Capítulo 3 (final) - Obliviate
Como se metade de seus problemas tivessem deixado seu corpo, Draco sentiu-se confortável, depois de muito tempo sem saber o que significava tal palavra. Mais do que isso, Draco sabia. O ódio de seis anos de inimizades, intrigas e rivalidades não podia se converter em amizade. Era uma coisa forte demais que somente seria subjugada por outra força de mesma intensidade ou maior. A força que Dumbledore julgava ser a maior de todas e que certamente o Lorde das Trevas desconhecia. Draco pôde sentir os cabelos de Harry passarem por seu rosto e irem se encostar em seu pescoço, seus braços envolverem suas costas e seu corpo vir de encontro a ele, trazendo calor e alívio, conforto e, mesmo, paz. Como que aceitando o fato, os olhos momentaneamente arregalados de Draco se cerraram e abriram-se novamente pequenos e ternos e ele também envolveu Harry, sentindo um calor humano que não se lembrava de antes ter sentido.
Por um ou dois minutos permaneceram daquele jeito, ambos não falaram nada e pareceram aproveitar imensamente o momento, mas não queriam voltar a se encarar, como se tal ato significasse acordar de um sonho bom e perceber a dura realidade. Ambos os garotos perceberam nesse momento a reciprocidade do que sentiam e, por mais confuso que pudesse parecer e mesmo por mais inapropriado nos tempos em que viviam, era como se vissem o outro lado da história, o ponto de vista de Dumbledore, que na época de guerra, amor nunca era demais. O poder capaz de unir Slytherin e Gryffindor, capaz de unir um Death Eater e um "Soldado de Dumbledore", capaz de unir em mente e corpo Draco Malfoy e Harry Potter. Enfim afrouxaram os braços e se afastaram, tornando a se encararem fixamente, com uma imensa tensão entre ambos. De fato, com o fim do momento, um balde de água fria os trouxe de volta para a realidade, com menores mudanças.
- Por te atacar no trem, peço desculpas... – Malfoy já havia desviado o olhar de Harry e se colocava de pé, parecendo melhor e bem disposto, sem olhar para trás. Harry não parecia acreditar no que estava acontecendo e chegou a pronunciar o nome de Draco, mas ele já estava se dirigindo à porta e deixando Harry para trás da Sala do Requerimento. Harry ficou olhando para a porta ainda estupefato por alguns momentos, sentado na cama, iluminado pelas velas encantadas que não acabavam até o amanhecer na pequena janela.
Gryffindor havia saído vitoriosa na partida de Quidditch e a comemoração na Sala Comunal de Gryffindor havia virado a madrugada. Ginny brilhantemente mantivera Cho impossibilitada de apanhar a Golden Snitch até que Gryffindor tivesse tempo suficiente para abrir a larga vantagem que necessitava para vencer a Taça de Quidditch. Ron também fora brilhante e os únicos seis gols que deixou passar foram em cobranças de penalidades à favor de Ravenclaw. Por conta disso, a ausência de Harry até próximo às três da manhã não pareceu alarmar ninguém, exceto Hermione, que parecia não acreditar que a detenção com Snape tivesse durado tanto tempo. Contudo, sem ter nada com o que refutar a mentira, Hermione acabou aceitando o fato.
Durante o café da manhã seguinte, Harry procurava se interessar pelo que pareceu ser a centésima vez que Ron contava de suas espetaculares defesas, mas sua mente estava apenas fixa em Draco. Crabbe e Goyle pareciam levemente desajeitados na mesa de Slytherin naquela manhã, sem a presença de Draco, como era comum naquele termo. Harry só podia imaginar um lugar aonde Draco poderia estar, mas sabia que era inútil ir até lá tentar encontra-lo. Depois de tudo, tinha ainda pilhas e pilhas de deveres de Transfiguration e Defense Against the Dark Arts para fazer até o dia seguinte. A semana seguinte passou como todas as outras, conforme os boatos de Harry envolvido com Dark Arts e a vitória de Gryffindor no Quidditch pareciam perder a importância, conforme mais um fim de termo rapidamente se aproximava. Logo mais um sábado chegou e novamente uma detenção com Professor Snape para ser encarada.
Severus parecia especialmente perturbado naquela tarde, demais para se importar em irritar Potter como de costume. Alguma coisa estaria dando errado em seus planos? Draco estaria bem? Naquela noite, eram apenas nove horas quando Snape liberou Harry da detenção, ao que Harry logo aproveitou para olhar no Marauder's Map. Harry esteve se perguntando durante toda a semana se deveria falar para Dumbledore sobre Draco, falar que ele era de fato um Death Eater, mas falar que acreditava na inocência dele. Para isso, infelizmente, teria de se lembrar que ocultar o acontecido não seria possível, uma vez que Dumbledore era mestre em "Legilimens", e Harry não estava preparado para contar a ninguém o que acontecera no sábado anterior. Estava em um impasse, talvez sua omissão dos fatos causasse a Malfoy um mal maior do que a revelação dos mesmos. Decidiu que iria procurar Draco. De qualquer maneira, ele não havia revelado nada, além de seus próprios temores por se envolver com o Lorde das Trevas e não seria justo com ele tomar essa decisão sozinho.
Como ele suspeitava, enquanto caminhava, Draco não estava em nenhum lugar provável ou mesmo improvável, mas para sua surpresa, ele aparecia no mapa, e estava na Sala do Requerimento! Harry se apressou ao sétimo andar imaginando se a porta estava aberta ou o que poderia ser aquilo, quando de súbito pareceu que seis nomes haviam piscado no Marauder's Map próximo a Malfoy. Teria sido sua impressão? Harry podia jurar que por um ou dois segundos vira nomes surgirem e desapareceram ali e, certamente não eram estudantes. Harry teve a incômoda sensação de ter lido "Greyback" ali. Tão velozes quanto surgiram, os nomes sumiram e Harry correu para o sétimo andar, sem ser detido por Filch ou nenhum outro aluno, professor ou monitor. Ao chegar, realmente a porta jazia aberta e ele hesitou por um momento. Talvez encontrasse alguma cena bizarra do outro lado, talvez tivesse sido apenas sua impressão, um defeito do mapa que, afinal, nem deveria mostrar aquela sala.
Harry entrou ao mesmo tempo que Draco do outro lado aproximava-se da porta. Os dois assustaram-se, mas logo o susto de Harry passou enquanto Malfoy ainda parecia grandemente atordoado. Harry acabou de entrar e não parecia notar nada de mais ali. Um cômodo com algumas poltronas, candelabros e uma lareira ao fundo. Ainda assim, para Draco era como se Harry fosse a última pessoa que ele esperasse/quisesse encontrar ali. Harry não notou nada de incomum na sala, muito menos rastro de que alguém estivera ali. Harry encostou a porta atrás dele enquanto Malfoy parecia se conformar com a verdade. Na mente de Malfoy, ele estava amaldiçoando Crabbe e Goyle pelo seu desleixo de largarem a porta aberta ao saírem. Severus já havia lhe falado para escolher melhor seus aliados, mas o próprio Severus era alguém em quem ele não confiava. Severus nem ao menos sabia o que Draco vinha fazendo naquela Sala durante todo o termo. No entanto, alguém em quem ele confiava estava diante dele, ali parado.
Harry não imaginava que a Sala onde Malfoy sumira sempre era algo tão simples. Imaginava uma câmara complexa, mas parecia apenas uma sala para reuniões particulares. Mas com quem? Foi quando os olhos de Harry encontraram a lareira e tudo pareceu fazer um assombroso sentido. Greyback, o lobisomem aliado a Voldemort, Death Eaters, a lareira. Estaria Malfoy encarregado de abrir um caminho para os Death Eaters invadirem Hogwarts? Harry não pôde conter a pergunta e logo aproximou-se mais do que o necessário de Malfoy e lançou-lhe um olhar firme, sem mencionar seu mapa e o que vira nele, perguntando exatamente o que seus temores lhe diziam. Draco pareceu hesitar por tempos e tentar desviar o olhar, mas Harry estava determinado e quando parecia que Draco iria sair dali, Harry o segurou pelos braços forçando-o a olhar para ele, no fundo de seus olhos e tornou a perguntar o que ele estivera fazendo.
Pressionado por Harry, Draco decidiu agarrar a chance na sua frente e como se estivesse sob uma forte pressão, como se Harry estivesse usando "Legilimens", o que não estava, foi liberando as respostas. Draco detalhadamente narrou a Harry o modo como havia percebido a passagem secreta que ligava a Borgin 'n Burkes e como estava levando tempo para fixá-la, sem o conhecimento do Professor Snape, através da Sala do Requerimento. Malfoy não revelou o grandioso final de sua missão, o grande objetivo que o Lorde das Trevas havia lhe passado, mas depois de contar muita coisa, Harry pareceu não pressionar mais Draco para lhe dizer nada. Draco parecia levemente orgulhoso de suas ações, embora Harry tivesse notado que não era apenas aquilo e que o que ele contara não era a verdade completa, que havia algo maior, verdadeiro motivo pelo qual ele temia tanto a própria morte. Se Severus realmente não sabia dessa parte da missão, então qual fora a Promessa Inquebrável dele? No que é que Draco estava realmente envolvido e estava tendo dificuldades?
Harry não pressionou mais Draco. Ao invés disso, o soltou e, organizando seus pensamentos, sugeriu que Draco procurasse Dumbledore. Draco imediatamente recusou a hipótese, mas Harry insistiu que era o melhor a se fazer. Então, como que numa brusca mudança, Draco parecia ter se arrependido do que contou, se afastou de Harry e disse que não podia deixar Harry à par daquilo. Ainda pego de surpresa, Harry se viu diante de Draco empunhando sua varinha.
- Obliviate! – bradou Draco, enquanto Harry sacava a varinha.
- Protego! – o feitiço do esquecimento de Draco foi bloqueado e se voltou contra ele, mas ele se jogou no chão antes de ser atingido, enquanto Harry novamente mirava nele – Impedi...
- Expelliarmus! – e a varinha de Harry voou de sua mão antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Malfoy se pôs de pé e mirando em um indefeso Harry, gritou novamente – Obliviate! – Mas Harry se ocultou em uma poltrona, escapando do feitiço por centímetros. Sabia que não seria capaz de escapar por muito mais tempo. Então, concentrou-se, sabia que podia conseguir, e mentalizou "Accio varinha!". Sua varinha rolou no chão, hesitante, depois flutuou até sua mão silenciosamente. Quando Draco surgiu à sua frente, Harry o atingiu com um Knockback Jinx, lançando-o contra a parede próxima, acompanhado de um grito de dor.
Draco pareceu ter se enfurecido com a súbita recuperação de Harry e se recuperando, cerrou os dentes encarando Harry, que também o encarava. Por um momento, varinhas em punhos, nenhum dos dois se moveu, tentando ler nos olhos do oponente o próximo passo. Quando Malfoy rompeu o silêncio, foi para grande surpresa de Harry.
- Sectumsempra! – Harry desviou o corpo para a direita, suficiente para não ser talhado no rosto, insuficiente para escapar ileso, enquanto sua veste acabava de cair do braço esquerdo, revelando um profundo corte diagonal em seu pulso, que sangrava amplamente, jorrando sangue aliás. Tomado por ódio e se sentindo "traído" de certa forma, Harry não pensou muito no próximo passo enquanto Draco parecia arrependido pelo último golpe, assustado conforme o sangue de Harry jorrava. Ainda com força, Harry bradou:
- Crucio! – fazendo assim Draco cair no chão, largando a varinha, com a dor pungente de milhares de agulhas entrando-lhe na carne continuamente a partir do tórax, aonde a varinha de Harry estava apontada. Ficando fraco pelo sangramento em seu pulso esquerdo, Harry começou a sentir sua visão embaçada e largou a varinha de sua mão trêmula, caminhando instintivamente para Draco, que ainda parecia estar sofrendo pelo efeito da Maldição Cruciatus. Harry não tinha muito mais controle sobre seu corpo em virtude do sangue perdido e gostaria muito que Madam Pomfrey estivesse ali para estancar seu sangramento, mas não era possível. Se esforçou para avançar em Malfoy, que se sentara e o olhava com certo desespero.
Harry conseguiu sentir o corpo de Malfoy antes de perder a consciência. Conseguiu tatear a mão de Malfoy e a apertou com toda a pouca força que restava em seu ser, tentando se erguer, mas a visão parecendo se cerrar e as velas lentamente se apagando ao redor. Harry conseguiu sentir o colo de Malfoy e ver seu rosto antes de não poder distinguir mais nada. A última coisa que viu foi Malfoy empunhando a varinha, então ouviu "Obliviate" e sua visão se apagou. Harry pôde, então, sentir como se alguém levantasse seu corpo, uma mão atrás de sua cabeça o aproximando do que pareceu ser um rosto e algo gelado pingando em sua face indo escorrer pelo canto de sua boca entreaberta. Salgado. Logo, não tinha mais paladar e nem parecia mais respirar, mas ainda pôde sentir um forte calor em seus lábios e algo pareceu envolver seu corpo num aperto quente enquanto novamente algo gélido pingava em seu rosto enquanto seus lábios eram pressionados e aquecidos por algo que ele nunca seria capaz de saber o que foi...
Harry acordou na manhã seguinte em uma cama de enfermaria, parecendo exausto, incerto sobre o que havia acontecido. Sua última lembrança era um estranho sonho, como se ainda sentisse nele arder o calor inebriante em seu corpo. Sentiu-se fraco ao tentar se sentar em seu leito e voltou a deitar. Madam Pomfrey logo veio a seu encontro, reclamando que ele teria de ficar ainda um dia inteiro em repouso, depois de perder muito sangue. Harry não fazia idéia de como viera parar ali e por um segundo, sem seus óculos, teve a impressão de ver Draco Malfoy na porta da enfermaria, mas ao recolocar os óculos, não viu ninguém ali e ficou a se perguntar por que razão Malfoy iria estar observando-o, se convencendo de que fora uma alucinação. Aparentemente toda Hogwarts parecia estar sabendo do misterioso acidente que Harry sofrera na noite anterior, envolvendo uma misteriosa Sala que surgia e sumia e uma luta épica contra seres das Trevas. Harry não se lembrava de nada disso e sua memória dos últimos dias estava turva e confusa.
Após, enfim, sair da enfermaria e ouvir Hermione dizendo que foi irresponsabilidade dele querer treinar sozinho contra trolls na Sala do Requerimento, Harry teve de agüentar as habituais pessoas apontando para ele com olhares curiosos, desdenhosos ou mesmo assustados e as habituais zombarias dos alunos de Slytherin. Quando passou por Malfoy, entretanto, Harry percebeu que este não parecia estar se divertindo com a situação, apenas virou-se e continuou a fazer o que estava fazendo, para estranheza de Harry. Na mesa dos professores, Severus pareceu perceber a sutil mudança de Malfoy com relação a Potter em silêncio, e em sua mente aguçada, logo as coisas começaram a fazer sentido. Harry sentou-se à mesa de Gryffindor e logo, com Ron e Hermione discutindo como habitualmente, Harry acabou aceitando os fatos e esqueceu-se da Sala do Requerimento, do estranho comportamento de Malfoy e do perigo iminente pelo qual passava Hogwarts. Na mesa de Slytherin, Draco procurou esquecer o que havia acontecido e compreender que o que quer que tivesse de fazer, teria de ser sozinho. Se estava condenado, manteria consigo apenas a sentença, não envolveria mais ninguém.
Fora capaz de estancar o sangramento que provocara em Harry na Sala do Requerimento e puxa-lo para fora, quando o Professor Snape encontrou a cena incomum e com seu olhar habitual hipnotizante, um excelente "Legilimens", perguntou a Malfoy o que acontecera. Draco, por sua vez, era ótimo em "Occlumens" e conseguiu evitar Snape de se inteirar da verdade, inventando que acabara de encontrar Potter ali naquela sala após ouvir ruídos de luta do lado de dentro. Severus pareceu duvidar muito de Malfoy, mas o urgente era levar Potter para ser tratado por Madam Pomfrey antes que pudesse morrer, não que tal ato fosse algo inconcebível para Severus Snape, mas Draco aproveitou o meio tempo para sumir em seu dormitório e Severus não tornou a procura-lo. Mais uma vez Harry olhou de relance para Malfoy no Salão Principal, mas, enfim, pareceu ter superado completamente o estranho sonho que tivera e não se atreveria a contar a ninguém. Talvez para Ron, mas essa já era outra história...
Legenda:
Gryffindor – Grifinória
Slytherin –
Sonserina
Ravenclaw – Corvinal
Hufflepuff –
Lufa-Lufa
Quidditch – Quadribol
Death Eater –
Comensal da Morte
Marauder's Map – Mapa do
Maroto
Dementor – Dementador
Mudblood –
Sangue-ruim
Trolls - Trasgos
Moaning Myrtle –
Murta que geme
Knockback Jinx – Azaração
"repelente"
Golden Snitch – Pomo de ouro
Triwizard
Tournament – Torneio Tribruxo
Transfiguration –
Transfiguração
Defense Against the Dark Arts
– Defesa Contra as Artes das Trevas
