Disclaimer: Alcançamos o penúltimo capítulo do mangá neste penúltimo capítulo da fanfiction, que coincidência. E, como vocês já sabem, nada além da ruiva problemática me pertence. Ueda é um sobrenome que aparece bastante em mangás, o mesmo para colégio 'Sekai' (já que autora do mangá nunca os mencionou por que não usá-los aqui também, não é?), Michiru veio da Sailor Neptune e Akira (comum também, mas nesse caso especifíco) do samurai cego de Samurai Deeper Kyo. Não acho que eles façam um casal (clossover doido seria esse Oo), só aconteceu de eu precisar de nomes e os deles vieram depressa à mente.
Já havia cinco meses desde que o estágio acabara e ainda assim havia uma grande quantidade de cartas em sua caixa do correio naquela manhã todas de alunas desejando um ótimo ano letivo. Aquilo devia ter algo a ver com o fato da presença dele na escola secundária ter sido percebida durante a estadia dele na casa dos Sasaki, afinal, já fazia duas semanas desde que adotara a rotina de deixar e buscar a filha do Sasaki-sensei nos portões da escola. Não era a primeira vez que passava alguns dias na casa do professor, ele era seu tutor e amigo de seu pai afinal, e era sempre muito agradável conviver com a esposa dele e, claro, com Ayano.
Mesmo sendo um tanto inconveniente ficar atravessando a cidade dia sim dia não para pegar muda de roupa, livros e arrumar o próprio apartamento onde morava sozinho durante sua estadia preventiva nos Sasaki, Rihito estava aproveitando muito bem a mudança. Era ótimo chegar tarde da aula e ter comida pronta o esperando na mesa, incentivos maternais de sua anfitriã e um sorriso alegre e jovial da mocinha de quem ele gostava tanto. Mocinha essa que era o motivo da presença dele na casa, o Narumi estava ali para garantir que ela não se metesse nas encrencas dos namorado deliquente dela.
É verdade que ele estava preocupado com sua segurança e futuro ao lado do herdeiro da máfia e faria qualquer coisa ao seu alcance para separá-los, no entanto, algo em seus sentimentos em relação à garota havia mudado desde o último ano. Ele só não saberia explicar o quê.
Ainda estava lendo uma das cartas quando alguém ocupou o lugar ao lado do seu.
"Bom dia!"
Quando ela não reclamou por ele não ter respondido, Rihito se viu obrigado a desviar o olhar da carta, intrigado com o comportamento da amiga. Se surpreendeu com a velocidade astronômica com a qual ela digitava mensagens no celular e também com as olheiras bem marcadas sob seus olhos claros.
"Você está péssima," ele avaliou.
"Que lisonjeiro," ela foi sarcástica, fechando o celular e sorrindo radiantemente em seguida. "Mas ao contrário do que você pensa, estou ótima! Passei a noite respondendo mensagens de incentivo dos alunos do Sekai," e revelou, super orgulhosa.
Mas o Narumi parecia mais admirado por outro motivo.
"Eles têm seu email?"
"Claro, prometi manter contato e aparecer no próximo festival cultural," respondeu como se fosse óbvio.
Ele não teve tempo de considerar o que ele achava daquela dedicação extra trabalho porque o celular tocou. Antes que Hitomi atendesse no entanto, pôde ler Ueda-sensei na tela.
Ueda era o diretor da Sekai, o que ele poderia querer com uma ex estagiária e àquela hora da manhã?
"Um jantar?" A Yamano pareceu surpresa depois de escutar o interlocutor, "Mas é claro! É perfeito, meus irmãos estão numa excursão com a escola nos próximos três dias, então estou sozinha em casa."
Rihito que até então estivera tentando se concentrar na leitura, colocou a carta na mesa e virou-se para a mulher incrédulo ao escutá-la dizer, "Vou deixar a porta destrancada para o caso de eu estar no chuveiro quando você chegar. Você pode ir preparando a comida enquanto isso."
A conversa se estendeu por mais uns bons minutos de risos contidos e mais detalhes dos planos para aquela noite por conta de Hitomi, mas tudo que Rihito conseguia pensar era como, quando, onde e por que. Desde quando a amiga tinha aquele tipo de intimidade com o diretor Ueda? Ele não era quase vinte anos mais velho? Ele era comprometido? Não, pelo que se lembrava nunca o vira na companhia de uma mulher que não fosse do meio profissional. Mas como ele e a Yamano tinham se aproximado daquela forma?
Aquilo não era certo, uma mulher jovem e solteira recebendo um homem mais velho em casa, sozinha. Aquilo estava muito errado.
Porém, quem era ele para dizer alguma coisa quando estivera nutrindo sentimentos pouco platônicos em relação a uma garota mais nova? E Hitomi não o julgara uma única vez. Mas decidiu logo que tinha o direito de ficar bravo por ela nunca ter dividido aquilo com ele. Eles eram amigos, não eram?
"Ok, te vejo amanhã às dezoito. Tchau," ela terminou a ligação com um sorriso gigante que, por algum motivo, apenas o deixou mais irritado. Estava para comentar algo sobre a conversa até que notou o semblante estranho dele, "Algum problema?"
"Nenhum," a resposta dele foi evasiva, quase fria.
Quando a Yamano ia pressioná-lo por uma resposta mais elaborada, o professor entrou na sala anunciando uma prova surpresa. Terminando a avaliação em tempo recorde, o Narumi resolveu tirar o resto do dia de folga até o horário de buscar Ayano no fim da tarde.
Mesmo depois de passar a manhã e a maior parte da tarde tentando se recompor, ali, à presença de Ayano falando sobre o namorado, Rihito se lembrou da conversa de Hitomi mais cedo. Acabou descontando suas frustrações na pobre colegial que fora resistente o bastante para estapeá-lo antes que a beijasse sem pensar.
"Finja que isso nunca aconteceu," ele disse antes de sair da sala e se encostar na parede do corredor se sentindo o maior idiota do mundo.
Só porque os sentimentos dele estavam perturbados não queria dizer que ele podia fazer o mesmo com os de alguém tão indefeso quanto a Sasaki. Principalmente não com ela.
A noite foi turbulenta, certa ruiva telefonou um par de vezes para deixar mensagens em sua secretária eletrônica pedindo para que ligasse assim que escutasse, estava preocupada com seu sumiço. E na manhã seguinte, após poucas horas de sono, estava mais esclarecido e resolvido. Primeiro precisava se desculpar com Ayano, aquele seria o passo mais fácil de seu plano.
O segundo já tinha entrado em processo há muito tempo, ele só nunca se dera conta que era admitir para si mesmo que o que sentia pela garota não era mais o mesmo. Um amor de adolescência que tinha se idealizado com o passar dos anos.
O terceiro e último passo seria também o mais difícil: aceitar que amava outra pessoa e que, mais uma vez, a pessoa já tinha o coração tomado. E a culpa era só dele por não ter notado e agido antes.
Ayano pareceu mais receosa em confiar nele de novo do que ele imaginara, fazendo-o se estapear internamente de novo por ter agido de forma tão imperdoável com a mais nova. E impotência o consumiu quando viu homens de preto a jogarem dentro de um carro. O que mais ele poderia fazer além de ligar para o moleque que sempre fazia questão de falar mal? Nada, então foi o que fez após um breve instante de hesitação antes de destruir boa parte de seu orgulho.
Depois de tanta luta e aflição, Ayano estava a salvo e ele sendo a única pessoa além dela no meio de dezenas de mafiosos. Por algum motivo, apesar de toda violência empregada minutos antes nos raptores da mocinha, Rihito não sentia nenhuma aura de repressão e opressividade, muito pelo contrário, havia um familiar sentimento de camaradagem entre todos ali, reunidos por uma única causa, uma única pessoa. E por mais que Ayano fosse a causa dessa pessoa, o restante estava ali por causa dele, Kagura Yuuto.
"Crianças crescem rápido, Narumi."
Se lembrou das palavras da amiga no ano anterior e por mais que doesse no que restara de seu orgulho, se viu obrigado a admitir em voz alta.
"Eu meio que te reconheço um pouco agora," falou para o loiro a contra gosto, conseguindo imaginar muito bem a expressão de 'eu te disse' da amiga se ela estivesse ali para presenciar a cena.
Se despediu do casal de pombinhos após dar sua bênção indireta e se dirigiu até onde estacionara o carro, olhando para o relógio de pulso. Já passava das dezessete e não conseguiu se impedir de imaginar o rosto feliz da ruiva recebendo um velhote em sua casa uma hora antes. Àquela altura eles já devia ter terminado de jantar, não é? Lhe causou repulsa pensar em qualquer outra coisa adiante.
Entrou no automóvel e suspirou um suspiro longo e cansado de quem está perturbado demais para fazer algo além disso. E foi com a testa apoiada no volante e olhos fechados que imaginou se estaria ficando louco. Podia ouvir o risinho típico e baixo da ruiva quase como se ela estivesse bem ao lado dele.
"Eu. Te. Disse." Hitomi cantarolou brincalhona do banco de trás.
O susto que ele tomou arrancou risadas dela e por um longo momento ela só ficou rindo e ele olhando-a perplexo.
"Você agiu quase como um irmão mais velho cedendo a mão da irmãzinha em casamento," a Yamano disse indicando com o dedo o lugar onde se despedira do casal colegial.
"O que você está fazendo aqui? Como você entrou? Desde quando você está aqui?" as perguntas dele se atropelavam e só a divertiam mais, mas em um ponto ela tirou um marshmallow da sacola de papel que tinha no colo e enfiou na boca dele.
"Você não atendia minhas ligações e nem apareceu na aula, então vim atrás de você. Quando você desceu para usar o celular. E desde quando o rapto aconteceu." Respondeu antes de sair e ir se sentar ao lado dele. "Você estava tão desesperado que nem me notou, não é? Eu mesma estava bem tensa aqui atrás pensando em como ajudar."
Que perigo teria sido de um dos mafiosos que raptara Ayano tivesse pego Hitomi. Ela não tinha valor nenhum como isca e não tinha nada de inocente em sua figura feminina, curvilínea, então o destino que a aguardaria era bem obscuro nas mãos maliciosas daqueles homens nojentos. De repente, a surra que tinha dado em boa parte deles não tinha sido o suficiente.
"Imaginei que minha presença mais atrapalharia, então fiquei quieta. Mas se Fujioka-kun tivesse demorado um segundo a mais eu teria chamado a polícia," ela continuou a dizer, alheia ao redemoinho de emoções do amigo, engolindo um marshmallow.
"Você não devia estar num jantar?" Rihito mudou de assunto, virando o rosto para o outro lado.
"Eu estava voltando do mercado quando vi você, então liguei para Michiru-san avisando que eu não estaria em casa," explicou oferecendo outro doce a ele quando o Narumi se virou confuso para fitá-la.
Michiru? O nome do diretor não era Akira?
"O que foi?" Por um momento ela dividiu confusão com ele e então, como que lendo sua mente, sorriu ferina. "Não, espera. Ueda Akira, né? Ah, Narumi sua mente suja me surpreendeu agora."
"O que você esperava que eu pensasse, sua louca?" Ele se irritou, como sempre acontecia quando ela o provocava.
"O certo, ora. Que a boa e velha Hitomi resolveu ceder a própria casa para Ueda Michiru fazer um jantar de desculpas ao marido Ueda Akira depois de ela ter incendiado a cozinha deles no começo da semana." Explicou fazendo questão de frisar os nomes dos convidados.
Ah, claro, como se ele pudesse adivinhar aquele tipo de coisa. Mas pelo menos agora ele se lembrava de Michiru e Akira com mais clareza, ambos era apenas uma década mais velhos que eles e estavam sempre sentados lado a lado nas reuniões e confraternizações, ainda que não fizessem contato físico. A esposa sempre pareceu gostar da ruiva como a uma irmã mais nova, as duas se davam muito bem.
"Me desculpe." Ela merecia, afinal ele tinha feito suposições muito sérias. "Eu não sei o que eu pensei."
"Eu sei, eu sei." E enfiou outro doce na boca dele, "O que seria de você sem mim, né? Aceito sua cozinha como pedido de desculpas já que a minha está sendo usada por um casal de meia idade," ela dramatizou prendendo o cinto de segurança.
Tomando a deixa, o homem colocou o carro em marcha. Essa noite ao invés da comida deliciosa da senhora Sasaki, ele comeria alguma iguaria chamuscada em seu solitário apartamento, exceto que essa noite não seria solitário.
Se eu fosse a Hitomi, teria medo de deixar a amiga chegar perto de um isqueiro, que dirá da minha cozinha inteira depois de botar fogo na dela...
Depois com o incidente do rapto da Ayano, acho que o mais natural seria que Narumi saísse da casa do Sasaki, afinal, ele só estava lá para garantir que ela não se aproximasse de Yuuto. Depois de dizer que reconhecia o namorado dela, seria estranho se ele continuasse de guarda, certo?
