CAPÍTULO QUINZE

Fazia tão pouco sentido que Mamoru permaneceu ali en­quanto o cérebro processava a informação, Mas a visa de Serena se distanciando o trouxe de volta à vida.

De onde estava, ouviu a porta da caminhonete s fechar. Correu atrás de Serena e a agarrou, virando-a.

- O quê? - ele perguntou.

- Eu disse boa sorte e que foi bom conhecê-lo. V falar com seu pai.

- E o que vai fazer?

- Voltar para Nova York.

- Vai voltar para Nova York e é tudo o que tem a me dizer? Boa sorte? Foi bom te conhecer?

- Certo. Também deveria ter dito adeus. E se voltar a Nova York, me ligue.

- Por quê?

- Eu disse quais eram os meus motivos, lembra? Tenho uma vida em Nova York, da qual gosto, e vou voltar.

- Isso é um disparate e sabe disso.

- Problema meu. Mamoru a segurou.

- E nada do que fizemos juntos fez alguma diferença? Nem mesmo ontem à noite? Não significou nada.

- Me deixe ir embora.

- Responda.

- Se não me deixar ir, posso forçá-lo a fazer isso. E não será divertido.

Mamoru a soltou.

- Obrigada - Serena agradeceu, virou-se e foi embora. Com raiva, Mamoru correu, ultrapassando-a e bloque­ando a passagem.

- Está mentindo - ele disse.

- Pode acreditar no que quiser, mas estou indo para casa. Deixe-me passar.

- Está sempre fazendo a mesma coisa, afastando as pessoas, me afastando porque está assustada para confiar em alguém ou se abrir. Está fugindo. Disse que queria melhorar a vida das outras pessoas, mas não consegue nem mesmo arriscar para si mesma. Acha que é forte, mas não é. Pessoas fortes não fogem. Apenas as covar­des fazem isso.

-Parabéns. Conseguiu. Eu estrago tudo mesmo. Adeus.

Serena saiu da trilha, pisando na vegetação rasteira, tentando se livrar dele.

- Não se importa com nada exceto com a própria vida. Não se importa com o que sua tia-avó queria para você ou como seus pais se sentem. Nem mesmo se im­porta com o fato de eu amá-la.

- Está certo. Não me importo - Serena disse, pálida. Mamoru ouviu ao longe uma porta bater e o som do motor do carro voltar a funcionar.

- Vá ver seu pai.

Serena passou por Mamoru . Então, ele se virou e correu de volta ao veículo. Pensava nas palavras que, durante anos, quisera dizer ao pai.

Um homem de verdade não abandona a própria família. Um homem de verdade não deixaria a esposa e os filhos passarem por dificuldades financeiras e vi­verem por conta própria. Um homem de verdade cuida das pessoas com as quais está comprometido. Ele as ama e as protege não importa o que aconteça... Eu a chamei de covarde.

Mamoru parou de correr. O carro estava dando ré, mas freou. Ele ouviu o motor ser desligado. Aporta se abriu e o pai saiu, dizendo:

- Oi, Mamoru y.

Mamoru não ouvia o apelido carinhoso desde que era garoto. Viu o pai se encaminhar na direção dele e notou um rosto marcado pelo tempo.

Nenhuma das palavras antes pensadas lhe veio à mente. A raiva parecia ter desaparecido. Então, disse:

- Me chamam de Mamoru agora, pai.

- Oh, sim. - Eric parou em frente ao filho. Começou a erguer a mão. Então, pensou melhor e a abaixou. Mamoru não fez nenhum movimento para tocá-lo. Um abraço era algo muito íntimo. Um aperto de mãos era distante demais para esse homem que o carregara quando bebê e lhe ensinara a pescar e, depois, desaparecera.

Eric era um pouco mais baixo que Mamoru e mais magro. Sentindo-se desconfortável, comentou:

- Passei na sua casa. Sua irmã disse que você estava fora, à minha procura.

- Fui a Nova York. Por que me escreveu?

- Estava conversando com uma senhora para quem trabalho - Eric começou a falar.

- Luna Tsukino?

- Sim. Trabalho para ela há anos, e estávamos con­versando. A srta. Tsukino me perguntou se eu tinha filhos, e ela tem um jeito de encorajar a outra pessoa a falar. Contei sobre você e Kitty. Ela disse que tinha uma so­brinha que era especial, e ficou falando sobre o testa­mento. E isso me fez pensar. Não o via há muitos anos, mas ouvi falar sobre o que estava fazendo, que era um guarda-florestal aqui na ilha. Estou muito orgulhoso.

Por um segundo, os olhares de pai e filho se encon­traram. Então, Eric voltou a observar as árvores. Mamoru se sentia como se tivesse recebido um presente inespe­rado, só que não sabia o que fazer com ele.

- Então, escrevi uma carta e pedi à srta. Tsukino que a colocasse no correio para mim, em algum lugar. Não queria postá-la daqui porque não queria que se sentisse na obrigação de me visitar.

- Luna lhe contou sobre Serena e isso fez com que você decidisse me escrever - Mamoru comentou e Eric acenou com a cabeça, concordando.

Sem saberem, os dois o guiaram. Serena o guiou na direção de Eric. Já Eric o guiou rumo a Serena. E, nesse momento, ela estava indo embora.

Entretanto, agora, Mamoru tinha o pai. Exceto pelo fato de ele não ser quem Mamoru quisera ao longo de todos esses anos. Era um estranho.

Serena era tudo o que Mamoru Chiba queria, embora nunca tivesse percebido isso. E as últimas palavras que lhe dissera tinham sido com raiva. Chegara até a con­fessar que a amava, mas com raiva.

Mamoru lembrou-se da escuridão do quarto na noite passada, da forma como Serena lhe perguntara se eleja se apaixonara. Na hora, não deu importância. Imaginou que se tratava de uma curiosidade sobre o passado. Não pensou no motivo que a levara a fazer aquela pergunta. Ainda não sabia que ela era a resposta. Pensava que Serena ia ficar.

- Por que foi embora? - Mamoru indagou.

- Não sei. Apenas fui embora. Era mais fácil sozinho. E, depois, era tarde demais para voltar.

Mamoru olhou para o pai. Não para ver o quanto mu­dara nos últimos 16 anos, não à procura de semelhan­ças ou recordações. Apenas para ver quem era Eric Chiba: um homem de meia-idade, corpo forte, des­confortável com as palavras, que tomara uma decisão, talvez errada, anos atrás. E, desde então, estivera so­zinho.

A sensação de vazio que tomou conta de Mamoru era grande. Serena estava indo embora. Talvez já tivesse ido.

- Estou apaixonado e preciso encontrá-la - o filho disse.

Já começara a correr de volta quando ouviu o pai dizer:

- Certo.

A voz de Eric o deteve. Então, correu de volta ao pai e colocou a mão no ombro dele. Um gesto de compa­nheirismo entre homens.

- Eu volto - disse e saiu em disparada.

Serena não conseguia abrir a porta da garagem. Não era pesada. Ela já a abrira naquela manhã. Mas mal conse­guia ver a fechadura porque estava prestes a chorar.

Querido Deus, ele me ama, pensou. Mesmo na noi­te anterior, em meio às próprias fantasias, Serena não pensara que seria capaz de acreditar nisso. Não que Mamoru realmente pudesse amá-la. Mas dissera com raiva, como parte das acusações que estava fazendo. Todo o resto tinha sido verdade. Então, sabia que aquilo também era.

Os dois se amavam e ela tivera certeza disso enquan­to o deixava. Só que estava assustada demais para ficar. E, agora, para ir embora.

- Droga! - Serena disse e jogou as chaves da caminho­nete no chão.

As lágrimas começaram a cair assim que ela voltou rumo à casa de Eric Chiba. Serena reconheceu Mamoru cor­rendo na direção dela. Não parou de correr nem de chorar. Foi direto para os braços dele e escondeu a ca­beça em sua camisa, soluçando.

- Pensei que você tivesse ido embora - Mamoru mur­murou.

- Não podia - Serena disse e ergueu a cabeça para fi­tá-lo.

O rosto estava molhado por causa das lágrimas. E, provavelmente, os olhos vermelhos e inchados. Mas não se importava.

- Amo você. Não pude ir porque o amei desde o minuto em que o vi pela primeira vez.

Mamoru beijou-lhe o cabelo, a testa, e disse:

- Lamento ter dito aquelas coisas. Não queria dizer. Estava chateado e machucado. Você não é covarde. É a mulher mais forte e maravilhosa que conheço.

- Sou covarde. Se fosse forte, teria ido embora. Só vou pensar em você se ficar aqui. Era por isso que es­tava indo embora. Vou contar com você e viver no seu mundo. Nunca mais voltarei a ser independente. Tenho lutado contra isso desde que o conheci. Mas não posso mais lutar. Dói demais.

Ao encostar a cabeça no peito dele, Serena ouviu as batidas do coração de Mamoru . Toda a vida esperara por aqueles braços que a enlaçavam agora.

- Esse não é o meu mundo. É nosso. Lembra-se de ontem à noite, você e eu, e as estrelas? Eu estava cor­rendo de volta para cá e, se você tivesse ido embora, ia pegar o caminhão e iria atrás de você até Nova York. Se fosse preciso, armaria minha barraca do lado de fora da sua porta e esperaria até que falasse comigo. Vou para o seu mundo se você quiser. Não ligo. Você é que importante.

- Mas você odeia Nova York.

- E você adora o Maine. Mas não me importo. Se quer ser teimosa, serei também. Vou esperá-la. Quero contar com você tanto quanto quer contar comigo. E se não consegue ver isso, é uma idiota.

Mamoru enxugou-lhe as lágrimas. Era um gesto de pro­teção, mas aquilo não a fez sentir-se fraca. Ao contrário, a fez sentir-se amada.

- Vou até fazer aeróbica - ele disse e Serena não con­teve um sorriso.

- Vamos enlouquecer um ao outro.

- Mas será maravilhoso quando fizermos as pazes. E se beijaram.

- Amo você, Serena.

- Amo você, Mamoru .

- Por favor, fique.

- Vou tentar. Vamos morar na casa de Luna - Serena sugeriu.

- Meu pai será nosso vizinho.

-Lamento. Queria ter estado lá quando o encon­trou.

- Também queria que estivesse. Mas vai estar.

- Como seu pai é? Como ele está?

- Ele está bem. Venha, vamos conhecê-lo.