Eragon fitou-a incrédulo:

- O que você está querendo dizer com isso?

- Você sabe. Eu morei naquele castelo maldito, onde o núcleo das conversas era sempre sobre você, sei que Carvahall foi destruída, que Murtagh o traiu, e agora percebo que você é apaixonado por Arya.

- E a parte que fala do medo e da atitude certa? O que você sabe sobre o meu destino? – Ele estava confuso e desconfiado, milhares de pensamentos passaram por sua mente.

- Acalme-se cavaleiro. Nada sei sobre o destino, eu apenas deduzi o quão perdido você está.
Eragon estava pasmo, ela era sorrateira e observadora. A desconfiança o dominou e ele se levantou:

- Não estou perdido, sei exatamente o que tenho que fazer, e por sinal, isso só diz respeito a mim, Blackniss – Um sentimento altamente defensivo cresceu dentro dele – Cuide em causar uma boa impressão e em não mentir, pois agora você acabou de abalar a confiança que eu tinha em você.

Virou-se para sair, mas a garota-elfa levantou-se e segurou seu braço firmemente, fazendo-o sentir a força de uma mão delicada. Saphira e Nyx olhavam de um, para o outro, sem dizer nada, e de vez em quando se entreolhavam como cúmplices.

- Perdoe-me se fui indelicada e inconveniente Eragon Elda, essa não era a minha intenção. Não disse que você não sabe o que fazer da sua vida, quis dizer que você ainda não decidiu como vai realizar seus planos. – Seus olhos tremeram quando ela o soltou, como se lhe custasse muito cada palavra – Eu só quero ajudar a todos que eu puder. E não farei isso porque tenho um bom coração, pois não julgo que tenho, me tornei tão incapaz de amar quanto uma porta, mas farei porque vivi entre aqueles que vocês querem destruir. Passei muito tempo naquele ambiente onde o ar é pesado, e até as próprias paredes parecem querer se libertar.

Eragon evitou seu olhar quando ela terminou de falar, ele acreditava em suas palavras, mas ao mesmo tempo, sentia que não devia confiar nela, talvez porque a garota conviveu com Murtagh e sua traição tenha sido a mais dura para ele, ou simplesmente porque havia gostado dela.

- Não sou mais nem menos do que pareço ser, mas se você não quiser confiar em mim e acreditar nas minhas palavras, não posso fazer nada. – Ela o soltou e continuou. – Mas ainda assim peço desculpas, eu só queria mostrar que te entendo... Mas pelo visto, não mostrei do jeito certo.

Ele suspirou e sentou-se novamente, ela fez o mesmo e ficaram em silêncio por um longo tempo, olhando a paisagem, até que Saphira disse abertamente:

Deixamos o acampamento sozinho! Mas podem ficar aqui, eu e Nyx podemos dar conta do recado. E acrescentou somente para Eragon: Converse com ela, você sabe o que deve fazer.

– E sem mais, levantou vôo com Nyx ao seu lado.

- Eles estão se dando bem. – Comentou Niss, tentando recomeçar a conversa, mas como Eragon não disse nada, impacientou-se. – Ora, diga alguma coisa!

Ele a olhou e por um momento não conseguiu dizer nada, procurava dentro de si uma razão para continuar bravo com ela, mas não conseguia encontrar.

- Eu acredito em você...

Ela sorriu. Então uma dor intensa no lado direito do corpo o fez soltar um grito de surpresa: Saphira! O que aconteceu? Ela não respondeu, mas ele conseguiu tirar imagens da mente dela, Urgals se aproximaram do acampamento enquanto eles estiveram fora e agora atacavam. Aparentemente, Nyx também foi atingido por alguma coisa, pois Blackniss passava a mão no pescoço com uma expressão de desespero. Eles se olharam e um segundo depois, correram de volta a toda velocidade, desembainhando suas espadas e se preparando para o que quer que fosse acontecer.

Quando chegaram, se depararam com um caos no acampamento, as barracas foram destruídas e muitos soldados haviam caído, os que sobraram lutavam incansavelmente, a direita, Arya enfrentava sozinha dois Urgals, os quais, Eragon reparou, eram mais baixos que o normal, mas somente quando um dos que estavam a direita matou um soldado e se dirigiu para ele, foi que percebeu que eles na verdade pertenciam a uma outra espécie, tinham a pele avermelhada com manchas amarelas, semelhante a peixe em decomposição, seu rosto era mais parecido com o de um humano, mas algo semelhante a chifres saia dos dois lados do maxilar, seus dentes eram leoninos e seus olhos estranhamente negros. Ele ergueu uma clava pontiaguda, ao qual ele desviou sem dificuldade, para ele os golpes pareciam lentos, apesar de fortes, não foi difícil derrubá-lo, uma vez que estava preocupado com Saphira e Nasuada, ao mesmo tempo em que queria ajudar Arya.

Eu estou bem, estamos tentando impedir que mais deles entrem no acampamento.

Tranqüilizou-o a parceira.

Mas você está sem armadura Saphira! Tome cuidado, eu já estou indo.

- Preciso ajudar Saphira. – Disse ele a Arya, quando a alcançou.

- Vá, eu vou procurar Nasuada. – E dizendo isso, se afastou depressa.

Ele apressou-se, por cinco vezes teve de parar para lutar, na terceira levou um forte golpe na perna esquerda, que o fez perder o ar por alguns segundos. Estava a seis metros do final da área do acampamento, quando viu o que Saphira e Nyx estavam fazendo: se protegiam atrás de uma barreira de fogo, onde um grupo de trinta daqueles Urgals diferentes brandia suas calavas e berravam em protesto, enquanto os dragões atacavam com a calda os poucos que ousavam tentar passar.

O fogo resolve contra eles, segundo Nyx. Explicou Saphira, quando Eragon aproximou-se e subiu em seu dorso.

Onde está a Blackniss? Perguntou olhando para os lados.

Mas não precisou de uma resposta, uma figura vinha a toda velocidade pelo lado esquerdo do acampamento, em direção a Nyx, e quando se aproximou, fez algo que Eragon jamais poderia ter esperado. Pulou sobre Nyx, que deu a ela impulso com o próprio corpo, lançando-a através das chamas. Antes de cair no chão, a cavaleira terminou o feitiço que murmurava enquanto corria para seu dragão, então diversas coisas aconteceram ao mesmo tempo: Uma batida seca que ecoou como se tivesse sido produzida em uma caverna, uma fina poeira de areia levantava-se em sentido vertical, como se um vento intenso estivesse soprando no sentido contrário ao grupo atacante, que fez com que todos eles caíssem e, após um rugido ensurdecedor, as chamas produzidas por Saphira e Nyx se apagaram, como se tivessem sido engolidas pela terra.

Por um instante, Eragon pensou que Blackniss os tivesse matado, mas eles começaram a se mexer lentamente. A garota-elfa levantou-se e olhou-os sem dizer nada, as suas costas, um feroz dragão verde soltava jatos de fumaça pelo nariz, ao lado de um magnífico dragão azul, que observava a cena com um olhar quase tão ameaçador e intrigado, quanto o do cavaleiro

as suas costas.

Em poucos minutos os seres asquerosos começavam a se levantar novamente, o maior que estava à frente do grupo se encaminhou para Blackniss:

- Agora vejo porque disseram-me para temê-la, Senhora da morte. – Disse, com um sotaque gutural e fazendo uma reverencia exageradamente desrespeitosa.

- Não aqui Rocken. Porque veio? – Retrucou ela, e pela primeira vez, sua voz era fria e imperiosa, como se ele não merecesse sua atenção.

- Ora, não sabes? O rei a quer. – Ele ofegou no momento em que sua pele lisa e úmida começou a ressecar e formar bolhas.

- Diga-lhe que jamais conseguirá nada de mim, isto é, se chegar vivo, é claro. – Respondeu no mesmo tom, dando um risinho debochado. – Agora sumam, antes que eu os faça desejar antes do tempo nunca terem se aliado a ele.

O monstro ficou sério, parecia relutar em dar-se por vencido, mais ao olhar para trás e ver que grande parte dos seus soldados haviam caído mortos e que a própria pele estava começando a ficar em carne viva à medida que as bolhas que haviam se formado estouravam, disse:

- Tão bela para ser cruel. Você engana. – Sua voz saiu como um silvo e dando um grito, partiu junto com os outros.

Eragon olhava para a cena boquiaberto, desceu de Saphira e se encaminhou para a garota, mas antes que chegasse, ela caiu de joelhos deixando que o sangue de sua boca pingasse no chão.