CAPITULO SETE
A igreja era imensa, fazendo Mamoru sentir-se tão pequeno quanto uma criança.
- Agora entendo por que Luna queria que o funeral dela fosse aqui - Serena disse, olhando os enormes vitrais, o teto elevado e o imenso órgão.
Um homem alto, magro, vestido de preto, parecendo um pastor, aproximou-se e começou a dialogar com Serena. Pela conversa dos dois, Mamoru percebeu que ambos já tinham se encontrado em uma das festas de aniversário de Luna, famosas em Manhattan devido à mistura eclética de pessoas e à qualidade do champanhe. O nome dele era John. E, enquanto os guiava pela igreja até uma capela preparada para o funeral, Mamoru começou a procurar ao redor uma figura que talvez lhe fosse familiar.
Se Eric Chiba estivesse em Nova York, poderia estar nesse funeral. Luna esperara mais de cem convidados.
Mamoru estava acordado desde as quatro da manhã. Era uma sensação inexplicável, mas que fazia o coração bater rápido e o estômago ficar embrulhado, a cabeça girar em torno da idéia de que poderia ver o pai de novo.
Serena o distraíra antes. Contudo, agora, a sensação se intensificara.
Olhou ao redor. Havia muitas pessoas na igreja, andando por ali, ajoelhadas em oração, sentadas nos bancos. E cerca de um terço dessa gente era homens. Mamoru fitou cada um dos que aparentavam a idade do pai dele, questionando e mensurando probabilidades.
Qual seria a cor do cabelo? Cinza, ou continuaria escuro? Será que ainda teria cabelo? Ganhara peso ou perdera? Estaria saudável ou doente?
Mamoru se lembrava do pai como um homem alto, grande. Mas, nessa época, ele tinha dez anos. Agora, media mais de 1,80m de altura, e a mãe e Kitty lhe haviam dito que se parecia com o pai.
Não se lembrava da voz de Eric, embora lembrasse de ouvi-la, e inclusive de algumas palavras que o pai dissera. Mas o tom, o timbre e a entonação, tudo tinha ido embora de sua mente.
Entretanto, lembrava-se das mãos do pai, sempre ásperas e vermelhas por trabalhar ao ar livre. Eram boas para cortar madeira, consertar coisas...
Olhou para as próprias mãos, também ásperas por trabalhar ao ar livre, boas para pegar animais, cuidar deles, construir abrigos, abrir trilhas, plantar árvores. Será que seria assim que reconheceria o pai, não pelo rosto ou pela voz, mas pelas mãos?
Mamoru franziu as sobrancelhas. Nenhum dos homens ali na igreja lhe era familiar. Entretanto, os convidados ainda não tinham chegado para o funeral. Então, ele voltou sua atenção para Serena.
Ela entrara na capela. A frente, o caixão de Luna, rodeado de lírios e rosas brancas. Ali perto, os pais de Serena e as três irmãs com seus respectivos parceiros e filhos.
- Serena, você está bem? - a sra. Tsukino perguntou, aproximando-se e dando um leve abraço e um beijo na filha.
- Você saiu tão rápido do escritório do advogado! - a mãe complementou.
- Estou bem - a filha respondeu.
- Fez um belo trabalho, arrumando tudo para o funeral. E está encantadora.
- Obrigada.
De onde estava, Mamoru podia ver a expressão no rosto de ambas. O sorriso de Serena se contraíra. O rosto da sra. Tsukino demonstrava dor diante da repulsa da filha antes de procurar se controlar e voltar a sorrir.
- Foi às compras? - a mãe perguntou.
Dessa vez, Mamoru viu também a dor estampada no rosto de Serena. E podia dizer que a filha compreendera o subentendido nas palavras da mãe.
- Não se preocupe. Ainda não gastei os cinqüenta milhões de dólares.
Quando Serena se virou, nenhuma das duas parecia feliz. Ambas estavam desapontadas.
Mamoru não era o único a ter problemas com um dos pais. A defensiva de Serena e a inabilidade para aceitar um elogio não se aplicavam apenas ao relacionamento com ele. Parecia que as defesas dela eram algo que aprendera há muito tempo.
- Nicholas, certo? - O sr. Tsukino o viu, e o observava, desconfiado.
Mamoru acenou com a cabeça, concordando, e estendeu-lhe a mão para cumprimentá-lo.
- Lamento ter tido que sair sem me despedir no outro dia, ou agradecer-lhe por ter permitido que eu participasse da leitura do testamento da srta. Tsukino – disse Mamoru .
- Não posso culpá-lo por ter ido à procura de Serena. Principalmente depois da notícia da herança - o sr. Tsukino retrucou.
Mamoru compreendera aquelas palavras. Mas preferiu ignorar.
- Foi um momento de muita emoção para ela... – Mamoru começou, mas Serena o interrompeu.
- Está certo, pai, agora terei todos os homens atrás de mim. Devo ser a solteira mais cobiçada em Nova York, uma vez que tia Luna morreu.
- Não esperava que você fosse embora correndo. Não deve ter se surpreendido com o fato da tia Luna ter lhe deixado todo o dinheiro. Já estava no apartamento dela, não? - Jade comentou.
- Oh, tia Luna ainda é cheia de surpresas, acredite em mim - Serena retrucou.
- Tem alguma idéia de por que ela deixou tudo para você? - Cindy perguntou.
- Não sei - Serena respondeu.
- Pensei que ela teria deixado o dinheiro para alguém mais...
- Cindy - Jade a repreendeu.
- Responsável? De valor? Alguém que o merecesse? - Serena indagou.
- Não isso. Apenas alguém que não fosse tão... - Diana respondeu.
- Tão o quê?
- Você sempre esteve um pouco à margem, não? - Di comentou.
A mãe se aproximou e disse:
- Di e Cynthia estão apenas curiosas, Serena, elas não querem...
- Não, mãe, elas estão certas. Com licença, tenho que falar com o agente funerário sobre a cerimônia - Serena disse. Depois, virou-se e caminhou de volta pelo corredor. Mamoru a seguiu.
- Você está bem?
- Sim.
- Não deviam falar com você assim. Podem,estar magoados devido ao testamento da sua tia-avó, mas não é desculpa para criticá-la.
- Isso não é novidade. Dê uma olhada neles. Minha família é bonita, bem-sucedida. Sou a única que é um fracasso, sempre fui. Não deixe que isso o aborreça; já não me aborrece mais.
- Acho que é uma mentira.
- Como sempre disse, a melhor vingança é não dar importância. Além disso, sabemos que eles não conheciam tia Luna tão bem quanto nós. De qualquer forma, não vai encontrar seu pai aqui, e os convidados estão começando a chegar. Se você se sentar lá trás, poderá ver todos os que entram.
- Esse funeral vai ser difícil. Você e sua família vão se aborrecer.
- Deixe minha família comigo. Concentre-se na sua, tudo bem? Além disso, é melhor me deixar ou todos vão realmente começar a pensar que você está atrás do meu dinheiro.
Dessa vez, Mamoru compreendeu a insinuação. Afastou-se e foi para a entrada lateral da capela, de onde poderia ver todas as pessoas que chegassem para o funeral. Os convidados entravam em duplas, grupos, conversando. Luna era amiga de todos, desde os funcionários da lanchonete do bairro até a nata da sociedade de Manhattan.
E, embora procurasse rostos e observasse mãos, Mamoru continuava pensando em Serena e na família dela. Mesmo sendo um estranho, e apesar do pouco convívio, ele podia ver a dinâmica dos Tsukino.
Serena não se ajustava àquilo. Mas a família se esforçava, ao jeito deles. A mãe procurava elogiá-la e conversar sobre roupas. Provavelmente, como fazia com as outras filhas, mais ligadas em moda. O pai estava tentando protegê-la por haver um outro homem interessado.
Entretanto, Serena não ouvia a preocupação dos pais. Ouvia a crítica implícita em relação à aparência, às escolhas, à vida dela. E sua forma de se defender era confirmar-lhes suas piores suspeitas, transformar a própria dor em piada.
A família se sentia magoada porque Serena parecia repelir o amor deles. Ela se sentia magoada porque o amor dos pais e das irmãs parecia apenas esconder o desapontamento que sentiam.
As pessoas se juntaram. John subiu ao púlpito e começou a falar. Mamoru escolheu uma cadeira ao fundo, virando-a em direção à entrada de forma que pudesse ver os que chegassem atrasados.
Mamoru supunha que seu passado o tornara sensível à forma como as famílias reagiam segundo as próprias convicções. Ele amava a mãe e a irmã com uma lealdade tão arrebatadora que, às vezes, doía. Ainda assim, os dois irmãos saíram de casa bem cedo em busca dos seus objetivos profissionais. Kitty tinha ido para a Califórnia e se tornara designer de interiores. Ele fora para a faculdade estudar Proteção Ambiental e passava meses em uma região inabitada como parte do treinamento de guarda-florestal.
Ao analisar a multidão em busca de uma figura familiar, Mamoru se perguntava se o pai se encontrara em uma contradição similar àquela que ele estava enfrentando. A carta dele não explicara nada. Três linhas escritas a mão em uma folha branca de papel.
Querido Mamoru , espero que você esteja bem. Soube que conseguiu um bom trabalho e que está feliz. Eu estou bem.
Com amor, papai.
A carta era cercada de mistério, assim como o desaparecimento do sr. Chiba. E ambos zombavam da palavra "amor" ao final.
Mamoru olhou na direção de Serena. Sentada perto da família, prestava atenção ao que John dizia sobre a vida de Luna. Balançava a cabeça, concordando com o que era dito. Ele sorriu e voltou a observar a multidão.
O sr. Chiba não ia aparecer. Resignado, Mamoru bebeu um gole de uísque. De fato, o uísque era a confirmação de que ele desistira da busca naquele dia. Raramente bebia mais do que uma cerveja ou duas. E nunca uma bebida alcoólica forte. Valorizava o fato de estar com os sentidos aguçados. Entretanto, um garçom passara com copos de um líquido cor de âmbar e ele pegara um, pensando que talvez o álcool pudesse acalmá-lo depois de tanta adrenalina.
O funeral demorou séculos. Então, houve o enterro e a recepção. E, nesse meio-tempo, o deslocamento da igreja até o cemitério, e de lá para o hotel. Nas duas vezes, Mamoru entrou em uma limusine com um grupo de estranhos e ouviu a conversa, esperando conseguir uma pista sobre Eric Chiba.
No caminho para o cemitério, Mamoru foi com um grupo de poetas e artistas que nunca tinham ouvido falar do pai dele. Já no caminho para o hotel, foi com um grupo de mulheres francesas e portuguesas, ex-faxineiras de Luna. Ao mencionar o nome Chiba, todas se lançaram a uma discussão animada sobre um conferencista que escrevera um livro sobre terrorismo. Obviamente, não era o pai dele.
Ali, na recepção, no salão do hotel, Mamoru não tivera muito mais sorte. Então, bebeu outro gole de uísque e se encostou à parede, avistando Serena. Ela conversava com algumas pessoas, rindo de algo. Hoje, toda vez que a ouvira falar, ela estava sempre sorrindo e comentando sobre a maravilhosa Luna. O funeral podia ter sido um evento triste para algumas pessoas. Não para a sobrinha. Parecia determinada a celebrar a vida da tia-avó mais do que lamentar seu falecimento.
Mamoru sorriu e isso o relaxou mais do que o uísque. Endireitou-se e cruzou o salão, onde havia uma mesa para copos vazios. Estava colocando o copo quase cheio ali quando ouviu uma voz feminina que parecia sussurrar:
- Sim, mas por que ela está sorrindo tanto?
- Você não faria o mesmo se tivesse cinqüenta milhões de dólares?
Mamoru pousou a bebida e virou-se na direção das vozes. As mulheres estavam do outro lado de um dos enormes arranjos de flores. Não conseguia ver-lhes os rostos. Porém, ao observar as roupas, reconheceu duas das irmãs de Serena.
- Cindy, não seja maldosa - Diana comentou.
- Não estou sendo maldosa. É a verdade. Olhe para ela. Está agindo como se fosse uma festa, não um funeral. Está mais alegre agora que no seu casamento - Cindy retrucou.
- O que quer dizer?
- O que estou dizendo é que acho que Serena sabia de antemão que ganharia todo o dinheiro. Por que mais ela iria sempre à casa da tia Luna? Por que se certificou de que seria ela a preparar o funeral? Desejava que nos contasse a verdade e parasse de fingir que tudo foi uma grande surpresa. Isso é típico de Serena.
Mamoru deixou um dos punhos e caminhou ao redor do arranjo de flores para confrontar as duas mulheres.
- Estão sendo injustas com a irmã de vocês. Luna pediu a Serena que lhe preparasse o funeral. E ela não se importa com dinheiro. Nem vai deixar de ser taxista. Apesar de ser um estranho, até mesmo eu pude ver, dez minutos depois de conhecê-la, que Serena amava a tia-avó. Vocês são a família dela. Deviam lhe dar uma chance - Mamoru disse.
Diana ficou de olhos bem abertos e ia responder. Mas, antes que pudesse fazer isso, Mamoru sentiu uma mão forte agarrar-lhe um dos pulsos e afastá-lo das duas mulheres.
- Com licença - Serena disse às irmãs, puxando um dos braços de Mamoru .
Os dois cruzaram o salão. Ao chegarem ao corredor, ela o soltou e perguntou, furiosa:
- Que diabos estava fazendo?
- O que parecia que eu estava fazendo? Defendendo você.
- Não preciso que você me defenda.
- Acho que não ouviu o que as suas irmãs estavam dizendo.
- Não importa o que diziam! Não preciso que me defenda. Não quero que me salve! Não sou um animal patético que precisa que você o ajude! Posso cuidar de mim.
- Serena, sei que pode cuidar de si mesma, mas eu não podia ficar quieto. São sua família, deviam apoiá-la, não...
- Quantas vezes preciso lhe dizer que não me importo?
As últimas três palavras foram um grito. O rosto dela estava lívido. Entretanto, os olhos pareciam repletos de dor.
Mamoru se aproximou e a beijou. Oh, Deus, a boca era quente, exuberante e suave. Ele passou uma das mãos por entre os cabelos de Serena e colocou a outra no quadril dela, puxando-a para mais perto e intensificando o beijo.
Queria aquela mulher enroscada nele. Sentiu as mãos de Serena no tórax másculo e quase gemeu ao imaginá-la desabotoando-lhe a camisa, abrindo-a e acariciando-o. Porém, Serena o empurrou com força.
Surpreso, Mamoru a fitou. A boca de Serena estava vermelha por causa do beijo. As pupilas dilatadas, mas os olhos semicerrados.
Serena voltou a empurrá-lo. Dessa vez, quase o machucou.
- Me deixe ir.
Mamoru a soltou e Serena deu um passo em falso para trás, cambaleando. Ao tentar ajudá-la a se equilibrar, ela se afastou ainda mais.
- Serena...
- Não preciso da sua piedade - ela disse e foi embora.
