"Aqui do meu lado um anjo, aqui do meu lado um diabo. Nunca vire suas costas para mim. Eu te farei uma arma." Weapon- Matthew Good.

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Entrelinhas

Parte 11

O sol tinha acabado de aparecer no horizonte, os tons rosados e alaranjado faziam do céu uma pintura. Carol despertou com um arrepio ao sentir o frio da manhã. o pequeno escritório estava absolutamente silencioso, era um lugar bem seguro, e tranquilo. Um bom esconderijo, caso perdessem a prisão, e sem aquele constantes gemidos dos walkers acumulados nas cercas. Ela pulou da sua pequena colchonete, improvisada com o cobertor."AHH" Sua bexiga estava a ponto de explodir. "Xixi, pelo amor de Deus..."

Correu para o banheiro do pequeno escritório, levando sua bolsa com a necessarie, pequeno luxo que tentava manter, até onde durassem seus produtos de higiene pessoal. Com sorte teria um fio de água corrente para se recompor. Realmente, tinha um fio de água, resquício do que restava na caixa de água do deposito, foi o bastante para limpar o rosto, escovar os dentes, se refrescar. E a pior parte, cuidar do queixo, estava realmente medonho. Cortado, esfolado, roxo. ... Oh Carol! Ótima ideia usar a pedra pra amortecer a queda...

Ao sair do lavabo, ela fez uma careta ao percebeu Daryl dormindo em uma cadeira, roncando baixinho. Absurdamente desajeitado, abraçado ao crossbow, com a testa encostada no vidro da janela do escritório.

"Teimoso. O corpo dele deve estar todo quebrado." Carol balançou a cabeça de um lado para o outro. Colocou os dedos sobre os lábios, lembrando dos beijos trocados. Ela sorriu, mas nem parecia realidade, era como se tivesse sonhado a coisa toda.

... Vamos ver o ele vai fazer hoje... Um breve sorriso apareceu em seu rosto.

O estômago de Carol roncou bem alto. Sarah, Daryl, Tyreese ainda dormiam, ainda bem, pois o constrangimento não foi tão grande.

O dia anterior com metade de uma maçã e um pedaço de barra de cereais, não faziam a menor diferença na nutrição de uma pessoa adulta. Ela tentou imaginar como estaria a fome dos homens, Daryl e Tyreese! E não ficou contente com a resposta. "Eles precisam se alimentar antes da gente sair daqui. Todo mundo fraco pode ser perigoso!"

Antes de vasculhar algum café da manhã na mochila, ela parou para ver Tyreese. Colocou a mão na testa do homem, estava um pouco quente. Definitivamente febril, mas não parecia ser mortal naquele momento. ...Ele precisa de antibióticos...

"Tyreese! Bom dia." Ela disse baixinho chacoalhando levemente os ombros dele. "Oi?"

Quando os olhos dele se abriram, Carol percebeu que Ty não estava contente. Não obteve um bom dia de retorno.

"Carol..." A voz rouca, grave. "Água."

Imediatamente, ela colocou a garrafa nos lábios dele, o ajudando a beber.

Carol fechou os olhos, abaixando um pouco a cabeça "Me perdoe...A culpa é minha. Eu assustei todo mundo gritando, é que..."

"Pode parar ai. Não crie desculpas para os erros dos outros. Depois de tudo que você me contou sobre seu marido...Eu achei que você tinha parado com isso." Tyreese estava bravo. Claro. Como não estaria? Passou a noite imóvel, em cima de uma mesa de escritório, com um buraco na lateral do corpo? Com febre, com fome, a garganta queimando.

"Não é isso. Daryl não teve a intenção..." Carol falou baixinho, pra não acordar o caçador, tentando organizar seus pensamentos, mas Tyreese interrompeu novamente.

"Assim como seu marido não teve a intenção de deixar suas costas desse jeito? Ninguém nunca tem intenção de nada, esse é o problema." Tyreese estava bem amargo daquela manhã. Mas percebeu que tinha metido a mão no vespeiro com aquela frase.

"Eu entendo que você está ferido, mas isso não te dá direito de falar essas coisas. O que você sabe afinal?" Carol se levantou, ela não ficaria ali pra ser humilhada lembrando do que Ed fazia com ela.

"Se ao menos você tivesse parado de me tocar quando eu pedi... Qual a novidade, não é? Eu sempre soube, assim que as pessoas vissem as minhas costas começariam a me julgar... "Por que você não deixou seu marido antes" Sempre assim." Carol murmurou para Tyreese,um tom baixinho, mas arredio.

"Espera! Me desculpe. Suas costas, essas marcas, essas cicatrizes...Eu não estou te julgando! Só não dá pra ficar quieto vendo isso..." Tyreese segurou a manga da roupa dela.

Carol soltou o ar do pulmão, ela nem percebeu que estava segurando.

"Passei do meu limite, eu sei..." Ele respirou fundo e se contorceu de dor. O abdome todo estava terrível. "ARGH, como doe!"

"Você precisa de medicação. Só um comprimido de analgésico não é nada pra um homem do seu tamanho." Carol colocou a mão na testa dele, observando novamente mudança de temperatura.

"Carol" Tyreese mirou no azul dos olhos dela. Ela tinha bolsas escuras ao redor dos olhos, o queixo bastante machucado. Terrível. "Eu não pensei que a coisas fossem sair do controle assim...Tava tudo tão programado, tão organizado. Até o Daryl inventar de vir junto. Eu pensei que essa menina fosse dar trabalho, e no final... Se fosse só eu, você e a Sasha, a gente já tinha voltado pra prisão, e estaríamos instalando as placas agora, cantando e contando piadas...Como a gente tinha combinado!. Ele estragou tudo."

Carol suspirou. ...Talvez, se Daryl não tivesse se metido no meio...

"Ty...a gente precisa voltar, você precisa de cuidados. Sua febre tá aumentando." Carol se entristeceu. Ela havia adormecido tão contente e tão tranquila, embora tivesse sido apenas beijos, sem trocar muitas palavras, sem tocar em sentimentos, ela tinha ficado contente.

E agora, vendo Tyreese tão cheio de raiva...

"Daryl te prende! Três semanas sem a influencia dele, olha onde você chegou. Um dia do lado dele, olha o que aconteceu." Tyreese balançou a cabeça de um lado para o outro, inconformado.

"NÃO! Tyreese..." Carol aumentou o tom de voz, mas logo voltou a falar baixinho. Daryl e Sarah ainda dormiam. "Você tem ideia de quantas vezes ele salvou minha vida?"

"Salvou a sua vida, mas não é dono dela!Só me escuta! Durante três semanas eu vi você. O que você fez na prisão. Quanto você ajudou. Carol, você é tão fantástica, inspiradora! E quando eu disse que queria você pra mim...Que...ARG" Tyreese se encolheu de dor ao tentar se sentar.

Carol ficou realmente surpresa, com os olhos arregalados.

"Você me quer? Mesmo?" As palavras simplesmente escaparam da boca de Carol. Tyreese estava mesmo dizendo aquilo?

Tyresse balançou a cabeça positivamente e continuou.

"Daryl... Ele resolveu que também queria. Posso ter sido um jogador antes, mas você não é um premio, não é um troféu pra mim! Meu medo é que pra ele você seja. Daryl não fez nada até agora, e de uma hora pra outra resolveu que também te quer, só porque agora tem alguém pra competir? Só porque eu disse que ia lutar por você."

"Lutar por mim? Não é...Ele...não é assim!" Carol desviou o olhar de Tyreese, ela puxou um banquinho, sentando-se ao lado da mesa, colocando suas mãos nos joelhos. Olhou para Daryl ainda encostado na janela, as palavras morreram na sua boca. "Eu não vou permitir que você fique falando mal do Daryl. Veja tudo que ele fez pela gente..."

"Tsc...Eu estou falando de você Carol, não do grupo." Tyreese balançou a cabeça.

"Tyreese, você quer me manipular, só por que está com raiva dele? Porque o Ed vivia fazendo isso..." Carol não queria, ela não podia deixar que as palavras de Tyreese criassem raizes. ...

...Algumas palavras entram e não saem mais. Sei disso melhor que ninguém...

"Pelo amor de Deus, não me compare com aquele maldito... Carol, você muito mais que isso, ninguém vai te manipular, eu só estou dizendo a verdade." Tyreese olhou para ela um tanto quanto ofendido, mas a verdade, ele estava magoado, ferido, com febre...

"Competição? Eu virei um premio de bingo ou poker pra vocês?" Pensativa. Ela fez cara feia

"Não pra mim. Esse é ponto dessa conversa, Carol" Tyreese segurou a mão dela carinhosamente, a palma dele estava muito quente. "Não deixe que ele brinque com você."

"Não, quem brinca com ele sou eu." Carol sorriu, ironicamente, era verdade. Ela sentiu os olhos enchendo de água.

...Durante todo esse tempo, ele não correspondeu as minhas brincadeiras, ele quase nem me tocava. De repente mudou? Pode ser?...

"Eu acho que nós dois. Você e eu. Podemos construir algo daqui por diante. Algo real. Eu nunca te trataria como seu ex-marido, como ele. Eu não te deixaria sem ao menos dizer adeus..." Tyreese apontou para Daryl adormecido na janela. "Me de uma chance, tudo que eu peço e um pouco de tempo e paciência. Eu posso te proteger, eu posso criar um mundo bom pra você Carol...Eu, você a Sarah podemos formar uma família."

... Tempo e paciência pra construir algo juntos? Justamente...

Carol não podia negar, qualquer mulher sonha em escutar isso de um homem. Proteção, carinho, família...Tudo que ela sempre quis, nunca teve...mas...

"Tyreese...Eu não posso mentir. Eu...eu...tenho sentimentos por ele. É óbvio!" A voz de Carol era um murmúrio. Ela olhou mais uma vez para Daryl adormecido e abaixou a cabeça, com as mãos ainda nos joelhos, ela apertou a calça.

"E ele? Pensa bem! E ele? Você não é uma garota, você é uma mulher, madura! Forte, inteligente. É demais pra ele!" Tyreese não escondeu a decepção em seu olhar ao ver Carol admitindo seus sentimentos abertamente, mas não era o fim.

"Olha, lembra...Por que você estava chateada com ele até ontem? Não queria nem ficar no mesmo lugar que ele? " Tyreese passou a mão sobre a bandagem, estava doendo pra caramba. Sem analgésico próprio, ele tinha que agüentar.

Carol balançou a cabeça, não querendo responder .

Carol se calou por um tempo, matutando o que havia sido conversado. Finalmente Carol encontrou sua voz novamente. Tyreese era um homem bom. Ele poderia prover proteção, normalidade.

...mas...o que eu faço com esse coração acelerado quando o Daryl me olha?...proteção, normalidade, é o que basta? e o amor?...

"Ty, eu não quero mais falar sobre isso..." Carol agarrou a mochila com os mantimentos. "Por favor."

"Ok, não vou mais te perturbar. Só pense em tudo que eu te disse! Pense em como você esteve forte e confiante nessas últimas semanas..." Tyreese relaxou, finalmente.

Culpa da febre talvez, culpa da raiva que sentia por Daryl Dixon naquele momento, Ty simplesmente sentiu vontade de falar tudo que estava preso na garganta.

"Coma isso, ok? Eu preciso te levar de volta a prisão, nem que seja a ultima coisa que eu faça. Novamente...Sinto muito , de verdade." Finalmente ela se moveu.

Vasculhando a mochila encontrou mais um pouco de comida, alguns enlatados, que ofereceu para o homem a sua frente. Salvando um pouco para Sarah e Daryl quando acordassem. "Vou acordar a Sarah, pra que a gente volte logo..."

Antes dela se afastar, Tyreese passou a mão no braço de Carol. E disse baixinho.

"Não faca isso. Não se responsabilize por ele. Não faça do Daryl um novo Ed. Você chegou tão longe sozinha, pra voltar atrás só por causa dessa viagem..."

Carol não respondeu, quebrou o contato com a mão dele e se afastou. Agora ela era uma enorme bola de duvidas. ...Obrigada Tyreese... Ela pensou sarcasticamente.

O que Carol não tinha pensado depois dos beijos de ontem, veio a tona com as perguntas de Tyreese.

Comendo sua parte da comida, Carol escutou Sarah e Daryl acordando. Ficou imóvel, olhando para o nada...Lembrando...

Carol se lembrou daquele dia na prisão. Do beijo entre o caçador e a caçula dos Greenes, e toda dor que sentiu naquele dia, sensação de traição, de engano, de desperdício. Qual a diferença dele pro Axel ? Quando Carol precisou chamar a atenção do bigodudo! Beth é quase uma criança, como ele pôde?

Carol não faria isso novamente. Ou faria?

Desperdiçando seu amor com quem não merecia?

Alguma coisa tinha se quebrado naquele momento na prisão, ela não tinha esquecido disso! Beth e Daryl agarrados em um canto, no andar de baixo. Escondidos. Quantas vezes aconteceu antes? Quantas vezes aconteceu depois?

Quantas vezes Carol tentou se aproximar, sem sucesso? Enquanto Daryl e Beth trocavam beijos escondidos por aí? Foi só a Beth? Ou as outras mulheres de Woodbury também? Carol vivia recendo olhares atravessados das outras mulheres. Elas se jogavam em cima de Daryl. Enquanto ela sonhava que significava algo pra ele?

Outro machucado veio a superfície, Daryl partiu com Merle sem dizer adeus. Ela não importava nem um pouquinho pra ele? Que ao menos voltasse para se despedir, antes de partir com Merle! Claro que ela entendia o código dele, mas lá no fundinho machucava quando se lembrava disso.

Daryl voltou sim, mas não foi por ela. Ele estava lá pelo grupo, por Rick, por Carl, por Judith...Beth! Pra ter um lugar pra dormir e pra "mijar". Daryl nunca vinha atrás de Carol, sempre ela tinha que ir atrás dele. Com comida, com uma palavra de boas vindas, com um carinho.

Daryl nunca reservou atenção a Carol antes, desse jeito...Como ontem!

Talvez Tyreese tivesse razão? Talvez Daryl estivesse se movendo agora só porque tinha alguém pra competir?

A caça ficou divertida de repente?

Mas o coração de Carol não era nenhum bicho pra ser caçado. Já tinha sido ferido suficiente para duas vidas.

"Bom dia." Timidamente Daryl sorriu pra Carol, depois de sair do banheiro, secando o rosto e cabelo molhado com uma pequena toalha. Ele tinha enfiado a cabeça debaixo da torneira pra despertar de vez.

Carol estava tão perdida nos seus próprios pensamentos que nem percebeu sua própria resposta. "Ah Bom dia."

"Hei! Eu tava pensando a gente podia..." Daryl balançou o corpo, como se tivesse tomando coragem pra chamar Carol para um canto, e tentar começar a conversar, mas foi interrompido pela voz dura de Carol.

"Melhor a gente voltar logo pra prisão! Não estou afim de passar outra noite aqui."Ela se levantou de repente, parou na frente dele, passou uma mão no cabelo prateado, e outra parou na cintura, e olhou para qualquer direção que não fossem os olhos de Daryl Dixon.

Ela se moveu, dirigindo-se para Tyreese e Sarah que comiam frutas enlatadas.

"Ok" Daryl disse um pouco surpreso.

Carol continuou...

"Eu e o Daryl vamos tentar te levar pro carro usando essa mesa mesmo como maca, ok? Eu vou abrir o portão e ver como estão as coisas lá fora." Carol praticamente enfiou a lata de frutas no peito de Daryl, junto com a garrafa de água.

"Você vem?" Começou a caminhar para a porta do deposito, deixando Daryl, Tyreese e Sarah sem palavras.

"HEY... Mandona, ou o que?" Daryl engoliu o café da manhã improvisado de uma vez só, pegou o crossbow e a seguiu. Carol já estava na porta de entrada do galpão. A menina a seguiu, lado a lado.

"Sarah, você já pode ir para a caminhonete, ok? Não saia de lá! Tyreese a gente vem te buscar em seguida."

Sarah obedeceu.

Daryl estranhou a distancia que Carol estava impondo.

E Carol? Carol não diria mais nada.

Daryl que se pronunciasse a respeito. Ela tinha decido três semanas atrás não correr mais atrás dele. E assim faria.

Tyreese sorriu.

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Obrigada por ler

Reviews sempre são bem vindos! Muito obrigada Leticia! ^.^

Tyreese, seu malvadinho...

Colocou um anjinho e diabinho nos ombros de Carol Peletier hehehehe

E Daryl, seu tonto, fala logo o que você tem que falar!