Os olhos de Regina brilhavam de tanta felicidade. Há muito tempo que ela não se sentia tão alegre. Por muitas vezes ela chegava a se questionar quando enfim chegaria a hora dela ser feliz. Havia escutado o canto mais belo dentre todos os pássaros. A jovem não soube explicar o fascínio que aquele canto estava exercendo sobre ela.

Aquela música preenchia o seu coração. Sempre havia procurado demasiadamente encontrar a felicidade novamente em sua vida. A jovem já estava acostumada com a tristeza em sua entediante rotina, sendo que sempre se assustava e ficava com medo quando algo de bom acontecia com ela. Ela tinha trauma de felicidade, pois em sua vida sempre acontecia algo ruim quando ela estava plenamente feliz. Havia perdido Daniel e sua mãe. Eram perdas totalmente diferentes, mas doíam da mesma maneira no coração de Regina. Depois de ver o amor de sua vida morrer através das mãos de sua mãe, Regina decidiu que ninguém mais saberia o que ela está sentindo.

De vítima da vida, ela passaria a ser o grande enigma para todos que a cercavam diariamente. Preferia que os outros a reconhecessem pela sua crueldade do que pelas suas fraquezas. Havia aprendido a lição da pior forma e em consequência disso começou a acreditar na sentença de sua mãe que dizia que o amor era uma fraqueza. A amargura a fez acreditar que ela não poderia ser feliz amando ninguém. Quando Regina ficava a sós ela sempre procurava se renovar e reconstruir os fragmentos de quem havia sido um dia.

Logo o canto do pássaro se cessou, e a jovem foi obrigada a voltar para a realidade. Foi quando ela notou que o pássaro a fitava de uma maneira diferente. Parecia que de certa forma ele a conhecesse e quisesse transmitir uma espécie de mensagem. Que mensagem? A jovem se questionava admirando a exótica ave. Regina estava se desnudando como há muito tempo não acontecia. Em seu rosto onde minutos antes só existia a tristeza dava lugar a uma jovialidade que há muito tempo não aparecia no rosto da bela mulher. O coração da jovem estava transbordando de esperança e ela sentia que sua vida estava para mudar. Que aquele encontro era um divisor de águas em sua vida.

Sentiu falta da música e queria escutá-la pelo menos mais uma vez o canto que estava completando novamente sua vida. Lágrimas estavam escorrendo pelo seu rosto. Mas, ao contrário dos lamentos deprimidos de antes, essas lágrimas eram de uma felicidade que ela não saberia nunca explicar.

- Oh, belo pássaro! Será que poderia pelo menos mais uma vez repetir tal belo canto? Nunca escutei em minha vida uma música tão bela como esta. – clamava Regina pela primeira vez reparando no pássaro.

Além do canto belíssimo que ressoava por todos os lugares do reino, Regina reparou que o pássaro possuía uma coloração diferente. Ele era diferente! Não era como as outras aves que voavam por aí. Regina sentia alguma vibração diferente no pássaro, mas não se atrevia a tentar explicar as teorias que sua cabeça criava.

Suas penas eram marrons como um tronco rígido de uma árvore, possuía olhos verdes como as folhas escuras de uma planta e seu bico tinha uma coloração vermelha como a cor do sangue que se assemelhava aos frutos suculentos. Estranhamente trazia um belo colocar de ouro a si. Regina questionou para si mesma o porquê de um pássaro voar por aí com um objeto valioso em seu poder. Para a surpresa da rainha a excêntrica ave a respondeu.

- Um belo dom Deus me deu. Não sei se bem o sabe, mas um pássaro jamais repete um canto em toda sua existência.

O sorriso que estava no rosto da jovem desapareceu da mesma que havia aparecido. O pássaro vendo a tristeza nos olhos da mulher que estava em sua frente resolve fazer uma proposta para ela.

- Se a senhora puder arcar com os pagamentos, tal canto poderá ser entoado apenas mais uma vez...

- Qual é a sua proposta? – pergunta Regina sem pensar nas consequências do que o tal pássaro poderia pedir em troca da música.

- Deixe-me pensar qual será meu pagamento. – responde o pássaro olhando a jovem da cabeça aos pés para poder decidir o que queria da rainha.

A jovem impaciente começa a andar de um lado para o outro. Não sabia o porquê, mas precisava daquela música. Sentia que precisa de toda aquela experiência. O pássaro era um quebra cabeça de sua vida a apenas ela poderia montá-lo. Ela se lembrou da conversa que havia tido com a senhora excêntrica que se dizia advinha.

- Será que era desse pássaro que aquela senhora se referiu? Será ele o responsável pelas mudanças em minha vida? – questionou Regina para si mesma.

O pássaro chama a atenção da rainha para finalmente poder fazer sua proposta.

- Você estaria disposta a desistir de tudo o que eu te pedir?

- Sim, eu estou disposta! – afirma a rainha categoricamente.

- Veja! Que bela sapatilha de rubis a senhora tem! – diz o pássaro.

- Deixe-me pensar um pouco minha jovem. Sim! Decidido! Para entoar novamente o meu canto eu quero essa sua sapatilha.

- Se for para escutar o seu canto novamente, eu me desfaço de minha sapatilha. – responde Regina tirando o calçado de seus delicados pés.

- Toda música tem uma letra. Tente enxergar além da melodia que perceberá que toda canção tem uma mensagem implícita. – filosofa o pássaro.

A rainha então chegou à conclusão que haveria realmente uma mensagem que ela teria que escutar. Se antes tinha dúvida, agora ela tinha certeza que as palavras da senhora não passavam da mais bela verdade. A jovem se senta na grama esperando que o canto se inicie novamente. Achou graça da falta de equilíbrio do pássaro que tentava com dificuldade se manter em pé, afinal agora além do colar de ouro, também estava segurando um par de sapatilhas.

Minha mãe, ela me matou,

Meu pai, ele me comeu,

Minha irmã Marlene,

Reuniu todos os meus ossos,

Amarrou-os em um lenço de seda,

Colocou-os debaixo do junípero,

E saiu um pássaro voando, voando, voando

Pela primeira vez Regina havia percebido as palavras da música do pássaro. O que tudo aquilo queria dizer? Por que ela teria que escutar essa mensagem? Será que era a resposta que ela estava precisando para finalmente começar sua vingança contra Snow? As perguntas brotavam de sua cabeça e a jovem não conseguia responde-las. Seja lá o que fosse para fazer ela teria que chegar a uma conclusão própria e esperar a hora de colocar qualquer tipo de plano em prática. O pássaro como prometido termina a canção e alça voos maiores e deixa a jovem sozinha. Um sorriso malicioso brota no rosto de Regina.