CAPITULO CINCO

Mamoru colocou um dos braços ao redor dos ombros de Serena e a conduzia, em meio à rua agitada, até o Central Park. Ao encontrar um lugar isolado para os dois fica­rem, embaixo de uma árvore, sentou-a ali.

Serena continuava chorando. Mamoru enxugou-lhe as lá­grimas. Aquela pele feminina era muito mais suave do que ele esperara. Então, puxou-a para perto, como se pudesse protegê-la daquela dor com o próprio corpo.

- Lamento que tenha perdido a sua tia-avó.

- Por que Luna deixaria o dinheiro para mim?

- Para quem mais deixaria? Você disse que sua tia-avó não era muito próxima do resto da família.

- Mas, por que eu? Mal a conhecia também. Nunca nem me disse o que fazia para se sustentar.

- Não me parece que tenha dito a alguém.

- É muito dinheiro. Por que eu?

- Porque sua tia-avó confiava em você - Mamoru res­pondeu, jogando alguns fios de cabelo dela para trás de uma das orelhas. O cabelo era sedoso como a pele.

- Mas por quê? - A pergunta saiu como um gemido. Serena curvou o corpo para esconder o rosto entre os joe­lhos.

Enquanto Serena chorava, Mamoru acariciava-lhe as costas. Lembrou-se da visão dela ao lado das três irmãs e da mãe. Todas as outras mulheres da família Tsukino eram pequenas e de ombros estreitos. Serena dera a impressão de ser robusta e mais real. Entretanto, agora, parecia frágil e feminina.

Mamoru lembrou-se de como Serena o fitara naquela manhã quando lhe dissera que confiava nela. Sabia que não o trancaria do lado de fora do apartamento quando ele saísse para comprar o café-da-manhã. Era um estranho e podia entender as suspeitas dela. Mais difícil era compreender por que Serena não aceitava o fato de que a tia-avó confiava nela.

Então, voltou a lembrar-se do comentário que a sra. Tsukino fizera sobre a saia, como se estivesse surpresa. Talvez não fosse tão difícil imaginar por que Serena não acreditava que a família confiasse nela.

O cabelo dela estava desarrumado. Mamoru o ajeitou e, mais uma vez, surpreendeu-se com a maciez. No sol, os fios ficavam dourados.

- Às vezes, apenas confiamos nas pessoas. Sua tia-avó deve ter pensado que você era a pessoa que merecia o que ela possuía. Essa manhã, pelo jeito como defendeu os pertences dela, eu diria que ela estava certa.

Serena respirou fundo e se afastou de Mamoru .

- Não acredito que eu esteja chorando na sua frente - comentou, desgostosa.

- Tudo bem. Sou bom com mulheres chorando. Mi­nha irmã costumava chorar muito.

- Oh, que sorte a minha estar na presença de um especialista em choronas.

- Não quis dizer isso.

- Então, o que quis dizer? Está contente por ter a oportunidade de mostrar que é um cara legal por confor­tar a pequena herdeira, chateada porque a tia lhe deixou cinqüenta milhões de dólares? O que vai fazer em segui­da? Oferecer-se para me comprar um sorvete?

- Seja sensata. Está chateada. Eu estava apenas con­versando com você. Só isso.

- Não preciso que me conforte. Estou bem sozinha - ela disse ao levantar. Em seguida, foi embora.

À espera no corredor, Mamoru se recostou à parede, braços cruzados, um dos pés batendo no chão acarpetado. Serena estava fora havia mais de três horas e a mochi­la dele, com a carteira, se encontrava atrás da porta trancada.

Mamoru a deixara ir embora do parque, imaginando que Serena se acalmaria e voltaria. Depois de meia hora em­baixo da árvore, decidiu procurá-la. Entretanto, embora tivesse competência para rastrear pessoas e animais no ermo, era impossível fazer isso em Nova York se não sabia qual direção Serena tomara. Ele correu algumas quadras, procurou em uma estação de metrô, e se deu conta de que ela podia estar em qualquer lugar. Então, caminhou de volta ao apartamento de Luna.

Mamoru estava com fome, com sede e cansado. Se Serena não aparecesse logo com as chaves do apartamento, ar­rombaria a porta. Aí, ela veria o "cara legal" que ele era.

Por que Serena o irritava tanto? Só a conhecia havia alguns dias, e por acaso. Tentara ajudá-la e ela lhe jogara isso na cara. Se as chaves do caminhão não estivessem trancadas atrás daquela porta, ele estaria fora de Nova York, com ou sem pai.

O elevador chegou e dele saiu Serena. Usava jeans desbotados que pareciam feitos sob medida para ela, e uma camiseta rosa-choque. A jaqueta preta tinha sido substituída por uma marrom, de couro, justa.

Essas eram as roupas de Serena. Roupas que se ajusta­vam àquele corpo maravilhoso; quadril elegante, ombros fortes, mas curvas suficientes para torná-la feminina. A cintura era fina, as pernas longas. As linhas firmes dos membros contrastavam com os seios redondos e a boca exuberante.

Mamoru engoliu em seco. As palavras sumiram. Então, comentou:

- Oi. Parece bem.

Serena carregava uma sacola de lona enorme e uma bolsa de mão. Colocou tudo no chão e cocou a parte detrás do pescoço como se estivesse desconfortável.

- Detesto que me vejam chorando. Fico furiosa.

- Tudo bem - Mamoru disse.

- Detesto condescendência.

- Não estava sendo condescendente.

- Vou aceitar suas desculpas.

- Não acho que eu tenha pedido desculpas.

- Parece arrependido. - Serena sorriu e estendeu-lhe a mão, dizendo: - Trégua?

- Trégua.

- Então, continua esperando pelo seu pai, aqui, do lado de fora. Presumo que o sr. Chiba ainda não apareceu. Caso contrário, não teria que me preocupar em ver você de novo.

- Meu pai ainda não apareceu. Eu estava a sua espe­ra. Tudo o que é meu, inclusive o meu dinheiro, está dentro do apartamento.

- Aposto que está com fome.

- Sim.

- Tenho algumas coisas aqui. Podemos fazer algo para comer.

- Bom. Você voltou por alguma outra razão além de querer que eu lhe pedisse desculpas?

- Pensei nisso no caminho de volta para o meu apar­tamento, no Bronx. Preciso de uma folga no trabalho para resolver as coisas relativas ao funeral. E imagino que possa ajudá-lo a encontrar seu pai enquanto eu es­tiver sem trabalhar. Será mais fácil analisar os papéis de Luna se eu estiver aqui - Serena explicou e tirou as chaves do apartamento de dentro do bolso da jaqueta.

- De manhã você disse que essa papelada era algo muito particular.

- Disse antes de saber que minha tia-avó deixou tudo para mim. Se havia algo que ela não queria que eu vis­se, deve ter se livrado disso.

- Obrigado.

- Sem problemas. Um de nós tem que conseguir algo que valha a pena de toda essa história de herança.

- Além dos cinqüenta milhões de dólares?

- Luna sabia que eu não queria o dinheiro dela. Não o quero agora.

- Talvez por isso o tenha deixado para você.

- Desejaria que não tivesse deixado. Mamoru se abaixou e pegou a sacola de lona, resmun­gando diante do peso inesperado.

- O que tem aqui, tijolos?

- Halteres. Eu os uso nas aulas - Serena explicou. De­pois, tirou-lhe a sacola das mãos, dizendo: - Pode deixar comigo.

Ao abrir a porta, ela indagou:

- A propósito, você viu como a minha família reagiu à notícia de que eu herdara cinqüenta milhões de dóla­res? Não estava prestando atenção neles.

- Ficaram surpresos.

Ao entrarem no apartamento, Serena soltou uma risada e comentou:

- Aposto que sim.

Os dois foram à cozinha. Ela largou as bolsas e virou-se na direção dele, sorrindo.

- Aposto que pensam que vou gastar a herança em Vegas ou algo do gênero. Pensando bem, isso os deixa­ria muito irritados.

- Seria preciso se dedicar bastante para perder cin­qüenta milhões de dólares em Vegas.

- Verdade. Talvez eu devesse fazer algo que requei­ra muito menos esforço - Serena retrucou e começou a tirar os pacotes de dentro da sacola do mercado.

- Viu como me olharam por pensarem que estávamos vivendo juntos no apartamento da minha querida recém-falecida tia-avó?

- Vi. Por que não lhes contou a verdade?

- Acho que nunca vou poder desapontá-los se con­firmar as piores suspeitas deles, certo? - Serena pegou um pacote de massas e perguntou: - Espaguete está bem para você?

- Não esperava que a minha primeira refeição com uma herdeira multimilionária fosse ser espaguete.

- Ei, você pode me tirar do Bronx. Mas não pode tirar o Bronx de mim.

Em seguida, retirou da sacola um pé de alface e um tomate e os jogou na direção de Mamoru .

- Para honrar o seu pedido de desculpas, vou deixar que faça a salada.

Nicholas pegou a alface com uma mão e o tomate com a outra. Serena se curvou para pegar alguns potes e panelas no armário da cozinha, oferecendo-lhe uma visão das curvas de seu corpo. Ele não conseguiu evitar e ficou olhando.

Serena não era o tipo que ele apreciava. Gostava de mu­lheres pequenas, delicadas, vozes agudas e corpos suaves. De fato, mulheres muito mais parecidas com as irmãs dela.

Porém, havia algo nela. O suficiente para fazer com que Mamoru quisesse cruzar a cozinha e colocar as mãos naquele corpo sexy. Mais do que isso. Queria virá-la para que pudesse fitá-lo, enterrar uma das mãos naque­le cabelo dourado, levar a outra até o bumbum perfeito e beijá-la. Depois, queria erguê-la até a bancada da cozinha e tirar-lhe a calça jeans, puxando-a por aquelas pernas longas e fortes.

- Podemos procurar na escrivaninha de Luna depois do jantar - ela comentou.

A voz dela o trouxe de volta à realidade. Felizmente, Serena estava de costas e não podia ver o que aquela peque­na fantasia espontânea fizera a Mamoru . Então, ele puxou uma cadeira e sentou para disfarçar a excitação.

- O que vai fazer quando voltar a ver seu pai? – Serena perguntou.

- Quero perguntar por que ele foi embora e não voltou. Quero lhe dizer o que fez a todos nós. Por mui­to tempo, minha irmã se convenceu de que o pai nos deixou porque ela não era boa o suficiente. Kitty acha­va que nunca poderia ser bem-sucedida. Chegou a se divorciar.

- Sua irmã também quer vê-lo?

- Liguei para avisá-la de que estava vindo para cá e ela disse que tudo bem, mas que era passado. Kitty se casou de novo e está muito feliz. Pensa que o amor conquista tudo.

Serena abriu uma lata de tomates e perguntou:

- Você concorda?

- Acho que o amor teria que ser muito especial para conquistar tudo.

- Está certo.

Serena lhe passou uma faca e comentou:

- Não vai fazer nada? Pensei que estivesse com fome.

Felizmente, a excitação passara com a conversa. Mamoru levantou e pegou a faca, levando a alface e o tomate para a bancada onde havia uma tábua deixada por Serena. Ao ficar perto dela, notou o cheiro cítrico. Ela devia ter colocado perfume quando trocara de roupa.

Mamoru pensou em se aproximar e beijar-lhe o pescoço para sentir mais aquele perfume. Nada disso.

Falar sobre o pai o distraíra do desejo que estava sentindo, mas deveria lhe dizer outra coisa também. Estava em Nova York por pouco tempo. E não tinha intenção de começar um relacionamento com alguém a quem deixaria em breve.

Passara quase 24 horas com Serena sem notar que se sentia atraído por ela. Agora, teria que deixar de notar.