Sacred Jellicle Heart

Capitulo 2

A doce gata doirada despertou. Se levantou tão lentamente quanto pode. Sabia, de algum jeito, que o dia iria ser terrível. Mal despertou já percebeu a escuridão. Pouca luz escapava por uma janelinha, indicando meio-dia. Dormira bastante, mas nunca o suficiente.

Finalmente a distraída gata reparou que uma luz emergia de um imenso altar. Pouquíssima luz, dificultando a identificação do ambiente. Por fim, suspirou e se uniu a escuridão. Sentiu ao seu redor diversos felinos. Embora não os visse, estavam ali. Quis fugir imediatamente, mas sua curiosidade a prendeu. Redrea surgiu e, conforme passava, várias velas eram acesas. Tudo com refinamento e precisão dignos de uma cerimônia nobre. Sem nada falar, retirou um saco das trevas, algo estava se remexendo lá dentro.

"Não falarei muito. Esse felino foi acusado de ser Jellicle, portanto traidor. Sua sentença?" Sorriu Redrea ao ouvir a resposta uni som da platéia: "Morte!". Levantou sobre a cabeça uma longa faca afiada e fincou no saco. Repetiu a operação várias e várias vezes até um liquido vermelho escapar do velho saquinho de pano. Demeter sentiu as estranhas revirando-se e ficava cada vez mais assustada. Redrea se aproximou da jovem com o saco respingando o estranho liquido. Abriu e jogou aos pés da jovem felina um boneco de gato recheado com alguns tomates.

"Todos os dias..." Reddie começou "Por um mês nós costuramos esses bonecos. Depois nos divertimos enchendo-os de tomate e imaginando um Jellicle aqui dentro. Essa tarde, faremos um grande 'sacrifício' como esse. Você irá presidir. Se o fizer bem, vou declara-la membra oficial da corte de Macavity, será Lady. Tudo bem por você, Malymaya?"

Ao que a amiga acabou de falar, Dem desapareceu correndo enjoada e com medo. Derrepente, parou com a respiração ofegante. Olhou para si mesma: Os pés sujos de vermelho, o pelo encardido pela poeira do chão, os olhos lagrimejantes pela cena horrível presenciada. Decidiu no ato... Já era hora de ir.

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A temida reunião estava para começar sobre o doce sol do meio dia. Estavam todas as famílias Jellicles lá: Jellylorum, suas filhas Victoria e Etcetera, Gus, Coricopat, Tantomile, Mungojerrie, Rumpleteazer... Enfim, todos.

"Atenção gatos e gatas... Jellicles." Mystiara iniciou a reunião "Sabem bem que só é permitido, de acordo com as leis Jellicles originais, reuniões sobre a luz do dia em caso de uma enorme emergência. Como alguns já sabem a felina conhecida como Demeter foi levada por Macavity. O único modo de recupera-la é com um bom plano e muito mais guerreiros que aquele gato nojento pode arranjar!"

"E as leis dizem também que nunca devemos julgar nossos inimigos precipitadamente. Você o fez." Tantomile pareceu um tanto contradita em seu comentário maldoso "Podemos continuar a reunião sem mais comentários pessoais, 'Mystie?'"

"Não fiz nenhum comentário precipitado! O conheço muito melhor que qualquer um nessa sala!"

"Não melhor do que eu." Tanto desafiou, virando-se para seu público "Um gato pode enxergar a alma de outro. Muitos se esquecem disso... Se esquecem de como se faz..." Ela se voltou para Mysti, desafiando-a com o olhar "Eu não esqueci, Mystie. Eu vejo, por dentro de você, está sendo apressada. Macavity não é mal por que quer."

"Está falando bobagens! Besteiras!" A gata branca e rubra lançou um irritado olhar para Tanto "Os gatos perderam essa habilidade a séculos. Acho que pela convivência com seres humanos."

"Depende..." Ela desafiou a felina uma vez mais "Depende do tipo de humano que cuida de você."

Irritada, sem nada dizer, a gata se afastou do centro, deixando Tantomile com um vitorioso sorriso e todo resto simplesmente suspenso. Coricopat se levantou e fez a irmã se sentar, mesmo que ela quisesse mais era presidir a reunião.

"Senhorita Tantomile..." Glaciara assumiu a reunião "Pare com isso. Não é um comportamento digno nessas horas. Se não se importa com sua companheira, será considerada inimiga e será banida pela lei 1-12... Sem falar da com menos valor lei 4-5." Tantomile se calou e sentou, Glacie, sorrindo, continuou "agora... Uma curta pausa."

Balurina suspirou. Sim... Precisa de uma longa pausa. Olhou ao redor e tudo parecia horrivelmente triste e solitário. Mesmo sobre o sol brilhante, tudo estava escuro. Num suspiro pediu que tudo desse certo no final.

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Deme se aproximava de uma larga porta. Usou uma tola desculpa para driblar Redrea, que preparava o ritual. Tudo para se encontrar com Macavity. Segurava uma carta que convidava a doce Jellicle para um longo chá. Ela nunca havia visto gatos tomando chá, mas aceitou... Não existia outra escolha.

"Você veio, maldita gata imunda!" Macavity observou, vendo-a de dentro do quarto "Entre de uma vez ou arrancarei sua cabeça com as garras!" Dem, temerosa, se aproximou "Mas o que preciso fazer para que fique por perto?"

"Quero ir embora... M-Mestre!" Demeter tentou agrada-lo e chegou bem perto da xícara, grande demais para qualquer gato "Não sou feliz aqui. As gatinhas que vivem aqui me assustam."

"Cale-se!" Macavity a olhou no fundo dos olhos "Se espera que eu seja cortês está enganada! Fui uma vez e você me traiu."

"Eu tive!"

"Mandei se calar! Traidora maldita! Você é a causa de estarmos em constante guerra!"

"Por que, Macavity? Por que tanta vingança no coração?"

" Porque você me fez ficar assim. Não como ou durmo. Não faço nada! Só penso em você. Imploro pela sua presença! Você invadiu meus pensamentos, maldita Jellicle imunda!"

"É assim..." Demeter suspirou, penalizada "É por isso... Se é assim que você vê o amor me surpreende muito ser amado e adorado por tantos. Inclusive por mim... Uma vez e nunca mais."

"Digamos que..." Macavity fez uma pausa e recuperou o sorriso sádico "Digamos que sou um imã... Atraio e convenço gatos num piscar de olhos! Usei essa habilidade em você uma vez, mas ela já não funciona mais."

"Somos iguaizinhos nesse aspecto, Macavity!" Ela adquiriu uma expressão forte e séria "Parece que dois imãs não se atraem, não é?"

"Calada!" Ele desferiu um golpe na face da gatinha "Tem sorte de eu ser paciente e não suportar a dor que seria derramar seu maldito sangue imundo!"

"Esse seu ódio de mim... É o que faz suas seguidoras odiarem os Jellicles..."

"O que?"

"Os rituais horríveis! Sei que já viu algum deles!" Dem aguardou a resposta por alguns segundos, ele não a respondeu "Não viu?".

"Melhor ir se deitar" Macavity suspirou, confuso "Quando sair, deixe a porta aberta e volte mais tarde."

"Sim, mestre!" Demeter imitou a reverencia que viu Redrea treinando na noite anterior e se retirou, calada. Ela sabia que, cedo ou tarde, iria tirar dele alguma coisa.

Macavity se manteve em silêncio por um bom tempo. Seus pensamentos estavam confusos. Não sabia destes rituais mencionados, mas sabia quem os teria ocasionado. Apenas uma gata era tão exagerada a esse ponto, e ela, por sorte, adentrou a sala sorridente.

"Rituais..." Ele pensou alto, fazendo a gatinha se assustar.

"Mestre?!"

"Maysta... Demeter me contou que presenciou uns rituais no quarto feminino." Ele a olhou, autoritário "Pode me dizer o que é isso?"

"Nada demais, mestre... Apenas... Loucura daquela imunda!"

"Ela não está acostumada..."

"E nunca estará! Mestre... Por que aquela criatura possui o bem mais precioso por aqui: O seu amor? Ela não o merece! Acho, inclusive, que é impossível o mestre amar tal horrenda criatura!"

"Achava isso, Maysta... Eu achava... Mas..."

"Mestre! Dê o seu amor para mim! Seremos, juntos, rei e rainha! Governando nosso pequeno reinado! Não teremos de lutar ou de sofrer! Perfeito, não acha?"

"Tenho sonhos assim..." Macavity sorriu, se aproximando de Maysta "Eu reinando supremo todos os gatos e minha rainha, única e especial, ao meu lado. Este sonho jamais vai se realizar!" Ele estapeou a pobre serva, que se arrastou até uma cadeira, onde se apoiou "Mas você... Não é digna de ser minha serva. Quanto mais minha rainha! Vá embora, maldita! Contos de fada não são reais e você me deve obediência!"

Maysta, no ápice de seu sofrimento, se levantou e correu, chorando. Ellyleck, sua fiel amiga a abraçou ao que passava. Trocaram olhares por poucos segundos e a pobre serva apaixonada desapareceu nos breus. Sua amiga se voltou para o grande rei e se aproximou, apreensiva.

"O que houve, mestre?"

"O que acha que houve, Ellyleck?! Maysta veio com aquela conversinha de sempre!"

"Sobre seu amor novamente?! Ela é tão tola!"

"Sim... É..." Macavity permaneceu pensativo, poucos segundos depois sorriu sinico como se algo caísse em sua cabeça "E... como vão as... 'coisas'?"

"Melhor que encomenda, mestre! Só mais algum tempinho e... Poof! Plano perfeitamente executado!"

"É bom que, desta vez, seja verdade!"

"Mestre..." Ela fez uma charmosa reverencia "Jamais o enganaria novamente! Adeus!"

"Adeus..."

Assim, Ellyleck se afastou, de costas e com os olhos fixos em Macavity, repetindo a reverencia bem mais acentuada ao que vai deixando o quarto. Bateu os olhos em Dem, escondida próxima da porta e sorriu, deixando a claridade das velas lentamente, sempre sorrindo e olhando para a pobre gatinha dourada. Estava assustada e um pouco amedrontada. Algumas vezes a coragem lhe falhava. Sentiu uma leve pata sobre seu ombro e se virou: Era Redrea, sorridente.

"Malymaya! Chegou a hora! Venha!" Falou, sempre feliz, mesmo que com tanto horror ao redor "Vou te arrumar para o ritual."

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No Junkyard a reunião não prosseguia ainda. Tantomile estava achando tudo aquilo incrível... Tanta emoção que não vivia com os Jellicles desde que chegou. Para a tribo de gatos de onde veio, os Parbles, cada dia era uma nova emoção. Ali, entre os Jellicles, as emoções fortes eram praticamente banidas. Ver tudo aquilo se desenrolar parecia voltar para os Parbles. Não eram ruins, mas seu irmão preferia que ela fosse uma Jellicle... Então...

Tanto estava convencida que o momento era bom e deveria aproveitar. Porém, algo em seu coraçãozinho sentia muita pena de Munkustrap e de como ele parecia ridículo. Chorando sozinho num canto.

"Ei, Straps..." Ela se aproximou, maternal "Pare de chorar. Sabe que ela nasceu para viver ali... Talvez ela seja feliz lá! O lugar que foi seu primeiro lar!"

"Foi o primeiro lar de Bomb também..." Munk parecia muito triste e solitário "De tudo que já enfrentei para protege-la... Eu acho que..."

"Se apaixonou, não foi?" Tanto sentou-se ao seu lado "Acredita firmemente que é ela... A 'SacredJellicle Heart', não acredita? Talvez, ela não seja. Talvez o coração dela seja da tribo de Macavity, como era para ser. Talvez seu coração seja dos Burbocles como era pra ser."

"Não pode ser assim, Tantomile! Se for assim, a maior parte das antigas histórias vão virar mentiras... Lendas bobas e sem propósito!"

"Muito tarde, 'Munky'!" Tanto riu maldosamente e completou "Elas já são!" por fim,

parou de rir "Acredita em cada palavra daquele livro recheado de baboseiras, não é? O Sacred Jellicle Heart é uma das maiores mentiras daquele livro enorme! Como alguém pode nascer em uma tribo pensando na outra? É impossível! Você é o que você aprende. Eu, por exemplo, aprendi a ser uma Parble e serei eternamente, mesmo que agora receba outro nome, entendeu? Tenha paciência! Se ela for realmente uma Jellicle de coração ela..."

"Ela é uma Jellicle de coração." Ele, finalmente se levantou e usou da coragem dentro de si "Uma Jellicle que precisa de ajuda. Não vou esperar reunião nenhuma!" Ao terminar a frase, ele correu para fora do Junkyard sem pensar.

Uma longa pausa se seguiu. Tantomile chegou a se sentir culpada por ter falado demais. Ela realmente era o que aprendeu. Aprendeu a usar os poderes de gato dela, nenhum Jellicle ou Burbocle sabia fazer isso. Apenas uma minoria de gatos havia aprendido: Os Parbles e nenhuma outra tribo. Se os Parbles soubessem usar essas habilidades, ela teria voltado a muito tempo. Nem todos aproveitam as melhores oportunidades como os Jellicles.

"Minha irmã..." Coricopat se aproximou, com olhar entristecido, detestava ver a irmã fazendo esse tipo de coisa "Ele vai ficar bem. Mas... Por favor, não repita isso. Sinto como se quisesse ir embora..."

"Sabe que eu quero, Corico... Eu preciso. Mas, não vou."

"Minha irmã..." Ele abraçou a amada irmã como se a segurasse para não fugir "Pense bem: Aqui, você é especial."

"Sou, não sou?" Ela sorriu. Apenas Coricopat conseguia entender quando estava triste.

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Ali estava. Na frente do prédio onde sua amada estava guardada. Munkustrap estava ofegante e tremulo, foi uma enorme loucura ir até lá! Ele sabia que não deveria voltar sem Demeter ou iria parecer fraco. Ele tem o dever de proteger os Jellicles, quaisquer que fossem.

Pulou, num sopro de coragem, para dentro de uma janela aberta. Foi burrice. Naquela sala haviam vários guardas esperando e eles, simplesmente arremessaram o pobre gatinho para fora. Ele era fraco demais para lutar com vinte gatos de uma vez... E sozinho!

Caído na rua, ouviu o risinho feminino que o fez lembrar de Rumpleteazer. Se virou, não, não era ela. Era uma linda gata branca e laranja sentada no asfalto.

"Não teve graça nenhuma!" Munku bronqueou "Estou tentando salvar minha amada!"

"Ainda bem que não sou ela... Iria rir muito depois disso." A gata se aproximou "Lindo prédio, não? Você é um Jellicle... Sabe que aí é território Burbocle, não sabe?"

"Sei... Como sabe que sou um Jellicle?"

"Se fosse Burbocle não teria sido expulso e os Parbles saem apenas a noite. Quanto as outras tribos pequenas... São bem mais sujinhas!"

"Por Heavyside! Você é mesmo esperta!" Deu a pata para a gatinha e sorriu "Sou Munkustrap."

"Sou Sabrina! E sou muito mais que esperta! Sou ágil, forte e rápida!"

"Mas... Não modesta!" Munku brincou "A que tribo você pertence?"

"Nenhuma. Sou uma gata que mora nas ruas. Quando se vive assim, dia-a-dia passa a ser um desafio, mas não posso reclamar!"

"Hump... Você é como ela..."

"Ela?"

"A gata que ganhou meu coração. A vida pode estar horrível, mas ela nunca reclama de nada!"

"Isso é bom ou mal?"

"Ótimo." Ele sorriu, em seguida suspirou e pediu "Poderia me treinar, Sabrina? Sabe... Para eu... Salva-la?"

"Você é nobre, Munkustrap... Eu aprecio isso. Terei prazer em treina-lo!" E riu e completou, faceira "Que sorte daquela que roubou seu coração!"

Os dois saíram rapidamente. O por do sol chegava e a noite, por ali, era pior que perigoso. A noite os cachorros de rua gostavam de esperar um Burbocle despreparado passar por ali e... Bom... Brincar um pouquinho. Cachorros ele sabia enfrentar, mas não é nada prudente lutar antes de um treinamento.

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O grande ritual de Deme estava para iniciar. Todos estavam na grande sala numa enorme agitação. A princesa, Maysta, surgiu no grande palco improvisado e logo toda a platéia fez silencio completo.

"Hoje, meus queridos súditos, veremos o teste de uma gatinha que provou ser digna para se tornar uma nobre de confiança dessa que voz fala. Seu nome é Malymaya e, embora eu não a conheça, espero que dê tudo absolutamente certo."

Demeter surgiu ao fundo. Estava linda! Talvez a magia do local a tenha feito ficar assim. Trocou olhares com Maysta que parecia pouco surpresa mas muito satisfeita pelo fato de que ela não estava reivindicando seu lugar como rainha absoluta.

"Malymaya..." May balbuciou, sorridente "Tome seu lugar!"

"É claro, princesa!" Respondeu com a mais charmosa reverencia que pode fazer. Ela realmente era como Macavity, antes de iniciar todos os olhares estavam sobre ela. Era um feitiço no olhar, ou coisa assim, que poucos possuíam mas que surtia efeitos maravilhosos sobre as criaturas todas. Numa espécie de graciosa dança como apenas os Jellicles sabem fazer iniciou o tenebroso ritual. Num golpe de faca arrancou a cabeça do boneco, fazendo alguns tomates saltarem inteiros de dentro do boneco.

Após um sinal de Redrea, passou a esfaquear lentamente o boneco, vendo o liquido vermelho escorrendo de dentro dele e quase desmaiando. Reservou mais algumas forças para terminar de rasgar o gato falso, derramando seu recheio pelo palco improvisado. Todos miaram alegres e suspirou, aliviada.

"Espere um pouco..." Um gato se aproximou e subiu no palco, confuso "Sim... É você! Demeter!" Ela gelou ao ouvir seu real nome, assim como todos os felinos no aposento " Por que inventou esse nome falso ridículo? Você é a rainha, Demeter! Se lembra de mim? Weestrong?"

"S-Sim... L-Lembro..." Dem respondeu, nervosa, se virando para o público "Desculpem-me... Mas... Não queria ser tratada como... Esse boneco."

"Tarde demais!" Maysta riu e ordenou "Acabem com ela, seus inúteis! Vamos!"

"Não podem, Maysta..." Redrea abraçou Deme, como se a protege-se "Ela é a rainha! Devemos obedece-la assim como obedecemos o mestre... São suas regras, lembra?"

"Eu mudei..." Ela balbuciou para Redrea "Eu sei que não posso mais ser uma Jellicle... Aqui sempre foi o lugar onde eu deveria estar." Se deitou, estava sozinha agora... Sem ninguém. Weestrong se sentou próximo a ela, mas mesmo assim ela continuava só...

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A reunião Jellicle continuava sem conclusão. A noite havia acabado de descer, mas ninguém tinha uma opinião formada ainda. Estavam todos a espera de Jellylorum, que estava procurando o Jellicle Líder para decidir essa situação. Sem Munkustrap, tudo apenas piorou. Mystiara estava quieta e seriamente preocupada com o gatinho listrado. Glaciara e Spyn tentavam se manter ao seu lado, no constante furor da espera.

Jellylorum surgiu numa pilha de lixo, mal avistaram a figura da magra felina todos saltaram sobre ela e o Junkyard se tornou um caos num frenético vai-vem. Tanto observava a situação com gracejo. Glaciara abriu espaço e a pobre Jelly respirou fundo e se preparou para passar seu recado.

"Pessoal! Tenho boas noticias!" Ela começou, um pouquinho nervosa "O nosso grande Jellicle líder avaliou a situação e percebeu que é, de fato, uma emergência, portanto está a caminho. Vocês sabem que ele vem bem lentamente e deve chegar pela manhã."

Ao ouvir a noticia, toda a tribo suspirou, aliviada. Tantomile riu. Tanta bagunça... Se lembrava destas ocasiões nos Parbles. Era muito parecido, mas nada nos Jellicles parecia igual ao seu antigo e maravilhoso lar. Se afastou, da multidão, observando a lua. Talvez tivesse tomado a mais difícil decisão de sua vida. Coricopat acompanhou a irmã com o olhar até ela desaparecer portão a fora. Correu atrás dela, ele bem sabia seus planos.

Durante a bagunça, ainda haviam dois toms pouco interessados: Tugger e Alonzo. Tugger, é claro, rodeado das mais belas gatinhas do Junkyard.

"Deveríamos ajudar, Tug..." Alonzo tentava convence-lo "Ficar aí, se exibindo para as gatinhas não está fazendo de você um Jellicle melhor!"

"Talvez... Mas me faz um Jellicle mais inteligente!" Riu, mesmo que soubesse que era muito sério "Não vou me envolver em lutas novamente!"

"Lutou para salvar Demeter uma vez, o que mudou?"

"Muito mudou. Eu mudei."

"Sei... Foi pela Bomba, não foi?" Ele apontou a doce gata vermelha "Olha pra ela! Acha que não pode fazer outro 'favorzinho' desses só para vê-la sorrir? Ela tem o sorriso mais lindo que já vi."

"Tem razão, Alonzo..." Tugger odiava ser contrariado, mas tinha que admitir "Posso fazer esse favorzinho pela Bal... E pela Dem." Ele fez uma pausa e se voltou para o colega com a expressão mais séria que sabia fazer "Vamos treinar amanhã."

"C-Certo..." Ele suspirou e completou "Vamos ter que tomar muito cuidado."

"Eu sei."

A dupla se calou repentinamente ao reparar que todos estavam quietos. Era um silêncio de meditação. Todos tinham muito a refletir.

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Sem imaginar o conflito interno pelo qual todos estavam passando, Munkustrap se divertia muito ao lado de Sabrina e suas irmãs. As irmãs eram quatro: Keely, muito parecida com Sabrina, Helena, a irmã mais velha toda laranjinha e marrom, Lucy, marrom e branca e Liana a mais nova bem marrom. Eram todas muito simpáticas e tentavam cuidar umas das outras sempre!

Já era meio tarde para tentar voltar sozinho, por isso o gato listrado sequer estava se preocupando em voltar. Muito pelo contrário, deixar o lar de sua nova amiga seria um verdadeiro sacrifício. Treinamento? Sim, houve um pouco. Mas nada mais de treino, nada mais de Jellicles e nada mais de Demeter. Isso, definitivamente, não estava certo. Nem um pouco.

As irmãs de Sabrina o mimavam como, a muito tempo, ninguém fazia com ele. Traziam comida e conversavam sobre tudo. Sabrina ria um bocado com o trabalho de suas irmãs.

"Munkustrap! Ser um Jellicle é bom?" Keely perguntou, enchendo a boca do gato de deliciosas amoras "O que vocês fazem?"

"É ótimo!" Ele respondeu, com algumas amoras na boca "Nos divertimos demais! Somos unidos! Sempre que um precisa de ajuda os outros devem estar lá para ajudar!"

"Entendo!" Helena riu "Muita diversão e trabalho em equipe! Que beleza! Vocês comem muito?"

"Muito! Comemos de tudo, também!"

"Legal! Comida!" Comemorou Liana "Vocês brincam também?"

"Principalmente nos Jellicle Balls!"

"Hummm... E... Por que quer derrotar Macavity?"Lucy questionou "Não vejo uma boa razão."

"Demeter..."

Silêncio se seguiu. A realidade tombou sobre Munku como um grande peso. As felinas sentiram a dor e ficaram caladas, aguardando.

"Quero ser uma Jellicle!" Sabrina falou, finalmente "Quero virar Jellicle e ajudar você, Straps..."

Sem falar nada, o gato se levantou. Tinha certeza que a hora de brincar havia terminado e a hora de agir havia apenas começado.

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Deme despertou, estava num quarto lindo, bem arrumado e um pouco empoeirado. Ao se levantar avistou Weestrong próximo a porta. Ele parecia contente em vê-la e ela apenas tentou sorrir.

"Sei que não é muito bom me ver, Dem..." O gato sorriu e se sentou ao lado da felina "Mas... Fazia tanto tempo!"

"Weestrong... Eu mudei demais. Não sei bem se deveria ter voltado para os Burbocles."

"Acha? Mas Rosabela é tão lindo!"

"Rosabela? É o nome do lugar?"

"Maysta que deu, não é o melhor nome mas... O lugar é muito bom! Fiquei muito triste quando os Jellicles te raptaram. Que bom que voltou. Mestre disse que iria recupera-la"

"Ele mentiu se disse que fui seqüestrada. Eu fugi! Minha irmã mandou me buscar e... Eu estava feliz lá!"

"Foi criada aqui! Como pode ser feliz lá?"

"Eu não sei! Acho que era por causa da minha família. A única que eu tenho vive lá! Mas eu nunca perdi hábitos Burbocles."

"Nunca mais quero te perder..." Wee suspirou "Nunca mais..."

"Wee... Por favor..." A gatinha infeliz suspirou "Se continuar fazendo isso vai ser mais difícil ir para casa!"

"Desculpe..." Ele sorriu e a abraçou ternamente "Como pretende voltar?"

"Conversando com Macavity. Fugir: Nem pensar! Lembro-me muito bem da ultima fuga!"

" Se pretende conversar tenho ótimas noticias: Mestre quer falar-lhe!"

Sem responder, a felina se levantou. Era a grande chance! Olhou-o uma vez em agradecimento e correu para fora. Sentia como se conhece-se cada mínimo corredor do lugar... E tudo em um dia! Percorreu tudo até a sala de chá, onde sabia que Macavity adora ficar e meditar. Estava certa.

"Com sua licença, Mestre! Queria falar-me?" Foi, cheia de pompa, se reverenciando "Estou aqui!"

"Estou de bom humor..." Macavity sorriu "Vejo que dormiu por algumas horas... Como eu mandei!"

"Claro que dormi, mestre!" Demeter suspirou e se aproximou, como costumava ver Bal fazer quando queria alguma coisa "Dormi sim... E sonhei com você."

"Entendo..." Ele sorriu, a proximidade estava funcionando "Realmente entendo..."

"Mas, mestre, o queria falar..." Ela chegou próxima de seu ouvido, tudo ia muito bem "...comigo?"

"Ah... Demeter..." Ele sorriu e lamentou "Não pode usar esse truque comigo!"

O silencio reinou naquela sala a partir dali. Ela não podia se afastar... Simplesmente não conseguia! Estava imersa no olhar... E que olhar! Hipnotizante e completamente assustador... Era lindo... Era cruel... Não possuía um pingo de piedade. Um olhar assassino que atraía até demais. Ela confiou no olhar uma vez mais e se aproximou involuntariamente de seus lábios felinos. Era assim a grande sina: Doce e terrível como um beijo! Estavam tão próximos... Tão próximos...

"Mestre!" Maysta, presente na sala por alguns minutos, não resistiu "Preciso falar-lhe em particular!"

"Sim." Ele respondeu, grosseiro "Saia, imunda!"

Dem caminhou, ainda um pouco tonta. Era aquele charme quase mágico de Macavity. Ele a havia conquistado outra vez! Saiu da sala lentamente, ainda um pouco enfeitiçada, tombando para o lado como um Pollicle manco. Weestrong surgiu de um corredor ali perto e correu para socorre-la.

"W-Wee..." Estava cansada e quase desmaiando "Ajude-me..."

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Munku e Sabrina estavam na frente do Junkyard. Que oportunidade perfeita de entrar e apresentar uma nova membra! Trocaram olhares de nervosismo... Trêmulos, se abraçaram em sinal de compreensão.

"Vamos lá Sabrina... Vai tudo acabar bem."

"Se você acha, Munk... Mas não posso deixar de ficar nervosa!"

Ele beijou sua testa e se aproximaram com as patas unidas. Ao que entraram interromperam o longo silencio meditativo. O silencio, desta vez, era de surpresa e podia-se ouvir alguns cochichos.

"Olha só!" Tug foi o primeiro a arriscar um comentário em voz alta "O doce e pequeno Munky... Basta a gatinha dele sumir que o gatinho arranja outra!"

"Calado, Tug!" Bombalurina gritou, dando-lhe um tapa na cabeça "Deixe o pobrezinho!"

"Prefiro que seja gentil comigo, Rina..." Tugger sorriu "O que acha?"

"Ok, seu bobo..." Ela riu e se aproximou de seu ouvidinho com cuidado "Quando isso terminar, terei todo o tempo para ser gentil com você, Rummy..."

"Rummy! Não me chame assim!"

"Só se parar de me chamar de Rina... E eu sei que você não vai!"

"São namorados?" Sabrina arriscou.

"Quase isso..." Munkustrap respondeu antes de se afastar para falar com seu público "Jellicles... Essa é a gata que vai nos ajudar a salvar Demeter! Seu nome é Sabrina e creio que ela é uma Jellicle agora!"

"O que te faz pensar isso?" Rum Tum Tugger falou, brincando "Ela não nasceu Jellicle!"

"Todo gato é um Jellicle, caro Tugger... Todo!"

Sabrina foi para o meio do Junkyard e todos os olhares cairam sobre ela. Tugger tentou descontrair a tensão soltando um ronronado. Recebeu apenas um olhar mal-humorado de Balurina em retorno. O desconfortável silencio se seguiu por poucos segundos até que os gatos, rapidamente, enchessem a recém chegada de perguntas.

Apenas um par de felinas maravilhosas se recusavam participar da bagunça: Cassandra e Bombalurina. Eram grandes amigas desde pequenas, com a chegada de Deme elas tinham se afastado um pouco. Nada como uma crise para unir velhas amizades uma vez mais.

"Cassie..." Bomb começou a confessar, abanando o rabo nervosa "Me sinto tão inútil... Tão imprestável.. Não posso ir salvar minha irmãzinha..."

"Calma, Bomba!" Cassandra tocou-lhe o ombro carinhosamente "Vai tudo terminar bem!"

"Já perdi minha irmãzinha uma vez." A gata escarlate soltou uma minúscula lágrima "Não poderia suportar tê-la longe de novo! Acho que iria morrer!"

"Tenha esperança!"

"A esperança se foi... Só resta medo agora."

Olharam para a lua. Uma lua fina e desajeitada. Não chegava aos pés da gloriosa lua cheia. Lua cheia é a lua dos Jellicles.

"Humm... Admirando a lua, Rina?" Tug interrompeu, sorridente "Está triste porque não falou com seu gatinho favorito, certo?"

"Certíssimo..." Bal sorriu e beijou-lhe o rosto, precisava se animar um pouco e Tugger sabia disso "Talvez um passeio faça a linda gata vermelha se sentir melhor..."

"Um passeio a dois?"

"Que me diz a quatro?" Alonzo surgiu, sorridente "Aceita, Cassie?"

"Hum... Claro..."

Sim, desta vez os dois tinham acertado. Um passeio... Distração... Diversão... Flerte... Eram estas pequenas coisas que iriam fazem Bomba sorrir novamente.

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Demeter despertou, tonta e cansada. Se viu numa cama humana gigantesca envolvida por uma cortina. Ao prestar mais atenção ao redor percebeu Castally e Weestrong sentados ao seu lado com um prato cheio do mais puro leite fresco. Ela os olhou, apreensiva, como se a memória falhasse.

"Tudo bem, Dem." Wee lhe estendeu o pratinho "É o mais delicioso leite, 'majestade.'"

"W-Weestrong... C-Castally..." Ela se lembrou, repentinamente "Minha cabeça dói... desmaiei de novo?"

"Não comeu nada o dia todo." Ele riu e suspirou "Não me surpreendeu!"

"Pena que não está bem... Iria convida-la para um passeio..." Castally suspirou, mas sorriu "Bem... Passeamos amanhã!"

"O que?" a gatinha dourada saltou da cama "Posso sair daqui?"

"Claro que pode!" O único macho no recinto riu

"Acha que é uma prisão?" A jovem gatinha vermelha riu igualmente surpresa "Pode sair quando quiser... Com o tanto que volte depois... Mas, tudo bem! Podemos passear outra hora!"

"Preciso sair daqui agora!"

"Melhor não. Os Pollicles estão lá fora esperando um gatinho distraído!" Recomendou o felino, mas vendo sua tristeza, completou "Rosabela é muito grande e acha que você só conhece os dormitórios e a sala de chá."

"Ótima idéia, Weestrong!" Castally aplaudiu o gatinho num enorme sorriso "Vamos passear, Dem! O que me lembra... Por que não me disse quem era você? Te chamei de imunda!"

"Está tudo bem Castally." A rainha levantou "Não se preocupe e me perdoe por não ter falado."

Em silencio, a recente realeza colocou a pata no pescoço ao sentir uma coleira de couro preta com um doce pingente sobre ela, um pingente em forma de coração rebrilhante e dourado. Assustada, bateu os olhos em Castally que usava uma coleira dourada com longas pontas e pedras incrustadas.

"Coleiras..." A doce Jellicle suspirou, se sentia tão presa "Por que coleiras?"

"Classes sociais, é claro!" A gatinhas respondeu "Filhotes, como eu, ainda não tem classe e, por isso, usamos pontas. Quanto mais velha as cores vão mudando, a minha é o ultimo nível: Dourada. Quando se vira adulto, os machos todos usam marrom. Já as fêmeas... Bem: Se forem miseráveis usam branco, povo simples usa vermelho e as ladies usam preto. As mais importantes usam pingentes! Coração para a rainha, um balão para a princesa, um trevo para a baronesa e uma linda estrela para a Condessa."

"A sociedade é importantíssima para vocês, não?"

"Muito, Deme..." O gato respondeu, descendo da cama com alegria "Mas, não falemos disso... Nosso reinado pode ser muito feliz!"

Ele a puxou para fora da cortina com esperança de exibir um mundo maravilhoso, mas o visto foi a grande princesa caída, quase desmaiada nos braços de sua melhor amiga. Redrea chegou segundos depois da rainha com uma tigela cheia de atum fresquinho e se surpreendeu com a cena tumultuada. Maysta tossiu diversas vezes até que um objeto metálico voou de sua boca, caindo longe do campo de visão de qualquer um.

"R-Redrea..." Maysta gaguejou após quase morrer engasgada "Colocou aquilo na minha comida!"

"Foi você também..." Ellyleck a acusou com um certo sorriso no rosto "Quem roubou meu trevo... Invejosa!"

"Trouxe comida pra mim..." A princesa arranhou a pobre Reddie na face "Trouxe comida com algo que sabia que eu iria engolir e morrer!"

"Não lhe trouxe comida, princesa." A Condessa parecia bem calma "Nem roubei seu trevo, Ellyleck."

"Fora daqui!" A princesa irritada gritou "Saia já!"

"O que?" Finalmente, a situação pareceu pesar para a gatinha branca listrada "Para onde vou?"

"Não foi ela" Castally gritou "Estava conosco, certo Weestrong?"

"Sim!" Ele confirmou "Cuidando da rainha!"

"Aprova o que dizem, Rainha?" Ellyleck questionou, Dem estava tão nervosa... Não respondeu, abaixou a cabeça e deixou uma lágrima cair "Encaro isso como não. Redrea... Está expulsa!"

Ellyleck arrancou a coleira da gatinha que olhou Dem com puro ódio. Ela se retirou. Espertamente agindo, a rainha recolheu a coleira do chão e colocou em Castally. "Considero essa gatinha uma adulta e é a nova Condessa!"

Maysta ficou furiosa. A situação não estava mais em suas hábeis mãos.

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Que vergonha. Que desonra. Reddie se retirou do prédio em prantos. Considerava Dem uma amiga... Como ela pode fazer aquilo? Controlou o choro e bolou um simples plano: Tinha que achar os Jellicles.


Comentário da autora: Não sei bem se alguem está lendo, mas escrever tem sido muito prazeroso e eu vou terminar essa fanfic e escrever muitas outras! Espero que gostem!
Jellicle Kisses, Bia