Capítulo VI: "Réplicas?!"
O fim-de-semana havia sido maravilhoso e infelizmente, parecera durar muito pouco. Mesmo assim, todos aproveitaram ao máximo o conforto e a diversão das fontes termais e retornaram sentindo-se revitalizados.
A segunda-feira chegou com rapidez. Era hora de a rotina voltar ao normal.
- Hashiba... acorde, Hashiba! - Sunao sacudia o amigo de leve, mas tudo o que conseguia eram alguns resmungos desconexos. - Vamos, Hashiba!
- Hm... é domingo, me deixe dormir só mais um pouquinho, Nao.
Como se houvesse tomado um choque ao ouvir o apelido ser murmurado pelo amigo, Sunao se afastou e sem olhar para Sora, replicou:
- Não é domingo, é segunda e se você não se levantar logo vai se atrasar para a aula.
- Eh?! - Sora levantou-se de um salto. - Já é segunda-feira?
Vendo Sunao já vestido com o uniforme do colégio, ele correu para pegar o seu próprio e vestiu-o apressadamente. Fujimori já estava prestes a sair sem esperá-lo quando ele pegou os materiais e ambos saíram do dormitório juntos.
- Eu acho que esqueci de pegar meu outro uniforme na lavanderia. - comentou Sora, no meio do caminho.
- Ou será que você guardou-o junto com as roupas de banho?
Era comum que Hashiba não fosse mestre no quesito organização. Ele deu um sorriso amarelo.
- Talvez, ne?
Sunao apenas balançou a cabeça e eles continuaram caminhando em silêncio. Matsuri já havia se adiantado pois precisava resolver umas coisas antes da aula. Nos últimos dias ele parecia tão ocupado que mal tinha tempo para estar junto dos amigos. Quem sabe estivesse os evitando deliberadamente.
- Será que eles conseguiram realizar o pedido deles? - perguntou Sora, como se não dirigisse a questão a ninguém.
Sunao deu de ombros e não respondeu.
- Isso seria realmente estranho! - suspirou Sora.
Logo eles já estavam diante dos portões da escola e o assunto foi deixado de lado.
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Ao descerem para o refeitório, Sora e Sunao sentiram alguns olhares estranhos sobre si. Sunao se perguntou se Matsuri andava espalhando que os amigos eram mesmo namorados – já não bastava que todos achassem isso e o loiro ainda ajudava! -, mas não conseguiu entender o que havia de tão esquisito com eles naquele dia.
Encontraram Matsuri já sentado numa das mesas e assim que pegaram suas refeições, dirigiram-se para a mesa onde o amigo estava. Sora estava quase se sentando quando um espalhafatoso Gaku aproximou-se e encarou-o ainda mais estranhamente.
- Como você conseguiu, Sora-senpai?
Hano estava logo atrás e também olhava com uma expressão atípica para Sunao.
- Consegui o quê? - ele olhou para os lados, confuso.
- Chegar aqui tão rápido e... por quê estava usando aquela lente amarela?
- Lente amarela... eh!? - Sora voltou o olhar para Sunao imediatamente. - Poderia ser...
- Então eles... - Sunao estava tão pasmo quanto seu companheiro de quarto.
Largaram as refeições em cima da mesa e saíram em disparada do refeitório, não sem antes Sora perguntar:
- Onde você me viu mesmo, Ichikawa?
- Ahn? É... no segundo andar.
Sora assentiu e ele e Fujimori deixaram o aposento tempestuosamente.
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A reunião inesperada na sala dos professores havia se tornado um verdadeiro debate. Porém, enquanto alguns professores discutiam acaloradamente, Minato apenas observava em silêncio, com ar sinistro. E Nagase, um pouco distante, também estava atento e mudo. Por um breve momento, o olhar de ambos se cruzou mas eles nada disseram.
- Pode ter sido apenas uma brincadeira deles. - apaziguou Umetani-sensei. - Não acho que deveríamos levar isso tão a sério.
- Eu discordo, Umetani-san. - replicou o professor de Educação Física. - E se isso virar moda e todos na escola começarem a invadir outras aulas dizendo que são outras pessoas? O comportamento de Hashiba e Fujimori é imperdoável.
- Uma advertência já deveria ter sido aplicada, até mesmo uma punição. - ajuntou o professor de Japonês.
- Nós não deveríamos tê-los convocado para essa reunião? - perguntou o professor de Música.
Alguns assentiram.
- Acredito que antes de qualquer decisão ser tomada, devemos ouvir o que ambos têm a dizer a respeito. - disse Umetani, em seu tom calmo e compreensivo.
Minato ajeitou o óculos, pigarreou e se levantou. Todos voltaram a atenção para ele.
- Se me permitem, eu resolverei o caso.
- É óbvio que irá protegê-los! - exclamou o professor de Educação Física.
- De maneira alguma. - rebateu Shinichirou e saiu da sala, sem dar margem a qualquer outro comentário.
Ao fechar a porta, ele viu a sombra de um sorriso no rosto de Nagase.
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Parados frente a frente, eram como um reflexo destorcido no espelho. Enquanto Sora e Sunao compartilhavam expressões de incredulidade, os dois a sua frente sustentavam um sorriso debochado. Não eram mais duas unidades. Eram quatro partes.
- Yoru?
- Ran?
Chamaram os nomes de seus ex alter-egos, como se isso fosse fazê-los desvanecer. Mas eles continuaram ali.
- Ei, você pegou meu uniforme! - exclamou Sora, olhando inconformado para sua cópia.
- Ah, isso? - Yoru fez um gesto como se limpasse os ombros. - Foi um empréstimo. Sem problemas, certo Sora? - piscou.
- Isso é... - Sunao começou, parecendo inseguro quanto a própria voz. - é ridículo! Como vocês podem... estar aqui?
- Agora não dependemos mais de vocês e nem vocês de nós. - Ran disse, se pendurando no pescoço do namorado. - É perfeito, ne Yoru?
Shinichirou chegou no local nesse exato momento. Embora esperasse por algo daquele tipo, também se surpreendeu ao ver os quatro reunidos, cada qual com seu corpo. Juntos ali, no andar mais vazio do prédio, onde Sora sofrera aquele acidente.
- O que está acontecendo aqui?
- Nii-chan! - Sora olhou para ele, surpreso.
Levou algum tempo até que conseguissem explicar e fazer Minato acreditar que tudo aquilo se dera através do banho misterioso das fontes termais que haviam visitado.
- Mas isso é ridículo! - ele encostou-se na parede e ajeitou os óculos, com um suspiro. - Bem, vamos colocar uma ordem nisso. Yoru, Ran, vocês não poderão freqüentar essa escola.
Ia acrescentar: "e no fim de semana daremos um jeito na situação.", mas achou por bem não deixar ninguém de sobreaviso.
- E nem roubar meu uniforme! - ajuntou Sora.
Ran ia protestar mas Yoru o impediu e deu de ombros.
- Isso realmente não é importante.
- Mas Yoru...
- Vamos, Ran. - puxou-o pela mão.
Minato, Sora e Sunao ficaram observando o casal desaparecer ao dobrarem nas escadas.
- Vocês voltem para suas salas. Resolveremos as coisas depois.
- Hm! - eles assentiram com a cabeça e saíram rapidamente.
"Só faltava essa...", pensou Shinichirou, com um meneio.
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- E nós quem levamos o castigo! Isso é ridículo! - Sunao reclamava, no caminho de volta ao dormitório.
Já estava entardecendo e eles há pouco haviam saído do colégio, onde haviam sido punidos por "invadir a sala que não era de suas turmas e caçoar o professor, fingindo serem outras pessoas" e tiveram de realizar a limpeza de todas as classes da série deles.
- A culpa é toda daquele Yoru! - completou Sunao, olhando feio para Sora.
- Ahn?! E você olha assim para mim? Eu não tenho nada a ver com o que o Yoru faz... - replicou Hashiba com um muxoxo.
- Idiota! Se você não houvesse criado o Yoru, nada disso teria acontecido!
- E quanto ao Ran? Eu não obriguei você a criá-lo, Fujimori!
Sunao cruzou os braços e virou o rosto, demonstrando que não queria conversa com o amigo. Sora deu de ombros, sem entender porquê ainda agora Fujimori sempre descontava toda e qualquer raiva nele.
Quando chegaram no dormitório, não estavam esperando encontrar Ran e Yoru. Mas ao abrirem a porta do quarto, seus olhares já se depararam com a dupla.
- Vocês ainda invadindo nosso quarto! - exclamou Sora.
- Esse agora é nosso quarto também! - replicou Ran, com ar de pouco caso.
O casal estava deitado na cama de Sunao e não era difícil advinhar o que andavam fazendo durante a tarde. Fujimori corou ao constatar que andavam fazendo aquilo em sua cama.
- E essa agora é nossa cama. - Ran sorriu, a mão apoiada sobre o peito nu de Yoru.
A frase tomou Sunao de surpresa. Sora logo riu da cara dele.
- Ha, tome essa, Fujimori! - disse e riu mais.
Irritado, Sunao encaminhou-se em passos rápidos para a cama de Sora, onde se sentou. Jogou Toshizou no chão.
- Então essa cama será minha. Você durma no chão se quiser, Hashiba.
Ele já havia se adiantado para "salvar" o bichinho de pelúcia e tendo-o seguro nos braços, olhou para Sunao, sem saber o que responder. Quem ri por último ri melhor, era o que a expressão de Fujimori dizia. Vencido, Sora entrou no banheiro e quando saiu de lá havia trocado o uniforme escolar por uma calça de moletom e uma camiseta. Acenou para os três dizendo que ia dar uma volta.
- Espere, eu vou com você! - disse Ran surpreendendo a todos e saltando da cama num instante, logo vestindo uma blusa.
Sora deu de ombros e seguiu com a réplica perfeita de Sunao ao seu lado.
Quando a porta foi fechada, Sunao deu de ombros e disse para si mesmo que não estava nem aí. Se ele houvesse dito isso em voz alta, não teria convencido um Yoru que o observava atentamente e com um meio sorriso.
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