Capítulo IV: "Ignorado"
- Kuu-chan... - ele quase aconchegou-se mais aos braços que o envolvia, mas então algo veio em sua mente e acordou-o de vez. - Ha... shi... ba... MALDITO!!
Quando ele abriu os olhos, estava no chão. E o corpo doía todo daquela queda e do soco que levara.
- Eh!? Que diabos...
Ainda no chão, enrolado no lençol que o acompanhara para ali, ele ergueu os olhos para Sunao, que saía da cama com ar de revolta.
- Não fique com essa cara de idiota aí ou vai se atrasar para a aula. - resmungou e adentrou o banheiro com algumas roupas no braço, fechando a porta com força em seguida.
- Idiota nada... - murmurou Sora, se levantando entre gemidos de dor.
Ele ainda vestia o uniforme do colégio quando Sunao saiu do banheiro, já pronto. Pegou seus materiais e saiu quarto a fora, sem dizer palavra. Começava mais um dia de poucas palavras entre os dois.
"E a culpa nem é minha!", pensava Sora, sem conseguir entender a atitude de Sunao.
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Durante o trajeto para a escola, as aulas e o resto do dia, o pensamento não lhe saía da mente.
"Não fui eu quem comprei o presente. Nem o Sora."
- Claro que ele não me daria um presente nem mesmo com motivo para isso! Ele é um idiota! Idiota, idiota, idiota!
- Falando sozinho, Nao-kun?
- Hm... não... não é nada.
- Você sabe que ele sempre foi muito desligado ne? Talvez seja melhor que você diga, não?
- E-eh... do que está falando, Matsuri-chan?! - olhou para o lado e fez-se de desentendido.
- Bem, mas isso não é da minha conta não é mesmo? - Matsuri sorriu. - O que eu vim dizer é que o Minato-sensei pediu que você vá a sala dele depois das aulas.
- O nii-chan pediu? Mas... o que ele quer comigo?
- O quê? Hm... - o loiro coçou o queixo, fazendo um ar pensativo. - eu acho que ele disse algo sobre precisar de uma ajuda para organizar alguns materiais... bem, eu tenho de ir! Ainda preciso vender umas fotos do Sora antes do intervalo acabar!
Matsuri se afastou rapidamente e Sunao permaneceu ali sentado na grama, vendo o amigo se afastar.
- Hunf! Quem iria querer as fotos daquele idiota?
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- ... e desde então, ele nem me olha na cara. Sinceramente, eu não entendo aquele Fujimori! O que você ac-- ... Ichikawa?
Sora quase caiu ao notar que o amigo não estava lhe dando a mínima atenção. Ambos estavam no laboratório de Química, diante da janela. Lá embaixo podiam avistar vários estudantes e... Nagase Kai.
- Kai-chan! Aliás... buchou! - ele olhou para Sora. - Sabe ne, ele me pediu para manter as formalidades aqui na escola! Será que ele já está vindo para cá?
Gaku estava quase dançando pela sala enquanto seus olhos brilhavam. Pelo visto, ele não ouvira uma palavra do que Sora dissera.
- Aliás, o que você tinha dito mesmo, Sora-senpai?
É, ele realmente não ouvira uma palavra sequer.
- Ahn... nada demais. Bem, é melhor eu ir. O intervalo já vai acabar.
Gaku acenou brevemente, já voltando a atenção para Kai. Sora saiu da sala se sentindo um pouco solitário. Por que era tão ruim que Sunao o ignorasse? Por que nos últimos tempos havia aquela pontada incômoda dentro de seu coração, lhe dizendo que havia algo diferente? Por que estava pensando com mais freqüência naquele dia em que ele e Sunao... naquele dia em que ele soubera seus reais sentimentos.
Sunao sempre fora mais especial, não era mesmo? Mas por que ele não deixava Sora se aproximar? Por que ambos continuavam usando Yoru e Ran como refúgio?
Sora se aproximava da classe quando o sinal indicando o fim do intervalo tocou. Quando ele entrou na sala, Sunao já estava lá e ele passou propositalmente pela carteira do amigo, esperando que este já não estivesse mais com raiva. Mas Sunao desviou o olhar para a janela, ignorando-o deliberadamente.
E a culpa era só dele, por um acaso?
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No caminho para casa, Matsuri só observava o amigo, que se mantinha calado e com ar de mau humor. Já se aproximavam do dormitório quando finalmente Sora abriu a boca e perguntou:
- Aonde... foi o Fujimori?
- Ah, o Minato-sensei queria a ajuda dele para organizar algumas coisas. - abriu um sorriso insinuante. - Preocupado, Sora?
- Não! - replicou logo. - Eu só achei que ele... já não quisesse nem andar perto de mim. - as últimas palavras saíram num murmúrio.
- Vocês... quando vão deixar de bobagem e assumir o namoro? - o loiro riu.
- MATSURI!!
- Ei, brincadeirinha!!
Logo estavam diante de seus quartos e Matsuri acenou logo dizendo que tinha alguns negócios para tratar. Sora deu de ombros e abriu a porta do próprio quarto, deparando-se com o aposento vazio.
"Será que o Fujimori vai demorar?", pensou e sentou-se na cama, com um suspiro.
Nos últimos dias, não ter a companhia de Sunao era muito incômodo. Ele sentiu-se pequeno e solitário no cômodo silencioso. Não suportou ficar ali e logo saiu novamente. Talvez fosse melhor dar um passeio pelos arredores. Quem sabe quando Nao retornasse, já estivesse de melhor humor e parasse de ignorá-lo.
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Desgastante era pouco para definir o que ajudar Shinichirou na arrumação de sua sala era. Quando Sunao saiu do colégio já era fim de tarde e ele estava exausto. Os trabalhos pesados geralmente eram do Sora, por que daquela vez tivera de ser ele o escolhido? Talvez Shinichirou o estivesse vigiando, achando que o retorno de Yoru e Ran fosse devido a uma nova trama vingativa da parte dele.
Fácil seria se ele algum dia houvesse odiado Hashiba de verdade. Mas até mesmo o ódio fora uma ilusão que protegera o que ele sentia de verdade. E Ran protegia seus sentimentos. E ele não iria admitir que mais do que nunca, queria seu amado Kuu-chan novamente.
Por que Hashiba sempre seria um tonto! E aquele maldito presente que ele amara tanto não fora comprado nem mesmo por Yoru!
Sora andou sem rumo até quando já começara a anoitecer. Ainda não conseguira entender o que se passava na cabeça de Sunao e tampouco na sua própria. O re-despertar de seus alter egos havia causado uma confusão completa. Novamente, ele sentia medo de dormir simplesmente porque não sabia se acordaria na própria cama ou na de Fujimori – e na situação mais embaraçosa possível.
Yoru representava sua válvula de escape, mas não era muito eficaz. Aquela outra personalidade tinha vida própria e junto a Ran, era imprevisível. Se ao menos ele soubesse com certeza a razão daquele outro lado estar de volta com aquela freqüência assustadora! Era tudo muito complicado e dava um nó em sua cabeça. Crescer era muito problemático, talvez fosse bom se ele pudesse ser criança de novo.
Porém, ele sabia que não era tão interessante assim voltar a ser criança. O episódio ocorrido nas fontes termais² ainda o amedrontava. Bem, que as coisas continuassem como estavam. Uma hora talvez Yoru cansasse e desaparecesse de novo.
A noite estava vindo e já era momento de enfrentar mais uma noite mal-dormida e cheia de preocupações. Onde e como ele acordaria na manhã seguinte?
Chegou ao dormitório e observou com uma pontada de decepção que Sunao já estava deitado e as luzes estavam apagadas. Quando as acendeu, percebeu que Fujimori ainda não dormia realmente.
E que o elefante de pelúcia azul estava jogado na lixeira.
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2) Referência ao ova (epi 13) de Sukisyo.
