro e Sanji depararam-se com a presença repentina de Robin na cidade, que os interceptou depois de parar de correr; corria, aliás, na direção oposta dos dois, vinda do navio.

- Robin-chan, o que houve?

- Cook-san, kenshi-san. – Ela respirou, tomando um bom ar. – Parece que o senchou-san perdeu a paciência e correu para dentro da floresta.

Zoro soltou um suspiro que indicava claramente que ele estava esperando por essa notícia muito antes de ela ser dada a eles.

- Você deixou o Sunny sozinho, ou o Brook foi te avisar?

- Ele foi. – Ela confirmou na direção do espadachim. – E ficou para cuidar do navio. Eu trouxe o que você arrumou para você, cook-san, e só isso que deu tempo. Não achei as suas coisas, keshi-san... Temos que correr para encontrar os outros.

Zoro fez um aceno com a cabeça, como quem diz que não há importância.

- Obrigado, Robin-chan. – Sanji pegou a mochila relativamente grande demais das mãos da arqueóloga, e logo em seguida, apressaram-se para ir na direção da floresta. Embora fosse idiotice visto que poderiam facilmente ter problemas por lá, principalmente em uma hora como aquela (tarde para o começo da noite), não havia outra opção. Já que Luffy havia decidido correr para lá... Teriam que segui-lo.

- Ah. Eu peguei o café também. Obrigada, cook-san.

- Ahhh Robin-chaaan - ele cantarolou, feliz. – Não precisa agradecer!

Zoro revirou os olhos.

Correram até entrarem na floresta e começarem a chamar por Nami, Luffy e Usopp. Tiveram que caminhar por cerca de uma hora até que os encontraram numa clareira; o capitão tinha um roxo ridiculamente grande nos olhos por ter levado uma pancada da navegadora, a qual ela achava muito bem merecida. – Então adiantamos nossa viagem. – Disse Usopp com um tom de voz que expressava seu desagrado com a situação toda. – O que temos?

- Comida e água. – Respondeu Robin.

- Francamente, Luffy! – Suspirou uma ruiva que se mostrava hesitante com a posição em que se encontravam os mugiwara.

- Pare de reclamar, Nami! – Disse o capitão, bastante empolgado. – Já que estamos aqui, nós vamos continuar em frente, não estou nem cogitando a possibilidade de voltar para o Sunny agora.

- Não vamos andar pela floresta à noite, entendeu bem? Quando escurecer, iremos parar para dormir.

- Q-Q-QUÊ? Dormir na floresta? – Usopp reagiu imediatamente, olhando indignado para a nakama. – Está louca, Nami?

- Koukaishi-san, de fato, não acho que seja interessante dormir nesse lugar.

- Realmente não é, mas não temos opção. Contaremos com os cuidados de Sanji e Zoro, não é mesmo, rapazes?

- Claro, Nami-san! – Exclamou Sanji, mostrando sua satisfação em atender aos pedidos (ou ordens, como preferir) da navegadora. Já Zoro apenas moveu o ombro em concordância visto que não é como se tivesse opção, mesmo...

E depois disso, retomaram uma caminhada pela floresta. Havia vários troncos de árvores no chão e mato. Mesmo assim, era relativamente bem iluminada porque havia um bom espaçamento entre as copas das árvores, o que proporcionava mais entrada de luz. E era bem organizada, como se tivesse sido planejada e plantada, e não simplesmente crescido ali. Mas era obra-prima da natureza mesmo, e não do ser humano.

O clima havia mudado e as nuvens desapareceram do céu, dando lugar a um azul bonito e agradável, com o sol não tão forte, visto que já era fim de tarde. O cozinheiro do bando ergueu a cabeça para olhar o céu.

- Parece que meu teste vai ficar pra outro dia, marimo.

- E por quê?

- Não é algo que eu possa fazer correndo o risco de alguém abrir os olhos e ver.

- E o que pretendia fazer?

- Te chutar pra ver se o efeito ficava ao contrário e você, de repente, não tentava se matar e poupar meu trabalho. – Debochou, fazendo Zoro trincar os dentes e avançar imediatamente para cima dele. Depois de alguns golpes e um grito da navegadora, eles pararam a discussão e voltaram a tomar seu rumo.

Mesmo assim, havia aquela sombra entre os dois que criava um clima bem desagradável.

Caminharam por mais duas horas até que a noite começou a tomar espaço e tiveram que parar numa clareira na floresta. Havia alguns troncos que foram usados como bancos e Nami improvisou obrigando Usopp a pegar folhas secas para que ela jogasse o casaco que tinha na mochila em cima e pudesse dormir ali.

- Não quero ficar aqui parado – disse um Luffy de boca cheia. – Vamos comer e continuar.

- Será que não entende a situação, Luffy? – O atirador pegou na gola da camiseta do capitão e o sacudiu um pouco. – Estamos em território desconhecido, sob risco de ataque!

- Qualquer um que aparecer terá seu traseiro chutado imediatamente! – O garoto fez uma expressão alegre, causando um arrepio em Usopp. Sempre que Luffy fazia aquelas caras é porque ele estava louco para acabar com alguém. E o atirador esperava que não fosse tão cedo, francamente...

- Vamos fazer o seguinte, então. Luffy, preste atenção – Nami gesticulou. – Vamos acordar antes do nascer do sol, assim, uma meia hora antes, para continuarmos a caminhar. Em três horas e meia, um pouco mais, estaremos na cidade, de acordo com as informações que temos. Espero que não sejamos desafortunados o bastante para encontrar alguém que queira nos matar no caminho dentro da floresta. – Suspirou. Mesmo com o drama, todos pareceram concordar sem problemas e isso ressaltava ainda mais o poder de imediata que tinha aquela navegadora.

Sem ela, estariam perdidos. Fato.

Depois de comerem, todos foram dormir. Bem, exceto por Sanji e Zoro que, diferente do que ambos tinham em mente, não estavam sentados perto um do outro para passar o tempo, e sim, um em cada canto. E eram orgulhosos demais para reduzir o espaço entre eles.

Era estúpido, mas os dois eram assim e provavelmente sempre seriam; teimosos demais para ceder assim, com facilidade.

Enquanto as horas passavam e eles observavam em volta, apreciando o barulho da floresta, Zoro sentiu aquela típica pontada na cabeça e a queimação no peito que indicava que a vontade retornava. Estranhamente, havia demorado daquela vez. Nesse momento, ele percebeu que enquanto estava na companhia constante de seus nakamas, nada havia se manifestado em seu corpo.

Isso o levava a crer que a paz ao seu redor podia resultar em pensamentos estranhos e novos desejos. Talvez, como todos, ele fosse viciado na bagunça que era pertencer ao bando do Chapéu de Palha. E em estar em constante atrito com Sanji, visto que ficou calmo durante a madrugada em que passou tempo com ele, também.

De qualquer forma, não tinha quem matar ali. Então teria que aguentar e...

- Oe. – Chamou Sanji com sua voz soprada. Zoro ergueu os olhos e o encarou, mais a silhueta do que ele em si. Apesar de não terem acendido fogueira por causa do perigo que corriam – Nami ignorou completamente o lance de "acampamento" de Luffy –, a lua crescente ajudava bastante com isso.

Os roncos do capitão interferiam um pouco na conversa, mas mesmo assim, Zoro não se levantou para responder. – O quê?

- Está voltando, né? Já comecei a perceber sem que me diga.

O espadachim não respondeu.

- Estava pensando em fazer meu teste, mas como eu disse, não estamos em circunstâncias adequadas...

- Então pare de falar sobre isso, já que não vai ajudar. Merda... – Rosnou.

- A não ser, é claro – continuou Sanji como se jamais tivesse sido interrompido. – Que você não se incomode com o possível risco que corremos.

- E que tipo de riscos são esses?

A conversa estava um pouco difícil. Não podiam falar alto para não acordar os outros – ou melhor, não acordar Nami e Robin (a última, somente no caso de Sanji) –, e os roncos de Luffy abafavam bastante a voz. Sendo assim, Sanji acendeu um cigarro, engoliu o orgulho e atravessou o espaço entre eles, acomodando-se sentado ao lado do nakama.

Zoro o olhou com suspeita, mas não se mexeu do lugar.

- Risco de sermos vistos. Isso é, se nada de errado acontecer.

- Que merda você tá falando, cook?

- Confia em mim, Zoro?

- Não.

Sanji suspirou. Esperou por uma negação, mas ela não veio. – Se não confia, como espera que eu ajude? Idiota.

- Só desembuche de uma vez... – Zoro estava começando a ficar irritado; e já era aborrecimento o bastante pensar que estavam de noite na floresta porque Luffy era impaciente. Pensar que Franky e Chopper podiam estar em condições completamente inadequadas agora. Pensar que qualquer um deles poderia ser capturado a qualquer momento.

- Lembra do que eu te falei... Sobre as sensações que se assemelham às outras e as amenizam, nos fazendo pensar em outras coisas?

- Sim... – Resmungou.

- Era isso que eu queria testar.

- Se quer me causar dor, espere sentado e—

- Não é isso, marimo de merda.

- Sshh. – Chiou Zoro, calando o nakama imediatamente. Moveu a mão na altura do ouvido, indicando que havia ouvido um barulho estranho em algum lugar e procurava detectar de onde vinha aquele som. – Ouviu? – Sanji não respondeu, porém, esforçou-se para ouvir o que era. Mas não dava! O cozinheiro, claro, não tinha conhecimento do fato de a audição de Zoro ficava apurada naquelas circunstâncias. – Tem alguém aqui.

- Não escuto nada, não tente mudar de assunto.

- Não estou mudando de assunto. – A voz do espadachim saiu irritadiça. – Estou mesmo ouvindo alguém, e esse alguém, ou esses "alguéns", estão perto.

Não demorou nem mais um segundo para Sanji também ouvir os "alguéns" moverem-se por ali. Os dois colocaram-se de pé e na defensiva, apenas esperando que surgissem... Esperando pacientemente. O quebrar de galhos e a respiração esquisita deixavam Zoro num estado de alerta muito grande. Em alguns instantes, cerca de vinte pessoas saltavam do escuro e atacavam o bando.

Todos acordaram imediatamente e uma confusão generalizada iniciou-se; Nami e Usopp trataram de rapidamente esconder-se, uma vez que seus respectivos estilos de luta exigiam uma técnica diferente: eles tinham que usar a cabeça. Já os outros quatro colocaram-se a lutar contra aquelas pessoas. Havia cinco mulheres, embora a maioria massiva de homens facilitasse bastante a vida de Sanji; ele se recusava a lutar com moças, afinal de contas. Elas ficaram por conta de Robin.

Luffy divertia-se como se esperasse há muito tempo para socar os culpados por isso.

Já Zoro, nocauteou quatro homens, e quando eles caíram, ele começou a mutilá-los. Em golpes retos, decididos; estava muito claro que ele queria fazer isso, no mais íntimo de seu ser. O sangue jorrava das artérias e escorria das veias, formando uma poça escarlate na grama e sujando a roupa do espadachim.

Os olhos de Sanji captaram aquela visão. Nem podia acreditar; o maldito estava fazendo de novo. Matando com aqueles traços de crueldade desnecessários. E, pior, logo adiante...

O grito característico da voz de Nami encheu os ouvidos de todos. A boca da ruiva foi tapada logo em seguida, entretanto.

O cozinheiro podia ver a silhueta da navegadora bem na frente da cabeça de Zoro. Ele queria correr para ajudá-la, mas estava cercado por quatro pessoas que usavam armas de fogo e não o permitiam sair. E ele jamais se perdoaria se Nami levasse um tiro.

- ZORO, AJUDE A NAMI-SAN! – Ele gritou. Robin tentava pegar o homem que tinha Nami presa, mas ele corria rapidamente. E Luffy também estava cercado, mas por sete homens, que atiravam nele feito idiotas. – ZORO!

Mas ele não escutava. Nami continuava gritando, Sanji exclamava para que Zoro fosse ajudar e então, a voz de Usopp foi ouvida. Ele havia sido capturado também. O coração de Sanji e Robin bateu de um jeito tão violento que eles puderam sentir claramente a pulsação nas têmporas. E Luffy gritava também, mas de ódio por causa daqueles malditos.

E Sanji queria matar Zoro por ele não estar... – ZORO, ACORDE, ZORO! SEU MARIMO IDIOTA!

Quando o espadachim deu por si, estava parado em cima de uma pilha de membros mutilados, muito sangue e um cheiro muito forte que vinha dos órgãos internos dos corpos mortos. A katana escorregou por seus dentes e caiu em cima da carne morta, sendo imediatamente recuperada e colocada na bainha. Ele ergueu a cabeça e ouviu a voz de Usopp implorando por ajuda, e os gritos abafados de Nami.

Merda, como era idiota mesmo.

Começou a correr desenfreadamente atrás dos dois nakamas. Nem sabia para onde estava indo, o que era estupidez da sua parte já que provavelmente acabaria perdido. Mas não podia acreditar que havia os deixado serem capturados bem diante de seu nariz... Bem na sua cara. Como se ele nem estivesse ali.

- Kenshi-san! – A voz de Robin foi ouvida novamente e, com raiva, Zoro começou a correr ainda mais rápido para não ser achado pela arqueóloga. Luffy e Sanji também chamavam por ele, mas não, ele não queria saber... Não ia aturar mais dois de seus nakamas serem levados. Agora sim ele queria matar e mutilar todo mundo.

E estava com medo de machucar os três que o seguiam.

- USOPP, NAMI, NÃO DESISTAM! – Ele gritou, porque conseguia ouvir perfeitamente enquanto eles debatiam-se e tentavam se livrar de seus captores. Mesmo com um senso de direção ridículo, ele conseguia seguir o som de ambos e talvez achar o caminho para a cidade. Estava exausto, encharcado de sangue que não lhe pertencia e muito aborrecido, mas não podia simplesmente ficar para trás. Enquanto Luffy, Sanji e Robin o perseguiam, eles não se perderiam completamente. Sabia que eles estavam relativamente perto. Agora que já haviam nocauteado todo mundo, podiam correr atrás de Zoro sem maiores problemas.

Ele parou de andar por um único instante, guardou uma das katanas na bainha e ergueu a outra na altura dos olhos. – SAN-JUU-ROKU POUND HOU!

Robin segurou Luffy e Sanji antes que eles continuassem a correr. Os três tiveram a visão panorâmica de várias árvores serem cortadas ao meio, as copas voando para longe e uma abertura imensa revelar Nami e Usopp sendo arrastados mais à frente, logo adentrando nas árvores que ainda permaneciam em pé. Zoro voltou a correr.

- ZORO, PARE, SEU IDIOTA! Robin-chan, segure ele! – A voz de Sanji era tão nítida que o espadachim não pôde engolir a risada irritada que curvou seus lábios.

Ele sabia que acabaria sendo preso pelas mãos de Robin, mas enquanto conseguia correr, o faria. E ficou mais uns cinco minutos desviando dos braços que brotavam nas árvores e na terra, até ser pego nas pernas por ela e quase cair de cara no chão novamente. Teria sido um deja vú.

As vozes de Usopp e Nami começavam a ficar mais distantes.

Quando Luffy, Robin e Sanji alcançaram Zoro, o cozinheiro imediatamente usou os pés para acertar o peito dele e o fazer bater contra uma árvore, num chute perfeito, como se estivesse pensando nisso há séculos. – COMO VOCÊ... Como você deixou a Nami-san ser capturada, seu inútil? E o pior, usou a sua katana! E se tivesse acertado ela e a matado?

- Não esqueça do Usopp, Sanji! – Reprimiu Luffy com uma voz aborrecida. Ele ia e voltava para frente, como se não soubesse o que fazer.

Zoro sentiu a aproximação de Robin e ela se agachou diante dele. Ele ergueu os olhos para a arqueóloga e não conseguia enxergá-la realmente. Era como se olhasse através dela e visse Nami e Usopp serem espancados sem o menor dó por aquelas pessoas. – Kenshi-san, você está bem?

- Ele está ótimo, mas quando isso tudo acabar, não vai estar porque irei quebrar todos os ossos dele! Idiota! – Ele fez uma pausa, em meio a uma respiração cansada. – Se não estivesse tão preocupado em desossar aqueles caras, teria prestado atenção!

Zoro levantou num salto e fez um movimento amplo e rápido com a Sandai Kitetsu, na legítima intenção de cortar Sanji no meio, mas o cozinheiro desviou antes que isso acontecesse. – Ahh, que bom, agora você quer me matar?

- Cale a boca. – Grunhiu.

- Sanji. – Luffy interrompeu. Ele não precisava dizer nada porque sabia que Sanji estava fora de si por irritação, embora compreendesse o fato de que aquilo não era culpa de Zoro. Mas nem o loiro, nem o espadachim, conseguiam pensar por esse ângulo e Zoro mais uma vez sentia o peso daquilo em suas costas. Se tivesse prestado atenção, se não estivesse concentrado demais em arrancar as víceras daqueles homens, se, se, se...

- Não vou ficar aqui, foda-se a noite, eu vou atrás da Nami-san.

Ele começou a correr e o espadachim virou o rosto para ver Robin levantando. Luffy aproximou-se dos dois nakamas e Zoro o encarou com aqueles olhos que diziam tudo. Sinto muito, Luffy.

- Nós vamos recuperá-los, Zoro. E você vai melhorar.

Obrigado, senchou.

Eles começaram a correr novamente; atrás de Sanji desta vez, e Zoro foi atrás, assim talvez não fizesse outra besteira. E não se perdesse também, era só ir atrás dos cabelos escuros de Robin e do chapéu de palha de Luffy. Não podia ser uma missão difícil. Continuaram correndo por um bom tempo, mesmo com o corpo exausto, a mente não os permitia parar.

A um determinado momento, Zoro já não aguentava de dor de cabeça, mas ouviu Sanji praguejar em alto e bom tom lá na frente. Eles ainda corriam, mas o fato de a voz de Robin ter soltado uma exclamação de susto muito alta fez Luffy e Zoro pararem para olhar para trás. Ela havia desaparecido. Como se tivesse, simplesmente, evaporado no ar. Não tinha nem como saber para que lado a pessoa que a pegou havia ido.

E isso só deixou Zoro com ainda mais ódio, porque sabia que estavam usando kairouseki. Era o único jeito de impedir Robin de usar sua força.

Mesmo assim, eles sabiam que ela só poderia estar indo para o mesmo lugar que os outros foram levados.

Ele começou a correr mais rápido e Luffy teve que apertar o passo para alcançá-lo. Mas a um determinado momento, não aguentavam mais correr. Já fazia uma hora e meia que estavam correndo sem parar e não sabiam se estavam próximos da outra cidade ou não, embora fosse possível que estivessem perto sim. Principalmente porque o tempo diminuiria bastante se eles corressem, e não andassem até lá.

Os dois pararam e apoiaram-se nas árvores que os cercavam. Luffy só precisava de um instante para respirar, assim como o espadachim; mesmo que este estivesse há três noites sem dormir. Havia algo como uma engrenagem em seu corpo que insistia em funcionar e deixá-lo firme como um moto perpétuo¹. Passaram apenas cerca de três minutos antes do capitão afirmar estar bom para continuar e, assentindo em concordância, os dois começaram a correr novamente.

Depois de mais uma hora, eles chegaram à orla da floresta e saltavam para a periferia da cidade. Ela era muito semelhante à cidade portuária, mas era muito maior e parecia tão ou talvez ainda mais organizada que a outra. As pessoas ainda dormiam. Devia faltar uma hora para que a manhã surgisse completamente, e era óbvio que as pessoas estariam dormindo. Pelo menos naquela área; talvez houvesse gente no meio da rua, como em qualquer lugar...

Mais adiante, viram Sanji encostado num poste, parecendo tomar fôlego, com seu cigarro pendurado nos lábios. Foram até ele e o espadachim até podia sentir que estava prestes a ouvir um esporro do cozinheiro porque Robin havia sido capturada de novo.

- Onde está a Robin-chan?

- Ela foi levada. – Luffy respondeu antes de Zoro se manifestar.

- O QUÊ? ELA TAMBÉM? De novo? – O cozinheiro sobressaltou-se imediatamente, tirando o cigarro da boca por um instante antes de tragar muito longamente.

Zoro puxou uma boa golfada de ar, tentando ignorar aquilo porque era algo completamente inútil. Não precisava de bronca para saber que Robin ter sido levada era um problema.

Se normalmente diria a Sanji para ir com ele, agora não sentia a menor vontade de ter a companhia do cozinheiro para fazer o que precisava fazer antes de ter um surto psicótico. Aquela discussão e tudo o que houve partiu a firmeza de Zoro com o nakama, como Sanji mesmo havia previsto que aconteceria caso algo ruim acontecesse. – Não espero que entendam, mas eu preciso sair daqui.

E sem nem esperar, ele saiu rapidamente da frente deles e correu para dentro da cidade. Luffy apressou-se para ir atrás do rapaz e Sanji fez o mesmo.

Quando o encontraram numa das ruas que eram mais largas, ele já havia matado três pessoas; dentre elas, uma mulher, o que foi um choque para os dois. Apesar de tudo, Zoro não era do tipo que machucava mulheres. E com ela, ele pareceu ter sido mais cruel, visto que quase a partiu ao meio, na vertical. O corte deformava o rosto dela.

- VOCÊ ESTÁ COMPLETAMENTE LOUCO, ZORO! – Sanji gritou, enlouquecido de raiva, mas antes de ele fazer alguma coisa, Luffy usou os braços para agarrar Zoro. Não ia aturar mais isso. Puxou-o de volta para si e eles caíram no chão; o capitão caiu em cima do nakama e o olhou nos olhos, o rosto mostrando aquela seriedade que aparecia apenas de vez em quando.

- Zoro, pare. Pare, chega!

- Eu não consigo evitar, Luffy! Eu estou furioso, puto da vida, quero matar todo mundo! Matar todos pelo que está acontecendo!

- Tá, mas o que adianta você matar essa gente que não tem nada a ver com isso? – Luffy gritou, fazendo sua voz sobressair à de Zoro. Sanji, apesar de irritado, não se manifestava enquanto o capitão tomava conta do que acontecia. Mesmo assim, as sobrancelhas franziam-se numa expressão de mais pura raiva. – No que isso vai nos ajudar?

Luffy respirava fortemente, num ritmo descompassado ao do seu nakama. Seu primeiro nakama, seu melhor amigo. E para ele era uma tortura ver Zoro naquele estado. Todo sujo de sangue. Sangue inocente. Porque vê-lo coberto de sangue não era um problema, mas sim, saber que boa parte dele era de quem não merecia ter morrido.

O espadachim respirou fundo porque sabia que, de vez em quando, Luffy dizia coisas extremamente verdadeiras e merecia ser ouvido. Muito mais que isso, talvez.

Zoro prendeu a respiração. Quis se mexer, mas não conseguiu por estar preso pelos braços de Luffy. Ficou em silêncio alguns instantes. – Desculpe, Luffy... – Sussurrou, num tom tão baixo que somente o capitão ouviria realmente.

- Tudo bem. – O tom de voz do garoto mudou completamente. Liberou o rapaz e pôs-se de pé. Zoro não levantou imediatamente; permaneceu deitado olhando para o céu que começava a ficar mais claro com o passar dos minutos. Por um instante hesitou, como se tudo fosse ficar vermelho vivo de repente, como o sangue daquelas pessoas...

Sangue, sangue, sangue. Pensar nisso agora – nos poucos instantes que estava calmo – era insuportável; chegava a ficar verdadeiramente repugnante. Mas quando estava com aquela ânsia lhe dominando, tudo era muito agradável. Era uma descarga louca de adrenalina. Como se fosse uma satisfação muito esquisita, aquela euforia já dita. E agora, que seu coração estava ainda mais imerso no ódio, matá-los era bom. Passava uma sensação que fazia essa raiva dissipar por um único instante.

Como se matar aquelas pessoas poupasse a vida daqueles com os quais ele se importava demais para deixar que partissem sem ao menos reagir.

Sanji acendeu outro cigarro, tragando profundamente. Não podia brigar com Zoro agora, embora quisesse muito chutar a cara dele. Luffy já havia se manifestado e, agora, teria que acatar as ordens do capitão. Mas mesmo assim... Não acreditava que ele teve coragem de matar aquela mulher. Que desprezível.

Inspirou uma nova quantia de fumaça através do trago. - E agora, como vamos achá-los? – Sanji trouxe Zoro de volta à realidade, fazendo-o levantar de onde estava e passar a mão pelo rosto. – Eles podem estar em qualquer lugar. Ninguém te viu, né, marimo?

- Não.

- Vamos esperar o dia amanhecer para nos informar...

- Esperar? Não posso ficar aqui esperando enquanto meus nakamas estão presos daquele jeito! Não vou fic—

- Luffy, eu também estou muito irritado com toda essa merda, mas só vamos perder tempo se sairmos correndo agora. E energia. Se tivermos a informação na nossa mão, será muito mais fácil.

Luffy ignorou completamente o cozinheiro. – Vou dar um jeito de achar aquele nezumi agora mesmo! – E começou a correr. Sanji ia fazer o mesmo, mas teve sua atenção voltada para a voz de Zoro.

- Cook... Tire essas pessoas daqui, por favor...

Sanji sentiu o coração revirar no peito com aquelas palavras; por favor... Essas duas simples palavras fizeram o loiro acabar por assentir, embora contrariado. – Pelo menos me ajude, idiota. – Ele usou seu típico tom e o espadachim manteve o olhar longe por um instante, prestando atenção num Luffy que corria sem direção para tentar encontrar Zanell.

Não conseguia parar de pensar, agora, em seus nakamas presos. Chopper, Franky, Nami, Usopp... E Robin, de novo. Só de pensar ele já ficava muito mais furioso. A cada novo pensamento, a irritação crescia com muita intensidade.

- Marimo! – Exclamou o loiro, chamando a atenção do nakama novamente. Eles se moveram um pouco para levar os mortos para a floresta.

- Como vamos achá-los?

- Temos que nos informar. Não vai dar para adivinhar onde está Zanell, tem muitas casas. – Ele parou de falar enquanto pegava um dos homens e colocava no ombro, caminhando na direção das árvores.

Zoro se agachou diante da mulher morta e passou a mão no alto da cabeça morena dela, lamentando profundamente por tê-la matado. Mas agora, não podia voltar atrás. Apenas pegou-a no colo gentilmente e caminhou para onde Sanji ia, seguindo-o até a floresta e a deixando ali, junto com os outros. Enquanto isso, o cozinheiro trazia o outro morto e quando alcançou o espadachim, parou ao lado da mulher morta.

- Ela não merecia. Nenhum deles merecia, Zoro.

Ele respirou fundo. – Eu sei...

Sanji ficou em silêncio e o espadachim também. Andaram um pouco pela orla da floresta a fim de afastar-se daqueles corpos, uma vez que a manhã estava para aparecer e se estivessem por ali, seriam suspeitos demais... E só por estarem naquela cidade, já era suspeito o bastante.


Moto perpétuo¹ - Um moto-contínuo, ou máquina de movimento perpétuo são classes de máquinas hipotéticas as quais reutilizariam indefinidamente a energia gerada por seu próprio movimento. (Fonte: Wikipédia)