Esperanza y Corazón
Marina, você levou tudo consigo.
Capítulo I – Ato Reflexo
- MARINA!
Despertei como quem desperta do pior dos pesadelos ao ouvir a chuva bater contra a vidraça do meu apartamento. Mais uma vez sonhei que a tinha ao meu lado, sorrindo para mim daquele jeito matreiro, encarando-me com seus olhos que carregavam consigo toda a vontade do mundo de ser feliz, apesar de saber que seus dias estavam contados. Respirei fundo e engoli o ar em grandes arfadas enquanto me afogava em uma montanha de projetos de prédios nos quais eu estava trabalhando.
Em geral, o trabalho era a única forma que eu possuía de afastá-la de meus pensamentos, então quando começava a me desprender demais da realidade, me fixava o máximo que podia na intenção de evitar a loucura completa. Senti que minha cabeça latejava enquanto os flashes de meu sonho retornavam à minha mente. Seu sorriso estava tão impregnado em mim quanto o perfume de jasmins que eu ainda sentia embora ele só existisse agora em minha mente.
Com esforço, arrastei-me para fora da cama e olhei as horas no relógio de bolso que German havia me dado como último presente na última vez em que o vira, pois eu não suportava sua presença sem que você, Marina, estivesse ali. Estar ao lado dele era me lembrar de você, e eu simplesmente não podia conviver com essa dor, e nem ele. Decidimos, mesmo que por um voto mudo, que nunca mais nos encontraríamos novamente. E então ele me presenteou com esse relógio. Os ponteiros marcavam 10:25, mas o tempo chuvoso e frio fazia parecer que era mais cedo.
Fui para a cozinha e comecei a preparar o café enquanto descia as escadarias para recolher o jornal daquele dia. Passei os olhos rapidamente pelas notícias, mas nenhuma me chamou realmente atenção, então decidi que passaria aquele dia monótono em casa. Sua lembrança estava firme na minha mente hoje, e então me recordei que os piores pesadelos eram os belos sonhos em que eu estava ao seu lado, pois eu acordaria descobrindo que nada daquilo foi real.
Me servi de uma xícara fumegante de café e engoli dois comprimidos para a dor de cabeça com ele. Sentei-me no sofá e respirei fundo erguendo a cabeça para o alto, como se isso fosse ajudar a dor a passar mais rápido. Sacudi a cabeça e abri um sorriso de canto. Foi quando notei que ao lado da xícara de café, o cartão daquele estranho repousava.
Arqueei ambas as sobrancelhas e reli seu conteúdo, relembrando-me de suas palavras:
"Grandes esperanças"
Senti que meu coração se apertava e passei os dedos suavemente pela imagem do anjo impresso no cartão, igual aquele preso em sua lapela. Poderia ele te trazer de volta para mim, Marina? Poderia aquele homem ter tanto poder para isso? Sorri, me sentindo um verdadeiro tolo por acreditar naquilo, mas ao me lembrar de seus olhos dourados e afiados como os olhos de um felino, pareceu-me que ele seria capaz de fazer qualquer coisa.
Apertei os olhos ao sentir minha dor de cabeça tornar-se mais forte e respirei fundo. Acho que o desespero começava a tomar conta de meus pensamentos, pois nada mais em minha mente parecia coerente. Eu não era coerente. Mas me diga, Marina, o que você faria em meu lugar? Você me tinha tirado tudo aquilo no que acreditei, tirou-me sua presença, e levou com sua partida a minha alegria de viver.
Levantei-me do sofá e terminei a xícara de café encarando a chuva ao lado de fora. Será que você estava chorando? Eu realmente gostaria de saber.
Fui interrompido de meus pensamentos quando ouvi a campainha tocar. Levantei-me do sofá e fui até a porta, olhando através do olho mágico. Vi um garotinho encarando o olho com um sorriso banguela segurando uma carta. Abri a porta e inclinei-me na direção dele. Eu morava no andar de cima de uma loja de costuras na cidade de Barcelona que era dirigida por uma velha viúva que nada tinha de dócil ou gentil, mas que cobrava os olhos da cara pelo aluguel.
- Em que posso ajudar?
- Um senhor me pediu para entregar isso. – estendeu-me uma carta e imediatamente reconheci o anjo da lapela de Andreas Corelli como o selo daquela carta. Ainda estava quente.
- Onde ele está? – perguntei em tom quase desesperado, mas não o vi em lugar algum. O menino apenas balançou os ombros e estendeu uma das mãos, aguardando a gorjeta. Revirei os bolsos e dei-lhe algumas moedas ao que ele respondeu com um muxoxo.
Ignorei-o e entrei em casa, sentando-me novamente no sofá com o abridor de cartas em mão. Abri-a, violando o selo do anjo, que por algum motivo me incomodava tanto ou mais do que a presença daquele homem. Retirei dele uma carta e a entrada para um espetáculo em teatro que estaria apresentando naquela noite as 21:00, a Dama de Branco.
Caro amigo Drai, espero que tenha levado em consideração aquilo que lhe disse. Aprecie o espetáculo e pense a respeito após uma boa noite de diversão. Estarei na cidade pelos próximos três dias, tomando café diariamente no El Rei. E lembre-se: grandes esperanças o aguardam. Seu amigo e admirador,
A.C.
Larguei a carta sobre a mesinha sem sentir nenhuma melhora a respeito de minhas dores de cabeça e respirei fundo decidido a ignorar o convite dele para ver a tal dançarina. Nenhuma outra mulher me interessava que não fosse você, Marina.
Acabei adormecendo sem que percebesse e acordei pelo fim da tarde, ouvindo o telefone tocar. Arrastei-me até a mesinha onde ele estava, sentindo poucas melhoras.
- Alô? – murmurei sonolento.
- Drai, por onde você anda que eu não consigo falar com você homem? – a voz de meu chefe atravessou a linha e senti que batia em minha cabeça como se fosse um picador de gelo.
- Estive ocupado.
- Nós temos um prazo a cumprir na mansão Tibidabo, sabe disso?
- Não se preocupe, eu estarei aí amanhã as 14:00 com o projeto.
- Acho bom que não se atrase, Drai. Não se aproveite só porque tem um pouco de talento, entendeu?
Resmunguei qualquer coisa e desliguei o telefone esfregando as têmporas com as pontas dos dedos. Por sorte parte do projeto já estava feito e estava certo de que se virasse a noite poderia finalizá-lo.
Virei os olhos rapidamente pela mesa e o convite para o show daquela noite me atraiu pela segunda vez. Parei para pensar a quanto tempo não visitava um teatro ou saía de casa. Não me agradava, Marina, a ideia de ver outra mulher que não fosse você, mas imaginei que me distrair um pouco de todos aqueles pensamentos não faria mal algum. E talvez ajudasse com a dor de cabeça.
Fui até o meu quarto e separei meu melhor terno para a ocasião. Olhei-me no espelho e toquei meu rosto, onde uma vasta e falha barba negra tomava minhas feições. Perguntei-me quando havia deixado de me importar com a aparência, mas isso era óbvio. Desde que você não estava comigo. Sacudi a cabeça e fui até o banheiro onde tirei a barba com a navalha enquanto aguardava a banheira se encher com água quente. Tomei um longo banho como não fazia há tempos e quando saí de dentro d'água, meus dentes batiam de tanto frio. Coloquei os pés no chão e a sensação de gelidez me lembrou o toque da mão de Andreas Corelli. Engoli em seco e afastei esse pensamento enquanto me arrumava para a apresentação daquela noite, que eu não sabia se era de balé ou qualquer outra coisa.
Paguei um táxi até o endereço impresso na entrada e quando estava por descer o motorista me abordou.
- Quer que eu o aguarde, senhor?
- Não é preciso. – respondi a ele.
- Tome cuidado, essas ruas são perigosas de noite.
Acenei com a cartola que usava na cabeça para a ocasião e voltei-me na direção do teatro. Era tão grande e majestoso quanto a mansão em que eu trabalhava. Fui caminhando para dentro e uma mulher sorridente me recepcionou.
- O senhor gostaria que eu guardasse seu casaco?
Acenei que sim com a cabeça e entreguei a ela o casaco enquanto adentrava o teatro. Suas instalações eram completamente feitas de mármore e haviam poltronas vermelhas na recepção para aqueles que quisessem aguardar o espetáculo.
- Gostaria de alguma bebida enquanto aguarda o espetáculo? – a mesma prestativa funcionária me perguntou.
- Uma dose de whisky seria perfeito. – sorri de volta para ela e alguns minutos depois retornava com minha bebida.
Aproveitei o sabor amargo do whisky enquanto aguardava o horário da apresentação. A mulher então me indicou o caminho e segui para o auditório onde tudo estava escuro demais para eu saber se estava sozinho ou não. Sentei-me no lugar indicado no bilhete e aguardei que as cortinas se erguessem.
Em poucos minutos o espetáculo se iniciou. As luzes eram fracas e de início impediam que o rosto da dançarina fosse vista. Ao que o cenário indicava, ela era uma jovem que fora amaldiçoada sem nunca poder ter ninguém ao seu lado, pois todas as pessoas que se aproximavam dela eram maculadas por uma terrível doença que as matava de maneira lenta e dolorosa. Sendo assim, ela passou todos os cinco atos lamentando-se de sua maldição até que finalmente no último ato ela jogar-se-ia do alto de uma ponte, e no momento em que estava no topo desta no cenário eu vislumbrei seu rosto.
Senti que o tempo parava quando seus olhos cinzentos me encararam pela primeira vez desde o início do espetáculo. Eram os olhos, que mesmo sendo as únicas partes visíveis de seu rosto por causa da maquiagem que me fizeram reconhecer quem era. Era você, Marina, eu tinha certeza disso.
Meu coração batia fortemente no peito e quando se jogou da suposta ponte, todas as luzes se apagaram.
- NÃO! – estendi uma das mãos naquela direção e tropecei desajeitado sobre um senhor que estava na minha frente, mas não tinha tempo para pedir desculpas.
Fui me guiando através do tato até encontrar o palco e subi nele, atravessando as cortinas que me separavam de você. Vi os corredores que levavam até o camarim e a acompanhei com os olhos até uma porta onde desapareceu. Avancei desesperado naquela direção e parei diante da porta, sentindo que meu corpo todo estremecia com a adrenalina; eu suava frio.
Fiquei o que me pareceu uma eternidade encarando a porta pela qual a dançarina havia passado, descrente no que vira. Seria mesmo você, Marina? Estava indeciso quanto ao que fazer quando a porta se abriu e revelou-me um quarto escuro. Naquela penumbra, enxerguei apenas a cama de casal em seu centro e fui guiado pela mão gélida daquela que até então estava no palco. Não me disse nada, mas quando senti seus lábios se colarem aos meus a sensação de choque térmico espalhou-se por meu corpo como na vez em que lhe beijei pela primeira vez.
- Marina...? – murmurei bem baixinho com medo de que aquele momento se desfizesse como tantas vezes ocorreu em meus sonhos.
Tocou meus lábios como um sinal para que me silenciasse e beijou-me a boca com cuidado, guiando-me para a cama. Aos poucos foi me despindo e eu a despi das vestes de dançarina sentindo suas mãos gélidas percorrerem minhas costas e arranhando-as de leve. Meu corpo todo estremecia e sentia que era como se fosse a primeira vez que me deitava com uma mulher.
A beijei e a possui com um desejo que jamais tive com nenhuma outra. Minha Marina, meu primeiro e único amor.
Aos poucos fui embalando no sono com sua cabeça apoiada em meu peito e adormeci como há muito não fazia. Naquela noite, não tive sonho algum, apenas a sensação de paz de quem estava realizado.
Despertei na manhã seguinte empapado de suor e com o sol batendo fortemente contra o meu rosto. Olhei ao redor desesperado por não vê-la e então notei que não estava no local onde dormira na noite passada, mas sim em meu apartamento e devidamente vestido com meu terno. Apertei os olhos fortemente, sentindo a cabeça doer como se tivesse bebido sozinho uma garrafa de vinho e respirei fundo. Como eu temia, tudo aquilo não passara de um sonho. Levantei da cama e arrastei os pés para sair do quarto tirando a camisa quando notei em minhas costas fortes arranhões. Os arranhões que você, Marina, havia deixado em mim.
Havia sido real, não era apenas mais um sonho. Aqueles arranhões não surgiriam ali sozinhos, eu tinha certeza disso. Não sabia como, mas de alguma forma, você havia aparecido para mim na forma da Dama de Branco.
Era isso. Naquele momento decidi que ouviria a proposta de Corelli. Eu precisava tê-la de volta para mim, Marina, não importava quão grande fosse o preço.
N/A:
Então, já faz muito tempo que eu não posto nada, inclusive essa fic, mas como minha inspiração voltou eu decidi que retornaria para ela. Eu perdi o contato com tudo e com todo mundo, eu fiquei relapsa daqui e eu sequer sei se você ainda usa o mesmo e-mail, pp, mas eu espero que sim. Crie um maldito facebook para podermos conversar, porra.
Sinto sua falta... e de tudo o que a gente foi.
