"Prenda sua respiração, conte até dez. Entre em colapso e comece tudo de novo" English Summer Rain-Placebo

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"Entrelinhas"

Parte 2

Vinte e três dias atrás...

Finalmente o tempo estava firme, sol forte, céu azul. Carol acordou com um sorriso no rosto naquela manhã. Ela estava animada com o tempo firme, definitivamente ia fazer uma revolução naquele Bloco C, colocar tudo no sol, colchões, cobertores, sapatos.

Tudo, o lugar estava cheirando a mofo e a naftalina. ...Parece um armário vó.... Ela riu, recolhendo as roupas sujas, Carl estava mais tranquilo, mas era um tipo adolescente, bagunceiro.

Obviamente Carol estava orgulhosa do progresso que tinha feito aqui, não era só mais uma dona de casa, tímida e assustada. Agora era uma guerreira, matava walkers com facão, atirava com armas e espingardas, mas ainda gostava de deixar tudo em ordem, tudo organizado. Tirava um certo prazer dos afazeres domésticos, não era mais obrigada pelo punho e mão pesada do marido, fazia porque gostava. Quem não gosta de receber sorrisos e agradecimentos? Roupas limpas e dobradas em suas camas. Sim, era uma troca, e ela precisava desse sentimento.

Carol torceu o nariz quando pegou o tênis de Carl. ...Pelo amor de Deus tem um zumbi dentro desse tênis... Ela riu.Adolescentes e seus odores. "Para o sol" e continuou caminhando pelo andar de cima do Bloco C, coletando itens. Provavelmente estava sozinha dentro da prisão, todos já estavam lá fora, aproveitando o bom tempo para reforçar as cercas, plantar, cuidar dos animais.

Os porquinhos eram tão bonitinhos. ...Não quero nem me apegar, vão virar jantar muito em breve, coitadinhos, mas pelo menos Daryl não precisa sair tanto pra caçar...

Daryl, a noite passada tinha sido especial. Nada físico aconteceu realmente, mas ele se abriu, contou coisas de sua infância. Coisas que provavelmente nunca tinha contado para ninguém. Suas cicatrizes, seus medos.

Ele era extraordinário. Como uma criança criada em um ambiente tão hostil tinha se tornado um adulto tão bom, justo? Ok, rude, mas ele era sim, um homem de honra.

Carol entendeu que tinha ainda um longo caminho até um beijo, sim, ela queria beijá-lo. Depois da noite passada, mais que nunca. Tirar aquele abandono que Daryl sentia no peito, prometer que enquanto vivesse ficaria sempre ao seu lado.

Ainda não era tempo, ia chegar, se os dois continuassem com as confissões noturnas. Aquela cadeira ficaria cada vez mais próxima da cama, com certeza. As bochechas de Carol queimaram. ...Que pensamento travesso...

Com um sorriso no rosto, e com rubor nas bochechas Carol se aproximou da escada. Ela estava pensando em jogar tudo lá pra baixo, ao invés de subir e descer varias vezes. E chamar Carl para ajudar a levar tudo lá pra fora.

Do alto da escada, Carol paralisou, uma onda gelada percorreu seu corpo.

Como um soco, ela não conseguia respirar. Como tudo pode mudar de um segundo para o outro? De lá de cima ela viu. Daryl encostado em canto, e Beth agarrada nele. Pelo ângulo, eles estavam se beijando.

"Não..."

Carol colocou a mão na boca para abafar qualquer ruído. Seus olhos haviam se tornado rios, ela não conseguia evitar as lágrimas grossas escorrendo pelo rosto. Como um fantasma, sem um ruído, ela deu passos para trás, rapidamente se escondendo em sua cela.

Ela não podia acreditar no que tinha acabado de presenciar. Estava alii como uma idiota. Cheia de planos e expectativas, pensando no momento em que finalmente beijaria Daryl, enquanto ele estava lá em baixo agarrado em Beth.

Beth? Meu Deus, ela tinha idade para ser filha de Daryl. Que irônico, Carol era mais velha que Daryl uns quatro anos, e se achava velha demais para ele. E ele era mais velho que Beth quantos anos? Uns VINTE E TRÊS? E tudo bem assim? Por que ele é homem, e para o homem com uma mulher mais nova não faz diferença?

...IDIOTA, IDIOTA, ESTÚPIDA... Carol não conseguia controlar os soluços, mesmo apertando a palma da mão na boca com força.

Ela precisava sair dali, ela precisava respirar. Doía mais que todos os machucados que Ed tinha infligido nela. Era uma facada no peito. ...Como eu fui idiota, me iludindo esse tempo todo?O que um homem como ele ia querer comigo? Uma mulher usada, abusada, cheia de cabelos brancos, de cicatrizes...

Carol se jogou na cama, finalmente tirando a mão da sua boca, e despejando toda a sua magoa no travesseiro. ...é claro que ele quer alguém com a Beth, perfeita, que possa encher de filhos e...

Foi-se o sol e o dia perfeito de Carol, seu coração estava nublado, e ia demorar um bom tempo para que essas nuvens fossem embora. Se é quem um dia elas iriam embora.

Ela chorou no travesseiro por um bom tempo, os olhos queimando, o nariz correndo, o peito doendo muito. Sua mente, traiçoeira, começou a trabalhar em outra magoa. Sophia. Quando você está sofrendo, todos os sofrimentos dão as mãos para atormentar ao mesmo tempo.

...Por que minha vida tem que ser assim? O que eu fiz de tão errado para ser punida, e punida, e punida?...Baby, eu queria tanto estar com você agora! Te abraçar. Ver seu sorriso. As sardas no seu rosto, seu cabelo loirinho, o seu cheirinho, bebê! Por que você me deixou sozinha aqui?Por que não voltou para aquela estrada? Eu te esperei todo dia. Eu não tenho mais ninguém. Eu nunca tive...Filha...Eu não tenho ninguém... Você foi a minha única alegria, a única. Eu queria ter ido com você naquele dia do celeiro. Eu queria...

Carol não sabe dizer se desmaiou ou passou mal, ela acabou adormecendo, de bruços, agarrada ao travesseiro.

Ela escutou o som do mar, o barulho das ondas batendo na areia, as gaivotas gritando, a brisa suave. Sophia estava lá, com um vestido florido e os pés descalços, na beira da praia. Sorrindo, correndo quando a água chegava perto dos seus pés. "Mamãe!" Ela gargalhou, e esticou os braços na direção de Carol.

"Sophia. Sophia..." Carol correu para a sua filha, abraçando finalmente, como teria feito naquele dia no celeiro se Daryl não tivesse impedido. Puxando pra perto, amassando a menina contra o peito, como se sua vida dependesse disso. "Sophia" Carol sentiu o cheiro do shampoo de melancia. O preferido, sempre o shampoo de melancia, aquele que não deixava os olhos arderem.

Sophia estava ali, ela podia tocar, abraçar, sentir o perfume do cabelo loirinho.

"Mamãe" Carol, que se ajoelhou na areia abraçando Sophia, que correspondia com a mesma intensidade. Carol não queria deixar Sophia nunca mais. Sonho, delírio, ilusão, tanto faz, não importa, era onde Carol queria ficar, naquela praia paradisíaca com sua filha.

"Mamãe" Carol olhos para Sophia, para as sardas, para o sorriso. "Eu estou aqui, viu? Não é lindo?" A menina gargalhou com a gaivota que chegou bem pertinho das duas.

"É lindo, a mamãe não vai mais te deixar, eu juro, eu prometo, eu juro" Carol soluçou. Era isso, o momento que ela esperava.

"Eu sei mamãe, mas você ainda não pode. Você tem coisas pra fazer lá...As pessoas precisam de você. Mais do que nunca." Sophia estava seria agora, ela ainda tinha o sorriso no rosto, mas olhava Carol com intensidade e conhecimento muito superior para quem tinha só doze anos de idade.

"Não, não, não. Eu quero ficar com você." Carol balançou a cabeça, ela não podia se separar de Sophia novamente, simplesmente não podia.

"Mamãe, você está parecendo uma criança mimada, só falta fazer bico" Sophia gargalhou alto. Ela se soltou do abraço de Carol, que muito relutante deixou que Sophia desse um passo pra trás. "Eu estou aqui te esperando mamãe, mas você precisa ajudar as pessoas...lá. Você me deixa tão orgulhosa. Eu tenho orgulho de ser sua filha Carol." Novamente Sophia não parecia ter doze anos de idade, era muito mais profundo que isso. "Eu estou aqui sempre que você precisar"

"CAROL? CAROL?"

Carol acordou com um chacoalhão. Ela demorou alguns segundos para se localizar. Rick estava ao seu lado dentro da cela, com Judith no colo. A adorável Judith.

"Você está bem? Eu vi todas as coisas espalhadas pelo caminho, Carl disse que você estava recolhendo roupas para colocar no sol? E sumiu!" Rick se sentou ao lado de Carol na cama. Os olhos dela estavam vermelhos. "Tudo bem?"

"Bababa" Judith esticou os braços para Carol, se jogando em seu colo. Carol não encontrava palavras para explicar. O que testemunhou entre Daryl e Beth. O "sonho" com Sophia. Ela simplesmente não tinha voz.

Antes que Carol abrisse a boca para balbuciar alguma coisa, ela sentiu o cheiro de Judith. Melancia, shampoo de melancia, aquele shampoo infantil... Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

"Yeah, tudo bem..." Eu só preciso de paciência, e espaço. Para mostrar meu valor, para crescer, para esquecer, para seguir em frente...Como sempre foi, como sempre será.

"Tudo vai ficar bem Rick..."

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Obrigada por ler

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