CAPÍTULO TREZE

Assim que passaram pelas árvores e Serena viu a casa, soube que era de Luna.

A casa estava construída em uma pequena ladeira, com um gramado cercado de árvores. Era grande, com janelas altas e venezianas verdes. Havia um vaso de gerânios na varanda, perto de duas cadeiras de balanço. E também um banco sob um pinheiro no gramado da frente e uma mesa de piquenique ao sol.

Mamoru desligou o caminhão. Serena abriu a porta e cor­reu em direção à varanda. Havia uma porta de tela e outra de madeira. As chaves que o advogado lhe dera serviram. Ela entrou. No térreo, havia apenas um cô­modo que era, ao mesmo tempo, sala de estar, de jantar e cozinha.

Serena parou. Mamoru , a seu lado, disse:

- Que lugar bonito.

-Aqui é onde ela escrevia... - Apontou para uma escrivaninha de madeira em frente à janela de trás da casa, com vista para o arvoredo. Havia um computador e pilhas de papel. Ao lado da escrivaninha, uma estante com os livros de capa dura de Xander Dark.

- É diferente do apartamento - Mamoru observou. E para ilustrar o que dizia, tocou nas costas de uma ca­deira. Era simples, de madeira, com assento de palha e uma almofada de patchwork. Assim como todo o resto da mobília, era funcional, simples e confortável. Nada de sedas ou tapeçarias, antigüidades ou cortinas pesadas.

- Pode se mudar para cá - Serena disse. Então, se deu conta do que tinha feito: vira algo de que gostara e cha­mara Mamoru para dividi-lo com ela. - Vou pegar a comida no carro - comentou.

- Eu vou. - Mamoru saiu e ela ficou sozinha na casa. Havia uma escada. Serena a subiu e defrontou-se com um longo corredor, repleto de portas e fotos de árvores e de paisagens litorâneas. Algumas, em tom de sépia, eram da própria casa, anos atrás.

Serena entrou na segunda porta e olhou o quarto: uma cama de casal de madeira, uma poltrona, uma cômoda com gavetas. Mamoru e eu podíamos dormir aqui, ela pen­sou. E teve uma visão dos dois acordando, a janela aberta para deixar a luz do sol entrar de manhã, junto com o cheiro de pinho. Todos os dias acordando e ven­do o sorriso gentil e sexy de Mamoru .

- Serena? -A voz de Mamoru interrompeu-lhe o devaneio. Ela fechou a porta antes de descer a escada. Ele trouxe­ra as sacolas com a comida e o pombo.

Mamoru estava colocando as compras na cozinha e, ao abrir a geladeira, exclamou:

- Uau!

- O quê?

- Há comida nessa geladeira. Manteiga, ketchup, alguns ovos e queijo. Além de carne e legumes no con­gelador.

Ele pegou um pacote e comentou:

- Cachorros-quentes.

- Talvez minha tia tenha estado aqui há pouco tempo e planejasse voltar.

- Isso faria sentido. Meu pai poderia ter lhe dado a carta endereçada a mim enquanto Luna estava aqui. I ela a colocou no correio assim que voltou para No\ a York. Gostaria de saber por quê.

- Talvez o sr. Chiba não quisesse que você soubes­se de onde era o carimbo.

- Pode ser, embora seja estranho se meu pai plane­java me visitar.

- Talvez só tenha decidido isso ontem. Mamoru fechou a geladeira e comentou:

- Nem deveria me incomodar em tentar entendê-lo. Vamos, não quer dar uma corrida?

- Sim. Vamos.

Mamoru observou com satisfação Serena colocar o restinho do vinho na taça dele, lembrando-se de uma época, não tão distante assim, em que ela teria tomado o último gole sozinha.

- Obrigado - ele agradeceu, brindou com ela e bebeu O vinho era excelente. Provavelmente bom demais para acompanhar cachorros-quentes e salada de batata. Mas ele começava a entender a natural mistura de despretensão e requinte de Serena.

Mamoru respirou fundo, satisfeito. O fim de tarde quente se transformara, aos poucos, em uma noite mais fria. Porém, agradável o suficiente para sentarem-se à mesa de piquenique do lado de fora da casa. Estar perto de Serena o aquecia. Até algo tão simples, como sentarem juntos e comerem uma refeição que ambos prepararam, o deixava excitado. Sentia-se quente por dentro.

- Pensei que quisesse uma taça extra de vinho depois da ginástica - Serena disse, sorrindo.

- Está querendo dizer que eu tive problemas em acompanhá-la? - Mamoru não tivera, mas Serena o forçara demais, mantendo um passo rápido enquanto subiam algumas ladeiras íngremes. Os corpos dos dois se exer­citaram juntos, com a mesma suavidade de quando fa­ziam amor. E, então, quando acabaram...

- Está se referindo ao passeio ou ao chuveiro?

- Às duas coisas - Mamoru respondeu, relembrando a ginástica de ambos no chuveiro, os dois suados e ensa­boados e o desejo que um sentia pelo outro.

Dessa vez, lembrou-se de levar preservativo e fize­ram amor, tão intenso e rápido quanto a corrida que deram, encostados à parede de azulejos do chuveiro. Os gritos dela eram mais doces que o som da água caindo.

Mamoru se levantou e andou ao redor da mesa para sentar do outro lado, onde Serena estava, e comentou:

- Estamos juntos até o fim.

Em seguida, puxou-a para si de forma que ela pudes­se se encostar nele e começou a massagear-lhe o pescoço e os ombros. Serena emitiu um som de contentamento e relaxou.

No silêncio, conforme Mamoru lhe massageava as cos­tas, Serena ouvia um pio suave que vinha da floresta ao redor. Então perguntou:

- Está ouvindo?

- Não ouço nada.

- Ouça. - O som voltou. - Me sinto como se estives­se em um documentário sobre a vida selvagem. O que é? Uma coruja?

- Sim. Uma das coisas mais aterrorizantes que fiz envolvia corujas.

- O que aconteceu? Alguma delas o agrediu?

- Não ficou muito longe disso. As corujas demarcam territórios, e eu estava envolvido em um projeto de mapeamento dos territórios delas em certa área. Isso requeria sair à noite pela floresta, com um mapa, um gravador e um capacete.

- E você diz que o pessoal de Nova York é estranho.

- Eu andava com um gravador que reproduzia o som de uma coruja piando. Geralmente, elas piavam de volta. Então, eu marcava isso no mapa. Se estivesse perto de uma fêmea no ninho, as outras corujas se lançariam na minha direção e tentariam rasgar-me a cabeça com as próprias garras.

- Está brincando.

- Estou falando sério.

- Fez isso por diversão?

- Fiz por questões de preservação. Mas também foi divertido. Testar os limites para ver até que ponto elas vão se defender e estar seguras. Não é muito diferente de passar muito tempo com você.

- Sim, estou descobrindo todos os tipos de afinidades com pássaros desde que o conheci.

Mamoru lhe deu um beijo no pescoço e disse:

- Está diferente hoje.

- Às vezes cansa ficar brigando.

- Gosto da Serena forte. E também da que abaixa as defesas.

- Acho que sei o que vou fazer com o dinheiro de Luna.

- O quê?

- Não preciso dele. Gosto de trabalhar. Vou ficar com um pouco. Assim, posso parar de dirigir o táxi e, talvez, montar minha própria academia em algum lugar. Depois, vou doar o resto do dinheiro.

- A quem?

- Não é difícil encontrar pessoas que precisem de dinheiro. Vou dar um pouco para programas esportivos destinados às crianças. Vejo muitas cujas vidas poderiam ser modificadas.

Talvez eu faça você feliz e dê uma parte para o programa de preservação da vida selvagem. Ainda não estou certa. A única coisa que sei é que vou vender as casas de Luna e dar o dinheiro para fundações que prestam assistência às pessoas que vivem nas ruas de Nova York.

- Vai vender todas as casas?

- Sim.

Mamoru a virou de forma que ela pudesse fitá-lo e per­guntou-lhe:

- Por que você vai embora?

- Como disse, preciso pôr em ordem toda essa his­tória de dinheiro.

- Não tem que estar em Nova York para passar che­ques. Ou está querendo ver a gratidão das pessoas para quem vai doar o dinheiro?

- Não seja idiota. Não vou dar o dinheiro para rece­ber gratidão. Não quero o dinheiro, e muitas outras pessoas poderiam usá-lo. Luna me deu essa fortuna para que eu fizesse o que quisesse. Vou doá-la em nome dela. - Serena bebeu um gole de vinho e comentou: - Sou de Nova York. A cidade me fez ser o que sou. Não pos­so largar tudo.

- Você largou tudo e foi para lá. E o seu apartamen­to no Bronx não indica que estivesse fincando raízes ali.

- Só porque não decorei o meu apartamento, você acha que há algum motivo para eu abandonar toda a minha vida e me mudar para cá, no meio do nada?

- Você não me engana. Gosta do Maine.

- Também gosto do Dairy Queens, mas não moraria em um. O que eu faria aqui?

- Abriria uma academia de ginástica, como você mesma disse. As pessoas no Maine também se exercitam. Poderia vincular suas aulas aos esportes locais... esqui, caiaque, alpinismo.

- Há cinco minutos, era a favor de que eu me reconciliasse com a minha família. Agora, tenta me convencer a largar tudo e ficar aqui na floresta. Por que está tentando fazer com que eu fique?

- Acho que seria feliz aqui. Você tem um jeito de lidar com as pessoas, respeitando o espaço delas, que é valorizado na Nova Inglaterra. E parece mais rela­xada aqui. Parece mais você mesma. Sei que a conhe­ço há pouco tempo, mas é óbvio. Está mais feliz agora.

- Sim, bem, também tenho feito amor com regulari­dade, o que ajuda a relaxar. Não se trata do Maine ser um lugar mágico.

- E há outro motivo. - Mamoru beijou uma das mãos de Serena. - Você realmente quer ir embora?

- Hoje à noite? Não. Você é o homem mais sexy que já vi à luz de vela. Eu teria que estar louca para ir em­bora agora.

- Então, o que a faz ter tanta certeza de que vai que­rer ir embora amanhã?

- Sempre soube que eu iria embora. Esse tipo de luxúria é temporário, não dura para sempre. É maravi­lhoso agora, mas vai acabar. E aí, estarei aqui, no meio do nada, enquanto você estará subindo em árvores ou o que quer que seja.

- Não sabe se vai acabar.

- O sexo entre nós é como uma força selvagem, in-controlável, que não pode durar para sempre. Não vou jogar fora minha vida em Nova York e não vou morar com você por causa disso. Pensei que já tivesse percebido isso. Não mudo minha vida por ninguém.

- Não teria de mudar nada.

- Oh, sim, teria.

- Como?

Serena bebeu o resto do vinho e levantou, dizendo:

- Se preciso lhe explicar isso, então não faz sentido. - Em seguida, começou a empilhar os pratos usados para o jantar.

Mamoru a observava. Então disse:

- Pare. Venha aqui. Deixe-me mostrar-lhe por que precisa ficar.

Então, apagou as velas, tomou-a nos braços e a car­regou rumo à escuridão. Serena relaxou e perguntou:

- Aonde estamos indo?

- Aqui, perto da floresta. - Mamoru se ajoelhou e a deitou na grama. Dava para sentir o frescor da pele dela misturado ao cheiro do pinho.

- Por quê?

- Porque quero fazer amor com você, devagar, aqui, ao ar livre.

- Não vou discutir... - Serena começou a puxá-lo para si.

- Não tão rápido. Eu disse que quero fazer amor com você, e devagar. Você afirmou que o sexo entre nós era selvagem e sem controle. E tem sido surpreen­dente. Mas quero lhe mostrar que não tem que ser sempre assim. Pode ser devagar, gentil, se quisermos que seja. Posso lhe dar prazer. Pode ser o que quisermos que seja.

- Mamoru ...

Ele a silenciou com um beijo suave na boca. Adora­va beijá-la. Podia sentir que Serena estava tensa.

- Relaxe - Mamoru sussurrou. Depois, passou as mãos pelo torso dela, pelo pescoço, por entre os seios e desceu até o estômago. Percebeu através do tecido da camiseta que o coração dela batia rápido. Também podia sentir os músculos retesados. Então, deslizou uma das mãos por baixo da camiseta e, com as pontas dos dedos, girou em círculos ao redor do umbigo. Apele dela era suave, e Mamoru sabia o que tinha que fazer.

Queria amá-la com cada parte do próprio corpo, a cada fôlego que tomava e com cada palavra que dizia. Queria que os dois estivessem juntos, ali, ao ar livre, no melhor lugar que ele podia imaginar. Era algo que sempre quisera, mesmo antes de conhecê-la. Adorava ficar sozinho, mas estar junto dela era algo ainda me­lhor.

Mamoru queria fazer com que tudo fosse tão perfeito dessa vez que Serena seria incapaz de ir embora. Assim, voltou a beijá-la e disse:

- Confie em mim. Quero cuidar de você e lhe dar prazer.

Serena ia dizer algo, mas ele a beijou de novo. Havia mais duas palavrinhas a dizer:

- Por favor.

Serena o fitou. Podia sentir a respiração quente dele no rosto e o corpo vigoroso tão perto. Não conseguia ver bem os olhos dele. Porém, lembrava-se de como Mamoru Chiba a olhara da primeira vez que lhe dissera "por favor", do lado de fora do apartamento de Luna, quan­do tivera a certeza de que o pai estava lá dentro.

Acreditara nele também. E não tinha sido capaz de resistir. Dessa vez, não estava apenas pedindo para lhe dar o que queria. Pedia para que ela confiasse nele. Que abandonasse a si mesma, rumo ao prazer que ele lhe dava.

Serena tivera muitas desculpas antes. O desejo que sentia por Mamoru não iria acabar. Entretanto, dizer que isso acon­teceria era mais fácil que admitir que tinha medo de que ele se cansasse dela um dia. Porém, naquela noite, podia ao menos fingir que era permanente.

Os olhos de Mamoru estavam mais escuros que a noite. A mão máscula na barriga dela era excitante e gentil. Ele cheirava a campo e ao vinho que dividiram.

Serena respirou fundo e disse:

- Tudo bem.

Mamoru sorriu e beijou-a com ternura e paixão. Então, devagar, começou a beijá-la no rosto, no pescoço. Serena suspirou e fechou os olhos ao senti-lo beijar-lhe os seios, sob a camiseta. A boca de Mamoru era quente. Ela sentiu os mamilos enrijecerem, ansiosos pelo toque dele. Po­rém, Mamoru os evitou, beijando-a por entre os seios e sobre as costelas. Quando os lábios tocaram a pele nua da barriga, ela quase soltou um grito sufocado.

Serena sentiu Mamoru erguer a cabeça. Então, abriu os olhos para vê-lo fitando-a.

- Quando a toquei pela primeira vez, me surpreendi com a suavidade da sua pele.

- Você é muito poético - Serena comentou.

Os dois haviam feito amor várias vezes, em posições diferentes, de formas distintas. Entretanto, a boca de Mamoru tocando-a suavemente na barriga era uma das experiências mais sensuais que ela tivera.

- Não sempre - Mamoru disse e tirou a camiseta dela. Ela não colocara sutiã depois do banho. E o ar da noite nos seios nus era, ao mesmo tempo, frio e delicio­so. Quando deitou, a pele estava tão sensível que ela jurava poder sentir cada pedacinho da grama.

Mas, por um minuto, Mamoru não a tocou. Ficou deita­do ao lado dela, o corpo apoiado em um dos braços, olhando-a.

- Você é linda.

- Vai compor um soneto para mim?

- Por que é tão resistente a elogios? Deveria saber que estou dizendo a verdade.

- Sei que você me quer e a sua poesia é muito bo­nita...

-Não estou falando disso. Estou falando sobre o quanto você é linda. Não consegue ver? Ninguém nun­ca lhe disse?

Os amantes e os bêbados que se sentavam na parte detrás do táxi diziam que ela era sexy. Os colegas taxis­tas diziam que ela era gostosa quando usava jeans justos e camiseta.

Os homens da academia diziam que ela era interessante. Uma ou duas vezes, quando se vestira para festas, com um dos vestidos das irmãs, o pai lhe dissera que era bonita.

Adorara aquela palavra ao mesmo tem­po em que a desacreditara. E, até agora, preferia morrer a admitir que isso tinha alguma importância.

- Ninguém nunca me disse que eu era linda. Tenho três irmãs, uma mãe e uma tia-avó lindas. Eu não sou.

A única vez que me senti bonita... - Serena fez uma pausa. Depois, continuou: - A única vez que me senti bonita foi quando me olhou como está fazendo agora.

- Você é a criatura mais esplêndida que já vi. Deixe-me mostrar-lhe isso.

Ele baixou a cabeça e beijou-lhe o ombro. Os lábios eram suaves. Era como se Serena fosse preciosa e Mamoru a admirasse. Ele beijou-lhe o pescoço e desceu em direção ao peito. Uma das mãos permaneceu na barriga dela, mostrando-lhe que ele estava no controle.

Serena não poderia ter feito nada. Estava presa àquele prazer. Cada beijo era um primor e ela conteve a respi­ração enquanto Mamoru a acariciava e saboreava a pele do seio. Ao tocar-lhe um dos mamilos com a língua, ela não conseguiu mais conter a respiração, tamanho o prazer que sentiu.

Mamoru acariciou-lhe um dos mamilos, excitando-a. O prazer percorreu-lhe o corpo todo. Não se centrava apenas no seio, mas por entre as pernas, indo até os dedos dos pés.

- Você é linda - Mamoru sussurrou. Em seguida, beijou-lhe o outro seio. Aquelas mãos, que curavam e confortavam, a seguraram com mais carinho. Serena perdeu a noção do tempo. Em algum lugar, lá em cima, as estrelas giravam ao redor da Terra. Em algum lugar, ali embaixo, o mundo caminhava em dire­ção ao dia seguinte.

E amanhã, ela iria embora. Mas, agora, pensava que podia sentir aquilo para sempre.

Mamoru voltou a erguer a cabeça e perguntou:

- Já acredita em mim? Mamoru , eu acho que até acreditaria se você dissesse que me ama.

O pensamento foi tão forte que ela não ousou abrir a boca.

- Vou ter que tentar com afinco - Mamoru disse.