Disclaimer: Bem, moçada, enfim o último capítulo. Nada além da ruiva me pertence, mas ela foi o suficiente pra mudar tudo. A capa deste projeto (tirado do capítulo 08 do mangá) foi objeto de inspiração para o início dessa passagem final. Enjoy.
Narumi Rihito estava com um problema.
"Seu troco."
"Obrigado," agradeceu lançando um meio sorriso à moça do outro lado do balcão.
O modo como os olhos dela pareceram saltar como corações e o sorriso bobo unido de um rubror no rosto garantiram ao moreno que o problema não era seu charme sedutor (ou a falta dele, diga-se de passagem). Mas então porque certa ruiva não reagira da mesma forma que aquela atendente das últimas vezes que sorrira daquela forma? Dois dias antes, após uma apresentação importante na universidade o sorriso ainda estivera aliado ao olhar mais profundo que já brindara alguém, a gravata meio desfeita e os primeiros botões da camisa abertos sob o paletó, provavelmente a imagem mais sensual que poderia sustentar em um local público. Quando a maioria das garotas que conhecia coraria até o último fio de cabelo ou se sentiria compelida a tomar alguma iniciativa, Hitomi o surpreendeu.
No sentido mais frustrante da palavra, claro.
"Parece cansado, querido. Já pode ir para casa descansar, fizemos um ótimo trabalho como sempre; você merece." E como faria ao irmão mais novo, bagunçou as madeixas negras dele antes de tomar o acento ao lado e começar a tese que apresentariam dali um mês.
O gesto da amiga, apesar de totalmente platônico, o fez corar como um menino às portas da adolescência e, agindo como um diante à humilhação, seguiu o conselho dela e foi pra casa, batendo toda porta em seu caminho com força. Quando qualquer reação que esperava conseguir naquela hora viesse a calhar em seus planos, Hitomi conseguiu colocar tudo por água abaixo tratando-o como uma criança.
Suspirou pesado e olhou para a sacola em seus braços, só havia pacotes de marshmallow. Tinha virado um vício, muito embora não fossem tão apelativos quanto tinham sido quando a Yamano os colocara em sua boca. Infelizmente, quando pensava nela sentia vontade de comer as bolinhas macias e como a ruiva não saia de seus pensamentos ele estava correndo sérios riscos de engordar se não fizesse algo a respeito logo.
Sua cozinha era outra coisa que a trazia facilmente à mente. Ao contrário do que imaginara inicialmente, a moça cozinhava muito bem a despeito do que Suzume lhe dissera certa vez sobre ela não cozinhar tão bem quanto o avô. Só podia imaginar que belo chef o falecido vovô não devia ser para a neta mais velha viver à sombra de suas habilidades na visão dos mais novos. Ele nunca tinha comido outro hambúrguer à alemã para comparar, mas não podia evitar dizer que os que amiga preparara para ele eram perfeitos.
Meia hora antes, quando acordaram lado a lado embaixo do kotatsu na sala dele, o rosto dele a centímetros do dela a primeira reação da Yamano foi suprimir um bocejo com a mão e dizer que ele podia usar o banheiro primeiro. Eles tinham estudado até de madrugada, ela tinha passado a noite no apartamento de um homem e tudo que ela dizia era aquilo?
Talvez quem tivesse um problema fosse ela.
"Café da manhã," ele brincou ao abrir a porta, recebido por silêncio.
Depois de checar o banheiro e o quarto sem nenhum sinal da Yamano, o Narumi voltou à sala com uma expressão preocupada. Sobre a mesa do kotatsu faltavam alguns livros e no lugar deles estava um pedaço de papel.
'Dever chama onee-chan.
Não esqueça de passar a limpo a última página do exercício.
Kissus,
H.'
Que raio de recado era aquele? Era o que ele queria saber, mas se tratando da ruiva era bem típico. Se tivesse parado por aí.
O par de dias que se seguiu foi incrivelmente... Vazio. Quando finalmente se deu conta do que havia de errado, estava fazendo um trabalho em sala com um colega tagarela. Nunca, nunca durante aqueles quase quatro anos de graduação Rihito fizera dupla com alguém senão Hitomi e aquilo soava muito errado.
Olhou para o outro lado da sala e a ruiva ria de qualquer coisa que a parceira dela dissera, os demais poderiam não saber, mas ele sabia. Aquela era a risada 'meu Deus, você disse uma coisa muito estúpida' misturada com a risada 'espero que isso não seja contagioso', ele não precisava de mais nenhum indício para saber que ela não queria trabalhar com aquela loira. Então porquê os dois estavam separados?
Foi a partir daí, avaliando o comportamento de Hitomi, que o moreno foi juntando as evidências de um 'gelo'. Ela estava evitando-o como a praga, não passava o almoço com ele, na biblioteca sempre sentava na mesa mais cheia, sem lugar para ele ao lado dela, conversas nas trocas de sala eram rápidas e as idas ao snooker bar, algo que eles faziam quase todo fim de tarde, viraram lenda.
"Ok, o que você fez?"
À porta dos Yamano, Rihito esperava qualquer tipo de recepção ao tocar a campainha menos uma agressiva por parte do único integrante masculino da casa. Kotaru tinha um olhar feroz bem ameaçador para alguém de quinze anos o que era bom pro caso de algum malfeitor resolver aparecer por ali. Mas ele não era nenhum malfeitor.
"É o que eu gostaria de saber," passou a mão pelos cabelos de uma forma desolada. O mais novo deve ter percebido seu estresse porque relaxou a postura. "Sua irmã está bem?"
"Eu não sei," Kotaru admitiu, dando espaço para que o outro entrasse. "Ela vive tropeçando e vermelha e às vezes a ponto de chorar. Achei que vocês tinham brigado."
Ela mal parava para conversar com ele, que dirá brigar, mas era muito vergonhoso falar aquilo para o rapaz então ficou quieto, deixando-se guiar para a sala.
Quando se sentou no sofá, uma figura feminina surgiu nas escadas. Infelizmente não era a Yamano que esperava.
"Narumi-san!" Suzume o cumprimentou com um sorriso muito parecido com o da irmã. "Vou servir um chá, onee-chan fez um bolo maravilhoso ontem."
"Não se incomode, eu só quero falar com ela."
A mocinha desviou o olhar para o irmão que também parecia desconfortável encostado na parede e voltou a olhar o moreno.
"Hitomi-onee-chan não quer descer," ela explicou como num pedido de desculpas.
Arqueando uma sobrancelha, Rihito viu uma sombra que contrariava as palavras de Suzume. Se os dois mais novos estavam ali com ele, a figura sorrateira escondida na escada só podia ser uma pessoa.
Muito discretamente, se levantou e fingiu se dirigir à porta e numa mudança rápida de direção, flagrou a ruiva sentada nos degraus.
"E pensar que você usaria seus irmãos para me colocar para fora. Que covardia, Yamano."
Pega totalmente desprevinida, ela quase rolou escada abaixo enquanto subia correndo, quase engatinhando para chegar no hall dos quartos. Rihito no encalço dela, subindo três degraus por vez.
Ele a viu bater o quadril na cantoneira ao escorregar fazendo a curva fechada para o quarto e gemer de dor. E antes que ela pudesse se trancar lá ele estava ali, segurando a porta a um centímetro de ser fechada.
"Não!" Ela gritou fora de si tentando com todas as forças impedir que ele entrassem.
"Só quero como conversar como uma pessoa normal," ele pediu, mas a amiga nunca fora normal e naquele exato momento não seria diferente.
Quando ele usou mais força e escancarou a porta os dois pararam um instante, perdidos numa batalha de olhares. Pela primeira vez ele notou a diferença de altura entre os dois com ela descalça, parecia muito delicada e indefesa. O sorriso predador que se formou em seus lábios foi involuntário. Ele também não estava mais na categoria de pessoas normais e no segundo seguinte ele estava avançando, reiniciando a caçada.
Rápida, a Yamano derrubou a cadeira da escrivaninha na frente dele, resultando numa queda formidável por parte do Narumi, dando tempo o suficiente para ela chegar no closet do outro lado da cama. Quando ela se trancou (de alguma forma) lá dentro, o Narumi pausou o frenesi insano e suspirou profundamente, se jogando no chão, encostado na parede abaixo da janela.
Ninguém disse nada por um bom tempo, só conseguiam escutar a respiração um do outro normalizando gradativamente.
"Narumi, você precisa ir embora," ele quase entrou em pânico ao detectar choro na voz dela. "Amanhã conversamos. Por favor."
Só que ele sabia que eles não conversariam e se outro trabalho em dupla fosse exigido ele estaria preso ao cara tagarela de novo.
"Só preciso saber o que eu fiz de errado."
"Você? Nada."
"Então eu quero minha melhor amiga de volta," era sofrido pensar nela só como amiga, mas melhor do que como passar como um desconhecido.
"Não, você não entende," a ruiva fungava e falava embargado. "Não sou uma boa amiga."
Ah, certo. Depois de todas as horas que ela dedicara ouvindo os problemas dele e de meio mundo, era difícil concordar naquela questão.
"Ultimamente tenho esquecido o meu lugar." Ok, agora ela conseguira confundi-lo. "Me dê alguns dias e a velha Yamano vai voltar."
"Eu não posso esperar alguns dias, Hitomi," a ouviu arfar quando o primeiro nome escapou dos lábios dele. "Há semanas eu tenho tentado falar isso para você. Eu-"
"Não!" Ela o interrompeu soluçando. "Não, não, por favor, Narumi! Eu sou só a Yamano, lembra? Irmã, mãe de criação de duas crianças e a colega de sala mais irritante que alguém pode ter, certo?"
Agora ele entendia. Ela estava com medo. Talvez por conta do estilo de vida que levava, virando o pilar da família tão cedo, sempre acostumada a ser julgada e marginalizada por causa de sua aparência exótica, endurecendo as próprias defesas para proteger os irmãos, ser o solitário farol guia deles. Talvez por ter se julgado forte estando sozinha há tanto tempo a aterrorizasse a ideia de começar a depender de alguém ao invés de estar lá para que dependessem dela. Bem, ele estava disposto a lidar com medo.
"Não pode ser a Hitomi do Rihito também?" E fechou os olhos quando a amiga prendeu a respiração.
"Mas... Mas eu sou praticamente uma mãe solteira," ela balbuciou quase arrancando uma risada dele. "Meu cabelo é estranho e você odeia minha motocicleta!"
"Sempre gostei dos seus irmãos e acho que é recíproco. Seu cabelo é provavelmente o ponto na sua aparência que mais gosto e aprendi a suportar sua coisa depois de tantos anos." Ele replicou essas e as demais questão que foram levantadas depois delas, a maioria tão bobas quanto.
"Tem noção que isso muda tudo?" Seu tom era quase baixo demais para ser ouvido. "E a Ayano-chan?"
Dessa vez ele riu.
"Ela está muito bem com o Kagura," como se ela já não soubesse daquilo. "E tudo já tinha mudado naquele dia há quatro anos, eu só demorei para perceber."
O silêncio se fez presente de novo até o barulho da porta de correr do closet quebrá-lo. Ele olhou para o lado e só viu a mão dela, um pedido mudo para ajudá-la a sair dali.
Ele levantou e a puxou para fora, não exatamente esperando que ela chocasse o corpo contra o dele, afundando o rosto no tecido de sua camisa.
"Me desculpe," provavelmente por molhar a roupa dele.
"Nunca a tomei pelo tipo choroso," ele provocou, satisfeito em arrancar a reação desejada dela que imediatamente desenterrou o rosto de seu peito para encará-lo feio.
E foi a chance que ele precisava para tomar os lábios dela. Um beijo que até então nem ele sabia que ansiava há tanto tempo.
Se separaram ofegantes e Rihito a abraçou apertado.
"Ok, agora não tenho mais certeza se seu cabelo continua sendo meu favorito," ele brincou beijando-lhe as madeixas flamejantes, arrancando uma risada dela.
Mal puderam curtir o clima romântico e um ruído seguido de maldições sussurradas no corredor chamou a atenção do casal que foi se separando antes do segundo beijo.
"Acho que devemos uma satisfação às crianças," ele suspirou, um braço rodeando a cintura dela e o rosto apoiado no topo de sua cabeça. Ela riu diabólica antes de se soltar, dar um rápido e ousado selinho nele e puxá-lo em direção à porta.
"Você não faz a mínima ideia do interrogatório que o espera."
E assim termina minha mini-aventura por um mangá super fofo.
'Kotatsu' é um móvel comum no Japão, uma espécie de mesa baixa com edredom elétrico, talvez seja mais fácil jogar no Google Imagens pra ter uma ideia melhor. 'Kissus' é 'kisses' pronunciado por japoneses, ou seja, pronuncia de 'beijos' em inglês muito ruim. (lol)
Eu me diverti, vocês se divertiram? Espero que sim! Deixe sua opinião e vamos mudar o mundo criando OCs para os solteiros de plantão do universo dos mangás (oi?)!
Kissus,
Lecka-chan
