Cap. 09: Um Guerreiro no Céu

Estava sozinho. Olhou para os lados, mas não havia absolutamente nada ali, era escuro, como se fosse noite o tempo todo. Não tinha sons. Não tinha... Nada.

'Não consegue nos ver, não é mesmo Castiel?' – era a mesma voz, só que parecia triste dessa vez. – 'Não é um humano completo ainda, mas logo vai ser se não voltar para o céu, conosco, Castiel.'

Queria vê-los, sentia falta de seus irmãos, mas eles pareciam não entender pelo que estava passando, pela confusão que estava sua cabeça, pareciam não entender o que aquele sentimento estava fazendo com tudo o que tinha moldado o anjo em todos aqueles bilhões de anos de existência que tinha.

Pareciam não entender que o caçador o tinha quebrado de todas as formas e o reconstruído depois, de um jeito melhor, fazendo dele uma criatura melhor do que ele sempre fora, transformando-o em algo que fazia com que se sentisse orgulhoso. Alguém melhor do que jamais imaginou que poderia vir a ser.

Dean o moldou, de um modo perfeito. O moldou como um humano.

_Balthazar...

_Tem idéia do que fez conosco? – o anjo perguntou. – Tem idéia das questões que levantou e das dúvidas que está fazendo com que nós tenhamos?

_O-o q-que?

_Ficamos ansiosos agora. – ele finalmente apareceu. – Queremos aprender e sentir coisas que antes não nos importava, antes não fazia diferença que pertencia apenas aos humanos! Castiel... Você... Nos faz querer cair, você sabe que é mais fácil encontrar um anjo caminhando na Terra agora do que no céu? Você sabia que tudo o que você e Dean faziam, a ligação de vocês... É como se... Bem, nós queremos ter isso também.

_Balthaz...

_Nós queremos sentir o calor de um abraço, a vergonha que toma o corpo quando seguramos as mãos, queremos sentir o gosto de um beijo e o que é o carinho intimo entre dois corpos...

_Mas eu não...

_Nós sabemos, mas não vai demorar para acontecer, porque você tem alguém, você tem o caçador.

Queria lhes explicar que não tinha planejado, que tudo o que aconteceu não foi por desejar, queria dizer que tinha simplesmente acontecido, que ele não escolhera se apaixonar por Dean, queria dizer que era a melhor coisa que tinha lhe acontecido em todo esse tempo de existência, mas que não tinha a intenção de fazê-los cair.

Queria lhes dizer que não era assim que tinha que acontecer.

'Eu vou falar com ele agora.' – uma voz calma, mas imponente soou e fez tremer tudo.

Castiel temeu, seus irmãos, as presenças que podia apenas sentir desapareceram imediatamente e só ficou aquela, grande, sufocante que parecia esmagar-lhe apenas por estar ali.

Sentou no chão cinza de concreto, como uma criança que receberia seu castigo, esperou que a voz tornasse a falar, esperou por uma dor insuportável que lhe arrancaria as asas, o impedindo de ter qualquer outro contato com o céu.

'Você quer deixar o céu?' – a pergunta foi direta e fez Castiel oscilar, porque não sabia.

_E-eu...

'Você não parece ter certeza.' – a voz retrucou. – 'Não a mesma certeza de Anna e Anniel quando caíram.' – constatou e Castiel sentiu as maçãs do rosto esquentarem, como uma criança pega em uma travessura. – 'Você pretende cair?'

Castiel limpou a garganta. Queria poder olhar nos olhos de quem quer que estivesse ali, queria explicar o motivo de estar naquele estado, queria fazer ele entender o porque do céu ter perdido sua magia para ele, depois que conheceu o caçador.

'E então? Você pretende cair? Para ficar com o humano?'

Não mentiria para si mesmo. Gostava de ser anjo, gostava de ter aquele poder de ajudar os outros, gostava de poder conhecer Dean tão a fundo por causa do poder que tinha, porque só o conhecia assim, porque um dia foi capaz de lhe tocar a alma.

_Ele é... O Dean é especial pra mim.

'Você gosta dele.' – afirmou e Castiel balançou a cabeça. – 'Não foi uma pergunta.' – a voz falou, quanto ao anjo ter entendido errado sua afirmação.

_Oh, me desculpe. – e baixou os olhos, as bochechas se tingindo de vermelho.

'Quero te mostrar algo, Castiel, venha.' – chamou e o anjo sentiu a presença se distanciando, levantou-se de onde estava sentado e correu atrás dele.

Tudo a sua volta começou a mudar, uma estrada foi formada e ele tinha certeza que já tinha passado por ali, pelo menos uma vez, ele se lembrava daquele tronco torto que estava no canto da estrada, sabia também que mais adiante teria um bar. Não estava enganado, logo pode ver a placa indicando.

'Você reconhece não é?'

_Sim. – respondeu, sem se dar o trabalho de procurar pelo dono da voz, já que não podia vê-lo de qualquer jeito.

'Então, vamos continuar.' – anunciou se afastando mais uma vez, fazendo Castiel segui-lo, mas antes virou novamente seus olhos para o bar e viu o Impala estacionar lá, Sam e Dean saltaram do carro e John saiu logo depois.

Castiel sempre foi o anjo de Dean, conhecia-o por inteiro. Lembrava-se muito bem daquele dia, foi quando Dean pediu ao pai para ir com ele na caçada, John o tinha magoado muito aquela noite, e mesmo não podendo, Castiel se fez presente para ele, lembrava de ter pagado-lhe uma soda e conversado com ele por algum tempo, até ele levantar da cadeira e dizer que precisava cuidar do irmão.

Baixou os olhos ao lembrar de vê-lo chorando na cama depois, tão pequenino e tão frágil, lembrava daquele sentimento ter lhe invadido, como se o obrigasse a se aproximar e abraçar o menino.

Sorriu levemente, Dean sempre, de alguma forma, lhe despertava sentimentos que não deveria ter, ele sempre lhe moldava.

Seu sorriso morreu quando reconheceu a casa dos Winchester's. Oh, não! Aquela noite novamente?! Engoliu em seco ao passar pela porta, a casa silenciosa, John esparramado no sofá enquanto a TV muda tingia o rosto sereno de várias cores, olhou em direção as escadas e viu Mary passar por ali, em direção ao quarto de Sammuel.

_Por que estamos aqui?

'Ele cresceu diferente de você, Castiel.' – a voz não respondeu sua pergunta. – 'Ele é de uma raça diferente, ele nasceu e passou por estágios que você não passou, você nasceu assim e vai ser desse jeito para sempre até que sua graça pare de pulsar, a vida dele é breve, você sabe que ele não vai renascer.'

_Sim, eu sei, por isso quero ficar com ele enquanto posso.

'Anjos só amam uma vez, Castiel. E amam de forma diferente dos humanos.'

_Sim, eu sei.

'Você acha que ele vai te amar para sempre? Acha que ele vai corresponder seus sentimentos até o fim da existência dele?'

_Eu...

'Não me responda agora.' – disse, como se desse tempo para o anjo formular sua resposta.

Castiel viu Mary entrar no quarto e tudo acontecer diante de seus olhos. Não podia fazer nada, mais uma vez estava de mãos atadas, sentia o peito apertar ao ver o sofrimento da família mais uma vez. John segurava Sam nos braços e Dean ao seu lado encarava a casa queimando com os lindos olhos verdes marejados.

Queria tanto poder privá-lo daquilo.

'Ele sofreu e se tornou um homem quebrado, Castiel, não tem como consertar uma alma como a dele.' – a voz comentou, de uma forma até mesmo triste, constatou.

_Ele não precisa ser consertado. – respondeu, ainda olhando para o menino choroso.

'Certo.' – ouviu um suspiro do ser. – 'Quero te mostrar uma outra coisa então.'

Castiel o seguiu mais uma vez, deixando Dean e a família para trás. Dean não dormira por três dias depois do incêndio, sempre que fechava os olhos, via a casa em chamas, Castiel foi o responsável por sua primeira noite de sono tranqüilo depois da tragédia. Ainda lembrava da canção que tinha resmungado para ele, a fim de fazê-lo dormir.

_Hey Jude. – disse mais para si mesmo do que para qualquer um, era a canção preferida de Mary, achou que Dean gostaria de ouvi-la aquela noite. – Na, na na na na na, na na na, hei Jude. – cantarolou lembrando-se da melodia.

Sentiu o olhar do ser em si e parou, talvez não fosse a melhor hora para cantarolar, não quando viu onde estava.

Sabia que era uma realidade alternativa, sabia porque ele próprio estava ali, como humano, tão fraco e errante como Dean era quando o conheceu, totalmente perdido e abalado, sema creditar em mais nada.

'Quando os anjos caem Castiel, eles perdem suas origens, eles deixam de acreditar.' – a voz soou triste e embargada, como se a qualquer momento o ser fosse desatar a chorar apenas por ter que falar aquilo em voz alta. – 'Eles se destroem, o livre arbítrio não foi feito para anjos, não para todos, foram feito para humanos, porque eles sabem escolher e pensar por si mesmos... Anjos precisam de direção, de alguém que os coloque no caminho.' – um suspiro baixo. – 'Você me entende, filho?'

_Eu posso dizer que estou tentando... Muito.

Entraram em uma cabana desarrumada e Castiel olhou para todos s lados, podendo ver apenas várias armas, sal e ferro entulhados em um canto, tinha uma cadeira velha de balanço e mesmo que não estivesse tão perto assim, podia ver as iniciais de Bobby Singer gravadas nela.

_O que quer me mostrar aqui?

'Quando um anjo cai, ele se torna parcialmente humano, perde os poderes é claro, mas ele nunca deixa de ser um anjo, Castiel, você entende isso? Entende que se decidir ficar na Terra, ainda assim não se desligara por completo do céu?'

_Sim, eu sei.

'Vou te mostrar o que o amor entre um anjo e um homem faz, o que ele acaba desencadeando.'

O cenário mudou completamente. Não estava mais em nenhuma cabana, nem mesmo na tal realidade alternativa. Olhou para os lados, ao sabia o que devia ver ali.

'Com atenção, Castiel.' – a voz cobrou e ele se forçou a achar algo de anormal.

_Anjos...! – sussurrou espantado.

'Sim, todos eles... Aqui, mas nem todos eles encontraram o que acharam que encontrariam, nem todos estão felizes, mas agora eles não podem mais voltar... Isso é o que o amor de vocês vai desencadear, Castiel.' – não parecia muito feliz em ter que lhe mostrar aquilo. – 'Anjos não foram feitos para ter sentimentos, filho, você entende isso?'

_Sim, mas... – seu olhos azuis banhavam-se nas lagrimas que estava prestes a escorrer-lhe na face. – Eu nunca quis... Eu não quero que algo assim aconteça... Tantos outros caem e...

'Você é diferente.' – disse com convicção. – 'Você nunca foi como os outros, eu agradeço que não seja, mas... O modo como você pode enxergar as coisas, faz com que os outros anjos pensem que também podem.'

_Eles vão querer cair se eu resolver ficar na Terra? Se eu resolver ficar com o Dean?

'Eu não sei, talvez não todos, mas alguns sim, alguns vão querer sentir um pouco do que você sente.'

_Mas isso não é bom?

'Sentimento não foi feito para anjos por um motivo, Castiel.' – a voz não parecia disposta a lhe dizer mais nada.

_Por que? – perguntou, forçando uma resposta. – Me faça entender o porquê de ser negado a nós.

'Porque quando um anjo desenvolve sentimentos, não é como os humanos, é de uma intensidade maior, você consegue entender o que aconteceria se eles amassem e então se decepcionassem? Você consegue entender que eles desenvolveriam rancor e ódio da humanidade? Consegue vê-los como eu? Porque eu sei que seriam milhares de 'Lucifer's' caminhando sobre a terra e fazendo dela o que bem lhe agradasse.'

Castiel fechou os olhos, não queria ver, não queria que seus irmãos desenvolvessem aquele tipo de sentimento, temia por eles agora. Antes pensava que todos poderiam viver felizes do modo como gostariam, podiam escolher cair, mas agora via que nem todos poderiam, nem todos tinham pensamentos como os dele.

Suspirou e voltou a abrir os olhos, encarando a cena de homens alados escravizando a humanidade a sua frente.

_Eu te entendo.

'Obrigado.' – a voz pareceu aliviada. – 'Antes que me responda aquela pergunta, Castiel, deixe-me lhe mostrar outra coisa.' – e o cenário voltou a mudar. – 'É o que vai acontecer se sua decisão for ficar aqui conosco, porque se for isso que você decidir, não vai poder descer a terra por um bom tempo.'

_Quanto tempo? – perguntou curioso, pensando que ainda podia se dar um jeito em tudo.

'Alguns bilhões de anos.' – respondeu e Castiel mordeu os lábios, entrando na cabana.

Era a mesma de antes, exatamente a mesma, tinha certeza. Seus olhos vasculharam o local em busca de algo e se fixou novamente na cadeira de balanço, parecia bem cuidada, mas no canto da sala não havia qualquer tipo de armamento.

'Pode vê-lo?'

_Quem?

Então foi como se tivessem tirado o pano que estava lhe tapando a visão. Dean. Era ele lá. Sentado na cadeira, uma expressão sofrida enquanto lágrimas escorriam sem parar por sua face.

'_Cas? Cas... Eu preciso de você' – a imagem de Dean implorava, encolhido na cadeira como quando era uma criança. – 'Eu preciso mesmo. Volta.'

_O Dean vai sofrer.

'Muito. Ele vai implorar sua volta todos os dias.' – fez-se uma longa pausa até que o ser continuasse. – 'E você vai ouvi-lo te chamar todos esses dias, até que a existência dele termine.'

Suspirou e olhou ao redor, a fim de sentir o ser que o acompanhava desde o começo de tudo aquilo, já tinha a resposta para a pergunta dele.

_Ele vai me amar até o fim.

'Como?' – e então lembrou-se da pergunta que tinha feito. – 'Ah!E como sabe disso?'

_Porque eu sinto. – respondeu. – E me desculpe, mas não é algo que eu possa explicar, não tem como explicar esse sentimento.

'Acho que está pronto para escolher.' – a voz parecia muito mais perto agora. – 'O céu ou a Terra, se ficar conosco vai voltar a ser o que era, um anjo completo, um guerreiro de Deus... Vai voltar a ser como os outros, Castiel.'

_Quer que eu volte a ser um anjo? Quer que eu escolha o céu?

'É o melhor pra você, Castiel.' – sentiu falta da voz de Dean lhe chamando apenas de Cas, não sabia porque, mas 'Castiel' parecia grande demais para ele agora, sentia que o tal 'Castiel' que o céu queria de volta, nunca mais poderia voltar, Cas era o que ele era agora, o Cas do Dean. – 'É o melhor para todos.' – a voz tornou a voltar.

_Eu não posso. – e balançou negativamente a cabeça, como que para afirmar suas palavras. – Não posso voltar para cá, não é mais o meu lar.

'Do que está falando? Está dizendo que prefere a Terra?'

_Não, não prefiro a Terra, é...

'O humano, você escolhe ele.' – suspirou profundamente. – 'Eu não entendo, Castiel, não mesmo.'

_Eu também não entendo, se quer saber. – e sorriu.

Fechou os olhos e sentiu algo dentro de si, então a voz de Dean ecoou em sua cabeça.

'Cas... Onde você está? Estou preocupado, precisamos conversar, você sabe! Eu.. Não agüento mais, preciso que você volte, preciso de você aqui... Do meu lado. Eu não quero que você fique no céu, Cas, e eu sei que é egoísmo da minha parte, você é um anjo, mas é que... ' – sentiu uma dor aguda no peito, sentia Dean chorando. – 'Eu preciso mesmo de você Cas, bem você sabe sobre meus sentimentos... Ah... Cas...' – podia sentir o coração dele batendo rápido. – 'Eu amo você, te quero de volta.'

A voz do caçador entrou fundo dentro de si e ele sorriu, abriu os olhos e finalmente pode ver a silhueta brilhante que antes não conseguia.

_Eu vou voltar pra Terra, eu vou voltar...

'Para o caçador. ' – a silhueta balançou a cabeça afirmativamente e Castiel quase pode ouvir um sorriso. – 'Eu entendo agora. Pode ir. '

_Vou ser um humano agora? – perguntou.

'Em algum momento no inferno, quando tirou Dean de lá, sua graça se fundiu com a alma dele, pelo menos uma parte dela... Suponho que você vai voltar para lá como um meio-humano, não teríamos como extraí-la do caçador, não vai ser possível, então... '

_Vou ser humano. – e sorriu, alegre, com certeza os irmão não iriam seguir seu caminho, afinal, eles não gostavam da humanidade em si, achavam que ela limitava.

'Sim. Parcialmente.' – Castiel olhou para os lados, pensando em como sair dali. – 'Obrigado, Castiel.'

_Pelo que? – perguntou, tornando a voltar para a silhueta brilhante.

'Me fez lembrar do porque ter criado os humanos.' – e então sumiu de seus olhos. – 'Segure-se bem em si mesmo, meu filho, a queda não vai doer, mas vai criar cicatrizes que não vão sumir, nunca. '

Deus! Aquele era Deus e ele entendia o porquê de estar voltando, ele aceitava e... Quase não podia acreditar. Fechou os olhos e sentiu como se seu corpo celestial estivesse de desmaterializando.

Estava voltando pra Terra, estava voltando para Dean.


N/a: A volta do Cas, o desconhecido que Sam ajudou no outro capitulo, Dean ainda transformado em mulher... Só não fiz nada com o Bobby! Uia, quando será que tudo isso vai se ajeitar?! Haha' Até o próximo =**