A CONFIDÊNCIA
Eragon olhava para a cena boquiaberto, desceu de Saphira e se encaminhou para a garota, mas antes que chegasse, ela caiu de joelhos deixando que o sangue de sua boca pingasse no chão.
- O que são eles? Você está bem? Como você fez aquilo? – Eragon disparou a perguntar enquanto se aproximava, com Nyx e Saphira seguindo-o a largas passadas.
O dragão verde se apressou quando viu a poça de sangue que se formava a frente de Blackniss, que estava apoiada em seus braços, estes tremiam violentamente, dando a impressão, de que a qualquer momento ela fosse despencar:
- São tritões – Disse ofegante. – Estou bem obrigada. E fiz o possível.
- O que? – Gritou ele – Isso é um absurdo! Definitivamente, você não está bem!
Ajoelhando-se ao seu lado e passou os braços sobre os delicados ombros da cavaleira, ajudando-a a ficar de pé.
- Não se preocupe, estou bem. – Disse orgulhosamente, enquanto dava alguns passos cambaleantes para o lado, mas tropeçou na cauda de Saphira e caiu sentada feito um pato cego. – Ahm, talvez eu precise de um auxilio.
- Ah, claro! – Falou Eragon entre risos, esquecendo-se por um instante do estranho acontecimento. – Não irei ajudar, pois sei que você não precisa de nenhuma ajuda, vou apenas te auxiliar.
- Isso seria muito bom! – Respondeu, segundos antes de desmaiar em seus braços.
Eragon
levou-a para o núcleo do acampamento, onde encontrou Nasuada e Arya
extremamente preocupadas, contou-lhes o que havia acontecido e todos
começaram a arrumar as coisas.
- Bem, é melhor apressarmos o
passo, apesar deste lamentável encontro, acho que podemos chegar em
Surda ainda hoje. – Concluiu Nasuada, ao mesmo tempo em que virou
para dar ordens aos soldados restantes, que arrumavam para seus
companheiros mortos um enterro digno.
- Eu sabia que ela estava
escondendo alguma coisa. – Disse Arya, sua voz era sutil, mas tinha
um quê de impaciência.
- Você sabe o que ela fez? – Perguntou
Eragon, que desde aquele momento remoia-se para encontrar uma
resposta para o que vira.
- Talvez.
Eragon ficou de frente
para a elfa, olhou diretamente em seus olhos:
- Diga-me o que
acha. – Pediu.
- Acho que ela não fez nada de que se orgulhe,
mas fez apenas o que aprendeu.
Logo começaram a marcha novamente, Eragon prendeu a garota-elfa em seu dragão, ela parecia estar dormindo em um sono perturbado e incessante, pois mexia os olhos sobre as pálpebras fechadas e por vezes murmurava, mas grande parte do que falava era ininteligível. Quando fizeram uma parada, o cavaleiro pôde ouvi-la dizer:
- Soltem-me... Animais. São todos animais... Onde está... NÃO!
Ela abriu os olhos, olhou para Eragon e os fechou, amaldiçoou-se num sussurro quase inaudível e se sentou:
- Oi. – Disse debilmente, dando um sorriso sonso.
- Como você está?
- Nada mal.
- Temos que ir andando...
- Sem problemas. – Disse, dando um breve aceno com a cabeça enquanto Nyx se preparava para voar. Mas Saphira interrompeu-o bruscamente.
Não mesmo, Blackniss. Agora que acordou, você voará comigo. Ou não voará. Disse ela, ameaçadoramente.
O dragão esmeralda soltou um rugido baixo e impaciente, mas aparentemente, ele e a parceira resolveram que seria melhor não desafiá-la.
- Certo. Sem problemas. – Falou Blackniss mal-humorada, e fazendo sinal para Eragon subir, acrescentou. – Eu vou atrás, se não se importa.
Ele ficou confuso com o que a garota disse, fazendo-a rir de forma provocante. E em meio a sua confusão, ela bateu de leve em sua perna:
- Anda Matador.
Eles se acomodaram e Saphira levantou vôo, a garota élfica o abraçou pela cintura, e escondeu o rosto em seu ombro, quando uma nuvem de pó se ergueu, devido as batidas de assas do dragão perto do chão, alguns minutos se passaram, até que Eragon resolvesse o que iria perguntar primeiro:
- O que eram aquelas coisas?
- Eu já disse que eram tritões!
- Mas isso não vive na água? – Estranhou o cavaleiro, pela segunda vez.
- Vive Eragon. Mas você está pensando nas lindas historinhas que ouvia quando criança. – Explicou ela – Estes são quase tão escrotos quanto Urgals. Antes só podiam vir a superfície e andar em terra firme em uma época do ano e por um curto período de tempo, mas então Galbatorix os descobriu e fez um acordo com eles, não sei exatamente qual foram as condições do trato, mas agora, eles podem andar em nossa terra, respirar nosso ar e comer nossa comida quando quiserem.
- Então Galbatorix os enfeitiçou. – Concluiu ele, baixinho. – E o que você fez para expulsá-los? O que foi aquilo?
Ela não respondeu imediatamente, mas depois de um tempo, disse lentamente:
- Chamamos de magia invocatória, é quando usamos uma parte da nossa alma para invocar, o que poderíamos chamar de espíritos que circulam pela terra.
- Magia invocatória? Nunca ouvi nada parecido com isso! – Exclamou Eragon, chocado. Oromis jamais havia lhe falado sobre esse tipo de magia, e afinal, será que realmente era possível invocar espíritos? Havia espíritos vagando por ai? Essa informação lhe parecia quase tão bizarra, do que saber que a garota os invocou com a alma.
- Como já disse uma vez, a opção de acreditar no que digo é sua. – Falou Blackniss, com um quê de irritação na voz.
Então, você invoca os espíritos assim como fazem os feiticeiros espectrais? Indagou Saphira.
- Não. Na realidade, eles evocam os espíritos que já tiveram forma na terra, o que é diferente, e os chamam para dentro de si, mas os espíritos aos quais eu me refiro, nunca viveram realmente, não tiveram forma na terra são somente uma presença. – Explicou Niss, pacientemente. – Não sei como lhes explicar melhor que isso por que nem eu entendi como pode haver coisas assim, Galbatorix não é do tipo que senta conosco para ensinar alguma coisa sabe.
- Desculpe. – Murmurou o cavaleiro.
Então, você invocou espíritos para levantarem o ar para você? Não havia outra maneira de fazer isso? Interveio novamente Saphira, que ainda não havia se convencido.
- Não. Eu invoquei os espíritos que tem influencia no ar, e os lancei quentes e secos contra os tritões. Há outro jeito de fazer isso, mas demoraria muito. Não tinha tempo a perder.
- E porque você sangrou? Porque desmaiou?
- Toda magia tem um custo Eragon. – Disse a cavaleira, tristemente – Magia "negra" nem sempre gasta energia... Às vezes nos mutila, ou consome alguma parte de nós ou de nossa alma.
Eragon tinha muito mais coisas a perguntar, mas Saphira havia chego a Surda, e eles precisavam se encontrar com o rei para deixá-lo a par dos acontecimentos.
Antes de se encaminharem para o castelo, porém, a garota puxou a blusa de Eragon, fazendo-o virar para ela, impressionou-o a expressão de temor que havia no belo rosto da cavaleira, o que o fez procurar por aquele olhar profundo e misterioso.
- Tudo dará certo. – Tranqüilizou-a, ao mesmo tempo em que se perguntava por que havia dito aquilo.
-
Eu... Eu estou... – Mas aparentemente ela jamais conseguiria dizer
o que é que estava.
Chegaram onde estava o rei Orrin e se
surpreenderam em encontrá-lo em reunião com Islanzadí, ambos
pareceram estar a sua espera. Entrou, mas Blackniss ficou parada na
porta, ligeiramente assustada, ele a pegou braço e a conduziu para
dentro, ao que ela preferiu esconder-se atrás dele, o que não
adiantou muito, pois ela era apenas um pouco menor que Eragon.
- Sabíamos que vocês viriam. Nasuada mandou um mensageiro na frente, para que eu pudesse convocar a rainha Islanzadí. – Disse Orrin, tentando visualizar o rosto da cavaleira – Ah, por favor, sentem-se. – Acrescentou.
Eragon assentiu, mas quando foi para frente, sentiu a garota apertar o seu braço fortemente, mas continuou:
O que você tem? Perguntou com a mente, enquanto cumprimentava o rei e a rainha.
Eu... Sempre quis conhecer a rainha dos elfos. Respondeu ela, enquanto também os cumprimentava timidamente. Mas tenho medo. Confessou.
Vai dar tudo certo.
Islanzadí olhava-a atentamente:
- Devemos esperar Nasuada para começarmos a reunião devidamente, mas gostaria que me contasse tudo o que aconteceu desde que ela chegou. – Falou a rainha, para Eragon, depois de longos minutos.
Eragon contou, mas pulou as partes em que conversaram durante a noite, apesar de não ter escondido a estranha magia que a garota usara, fazendo Islanzadí estreitar seus belos olhos. Somente depois de um longo tempo, quando Nasuada chegou, foi que a reunião realmente começou, e quando a garota já havia se acalmado. Os dragões olhavam tudo com metade dos pescoços para dentro da janela da sala de reuniões.
- Então – Começou Orrin – Você diz que fugiu de Galbatorix e que quer lutar ao nosso lado agora? Como podemos saber se isso é verdade?
- Ahm... Porque eu usei a língua antiga enquanto contava? – Disse ela, sarcasticamente, com sua expressão dura e eterna novamente no olhar.
- Ah sim... – Disse Orrin, com uma engraçada expressão de quem começa a entender.
- Conte-nos toda a sua história. – Ordenou a rainha dos elfos e todos compreenderam que ela queria saber da vida da garota. Enquanto contava, as horas foram passando e o final da tarde lentamente chegando.
- Então você não sabe quem são seus pais verdadeiros? – Indagou Islanzadí.
- Não.
- Posso ver essa corrente? – Blackniss entregou a ela.
- Você sabe do que é feita?
- Não majestade.
Por um momento a rainha fez uma expressão de quem começava a entender alguma coisa, olhou atentamente para a corrente e usou uma magia para tentar quebrar as lindas pedras brancas entrelaçadas, mas foi inútil, pois elas não só permaneceram intactas, como brilharam vivamente.
- Quantos anos você tem? – Perguntou novamente, depois de vários minutos.
- É... Eu conto vinte e dois. – Murmurou a garota-elfa.
- Você conta? Como assim você conta? – Interrompeu Nasuada.
- Bem, segundo a minha mãe de criação, eu tinha dois anos quando ela me encontrou.
- Mas porque você precisa contar? Não tem data de aniversário?
- Não.
- Você nunca comemorou aniversários? – Interpelou Orrin, com uma expressão de quem achava isso um absurdo.
- Não tem comemoração para o fardo da família. – Respondeu ela, com a voz mais fria do que nunca.
Mais uma vez, a rainha fez uma expressão de total compreensão e sorriu por uns instantes, então entregou a corrente a garota, pedindo para explicar qual foi a magia que usou para espantar tritões, e a garota repetiu tudo o que disse a Eragon.
- Que horror! – Falou Nasuada, incrédula.
- Você aprendeu muitas magias Blackniss? – Perguntou Islanzadí que parecia não ter se surpreendido com o que a garota disse.
Blackniss assentiu e olhou para Eragon, ele sabia que ela detestava falar sobre o que havia acontecido no castelo.
- Então você pode nos contar as magias que Murtagh conhece. – Falou Arya, que estava parada num canto escuro perto da porta. – Pode nos contar o que ele provavelmente usará conta nós.
- Não posso. – Falou ela, simplesmente. E ao perceber que todos pareciam chocados, explicou. – Não posso porque não sei o que exatamente Murtagh sabe, Galbatorix nos treinava para que lutássemos um contra o outro.
- Como assim? – Foi a vez de o cavaleiro perguntar.
- Ele nos fazia lutar até sangrar ao final de uma semana, Murtagh sempre pareceu estranhar as magias que eu usava, e eu não conhecia as magias dele também
- Como assim? – Foi a vez de o cavaleiro perguntar.
- Ele nos fazia lutar até sangrar ao final de uma semana, Murtagh sempre pareceu estranhar as magias que eu usava, e eu não conhecia as magias dele também.
- Mas porque Galbatorix fez isso? – Perguntou Orrin, o único que parecia não ter entendido a questão.
- Ora, justamente porque se ela escapasse, não poderia nos dizer o que queremos saber. – Explicou Nasuada.
- Olha... ele é bem esperto não? – Comentou Orrin, em tom de quem comenta como o dia está bonito. Nenhum dos presentes respondeu.
- Não acho que seja apenas por isso. – Argumentou Arya, olhando atentamente para Blackniss, como se quisesse verificar se sua teoria estaria correta.
- Então diga-nos. – Apressou-a Islanzadí.
- Talvez ele não quisesse dois cavaleiros iguais, quer dizer, no mesmo nível, e sim, dois cavaleiros que se completassem. A força dos dois seria maior se não compartilhassem das mesmas fraquezas e dificuldades.
- Faz sentido. – Disse Eragon imediatamente, esperando ganhar um sorriso ou um aceno de cabeça da elfa.
- Você foi treinada por quem? – Perguntou Nasuada.
- Por uma mulher, chama-se Malórien, não sei exatamente o que ela é, nunca conversou muito comigo.
Todos ficaram quietos, pensando na longa conversa. Islanzadí ainda conservava um ar de profunda compreensão, sempre que encarava Blackniss seu rosto se iluminava, como se esta guardasse uma lembrança boa e grandiosa.
- Ainda estou curiosa – Recomeçou Nasuada – Porque aquele tritão te chamou de Senhora da Morte?
Olhar da garota-elfa congelou, mas novamente tornou-se profundo, como se houvesse um mundo dento deles, por alguns minutos ela não respondeu, mas então disse lentamente:
- Porque todos da minha família morreram por minha causa. – Mas como todos continuaram olhando-a com um quê de quem espera continuação, completou – E também, porque... Um dia Galbatorix estava furioso, deu uma espada na minha mão dizendo-me para matar um homem que estava jogado ao chão, se não a filha dele morreria por minha causa. O homem implorou-me para que o matasse, enquanto uma menininha presa com uma espada na garganta por um soldado gritava pedindo misericórdia.
- Meu Deus! – horrorizou-se Nasuada, pela segunda vez naquele dia.
Então, Islanzadí levantou-se, deu a volta na mesa se encaminhando para Blackniss, virou sua cadeira, de modo que ficasse de costas para a mesa, e agachou-se, de modo que somente Eragon pudesse ouvir o que falava e fazia.
- Acredito em você criança, embora fique muito curiosa por saber como ela conseguiu ter você. – Começou a rainha. – Só houve uma cavaleira entre os cavaleiros antes de você, é algo muito raro.
- Quem foi...? – Gaguejou Niss.
- Sua verdadeira mãe.
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Obrigada à
Deh Aluada Depp
Tataa
Samara 'Marcia' McDowell
Por terem deixado reviews ;)
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