Subsolo
Zoro ainda estava visivelmente incomodado com tudo o que houve naquela cidade e eles mal haviam chegado lá. E o espadachim já matou três pessoas completamente inocentes. Gostaria tanto de encontrar uma maneira de mudar o curso de seus pensamentos; poderia... Bem, poderia matar por isso. Mas se matasse, os pensamentos mudariam mesmo. Muito embora, naquele momento, a raiva que estava contida no íntimo de seu ser desejava uma morte diferente – daquelas pessoas que estavam fazendo isso –, o que desencadeava esse desejo estúpido de matar sem motivo.
– Antes de irmos para a cidade, você vai se limpar.
– Perdão?
– Limpar, sabe o que é isso, ou não toma banho? Você está todo imundo em sangue, acha que vão nos dar qualquer informação desse jeito?
– E como pretende que eu me limpe? – Zoro perguntou já ficando aborrecido.
– Quando cheguei aqui, eu passei por uma casa que tinha um poço, vamos para lá.
Começou a caminhar e o espadachim percebeu que não possuía qualquer alternativa que não fosse segui-lo. Depois de poucos minutos eles pulavam uma cerca bem baixa para entrar no jardim da casa e caminhar até o poço ao velho estilo antigo. Sanji pegou a corda e começou a puxar, o que logo revelou um balde de madeira cheio de água limpinha.
– Isso é tão clichê – resmungou Zoro, com uma carranca. Sanji deu uma risada.
– Tire essa camiseta, limpe-se, lave sua cara e passe uma água na camiseta também.
– Eu sei me limpar, obrigado por se preocupar.
O loiro deu de ombros, como se falasse apenas por falar e acendeu um cigarro logo em seguida, desviando seu olhar para outra coisa que não fosse seu nakama se encharcando com aquela água suspeita. De qualquer forma, era melhor que ficar todo sujo com aquele sangue.
Ao passo que os minutos passavam, o céu começava a adquirir um tom azul-prateado característico; era a segunda vez naquele pouco espaço de tempo que Zoro via o amanhecer e, então, completavam-se exatamente três noites sem pregar os olhos para dormir. Não só a noite como o dia também, visto que ele era especialista em dormir um pouquinho aqui e ali no convés do Sunny ou escondido em algum outro lugar durante a tarde.
O rapaz deu um longo bocejo enquanto esfregava a camiseta com força para tirar as manchas mais fortes. Jogou a água na grama e baixou o balde para encher novamente. – Oe, cook.
– Quê?
– Preciso que limpe minhas costas.
– Haa?!
– É. Eu não consigo ver minhas costas, então você tem que lavar.
– Há! Você tá brincando comigo, não tá?
Zoro fechou a cara. – Tá parecendo que estou?
Sanji estreitou os olhos, visivelmente descontente com o "convite" repentino feito pelo maior, mas sabia que o pedido tinha cabimento. Mesmo assim, não ficava exatamente alegre com a ideia de esfregar as costas dele.
– Estou pedindo para tirar o sangue das minhas costas, não para me dar um banho de espuma e fazer massagem.
– E-eu nem pensei nisso, marimo idiota. Vira.
Zoro murmurou algo incompreensível e virou de costas para Sanji assim que tirou o balde do poço.
– Nem está tão sujo. São suas costas, afinal, você não tem olhos aí, não é? Só pode matar de frente. – Disse Sanji enquanto jogava água nos músculos do ombro de Zoro e passava a mão firmemente a fim de fazer o sangue umedecer novamente e escorrer.
– Muito sangue espirrou em mim. – Explicou o espadachim. Ele parecia muito incomodado com o que estava acontecendo, mas simultaneamente mostrava-se complacente. – E ele escorre pelos ombros, suja a camiseta, enfim... – Ele voltou a encharcar a peça de roupa na água e esfregar; o movimento dos braços fez as omoplatas saltarem nas costas.
Ai. Meu. Deus.
Sanji sentiu o rosto ferver de ter que esfregar as costas dele com as mãos e, a um dado momento, achou que era melhor simplesmente deixar assim e fim de papo. Tirou as mãos do corpo do nakama e recolheu-as rapidamente para os bolsos da calça, virando de lado para evitar que Zoro visse seu rosto avermelhado. – Pronto, agora se vista.
O espadachim fez um sinal com a cabeça, torceu a camiseta, fazendo uma boa quantia de água escorrer e depois pingar por ela. Sacudiu a peça em seguida e vestiu no corpo. Ainda tinha umas manchas, parecia que ele havia comido molho de tomate, derrubado no corpo e tentado tirar com água no banheiro. Sem falar que estava completamente amarrotada.
– Tira isso.
– Quê?
– Está horrível, você vai apavorar as pessoas. Tira, vou te emprestar uma camisa.
– Uma daquelas suas camisas coloridas horríveis?
Sanji o olhou com uma expressão extremamente irritada. – Não, vou te emprestar uma listrada verde e branco para combinar com seu... Sua... Sei lá, essa sua fixação por verde.
O espadachim respirou fortemente, demonstrando seu aborrecimento e Sanji revirou a mochila até tirar uma camisa das cores que havia descrito a ele, com listras verticais largas. Entregou-lhe e esperou que vestisse enquanto enfiava na mochila a camiseta branca das que Zoro sempre usava.
– Pronto, está mais apresentável. – Ele deu uma boa olhada em Zoro e assentiu com a cabeça, como que conversando consigo mesmo. – Mas acho que tá meio apertado... – Estreitou os olhos para o nakama, e espadachim mexeu um pouco os braços, sentindo que estava justo mesmo. – Ninguém mandou você ter mais músculos do que cérebro.
– Quer ver a força dos meus músculos? – Grunhiu Zoro entre dentes, muito irritado.
– Não, mas eu pus uma camisa aqui que é um ou dois números maior que o meu... Espera.
– Deixa, eu vou sem mesmo.
– Não! – Sanji exclamou enquanto revirava a mochila. Diante dos olhos do espadachim o encarando como quem não entende absolutamente nada, o cozinheiro sentiu as orelhas esquentarem.
– Er... Digo, não é uma boa ideia, andar com ela aberta já é exibicionismo demais. Aqui. – Ele tirou uma camisa vermelha com uma estampa de hibiscos brancos e atirou nas mãos do nakama. – Tente esta.
– O que diabos são essas flores horríveis?
– São hibiscos, seu idiota. E são flores bonitas. Agora vista. – Sanji fechou sua mochila depois de colocar algumas coisas de volta lá dentro e assim que Zoro colocou a camisa e ela serviu como uma luva, o cozinheiro deu uma nova olhada no nakama. – Muito melhor. – Fez uma pausa e pôs a mochila de volta nas costas. – Vamos para a cidade, acho que logo encontramos alguém por lá. Ou, na pior das hipóteses, somos "encontrados".
Sem responder, o maior apenas seguiu Sanji para a cidade enquanto caminhavam a passos longos e calmos pela rua. Algumas pessoas saíam de suas casas e andavam rapidamente a fim de chegar a seus comércios, enquanto outras apenas davam dois ou três passos até a porta ao lado e abriam suas lojinhas. Era um local interessante, de fato. Tinha cara de ser mais pacífica do que a outra cidade; talvez apenas as pessoas soassem menos suspeitas.
A parte boa era que estar na companhia de Sanji, de alguma forma, era uma boa maneira de se segurar. Mesmo que o loiro tivesse começado o ajudando, acabou desembestando e se irritando com o problema, brigaram e agora ele estava procurando ajudar de novo. Realmente importava-se com o espadachim e era muito visível, o que era bem importante para o próprio Zoro.
O cozinheiro acendeu um cigarro e observou uma mulher de cabelos alaranjados, incrivelmente semelhantes aos de Nami, embora mais longos. Ela abriu a porta de sua floricultura, e começou a empurrar lá de dentro uma prateleira estupidamente grande, onde ela certamente colocaria algumas flores à mostra. – Vou ali.
– Ainda tem tempo para flertar, cook? – Perguntou um Zoro debochado e Sanji apenas ignorou. Caminhou até a moça e acabou por ser seguido pelo outro.
– Bom dia, mademoiselle. – Ele curvou-se gentilmente. – Gostaria de uma ajuda?
– Ahn, forasteiros, né? – A ruiva olhou curiosa para os dois rapazes, num misto de hesitação, também. – E o que quer para me ajudar?
– Eu? Nada, por que eu exigiria algo de uma criatura tão bela como você?
Ela deu uma risadinha. – Hum... Não sei...
– Meu nome é Sanji e esse marimo bizarro aqui é o Zoro. – Ele explicou. A garota deu uma risadinha novamente, observando o espadachim, que torceu o rosto numa carranca de irritação por causa do lance do "marimo". Como se já não fosse praxe.
Talvez ela tivesse achado algo familiar, mas só talvez...
– Como é seu nome?
– Maki.
– Maki-chan? – O loiro sorriu e ela assentiu em concordância ao sufixo. – Muito bem, eu e o Zoro iremos empurrar essa coisa para fora, por favor, preocupe-se com suas flores. – Continuou num tom polido e a moça moveu os ombros, agradecendo silenciosamente pela ajuda. Voltou ao interior do estabelecimento e Sanji chamou a atenção do nakama para que ele se aproximasse. – Vamos dar uma ajudinha e depois ver o que ela sabe sobre o Zanell.
– Ah, achei que só estivesse interessado na garota, mesmo.
Sanji sentiu o rosto esquentar pela irritação – ou ao menos assim ele pensava – e trincou os dentes. – Nada disso, eu—
Zoro respirou fundo, engolindo suas ânsias e deu um sorriso esperto, embora meio forçado.
– Se eu estiver, você não tem nada a ver com isso. – Respondeu ele, áspero. Pigarreou. – Agora vamos tirar essa coisa daqui...
Os dois começaram a puxar a prateleira de ferro tingido de grafite para fora da loja. Havia umas partes com a tinta descascada e enferrujadas, mas a loja em geral tinha uma boa aparência e era bem cuidada, sem falar que só de entrar lá para empurrar o móvel para fora, Sanji sentiu um gostoso cheiro de flores. Assim que a colocaram no lugar, ambos se ajudando para não parecerem monstros aos olhos de Maki, o cozinheiro retornou para perto da ruiva e curvou-se no balcão.
– Desde quando mora aqui, Maki-chan?
– Desde que nasci. Meus pais tinham essa loja e passaram-na para mim. – Ela explicou, começando a levar as flores para fora e Sanji foi a ajudando enquanto caminhavam de dentro para fora do estabelecimento, colocando as plantas na prateleira. Zoro estava sentado num banco dentro da loja.
– E essa ilha sempre foi assim, calma?
– Houve uma confusão quando Zanell-sama e seus piratas chegaram, mas foi só; em geral era bem tranquila. Agora, está tudo em paz novamente.
– Zanell é o homem que toma conta da ilha, não? Eu estive na outra cidade, é muito bonita.
– Ah, é. – Ela sorriu, colocando uma mecha de cabelo ruivo atrás da orelha, fazendo Sanji suspirar. Era realmente tão bonitinha; com grandes olhos verdes e sardinhas no nariz. – Ele é um pouco arrogante, mas muito bom para a ilha, em geral. Eu tenho muito mais clientes desde que ele chegou porque o comércio todo prosperou, e então, é como uma bola de neve, não é?
– Sim, tem razão. – Sanji colocou as últimas flores na prateleira. Era um punhado de rosas amarelas. Ele pegou uma delas do buquê e fez uma mensura gentil para a ruiva, entregando-lhe. Ela deu um sorriso e eles voltaram para dentro da loja. Encaminhou-se para o balcão e encheu um vaso comprido com água, colocando a rosa ali como se realmente não fosse dela e Sanji houvesse acabado de lhe dar.
Bem, pelo menos ela era sensata com um homem daqueles.
– Hum, onde esse tal Zanell fica?
– Como assim?
– Sabe, onde ele mora? Quer dizer, ele parece muito pacífico, deve conversar com as pessoas da cidade sem problemas, certo?
Zoro estreitou os olhos enquanto observava a conversa. Era incrível como aquele idiota tinha lábia, por Deus do céu.
– Ah, é... Bom, ele mora numa casa que fica no fim da cidade.
– E ele atende a todos?
– Bom, ele é bem receptivo, vive andando pela cidade, mas tem dias que não dá para falar com ele. E essa semana é uma delas. Acredito que esteja em casa, mas, o que você quer com Zanell-sama?
– Eu? Ah, só tenho curiosidade, hum... Uma de minhas nakamas está fazendo um diário de navegação e gosta de ter esse tipo de informação... – Mentiu descaradamente.
– Ahh, sim, entendi. É uma casa azul, a maior casa da cidade embora só tenha um andar. Bem grande, não tem como errar. Mas vou avisando que é difícil entrar lá, ele é muito reservado, tem um muro bem alto...
– Mas você não disse que ele era receptivo?
– Sim, mas não disse que era na casa dele. Apesar de tudo, ele é discreto.
– Tenho uma dúvida... Como vocês nunca são atacados por piratas? – Ele ficou observando-a mexer num punhado de flores coloridas para fazer um buquê. O olhar de Sanji manteve-se fixo ali, para mostrar que seu interesse maior era no arranjo e não na conversa.
Como ele era esperto.
– Hum? Bem, nós já fomos umas duas ou três vezes, por piratas toscos, mas dificilmente chega a essa cidade porque Zanell-sama e seu bando resolvem o problema rapidinho, já na cidade portuária. E de qualquer forma, os piratas quase nunca arranjam confusão porque a paz aqui é muito grande... E eles gostam de aproveitar isso.
– Zanell não era um pirata?
– Eram todos piratas. Não sei bem porque eles desistiram do oceano...
– Me diga... Maki-chan, você já falou com ele? Como ele é? – Essas perguntas foram inúteis visto que ele já sabia como Zanell era, mas só queria fingir que não sabia.
– Por que quer saber de tudo isso, Sanji-san? – Ela estreitou os olhos verdes na direção do pirata, obviamente começando a suspeitar de tantas questões repentinas. O cozinheiro ergueu as sobrancelhas e fez um sinal com as mãos.
– Só curiosidade, já disse, e—
Salvo pelo gongo. Uma mulher entrou na loja. Era uma senhora, o que era justificável àquele horário, de certa forma. – Ah, você tem clientes, não vou mais importuná-la... Foi um prazer te conhecer, Maki-chan. Vamos embora, Zoro. – Ele disse rapidamente, chamando o nakama que logo se levantou. Começaram a caminhar para fora da loja, e Sanji teve a nítida impressão que sim, Maki os havia reconhecido. Pelo menos a um deles.
Não sabia se cartazes de procurado eram proibidos naquele lugar ou algo do tipo, porque não haviam visto qualquer um por aí, mas talvez em algum canto, pelo menos, tivesse um cartaz com as fuças deles. E mesmo que o loiro detestasse seu desenho no cartaz, não tinha muita opção a essa altura.
O fato é que a cidade era muito pacífica e Robin já havia afirmado que a cidade não tinha problemas com piratas porque eles nunca arranjavam confusão, porque a marinha não aparecia lá, então todos aproveitavam a paz. Somente piratas de baixa categoria tentavam criar problema na ilha.
E quando arranjavam, Zanell e seu esperto e violento bando entravam em ação. E o problema não durava muito tempo. Maki confirmou tudo. Mas será que se ela os reconhecesse, não acharia estranho demais o interesse dos piratas naquele que governava a ilha? Podia soar como uma conspiração e ela poderia criar problemas para eles.
Falando nela... – Oe, Sanji-san?
O cozinheiro parou de andar e virou-se lentamente para ela. – Sim?
A ruiva demorou uns instantes para responder. – Hum... Obrigada pela flor. – Sorriu.
– Ah, imagina, Maki-chan... Eu que agradeço por me presentear com sua magnífica existência.
Zoro apertou as sobrancelhas e seguiu para fora da loja, sem ter tempo para ver Sanji curvar-se para a moça numa despedida formal demais para um encontro casual daqueles. Quando o loiro chegou lá fora, acendeu seu cigarro e parou na frente do espadachim. – Casa azul, fim da cidade. Já sabemos aonde ir, viu só?
– Já falei que você é estranho? – Resmungou Zoro.
– Ah, olha quem fala, marimo. – Ele assoprou a fumaça. – Vamos procurar essa tal casa azul com muro alto, e quem sabe dar a sorte de achar nosso senchou por aí.
Eles retomaram a caminhada. Sanji manteve as mãos nos bolsos e Zoro fez o possível para deixar a mão longe das katanas, mas era algo simplesmente instintivo. Ele suava nas têmporas e sentia uma gota de suor escorrer pelas costas.
Francamente, Sanji não sabia bem para onde estava indo; estava apenas caminhando na direção que considerava a correta, já que não tinha um mapa ou certeza de onde era o "fim" da cidade. Concluiu que era o lado oposto de onde vieram, já que não tinha muito mais opções do que isso. – Fique de olho para ver se achamos o Luff—
– GOMU GOMU NO...
– Achamos. – Zoro começou a correr, seguindo a voz, e quando o capitão exclamou "PISTOL", houve um barulho alto demais para perder-se. Quando chegaram mais adiante, perto da floresta que era aparentemente onde ficavam aquelas pessoas, Luffy respirava fortemente e recolhia seus braços. – Luffy!
– Zoro, Sanji! – Ele exclamou, feliz. – Eu estava procurando o nezumi, mas acabei me perdendo, daí aquele idiota tentou me capturar... Que burro!
Sanji riu e o espadachim deu um pequeno sorriso. – É... Realmente.
– Luffy, nós sabemos onde está o Zanell. – Explicou o loiro, o que fez os olhos do garoto brilharem, ansiosos. – Ele fica numa casa azul com um muro alto, por acaso você viu onde é?
– AHHH! Vi sim! É pra lá! – Luffy esticou os braços para trás e jogou-os para frente, agarrando-se no telhado de uma casa; algumas pessoas começavam a se reunir por causa da bagunça.
– Oe, o que pensa que está fazendo?
– Indo para a casa do nezumi, Sanji, onde mais?
– Vem cá, cook. – Zoro puxou Sanji pela cintura e com o outro braço, segurou-se à cintura de Luffy. O cozinheiro esperneou imediatamente, exclamando o quanto Luffy tinha problemas na cabeça.
– Muito bem, vamos lá! – O capitão abriu um largo sorriso e Sanji agarrou-se ao pescoço dele porque francamente... Alguma coisa o dizia que ele ia cair muito feio se não segurasse bem. Luffy tomou impulso e atirou-se no ar. Os dois que iam segurando-se ao capitão pareciam meio apavorados com a ideia toda, mas Zoro perguntava-se o porquê de ainda achar aquilo esquisito... Luffy vivia dando dessas.
Logo, eles aterrissaram de cara num chão de grama fofinha, mas nem tão fofa para quem cai daquele jeito. Na realidade, o capitão caiu de pé direitinho, mas Zoro e Sanji tombaram e rolaram pela grama umas três vezes. Enquanto Luffy batia nas roupas para livrar-se da terra, Sanji se dava conta que havia caído em cima de Zoro, que estava de bruços na grama.
– Sai daí, seu idiota. – Praguejou o espadachim, forçando o corpo para cima e fazendo o cozinheiro rolar para o lado.
Levantou-se e Sanji fez uma expressão de dor, cutucando as costas.
– Oe, quebrou alguma coisa?
– Claro que não, imbecil, precisa de mais que isso para quebrar meus ossos. – O loiro fez um sinal com a mão para fazer o outro afastar-se e ficou de pé, respirando brevemente. Sanji virou de costas para o outro e procurou seus cigarros no bolso da calça; assim que encontrou, pendurou nos lábios. – Além do mais, o marimo amorteceu minha queda.
Zoro sentiu uma veia latejar na testa. - Cook...
– Quê?
– Por que não me deixa tentar quebrar seus ossos? – Ele disse com uma sombra atravessando seu rosto.
Sanji rosnou de raiva, mas antes que eles pudessem começar a brigar de novo, Luffy chamou-lhes a atenção. – Oe! Zoro, Sanji!
Os dois olharam a sua volta e notaram que havia mais de vinte homens em volta dos três, cercando-os com armas de fogo, katanas e facas. – Acho que nós caímos dentro do ninho do rato, senchou. – Disse Zoro já tirando a Sandai Kitetsu e a Shuusui da bainha para destruir toda aquela gente; e de preferência, matá-los de um jeito bem cruel.
Aqueles caras mereciam.
Eles começaram uma luta que não durou muito tempo visto que em um só golpe Luffy arrastou nove homens, Sanji derrubou seis e Zoro matou mais seis. Ou melhor, cortou-os na jugular para poder ver o sangue espirrar e que eles morressem lentamente, agonizando no chão. É... Bem, sua vontade havia ido embora. E, mais uma vez, ele percebia que conseguiu ficar pelo menos um pouco controlado enquanto estava na companhia de... Nesse caso, foi apenas de Sanji inicialmente, e depois, de Luffy.
E isso fez Zoro franzir a sobrancelha por um instante antes de ser atacado pelo último homem e cortar-lhe a cabeça num golpe perfeito.
O corpo caiu e os que foram derrotados, mas estavam vivos, olharam horrorizados para o que viam. Os que ainda agonizavam, soltavam urros de dor enquanto tentavam conter o sangramento em seus pescoços. Os já inconscientes ainda espirravam sangue e a grama se manchava de vermelho. Zoro respirou fundo, sentindo o líquido escarlate escorrendo pelo seu peito e nesse exato momento, Sanji o puxou com força pelo pulso. – Não vai entrar?
– Ah... Haa?
– Entrar na casa. Vamos procurar o Zanell. – O cozinheiro agitou o braço do nakama e pôs-se a correr atrás de Luffy, que já estava bastante adiantado. Zoro começou a seguir Sanji e então, eles adiantaram-se até a porta de entrada da residência.
Luffy empurrou a porta e nesse meio tempo, os outros dois o alcançaram. Ele entrou na casa e logo o hall mostrava o fato de Zanell certamente ter um dinheiro bem interessante; muitas peças de decoração e madeira de alta qualidade. Lá dentro estava vazio. De pessoas, eu digo. Não havia uma alma viva sequer. Pelo menos foi assim que aparentou ao passo que os três iam andando mais para dentro da casa. Luffy olhou-se num espelho bem grande e alto. – Woooo, a casa dele é muito legal!
Zoro olhou o capitão por uns instantes antes de ouvir um estalo alto que vinha de baixo. E isso era estranho visto que haviam sido informados que havia apenas um andar na casa. Bem... De certo era somente o que as pessoas viam. – Acho que tem mais coisa lá embaixo.
– E como vamos chegar lá embaixo?
Luffy ouviu a conversa e ficou movendo a cabeça na frente do espelho, como se estivesse vendo através dele.
De repente, deu um soco na peça, que se partiu em milhões de caquinhos. Sanji olhou abismado para o espelho quebrado e correu na direção do capitão. – Tá louco, Luffy? Isso dá sete anos de azar! – Ele exclamou, abaixando-se para pegar uns pedaços do objeto.
– Essas coisas não me afetam! – Luffy deu uma risadinha esperta e Zoro sorriu de boca fechada. – Mas olha! – Ele indicou a parede atrás do espelho, onde havia uma abertura em forma de arco, mas sem porta.
– Como você sabia que tinha algo aí, Luffy? – Perguntou Zoro, aproximando-se.
– Eu só achei estranho esse espelho no meio da entrada, tão grande assim. Daí suspeitei.
–... O que tem de estranho nisso? – Sanji estreitou o olho visível para o capitão, respirou fundo meneando negativamente a cabeça e pôs-se de pé. Luffy deu de ombros. – Tanto faz. Melhor assim, pelo menos achamos algum tipo de passagem... – Eles debruçaram-se na abertura para olhar lá embaixo; havia uma escada que desaparecia na escuridão e, de fato, tudo parecia estar envolto no breu total. – Será que a Nami-san e a Robin-chan estão lá?
– E o Usopp, o Franky e o Chopper, mellorine. – Zoro ergueu a mão para dar um cascudo na cabeça de Sanji, mas foi impedido pelo próprio cozinheiro, que lhe segurou o pulso antes que ele conseguisse. – Idiota.
– Marimo.
O espadachim trincou os dentes, e Luffy saiu correndo escada abaixo. – Oe Luffy, não vá assim! – Zoro puxou o braço para longe de Sanji e começou a correr atrás do capitão. O cozinheiro passou a mão no rosto, pensando no quão idiotas eram aqueles dois, e desceu rapidamente para segui-los. Quando Sanji chegou num lugar que era iluminado por tochas, percebeu que Zoro havia se perdido do garoto-borracha e este não estava mais com eles. Havia três corredores onde estavam e certamente o capitão havia escolhido um deles; o espadachim não sabia qual escolher.
– Puta merda, o Luffy só nos dá problemas.
– Ele sabe se cuidar sozinho.
Sanji olhou em volta e percebeu que estavam num calabouço. Um de verdade, como uma masmorra, construída em pedra e iluminada por fogo, já que não tinha como ter janelas. Estava quente feito o inferno lá dentro e era claustrofóbico de tão estreito que era o corredor. Ergueu os olhos para Zoro e notou que ele suava ainda mais. Observou-o passar a mão na testa e escorregar para a nuca, esfregando a região com visível incômodo.
– Vamos começar a andar, quem sabe encontramos uma porta e uma sala de tortura.
– Quer brincar lá? – Zoro perguntou com um tom cruel e Sanji o encarou com os dentes cerrados fortemente.
– Você está me assustando. – Mentiu, com um tom de piada. Na realidade até era um pouco apavorante, mas sabia que o espadachim não faria nada do tipo contra ele. Mesmo que quisesse muito, no fim das contas, o companheirismo falava muito mais alto do que a possível raiva que Zoro sentia por Sanji. Ou ao menos ele pensava que havia muita raiva.
O mais alto deu um sorriso e começou a andar na frente, tomando o corredor da esquerda.
– Onde pensa que vai? – Sanji chamou a atenção do rapaz e adiantou-se para alcançá-lo – Você não pode ir na frente, vamos acabar indo parar no inferno com seu senso de direção.
– Acho que já estamos nele. Esse tal de Zanell é bem sádico. Ou gosta de viver no subsolo como os ratos.
O cozinheiro deu uma risada e continuou guiando-se a esmo pelo local, mas seguindo seu instinto que talvez os levaria a algum tipo de esconderijo onde seus nakamas poderiam estar. – Sabe, agora faz sentido aquele lugar embaixo da terra que encontramos na outra cidade, onde resgatamos a Robin-chan. – Sanji olhou para as tochas e aproximou-se de uma delas para acender seu cigarro, que havia permanecido nos lábios, mas apagado. – O cara deve realmente gostar de viver como os ratos.
Eles continuaram caminhando um pouco mais, sempre em linha reta porque não havia qualquer curva pelo corredor.
– Não está ouvindo um barulho de água corrente? – Perguntou o espadachim, apurando os ouvidos e fazendo uma expressão pensativa por uns segundos.
O cozinheiro começou a andar mais rápido, indo na frente de Zoro e o ouviu reclamar por causa da pressa. Logo, eles chegavam a um local onde havia uma esquina de corredores e água passava por ali, cruzando-se e formando então o final do caminho que haviam percorrido. – Ugh, que cheiro horrível!
– Isso é esgoto? – Zoro agachou-se diante da água, cheirando o ar.
– Argh, o cara é um rato, literalmente, que nojo!
– Será que é um atalho? – O espadachim pisou na água e, antes de dar o passo adiante, fez uma expressão ruim por causa do cheiro, que era realmente horrível. Continuou caminhando lentamente. A água batia em seu calcanhar e corria rapidamente para onde supostamente seria a continuação do corredor onde estavam. Ele apoiou-se nas paredes e Sanji o perdeu de vista porque a iluminação naquele local era escassa.
– Oe marimo, volte para trás, não mude de direção! Não estou te vendo! – Ele gritou, fazendo sua voz ecoar.
Não houve resposta imediata, mas... – LUFFY!
– QUÊ? – O cozinheiro gritou novamente, e começou a correr pela água, ignorando o fato de ser... Esgoto, e de isso ser muito nojento. Quando alcançou Zoro, ele pulava numa queda d'água.
Havia um espaço redondo, aberto e gigante onde estavam, em tons de cinza e uma água acinzentada, também. E três entradas no alto das paredes; uma era a queda onde Sanji encontrava-se no alto. A outra era uma rampa que percorria o lado esquerdo da parede e uma outra não havia sequer uma escada. O cozinheiro suspirou porque devia ter tentado o caminho do meio... Mas era estranho que não houvesse qualquer tipo de obstáculo.
Assoprou a fumaça do cigarro para cima e virou-se para olhar lá em baixo.
Zoro submergia, carregando Luffy com a mão, que tossia muita água. – Oe, marimo! – Gritou o loiro. – Tudo bem aí?!
– Sim! Trate de vir já aqui!
– Quêê?! Eu não vou pular nessa água nojenta!
– Pare de ser fresco, depois você toma um banho. – Zoro falou num tom baixo demais para Sanji ouvir, mas o cozinheiro tinha a impressão de ter entendido muito bem o que ele falou. Suspirou. Não podia ficar lá em cima, Nami e Robin podiam estar em perigo e agora já haviam entrado naquele pardieiro. Não tinha como fugir. Mas... Ir encontrar as meninas com aquele cheiro de esgoto seria degradante demais. – PULE LOGO!
– Tá, tá, já vai. – Sanji atirou o cigarro e observou-o caindo por uns longos segundos naquela queda d'água relativamente alta. Pegou a carteira de cigarros, soltou no ar e acertou um chute certeiro que fez o objeto voar para a borda daquela piscina imunda. Respirou fundo, tomou um pequeno impulso e pulou.
Lá embaixo, Zoro observou a queda de Sanji até ele chocar-se com a água e espirrar uma boa quantia, fazendo umas ondinhas baixas. O espadachim cuspia frequentemente porque, caramba, aquela água era nojenta. Ergueu Luffy um pouco mais e colocou-o em seu ombro, nadando para a borda que dava para um outro corredor. Sanji nadou atrás do espadachim e subiu na borda, ajudando-o a colocar o capitão no chão e fazê-lo cuspir toda a água que havia engolido.
– Que lugar podre. Não acredito que isso existe. – Comentou o cozinheiro enquanto Zoro saía da água e o ajudava com Luffy.
O capitão cuspiu uma boa quantia de água e já recobrava sua consciência. – Aghhh, isso foi péssimo. – Ele sentou e esfregou a boca. – Que cheiro horrível, eca!
– Pois é, mas eu achei algo estranho... – Sanji foi atrás de seus cigarros e encontrou-os alguns metros corredor adentro. – Não tem obstáculos, ninguém protegendo nem nada esse lugar... Isso não é esquisito?
– Tanto faz, quero saber onde está o nezumi. – Luffy se colocou de pé e até ia começar a correr pelo corredor, mas Sanji o impediu.
– É estranho, mas não adianta ficarmos esperando que nos ataquem... – O espadachim olhou para Luffy com uma expressão cansada, franzindo as sobrancelhas. – Vamos em frente.
– Isso, vamos ouvir o Zoro e seguir em frente!
– Essa fala é sua. – Resmungou Sanji, observando o capitão correr na dianteira. Zoro respirou ainda cansado e começou a correr também, sendo seguido de perto pelo cozinheiro.
Sanji não entendia bem porque ele começava a ficar mais cansado que o normal, mas até entendia depois de três noites sem dormir. O loiro olhou para o nakama, que respirava fortemente, mas não tinha problemas para acompanhar o ritmo de Luffy. – Isso vai acabar logo, Zoro.
Zoro virou o rosto e olhou o loiro. – Sim, porque eu vou matar aquele homem.
Sanji franziu as sobrancelhas e não respondeu. Chegou então à conclusão que o desejo de matar estava ficando cada vez mais forte dentro daquele ambiente desconfortável.
Continuaram correndo naquele corredor que, diferente do anterior, possuía diversas curvas esquisitas, até acharem uma porta do lado direito do corredor. Luffy freou bruscamente e os outros dois vieram diminuindo o ritmo até pararem ao lado do capitão. O menor abriu a porta e espiou lá dentro. – Oe, nezumi! – Ele gritou. A voz ecoou pela sala e voltou para eles, e Sanji e Zoro perceberam um barulho muito familiar vindo de lá.
Eram ratos.
– Fecha isso, Luffy.
– Por que, Sanji? O nezumi pode estar aqui! – Ele empurrou a porta com força e a escancarou de repente. Havia muitos ratos lá dentro. Muitos, infinitos ratos acinzentados de vários tamanhos, e várias ratazanas entre eles. Sem falar em uns que eram muito maiores do que o tamanho natural, até para ratazanas; pareciam cachorros de grande porte. E faziam um barulho agudo infernal.
E agora não dava tempo de fechar a porta porque boa parte deles impedia isso de acontecer.
– AGHHH, CORRAM! – Sanji começou a correr em disparada pelo corredor, e foi seguido por Luffy e Zoro.
Luffy dava uma gargalhada divertida enquanto corria dos ratos, que aparentemente estavam bem famintos e queriam devorá-los.
– Juro que te mato quando sairmos daqui, Luffy! – Exclamou o cozinheiro enquanto apertava o passo porque os ratos começavam a chegar perto demais; Zoro já havia tido que usar a katana para cortar os maiores no meio umas três vezes, e Luffy apenas saltava e corria para desviar deles.
– Eu ia falar que queria churrasco de rato, mas esses não parecem gostosos.
– Que nojento! – Sanji reprimiu, e Luffy riu. Mesmo assim, o cozinheiro não achava a menor graça, e não aguentava mais correr dos ratos que começavam a andar pelas paredes e aproximar-se ainda mais deles. Até poderiam lutar com eles, mas eram muito pequenos e não havia uma forma de matá-los todos de uma vez. Se Usopp estivesse junto, poderia usar o Kabuto para explodir todos.
– ALI! – Zoro gritou quando viu uma porta mais adiante, do lado esquerdo. Sanji localizou-a rapidamente, mas ela estava trancada.
– Não abre!
– ARROMBA ESSA MERDA! – Zoro tirou Sanji da frente da porta e chutou-a; o loiro podia sentir os ratos subindo por suas pernas, fazendo seu coração subir para a boca. Quer dizer, ele não era exatamente fã desses bichos. E Luffy pendurava-se no teto, mas não conseguia livrar-se deles, tampouco.
O chute de Zoro não foi forte o bastante para derrubar a porta, então, eles entraram e Sanji gritou para que o capitão viesse logo. Assim que Luffy pulou porta adentro, eles fecharam-na e o cozinheiro a manteve assim usando as mãos. O espadachim guardou a Shuusui em sua bainha negra e procurou por alguma coisa para fechar a porta, tateando a penumbra – havia apenas uma tocha iluminando o lugar, e mesmo assim, estava prestes a apagar. Assim que encontrou uma cadeira, pegou-a para colocar contra a maçaneta e nesse meio tempo, Luffy divertia-se socando as ratazanas e os ratos que conseguiram entrar enquanto eles faziam o mesmo.
Zoro apoiou-se com a testa na porta e Sanji com uma das mãos, respirando fundo para recuperar o ar. – Que... Que coisa... Ugh!
O espadachim virou o rosto para Sanji e o loiro pôde reparar que a respiração do outro estava muito forte. Forte demais mesmo depois daquela correria. Sabia o que estava acontecendo; ele queria matar... Degolar ratos não era o bastante para ele.
Sanji começava a torcer para que encontrassem logo Zanell, porque embora fosse a função de Luffy bater no cara, Zoro poderia muito bem cortar-lhe os membros depois que o capitão o derrotasse. Talvez fizesse o rapaz sentir-se melhor. O loiro engoliu a saliva que se reuniu em sua boca e pensou em erguer a mão para tocar o rosto exausto de Zoro, mas, não teve coragem naquele momento. E do outro lado, o espadachim apenas o encarava com seus olhos castanhos mais injetados e cansados do que nunca, contendo o desejo de perguntar a Sanji o que ele queria testar e que poderia fazê-lo pensar em outra coisa que não fosse matar. Se não havia pessoas naquele lugar, aquilo ia começar a ficar incontrolável.
Mas para derrubar os pensamentos de ambos, e a diversão de Luffy, uma voz familiar ecoou pela sala.
– ZORO! LUFFY! SANJI! GRAÇAS A DEUS!
