Cap. 3: A Descoberta de Castiel

_Sam!

A voz rouca de Castiel fez o moreno arregalar os olhos imediatamente, estava tentando dormir e quando finalmente conseguira tirar um cochilo, lá estava o anjo chamando por seu nome.

Bocejou e esfregou os olhos com os dedos, estava cansado, não tinha dormido muito bem a noite passada, estava tentando achar um jeito de trazer Dean de volta, ou pelo menos o corpo masculino dele.

_O que? – perguntou para o anjo, voltando seus olhos para o livro que tinha deixado aberto, se dando conta apenas naquele instante que tinha dormido sentado na cadeira de Bobby.

_Não vai dar certo. – o anjo informou.

_Me acordou para acabar com minhas esperanças ou tem um plano melhor? – estava irritado também.

_Eu... Eu tenho um plano melhor. – Sam revirou os olhos.

_É claro que tem. – resmungou, mas o anjo claramente ignorou o mal-humor do rapaz.

_Podemos falar com Gabriel.

_De novo?

_Ele vai nos ouvir dessa vez.

_Por que tem tanta certeza disso?

_Porque é você quem vai barganhar, é melhor que eu nisso. – respondeu, como se fosse óbvio.

_Tá e o que nós temos que Gabriel quer? Não podemos barganhar sem uma moeda. – Castiel sorriu.

_Você, Gabriel quer você.

_Como é?! – levantou-se rápido derrubando a cadeira e fazendo um barulho ensurdecedor.

_Ele quer você, quer que você deixe Lúcifer entrar, assim como quer que o Dean deixe Miguel entrar, ele quer que o apocalipse aconteça, diga a ele que vai ser assim.

_Oh, é claro, daí ele traz o corpo do Dean de volta e nós nos ferramos porque nenhum de nós vai se entregar, você sabe disso, e o pior, é que ele pode me transformar em mulher também!

_Não vai ser tão bonita quanto eu, você sempre foi desproporcional, Sam. – Dean entrou na cozinha bocejando, meio cambaleante, o cabelo parecia ter levado um choque e ele vestia apenas uma cueca e uma camiseta regata que parecia ter três vezes seu tamanho agora. – E o plano Cas, – disse, pegando um copo e tomando um pouco d'água. – é uma merda, Gabriel nunca vai aceitar.

_Como tem tanta certeza? – o anjo retrucou, tentando evitar de ficar olhando-o por tempo demais.

Dean deu de ombros, terminando sua água.

_Porque eu sei, eu sou o gênio da família, sem falar que sou lindão também, eu estou sempre certo. – e sorriu de lado. – Eu sou o...

_Não é não. – Sam o cortou.

_O que? – o olhar verde encarou o irmão.

_Eu sei o que vai dizer. – Sam retrucou, deixando o mais velho irritado.

_E o que eu ia dizer, sabichão? – e colocou uma das mãos na cintura fina enquanto rolava os olhos.

_Você ia dizer que é o Batman, você não é, o Batman não tem peitos assim. – e apontou para ele. – Ta mais para a Batgirl.

Dean deu de ombros, conformado.

_Continuo sendo o mais bonito. – retrucou. – E parem de fazer barulho, parecia uma manada de elefantes atravessando a sala do Bobby agora a pouco, foi por isso que acordei.

_Já está com frescurite, puxa... Gabriel deve ter mexido em algo mais que sua aparência, não me lembro de você ser assim, Dean.

_Cala a boca, Sam! Eu só estou com um probleminha.

_E o que é? – perguntou, meio preocupado, embora achasse que o irmão pudesse estar exagerando. – Eu e o Cas podemos ajudar?

_Definitivamente não. – disse o loiro, e voltou para o quarto. – Eu estou bem. – gritou.

Sam olhou para Castiel e o anjo deu de ombros, sentando na cadeira e esticando as pernas, Sammuel achou aquela postura do anjo um pouco incomum, mas levantou a cadeira que tinha derrubado e sentou-se de frente para ele.

_Precisamos fazer alguma coisa, – disse e viu o anjo balançar a cabeça em confirmação. – mas o que?

_Eu sinceramente não sei, Sam.

_Você... Bem, você poderia... Destransformá-lo? Por acaso? – e arqueou as sobrancelhas, encarando o anjo como se ele fosse sua ultima esperança.

_Não acho que seja possível, Gabriel é um arcanjo. – e viu o outro franzir o cenho. – Quer dizer que o único que consegue quebrar qualquer tipo de realidade que ele crie é... – e suspirou fundo. – Ele mesmo.

Sam colocou as mãos na cabeça e reclinou-se para trás. Estavam todos ferrados, Dean ainda mais.

_Eu vou tentar dormir, Dean vai acordar de novo daqui a pouco e eu terei que arrumar o cabelo dele porque ele não tem capacidade para isso. – e levantou, indo para o sofá.

_Não devia ir dormir na cama?

_Nhá. – disse e fechou os olhos, se acomodando o quanto podia no sofá, entre revistas e uma velha almofada que a esposa de Bobby tinha feito. – Você não devia estar... Sei lá, descansando também? – perguntou, mas não abriu os olhos para ver o anjo.

_Eu ainda sou um anjo, não preciso dormir. – respondeu. – Eu cuido de vocês, pode descansar, Sam. – disse, mas o moreno não o ouvia mais.

Castiel ficou parado encarando um dos livros que Sam tinha deixado em cima da mesa. Já fazia algum tempo que tinha aquele tipo de pensamento, já fazia tempo demais que tentava entender o que era aquele incomodo continuo que tinha no peito quando via Dean, mas nunca tinha verdadeiramente se importado com isso.

Até aquele momento.

Dean estava diferente, ele era uma garota agora.

Sumiu e em instantes apareceu aos pés do loiro. Ele estava esticado na cama, um dos braços para fora do colchão e uma das almofadas no meio das pernas, Dean babava e grunhia coisas que Castiel não conseguia entender. O cabelo parecia atrapalhar porque não tinha um momento em que a mão do loiro não fosse até a cabeça para tirá-los do rosto.

Castiel o achou lindo e sorriu.

Mordeu os lábios e se aproximou da cama, sentia o peito comprimir e o coração bater acelerado, isso acontecia sempre e pela primeira vez ele estava entendendo. 'Dean e eu compartilhamos um laço mais profundo.' – aquilo tudo pareceu fazer sentido naquele instante.

O porquê de sempre fazer o que o loiro queria, mesmo sendo contra seus princípios ou regras, o porquê de segui-lo e aventurar-se com ele em qualquer caçada mesmo que isso lhe custasse à vida, o porquê de nunca se atrever a ir contra ele, o porquê de estar com os pensamentos nele até mesmo quando estava com ele.

O amava.

Por que então não conseguia ver antes? Talvez só estivesse confuso, talvez estivesse confundindo sua leal amizade com amor por causa da aparência que o loiro tinha agora.

_Não. – sussurrou para si mesmo.

Não estava enganando-se, aqueles tremores e palpitações não começaram depois da transformação de Dean, foi antes, bem antes, começaram a acontecer assim que o tirou do inferno, assim que seus olhos se cruzaram pela primeira vez, assim que tocou a pele dele e o puxou para fora daquele lugar.

O amou no exato momento em que tocou e conheceu sua alma amargurada, com tantas cicatrizes que era impossível de se contar. Talvez tenha o amado desde sempre, mas nunca parara realmente para refletir sobre isso e chegar à conclusão de que o amava como homem, como os humanos costumam amar.

Amava Dean romanticamente.

Pensou em todas as coisas que podiam lhe servir de pistas sobre isso e nunca se sentiu tão decepcionado consigo por não ter percebido antes.

Como pudera? As brincadeiras constantes de Balthazar, o mal-humor que se apoderava de si quando via Dean sair com alguma garota, pensava que aquilo tinha haver com o fato de achar que ele não se empenhava tanto em desvendar os casos, mas não, era ciúmes.

Puro ciúme de apaixonado.

Podia ouvir claramente Balthazar gritando dentro de seu crânio o quanto fora inocente em não ver quando tudo estava ali, bem a sua frente.

_Como dizem mesmo? – sussurrou de volta, pensando alto, fazendo com que suas palavras entrassem pelos ouvidos, como se assim, apenas assim, pudesse se ouvir melhor. – Preto no branco...? Deve ser isso. – suspirou dando mais um passo.

A luz da lua clareava parcialmente o quarto e Castiel achou que nem a melhor técnica poderia capturar a beleza de Dean naquele momento.

Afastou as madeixas compridas do rosto do loiro e sorriu quando viu ele abrir os olhos, lindos e grandes olhos verdes, tão expressivos que sabia exatamente o que se passava em sua cabeça, podia ver a confusão dentro de si, o redemoinho que se formava enquanto ele pensava em que diabos estava acontecendo, mas Castiel apenas sorriu para ele e sentiu Dean se acalmar.

Dean se acalmou porque era Castiel, ali na sua frente, cuidando e velando seu sono, sempre era Castiel, podia senti-lo até mesmo quando não estava visível, mas estava diferente agora.

O loiro notou, Castiel estava mais palpável, mais... Suspirou tentando aclamar a respiração desregulada. Castiel parecia estar finalmente ao seu alcance, como nunca antes estivera.

_C-Cas? – sussurrou e odiou a forma como a voz aguda que tinha agora entoou o apelido do anjo.

_Dean. – ele ainda sorria. – Eu te a...

Estava prestes a fazer algo que duvidava se ia se arrepender, mas antes que pudesse terminar as palavras e enfim colar seus lábios nos dele, Sam irrompeu pela porta segurando uma das armas que sempre deixava em lugares estratégicos.

_O que pensa que está fazendo, Castiel?

As luzes do quarto se acenderam e Bobby apareceu atrás de Sam, vestindo um calção listrado e botinas, também estava armado. Castiel se afastou de Dean que sentou-se imediatamente na cama. Esfregando os olhos e não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo ali.

Não entendendo o porque de todo aquele alvoroço.

_Responde! – Sam disse, fazendo um movimento perigoso com a arma e Castiel se afastou mais de Dean, mesmo que um tiro não fosse capaz matá-lo.

_Sam, eu estav...

_Eu estava tendo um pesadelo. – Dean cortou o anjo, fazendo sinal para que Sam abaixasse a arma. – Castiel deve ter ouvido algo e veio ver se estava tudo bem.

Sammuel olhou desconfiado para o irmão e então para o anjo.

_Não era o que parecia. – retrucou.

_E quando as coisas são o que parece com a gente? – Dean se levantou, amarrando os cabelos de qualquer jeito e assoprando alguns fios que tinham ficado soltos. – Qual é, Sam? Por que ainda está com a arma apontada para nós? – perguntou, indicando a si mesmo e depois o anjo com os dedos.

_Dean, me desculpe, eu só não... – e viu o irmão mais velho fazer movimentos com a mão para que parasse de falar, mas continuou. – Precisamos achar um jeito de te trazer de volta. – disse.

_E acha que atirando no Cas, vai ajudar em alguma coisa? – estava ficando irritado.

_Não, Dean. – Sam retrucou. – Eu só pensei que...

_Olha Sam, eu sei que a barra ta pesada, mas não é você que virou mulher tá legal?! Eu ainda estou pior aqui então... Ah, eu nem sei mais. – e saiu em direção ao banheiro, estava com dor.

_O que veio fazer aqui, Cas? De verdade? Porque o Dean não me convenceu com esse papinho de pesadelo. – perguntou, mas sua voz tinha um tom agressivo demais.

Bobby olhava de um para o outro, esperando o momento certo para segurar qualquer um deles. O clima estava tenso demais por ali, ele podia sentir no ar. Sam estava protegendo o irmão, mas de quê? Castiel? Como o anjo poderia representar um perigo se ele tinha salvado Dean inúmeras vezes? Suspirou, olhando no relógio da parede no corredor.

_São quatro da manhã, rapazes, vamos apenas esquecer isso tudo e dormir um pouco certo?! – disse tentando amenizar os ânimos por ali. – Eu não quero brigas na minha casa, estejam avisados sobre isso. – e virou as costas.

Sam mordeu os lábios, lembrando-se de quando entrou no quarto.

Castiel inclinando-se cada vez mais sobre o irmão e então os olhos arregalados de Dean que iam calmamente se fechando, aquilo simplesmente não podia significar o que estava pensando. Simplesmente não.

Porque Dean é homem, Dean tem aversão a outros homens e tem aversão a anjos também, ele não podia simplesmente, de um momento para outro acabar por... Sam não conseguia pensar nisso.

Dean e Castiel definitivamente não iam se beijar.

_Eu não sei o que está acontecendo, eu não tenho idéia de com me comportar diante disso, mas eu quero que saiba de uma coisa.

_O que foi, Sam? – perguntou, mantendo o rosto sereno, como sempre.

_Não vou mais deixar o Dean sozinho com você. – disse em tom de ameaça. – Isso definitivamente não vai acontecer, ele é meu irmão, Cas.

_Eu sei disso, Sam, eu sei disso. – retrucou o anjo. – Eu entendo perfeitamente o que deve estar pensando, mas... Foi apenas um pesadelo. – se sentia mal por mentir, mas não podia simplesmente despejar seus sentimentos em cima de Sam, sentimentos esses que não deveria ter.

_Eu não estou convencido disso. – disse e virou-se para sair do quarto. – Venha comigo.

Sam suspirou fundo enquanto descia as escadas. Não seria surpresa se algum homem que visse Dean naquele 'estado' tentasse algo, mas Castiel?! Não aceitaria isso, sabia que Dean provavelmente não concordaria com isso, mas ele parecia fragilizado no momento, talvez pelo fato de ser mulher. Mesmo tentando se convencer, Sam não conseguia entender algo.

Dean não tinha aversão por Castiel.

Nenhuma aversão. Reclamava do 'espaço pessoal' no começo, mas depois não dizia nada, comentava quando o anjo não aparecia tão constantemente, fazia piadas e às vezes citava que se Castiel estivesse ali, não teria entendido.

Enrolou alguns fios de cabelo nos dedos, era muito concreto para que tivesse passado despercebido por tanto tempo, era bom demais em descobrir coisas sobre o irmão para não ter notado isso.

Dean não podia de jeito nenhum estar apaixonado por Castiel ou estar envolvido de alguma forma com ele, isso nunca lhe escaparia, saberia no exato momento em que olhasse para Dean, era irmão dele, o conhecia melhor do que qualquer um e... Dean não podia estar se apaixonando pelo anjo.

Lembrava-se do caso anterior quando ele... Espere! No caso passado Dean não tinha paquerado ninguém, não tinha pegado números de telefones, não tinha ganhado nenhum papel com e-mail ou qualquer coisa do tipo, Dean tinha ficado no motel, tinha saído apenas para investigar, em nenhuma noite tinha ficado fora, não aparecera com marcas de batom e arranhões.

Dean não tinha ficado com ninguém.

Sammuel olhou para trás para ver se o anjo lhe seguia e lá estava ele, encarando suas costas. Fechou o semblante e virou-se para frente, teria que conversar sobre isso com Dean mais tarde, aquilo não podia estar acontecendo.

_Quero que fique longe do Dean, Castiel. – disse ríspido assim que ficaram de frente um para o outro.

_Por que isso te incomoda tanto, Sam? – e então tratou de arrumar sua sentença. – Foi apenas um pesadelo, Dean mesmo confirmou e...

_E eu disse que não estava convencido. – retrucou, juntando as sobrancelhas de um modo que o fazia ficar assustador.

Castiel fechou o semblante, pronto para despejar inúmeras razões do porque de Sam não ter o direito de tratá-lo daquele modo, mas um grito angustiado de Dean fez ambos olharem para cima.

_Caaaas! – a voz parecia sofrida. – Caaaas! Ta doendo! Caaaas!

_Não suba! – Sammuel disse ríspido apontando o dedo para ele, cuspindo as palavras antes de subir correndo as escadas.

_Não espere que eu te obedeça. – retrucou o anjo e sumiu do meio da sala.

Dean estava sentado no chão do box, nu em pêlo e uma pequena linha de sangue escorria por suas coxas e se findava no azulejo branco, misturando-se com a água escassa que saia do chuveiro.

Castiel sentiu seu coração doer ao vê-lo daquele jeito e sentiu-se quebrar ao ver os olhos dele se fixarem nos seus.

_Cas! – sussurrou, como se não tivesse forças nem mesmo para falar. – Eu... Eu estou sangrando! – disse, os dedos melecados de vermelho enquanto dos olhos verdes escorriam grossas lágrimas.


N/a: Oi, oi gente! Obrigada pelos review's, estou adorando ler como vocês estão simpatizando com a seduzinte(adjetivo dado por Luthie) Deanna. Até o próximo e beijão!