BULLETPROOF WEEKS – MATT NATHANSON
Capítulo Dezesseis.
Eles entraram no quarto de hotel, sem pensar em nada além de desejar que a cama fosse confortável. Depois de tantos dias em uma cama e em um sofá de hospital, Kate e Rick ansiavam por uma boa e merecida noite de sono, embora a noite propriamente dita fosse demorar a chegar visto que passava um pouco mais das duas da tarde.
Era um quarto simples, relativamente pequeno, com duas camas de solteiro uma do lado da outra, separadas apenas por uma mesinha com flores e uma pequena gaveta. Havia também no quarto um armário embutido, uma tv pequena com canais a cabo, um frigobar e um banheiro sem muitas regalias, aquilo que o orçamento já apertado do distrito permitia gastar.
A ideia principal era que eles ficassem ali até que as coisas se acalmassem e houvesse mais segurança para eles dois de uma forma geral, mesmo que os dois soubessem que isso era uma realidade extremamente utópica para eles. Enquanto todo esse caso não fosse solucionado e os verdadeiros culpados estivessem mortos ou na cadeia nenhum deles dois poderiam viver sua vida em paz. Eles não tinham o direito nem de morar em suas próprias casas. Tanto o apartamento dela quanto o dele haviam se tornado cenas recentes de crime e as investigações continuavam ativas por ordem da Capitã Gates.
A chefe do 12º precinto estava furiosa com o fato de sempre esconderem dela informações sobre esse caso. Um caso que já havia matado dois policiais aposentados e também tinha sido responsável pela morte do ex-chefe de polícia o qual ela havia assumido o posto, além de quase ter sido o responsável pela morte de sua ex-detetive, visto que Beckett havia pedido demissão, e de seu não- tradicional parceiro, Castle. Sim, "Iron Gates" acabaria com aquela festa de uma vez por todas, indo até o fim para descobrir os verdadeiros culpados. Agora ela tinha tornado isso pessoal.
Kate andou devagar até a cama sentindo falta do apoio dos braços dele ao redor de sua cintura, mas logo que encontrou o colchão macio ela suspirou de alívio. Poderia dormir para sempre ali mesmo. Castle se ocupava em organizar as coisas deles nos respectivos lados do armário. Trouxeram poucas coisas, algumas roupas e produtos de higiene pessoal, o básico já que eles pretendiam passar o mínimo de tempo possível ali. Aguardavam apenas a liberação da capitã que permitiu que os dois ficassem juntos para proteção mútua, além de economizar pessoal na equipe de segurança montada para tentar mantê-los fora de perigo.
Castle olhou para ela, de olhos fechados, com as duas mãos cruzadas sobre a barriga, e os pés descalços sobre a cama. Os hematomas agora já eram quase imperceptíveis, e os ferimentos estavam cobertos com curativos, mas ele sabia que eles ainda estavam lá. Sentiu raiva, dor e uma enorme impotência ao saber que a única coisa que poderia fazer era esconder-se de tudo aquilo. Bom, pelo menos agora estava com ela.
- Não dói mais como antes, sabia? – falou ela baixinho, mentindo inclusive, percebendo o olhar sentido dele. – Não é sua culpa. É minha.
Beckett o conhecia, sabia exatamente o que estava passando pela mente dele porque era exatamente o que estava passando na mente dela. Ela, como policial, tinha a obrigação de protegê-lo e mantê-lo longe de problemas, assim como na mente de Castle o pensamento dele era de que era ele quem deveria mantê-la a salvo. Afinal de contas, ele era o homem ali.
- Er... – ele tentou desconversar. Talvez fosse melhor esquecerem aquilo tudo. – Você está com fome? Eu posso ir buscar alguma coisa.
"Formal. Muito formal", ela pensou. O que estava acontecendo com o jeito de Castle se comportar com ela? Num minuto ele estava cheio de cuidados, realmente em pânico por imaginar tudo o que ela sofreu e no minuto seguinte, ele estava ali. Frio, distante, como se ela fosse um outro alguém, um alguém qualquer e não a sua musa, sua parceira, sua... amante.
- Não... Obrigada... Não quero nada. – disse ela, meio emburrada, encarando o teto acima dela.
- Posso ligar a tv pra você se você quiser... – falou ele andando para perto da tv, ligando-a. – Nos deram um quarto com tv a cabo, tem muitas opções...
Ele segurava o controle em mãos passando por todos os canais existentes conferindo o que havia no pacote. Filmes, jogos, notícias, desenhos passeavam descontroladamente pela tela de 21 polegadas de maneira tão rápida que Beckett nem conseguia processar o que estava sendo anunciado.
- Bah... Por Deus, Castle. Pare de mudar os canais assim. Está me deixando neurótica. Escolha um canal qualquer e assista. Eu não quero ver tv.
Dito isto, Beckett se virou na cama, com o coração batendo mais rápido de irritação e ao mesmo tempo de tristeza. Desde que voltaram a se reencontrar naquele hospital era difícil manterem uma conversa amigável, sem cutucar feridas, por mais que alguns minutos. Estavam tentando agir como se nada tivesse acontecido, mas pelo visto não estava funcionando. O tal fardo que os dois estavam carregando estava começando a realmente ficar pesado demais.
Todas as coisas que passaram juntos, as ameaças de vida, os tiroteios, os casos sem solução e, especialmente, todas as vezes que ficaram juntos sendo mais amigos ou muito mais que amigos havia tornado o relacionamento deles em extremo diferente. Castle e Beckett já não eram mais os mesmos. Esperava ela que um dia pudessem realmente voltar à estaca zero.
Perdida nesses pensamentos Kate acabou adormecendo vítima da união do tédio e do efeito dos remédios que ainda continuaria a tomar até total recuperação. Rick por sua vez ocupou-se em terminar de arrumar o restante das coisas, tomar um banho e decidir o que fazer depois. Precisava sair, fazer algumas compras e enviar mais dinheiro para sua família em Paris, mas não tinha certeza se deveria deixá-la sozinha.
Pensou um pouco observando que ela repousava serenamente. Céus, como ele a amava. Entretanto, seu coração já havia levado muitas respostas negativas para que ele tivesse preparado ou mesmo disposto para ouvir mais uma. Não, dessa vez ele havia prometido a si mesmo a não insistir em nada mais do que uma simples e saudável amizade e parceiros de trabalho. Se bem que isso realmente não estava dando muito certo. Ele e Beckett nunca seriam apenas bons amigos.
Para ser amigos, eles teriam que fingir nada aconteceu, que tudo o que compartilharam não passou de uma mera ilusão, de que as juras de amor que foram trocadas, não passaram de palavras soltas no ar, de que nada daquilo foi real. Mas, como tentar convencer o coração de que você não ama uma pessoa, quando todo o seu corpo e seu anseio por estar próximo diz o contrário a você? Como lutar contra os instintos de deitar ao lado dela nesse momento e trazê-la para o seu peito, e sussurrar em seu ouvido que tudo ficará bem, mesmo ele sabendo que essa é a inconstância da vida deles. Como tentar negar com palavras o que o coração diz com o olhos... Não há como. Simplesmente, não há.
E assim com a certeza de que seu amor por Kate nunca diminuiu, muito pelo contrário só aumentou com a distância e o tempo que ficou longe dela, ele deixou o quarto, desejando internamente que um dia, quem sabe, ele conseguisse tirar todo aquele sentimento de dentro dele. Um dia, talvez ele conseguisse vê-la e ouvi-la falar, sem se lembrar de todas as vezes que a teve nos braços, quando a pele dela deslizava suada contra a sua.
"Castle começou devagar, como se degustasse de cada milímetro daquele corpo em contato com o seu. As mãos femininas passeavam pelas costas dele e vez por outra o puxavam contra ela numa forma silenciosa de dizer que o queria completamente. E então cada vez mais fundo os toque se tornaram mais confusos e ao mesmo tempo mais ritmados, os gemidos mais altos e também mais abafados, e o prazer daquela alegria se perdia na dor daquela tristeza que fazia os dois ter a certeza de que aquela seria a última vez.
Ambos tremiam ainda colados e os suores molhavam os dois corpos deixando as marcas e a essência daquela paixão na alma e na mente daqueles amantes. Beckett se mexeu e Rick ainda tentou mantê-la no lugar, mas ele sabia que não seria assim. Mais uma vez ela iria embora, como se outra pessoa assumisse sua identidade. A Beckett cheia de vida e de paixão que acabara de se entregar a ele, agora dava lugar a uma Beckett fria, de olhos vazios e semblante pesado.
- Kate... - chamou ele, enquanto ela juntava a própria roupa do chão. – Eu não vou desistir da gente.
Os olhares se encontraram devagar, mas rapidamente a resposta dela ecoou baixo pelo lugar.
- Mas eu sim.
Lentamente ela se afastou e mesmo sem olhar para trás destrancou a porta, deixando apenas o som metálico quebrar o silêncio e o coração dos dois."
FAKE PLASTIC TREES - RADIOHEAD
"... Aquele barulho lhe era muito singular. Ela como detetive conhecia aquele tilintar como ninguém. Maddox havia acabado de engatilhar uma arma, mas não era uma arma qualquer, era uma 38 de cano longo. Se ela estivesse em outra situação faria alguma piadinha sobre 'velho-oeste', mas nesse momento não seria muito bem aceita. Maddox caminhou até ela, sorrindo de uma forma que a deixava preocupada. Ainda sentia o gosto da bílis em sua boca, mesmo depois de um certo tempo que tinha sido acordada ali, naquela cadeira amarrada daquela forma desconfortante
- Sabe detetive, as ordens que eu tenho é de fazer uma execução limpa e direta... – disse ele, embora isso não fosse verdade, apenas para aterrorizá-la. - Mas, eu estive pensando... – ele falava pausadamente de um jeito que agoniava. - É uma pena acabar logo com um bom adversário como você, apenas por capricho de um velho medroso...
Ele caminhava em volta da cadeira, mexendo nos longos cabelos de Kate com o cano da arma, a fazendo sentir o gelo do aço em sua nuca, causando uma arrepio em toda sua pele, que percorria por todo o seu corpo.
- Eu poderia acabar com tudo isso agora mesmo – ele se posicionou atrás dela, colocou a arma na altura do osso occipital, forçando a cabeça dela para frente, para ela que ela sentisse toda a tensão de ter uma arma apoiada contra a sua cabeça. – Um simples movimento e "bang".
Como instinto, Kate apenas fechou os olhos, esperando aquilo que parecia ser inevitável. Maddox puxou lentamente o gatilho da arma, e ela escutou o algo como se fosse uma engrenagem girando o tambor da arma lentamente. Nesses microssegundos, seu coração disparou, seu peito prendeu o ar, sua mente lhe trouxe diversas lembranças e ela engoliu em seco, esperando, até que ouviu aquele baque surdo. O tambor da arma estava vazio e então ela soltou a respiração."
Castle tentou sair do quarto sem fazer barulho, mas o som daquela porta de ferro se fechando, acabou se sincronizando com o sonho de Kate, fazendo com que ela acordasse em um pequeno sobressalto, mas fortemente assustada e com a respiração errática. Sentou-se sobre a cama rapidamente em alerta, olhando com os olhos estalados para todos os lados, até que lentamente conseguiu identificar o local em que estava agora. Era um quarto de hotel, tudo aquilo já havia acabado, ela havia sido resgatada, estava segura agora, mas infelizmente não era assim que ela se sentia, pelo menos não ainda.
- Castle...? – ela chamou por ele, mas não houve resposta. Ela estava sozinha ali.
Mesmo que agora tudo não passasse de um sonho, ou melhor, um pesadelo, o medo ainda a dominava e ela se encolheu sobre a cama abraçando o travesseiro na frente do corpo como se fosse um escudo. Sim, tudo que havia passado com Maddox ainda estava vivo em sua mente, todos os dias, todos os minutos, todos os segundos. Aquele homem sabia como mexer com a cabeça de alguém, o terror psicológico era uma das suas maiores especialidades.
Kate ainda tentou fechar os olhos, controlar a respiração para se acalmar, mas imediatamente se lembrou daquela cena de crime, da forma como foi deixada nos braços daquela menina, tão jovem e com certeza cheia de vida e extremamente parecida com a filha de Castle. Aquilo não havia sido coincidência. A menina fora colocada ali na mesma posição em que sua mãe morreu. Beckett estremeceu também se lembrando do rosto daquela senhora, fitando-a com o véu da morte sobre os olhos, e aquele lugar. Tudo aquilo que acontecera com sua mãe poderia acontecer de novo, e com a família dele. Não, ela precisava fazer alguma coisa.
Levantou apreensiva da cama, andando doloridamente com os pés ainda sensíveis, indo até a porta do quarto onde encontrou dois policias a postos. Pediu para ambos entrar, não gostava de ter ninguém vigiando a vida dela, muito menos os passos dela. Apoiou-se, com a ajuda de um deles, na mesinha e depois de despejar uma porção de argumentos contra eles, conseguiu fazer com que eles desistissem da vigília, pelo menos ali na porta do quarto deles.
Kate tentou caminhar um pouco pelo quarto, que não ajudava no tamanho, mas auxiliava por sempre ter um móvel perto para apoio. O remédio que estava tomando não estava ajudando muito no quesito dor. Ela podia jurar que a única coisa que medicação causava a ela era sono, e era a única coisa que ela estava realmente evitando. Dormir era relembrar de tudo que havia passado, relembrar causava dor.
Ela precisava falar com alguém. Alguém que fosse tão obstinado quanto ela. Alguém que entendesse o que ela estava passando e que soubesse exatamente como era não ter respostas e ainda se sentir completamente indefeso tornando-se apenas mais uma vítima de seus algozes. Alguém que, como ela, nunca se contentaria com isso.
Castle voltava da lanchonete quando encontrou os dois policias caminhando pelo corredor em direção a saída do hotel, os dois apenas acenaram com a cabeça sem dizer nada, deixando ele ainda mais preocupado fazendo-o ele acelerar os passos em direção ao quarto, algo estava muito errado, Gates havia pessoalmente instruído os dois guardas a nunca deixar a vigília, Kate havia aprontado uma das dela de novo.
- O que você pensa que está fazendo? – disse ele fechando a porta do quarto colocando o copo de café na mesinha mais próxima.
- Caminhar pelo quarto, dizem que é bom. – disse ela desconversando, um passo em falso uma careta de dor transpareceu em seu rosto – Mas, acho que ainda é cedo para maratonas.
- Estou falando dos policiais, Gates ordenou que ambos ficassem ali, para evitar qualquer coisa – disse ele dando um passo a frente para ir ajudá-la, mas parando no meio do movimento, ele continuava magoado com ela.
- Cas.. eles não precisam ficar ali. – disse ela apoiando na cama e voltando a deitar lentamente.
"Cas..." só em ouvir ela lhe chamar daquela maneira, o remetia a lembranças... a lembranças de sua primeira noite juntos, a noite em que todas as barreiras foram quebradas.
- Mais forte Cas... – ela tentou pedir, mas ele a impediu descendo sua boca sobre a dela.
- Shhh... Apenas aproveite o momento minha querida... - disse ele, beijando-a enquanto aumentava gradativamente o seu próprio ritmo.
Ela sorrira entre seus lábios quando o ouviu dizer "minha querida" era um sorriso de satisfação, um sorriso que ele se acostumaria facilmente a fazer ela lhe dar, um sorriso diferente dos outros, um sorriso dele, apenas pra ele...
Aquele sorriso hoje não estava ali, muito menos a luxúria e sensualismo, ao qual ambos haviam aprendido a compartilhar entre quatro paredes, as loucuras do ápice do sexo e do amor. Muita coisa havia acontecido, muitas páginas adjacentes foram adicionadas aquela história de amor. Ele abriu uma das sacolas que havia trazido e pegando alguns dos materiais, seguiu para o banheiro para lavar as mãos. Voltou, sentando-se ao lado dela, com o semblante irritadiço e tomando um dos pés dela nas mãos começou a retirar o enfaixamento que agora estava sujo de sangue.
- Eu posso me cuidar sozinha. – disse ela, puxando os pés para longe dele e trancando-se no banheiro.
Castle ficou imóvel e apenas suspirou. A primeira noite deles juntos naquele quarto do hotel seria completamente diferente do que fora há pouco tempo atrás. As lembranças atormentariam o corpo e a mente de ambos, mas para o bem deles, eles teriam que aprender a conviver da melhor maneira... Se é que isso ainda seria possível.
Continua...
Nota das Autoras: Feliz 2013! com muitas alegrias e felicidades, com muito Castle e muito Caskett! é o que desejamos a vocês de todo coração! Esperamos que tenham gostado do capítulo! e esperamos que continuem conosco nesse novo ano que se inicia! um grande beijo a todos, e até o próximo cap!
ahh, comentem! =D
