Capitulo 1

Lua de Prata II

- Já viram o óptimo professor que arranjamos? Se ele for tão liberal durante o resto do ano já ganhou uma "fã"! – exclamou em tom de brincadeira Makoto, fazendo o sinal de aspas com os dedos ao prenunciar a palavra .

As raparigas soltaram uma risada e seguiram Makoto até uma mesa próxima, onde estava sentada uma rapariga de curtos cabelos azuis.

- Bom dia, Ami-chan! – cumprimentaram Usagi e Minako.

- Bom dia meninas! – responde Ami com um luminoso e gentil sorriso.

- Ai! – suspirou Minako enquanto se atirava, literalmente, para uma das cadeiras que estavam por perto. – Isto sabe mesmo! Estamos dentro de uma sala de aula, mas é como se não estivéssemos.

Usagi soltou uma risada, sentando-se também.

- Professor parece simpático. – comentou distraidamente, observando o homem que continuava entretido com a revista, folheando uma página de tempos a tempos, parecendo realmente interessado no que lia.

Usagi sorriu. Aquele ano lectivo seria, no mínimo, interessante.

***

A brisa fresca batia-lhe no rosto enquanto caminhava distraidamente pelas ruas de Tokio. Os seus olhos focavam o chão cinzento, enquanto pensava em algo indefinido. Não tinha muita noção daquilo que a rodeava, apenas dos pensamentos disformes e confusos que assaltavam continuamente a sua mente, abstraindo-a de tudo o resto. Sentia-se, acima de tudo, frustrada! Frustrada por não conseguir perceber os sonhos estranhos que perturbavam durante a noite, fazendo uma dor no peito aparecer e lhe indicar que algo de mau estava para acontecer.

Por mais tentativas que fizesse, o fogo não a ajudava na sua demanda sem fim aparente. O medo consumia-a, corroendo lentamente cada pedaço do seu ser.

Oh, tanta que era a distracção naquele momento… Apenas quando sentiu que batia em algo é que voltou a ter consciência da realidade que a rodeava. Praguejou mentalmente.

"Parece que a distracção da atabalhoada da Usagi a abandonou para se vir prender a mim", resmungou em pensamento enquanto tentava perceber o que tinha acontecido. Foi quando tomou consciência da rapariga, alguns meros centímetros mais baixa do que ela, que estava à sua frente, esfregando a testa com uma expressão de dor estampada no rosto.

- Desculpa. – disse num tom educado estudando a rapariga com o olhar. – Estava distraída, não queria de forma alguma…

- Não faz mal. – interrompeu-a a rapariga enquanto a encarava com um sorriso meigo.

Foi aí que Rei pode observar o verde líquido dos seus olhos profundos e meigos, que pareciam sorrir-lhe. O cabelo da rapariga, de um castanho claro, quase dourado, brilhava à luz solar, criando uma aura relaxante em torno dela.

- Rei Hino! – apresentou-se Rei estendendo uma mão.

Mais uma vez a rapariga sorriu, estendendo também a sua mão e apertando a de Rei em forma de cumprimento.

- Ayumi Fujiwara. – apresentou-se e o seu sorriso dócil e cativante insistia em permanecer, trazendo a Rei uma paz de espírito indescritível.

Apertar a mão daquela rapariga e vê-la sorrir parecia tão certo, tão natural, até mesmo familiar. No seu íntimo, sentia como se não fosse a primeira vez que o fazia.

Observou pela primeira vez o uniforme cinzento que a rapariga trazia. A saia às pregas que lhe batia um pouco acima do joelho, tendo mesmo assim as pernas cobertas pelas altas meias brancas que lhe iam até aos joelhos. A gravata negra, por cima da camisa branca dava-lhe um certo ar de executiva e era impossível não reconhecer o famoso símbolo bordado no pequeno bolso do casaco cinza. O símbolo do Colégio Internacional de Tokio… Mas como seria isso possível? O nome da rapariga era tipicamente japonês! Sentiu uma onda de curiosidade invadi-la…

- Andas no Colégio Internacional de Tokio? – perguntou, deixando transparecer todo o seu espanto.

Ayumi soltou uma pequena risada. Possivelmente tinha percebido o porquê do espanto de Rei.

- Os meus pais são japoneses, mas imigraram para Portugal pouco tempo depois de se casarem e eu nasci lá. – esclareceu, com o seu dócil sorriso surgindo de novo nos seus lábios.

A conversa prolongou-se um pouco e quando ambas tiveram de regressar aos seus afazeres, despediram-se com a promessa de um novo encontro.

***

A noite parecia calma e tranquila. A lua cheia brilhava num céu estrelado e limpo.

Talvez estivesse a observar calmamente as estrelas, sentada no peitoril de uma das janelas da casa não fosse a notícia que ilustrava a primeira página do jornal e que a intrigava desde que o havia comprado ao fim da tarde.

As letras gordas e chamativas anunciavam que uma das guerreiras navegantes havia sido vista na noite anterior e a pergunta principal era: "Qual o novo inimigo da Sailors?". A completar a chamativa capa vinha uma fotografia onde era possível ver uma silhueta recortada na escuridão onde era visível o recorte do mesmo estilo de uniforme usado pelas navegantes do Sistema Solar.

- Haruka? – ouviu a voz de Michiru perguntar e a porta da entrada bater levemente, indicando que era fechada.

- Estou aqui. – respondeu vagamente, ainda demasiadamente concentrada na pagina de jornal, lendo o breve texto da página indicada na capa.

Bebeu um gole de café quente, pegando delicadamente na caneca à sua frente, no balcão. Franziu a testa, procurando uma resposta para tudo aquilo. Sabendo que as suas companheiras não se haviam transformado desde a batalha contra Galáxia, tudo aquilo lhe parecia demasiado bizarro.

- O que tem de tão interessante esse jornal?

Virando-se pode ver Michiru na porta da cozinha, olhando curiosamente para si. Sorriu-lhe enquanto fechava o jornal.

- Uma notícia e fotografia deveras estranhas.

- Estranhas como? – Michiru aproximou-se do local onde Haruka se encontrava, olhando depois para a capa do jornal. O espanto era visível no seu olhar. – Mas que raio vem a ser isto?

Michiru pegou imediatamente no jornal abrindo-o e lendo a pequena reportagem que instantes antes prendera a atenção de Haruka.

- O que achas? – perguntou Haruka olhando para a companheira que franzia a testa. Levou de novo a caneca de café aos lábios.

- Demasiado bizarro… - comentou Michiru emersa em pensamentos, pousando o aglomerado de folhas no balcão e dirigindo-se à janela para contemplar a noite. – Talvez devêssemos reunir com as outras e debater o assunto.

- Sim, talvez seja o mais sensato.

Interrompendo o silêncio que se abatera de se seguida, o barulho agudo do intercomunicador alarmou as duas jovens. Erguendo uma sobrancelha, Haruka aproximou-se do objecto à muito esquecido numa prateleira qualquer da divisão vizinha, a sala.

- Daqui Uranus. – disse ao pegar no intercomunicador e pressionar o botão.

- Uranus, estamos em apuros! – reconheceu de imediato a voz aflita de Ami.

- O que se passa Mercury? – perguntou Michiru aproximando-se de Haruka e inclinando-se sobre o intercomunicador.

- Uma mulher estranha apareceu num largo, perto do parque. As Inner estão todas juntas e o Mascarado está connosco, mas ela é demasiado forte.

Não foi preciso mais explicações.

- Estamos a caminho. – respondeu a rapariga loira prontamente, atirando depois o intercomunicador para o sofá, sem o mínimo de consideração pelo objecto.

- Acho que está na altura de voltar à acção.

***

Estava a sufocar. Iria morrer? Seria aquele o triste fim de bela e jovem guerreira da Lua? Não, não podia ser! E o seu futuro com Mamoru? E Chibiusa?

As estranhas e pegajosas trepadeiras estreitavam-na cada vez mais. Não conseguiu reprimir o grito que saiu de forma extremamente alta e estridente dos seus lábios.

- Aguenta-te Sailor Moon. – pareceu suplicar-lhe Mars que lutava contra o monstro criado pela estranha mulher.

O seu novo brinquedo.

- Se me disserem onde está a Alma do Anjo pouparam muito sofrimento à vossa amiguinha. – disse a mulher com um sorriso irónico. Os seus cabelos cor de fogo esvoaçaram perante a brisa que se fez sentir.

- Já te dissemos que não sabemos nada sobre isso. – gritou Mascarado de forma desesperada.

- Ai é… - a mulher fechou o punho apertando.

Sentiu o corpo apertar-se ainda mais. Dor. Mais um grito. Estava perdida. Ia morrer, morrer perante as suas companheiras e o seu amado. Se tivesse o seu ceptro… De que adiantava ter esperanças? Não o tinha mais e tudo se perdia na escuridão da certeza de uma morte lenta e sofrida. E tudo porquê? Pela pergunta da localização de algo que nem sabiam o que era, à qual a resposta era sempre negativa.

- Por favor, solta-a! – suplicou Venus e como resposta a ruiva alargou o seu sorriso de desdém.

Estava sem forças e agora via as suas amigas suplicarem pela sua vida. Estranho… Os papéis inverteram-se!

- Atraída pelos mares da mudança, Sailor Neptune toma parte activa!

- Atraída pelos ventos da mudança, Sailor Uranus toma parte activa!

Simples frases levadas pelo vento? Não! A apresentação tão bem conhecida daquelas duas fortes guerreiras. Sentiu-se tentada a sorrir.

- Oh, mais gente a se juntar à festa. Talvez elas me saibam responder…

- Responder…? – perguntou Neptune um pouco confusa.

- Onde está a Alma do Anjo? – perguntou de novo a mulher. Uma expressão mais séria no seu rosto.

- Mas de que raio estás a falar? – perguntou rispidamente Uranus. – Vamos mas é acabar com esta chachada! World Shaking!

Um ataque, um simples ataque. A esfera brilhante de tons dourados segue rapidamente e seu caminho e embate no estranho monstro de cor avermelhada, semelhante a um daqueles monstros vistos nas séries infantis. E despedaça-se. Despedaça-se como um brinquedo atirado a uma parede por uma criança cansada de brincar com ele.

Um sorriso vitorioso mas que de repente se transforma numa expressão de pura surpresa.

E o pai da pequena criança pega em cola e monta de novo o pequeno brinquedo. O monstro está intacto, como se nunca lhe tivessem feito algum estrago. Nem um arranhão para amostra.

- Raios. – pragueja a guerreira dos ventos dando um passo à retaguarda.

- Pensavam que seria fácil? – perguntou a mulher, a inimiga. O sorriso de desdém permanecia no seu rosto. Um leque surgiu na sua mão e ela começou a abaná-lo distraída, como que apenas para minimizar o efeito de um excessivo calor inexistente.

- Vejo que arranjaste um novo brinquedo. – uma voz disse.

Uma voz… De onde? De quem? De algum lugar, de alguma pessoa. Viria em socorro? Viria em seu socorro e das suas amigas, do seu amor?

A dor continuava, os braços sangravam. Gotas rubras pingando de cortes que há muitos as apertadas trepadeiras lhe tentavam fazer.

- Não pode ser… - deu um passo para trás. Parecia assustada, sem um verdadeiro rumo a tomar.

- Surpreendida? – de novo a voz.

Transmitia tanta segurança. Tinha vontade de gritar a plenos pulmões aquela voz, pedindo socorro.

O barulho de passos. Uns pés cobertos por umas bostas brancas ficaram visíveis no círculo de praça iluminado pelo prateado luar. À muito que as luzes tinham extinguido o seu brilho, recolhendo-se de medo perante a batalha.

Mais um passo. Poderia ver a sua dupla saia, sendo o folho maior azul celeste e o mais curto e de cima branco. Conseguia ver também o seu laço das costas, de pontas compridas e tecido branco e quase transparente, balançar ao sabor da pequena brisa que corria, refrescando a noite.

Outro passo. Conseguia agora vê-la por completo, de pé, num dos lados da praça mais iluminados pela prateada lua. O laço do seu peito do mesmo azul celeste do folho da saia, adornado no centro por uma estrela prateada. As compridas luvas brancas, até ao cotovelo, tinham as bordas também azuis, assim como o colar ao seu pescoço, onde brilhava um quarto crescente branco. No centro da tiara anormalmente prateada, brilhava um quarto crescente branco, idêntico ao do colar, o símbolo da Lua Branca!

Uma guerreira navegante!

Os compridos cabelos da guerreira, de um intenso castanho-claro, ondularam na escuridão parcialmente iluminada, os seus olhos esmeralda brilhavam intensamente, num tom de desafio e determinação.

Já a tinha visto antes… Mas onde?

- Mas quem és tu? – perguntou Sailor Jupiter, admirando a guerreira desconhecida mas estranhamente familiar, com o símbolo da Lua Branca na sua testa.

A guerreira sorriu.

Mais um passo.

- Guerreira da Lua Branca, trazida pelos cálidos raios de luar… Sou a guerreira da lua, da luz e da esperança. Sou Sailor White Moon!