A Renegada
A revelação deixou Eragon transtornado, embora ele tivesse certeza de que Blackniss ficara mais. Uma semana havia se passado desde a reunião em Surda, Islanzadí ordenou que os cavaleiros ficassem junto às tropas na Campina Ardente, ao invés de irem para Ellesméra, onde Eragon deveria completar seu treinamento com Oromis.
Durante essa semana, ele e a cavaleira haviam duelado diversas vezes, para treinar suas habilidades. A garota-elfa era muito boa, seus golpes eram bastante fortes, porém os movimentos de seus braços eram lentos e seus ataques fáceis de serem bloqueados, embora Eragon achasse, que na luta com um humano, a força de seus golpes o desarmaria facilmente.
Os dois haviam ficado muito próximos e continuaram com aquele costume de conversar durante a madrugada, porém, com menor freqüência, pois por diversas vezes ao fim de um dia, estavam exaustos, e tudo o que Eragon desejava fazer era deitar-se e entrar em seu sono desperto. Saphira e Nyx também trocavam golpes todos os dias e pareciam estar se dando muito bem, apesar de Saphira o tratar com arrogância. Em um domingo em que Eragon ocupou-se em vê-los lutando, um soldado jovem e um tanto magrelo disse-lhe que o haviam convocado para uma audiência urgente.
- Me chamou Lady? – Perguntou Eragon, entrando no pavilhão vermelho de Nasuada, que ficava no centro entre as tendas de soldados, curandeiros e membros da Du Vrangr Gata.
Quando olhou ao redor, encontrou Blackniss em pé próxima a entrada, se abanando com um leque, o sol parecia estar decidido a participar de seus feitos todos os dias. Tirando o suor da própria testa, a líder dos Varden disse:
- Nossos batedores viram Thorn voando aqui por perto na semana passada e ontem recebemos um recado dos inimigos, dizendo que Murtagh virá ao amanhecer de segunda-feira para conversar com Blackniss...
- Virá!? Então podemos pegá-lo dessa vez...! – Interrompeu-a Eragon, quando um golpe de euforia invadiu seu peito.
Deixe-me terminar. – Replicou Nasuada, com um quê de impaciência na voz.
- Desculpe. – Apressou-se a dizer.
- Ele diz que ela deve estar sozinha no topo da campina, e que se atacarmos, nos arrependeremos pelo resto de nossas curtas vidas, pois Galbatorix não permitirá outra guerra como aquela em seus domínios.
- Mas isso é um absurdo! – Proclamou rei Orrin, que estava ao lado de Nasuada.
- É a nossa chance de colocarmos as mãos nele minha Lady! – Disse Eragon novamente.
Será que eles não conseguem enxergar? Capturar Murtagh será fácil se ele estiver sozinho no topo da campina. Pensou o cavaleiro.
- As coisas não são tão simples assim Eragon. Talvez você não esteja conseguindo ver a amplitude do problema, segunda-feira já é amanhã, não temos tempo de organizar tropas e arriscar outra batalha como aquela, entende? E ainda mais, porque não sabemos o que Galbatorix fará se atacarmos Murtagh. A ameaça dele foi sutil, mas há muito mais por trás disso.
- O que acha que ele fará? – Perguntou Eragon.
- Bem, há tempo temos desconfiado de que ele está, ou estava criando uma arma para usar contra nós, algo que pudesse matar muitas pessoas ao mesmo tempo. Não, não estou me referindo àquela que eles usaram na batalha anterior – Completou a líder, ao ver que Eragon ia contestar. – Desconfiamos de algo mais difícil de ser destruído, entende? Mas é claro que não somos tão tolos a ponto de acreditar fielmente que ele não estará acompanhado por soldados, mas já tomamos medidas para assegurar que isso não acontecerá. – Concluiu, olhando para o canto direito do pavilhão, onde estava uma Islanzadí silenciosa, tão silenciosa que Eragon nem a havia notado.
- Majestade! – Disse ele, tocando os lábios em sinal de respeito. Ela assentiu:
- Bem, concluímos de que o melhor seria mandar Blackniss para falar com ele, enviamos uma mensagem de que tanto ele quanto nós, deveríamos fazer um juramento de que não enviaremos tropas para atacar uns aos outros, enquanto durar este dia. Meus encantadores já cuidaram disso, não há com o que se preocupar. Porém, é obvio que ficaremos na espreita, caso alguma coisa saia errado. Todos estão de acordo?
Um silêncio modorrento pairou entre eles durante alguns segundos, era quase audível seus cérebros funcionando furiosamente.
- Acho que é a melhor medida. – Manifestou-se Blackniss, pela primeira vez. – Não acredito que ele queira atacar, acho que Galbatorix o mandou para tentar me convencer a voltar, ele sabe que Murtagh e eu tivemos... bem, tivemos uma grande amizade enquanto eu estava no castelo; por várias vezes ele me ajudou e me protegeu.
- Não acho que você deva se encontrar com ele. – Disse Orrin sério, já havia algum tempo que Eragon tinha notado os olhares cobiçosos do rei para ela, o cavaleiro poderia apostar sua nova espada feita pelo elfos de que ele estava apaixonado pela cavaleira e cada vez que pensava nisso, um sentimento de desprezo pelo rei de Surda se apossava dele.
- É o melhor que pode ser feito. – Falou Nasuada novamente.
- Mas e se algo acontecer e não conseguirmos interferir? Talvez seja melhor eu e Saphira acompanhá-la. – Replicou o cavaleiro.
- Você precisa completar seu treinamento antes de lutar com Murtagh novamente, Eragon. Não há outra maneira, iremos arriscar. – Concluiu a rainha dos elfos.
Eragon não disse nada, mas ainda não concordava com aquela decisão. Somente quando Nasuada os dispensou para que fossem se preparar para o dia seguinte, confessou à Saphira:
Isso está muito estranho Saphira! Como Galbatorix iria pedir para Murtagh conversar com ela? Isso chega a ser estupidez.
Concordo com você Pequenino. Essa história parece muito mal contada, mas não há nada a fazer a não ser esperar, não é? Respondeu ela.
É, de fato, não há nada mais que possamos fazer.
Juntos, se encaminharam sob o por do sol para a tenda que haviam arrumado para Eragon, antes de entrar, ele olhou a tenda ao lado, que pertencia a Blackniss, pôde ver de relance que ela se arrumava para o encontro.
Talvez ela goste de ter uma companhia esta noite. Disse Saphira, com um tom insinuante na voz.
Talvez. Concordou Eragon. Mas tenho que colocar nossas armaduras primeiro. Você não está com fome Saphira? Pelo visto, Nyx foi caçar.
Não, comi o suficiente hoje à tarde, havia um ótimo rebanho à leste da campina. Respondeu ela, presunçosa.
Eragon sorriu, e começou a vestir sua armadura, que agora estava limpa e havia sido restaurada nas partes que fora amassada devido aos fortes golpes da batalha. Quando terminou, se encaminhou para a tenda ao lado, estava a três passos da entrada, quando uma voz disse de seu interior:
- Eragon! Que bom que veio, estava te esperando, mas espere um minuto, não consigo achar minha calça.
Ele aguardou alguns minutos, até que a mesma voz disse-lhe para entrar.
Blackniss estava simplesmente magnífica, vestia algo semelhante a um corpete, muito justo, mas era feito de couro revestido por uma forte malha metálica verde esmeralda, sua calça era feita do mesmo material e quase tão justa quanto a parte de cima. Suas botas de couro tinham um tom de verde mais escuro e o couro parecia ser mais grosso do que os que Eragon estava habituado. Ela sorriu para ele, seus olhos cor de mel refletiam o fogo que dançava sob um caldeirão borbulhante, os cabelos ondulados caiam sobre seus ombros descobertos.
- Você vai assim? Quero dizer, com os braços desprotegidos? – Falou Eragon, sentindo um calor se intensificar em volta de seu pescoço.
- Ah! Não, é claro que não. – Respondeu ela, que até então mantivera seus olhos fixos nele. – Você pode me ajudar a colocar isso?
Deu-lhe um casaco curtíssimo de manga cumprida, também feito de couro e malha metálica verde, o corpo da peça não chegava a ter quinze centímetros, ela se virou e ele ajudou-a a vestir, tocando seus braços quentes e sentindo como se seu pescoço fosse pegar fogo a qualquer momento. Principalmente quando ajudou-a a fechá-lo, seus botões de ouro começavam abaixo do pescoço e terminavam um pouco acima do busto da garota, ele podia sentir seu perfume doce envolve-lo.
- Obrigada. – Disse ela, dando-lhe um beijo no rosto como forma de agradecimento. Então, se encaminhou para o caldeirão, e colocou o liquido de seu interior em um copo. – Servido?
- Isso é o que você toma todas as noites?
- Sim, e é o que me impede de dormir.
- Eu não entendo porque você tem tanto medo de dormir. – Disse Eragon, enquanto experimentava a bebida.
- Se tivesse meus sonhos, você saberia. – Respondeu ela, virando toda a bebida de uma vez. – Está com fome?
- Ahm... – Começou Eragon, se perguntando se seria mais indelicado dizer que sim ou que não.
- Ótimo, eu também estou.
Ela preparou uma salada de frutas extremamente boa, ao qual eles comeram demoradamente, conversando e rindo o tempo todo, sentados no chão e encostados na cama. Muitas horas pareciam ter se passado, até que finalmente resolveram se levantar e sair para caminhar, deixando Saphira e Nyx sozinhos na entrada da tenda.
- Já deve passar da meia noite. – Comentou Blackniss olhando as estrelas.
- Como você está se sentindo? – Perguntou Eragon, que havia acabado de encostar sua mão na dela e perceber que ela estava muito gelada.
- Ah, estou bem. – Respondeu sorrindo.
- Mas está muito gelada! – Falou Eragon, pegando as mãos da garota e colocando entre as suas.
- Isso é porque estou com frio, não tenho uma capa como a sua! – Exclamou Blackniss, rindo.
- Ah! Não seja por isso minha lady, eu divido a minha com você! – Brincou Eragon, em tom cortês. Mas passou seu braço esquerdo sobre os ombros da garota, e arrumou sua capa de modo que pudesse esquentá-la.
- Muitíssimo obrigada! – Sussurrou ela, entre risos.
Andaram por mais alguns minutos, até chegarem a uma pedra alta.
- Vamos nos sentar aqui. – Sugeriu a garota.
- Claro! – Concordou Eragon.
Um silêncio pairou na campina, no qual ele a abraçava para protegê-la do vento frio da noite, tentando ignorar a sensação de que alguém os olhava.
- É muito bom ter uma companhia. – Blackniss recomeçou a conversa. – Ainda mais com alguém com uma capa super quente que acolhedora.
Eragon riu e olhou-a nos olhos.
- Quando te conheci, jamais cheguei a pensar que ficaríamos tão próximos! Você era muito misteriosa. – Brincou ele, fazendo uma imitação mal feita dos olhares intensos que ela costumava usar.
- A pára! – Gargalhou a garota élfica, dando-lhe um tapa no braço. – Você é que era muito sério, todo desconfiado. – Revidou Blackniss, fazendo uma careta e causando novas gargalhadas entre ambos.
- Ora! Não seja tão vingativa Blackniss! – Eragon conseguiu dizer, quando recuperou o fôlego.
- Ah! Por falar nisso, já está na hora de você parar de me chamar de Blackniss, não gosto desse nome! Me chame de Niss, assim como Nyx.
- Niss, é muito meiguinho para a Senhora da Morte. – Provou ele.
- Seu chato! Estou falando sério!
- Tudo bem! – Concordou Eragon, olhando-a com uma expressão estranha. – Isso parece muito intimo.
- E você não quer nada que seja intimo? – Perguntou ela, ainda com ar de brincadeira.
- Não. – Disse ele, sério. – Muito pelo contrário.
- E tem algo mais intimo que isso? – Questionou ela, com ar intrigado.
- Tem! – Sussurrou ele, aproximando seus lábios aos delicados lábios da cavaleira. O leve contato deu-lhe uma estranha sensação de que seria melhor ir mais além. Colocou a mão direita no rosto delicado de Blackniss, intensificando aquele momento, mas uma voz o fez recuar por alguns segundos.
Eragon!
Agora não Saphira. Respondeu ele, quando a garota apertou sua mão levemente a fim de não deixá-lo interromper o beijo.
Arya está atrás de você.
Como se estivesse recebido um balde de gelo, Eragon afastou-se rapidamente e olhou para trás, Arya estava oculta pela sombra de uma pedra, mas sua visão privilegiada não se deixava enganar. Ele sentiu o olhar da elfa perfurar o seu, antes que ela saísse andando a passos largos, ele olhou para Blackniss sem saber o que dizer.
- Tudo bem Eragon. Vá. – Murmurou ela, lançando-lhe um olhar profundo e indecifrável.
Ele olhou-a intensamente por alguns segundos, então tirou sua capa e embrulhou a cavaleira.
- Perdoe-me. – E sem mais, saiu correndo atrás da elfa. Sem ver a única lágrima que caiu dos olhos da garota deixada para trás.
Droga, o que eu fiz? Pensou Eragon enquanto se aproximava da elfa.
- Arya, espere! – Pediu ele na língua antiga. Ela parou, mas não se virou.
Ele a contornou, de modo a poder olhar nos olhos da elfa, sua expressão era serena, mas alguma coisa nela parecia estar lhe dando um ar impaciente:
- Arya... Me desculpe. – Foi o que ele conseguiu dizer.
- Você não precisa me pedir desculpa cavaleiro – respondeu ela tranquilamente – eu apenas não gostaria que você se distraísse muito.
- Não me distraí! – Exclamou ele, inconformado.
- Ótimo. – e sem dizer mais uma palavra, se distanciou, deixando-o confuso e arrependido.
Alguns minutos depois, Eragon caminhava lentamente de volta para sua tenda, sem perceber realmente o caminho que seguia para esta, só parou quando ouviu vozes exaltadas sair de uma das tendas próximas:
- Eu sei o que você está fazendo Islanzadí. – Disse uma voz serena – e lhe adianto que ela não vai gostar disso!
- Ora! Então você sabia o tempo todo e não nos disse nada, Ângela? – vociferou a rainha dos elfos.
- E por um bom motivo, não é? Vocês estão usando Blackniss. Ela ficará furiosa, todos esses anos em segredo, todos esses anos se recuperando do que vocês causaram.
O silêncio se estabeleceu da mesma forma como foi quebrado. Eragon não entendia. Porque estavam usando Blackniss? O que haviam feito a ela afinal? E como assim todos esses anos? Mas antes pudesse chegar a uma conclusão, a voz de Nasuada quebrou o silencio:
- Porque, afinal, ela não veio nos ajudar até agora? Sabe que precisamos dela.
- Você realmente iria ajudar aqueles que no passado não acreditaram em você? – Indagou Ângela, furiosa.
- Como assim não acreditaram? – Disse a líder dos Varden, extremamente confusa.
- Ohh! Conte a ela Islanzadí, conte sobre a renegada.
As vozes cessaram quando um barulho metálico ecoou entre as tendas, só então Eragon percebeu que havia entalado uma perna num balde enquanto caminhava, sem perceber, para a origem da discussão. Com uma magia, ele se desentalou e saiu o mais rápido que pôde, com o coração mais acelerado do que o normal.
Obrigada à
A.P.A Depp (Deh Aluada Depp)
Por terem deixado review ;)
Gente, nem vem, eu sei que vocês lêem, dá pra ver num gráfico o número de visitantes da fic.
Não custa nada deixar um comentário!
Se continuar assim, vou ser obrigada a parar de postar os capítulos, já que ninguém aprecia!
Quem comenta, desconsidere tudo.
E quem adicionou no alertas, obrigada!
