Capítulo III: "Fugindo dos sentimentos"

A segunda-feira no colégio estava correndo normalmente. Sunao ainda continuava ignorando Sora, mas não tanto quanto no dia anterior. Matsuri estava fazendo o possível para que os amigos se falassem, mas eles nem mesmo tiveram muito tempo para isso. Na hora do intervalo, comeram rapidamente no refeitório e então Matsuri foi o primeiro a se levantar.

- Parece que temos um cliente, então eu como gerente do "Fazemos Qualquer Negócio" vou fazer as negociações! Até mais! - acenou com um sorriso e saiu andando.

- É tão conveniente como ele só faz as negociações. - reclamou Sunao, se levantando. - Eu vou à biblioteca.

Sora deu um aceno, preparando-se para levantar também. Já que acabara não falando com Shinichirou e Nanami, decidiu ir a enfermaria. Yoru e Ran não haviam despertado na noite passada e tampouco ele e Sunao haviam conversado a respeito daquilo. Talvez os dois não voltassem a aparecer, mas por via das dúvidas era melhor conversar com Nanami.

No caminho para a enfermaria, ele esbarrou com Shiina.

- Shiina? O que está fazendo por aqui?

- Nada! - respondeu o garoto rapidamente. - Tchau!

Acenou e saiu em disparada.

"Ahn?", Sora olhou confuso vendo o chibi desaparecer no fim do corredor. "Essas crianças!"

Quando entrou na enfermaria, Nanami parecia aguardá-lo. Entretanto, disse:

- Hashiba-kun! Por um acaso está machucado ou doente?

- Não, não é isso. - acenou, mostrando que estava tudo bem. - Eu queria conversar com você...

- Ora, sente-se aqui! - puxou uma cadeira. - Sobre?

Aquele sorriso que parecia estar sempre no rosto de Nanami e o jeito delicado e doce de lidar com as pessoas que só ele possuía tornava mais fácil conversar com ele. Mas se tratando daquele assunto, Sora ainda ficou um pouco sem jeito para começar.

- Eu acho que o Fujimori já contou para você e para o nii-chan que... parece que Yoru e Ran voltaram a aparecer.

- Sim, ele contou. - Nanami incentivou-o a continuar. - E você tem idéia do por quê, Sora?

- Bem... eu cheguei a pensar que Nagase Kai pudesse estar ligado a isso, mas não acho realmente. Não vejo outro motivo para eles despertarem mas... - corou.

- Mas? - sorriu, esperando.

- Na última vez em que Yoru despertou, quando eu saí do hospital sabe, antes de ir resgatar Fujimori no prédio do laboratório... bem... ele disse que havia se apaixonado por Ran.

Nanami pareceu surpreso, mas não disse nada.

- Então eu pensei que talvez... eles pudessem ter retornado para ficarem juntos. - ele estava tão vermelho quanto podia estar ao dizer aquilo.

- É uma possibilidade. Você já falou com Fujimori-kun a respeito?

- Não! Aquele Fujimori está me ignorando por isso! Como se eu tivesse culpa... - resmungou, ficando emburrado.

Ficaram algum tempo em silêncio, enquanto Nanami parecia pensar.

- Você e Fujimori-kun sempre foram muito amigos, vocês e Honjou-kun. E vocês dois criaram Yoru e Ran para suportarem as coisas que passaram, não foi mesmo? Eu acho que vocês têm um laço muito forte. - ele olhou para Sora, incerto sobre fazer a pergunta diretamente. - O que o Fujimori-kun representa para você, Sora?

A pergunta pegou Sora despreparado. Isto é, ele considerava Sunao e Matsuri grandes amigos, mas bem em seu íntimo sabia que havia algo mais com relação a Sunao. Só que ele não sabia lidar muito bem com isso e o amigo parecia estar sempre fugindo. Na verdade, eles tentavam ignorar o que acontecera e acontecia. Talvez para Yoru e Ran fosse bem mais fácil lidar com aquilo.

- Eu... - começou e então finalmente percebeu que o retorno de seus alter-egos poderia estar relacionado àquilo. - Bem, o Fujimori é... um grande amigo para mim.

Ele e Nanami sabiam que não era só isso, mas o mais velho apenas sorriu e assentiu com a cabeça. Antes que pudessem continuar com o assunto, Shinichirou adentrou o aposento.

- Sora! Monopolizando o Nanami é? - aproximou-se com um olhar feroz, mas então abriu um sorriso que seus alunos não costumavam ver. - Quando precisar pode me procurar também, você sabe.

- Eh!? Sem chances! Você é sempre muito malvado quando está aqui no colégio, nii-chan! - reclamou Sora.

Shinichirou deu-lhe uns cascudos, brincando feito criança com Sora.

- Isso é para manter o respeito entre os alunos! E é bom você não abusar!

- Hunf!

Ouviram o sinal indicando o fim do intervalo soar.

- Bem, estou indo então! Obrigado, Nanami-chan.

Nanami fez um gesto com a mão, querendo dizer que não tinha de quê. Sora acenou despedindo-se e saiu da enfermaria.

- E então? Acha que pode estar acontecendo algo sério? - perguntou Shinichirou, encarando Nanami seriamente.

- Não dessa vez. - sorriu. - Agora é algo que só eles poderão resolver. Isso é... vamos dar uma mãozinha. Tudo certo?

Shinichirou assentiu.

- Ah, Nanami! Agendei para irmos aquelas fontes termais no fim de semana. Dessa vez, sem o Soushi e aquele bando de--

- Oh, perfeito! Vamos chamar os meninos, pode ser uma boa oportunidade para eles, sim?

Shinichirou apenas assentiu e suspirou. Lá se ia seu passeio a dois, de novo.

oOo

Quando as aulas terminaram naquela tarde, Sunao estava livre para voltar ao dormitório e Sora, incumbido de mais um trabalho arranjado por Matsuri. Desta vez, teria de ajudar uns alunos do clube de artes marciais a carregar seus materiais de treino, o que incluía tatames e outros objetos pesados. Hashiba se despediu dos amigos praguejando. Matsuri por sua vez disse que não poderia acompanhar Sunao na volta pois tinha uns assuntos a resolver, o que fez com que cada um tomasse um rumo diferente.

Sunao seguia solitário, ainda com aqueles pensamentos a respeito do retorno de seus alter-egos rondando sua mente quando foi abordado pelos chibis. Sei, que carregava um pacote colorido amarrado por uma fita vermelha, adiantou-se para ele.

- Isto é para você! - estendeu o pacote para Fujimori, enquanto Shiina e Kitamura assentiam com a cabeça.

- Para mim? Mas... - Sunao aceitou o presente um pouco hesitante. - não é meu aniversário e...

- Mas é para você! - reforçou Shiina.

- Obrigado. - agradeceu um pouco confuso. - Vocês são muito gentis.

- Só estamos cumprindo o pedido do nosso cliente! - disse Kitamura, aparentemente a contragosto.

- Que cliente? - perguntou Sunao, imaginando quem iria lhe dar um presente sem motivo.

- O Sora-niichan! - exclamou Sei e voltou-se para os amigos. - Vamos ou vão brigar com a gente por estarmos atrasados!

Os outros dois concordaram e eles acenaram para Fujimori, afastando-se rapidamente.

"Presente para mim? E do... Hashiba?", sentiu as faces quentes e balançou a cabeça, irritado por estar corando. "É óbvio que deve ser um engano. Ele jamais faria uma coisa dessas, nem mesmo se fosse meu aniversário!"

Continuou andando, segurando o pacote sem mesmo ver o que havia dentro. Como assim, um presente de Sora? Podia ser algo do Yoru para o Ran. E era só o que faltava, envolver os chibis nisso!

oOo

Sunao estava segurando o bichinho de pelúcia, sentado de pernas cruzadas em cima de sua cama, quando a porta se abriu e Sora entrou por ela, com ar cansado.

- Aquele Matsuri! Por que os trabalhos difíceis sempre são para mim? - jogou-se de costas na cama, com os braços abertos e então levantou-se de súbito, olhando para Fujimori. - O que você fez com o Toshizou?!

- Idiota. - Sunao agarrou mais o elefante de pelúcia azul. - Esse não é o Toshizou.

Sora olhou do bichinho de pelúcia nas mãos de Sunao para o seu, que estava intacto em cima da cama.

- Esse é o Kuma-kun. - completou Sunao.

- Kuma?! Mas ele não é um urso, é um elefante!¹

- Eu sei disso! - replicou Fujimori irritado. - Idiota.

Sora deu de ombros e voltou a se deitar, com os braços sob a cabeça, enquanto fitava o teto sem dar atenção a ele.

- Ei, Fujimori...

- O quê? - replicou num resmungo.

- Eu estive pensando... sobre o que aconteceu quando eu saí do hospital... aquela vez, você sabe, quando... bem, sobre aquilo que fizemos na escola.

Sunao fingiu que não sabia do que ele falava e não respondeu.

- Nós nunca mais tocamos nesse assunto, mas... - Sora prosseguiu, ainda mais hesitante e tímido. - eu estive pensando e eu acho que eu... eu gos--

- Eu estou atrasado para o encontro com o grupo de estudo!

Num salto, Sunao levantou-se da cama, pegou sua mochila e acenou rapidamente para Sora, irrompendo quarto afora.

- Eh...?! - Sora ergueu-se e olhou para a porta que acabara de ser fechada. - E agora isso!

oOo

Não havia nenhum grupo de estudo e se Hashiba fosse esperto, saberia que Sunao não participava desses grupos, apenas do clube de teatro. Mas dificilmente ele se daria conta, não era mesmo? Por que ele era um idiota! E o que fora aquilo que ele tentara dizer antes? Estivera prestes a se confessar para Sunao?

Fujimori se recostou a uma das árvores por onde passava e suspirou. O que ele teria feito se Sora houvesse confessado seus sentimentos? Ah, mas que tolice imaginar isso! Era óbvio que Hashiba estivera prestes a dizer qualquer outra bobagem! Ele era idiota demais para confessar, idiota demais para perceber os sentimentos de ambos. E Yoru e Ran estavam se aproveitando da situação, não estavam?

Ficou vagando pelos arredores do dormitório, sem ser capaz de parar de pensar em tudo aquilo que dizia respeito a ele e Sora. Quando já começava a escurecer, resolveu retornar. Aproximava-se do prédio quando viu Nagase Kai e Ichikawa se despedindo. Esperou que os dois se afastassem e quando a entrada parecia vazia ele seguiu em frente. Ainda observou por uma fração de segundo o caminho que Nagase tomara, pensando no rumo que as coisas haviam tomado. Um final feliz, afinal. Na verdade, um capítulo concluído. Para ele ainda haviam páginas a serem preenchidas e Sora não estava ajudando nem um pouco. Hashiba idiota!

Quando finalmente chegou no quarto, Sora estava no banheiro. Trocou de roupa rapidamente e deitou-se, virando-se para a parede. Iria fingir que estava dormindo até conseguir cair no sono de verdade.

oOo

Sora saiu do banheiro e notou com surpresa que Fujimori já estava dormindo. Ficou um momento parado no meio do quarto, observando o amigo, então voltou-se para sua cama, decidido a dormir também.

Porém quando ia dar o primeiro passo em direção a cama, algo o fez parar.

Yoru despertara.

oOo

- Ran...?

Os olhos cintilantes voltaram-se num instante para ele. Aquele sorriso contente desenhou-se no rostinho delicado e infantil.

- Você veio, Yoru... - jogou os braços em torno do pescoço dele. - Obrigado pelo presente. Era para mim, não era?

- Presente?

Ran apontou para o elefante de pelúcia azul.

- Não fui eu quem comprei. Nem o Sora.

Os olhos cor-de-rosa demonstraram que Ran não havia entendido.

- Estão tentando uní-los, assim como nós.

- Mas Yoru, se eles ficarem juntos, será que nós poderemos nos ver? - os olhos grandes e brilhantes ficaram rasos de lágrimas.

Yoru segurou a mão de seu amado, entrelaçando-a na sua. Deu um sorriso.

- Não foi assim no começo? Nós quatro faremos um acordo e tudo ficará bem.

Ran abraçou-o pela cintura, puxando o corpo que o cobria contra o seu.

- Eu queria poder estar com você sempre, Yoru. Queria que esses corpos fossem apenas nossos!

A voz manhosa com que Ran proferiu as palavras encantou Yoru. Antes de responder, ele deslizou a boca devagar pelo pescoço de Ran, fazendo-o corar e deixar escapar um longo suspiro.

- Não vamos pensar nisso agora.

Sora e Sunao não despertaram naquela noite, que pertenceu apenas a suas outras metades.

oOo

1) Kuma significa urso em japonês.