"Em algum lugar do tempo"
Autora: Keiko Maxwell
Série: Gundam Wing
Casal: HeeroxDuo
Gênero: Angst; Ficção Cientifica; AU; M-preg (futuro);
Classificação: T
Resumo: Não havia mais nada a ser feito, mas ele não desistiria.
Disclaimer: Gundam Wing e seus personagens pertencem somente a Sunrise, Bandai e uns tios de olhos puxados lá do Japão. Trabalho de cão totalmente sem fim lucrativo.
Disclaimer 2: A personagem original que aparece na estória, tem nome e é criação minha. Caso isso tenha uma continuação, vocês descobrem o nome dela. Todos os direitos sobre ela são meus! (Mas continuo sem ganhar nada lol)
Aviso: Contêm BL (Boy's Love)... Se não gostar da idéia, num vem encher o saco. / Partes em itálico significam lembranças.
Spoiler: Nada.
Beta: Blanxe-senpai
Dedicatória: Ela encheu o saco. Atazanou, desafiou e aqui está, a continuação desta fic – apelidada gentilmente como "Duo no tubo" – solicitada pela Dona Blanxe-senpai. É bom gostar e cumprir com a sua parte no Desafio...
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Se as gotas de chuva não estivessem caindo de modo ritimado contra o vidro da janela, o silêncio no cômodo seria completo. Mas, os barulhinhos de 'tocs' contra a superficie transparente, servia para preencher todo o ambiente. Um ambiente escuro, que devido à falta de luz natural e artificial se tornava ainda mais sombrio. Não era dessa maneira que aquele quarto era há anos atras, porém, muita coisa mudara nesse tempo corrido, tanto naquele local como em seu ocupante.
Os olhos cobaltos miravam firmemente uma moldura na parede oposta. A pouca claridade de alguns raios fazendo com que a imagem fosse visivel somente em pequenos intervalos de tempos. Entretanto sua vista não necessitava dessa iluminação para ver o retrato que se encontrava ali. Conhecia-o bem demais para isso. Sabia que olhos violetas o estavam mirando, de modo profundo e compenetrado sem deixar, entretanto, que o brilho de alegria se ofuscasse. O ar sério era quebrado pelo sorriso doce, meio tímido até, mas que nele se tornava algo surreal. Algo assim meio Monalisa, mas que para o observador do momento não escondia segredo algum.
Estendeu o braço e, mesmo à distância, abriu a palma sobre a imagem do quadro. A impressão de estar tocando novamente a face ali retratada lhe enchia de argor (1) chegando quase a sufocá-lo. A saudade batia desesperadamente em seu peito, mas ao invés de lhe deixar inanimado, aquela era a força para continuar. O motivo de ainda se concentrar por deveras nos estudos e pesquisas, por ainda estar ali, alimentando uma chama de esperança em seu coração.
Correu os olhos do retrato para o resto do cômodo, cada coisa ainda em seu local, como se mais ninguém se atrevesse a entrar ou mexer em algo. Uma pequena memoria viva e que era mantida com muito esmero, tanto por si quanto por sua filha. Ali era seu refúgio quando precisava de descanso para a mente, era o único lugar da casa que ainda conseguia lhe acalmar. Afinal, fora naquele local que conhecera o jovem que acabou mudando sua vida. Com um pequeno esforço era possivel vizualisar a cena decorrendo a sua frente ainda.
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O tempo era completamente diferente daquele que corria ao lado de fora: em vez de gotas de chuvas, o Sol ainda se encontrava firme no céu, indicando que passava um pouco do meio do dia. O local onde estava era o mesmo: a sala de escritório de sua casa. Sobre a mesa diversos livros, papéis, canetas e anotações; tudo em uma ordem bagunçada. Suas roupas eram mais leves e menos formais: uma calça jeans de azul escuro e uma camiseta pólo branca. Sapato era algo que ele não conhecia na época, as meias esportivas brancas costumavam ter as solas mais escuras devido ao tempo do contato direto com o piso frio da casa. Sua posição social, tanto por vim de uma família respeitada, quanto pelo sucesso de sua carreira, nada significavam, era uma pessoa simples.
Estava sentado à frente da escrivaninha, os olhos correndo de linhas e teorias para anotações rabiscadas com sua letra disforme para os ponteiros do relógio. Esperava a chegada de seu parceiro de. Com o avanço do projeto, tinham que se dedicar mais vezes por semana a ele. E por mais que ambos continuassem com a pesquisa quando estavam em suas casas, duas mentes trabalhando juntas e próximas eram mil vezes mais eficazes. Não foi com surpresa que ouviu a campainha tocando na sala; se demorasse mais alguns poucos minutos poderia se falar que o parceiro estava atrazado. Girando a cadeira de rodinhas em seu eixo e ficando por um breve momento de costas à mesa, reuniu fôlego e gritou alto o suficiente para passar a distância que os separavam.
"Pode entrar, está aberta!"
O som de passos seguindo pelo corredor não atrapalhou sua leitura nem tão pouco sua concentração. Mesmo quando um barulho um pouco mais alto, como de alguém esbarrando em alguma quina e um xingamento após, não tirou seus olhos do livro. O único ruído que tivera importância o suficiente no momento para que deixasse o exemplar de capa bordô aberta e esquecida sobre a mesa foram as duas batidas de nós de dedos sobre a madeira da porta aberta do escritório. Seus olhos azuis cobaltos se encontraram com os azuis acizentados do parceiro parado a um curto espaço de si. Observava o rapaz americano tentando entrar em sua sala com uma caixa de papelão sobre os braços, tarefa um pouco complicada. Adiantou-se rapidamente a ajudá-lo e, deixando por fim o obstáculo na mesa central do cômodo, recebeu um abraço do loiro.
"Desculpe o atraso, Heero. Meu carro resolveu quebrar e fiquei na dependência de uma pessoa pouco pontual."
O pedido de desculpas foi logo aceito por si e, afastando-se apenas um pouco do contato que mantinha seus corpos unidos, juntou os lábios aos do parceiro que ainda lhe olhava de modo abobalhado. Não gostava de desculpas e nunca desculpava o outro homem quando este chegava atrasado, mas entendia o motivo e aquilo não tinha importância no momento. Teria aprofundado o beijo e deixado que suas mão correrem livremente pela extensão do tórax americano se o baque seco de algo caindo diretamente no chão não chegasse aos seus ouvidos.
Ao abrir novamente os olhos, pode se deparar com a imagem do jovem parado na entrada do aposento. Uma cara de espetufação e a caixa jazida à frente dos pés. Não teve como não reparar nos longos cabelos castanhos presos em uma trança grossa, caindo como uma longa serpente pelo ombro direito. Ou ainda nos olhos de uma cor tão exótica e incomum: azul-violeta. O clima poderia ter ficado um pouco estranho ou incômodo, mas este fora quebrado pelo loiro que ainda estava entre seus braços.
"Obrigado pela ajuda, Duo. Creio que não vai precisar vim me buscar, né, Heero?"
A voz calma do americano próximo a si teve um efeito instantâneo e, deixando que o parceiro se virasse de frente para o jovem que aguardava junto ao batente da porta aberta, deu sua confirmação com um aceno leve da cabeça. Observou o garoto perder o momento de fascínio sobre si e adquirir um adorável tom avermelhado sobre as bochechas antes de ele tomar qualquer outra atitude.
"Faça como quiser, Solo. Não sou sua babá."
Sem mais uma palavra, Heero observou o jovem, que agora sabia que se chamava Duo, lhes dar a costa e deixar o ambiente. Não sabia o que havia naquele garoto, mas algo lhe chamara a atenção. Algo que mais tarde iria compreender e perceber que era aquilo que lhe prendia ao rapaz e que lhe fizera tomar atitudes impensadas pela primeira vez na vida.
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Um suspiro deixou os lábios orientais enquanto deixava de correr os olhos de modo perdido pelo aposento e se fixava novamente na escrivaninha a sua frente. Tinha que continuar com os estudos, era isso que faria com que Duo voltasse para si; com que ele voltasse a sorrir como sorrira um dia para o jovem, na esperança de que poderiam sim viver juntos.
Os dedos correram rapidamente por anotações já antigas e por livros que há tempos não eram abertos. Nunca pensara que continuaria aquela pesquisa, aqueles testes. Não era sua área. Mesmo após o término das pesquisas iniciais e de Solo e ele terem ganhado um prêmio de reconhecimento pela inovação que seus estudos haviam trazido; continuar com o projeto não lhe pareceu uma boa idéia. Mas agora, por inconveniência do destino, lá estava ele lendo atentamente as anotações do antigo parceiro e tentando achar uma maneira de por fim fazer com que o estudo de inanimação humana e animação contínua fossem finalizados.
Era doloso em dobro para ele continuar aqueles estudos. A primeira dor que lhe vinha era lembrar que não podia mais contar com o antigo parceiro e esse fora o motivo do abandono do projeto sem antes ter sido concluído. Não gostava de lembrar que após a premiação por algo tão inovador, um acidente fizera-o perder a pessoa que mais lhe apoiava nas pesquisas e que era o único que conseguia atingir seu coração. A segunda dor vinha pelo mesmo motivo pelo qual se encontrava novamente retomando aqueles estudos. Mas essa dor era uma dor de ansiedade, uma dor que lhe apertava o peito, mas que lhe impulsionava a continuar.
Nos momentos em que estava debruçado sobre anotações e resultados de testes é que agradecia imensamente pelo grande avanço que Solo dera naquela parte. Ele ainda se lembrava das palavras doces do loiro para si, jurando que se um dia tivessem que fazer o teste para ver se seus cálculos e anotações dariam certo, quando chegassem ao fim, seria ele quem correria esse risco. Pois seu maior motivo para estar envolvido naquele desenvolvimento era para salvar vidas. E nessas horas a saudade do amigo, parceiro e amante lhe afligia o peito. Mais do que tudo, ele gostaria que o americano loiro estivesse ali e que nada daquilo tivesse acontecido. Pois fora apenas naquele dia que retornou a ver o jovem de olhos violáceos.
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Num primeiro momento, não conseguiu compreender o que havia acabado de ouvir pelo aparelho de celular. Ou, talvez, até houvesse compreendido, mas apenas não queria aceitar. Parecia algo surreal demais. O jovem deixara sua casa há apenas algumas horas atrás; era impossível que algo como aquilo tivesse acontecido. Estava tudo bem afinal de contas, não? Naquele momento, ele poderia esperar pelo pior e se soubesse disso como agora sabia, ele esperaria. Nunca fora uma pessoa otimista, mas não gostaria de acreditar que o amante não sobrevivera, ele tinha que continuar ao seu lado.
Seus passos lhe guiaram automaticamente pelo caminho seguinte e ainda hoje não conseguia entender como chegara à frente do hospital. Lá não precisou se adiantar muito ou esperar por uma notícia, Duo lhe esperava ainda na recepção. Percebeu os machucados e escoriações pelo corpo do garoto, as roupas rasgadas e sujas em diversos lugares lhe indicavam que, por mais que não quisesse acreditar, tudo havia acontecido e aquela ligação não fora uma peça pregada por sua mente.
Aproximou-se do jovem e, no mesmo instante que estava perto o suficiente, sentiu sua cintura ser enlaçada pelos braços do moreno de olhos violetas. O rosto do rapaz era impossível de ser visto por si, mas este tinha a face voltada para o lado e a cabeça apoiada em seu abdômen, visto que se encontrava sentado. Parecia apenas buscar alguém em quem poderia se apoiar.
Aquela cena ficaria marcada em sua memória para sempre. Sabia que todos sentiam dores por perdas, mas nunca antes vivenciara tal vulnerabilidade, afinal, quando acontecera de perder seus pais, tinha apenas alguns anos de idade. Assim, estar ali, amparando alguém era novidade para si. E, momentos mais tarde, quando escutara dos médicos o que havia acontecido e que, definitivamente, Solo Maxwell estava morto, ele compreendeu que também precisava de alguém para lhe confortar.
A lembrança não ficara perdida e, com o passar dos anos, sentira que o mesmo sentimento que presenciara naquele dia fora seu companheiro pelos vinte anos em que tivera que ser forte para poder criar a filha. Sabia que seu apoio naquela passagem de tempo fora a criança que necessitava de sua proteção, assim como sua presença sempre fora um pilar para o jovem de olhos violetas.
Suspirou.
Não era a melhor hora para estar perdido em tantos pensamentos; precisava se concentrar no que necessitava ser feito. Mas era realmente difícil que tal fato não ocorresse, afinal, estava novamente na frente de lembranças da primeira pessoa por quem se apaixonara e quem fora, mesmo indiretamente, responsável por conhecer aquele que seria mais do que apenas um amante para si. Era grato a Solo por isso.
Relaxou os ombros em um antigo tique nervoso seu e, alongando-se um pouco, pegou um pequeno caderno de anotações que estava um pouco longe de si. A capa azulada estava desgastada e possuía partes negras: a prova de que um dia ele fora tomado pelas labaredas do fogo. Tocou com delicadeza a capa levemente enrugada. Ainda hoje trazia em si a marca do preço de ter salvado aquele caderno das chamas: em seu antebraço, a cicatriz amarronzada ainda lhe trazia angústia sempre que era mirada.
Não que fosse algo ruim. No final, a dor que causara sua existência durou apenas alguns momentos, mas a lembrança a qual dela se originava era o que doía. Afinal, fora mais um choque para si do que qualquer outra coisa. Não a sensação de que o fogo consumia sua pele, mas sim aquela mesma sensação de que poderia voltar a perder alguém que se mostrava importante para si.
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Quando, ao certo, percebera que o jovem americano estava afetando-o mais do que queria, não saberia especificar. Mas, desde que o outro passara a ser um apoio perante a perda de Solo, seus encontros passaram a se tornar mais frequentes. Não era algo amoroso, apenas formalidades para que os assuntos inacabados do loiro fossem acertados. Entretanto, era o que fazia com que os dois voltassem a se verem.
Naquela época, a presença do jovem lhe incomodava profundamente. Era quase como se o parceiro ainda estivesse consigo, uma lembrança estranha do outro. Mas, reconhecia que ao mesmo tempo em que os dois se pareciam muito - talvez por serem irmãos - também eram completamente diferentes. Duo não possuia aquele ar centrado que várias vezes encontrava em Solo e, tão pouco, gostava de algo ligado a ciências ou medicina, como o mais velho. Assim, sempre que necessitava acertar algo sobre as pesquisas ou trabalhos do loiro, era ele, Heero, quem precisava acabar correndo atrás e resolvendo.
Quando tudo aconteceu, estava voltando para a casa do americano após passar um dia na central de laboratórios para o qual Solo trabalhava. Havia ido acertar algumas pequenas pendências, como pegar as anotações de pesquisas do loiro e verificar para quem seriam passados os projetos do mesmo, afinal, não poderia arcar com todos os estudos que o outro desenvolvia quando tinha os seus próprios para cuidar. Não fora muito difícil achar cientistas interessados, já que as pesquisas de Solo possuiam renome.
Assim, apenas entardecia enquanto guiava o carro em direção ao apartamento do americano. Poucas vezes havia feito aquele caminho, normalmente Solo e ele se encontravam em sua casa ou na universidade para desenvolverem as pesquisas. Mas, não poderia esperar a mesma coisa vinda de Duo, ainda mais porque este estava se recuperando do acidente sofrido a algumas semanas atrás.
Sua mente divagava sobre a discussão que tivera no laboratório antes de sair de lá. Muitos dos cientistas queriam lhe incentivar a continuar com as pesquisas, mas sabia em seu íntimo que não teria forças o suficiente para tal atitude. Assim, ao finalmente dobrar a última esquina com o veículo e avistou a aglomeração de pessoas na rua, teve que freiar bruscamente.
O tempo que sua mente levou para conseguir processar o que estava ocorrendo foi apenas o suficiente para sair de seu carro com os olhos pregados no segundo andar do prédio. A imagem das labaredas alaranjadas escapando pelas janelas do apartamento e a grande nuvem de fumaça preta, fizeram com que seu coração se contraísse.
Depois, tudo pareceu acontecer rápido demais para si. O movimento frenético de sua cabeça a procura do jovem pelas redondezas e a dúvida de que este ainda estivesse dentro do prédio. Seu grito para os vizinhos chamarem os bombeiros e a pergunta que ninguém conseguia responder para si apenas fez com que se desesperasse. Odiava ficar sem nenhuma informação, pois a situação poderia sair de seu controle.
Sua mente pensava em apenas salvá-lo quando, automáticamente, buscou uma mangueira e banhou-se com o esguicho. Talvez fosse loucura se jogar daquela forma, mas não via outro meio após chegar à constatação de que, possivelmente, o americano ainda se encontrava dentro do prédio. Tão pouco poderia explicar o porquê de estar agindo tão imprudentemente por Duo, apenas sentia que não poderia perdê-lo também.
Deixou os gritos do lado de fora e, ao pisar no interior do edifício, sentiu o ar quente ao seu encontro no mesmo instante. Elevou a camisa encharcada sobre o rosto e, mantendo-se levemente curvado, buscou achar um caminho para chegar até o apartamento de Duo.
Mesmo que o fogo estivesse no segundo andar, logo no primeiro pode sentir o quão quente todo o local se encontrava. Guiava-se às cegas, procurando com dificuldade o apartamento número vinte e um. Sentia a fuligem transpassando sua máscara improvisada, preenchendo seus pulmões e dificultando a respiração, mas algo maior o impulsionava a continuar seu caminho.
Encontrou a escada de emergência e, seguindo pelo lado esquerdo, subiu com rapidez os degraus. O ar ali estava um pouco mais limpo e o calor era menor, devido à proteção das portas corta-fogo, mas mesmo assim seu instinto de sobrevivência lhe alertava para que não relaxasse.
Chegou ao segundo andar e, antes mesmo de se atrever a abrir as portas, encostou suavemente a palma sobre a superfície da mesma. A sensação gélida lhe garantiu a segurança para abrí-la. Assim, precavendo-se em primeiro lugar, adentrou o andar onde o incêndio estava mais forte.
A forte luz alaranjada, devido às chamas, não lhe auxiliava em nada por causa da grande quantidade de fumaça presente. Sabia que naquela situação tinha que agir rápido e com calma, assim, agachou-se sobre o piso e prosseguiu seu caminho. Em sua mente, pedia em silêncio para que o jovem estivesse bem.
Ao chegar à frente do apartamento, seu coração falhou uma batida. A porta escancarada permitia que grande quantidade de fumaça tivesse acesso ao corredor, onde se encontrava. Não pensou duas vezes antes de entrar no apartamento e, deixando a precausão de lado, baixou a camisa para que sua voz saísse mais clara.
"DUO!" Chamou ao observar a cozinha, o cômodo preenchido pela fumaça e com grande calor. Seguiu para a sala e ficou abismado ao perceber o fogo começando a se alastrar pelo local. Metade do sofá de dois lugares, próximo a si, era consumido pelas labaredas. As mesmas flamas alaranjadas que tomavam conta da estante ao lado da parede e de toda a cortina e saida da janela. Respirou fundo, novamente, sob a camisa e seguiu, protegendo o rosto com o braço, para o corredor que sabia levar para os quartos.
Chutou com força a porta mais próxima a si, ao mesmo tempo em que chamava novamente pelo jovem. O quarto, que reconhecera como sendo o de Duo, começava a mostrar rastros de chamas, indicando que logo o fogo alcançaria aquele local. Com uma varrida rápida de olhar, abandonou o aposento e seguiu para o próximo.
Não precisou perder muito tempo ao conseguir abrir a porta ao lado, logo avistou o jovem agachado próximo a um armário. Reconheceu o quarto como sendo o pertencente a Solo; lembrava-se vagamente de como o era nas poucas vezes em que esteve presente no local. Sem pensar mais, adentrou o local e se aproximou de Duo com passos rápidos.
"Vamos dar o fora daqui..." Sua voz saiu abafada, graças à proteção que usava, enquanto segurava o braço do americano e o levantava de onde estava.
"Espera! Ainda não encontrei!" A frase entrecortada com pequenas tossidas foi sua resposta, ao mesmo tempo em que o mais novo voltava para a posição inicial e a vasculhar o armário aberto a sua frente.
"Duo, não temos tempo!" Sua voz continha um tom meio desesperado, sabia bem disso, mesmo que tal fato não fosse perceptível a outros ouvidos. Não entendia o que o outro poderia estar buscando tanto que simplesmente ignorava o perigo que o envolvia.
Voltou sua atenção para seu redor. Podia sentir a fumaça preenchendo o ambiente e o calor que provinha das chamas fazia com que o local ficasse ainda mais intolerável. Era a primeira vez que se encontrava realmente naquela situação, mesmo que em teoria já houvesse recebido várias aulas de como agir nesses casos.
"Duo..." Voltou a chamá-lo enquanto o moreno ainda se entretinha a procura de algo. Não era hora para aquilo. Sua mente dizia que deveria simplesmente pegá-lo e arrastá-lo dali para fora, mesmo que isso resultasse em revolta da parte do mais novo para si.
"Achei!" A voz feliz de Duo fez com que se esquecesse por um ínfimo momento o que estava vivendo. Observou quando o mesmo se levantou com dois livros nos braços: um retângular, de capa azul escura, e outro quadrado, revestido com o tom bordô.
"Ótimo. Onde fica o banheiro?"
Sua mente agora trabalhava rápido. Não conseguiriam sair dali, disso possuía total certeza. Assim, teria que arrumar uma maneira de se protegerem até que a ajuda especializada chegasse.
"No fim do corredor." A voz de Duo parecia incerta em lhe responder. O jovem olhava-o com o rosto temeroso, como quem estranhara por demais a pergunta, dada a situação em que estavam.
Sem esperar uma confirmação ou qualquer outro ato, Heero segurou em seu braço e o puxou na direção indicada. Aquela era a melhor opção, caso quisessem escapar com vida. E um sorriso, mínimo, brotou em seus lábios quando abriu a porta do aposento.
Empurrando o mais novo para dentro, não perdeu tempo ao fechar a porta e começar a passar instruções.
"Molhe as toalhas, o máximo que conseguir, e depois as coloque ao redor da porta, precisamos evitar que entre o máximo de fumaça aqui." Sua voz saiu rápida, enquanto observava o local onde estavam.
O banheiro não era muito grande, poderia dar no máximo uns seis metros quadrados, um pouco mais talvez. Tinha uma janela mediana, pequena demais para um adulto passar por ela, e azulejos no chão e nas paredes, subindo até o teto. Este último fato foi o que lhe fizera sorrir.
Subindo sobre a privada, utilizou uma toalha sobressalente para conseguir desligar a rede eletrica do chuveiro, um fator a menos com o qual se preocupar. E entrando no box, abriu o máximo que conseguia a janela. Assim que percebeu que o mais novo havia feito o que lhe mandara, o pegou pela mão e o puxou para junto de si.
"Deixe esses livros em um local seco, você precisa se molhar o máximo que conseguir. "
Obdecendo a si novamente, observou Duo colocar os dois livros próximos ao armário sob a pia e receber o jato de água gelada sobre si. Naquele instante, não soube perceber o motivo, mas sentiu quando os braços finos do rapaz lhe envolveram de um modo tenro.
"Ainda não entendo no que isso vai nos ajudar, Heero." A voz de Duo próximo a si fez com que pêlos em sua nuca arrepiassem e, decididamente, não era devido ao choque térmico.
"O melhor local para se ficar quando se esta no meio de incêndio não há saida, como no nosso caso, é no cômodo mais frio da casa, no caso, o banheiro." Começou a explicar a situação, talvez conseguisse se acalmar um pouco agora que tinha certeza que conseguiriam sair dali com vida. "A vedação da porta se é devido a presença da fumaça. Normalmente as pessoas morrem mais devido a inalação dela do que queimadas. E o banho de água fria, é apenas um meio de nos protegermos do calor do fogo."
"Acha que tudo isso vai, realmente, nos salvar?"
"Não. Mas vai nos ajudar a nos manter vivos até que o corpo de bombeiros chegue." Sua resposta saiu ao mesmo tempo em que fechava o registro da água. "Venha, já estamos bem molhados."
Com certa delicadeza, sentou-se no espaço do box e acomodou o jovem entre suas pernas. Não lhe era incômodo ficar naquela posição, pelo contrário, lhe passava uma confiança de que o outro estava bem e isso lhe bastava. Acomodando-se melhor, Duo segurou, novamente, os livros que havia salvo do armário, antes de encostar a cabeça no peito do oriental e permitir que este lhe abrassasse.
"O que são?" Perguntou enquanto apontava para os dois tomos que o mais novo segurava.
"O azul é o caderno de anotações de Solo, acho que são importantes e uma lembrança dele para mim. O vermelho, o álbum de fotos de minha familia..." Respondeu observando os dois objetos. "Mas, por quê?"
"Apenas curiosidade..."
"Não. Por que se arriscou a me salvar?"
Engoliu em seco antes de responder. Realmente, por qual motivo se dera a esse trabalho? Apenas deixou o corpo agir antes de pensar. Na verdade, não queria perdê-lo. Simples assim.
"Não...Não poderia te perder, como perdi Solo." Sua voz saiu ao mesmo tempo em que apertava o jovem mais entre seus braços.
"Então sou um substituto para ele?" Um riso estrangulado junto com a pergunta. Uma descrença da parte do outro. E seu silêncio foi a resposta naquele momento. "Tudo bem. Não me incomoda..."
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Aquela fora a primeira vez que deixara explícito o que sentia para o mais jovem. Uma burrada de sua parte, via atualmente. Afinal, deveria ter dado a certeza para o mesmo que ele era importante para si, não apenas alguém para preencher o vazio que o irmão deixara.
Lembrava que ficaram quietos após aquilo, esperando a chegada do corpo de bombeiros, o que não demorou. Lógico que poderia ter tentanto acertar seu erro, mas naquela situação e, principalmente, naquele período não seria capaz de afirmar com tanta convicção o que viria a sentir pelo outro.
Ambos saíram da situação apenas com alguns leves ferimentos. Em si ficara a marca de uma queimadura por proteger o mais novo na saida do prédio. Algo nada muito grande, mas que seria a lembrança daquela data para sempre.
Após o acidente, acolhera Duo em sua casa. Era a presença de vida naquele local. E, com o passar do tempo, não houve como não se aproximar cada vez mais e mais do americano. Hoje, poderia admitir, que havia se apaixonado pelo jovem na primeira vez que havia lhe visto. Mas fora aquele tempo que fizera com que passasse a amá-lo.
Correu novamente os olhos sobre as anotações que continham o caderno salvo das chamas. A letra tombada de Solo preenchia as folhas com palavras e riscos. Cálculos e desenhos. As ideias do antigo amante lhe guiando, atualmente, para o que talvez seria a salvação definitiva da vida de Duo.
Continua...?
Notas
(1)"Etimologicamente, a palavra angústia originou-se do vocábulo grego argor (Pereira, 1998, p. 30), que significa estreitamento, diminuição." - fonte: pesquisa google; Juro que não sabia que era isso quando essa palavra me veio a mente o.o'
Cantinho da autora
Hello pessoas!
Então, depois de décadas aqui está a continuação de um fic que pensei em não continuar...É mole?
Bem, ela faz parte de um desafio lançado no chat da Comuna Yaoi Writers. Além da minha parte, a Kya precisa atualizar a fic dela também. Tudo isso para conseguir que a Blanxe-senpai atualize Disturbia!
Aproveito e deixo mais este capítulo como presente de Natal!
Keiko Maxwell
Dezembro/20100
