Capítulo 10

Música: Jason Walker - Shouldnt be a good in good bye

Beckett permaneceu ali em silêncio sentindo aquelas mãos frias e sem vida. Os soluços eram abafados, mas toda aquela dor era demais para ela continuar suportando então ela arfou. Martha se mexeu na cadeira devagar e Kate se amaldiçoou por estar conseguindo fazer tamanho "escândalo". Ela supostamente deveria ser a mulher mais forte, dando apoio àquela senhora que estava com o filho à beira da morte e por sua causa. Kate queria pela primeira vez, poder ser um super-herói, e com poderes para salvá-lo, como ele a salvou dela mesma.

Mas ela não precisava ser forte agora, não ali, não com ela. Não com Martha. A incrível mulher que parecia conhecer o coração de todas as pessoas.

- Pode se aproximar mais, darling... – disse Martha acordando completamente. – Ele ainda não deu nenhum sinal de resposta.

Ela percebeu que Kate não se moveu, apenas seu corpo tremia. A jovem amava a seu filho e ela sabia disso. Amava tanto que se afastava com medo de colocar sua vida em risco ou mesmo de não fazê-lo feliz. Martha sabia o que Kate aparentava ignorar. Era exatamente a ausência de sua musa que estava deixando o escritor entristecido.

-Martha... – Beckett falou respirando forte. - Me desculpe... Isso... Eu sinto muito. Eu sou responsável…

-Não seja boba minha filha... - disse a senhora se endireitando na poltrona. - Eu conheço meu muito bem meu filho. O aconteceu foi por que ele procurou... Não por que você deixou.

Kate podia ver o semblante cansado daquela mulher. Provavelmente ela e Alexis estavam revezando para nunca deixá-lo sozinho, mas pelo tanto de flores que estava na sala, dava pra notar que ele nunca estaria realmente sozinho. Muitos escritores, amigos de Castle, até o prefeito, todos haviam passado por ali e deixado seu cartão de melhoras. Definitivamente ele estava melhor sem ela, definitivamente era hora de partir.

Beckett continuava olhando para ele. Não queria guardar a imagem dele deitado em uma cama, mas sim dos momentos que passaram juntos, de todas as confusões que eles haviam se metido nos casos. Queria levar com ela as lembranças das viagens, dos cafés compartilhados, das ligações da madrugada e especialmente a forma como o nome dela escapava dos lábios dele enquanto faziam amor.

Sim, Beckett estava lúcida, sabia de todos os seus atos, jamais poderia culpar a bebida por ter se jogado em seus braços. Isso é o que mais pesaria em seu coração. Em mais um breve momento de sanidade ela pensou, apenas pensou em afastar o corpo dele do seu. Para o seu subconsciente ela estava errada, não poderia se entregar daquela maneira, a uma pessoa que julgava não ser de confiança, mas todos esses pensamentos se afastaram quando Castle deitou o corpo dela sobre a tampa do piano, traçando um longo caminho de beijos e de sugadas até o fim de seu abdômen.Beckett gemeu inclinando levemente o seu tronco diante da sensação de tê-lo sugando-a íntima e avidamente como tanto desejara sentir outra vez. Os movimentos dele eram ágeis e incrivelmente melhores do que ela se lembrava, e então ela cravou as unhas nos cabelos dele na tentativa de assumir algum controle, mesmo sabendo que já havia perdido há muito tempo. Seu corpo parecia adquirir vida própria seguindo o ritmo da boca de Castle e logo ela estava jogando a cabeça para trás colapsando em tremores e gemidos, enquanto Rick bebia do seu prazer com um sorriso nos lábios.Ele a puxou de volta, segurando-a firmemente pela cintura, impedindo seu corpo amolecido de vacilar, enquanto voltava a beijá-la, dessa vez suavemente. Kate lançou os braços ao redor do pescoço dele escondendo o seu rosto e Rick deslizava os dedos pela carne macia das costas nuas de Beckett, trazendo um arrepio gostoso à pele da detetive que se permitiu sorrir.Ele soube naquele exato momento em que ela não lutaria mais contra o que surgia nas vidas deles, acreditando que a partir de agora lutariam por algo concreto. Castle a tomou no colo, levando-a para o quarto, o mesmo onde se amaram pela primeira vez. Imediatamente ambos foram levados de volta àquela primeira noite e a recordação foi igualmente dolorosa para os dois. Ele a depositou na cama, nua. Deitou-se sobre ela, e mesmo que ele ainda estivesse vestido com sua calça, Beckett podia sentir o quanto ele ainda estava ansioso por pertencer a ela. Respirando o aroma dos cabelos dela, Rick sussurrou em seu ouvido.- Eu ainda amo você, Kate...

Essa era a imagem que ela queria guardar, principalmente das noites compartilhadas em suas camas, dos momentos que ambos sussurravam palavras desconexas no ápice do amor, do suor correndo pelo corpo de ambos e a tensão que ficava no ar, o "gostinho de quero mais" e o prazer da entrega.

- Você sabia que toda vez que você olha para ele... – disse Martha, interrompendo as lembranças dela. - Mesmo em silêncio como fez agora, você solta um sorriso, um pequeno sorriso...

- É impossível não sorrir ou rir quando estamos falando de Castle – disse ela, mantendo o olhar ainda fixo nele.

- No meu tempo, chamavam isso de amor... – continuou Martha, agora também encarando seu filho.

- Martha... – falou Beckett, fechando os olhos, enquanto apertava com mais firmeza a mão dele, na esperança de ele dar algum sinal de vida para ela. – Acho que é hora de eu me afastar de vez de vocês...

O silêncio pairou no ar e os olhos se abaixaram em desaprovação, mas não em surpresa.

- O que aconteceu com Castle... – Beckett continuou. - Poderia ter acontecido com você ou com Alexis e...

- Você tem razão. – a senhora não se importou de interromper a detetive. - Darling, isso poderia ter acontecido com qualquer um. Com qualquer um que se preocupasse com você, como ele se preocupa. Não seja tão dura com você mesma, vocês tinham algo especial, e não pense que você que ele vai desistir disso. – completou Martha.

Ambas ficaram quietas, ouvindo o som da respiração dele pelos tubos, analisando o que haviam acabado de dizer e ouvir. O olhar delas ainda recaía sobre o menino escritor que apesar de envolver-se com coisas mórbidas em sua carreira, adorava trazer alegria pra vida que quem estivesse ao seu redor. As duas tinham ali a mesma esperança. A esperança de ele acordar e simplesmente sorrir, dizendo "I know who the killer is", ajudando a pegar o suspeito, ou apenas seu costumeiro algo idiota que as fizessem rir e saber que tudo ficaria bem.

Kate ainda segurava a mão dele quando se deu conta que o sinal que ela queria não viria. Os batimentos continuavam os mesmos, nenhuma mexida nas pálpebras, nada. Tentando dominar sua luta interior e suas lágrimas, ela deixou que apenas uma última rolasse por seu rosto, tirando-a dali com extrema rapidez. O que devia ser feito, devia ser feito e logo. Ela estava desistindo da carreira, e principalmente de Richard Castle.

Caminhou até o outro lado do quarto e se ajoelhou em frente à Martha, segurando as mãos dela. Uma lágrima teimosa insistiu em deixar um de seus olhos, mas essa ela não se importou que fosse vista.

-Martha... – Kate tentava controlar a voz. - Se teve uma pessoa que nunca se enganou a respeito de nós dois foi você. Desde o começo, você nos apoiou e até deu um empurrãozinho para que acontecesse. Acho que o que você não esperava era que fôssemos tão "cabeças-duras" como nós fomos, nós... complicamos as coisa demais, e o que era pra ser simples... – ela temeu a voz mais uma vez. - Acabou no que acabou...

- Vocês dois foram teimosos isso sim... – disse Martha, olhando nos olhos dela. – Os dois queriam a mesma coisa, mas nenhum de vocês quis ceder. Ele por ser muito orgulhoso e infantil ao mesmo tempo, e você por ter crescido carregando esse fardo que segue carregando...

- Nós tivemos o nosso momento... – disse Beckett, sem olhar nos olhos de Martha – Breve, mas tivemos. Mas esse momento só trouxe sofrimento e eu não quero mais trazer esse fardo para vocês... E é por isso que eu estou desistindo dele...

- Você sabe Darling, que ele não vai desistir não é? – disse ela, agora segurando o rosto de Beckett entre suas mãos. – Você sabe muito bem que ele nunca irá desistir... de você.

Kate não sabia o que responder, na verdade ela queria pedir para a senhora Rodgers não deixar mais que seu filho se aproximasse dela, queria que ela levasse ele para longe dela, mas era injusto com ele, tirá-lo assim de sua vida... Não, ela não poderia pedir isso para Martha,não poderia fazer isso com ele. Então ela decidiu simplesmente partir. Levantou-se e foi até a porta, queria olhar mais uma vez para ele, mas sabia que se fizesse isso, jamais sairia daquele lugar, todas as decisões que havia tomado, iria embora juntamente com sua razão. E assim, Beckett se foi.

***
Música: Tresspassers William - Lie in the sound

Durante duas semanas inteiras a agora ex-detetive não teve mais contato com ninguém. Lanie continuava indo pra a casa dela, levando comida, mas agora Beckett não estava mais entregue a dor, e sim a uma nova e mais violenta paranoia: ir trás do responsável por ter machucado Castle. Agora o caso de sua mãe não era mais seu foco principal e sim aquele homem misterioso. Talvez, a resposta para a conclusão dos dois casos, estivesse nas mãos daquele homem.

Suas pesquisas não precisaram ser feitas fora de casa. Tinha todas as suas anotações do caso de sua mãe e sabia que o homem misterioso estava de certa forma envolvido, então ele deveria estar por ali, em qualquer uma daquelas fotos, recortes e tudo mais. Alguma coisa tinha que ter passado despercebido e era sua meta agora encontrar.

Duas semanas e Kate não quis saber de jornais, revistas, nada que trouxesse notícias do mundo exterior. Sim ela mais uma vez se trancara em seu mundo, e não queria nada mais de fora. Ryan e Esposito estavam cansados de serem deixados parados do lado de fora, tocando a campainha e ela não atender. Por último, ameaçou Lanie de trocar a fechadura da casa, caso ela não desistisse de levar os meninos para falar com ela. E então seu mundo se fechou por completo.

Quase como um esquizofrênico quando se tranca em seu mundo, algumas vezes podia jurar que sentia a presença de Castle dentro de sua casa. Sentia seu cheiro, seu modo reconfortante de ser, sentia aquele toque morno arrepiar a sua pele e desvendar a sua alma apenas com um olhar daqueles dois grandes olhos azuis. Sua pele queimava, seu corpo tremia, seu fôlego faltava sentindo-o ao redor dela e em todos os lugares, mas não se permitia a alucinar, por que sabia que quando chegasse a esse estágio, aí sim estaria completamente perdida.

- O que você pensa que está fazendo? – a voz rouca ecoou dentro do apartamento, após a porta se fechar.

Em um movimento rápido, Kate pegou sua arma apontando para o homem que estava em sua casa. Por um breve momento teve dificuldade de reconhecer quem era pelo tom de voz cansado.

- Que diabos você pensa que está fazendo? – o homem ali ainda parecia estar esperando uma resposta.

Ela o olhou, não podia ser real. Definitivamente ela havia chegado ao seu limite. Largou a arma e se jogou de qualquer maneira sobre o sofá, ainda com o olhar perplexo e admirado. Ela chegou no fundo o poço e, agora, estava alucinado com Richard Castle.