Capítulo II: "Confirmando e duvidando"
Sora estava quase caindo no sono quando a porta do quarto se abriu. Já era manhã e ele nem ao menos pregara os olhos. E só podia ser culpa daquele Yoru!
Sentou-se na cama, vendo que Sunao tirava umas peças de roupa do armário. Era domingo, e além disso eles não tinham nenhum trabalho para fazer, até onde Sora sabia. Aonde Fujimori estaria se preparando para ir?
- Ei Fujimori... - começou, não evitando um grande bocejo. Coçou os olhos. - Você não precisava ter saído daqui. Eu nem dormi no fim das contas, não ia... acontecer mais nada.
Sunao voltou-se para ele, com ar de pouco caso.
- Quem disse que eu saí por causa... daquilo?
- Oras! Eu só pensei que...
A porta se abriu e um sorridente Honjou Matsuri entrou por ela.
- Bom dia!!!!!! Veja Nao-kun, você esqueceu seu travesseiro no meu quarto. - foi até a cama do amigo e deixou o travesseiro lá. - Que péssima cara, Sora!
Num instante, Sora viu o flash da câmera explodir na sua cara.
- Pensem como os garotos do colégio não adorarão ver Hashiba Sora logo ao acordar! - comentou o loiro com um sorriso.
- Você não dá um tempo com essas fotos, Matsuri! - Sora levantou-se emburrado.
Ainda sem dizer palavra, Sunao fechou a porta do guarda-roupa e entrou no banheiro para trocar de roupa. Definitivamente, estava evitando os olhares de Sora sobre seu corpo. Não que Sora fosse pervertido como Yoru mas...
Matsuri sentou-se na cama de Sora, observando o que acontecia, divertido.
- E você, Matsuri-chan... não me diga que veio trazer algum serviço para nós!
- Bingo! - exclamou, contente. - Na verdade, este é só para você. Nao-kun está de folga hoje.
Sora cruzou os braços.
- Sempre sobra para mim!
Matsuri sorriu. Nesse momento, Sunao saiu do banheiro, já vestido com uma calça jeans e uma blusa de moletom e com os cabelos presos em uma fita branca. Acenou para os amigos.
- Bom trabalho para você, Hashiba. - deu um risinho debochado e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
- Esse Fujimori! - Sora fechou os punhos. - E ainda age assim, como se eu tivesse alguma culpa.
Matsuri fitou o amigo misteriosamente.
- Talvez você tenha. - comentou, sério. - Mas como íamos falando, o trabalho é bem simples! Você só precisa acompanhar o Gaku e ajudá-lo a escolher um presente.
- Ichikawa?
- Exato! Agora ande logo, ele deve estar te esperando!
Matsuri caminhou até a porta, mas antes de sair ergueu a câmera de novo, tirando mais uma foto de Sora.
- MATSURI!!!!!!
oOo
- Shinichirou, você não acha que deveria descansar um pouco? É domingo e--
Nanami quase deixou o prato cair no chão, chocado com a bagunça no meio da qual Shinichirou se encontrava. Livros, cadernos, canetas, provas dos alunos... tudo espalhado pelo chão ao redor dele. Na verdade, quase não se podia encontrá-lo no meio de tamanha confusão.
- Sinceramente, Shinichirou! Quando você vai aprender a ser mais organizado? - balançou a cabeça, dando as costas a Minato antes que ele pudesse responder. - O almoço está pronto, se quiser venha comer na sala.
Nanami estava indo até a sala quando o interfone tocou. Atendeu.
- Nanami-chan? Sou eu, Sunao.
- Ah, Fujimori-kun! Pode entrar.
Minutos depois o garoto adentrava o apartamento, ao mesmo tempo que Shinichirou vinha para a sala, resmungando.
- Quem era, Nanami? Não me diga que aquele Soushi resolveu nos importunar em pleno... ah! É você, Sunao.
- Puxa, que bom que eu não sou o Soushi-san. - Sunao sorriu. - Olá para você, nii-chan.
Shinichirou acenou, desabando no sofá, com um suspiro. Nanami, que até então olhava reprovadoramente para o noivo, voltou a sorrir.
- Aceita almoçar conosco, Fujimori-kun? Aliás, por favor, sente-se.
Sunao agradeceu, recusando o almoço e se sentando. Logo estavam todos acomodados e ele se preparava para dizer o que o levara até ali. Sabia que os adultos já haviam percebido que algo estava errado. Por que outro motivo ele apareceria ali num domingo, sem mesmo estar acompanhado por Sora?
- Aconteceu alguma coisa entre você e Hashiba-kun? - perguntou Nanami, sempre com seu sorriso bondoso e o olhar sábio.
- Ahm... eu acho que... - Sunao abaixou a cabeça, a franja ocultando os olhos mas não a face que corara levemente. - Yoru e Ran voltaram.
O casal não conteve sua surpresa.
- Voltaram?! - exclamou Shinichirou, encarando-o com ar de preocupação. - Mas... isso tudo não tinha a ver com Aizawa? Ou poderia ser que...
- Nagase Kai? Não, eu já pensei nisso, mas não acredito que ele tenha dado continuidade àquelas experiências. Na verdade atualmente ele está muito mais bonzinho.
- Nesse caso, o que poderia ser? Você viu Yoru? Tem certeza de que ele e Ran retornaram?
Nanami apenas ouvia, agora com expressão séria. Analisava a situação, já chegando a mesma conclusão a que Sunao chegara. A diferença era que Sunao sabia o quanto seus sentimentos poderiam estar influindo no retorno de Ran.
- Como eu disse, eu acho que eles voltaram. Aconteceu algo semelhante a quando eu voltei a morar no dormitório. - ele corou novamente. - Eu tenho quase certeza sobre Ran, mas não vi Yoru.
- E quanto ao Sora? Por quê ele não veio com você?
- Ele não sabe que eu vim. E também, ele tinha um trabalho para fazer.
Shinichirou cruzou os braços e balançou a cabeça.
- Vocês ainda com esse "Fazemos Qualquer Negócio"?
Sunao encolheu os ombros, com um ar de "fazer o quê!".
- Por que você não conversa com Hashiba-kun a respeito? - disse Nanami finalmente. - Acho que vocês dois poderão resolver a situação muito bem.
Sunao ficou calado. Não era bem a solução que ele queria, pois não sabia como falar sobre aquilo com Sora. Claro que Hashiba era tonto demais para perceber que tudo aquilo estava ligado aos próprios sentimentos! Não seria de se espantar se ele nem associasse o que acontecera a Yoru e Ran.
Shinichirou se levantou. Já terminara sua refeição.
- Você está de folga hoje, Sunao?
- Sim.
- Bem, então não terá problema em me ajudar a arrumar umas coisas...
- Mas Minato-sensei!
- Mas nada. Lembre-se de que eu sou o supervisor do "Fazemos Qualquer Negócio".
Sunao suspirou e levantou-se também, resignado. Ele e Sora nunca deviam ter aceitado participar dessa associação idiota com Matsuri-chan!
oOo
Sora e Ichikawa tomavam chá, sentados na mesa da praça de alimentação. As ruas estavam bastante movimentadas naquele dia, parecia que todos haviam resolvido fazer algo num domingo tão bonito. Já haviam comprado o tal presente, mas no fim das contas Gaku escolhera sozinho, Sora se sentira até mesmo inútil.
- Ichikawa... para quem é esse presente?
Gaku ergueu o olhar da latinha de chá de morango com leite. Seus olhos brilhavam.
- Para quem? Claro que para o buchou! - balançou a cabeça. - Essa minha mania! Melhor dizendo, é para o Kai-chan.
"Kai-chan"? Sora olhou um pouco confuso para o amigo. Pelo visto as coisas estavam mesmo sérias entre ele e o professor. Nagase Kai. De repente, foi como se caísse a ficha para Sora. Será que o filho de Aizawa tinha algo a ver com a reaparição de Yoru e Ran?
- Ei, Ichikawa...
- Hum?
- An... nada.
Não poderia perguntar aquilo ao amigo. Talvez fosse melhor falar com o nii-chan primeiro.
"Se acontecer qualquer coisa, fale com Shinichirou ou comigo."
Lembrou das palavras de Nanami e decidiu que era isso que faria. Sorriu para Ichikawa.
- No fim eu nem te ajudei em nada ne? - suspirou e bebeu mais um gole do chá.
- Não diga isso, Sora-senpai! Você me fez companhia, eu agradeço muito! Além disso, eu meio que já sabia o que compraria para o Nagase. - disse com um ar apaixonado.
Puxa, então as coisas estavam realmente sérias. Sora ficou feliz pelo amigo. Há tempos ele alimentava aquela paixão pelo sensei.
- Nah Sora-senpai, por quê você não compra algo para o Fujimori-senpai também?
Sora quase engasgou com o chá.
- Para o Fujimori?! Por quê eu compraria algo para ele? - indagou, vermelho.
- Oras, é que eu pensei que vocês também...
Sora ficou ainda mais vermelho. Olhava para todas as direções, tentando esconder seu embaraço.
- Bem, que tal irmos nessa? Pegamos o trem que sai daqui a vinte minutos!
- Certo!
oOo
Quando Sunao se despediu de Nanami e Shinichirou, foi com alívio que o fez. Para quem deveria estar de folga, ele trabalhara mais do que desde quando Matsuri fundara o "Fazemos Qualquer Negócio". Preferia se vestir de princesa de novo e ser perseguido pelo colégio inteiro do que ter de ajudar Shinichirou a organizar aquela bagunça.
Ainda estava saindo pela portaria quando viu Sora se aproximar. O que estaria ele fazendo por ali? Pelo visto o trabalho dele fora bem mais fácil dessa vez. Parou e esperou o amigo se aproximar mais, para saber o que ele queria ali. Mas quando Sora se aproximou, a ponto de ficar a menos de um palmo de distância, ele soube que não era Hashiba. Era Yoru.
- Por que esse rostinho assustado? - Yoru segurou-lhe o queixo, erguendo o rosto para si. - Eu não pretendo fazer nada a você e nem com você. Agora, deixe-me ver Ran.
- Yoru, por quê vocês voltaram?
- Ainda não é óbvio para você? Eu senti saudades dele. - deu aquele sorriso atrevido e se inclinou, roçando os lábios de leve no pescoço de Sunao. - Ande, Ran. Temos uma tarde toda só para nós dois.
- Pare, Yoru! - Sunao tentou empurrá-lo, mas foi envolvido num abraço forte.
- Yoru... por quê você insiste em agarrar o Sunao?! Idiotaaaaaa! - Ran afastou-o e deu-lhe as costas.
Yoru se aproximou de seu amado, enlaçando-o pela cintura.
- Você não entende que eu só faço isso para ver você? Aquele Sunao não tem importância nenhuma para mim, só para o Sora. É você quem eu desejo, Ran.
Ran virou-se devagar, sem se desvencilhar de Yoru. Olhou para ele com os olhos cor-de-rosa cintilando.
- Mesmo, mesmo?
Yoru assentiu, olhando intensamente nos olhos de Ran. Foi aproximando os rostos pouco a pouco e então beijou-o.
Aquela boca na sua, isso era bom e era nostálgico e ainda que as lembranças o fizessem sentir culpado, ele só conseguia pensar que naquele momento, com propósitos ruins ou não, ele realmente o amara. Seu amor de infância... Kuu-chan...
- Kuu-chan... - sussurrou quando sentiu os lábios se afastarem do seu e então abriu os olhos.
- Aconteceu de novo, Fujimori? - perguntou Sora, ainda atônito pela forma com que Sunao reagira ao beijo.
- Hunft.
Sunao apenas saiu andando, como sempre fazia quando estava irritado com Sora.
- Espere, Fujimori!
E eles voltaram para o dormitório, sem se falar pelo resto do caminho.
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