CAPÍTULO DOZE

Ele tinha ido embora.

Serena acordou e sentou na cama, em pânico. Mamoru não estava mais ali. Provavelmente recobrara o juízo e saíra de lá o mais rápido possível.

Um pedaço de papel em cima da cama chamou-lhe a atenção e ela o agarrou.

Fui buscar o caminhão e o café-da-manhã. Volto logo, dizia o bilhete. Serena não tinha visto a caligrafia de Mamoru , mas o reconheceu no estilo sucinto da mensagem. Era o jeito dele.

Ela se acomodou ao calor que Mamoru deixara, e pensou nele. Na forma como se mexera no escuro, na noite passada, por exemplo, quando a acordara para que fi­zessem amor mais uma vez. Começara devagar, com beijos suaves. Mas então o desejo se sobrepôs.

Ela esboçou um sorriso. Levou o travesseiro dele até o rosto e sentiu o cheiro que ele deixara. Era quente e excitante. Se ela tivesse acordado primeiro, não teria tido forças para levantar e deixá-lo na cama sem voltar a tocá-lo.

O sorriso desapareceu. Não teria sido capaz de sair. Mas ele sim. Serena jogou as pernas para fora da cama. Deus, qual o problema com ela? Passara a noite fazendo amor o melhor sexo que tivera em toda a sua vida. E estava ficando neurótica porque ainda não repetira a dose?

E não era como se, de repente, Mamoru a tivesse visto à luz do dia e descoberto que ela era feia. Ele a vira na claridade diversas vezes antes. Não era como se o sexo com ela fosse clarear-lhe a visão.

Um barulho chamou-lhe a atenção. O pombo arru­mava e se mexia na gaiola que continuava em cima da escrivaninha, perto da porta, onde ela a colocara na noite anterior. Serena levantou, vestiu uma camiseta e uma calça jeans que tirara da sacola e foi até a gaiola. Havia um pacote de alpiste aberto ali perto. Mamoru deve ter dado comida ao pombo antes de sair para comprar o café-da-manhã.

Serena sentou-se na cadeira perto da escrivaninha e abriu a porta da gaiola. O pombo não avançou ou recuou. Apenas a fitou.

Havia comida no prato, mas ela colocou um pouco mais de alpiste. Depois, com cuidado, o empurrou para perto da ave.

- Pegue, o serviço de quarto não vai durar para sem­pre - ela sussurrou.

O pombo a observou por alguns segundos. Então, abaixou a cabeça e comeu. Cada movimento era certei­ro e quase desafiador, como se a ave soubesse que Serena estava ali. Tudo bem, decidira que não poderia se inco­modar com a presença dela.

- Você é um macho valentão - disse. Lembrou-se dos pombos de Nova York, em bando, batendo as asas e sobrevoando o trânsito e o barulho. Uma relação entre o chão e o céu. - Ninguém pensa que você é especial, certo? Acham que todos os pombos são iguais e que são uma praga. Mas não se incomodam. A questão é, eu me importo com o que Mamoru pensa. Isso não é bom. Até gostei de dormir abraçada a ele. E, geralmente, detesto dividir o meu espaço - Serena comentou.

Pegou uma semente de alpiste e a mordeu. Não tinha gosto de nada. Estava distraída levando outra à boca quando Mamoru entrou no quarto e disse:

- Deve estar desesperada para tomar o café-da-manhã.

Naquele momento, Mamoru Chiba parecia ainda mais deslumbrante do que nunca. Talvez porque dormi­ram juntos, e ela vira e tocara cada parte de seu corpo. Talvez fosse o brilho sexy nos olhos dele enquanto a fitava.

Ela fechou a gaiola do pombo e levantou, dizendo:

- Não é para isso que estou desesperada.

Mamoru largou a sacola de papel em cima da escrivani­nha, foi até Serena e a tomou nos braços. Ele estava frio devido ao ar da manhã. A sensação era maravilhosa.

- Estou tão aliviado em vê-la - Mamoru murmurou, acariciando-lhe o cabelo com uma das mãos e deixando a outra percorrer-lhe as costas e o bumbum.

- Para onde eu iria? E como? Você estava com o caminhão - Serena comentou e o beijou no queixo. Ele não se barbeava havia dois dias, segundo as contas dela, e a barba começava a suavizar.

- Conhecendo-a, sei que iria a qualquer lugar e do jeito que pudesse. Ultrapassei o limite de velocidade no caminho de volta da oficina porque estava certo de que você já teria ido embora quando eu chegasse - Mamoru disse e beijou-lhe a testa, as sobrancelhas e a ponta do nariz.

Então, durante todo o tempo em que estivera preo­cupada por ele ter saído, Mamoru estava preocupado que ela o deixasse? Serena balançou a cabeça e desabotoou-lhe

a camisa.

- Não vou a lugar nenhum. Depois de tudo, tenho que ver seu pai com meus próprios olhos. Além disso, você não seria capaz de chegar à casa de Luna sem mim.

Serena terminou de desabotoar-lhe a camisa e gemeu de prazer ao sentir o tórax nu sob as mãos. Havia uma alegria especial em estar pele a pele com Mamoru .

- Espero que tenha ficado por minha causa, e não somente por meu pai.

- Bem, você tem sua serventia- ela disse e beijou-lhe o ombro, deixando que o cabelo ralo do peito dele lhe fi­zesse cócegas no nariz. Então, passou a língua por um dos mamilos, que lhe parecia tão tentador.

Mamoru estremeceu. Ergueu o rosto de Serena de forma que ela o fitasse e comentou:

- Estou contente que esteja aqui. Não consigo pensar em nada a não ser no que aconteceu ontem à noite, nós dois juntos. Sabia que ia ser bom, mas não tanto. Você me surpreendeu.

- Ficar naquela ilha o deixou desesperado, hein? -Nunca fui para a cama com uma mulher como você.

- E que tipo de mulher eu sou?

- Alguém que assume o controle, que sabe o que quer e vai atrás dos seus objetivos.

- Sei o que quero agora. - Ela abriu-lhe o zíper e o acariciou intimamente. A lembrança de Mamoru dentro dela a fez gemer.

Não importava o futuro. Apenas o aqui e o agora. Mamoru com ela, os corpos dos dois queimando de desejo. Estar com ele, embora lhe enchesse a cabeça de dúvida e medo, deixando-a desesperada, fazia com que se sen­tisse melhor do que nunca.

Serena sorriu e, devagar, abaixou-se até ficar de joelhos, deixando que o corpo roçasse o dele. Adorava vê-lo excitado. Então, voltou a acariciá-lo intimamente.

- Serena - Mamoru gemia, e a voz dele aumentou o desejo dela, que intensificou as carícias.

Então ele se abaixou, pegou-a no colo e a carregou em direção à cama, dizendo:

- Preciso estar dentro de você.

Quando foi que um homem a pegou no colo antes? Como se ela fosse uma princesa de conto de fadas ou algo do gênero?

Mamoru a deitou na cama e Serena o puxou para perto de si, rindo do peso dele em cima dela. A risada se trans­formou em um grito sufocado quando ele a beijou de­monstrando força e possessividade. Depois, puxou-lhe a camiseta sobre os seios e abaixou a cabeça para beijar-lhe um dos mamilos.

Com os olhos presos à cabeça de Mamoru em seu peito, Serena se esticou e pegou um preservativo que estava na mesinha-de-cabeceira. Ele o tirou das mãos dela e, em poucos segundos, já o estava usando. Então, despiu-a e posicionou-se. Porém, de repente, parou.

- Mamoru - Serena implorou.

- Nunca conheci alguém como você. Alguém que age como eu, tão forte quanto eu. Você é incrível - Mamoru disse.

Um movimento, uma fração de centímetro, e Mamoru estaria dentro de Serena. Ela arqueou o corpo, contorceu-se, tentou se aproximar, juntar-se a ele, perder-se no prazer de fazer amor e parar de pensar no que Mamoru estava di­zendo. Eram iguais: em paixão, nas habilidades, no corpo em forma, no orgulho. Eram iguais em quase tudo, exceto em uma coisa. Ela o amava.

Então, os dois corpos se fundiram. Serena sentiu-se completa. Mamoru lhe dava quase tudo o que ela queria. Ela arfava e parou de pensar.

Mamoru sorria enquanto Serena acariciava-lhe o queixo mais uma vez. Até um toque tão simples era excitante. Ele desviou o olhar da estrada para fitá-la e comentou:

- Deve achar que eu nunca faço a barba.

- Gosto de você sem barba.

- Pensei que gostasse daquela coisa de homem rude da montanha.

- Oh, e gosto muito. Tenho marcas da sua barba por todo o meu corpo para provar o quanto gosto disso - Serena disse e levantou a blusa para lhe mostrar uma marca vermelha na pele clara, no local onde ele a beijara na­quela manhã, próxima aos seios.

Mamoru a queria mais do que nunca. Era como se fazer amor com ela apenas confirmasse a atração que sentia, fazendo-o aprender mais sobre o porquê de Serena Tsukino ser desejável. Definitivamente, isso era algo que nunca lhe acontecera antes.

Ele tirou a mão direita do volante e a deslizou por uma das coxas de Serena. Então, ouviu-a suspirar de prazer com essa carícia. O corpo dela era bonito, mui­to mais sexy do que imaginara depois de vê-la usando minúsculas lingeries. Mas não era apenas o seu corpo que o deixava louco. Era ela, a suavidade que guarda­va dentro de si, a paixão desavergonhada. A forma como era influenciável, em um momento, e, no seguin­te, tomava conta da situação. Uma mulher confiável, inteligente. Incerta, vulnerável. Sexy, feminina, forte. Inúmeras contradições que se somavam ao fato de ser a pessoa mais fascinante que conhecera.

- Quanto tempo até Southwest Harbour? - Serena in­dagou.

- Sem trânsito, vamos levar cerca de 15 minutos da ponte até Mount Desert Island, que é aqui. - Ele apon­tou.

Serena abaixou o vidro da janela para olhar. Em segui­da disse:

- Ugh! Pensei que havia dito que o Maine cheirava bem.

- É o pântano. O cheiro é melhor na ilha. - Mamoru apertou-lhe a coxa e pensou no cheiro dela. Sabonete, pele, o perfume elusivo, o calor. Os lugares onde o cheiro dela estava mais presente: entre os seios, na parte in­terna da coxa, no pescoço. Ele excitou-se.

- Onde você mora?

- Tenho uma cabana no continente, em um lago não muito longe de Ellsworth, por onde acabamos de passar. Uma casa na ilha é muito caro.

- Sua casa ficou para trás? Por que não paramos? Deve estar cansado de viver com uma mochila nas costas.

- Estou acostumado. Entretanto, está certa. Deve­ríamos ter parado. Não fazemos amor há cerca de quatro horas, e tenho uma cama de casal.

- Tenho certeza de que a casa de Luna tem muitas camas, sofás...

- Pare de falar sobre isso ou vou sair da estrada... - Mamoru gemeu. A excitação crescera a proporções épicas.

Desconfortável por estar excitado, não conseguiu deixar de apreciar a diferença entre as duas viagens. Aquela até o Maine com Serena e a anterior, sozinho, até

Nova York.

No caminho para Nova York, dirigira rápido e só parará quando necessário. O cérebro girava, pensando na carta que o pai lhe escrevera, as veias pulsando de raiva.

Na viagem de agora, o cérebro girava por causa de Serena, as veias pulsavam de desejo. Honestamente, podia dizer que não pensara no pai mais que uma ou duas vezes. E isso era inesperado.

Serena riu e perguntou:

- Do que quer falar?

- Algo que não tenha nada a ver com sexo, por favor.

- Que tal o pombo? Está melhor? O que vai fazer com ele?

- Ela.

- O quê?

- É fêmea.

- Como sabe?

- Prática. É menor que um macho.

- Ah. De qualquer forma,, o que vai fazer com ela quando ficar melhor? Vai deixá-la aqui no Maine?

- Esse é o plano. Ela será capaz de se juntar a um bando aqui. Não sentirá falta do cheiro nem do trânsito de Nova York.

- Talvez sinta. Nem todos odeiam Nova York tanto quanto você, lembre-se disso.

Mamoru saiu da estrada em direção a Southwest Harbour. Agora, dirigia rápido, queria chegar logo para tocar em Serena.

- Poderia levá-la de volta a Nova York comigo quan­do eu fosse - Serena disse.

- É uma idéia. Diga uma coisa, quando pensa voltar a Nova York?

- Mais cedo ou mais tarde, tenho que enfrentar essa herança e decidir o que fazer a respeito. Cheguei à con­clusão de que irritar minha família não é uma boa tática. Terei que fazer algo útil. Mas, antes disso, quero ver como é seu pai. A curiosidade está me matando.

- Então, vamos encontrar meu pai.

Chegaram à cidade de Southwest Harbour e dirigiram pela estrada principal, ao longo da qual havia lojas. Mamoru estacionou e, sem olhar para Serena, abriu a porta e saiu. Ela o alcançou, a meio caminho rumo à loja principal, e perguntou:

- Você está bem?

- Quero perguntar se alguém aqui conhece o meu pai antes de irmos até a casa de Luna - Mamoru disse e em­purrou a porta, entrando na loja. Então, pegou um jornal e o colocou em cima do balcão, onde trabalhava um homem de meia-idade.

- Boa tarde - Mamoru disse.

- Vão ficar aqui por muito tempo? - o homem per­guntou ao pegar o dinheiro e dar o troco.

- Isso depende. Conhece um homem chamado Eric Chiba? Acho que mora aqui, ou está de visita.

- Não conheço nenhum Eric, mas há Duck, em Seal Cove Road. Acho que o último nome dele é algo como Chiba. Um desses sobrenomes franceses.

Duck. Mamoru lembrou-se de uma jaqueta de caça na cor laranja, um assobio que imitava os brados de um pato.

- Pode ser Eric... - Mamoru disse.

- Na maior parte do tempo, ele está sozinho. Cuida de algumas casas de veraneio. É uma estrada de terra à esquerda.

Serena, que estava ao lado de Mamoru , disse:

- Também estamos procurando pela casa de Luna Tsukino. Tenho o endereço, mas é muito vago.

- Também mora lá. Acho que Duck cuida da casa dela. Luna costuma passar por aqui. Entretanto, não a vejo há algumas semanas.

- Ela morreu. Sou sua sobrinha-neta, Serena Tsukino - ela disse, e estendeu-lhe a mão.

- Lamento. Luna era conhecida aqui. Vamos sentir falta dela.

- Eu também.

Mamoru agradeceu ao comerciante e saiu, retornando ao caminhão. Serena se juntou a ele alguns momentos depois. Carregava uma sacola repleta de comida.

- Boas notícias. Seu pai está aqui. Parece que você não tinha motivo para ter ido a Nova York.

- Bem, ao menos salvei o pombo. Vamos - disse e subiu no caminhão, ligando o motor enquanto Serena dava a volta ao redor do veículo.

- Pensei que fosse paciente - ela comentou.

- Agora que estou prestes a ver meu pai, acho acei­tável estar impaciente.

- Certo.

Era mentira. Não estava impaciente para ver o pai. Só pensava em Serena sentada a seu lado.

Era com o pai que ele deveria estar chateado. Conhe­cia Serena há menos de uma semana, e não tinham nenhum compromisso um com o outro. Seu pai, ao contrário, casara-se com a mãe dele e fizera dois filhos antes de desaparecer.

Mamoru pensou no pai enquanto dirigia rumo a Seal Cove Road. Conhecia a estrada; cruzava o Parque Na­cional de Acádia, onde trabalhava há quatro anos. Diri­gira e caminhara por ali centenas de vezes. Assim como o pai. Já deviam ter estado na mesma estrada, na mesma hora. Devem ter passado um pelo outro sem que Mamoru soubesse.

- Você está bem?

- Só estou me perguntando quanto tempo ele viveu tão perto de mim e se sempre soube que eu trabalhava aqui.

- Parece que vai descobrir logo - Serena disse, apontan­do para a estrada de terra à esquerda. Mamoru diminuiu a velocidade e tomou esse caminho repleto de buracos, em meio à floresta. A cada solavanco do caminhão, Mamoru ficava mais tenso. Pensara nesse momento por 16 anos.

Então, viu que a estrada terminava em um trailer branco. Havia um galpão de madeira ao lado.

Ele guarda as ferramentas aqui, Mamoru pensou. Desli­gou o caminhão e saiu. O trailer estava escorado em blocos de concreto. Ele subiu a escada de madeira e bateu à porta.

- Pai? É Mamoru - gritou.

- Não acho que esteja aqui - Serena disse.

- Pai? - Mamoru voltou a bater à porta. Não ouviu ne­nhum barulho vindo do trailer. Todas as janelas estavam fechadas. Virou-se e observou o lugar. Notou que o caminhão era o único veículo ali estacionado.

Fazia parte de seu trabalho rastrear animais, fazer observações sobre seu habitai, e não notara esse fato básico? Então, deu uma boa olhada ao redor.

O pai não estava ali. Mas o lugar não se encontrava abandonado. Havia rastros recentes de pneu na estrada de terra, e dava para ver marcas de botas, ao lado das dele, no caminho até o trailer. O cadeado da porta do galpão era grande e novo. A grama tinha sido cortada há cerca de uma semana.

Não havia nada óbvio como uma assinatura de jornal para mostrar-lhe há quanto tempo o pai tinha ido embo­ra. Mas seu instinto lhe dizia que Eric saíra, no mínimo, há meia hora; no máximo, há um dia.

Mamoru tentou abrir a porta do trailer. Estava trancada. Isso significava que saíra havia algumas horas.

Ele sentou na escada. Serena se aproximou e perguntou:

- Você está bem?

- Sim. Parece que agora vou ter que acampar em frente a essa porta por um tempo.

Um telefone tocou. Era o celular dele. Mamoru levantou, foi ao caminhão e tirou o telefone de dentro do porta-luvas. O número no visor era o de Kitty.

- Não vai acreditar onde eu estou - disse à irmã.

- E você não vai acreditar quem acabei de ver.

- Quem?

- Papai. Ele apareceu do nada, perto da hora do al­moço.

- Papai apareceu na sua casa?

- Não, no escritório. Disse que conseguiu o endere­ço nas páginas amarelas. Fomos almoçar na minha casa.

- Você almoçou com o nosso pai?

- Era hora do almoço, e pensei que ele deveria co­nhecer Jack.

- Mamãe sabe?

- Sim, ela ligou enquanto papai estava lá e eu lhe contei. Você conhece a mamãe. Nem pareceu surpresa.

- Sobre o que conversaram? - perguntou.

- Ele disse que foi à sua casa essa manhã, mas você não estava. Então, decidiu vir até Portland para nos ver. Ainda está em Nova York?

- Não, estou do lado de fora da casa de papai em Southwest Harbour.

- Isso é engraçado.

- Ele morou no Maine esse tempo todo.

- Não o tempo todo, mas os últimos anos. Ele teve empregos aqui e lá. Agora, cuida de algumas casas de veraneio.

- Eu sei.

- É? Como descobriu? Ele disse que ainda não o viu. Eu lhe contei que você estava em Nova York, à procura dele. Papai não conseguiu imaginar por que você tinha ido lá. Ele nunca esteve em Nova York. Como o rastreou de volta ao Maine?

- É uma longa história. O que ele disse?

- Já lhe contei. Ele morou em diversos lugares, mas agora está no Maine e decidiu que era hora de nos ver, acho.

- O que papai disse sobre ter nos deixado?

- Não falamos sobre isso.

- O quê? Quer dizer que ele não pediu desculpas por ter ido embora? Nem ao menos explicou o motivo?

- Não. Tudo bem.

- Tudo bem?

- Ouça. Ele disse que ia passar a noite em Portland, em um hotel, e seguir rumo ao norte amanhã. Provavel­mente, deve estar aí por volta de meio-dia. Pode falar com ele, se quiser.

- Eu quero.

- Vamos conversar. Vou aí esse fim de semana. Estou preocupada com você.

- Certo. Vejo você amanhã ou domingo. Mamoru desligou o telefone e deu um soco em uma das laterais do caminhão, o suficiente para amassar.

- Droga!

- Ei! Esse caminhão já é feio o suficiente sem você torná-lo pior - Serena disse, colocando a mão no braço dele.

- Eric foi ver minha irmã. E nem teve a decência de dizer que lamentava ter nos deixado. Apenas apareceu e almoçou com ela como se fosse um pai de verdade - Mamoru contou a Serena e chutou o pneu mais próximo.

- Bem, o sr. Chiba é seu pai de verdade.

- O quê?

-Não costumo dar conselhos. Então, escute. Em Nova York, você disse que a minha família tenta se aproximar e tudo o que faço é afastá-la. Seu pai pode ter deixado vocês, mas escreveu-lhe uma carta e agora foi procurar a filha. Se isso não é um tipo de pedido de desculpas, não sei o que é.

- Tarde demais.

- Pode ser, mas não é para você decidir até que escute o que ele tem a dizer. Se você não me deixa rejeitar minha família, também não vou deixar que rejeite a sua.

- Desde quando passou a ter compaixão e todo esse entendimento?

- Deve ser esse ar livre de poluição. O sr. Chiba vai voltar em breve?

- Não até amanhã.

- Então, vamos encontrar a casa de Luna, trocar de roupa e sair. Estivemos muito tempo presos em um cami­nhão - Serena disse, aproximou-se e o beijou com carinho.

- Você está certa. Vamos embora e aproveitar o res­to do dia.