CAPÍTULO UM
Estava sentado havia tanto tempo que a parte de trás já começara a ficar entorpecida.
Mamoru se mexeu, esticou as pernas e se encostou à parede. Então, voltou a ficar imóvel.
Na parede do corredor, perto dos elevadores, havia um relógio que tiquetaqueava, irritando-o. Não era o barulho que o aborrecia. Estava acostumado a isso quando voltava para casa: o ímpeto constante do oceano, o farfalhar das folhas e o ruído murmurante dos pássaros. Eram sons infinitos. Mas esse tique-taque era uma medida precisa do tempo que passava. Ele tinha que esperar pela misteriosa srta. Tsukino é pelas respostas que desejava há tanto tempo.
Mamoru deu uma olhadela no relógio. Duas horas já haviam se passado desde que falara com o porteiro, no saguão.
Se não soubesse que estava em Nova York, devido ao trânsito, aos prédios e ao mau cheiro, teria a confirmação disso com aquele sujeito. Em nenhum outro lugar do mundo, alguém cujo trabalho era dar boas-vindas às pessoas que chegavam no prédio era tão hostil. Assim que Mamoru entrou no edifício, o porteiro o fitou.
Ignorando o olhar, Mamoru cruzou a portaria com piso de mármore, indo em direção ao elevador e apertando o botão.
- Posso ajudá-lo, senhor?
- Não. Sei aonde estou indo.
- Vai ficar pouco tempo?
Mamoru não respondeu. Talvez, se o ignorasse, o homem fosse embora. Porém, não teve sorte.
- É uma mochila bem grande. Qual apartamento vai visitar? Ou está se mudando para cá?
- Quarenta e três. Estou à procura da srta. Tsukino.
- Não vai encontrá-la.
Algo na voz do porteiro fez Mamoru voltar a encará-lo. Parecia que o homem estava prestes a chorar. O elevador chegou.
- Vou esperar - Mamoru disse e entrou no elevador.
- Vai esperar um bom tempo - o porteiro retrucou. Porém, Mamoru apertou o botão do 4o andar e as portas se fecharam.
Duas horas mais tarde, tinha que admitir que o porteiro estivera certo. Enquanto esfregava os olhos, que pareciam cheios de areia, considerava suas opções.
Podia ficar naquele corredor por diversos dias, no que dizia respeito a comida e bebida. Mas, a menos que usasse uma das suas garrafas de água vazias, em breve precisaria de um intervalo. Duvidava que o porteiro o conduzisse a um banheiro no edifício. E só faltava a srta. Tsukino voltar enquanto ele procurava um banheiro público... em Manhattan.
Mamoru fechou os olhos. Não iria a lugar algum. Continuaria ali até o fim, mesmo com toda a dificuldade.
Esperara 16 anos por esse dia. Se ao menos aquele maldito relógio parasse de tiquetaquear...
Som do elevador chegando. Mamoru abriu os olhos. Sem se mexer, virou a cabeça em direção ao elevador. Se um homem saísse lá de dentro, será que o reconheceria? Será que as lembranças dele estavam assim tão claras? O que teria mudado em 16 anos?
A grade de bronze se abriu. Uma mulher saiu do elevador e se encaminhou na direção de Mamoru. A sensação no estômago era estranha: desapontamento e alívio, as duas coisas ao mesmo tempo.
A mulher era de altura mediana, vinte e poucos anos, cabelo louro, curto. Em menos de um segundo, Mamoru soube que não se tratava da srta. Tsukino. Não sabia muito a respeito daquela mulher, mas sabia que usava papel de carta espesso, de alta qualidade, com o endereço dela estampado - de um apartamento num dos edifícios mais exclusivos de Manhattan. A srta. Tsukino não usaria uma enorme jaqueta velha de couro, uma saia preta fora de moda e tênis surrados.
- Parece que precisa de uma almofada - ela comentou.
- Estou bem. É muito mais confortável que o topo de uma montanha - Mamoru retrucou, e deu um meio-sorriso antes de baixar o olhar de novo.
- Mas a vista não é tão boa. - Ela passou por ele. Embora a saia fosse feia, as panturrilhas e os tornozelos eram fortes e bem definidos. Não era uma socialite deslumbrante de Manhattan, mas tinha boas pernas.
- Não é tão ruim - Mamoru comentou.
Ela deu uma risadinha e ele ouviu o tinido das chaves. Mamoru ergueu o olhar e a viu colocando a chave na porta do apartamento 43. Então, levantou-se e perguntou:
- Srta. Tsukino?
- Sim?
Impossível dizer qual era o tamanho dela com aquela jaqueta. Mas, de repente, ela cresceu. E, quando Mamoru baixou o olhar, viu que ela tinha as chaves entre os dedos, como se pudessem ser uma arma. Nova York, que inferno de cidade, Mamoru pensou, e recuou para parecer menos agressivo. Não era uma coisa fácil de fazer enquanto o coração batia a mil por hora e o corpo todo estava tenso.
- Meu nome é Mamoru Chiba.
- Uh-uh.
- Sou filho de Eric Chiba.
A loura o olhou de cima a baixo e comentou:
- Bem... Bom para você. Agora dê licença, eu gostaria de entrar. - Ela virou-se para a porta e voltou a colocar a chave na fechadura.
Mamoru se aproximou, mantendo o rosto sereno e os olhos presos aos dela. A srta. Tsukino permaneceu imóvel, uma das mãos à maçaneta, o próprio olhar desafiando o daquele homem.
- Onde está meu pai? - ele perguntou.
Havia um homem alto, moreno, belo e muito irritado, à soleira da porta. E ela pensara que hoje nada mais estranho poderia acontecer.
Serena permaneceu com uma das mãos à maçaneta, igualmente pronta para lutar ou fugir. Não precisava avaliar o sujeito. Já fizera isso quando o vira encostado à parede no corredor. Ele tinha cerca de 1,88m, provavelmente, cem quilos e todo músculo. As mãos pareciam grandes o suficiente para esmagar o crânio dela como se fosse um inseto. E era rápido.
- Não sei onde seu pai está. Costuma deixá-lo escapar com freqüência?
- Muito engraçado - Mamoru disse, mas não estava rindo.
- Lamento não poder ajudá-lo. Sabe, às vezes, quando perco algo, volto ao último lugar onde o vi e procuro a sério a partir dali. Entretanto, não sei se isso funciona com pessoas perdidas.
Mamoru cerrou os dentes, voltou a se aproximar, e Serena sabia que agora ele estava furioso. Já lidara com algumas pessoas agressivas. Havia muita ralé em Nova York, e a maioria parecia cruzar seu caminho vez ou outra. Mas esse homem não era um deles. Não iria machucá-la. Era forte, porém não violento. E apostava que também não se irritava com freqüência.
Serena se mantivera calma até agora... Bem, tão calma quanto podia, dada a pequena incumbência que tinha a cumprir no apartamento da tia-avó. Porém, ao se dar conta disso, a pulsação acelerou.
Alto, moreno, bonito, controlado e em busca de algo. O tipo dela. No geral, o sujeito podia não ser perigoso. Mas era perigoso para ela.
- Ouça. Esperei muito tempo e vim de longe para encontrar meu pai. Pode rir, mas vou encontrá-lo.
- Não estou rindo. Boa sorte. Espero que o encontre realmente se isso significa tanto para você.
Ela virou a maçaneta e continuou:
- Bem, foi um prazer conhecê-lo, mas tive um dia horrível e tenho que fazer algo que não quero.
Mamoru colocou uma das mãos por cima da dela à maçaneta. A garganta de Serena fechou. A palma daquela mão máscula era quente e os dedos fortes. Uma carga de desejo rapidamente percorreu seu corpo. Oh, droga...
- Seu nome é Tsukino, certo? - A voz dele baixou a um tom de intimidade, ainda irritada mas controlada.
Serena tentou responder, mas não conseguiu. O cérebro parecia não reagir. Aquele homem era perigoso. Ela balançou a cabeça, concordando.
Mamoru se aproximou tanto que Serena podia sentir o perfume dele. Cheiro de campo, folhas e terra. Os olhos eram negros e ele não se barbeava havia alguns dias. Ela apostava que também não dormira. O rosto era de alguém exausto.
- Srta. Tsukino, não tem que acobertá-lo. Meu pai me escreveu. Isso significa que quer que eu o encontre. Apenas me deixe entrar e conversar com ele.
- Acha que seu pai está nesse apartamento? - Serena perguntou.
- Sim.
Bem, por tudo o que Serena sabia, o sr. Chiba poderia estar lá. Não ia ao apartamento da tia-avó Luna há algumas semanas.
- Já bateu à porta? - ela perguntou.
- Ninguém respondeu. Por isso estava à sua espera.
- Acha que tem um homem dentro desse apartamento, mas que não atende à porta?
- É por isso que quero entrar.
- Ouça, eu realmente não...
- Por favor.
Aquelas palavras estavam carregadas de saudade e de perda. Serena fitava os olhos negros de Mamoru , que não estavam mais semicerrados, mas abertos e repletos de sentimento. Esse homem, que dissera chamar-se Nicholas, sentia falta do pai e o queria de volta.
Embora por razões diferentes, nesse exato momento ela e Mamoru compartilhavam da mesma emoção. De repente, Serena queria de volta a tia-avó. E Luna tinha ido embora para sempre.
Ela virou a maçaneta e abriu a porta, dizendo:
- Vá em frente. Dê uma olhada. Mamoru entrou no apartamento.
- Que educação - Serena murmurou, vendo-o passar apressado.
Porém, não podia levar a mal. O sujeito estava com pressa e ela era a última pessoa a povoar-lhe o pensamento. Mamoru , inclusive, deixara a enorme mochila no corredor. E se houvesse alguém escondido por ali, ele poderia lhe dar algum suporte.
Três minutos atrás, Serena pensara que Mamoru era um assassino, um psicopata. E, agora, pensava nele como alguém que pudesse lhe dar apoio? Deu de ombros. Coisas estranhas tinham acontecido hoje e, ao menos, isso era uma boa distração, desviando-a do real motivo de ela estar no apartamento. Serena o seguiu, fechando a porta. Ao chegar à sala, encostou-se no vão da porta e o observou olhando ao redor.
Era uma sala grande, com janelas do chão até o teto, móveis e telas, o suficiente para fazer com que não fosse tão óbvio notar logo que não havia ninguém lá, exceto os dois. Mamoru olhou o lugar com atenção, rapidez e eficiência. Vistoriou o recanto de leitura atrás do biombo de seda chinesa, das poltronas, nos cantos e até atrás das pesadas cortinas de veludo.
Serena percebeu que Mamoru parecia não notar a coleção de "anjinhos" na parede, antigos anéis de tortura usados para apertar os dedos das vítimas. Também parecia não notar a serra elétrica em uma caixa de vidro no aparador.
- Seu pai costuma se esconder atrás de cortinas? - indagou.
Mamoru não a olhou. Em vez disso, abriu a porta da biblioteca. Serena o observava examinando a sala. Seguiu-o de volta até o corredor e esperou enquanto ele procurava na cozinha. Depois, voltou a segui-lo, indo em direção aos quartos.
- Se me disser como seu pai se parece, vou ajudá-lo - Serena comentou.
- Cerca de 1,80m - Mamoru respondeu, sem olhá-la, enquanto abria a porta de um armário embutido e voltava a fechá-la. - Cabelo e olhos castanhos, 48 anos - Mamoru complementou.
- Você quer dizer que ele se parece com você, exceto que é mais velho. E, aparentemente, gosta de se esconder em armários embutidos.
Nicholas virou-se e caminhou em direção a Serena. Então parou, cruzou os braços e a fitou da cabeça aos pés. Ela notou que ele não se demorou a observar-lhe ò corpo ou o rosto. A atração não era mútua.
- Seu pai não está escondido embaixo das minhas roupas - Serena comentou.
- Estou tentando ver o quanto posso confiar em você.
- Ei, você é que estava esperando lá fora, no corredor, e com uma aparência suspeita.
- Você é que tem uma serra elétrica na sala. Então, ele notara. Serena respondeu:
- Uma garota tem que se proteger. Quando foi a última vez que viu seu pai?
- Há 16 anos.
- E o que o faz pensar que ele está nesse apartamento?
- Porque é o último endereço dele do qual tenho notícia.
A tia-avó Luna deve ter tido muitos hóspedes, alguns deles homens. Só porque ela nunca casou não significava que não gostasse da companhia masculina. E se o pai de Mamoru era tão atraente quanto o filho, Serena não podia culpar a tia-avó por deixá-lo morar ali por um tempo.
- E seu amante? - Mamoru perguntou.
- O quê? Seu pai? Não.
- Não é filha dele, é? Temos parentesco?
- Meu pai é Michael Tsukino e mora em Fairfield, Nova Jersey.
- Qual a sua relação com o meu pai?
- Nenhuma. Já disse que não o conheço.
- Não, você disse que não sabia onde ele estava.
- Bem, também não o conheço.
Nicholas balançou a cabeça, exasperado. Deu-lhe as costas e abriu a porta do primeiro quarto. Era o de hóspedes, o que Serena usava quando ficava ali. A cama estava arrumada e o quarto vazio.
Em seguida, ele deu uma olhadela no segundo quarto, cheio de tralha. Depois, girou a maçaneta da porta do terceiro quarto, o de Luna.
- Se não vê o seu pai há 16 anos, como sabe que esse era o último endereço dele? - Serena perguntou, rapidamente, para distraí-lo e impedi-lo de abrir a porta. Tinha ido ali para fazer uma coisa, mas não queria fazer isso. A verdade ficaria real demais.
Nicholas estava usando jaqueta, calças e botas. Tudo impermeável. O estilo era o de um homem do campo, algo incomum em Nova York. Então, tirou de dentro da jaqueta um envelope creme, e Serena logo o reconheceu. Desde que começara a ler, ela recebera cartas em envelopes daquele tipo, a cada aniversário. Até então, os dois estavam em pé, bem no meio do apartamento de Luna. O envelope era quase um lembrete da tia-avó.
- Luna o conhecia - Serena disse.
- Quem é Luna? - Mamoru perguntou.
- Minha tia-avó, a dona desse apartamento.
- Você não é a dona daqui?
- Pareço ser?
- Por que disse que era?
- Não disse. Eu tinha a chave e você presumiu que o apartamento fosse meu.
- Por que tem a chave daqui?
- Luna morreu há três dias. Vim pegar roupas para vesti-la para o funeral.
- Oh. Lamento.
- Não é culpa sua. Ao menos está sendo divertido ver um estranho revistar o apartamento da minha tia-avó.
- É esse o quarto dela?
- Acha que seu pai está aqui?
- Só tem um jeito de descobrir - o estranho respondeu, e abriu a porta do quarto.
