Capítulo VII: "Ciúmes"
Eles ficaram sentados em um banco enquanto tomavam sorvete e ninguém teria arriscado dizer que não se tratavam de Sora e Sunao. Ainda que os olhos do último fossem mais brilhantes e escuros e que ele parecesse mais sorridente do que Fujimori costumava ser, não havia muita diferença que as pessoas notassem.
Mas para Sora, aquele ao seu lado era bem diferente de Sunao, não importava qual fosse sua aparência ou o corpo que ele habitasse.
- Você pode dizer para mim, sabe Sora. É só fingir que eu sou ele e se você tentar me beijar, eu não vou te bater depois ou te chamar de idiota. O Nao não sabe lidar com essas coisas, mas eu sei bem. - Ran sorriu e deu uma lambida no sorvete, movendo-se sutilmente no banco para mais próximo de Sora.
Sora estava completamente corado, tanto que seu rosto parecia pegar fogo.
- Quêêê?
Ele deu um salto no banco, para longe de Ran. Mesmo que este parecesse Sunao ele não iria tentar beijá-lo, como não faria com o próprio Sunao. Além do mais, Sunao era só seu amigo e...
- Você está falando isso para mim mas e quanto ao Yoru? - ele voltou o olhar para Ran, sério. - Ele não ficaria chateado com isso?
Naquele momento, pela primeira vez Ran achou-o encantador. A verdade é que para ele Sora era uma versão insossa de Yoru, mesmo que aquele corpo houvesse pertencido ao seu amado também, sem ele ali não possuía grandes atrativos. Sunao tinha razão em achar Hashiba um verdadeiro tonto, mas mostrando-se preocupado com os sentimentos de Yoru ele realmente seduziu Ran.
Ran deu de ombros, mais uma vez voltando a atenção para seu sorvete. Ficava pensando se teria algum sucesso.
- Ele não precisa saber. - disse por fim. - Além do que, seria só uma vez. Ou você vai criar coragem e dizer o que sente para o Nao?
Dessa vez, Sora só faltou cair do banco. Até sair com um fantasma pareceu menos assustador do que as palavras que ele acabara de ouvir. Passado o momento de absoluta surpresa, porém, ele baixou o olhar para o próprio colo. Já acabara seu sorvete, enquanto seu espevitado acompanhante ainda se deliciava com o seu.
- Eu acho que ele nem... - fez uma longa pausa. - sente a mesma coisa afinal. Acho que eu sou mesmo um tonto, então é melhor eu não dizer nada para o Fujimori.
Realmente, Sora conseguia ser encantador e Ran teria se apaixonado se seu coração já não pertencesse a Yoru.
- Idiota! - disse e a despeito da voz melosa, soara exatamente como Sunao. - Você não vai ter certeza se não disser a ele!
Ran levantou-se do banco e puxou Hashiba pela mão.
- Vamos! Meu sorvete está acabando e agora eu quero algodão doce!
- Eh?! Sem chances! Peça ao Yoru para ficar pagando as coisas para você! - reclamou.
- Anda logo, Sora! - Ran replicou manhosamente enquanto o arrastava pela mão.
Seria ideal manter Sora mais algumas horas longe de Sunao.
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De tão compenetrado que estava enquanto olhava pela janela, tentando convencer-se de que não dava a mínima ao fato de que aquele pervertido do Ran saíra junto de Sora, Sunao mal notou a aproximação de Yoru. Quando o fez, este já estava perto o bastante para ser perigoso. Sunao sentiu a respiração quente em contato com seu pescoço e afastou-se assustado.
- Yoru! O que está fazendo?!
Um brilho malicioso revelava-se nos peculiares olhos de cores diferentes e Yoru deu um sorriso ousado. Para Fujimori, ele era uma versão extremamente tarada de Sora e isso não era lá muito interessante. Melhor idiota e inofensivo do que pervertido e perigoso.
- Enfim, sós. - a voz máscula proferiu as palavras no mesmo tom do ronronar de um gato. - Acho que temos o resto da tarde, Nao. Por que não desconta suas tensões sexuais comigo? Eu posso lhe satisfazer de um jeito que o Sora seria incapaz.
Ele aproximou-se de maneira felina, mas Fujimori estava ultrajado demais para temer.
- Tensões sexuais?! Seu pervertido! Eu não tenho esse tipo... de coisa.
Sunao estendeu o braço para bater em Yoru mas este segurou-o e puxou-o para perto, quase colando os corpos. Seus rostos estavam a poucos centímetros de distância e tudo que Sunao pôde fazer foi virar o seu para o lado, como se assim pudesse evitar de ser beijado. Tentou desvencilhar-se da mão que segurava seu pulso com força, mas logo tinha os dois braços firmemente presos. Num movimento rápido e inesperado, Yoru deitou-o e cobriu-o com o próprio corpo, se deliciando com aquela diversão. Até onde ele pudesse evitar, não faria nada demais com Sunao ou Ran o mataria. Mas não custava tirar um certo proveito da situação.
- Hm... aquele Sora não sabe o que está perdendo. - murmurou e deslizou os lábios pela face de Sunao, que se debatia, sem forças suficiente para afastá-lo. - Não precisa protestar. Pense que está fazendo isso com ele... somos quase a mesma pessoa, você sabe.
- Me solta, Yoru! - gemeu Sunao e foi em parte um apelo verdadeiro e ao mesmo tempo, o resultado da reação que já se mostrava em seu corpo. O toque suave da boca de Yoru e a pressão de seu corpo sobre ele eram difíceis de serem ignoradas.
- Eu sei que você se faz de difícil, Nao. E diferente do Sora, eu percebo isso. Mas tudo bem, você pode fingir que não quer, certo?
Sunao sentiu a língua deslizar devagar por seu pescoço, deixando um rastro úmido e ele não conteve um suspiro, ao mesmo tempo que corava mais fortemente.
Não havia Ran para despertar, aquele que o tocava não era o seu Kuu-chan e... Ran quem estava sabe se lá onde com Sora. Aquilo estava errado!
Yoru foi afastado com um empurrão e sorriu. Melhor ser evitado ou ele não poderia se conter. Não com o reflexo de Ran sendo tão sensual ao recusá-lo. Ambos arfavam ao se afastarem e Sunao tremia levemente. Foi então que a porta se abriu e Ran apareceu ali, com um urso de pelúcia enorme nos braços e Sora logo atrás, com ar exausto.
Tão logo os olhos de Sunao pousaram no bichinho de pelúcia, ele se levantou da cama e passou pelos dois que acabavam de chegar, em passos rápidos e duros. Antes de desaparecer na porta do outro lado, disse irritado para Sora:
- Você pode ficar com a sua cama!
E Hashiba simplesmente não pôde entender o que estava acontecendo ou mesmo saber como poderia confessar o que sentia se o amigo agia daquele jeito. Ran já se aproximara de Yoru e diante de toda a cena, ambos sorriram.
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Por alguns minutos, Matsuri só observou o amigo em silêncio, ainda que um sorriso insinuante se desenhasse em seu rosto. E então, quando Sunao finalmente se enfiou dentro do futon, ele resolveu falar.
- Dois Soras e agora você não sabe qual escolher? - perguntou com um risinho.
- Não são dois Soras! Um deles é Yoru e... - deu-se conta do que o loiro quisera dizer. - Matsuri-chan! - sibilou, com ar raivoso.
- Estou brincando! - fez sinal para que o amigo se acalmasse. - Mas você não deveria dar moleza, Nao-kun. Já pensou como seria perder o Sora para sua própria réplica? Bem... - ele pulou para debaixo do edredom em sua cama e sem dar chance para resposta, completou. - boa noite!
- ... Boa noite. - murmurou Sunao de volta, enquanto via a luz ser apagada e se agarrava a uma almofada que Matsuri lhe emprestara.
Perder Sora para Ran. Como se isso fizesse alguma diferença. Isso é, Sora não era dele e portanto, não havia como perdê-lo. E mesmo que houvesse, ele não estava nem aí. Ran que fizesse ótimo proveito!
Rolou para um lado e para o outro no futon, quase rolando pelo chão do quarto. Também não se importava que Ran houvesse retornado com Sora trazendo aquele ursinho de pelúcia gigante e com uma expressão de felicidade. Não se importava que eles houvessem se divertido juntos. Não estava nem aí mesmo!, pensou, apertando a almofada com bastante força.
Logo a respiração tranqüila de Matsuri ecoava pelo quarto e Sunao sentiu-se idiota por ainda estar acordado. Não tinha de pensar naquelas coisas, não tinha de lembrar o quanto Hashiba era idiota! Devia dormir, era só o que devia fazer. Fechou os olhos e esperou que o sono viesse.
Mas não veio. E sem poder se controlar, levantou-se e saiu silenciosamente do quarto. Ao deparar-se com a porta do seu quarto, hesitou por um breve momento e então se aproximou, abrindo-a cautelosamente. E quando olhou para dentro, o que viu acalmou seu coração.
Em sua cama, estavam Yoru e Ran dormindo abraçados e não havia dúvida de que se tratavam dos dois. E Hashiba estava na cama dele, também em um sono profundo, agarrado com Toshizou. O urso de pelúcia de Ran estava esquecido em um canto do quarto e mais uma vez, ele estava preocupado com nada além de Yoru.
Com um sorriso, Fujimori voltou a fechar a porta devagar e voltou ao quarto de Matsuri, onde rapidamente adormeceu.
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N/A: Notinha rápida só para me desculpar mais uma vez pela demora. u.u Como acho que já disse antes, a escola e o curso estão tomando muito do meu tempo, especialmente agora que estou em época de provas. Num raro momento de tempo livre eu consegui escrever esse capítulo e a princípio pretendia estendê-lo mais, mas vieram outras idéias e resolvi fechá-lo assim (afinal eu havia gostado do resultado e era uma maneira de não atrasar mais na atualização). Espero que não se importem por ter ficado um pouco curtinho! nn Muito obrigada pelas reviews, pelo apoio e especialmente por não terem desistido da fic ainda! (risos) Estou dando meu melhor para que ela continue legal de se ler e qualquer sugestão é sempre bem vinda! nn Hm... parece que essa "notinha" não ficou tão rápida assim hehe... Mas é só! Kisus e novamente, muito obrigada gente! ;)
