"Em algum lugar do tempo"
Autora: Keiko Maxwell
Série: Gundam Wing
Casal: HeeroxDuo
Gênero: Angst; Ficção Cientifica; AU; M-preg;
Classificação: T
Resumo: Não havia mais nada a ser feito, mas ele não desistiria.
Disclaimer: Gundam Wing e seus personagens pertencem somente a Sunrise, Bandai e uns tios de olhos puxados lá do Japão. Trabalho de cão totalmente sem fim lucrativo.
Disclaimer 2: Alissia e Louis são personagens originais, criados por mim e mais ninguém, e não aceito a utilização deles em outras histórias sem o pedido de autorização antecipado. Mesmo com isso, este continua sendo um trabalho de cão totalmente sem fim lucrativo.
Aviso: Contêm BL (Boy's Love)... Se não gostar da ideia, não vem encher o saco. / Partes em itálico significam lembranças.
Spoiler: Nada.
Beta: Blanxe-senpai
Dedicatória: Como continuei essa história apenas por causa dela, não poderia dedicar sua continuação a mais ninguém. Blan-senpai, você sabe que essa fic só continua por causa da sua torração da minha paciência, né? Rs.
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A luz fluorescente piscou por um instante, quebrando sua concentranção e, consequentemente, fazendo com que os olhos azuis voltassem sua atenção em direção ao teto do local. A lâmpada de cor branca era como todo o ambiente ao seu redor: frio. O piso de revestimentos claros era extramamente limpo, assim como as paredes. Tudo ali se resumia a duas cores: branco e aço. O que contribuía para uma sensação de extrema desolação. O cheiro de assepssia lhe causava certo incômodo, afinal os produtos utilizados para a limpeza não contribuiam para que o recinto ficasse com um aroma agradável, mas para que a maioria dos germes ou bactérias — ou seja lá o que pensasse em se desenvolver ali sem um monitoramento — fossem exterminados.
Tais fatos, ela precisava admitir, haviam lhe incomodado muito nas primeiras vezes que visitara o complexo, as salas de pesquisas e o que mais o fosse. Mas, atualmente, estes detalhes já não possuíam o mesmo efeito. Havia se habituado com a sensação de estar, praticamente, vinte e quatro horas por dia em um espaço tão limpo... Algo que lhe lembrava tanto a área de um hospital, mesmo que este não chegasse nem perto de tal construção.
Era engraçado pensar neste detalhe. As paredes que, por vezes, haviam lhe sufocado e lhe amedontrado quando menor, hoje pareciam inofensivas. Como se fossem velhas confidentes e amigas, que observavam caladas o seu dia a dia e as conversas – íntimas ou não – que eram travadas consigo mesma ou com os outros cientistas. Sorriu ao se sentir segura por um ser inanimado como elas.
Aproveitando o momento e a mudança de postura, tombou a cabeça para os lados, esticando e alongando o pescoço um pouco. Deviam ter se passado horas desde que havia se trancado naquela sala e se debruçado sobre as folhas de pesquisa e resultados de testes e mais testes. Não que isto lhe incomodasse. De modo algum. Mas o corpo pedia por descanso, nem que a atividade que exercia não solicitasse nenhum esforço físico no total.
Relaxou os ombros, aliviando um pouco da tensão que sabia ter se formado em suas costas e soltou o corpo sobre o encosto alto da cadeira. A cabeça encostada no couro preto e os olhos fechados, apreciando a nova posição e organizando os pensamentos que tinha em mente. Muitos dados haviam sido analisados naquelas horas. Hipóteses rascunhadas em um papel qualquer e alguns calculos – mesmo que estes não fossem, de fato, o seu forte – foram feitos. Sentia que poderia chegar perto de algo concreto em breve. Devia isto a seu otou-san. Era o mínimo que poderia fazer.
Seus pensamentos foram rompidos pelo barulho da porta metálica se abrindo e de passos aproximando-se de si. Sabia que a área de pesquisa dos laboratórios estava quase vazia aquela hora, assim não tinha receio de que fosse um cientista procurando por informações ou alguém querendo lhe trazer mais tarefas. Na verdade, saberia reconhecer aqueles passos calmos em qualquer outro lugar, havia se habituado com o andar do companheiro de pesquisas e não poderia esperar outra pessoa ali, naquele momento.
"Alissia, café." Um aviso quase como uma ordem. A voz grossa fez com que se endireitasse novamente sobre a cadeira e mirasse os olhos azuis para o rapaz parado ao seu lado, com um copo de isopor com café estendido em sua direção.
"Obrigada." Um agradecimento com um sorriso. Era assim que lidava com Louis Chang. O rapaz era um ano mais novo que si, possuia um cargo inferior ao seu dentro da hierarquia dos laboratórios, entretanto ainda se impunha como se fosse superior. Mas ela sabia que tudo era apenas uma fachada, um jogo iniciado por ambos quando ainda eram pequenos.
Observou o rapaz puxar uma cadeira de rodinhas para próximo dela, encurtando a distância para sentar-se quase ao seu lado. Os fios negros do cabelo extremamente liso, chegavam um pouco abaixo da nuca, em um corte levemente repicado. O rosto angular era bonito, não podia negar, e trazia toda a excentricidade que o povo chinês possua em sua elegância. Os olhos amendoados e rasgados eram de um azul bonito, quase combatendo com as cores de suas próprias íris. Tal fato sempre lhe fazia sorrir. Além de seu otou-san, Louis era o único oriental de olhos claros que conhecia. Genética, muitas vezes, poderia ser algo completamente fascinante.
"Não acha que está na hora de ir?" A pergunta partindo do chinês quebrou seu momento de contemplação, passando para quase uma indagação muda em seu rosto.
"Não. E creio que você não deveria se importar com os meus horarios, Louis."
"Preocupo-me com você, Alissia. Apenas isso." O carinho transmitido em suas palavras eram palpáveis, mas tal declaração de sentimentos de nada adiantava para si, não para lhe convencer a ir embora naquele momento.
"Que horas são?" A pergunta saiu ao acaso, enquanto sorvia um gole do café oferecido pelo rapaz. Expresso, curto, forte, encorpado, com pouco açúcar. Do jeito que ela apreciava.
"Já passa das duas da madrugada." Os olhos azuis correram dos movimentos calmos da moça à sua frente para os papéis sobre a mesa de trabalho desta. "Alissia, o que tanto, nos últimos cinco dias, tem pesquisado para te manter aqui até altas horas?"
"Os resultados de seus testes de reanimações celulares." Resposta direta, não gostava de enrolar para conversar, pelo menos não alguns assuntos e com pessoas que confiava. Aquele era um desses casos.
Louis havia se formado com louvor na área de biologia celular e conhecia como nenhum outro muitas propriedades e funções das celulas em seus mais diversos meios. O rapaz também iniciara uma pesquisa sobre o tempo de envelhecimento destas e como fazer para retardá-lo utilizando, como princípio fundamental, a inanimação e reanimação destas. Tais dados, de uma maneira muito complexa para si, haviam chamado sua atenção.
A verdade era que ela trabalhava no complexo laboratórial fundado por seu pai, mas não havia se formado em química ou biologia, havia, muito pelo contrário, seguido a área médica, se especializando em biomedicina com foco para o estudo das células tronco. De pouco lhe importava o efeito de fármacos ou qualquer outra coisa, assim não se interessava nem por 80% da maioria dos experimentos que eram realizados pelos outros cientistas do local. Mas quando começara a analisar os dados obtidos por Louis, uma tênue luz ameaçou surgir em seu caminho. Talvez estivesse mais perto do que poderia imaginar.
"E... por que isso lhe interessa? Se é que posso saber." A posição corporal do rapaz havia mudado completamente. Nunca esperava que a jovem fosse se interessar por seus experimentos, visto que era um projeto que desenvolvia sozinho. Tudo bem que a auxiliava nos estudos das células tronco, era fascinado pela mutação que elas desenvolviam dependendo de onde se encontrassem dentro do organismo, mas não conseguia imaginar que ligação este fato poderia ter com suas pesquisas de rejuvenescimento celular.
Olhos azuis fitando olhos azuis. Dentro de si, Alissia debatia uma imensidão de considerações, até mesmo seus sentimentos. Conhecia o rapaz a um longo tempo. Tinha afeição por ele devido a terem compartilhado momentos de brincadeiras quando crianças e, mesmo os anos em que haviam permanecidos afastados, ela ali na América e ele do outro lado do mundo, na China, não foram o suficiente para que se esquecessem. Entretanto, tudo aquilo poderia mudar com sua resposta. Ela não sabia afirmar quais eram os princípios e as morais do rapaz. Tão pouco poderia esperar que ele fosse entender tudo de uma forma coerente, positiva. Ela havia passado por privações, por mentiras e falsidades em sua vida e se precisasse mentir mais uma vez para que não quebrasse com algo ou acabasse se ferindo, assim o faria, mas em seu íntimo preferia não precisar esconder aquele fato do oriental, não mais.
"Louis, o que você acha dos híbridos?" Uma pergunta como resposta de outra pergunta. Um meio de escape, uma saída tênue que qualquer pessoa usaria em uma situação de aperto, mas não era essa a situação ali. Na verdade, a sua resposta para a pergunta feita pelo rapaz dependia da resposta deste para ela. Não poderia correr um risco desnecessário, havia aprendido isso em sua infância. Presenciara a necessidade de tal fato apenas quando tinha cinco anos de idade.
"Homens que podem gerar vida, naturalmente sem intervenção da ciência. Como cientista acho isso maravilhoso. Como pessoa, acredito que foram um exemplo para muitos." A resposta do rapaz saiu após este tomar um gole de seu próprio café. Não titubeou para falar. Era realmente aquilo no que acreditava. Conhecia a história que havia envolvido uma verdadeira guerra civil – ou um massacre, como ele mesmo gostava de classificar – da sociedade que se julgava normal em relação aos híbridos, que eram considerados uma aberração apenas por existirem e serem capazes de gerar vidas.
"Então você não possue absolutamente nada contra eles?" Uma nova confirmação partiu do oriental. Afinal, onde ela queria chegar com tudo aquilo? "E se eu lhe dissesse que sou filha de um híbrido, o que você faria?"
"Você está brincando... ?" A frase morreu entre os lábios do rapaz antes mesmo de ser completada. Não era brincadeira, aquilo estava escrito nos olhos firmes da jovem sentada à sua frente. Conhecia a companheira de pesquisa bem demais para falar que ela seria incapaz de brincar com algo neste nível. Respirou profundamente, absorvendo o impacto que a revelação lhe trazia. Alissia sempre lhe fascinara, desde que eram crianças, então não seria algo assim que mudaria sua visão sobre a garota.
"Não faria nada, Alissia." Sua resposta, após um pequeno tempo de reflexão partiu baixa e sinceramente. Não tinha, afinal, o que esconder ou o que sentir em relação à jovem além daquilo que naturalmente já sentia. "Para mim, hoje e sempre, você será apenas você mesma, independente de quem lhe gerou a vida."
Um sorriso tímido se formou nos lábios bem feitos. Havia escolhido o caminho correto em abordar aquele tema com ele. Talvez, e sua esperança se renovava, ele se tornasse a chave para que o plano que se formava em sua mente fosse um sucesso completo. Não apenas pela área de conhecimento em que Louis era formado, mas por poder confiar sua vida nas mãos dele. "Obrigada, Louis. Essa era uma resposta muito importante para mim. Você não faz ideia do quanto."
"Alissia, isso é sério, não?" O tom de voz de Louis, normalmente autoritário, agora demonstrava toda a preocupação que o rapaz tinha em relação à situação que acabara de ser revelada. Sabia que, ao contar a verdade para o amigo chinês, estava correndo um sério risco, mas nada se concretizaria se esses não fossem corridos, não?
"Muito." Seu próprio tom não era para brincadeiras. O assunto, mesmo depois de vinte anos do ocorrido, ainda era muito delicado de ser tratado na sociedade e possuía a certeza de que muitos filhos de híbridos, assim como ela mesma, ainda sofriam represarias por causa disso.
"Então, realmente, você é filha de um híbrido." A fala pareceu apenas a confirmação por parte de Louis. Sabia o quão difícil era acreditar. Não que para ela, como filha de um, isso fosse natural, mas vivenciara anos de terror e de prevenção sobre esse dado.
"Sim, Louis. Sou filha de um híbrido e tenho orgulho de falar isso. Mesmo que eles tenham sidos odiados por tanto tempo. Meu Daddy foi o melhor pai do mundo e isso não há como se discutir." Amenização de seu tom de voz. Um sorriso pequeno se formando e o carinho era visível nos olhos de Alissia. Mesmo que tivesse guardado aquela informação durante tanto tempo e ter encenado uma peça estranha para sua existência não ser vista como algo monstruoso, sentia orgulho de seus pais. Acima de qualquer outra coisa, nada teria poder o suficiente para fazer com que o carinho que nutria por eles diminuísse. Falassem o que falassem a respeito dos híbridos. Para ela, que conhecia e lembrava-se de fatos importantes para si, nada mudaria.
"Mas e quanto a Relena...?" Não conseguiu conter a pergunta a tempo. Pelo o que se lembrava dos momentos em que visitara a amiga, a moça de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis sempre se postara com a verdadeira mãe da garota. Mas, se agora, esta lhe dizia que era filha de dois homens, como poderia ser explicada a presença da mulher?
"Relena era uma grande amiga de meu pai. Quando tudo aconteceu, ela se voluntariou a ajudá-lo, se passando por minha mãe. Até mesmo em minha certidão consta essa informação, mesmo eu sabendo da verdade há anos. No começo, eu a odiei, aliás, por um bom tempo eu tive raiva dela. Achava que ela queria ocupar o lugar de meu Daddy, coisa de criança..."
"Então o Sr. Yui..." Constatações começavam a se concretizar na mente de Louis. O rapaz era bom em captar as informações e melhor ainda em solucionar problemas e encontrar soluções, afinal, não dedicava sua vida a uma área de pesquisa apenas por gostar do que fazia.
"Posso lhe garantir que o 'Maxwell' no nome desses laboratórios não é em homenagem ao cientista que ganhou o Nobel com meu otou-san." Um sorriso carinhoso adornou os lábios de Alissia antes de a moça sorver mais um gole do líquido negro do copo de isopor. Mesmo que poucos soubessem desse fato, ela ainda se lembrava do dia em que o complexo de pesquisas havia sido inaugurado.
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As instalações que atualmente conhecia tão bem, há mais de vinte anos, não passavam de altos prédios de concreto. Na verdade, aos seus olhos de uma criança de apenas quatro anos de idade, aquilo tudo era um tanto amedrontador, mesmo que certos maquinários e equipamentos atiçassem sua curiosidade infantil.
Trocava os passos meio receosa. Os corredores pareciam sem fim e a presença de uma verdadeira multidão, que lhes acompanhavam na primeira visita monitorada daquele que prometia ser o maior complexo científico do país, lhe causava certa intimidação.
Ela tinha consciência de que quando estivesse em algum evento importante ou tivesse repórteres por perto ela deveria ficar junto à Relena, como se a moça fosse, realmente, sua mãe, mas o pavor que crescia gradativamente dentro de si não conseguia ser suprimido pela presença da mulher.
Correu os olhos azuis por entre as pessoas que lhe rodeavam à procura de seu Daddy. Sabia que ele estava por ali. Ele havia lhes acompanhado até o local, ele estava junto de seu otou-san até este precisar ir falar no palco engraçado, havia visto o rapaz de longa trança castanha sentado nas cadeiras mais altas, sobre o palco, ele havia entrado no prédio junto a multidão... Então, onde é que estava?
Contorceu-se para ter uma visão mais ampla do local, mas todos que se econtravam ali eram adultos, muito mais altos do que ela, o que limitava sua vista para, apenas, um emaranhado de pernas. O pânico começou a tomar conta de si. Não gostava daquele lugar, não gostava daquelas pessoas, não gostava de Relena, não queria ficar ali... queria seu Daddy, queria o colo dele e a segurança que vinha com ele.
Parada no lugar que estava, soltou os dedos das mãos de Relena e sentiu as lágrimas marejarem seus olhos ao mesmo tempo em que um soluço ameaçava sair de sua garganta. Duas lágrimas chegaram a rolar por sobre suas bochechas gorduchas quando sentiu um par de braços a erguendo do chão.
O abraço carinhoso que recebeu e o afago sobre os cabelos parcialmente presos foram acompanhadas pela voz que mais esperava ouvir, enquanto este lhe sussurrava ao ouvido palavras de consolo e coragem. Rodeou os braços pelo pescoço largo, amassando a trança com as mãozinhas, enquanto afundava o rosto no ombro do pai e permitia que as lágrimas fossem absorvidas pelo tecido azul-marinho do paletó.
"Ei, princesa, não precisa chorar, está tudo bem..." As palavras lhe acalmavam e seu maior desejo era olhar para o pai e pedir para ir embora.
"Medo..." Balbuceou baixinho próximo a orelha do Daddy que lhe segurava firmemente. "Quelo ir embola..."
"Agora não dá, se formos, otou-san Heero vai ficar triste." Duo havia lhe ajeitado no braço para que pudesse olhar para ele enquanto lhe explicava a situação. "Mais um pouco, princesa. Depois tem surpresa para você!"
Seus olhos piscaram enquanto limpava o rastro molhado da face e observava o pai lhe sorrindo. Acalmando-se completamente, fungou uma última vez antes de balançar a cabeça afirmativamente e estalar um beijo na bochecha do rapaz.
"Tá, Dad..." a fala morreu em seus lábios com um olhar do americano para si, como em uma advertencia muda. "...Tio Duo."
Permaneceu mais um pouco no colo do pai e quando este foi lhe passar para o colo de Relena, recusou firmemente, preferindo ir ao chão do que para os braços da moça.
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Era pura birra que mantinha quando pequena, afinal não entendia que a moça fazia tudo aquilo para seu bem e por mais nenhum outro motivo. O mais engraçado, sempre que se lembrava deste sentimento, era que agora se dava relativamente bem com ela. Não chegava a ser um mar de rosas, mas perdia algumas horas em visitas.
Precisava reconhecer, também, que a senhora, agora, era mais sua amiga do que uma madrasta e que, se hoje ela possuía alguma preocupação com a aparência e conseguia se portar muito bem em eventos de classe em que precisava comparecer era por causa da educação que recebera de Relena quando jovem.
"Mas, Alissia, pelo o que me lembro de ter encontrado nos jornais da época, as manchetes eram claras quando anunciavam que Relena estava grávida de Heero Yui." A voz de Chang lhe retirou dos pensamentos acerca de seu Daddy e do carinho que este tinha para consigo. A indagação do chinês era realmente boa. Até mesmo ela havia visto tais dados em arquivos e várias fotos da moça ostentando a barriga de meses.
"E ela estava...Quer dizer, o filho não era de Heero, mas, realmente, Relena estava grávida na mesma época." Alissia começou a explicação sobre o que conhecia. Sabia que seu nascimento era conturbado e cheio de mentiras, mas aquilo fora necessário para que, atualmente, se encontrasse viva. "Pelo o que otou-san me contou, alguns anos atrás, ela não sabia quem era o pai da criança e foi buscar a ajuda do otou-san. Ele se via em uma linha tênue, pois ela descobriu que Duo estava grávido e que o mesmo era um híbrido, mas como ela era muito amiga de otou-san, eles acabaram se ajudando mutuamente. Não sei direito dos detalhes e nem do que aconteceu com o filho de Relena, nunca tive coragem de abordar este assunto com ela..."
"Certo. Então, tudo o que eu sempre soube quando criança acerca de você, era mentira, Alissia..."
"Não, Louis." A resposta iniciada pairou no ar por um tempo. Mesmo que sua origem estivesse cercada de mentiras, as poucas verdades que Alissia conhecia ainda eram verdades e a mais importante delas era a amizade que desenvolvera com o rapaz quando eram pequenos. "Eu sempre fui eu mesma desde criança. Mas, tudo isso, foi necessário para me proteger. Para que eu permanecesse viva."
O chinês fitou os olhos azuis à sua frente, tentando encontrar uma leve mentira que fosse naquilo tudo e se alegrando quando viu que isto não se confirmava. A moça era importante para si, desde que a conhecera, em seus já quatro anos de idade, não conseguia fazer ideia de que aquela menina que brincava consigo e por quem guardava boas recordações, tivera de se esconder por tanto tempo. Aproximou-se da mesa onde os diversos papéis estavam bagunçados e deixou seu copo de café vazio sobre a mesma, antes de se voltar para Alissia.
"Então, qual o objetivo disso tudo? Qual sua curiosidade sobre meu experimento?" O chinês retomou o tema. No fundo, saber tudo aquilo sobre a jovem trazia-lhe certa impaciência. Talvez fosse o impacto de todas as revelações simultâneas, talvez fosse apenas o receio de encarar uma realidade que era diferente da qual já conhecia, mas, o que poderia julgar como correto, era o fato de que tinha medo de que, com aquilo, os seus sentimentos por Alissia mudassem.
Percebendo o desconforto de Louis, Alissia não pode deixar de suspirar profundamente. Mesmo aqueles que diziam não possuírem nenhum preconceito sobre os híbridos, quando começavam a conversar sobre o assunto, se mostravam arredios. Não poderia fazer nada a respeito disso. Esse sentimento havia sido imposto pela sociedade para a população. Era muito raro encontrar qualquer pessoa que se sentisse confortável em tratar sobre o assunto. Mas, por mais que desejasse mudar o foco da conversa, ela tinha tudo a ver com o porquê de sua pesquisa, assim, se o rapaz queria realmente saber seus motivos, não poderia titubear em abordar um pouco mais profundamente o tema. "Você sabe da guerra civil, não?"
"Do Outubro vermelho?" A resposta partiu ao mesmo em que o rapaz se acomodava melhor na cadeira enquanto observava o rosto de Alissia. Ele sabia do que se tratava, havia estudado o acontecimento nos livros de história, ainda que houvesse passado apenas vinte anos desde seu ocorrido.
"Sim. Mais precisamente, do dia 20." Ela sabia que o assunto era delicado. Para si doía mais do que para qualquer um outro, mas precisava continuar. Estava disposta a explicar o máximo que pudesse para Louis. Devia isso a ele. Precisava, finalmente, desabafar aquilo com alguém e, se ela fosse realmente pedir a ajuda do amigo, necessitava que ele tivesse ciência sobre o que estaria tratando e quais os riscos que poderia estar correndo.
"O dia em que o massacre de milhões de híbridos ocorreu." Ou o famoso "Dia sangrento", como estava registrado em dezenas de livros atualizados de história. Mesmo tendo vivido durante o ocorrido, para Louis pouca coisa se abalara. Ele era muito novo para registrar os acontecimentos da época e, mesmo se lembrando do cuidado e do clima tenso que rondava sua família na ocasião, para ele, nada mais trágico havia sido presenciado. Pelo o que lera, anos depois, sobre o acontecimento, não pode deixar de sentir uma revolta profunda e certa náusea sobre aqueles que se consideravam seres humanos.
"Sim. O dia em que minha vida, como eu a conhecia, mudou completamente." O tom de voz de Alissia fora melancólico. Mesmo para uma criança de cinco anos de idade, aquele dia e seus acontecimentos ficaram gravemente marcados em sua vida. Afinal, mesmo na época não compreendendo muito bem o que se passava, fora quando conhecera, pela primeira vez, uma das mais cruéis e terríveis faces do ser humano. "O dia em que perdi meu Daddy..."
Aquela revelação não chocou Louis como era o esperado. Afinal, qualquer um que possuía um vínculo mais profundo com a família Yui, sabia do relacionamento familiar que Heero mantinha com o irmão mais novo de Solo. Entretanto, nenhuma informação acerca do rapaz, Duo, aparecera durante anos nos meios de imprensa. Muitos acreditavam que era devido ao jovem não se envolver com nenhum evento social, outros apenas afirmavam que o senhor Yui deveria ter se cansado de servir de babá para o irmão do rapaz que não fora nada mais do que apenas um companheiro de pesquisas. A verdade, após as revelações que a amiga lhe fizera, parecia mais sombria e mais provável aos olhos de Louis. "Alissia, ele morreu...?"
"Não precisamente." Os olhos da jovem se voltaram para cima, fitando a lâmpada branca que iluminava o aposento. Era doloroso falar daquilo. Mesmo que suas lembranças sobre o acontecido fossem esparsas, a angústia acompanhava os poucos fatos de que conseguia se recordar. "Você sabe o porquê de Heero-tousan ter ganhado o prêmio Nobel, não?"
"Sim. Ele e o cientista Solo Maxwell ganharam o prêmio por terem desenvolvido com sucesso o processo de criogênia e preservação do corpo..." A fala de Louis morreu em sua garganta no mesmo momento em que tudo pareceu fazer sentido e lógica para sua mente. O chinês olhou atônito para a nipodescendente não conseguindo acreditar que o que talvez estivesse pensando pudesse ser verdade.
"Mas ambos não tiveram tempo para estudar e desenvolver o processo reverso. Meu Daddy, Duo Maxwell, foi a primeira pessoa a ser colocada em hibernação e permanece até hoje..." Alissia reabriu os olhos e observou a reação estampada na face de Louis. De algum modo, era reconfortante desabafar tudo aquilo com alguém em quem podia confiar. Respirando fundo, pegou uma de suas anotações entre os dedos e as leu superficialmente para ver se seus pensamentos voltavam a linha que seguia antes daquela pausa. "Os seus estudos de reanimação celular podem ser o primeiro passo para reverter o processo. Daí vem meu interesse."
"Seu interesse pode ser genuíno, mas essa sua conta está errada..." O dedo em histe de Louis apontava uma complicada conta que Alissia havia desenvolvido para tentar comparar os dados coletados em pequenos roedores com os dados de uma pessoa adulta. "O processo pode ser até 20 vezes mais complicado. Os roedores, mesmo possuindo uma anatomia parecida com a humana, ainda têm suas diferenças. Pelo que entendi, o processo seria aplicado em uma pessoa adulta, então toda sua adaptação precisa ser feita com base nos dados coletados dessa pessoa, assim podemos verificar quais seriam as probabilidades de erros e ainda tentar prever possíveis acontecimentos, além de se verificar qual seria a melhor maneira de trabalhar com essas células e sua reanimação partindo de um mundo microscópico e passando para uma larga escala. Seu Daddy vem sendo monitorado este tempo todo, não? Você teria esses dados para nos auxiliarem? Seriam de grande ajuda para conhecermos o atual estado de saúde dele e assim prev..."
Percebeu quando seu riso baixo quebrou a concentração da linha de raciocínio que Louis levava. Realmente, fizera uma boa decisão quando optou por contar-lhe a verdade. Talvez, agora, sua vontade de trazer seu Daddy de volta se tornasse real.
Continua...?
Cantinho da autora
Hello pessoas!
Depois de dois anos e quatro meses da última atualização dessa fic... Cá estou eu!
Sim, sim, sim! Não desisti de contar a história do "Duo no tubo" ainda! Lol.
Como fui intimada a continuar com ela, preciso chegar até o seu final, então cá permaneço firme e forte (ou não tanto).
Espero, realmente, ter esclarecido alguns fatos com este capítulo. Ainda não quero entregar todos os porquês, mas um dia chego lá!
Obrigada a todos aqueles que acompanham e comentam. Fico realmente feliz com cada review que recebo!
Keiko Maxwell
Abril/2013
