N/A: Obrigada pelos comentários. Eu sou uma pessoa devagar pra escrever, mas prometo atualizar o mais rápido possível.
2 – Quem pariu Mateus que o embale
Aparentemente, dar uma voltinha com a criança pelo quartel não foi uma idéia tão boa assim. Por mais que isso tivesse sido útil para acalmar os ânimos dentro da sala, também serviu para que a notícia se espalhasse e, fatalmente, chegasse até onde não devia: ao Führer.
- É menino ou menina? – perguntou o homem com um sorriso calmo no rosto e as mãos atrás das costas.
- Führer, senhor...– disse Riza surpresa.
Como havia sido tão estúpida a ponto de pensar que poderia desfilar por um quartel militar com uma criança no colo esperando não ser notada? Nesse instante passou por sua cabeça como o coronel havia conseguido chegar até sua sala naquela manhã sem ser notado, mesmo com os berros do pequenino e a única coisa que pôde pensar é que ele era mesmo uma sortudo filho da mãe. Ela, por outro lado, era mais do tipo azarado.
– É menino. – disse sem graça. Responder a pergunta era tudo que ela poderia fazer na situação.
- E qual o nome dele? - insistiu o homem, se inclinando um pouco sobre a criança para brincar com ela.
- O nome dele é Andrew, senhor. – disse sem vacilar o primeiro nome que passou pela sua cabeça, assim a mentira tomava traços de verdade.
Pensou no tipo de situações que já tivera que passar por culpa de Mustang. Às vezes se perguntava por que se submetia aquilo, mas sempre se recordava que havia escolhido estar ali e que valia a pena fazer parte do que quer que fosse em que o coronel estivesse envolvido. Ah, claro... Não podia esquecer de comunicar a ele que seu filho já tinha um nome, já que ele ainda não tinha se dado ao trabalho de pensar em nenhum.
- Que bebê mais lindo. – disse sem tirar os olhos da criança que morria de rir não sei do que, porque o senso de humor dos bebês é um pouco diferente do das pessoas crescidas - Posso segurá-lo?
- Cla-claro. – gaguejou Riza entregando a criança. Parecia que o Führer não estava nem ai por ter uma criança na base. Pelo contrário... Ele até parecia estar encantado, de uma forma estranha, com a criaturinha rosada de olhos curiosos e mãos gordinhas que agarraram logo os dedos do comandante. Mas Riza se sentia na obrigação de dar alguma explicação, ou aquela situação ficaria ainda mais esquisita.
- Senhor. – disse, endireitando sua postura e olhando por cima de sua visão como é costume dos militares quando estão a falar com seus superiores - A criança é um conhecido meu. – explicou sem se preocupar com detalhes para não dedurar Coronel, mas também não mentir para o Führer - Aconteceu um imprevisto esta manhã e...
- Tudo bem, tenente. Essas coisas acontecem. – respondeu com toda compreensão do mundo que poderia ser esperada de qualquer um, menos do líder de uma ditadura militar que, por definição, são criaturas sem alma e nem coração com certo gosto pela crueldade e baixa tolerância para erros. Homens assim não deveriam ser compreensivos... nem ter senso de humor.
- Isso não irá se repetir, senhor. – foi a única coisa que Riza pôde dizer, pois não estava exatamente preparada para uma resposta daquela.
- Eu sei que não. Quartéis militares não são lugar para crianças. – disse simpático, com o tipo de sorriso que não combinava com um homem em sua posição,o que o fazia parecer sempre falso de algum modo – Não é Andy? – foi logo solicitando a anuência do bebê que ainda não sabia como discordar. Mas era só esperar até ele chegar à adolescência... ou só aprender a falar mesmo.
- Entendo perfeitamente, senhor.
- Ótimo. – devolvendo o bebê para os braços de Riza – Pode voltar para o seu trabalho, tenente.
- Senhor. Sim senhor. – disse Riza, fazendo continência e voltando rápido para a sala para sair o mais rápido possível do campo de visão do Führer.
A conversa no telefone não estava tomando o rumo que Roy queria:
- Ora... ora... Eu sabia que este dia chegaria. Você precisando da minha ajuda para achar uma mulher. – respondeu Maes do outro lado da linha depois que Roy pediu que ele localizasse o paradeiro da tal Diana, ainda sem sobrenome. Perguntado o motivo de tal solicitação, Roy não teve outra saída senão dizer que era uma questão pessoal que em nada tinha a ver com o exército. Foi a deixa para Maes começar a zoação, mesmo sem saber de todos os detalhes sórdidos da história:
- Não é hora para piadinhas, Hughes.
- Como não? É a hora perfeita para piadas. Finalmente o galanteador Mustang foi fisgado. – imaginando que a mulher havia conquistado o coração de Roy e depois o abandonado, por isso ele a estava procurando. Seria muito bem feito para ele aprender a não brincar com os sentimentos das pessoas e ver que já estava passando da hora de arrumar uma boa mulher e se casar de uma vez – Mas diga, o que ela tem de especial, coronel?
- Nada. – disse logo, depois pensou melhor e, em um momento de honestidade, acabou confessando – Só um filho.
- E desde quando você gosta de crianças? – perguntou Maes confuso, se ajeitando na cadeira – Você enche o saco quando eu fico falando da Elysia que, aliás, está linda. Já viu as fotos dela vestida de princesa?
- Já. Você me mostrou da última vez – cortou Roy para que o assunto "Elysia" não durasse - E eu não gosto de crianças, mas essa maluca deixou um bebê na minha porta e eu tenho que devolvê-lo para a mãe.
Não houve resposta.
- Hughes? Você está ai? – perguntou Roy sem entender o silêncio do amigo, já imaginando que era algum problema com a linha telefônica. Hughes não era o tipo que precisava pensar muito para falar e muito menos deixaria de falar numa situação como esta. Foi quando o tenente coronel não agüentou mais e soltou os risos que estava segurando ao imaginar a cena.
- Uma mulher deixou um bebê na sua porta! – repediu em meio às gargalhadas – Por que será que eu não estou surpreso.
- Parece que ninguém, além de mim, está. – resmungou ranzinza. Será que todos faziam tão mal juízo dele assim? - Quer parar de rir e me ajudar?
- Não. Eu posso fazer os dois ao mesmo tempo. Como foi que você deixou uma coisa dessas acontecer?
- Eu não planejei nada, isso eu posso garantir.
- E a criança é sua mesmo? – perguntou mais porque a pergunta fazia sentido dentro do contexto do que porque pensava que havia qualquer dúvida.
- Lógico que não. Não há a menor chance.
- Negar é uma reação normal. Fale mais sobre como você está se sentindo... – troçou.
- Não me venha com sua psicologia barata.
- Eu posso cobrar se você quiser. Aliás, seu filho é um menino ou uma menina? Porque se for menina ela e a Elysia podem ser melhores amigas ou então nós já podemos ir preparando o casamento dos dois.
- De onde você tirou essa idéia?
- Tem razão... – concordou Maes reflexivo - Eu jamais deixaria minha princesinha cair nas garras de um filho seu. Nada pessoal, mas se ele puxar ao pai, não vai ser exatamente o tipo de marido que eu quero para a minha bonequinha.
- Não – é – meu - filho! – disse o coronel parando em cada palavra – Você consegue entende isso? – gritou o coronel a ponto de ter colapso.
- Calma, Mustang. Conta até dez e respira devagar.
- Como você quer que eu... – Roy ia começar a reclamar, mas Hughes interrompeu.
- Não estou ouvindo você contar... – disse como se diz pra uma criança teimosa enquanto enrolada o fio do telefone do dedo.
Roy deu um tempo. Esfregou a mão que estava livre no rosto e apoiou as costas no encosto da cadeira. Quando percebeu que o amigo estava mais calmo, Hughes disse:
- Ta certo. Eu vou procurar a mãe do seu filho... – implicou.
- Hughes! – rosnou o coronel entre os dentes.
- Mas vou precisa de um tempo.
- Quanto tempo?
- Um dia... Uma semana... Talvez um mês.
- Um mês?
- É. A culpa não é minha se o computador não foi inventado ainda. Vou ter que procurar manualmente. Alem do mais, nós estamos na dimensão que desenvolveu a alquimia ao invés da tecnologia, então pára com esse imediatismo pós-moderno que nossa sociedade não chegou nesse ponto (1).
- E o que eu vou fazer com a criança até lá?
- Você pode levá-la para um orfanato frio e sombrio onde ela será entregue a todo tipo de sorte neste mundo cruel e impiedoso ou ficar com ela na sua casa e cuidar dele como se fosse sua com todo amor e carinho.
- Estou tentado a ficar com a primeira opção.
- E eu estou tentado a desligar o telefone na sua cara e mandar você para o inferno.
- Tudo bem. Faça o que for possível.
- Ok. Agora que você é um pai de família, o que acha de vir almoçar aqui em casa no domingo para as crianças se conhecerem?
- Até logo, Maes. – Roy desligou o telefone, ignorando o convite.
- Droga!
- Que foi, coronel? As coisas não saíram como o senhor queria? – perguntou Havoc.
- O Hughes vai me fazer ficar com o moleque por pelo menos um mês.
- E o que o senhor vai fazer esse tempo? – perguntou Fury.
- Não tenho nem idéia.
Riza entrou na sala pouco antes de Roy concluir sua frase e os homens, meio apoiados nas respectivas cadeiras, consertaram sua postura, pois era ela quem colocava ordem na casa.
Roy olhou para a mulher loira e sentiu falta de algo, mas não percebeu de imediato o que era até que o sargento Fury perguntasse pelo bebê:
- Ele não poderia ficar aqui até o fim do dia, então o deixei na casa de uma amiga.
- Que pena. - lamentou Fury – Eu já estava me apegando ao pequenininho.
- Você se apega a qualquer coisa pequena e indefesa. – resmungou Hovac lembrando-se do cachorrinho perdido que o colega havia levado para o quartel e que todos tinham ajudado a esconder até que ele fosse adotado pela Tenente Riza.
- É que foi a primeira criança que ficou quietinha no meu colo sem começar a chorar. – justificou-se o sargento.
- Ele vai ficar bem com a Marta. Além do mais, se ele ficasse aqui, as pessoas poderiam começar a fazer perguntas. – disse olhando séria para Mustang e continuando mentalmente "que eu sei que o senhor não vai querer responder, não é mesmo coronel?"
Roy entendeu a careta de Riza, mas preferiu não levar a advertência tão a sério e mudar o rumo da conversa:
- E essa amiga é casada? – perguntou Roy já sabendo que ia levar algum tipo de repreensão moral de sua subordinada.
- O senhor já tem problemas demais para resolver. Melhor deixar minhas amigas civis fora disso.
- Então é solteira... – concluiu Roy – Se fosse casada, você não precisaria se justificar.
Riza absteve-se de fazer qualquer comentário sobre a dedução apressada de Mustang. Insistir nela para a confirma ou corrigi-la só iria deixar o coronel satisfeito. Era obvio que ele só queria provocar e mais obvio ainda que ela não cairia em um tipo tão primário de provocação. O melhor era ignorar.
- Ela pode ficar com o Andrew durante o dia, mas se você prefere arrumar outra babá, vá em frente e tente seduzi-la. – disse ela não conseguindo evitar sua imaginação de desenhar a cena de Roy cantando a Senhora Wilson (2), uma sexagenária de cabelos grisalhos e óculos redondos apoiados no nariz grande de batata. Pelo menos ela era solteira... quer dizer, viúva. - Tenho certeza de que ela sabe se defender - Ela quase riu, mas conseguiu se segurar para não estragar a surpresa.
- "Andrew"?
- Eu tive que arrumar um nome para ele já que o senhor não pensou em nenhum.
- Andrew... - disse mais uma vez prestando atenção em como o nome soava – É... é um nome bonito. Agora eu só preciso pensar no que vou fazer com ele até o Hueghs encontrar a mãe dele. – disse ele olhando sugestivamente para a Primeira Tenente.
- Não adianta olhar pra mim desse jeito, senhor. Eu não vou cuidar dele depois do trabalho.
- Só esta noite. – insistiu - Eu tenho um... compromisso.
- Ligue e desmarque. – disse sem rodeios - Desculpe a franqueza, mas o senhor acabou de arrumar um compromisso maior pelos próximos dezoito anos.
Roy olhou envolta procurando sua vítima, já que Hawkeye reacusara:
- Como está sua agenda, tenente?
- Eu, hein... – resmungou Jean e fechou com uma pérola da sabedoria popular – "Quem pariu Mateus que o embale".
Depois do expediente, Riza foi com Roy buscar o bebê. A casa da amiga de Riza era nas proximidades do quartel e seria mais fácil chegar até lá a pé, mas eles foram de carro então teriam que dar uma pequena volta inútil antes de chegar.
Riza estava dirigindo como de costume:
- Coronel... Eu tenho que confessar algo.
- O que? – olhando para fora da janela do carro.
- É sobre eu ter dado um nome pra criança.
- Tudo bem, tenente. Alguém ia ter mesmo que dar um nome para aquela coisinha. Não dava pra chamá-lo por designações genéricas para sempre.
- Eu só inventei um nome porque o Führer me viu andando com ele pelo quartel.
- O que?! – disse Roy parando de olhar a paisagem e se voltando para a tenente no banco da frente.
- O senhor não vai ter problemas. Eu não disse nada. Só que ele viu o bebê, por isso ele tem que ficar longe do quartel caso contrário o Führer pode desconfiar de algo ou confimar alguma suspeita.
Riza ficou apreensiva frente a reação de Roy, pois ele parecia estar bastante aflito com a notícia, mas depois ele voltou a encostar na poltrona e deu uma pequena risada do tipo "enganei você".
- Não precisa ficar nervosa, tenente. Ninguém pode fazer nada contra mim por causa de um bebê. Na verdade eu estive até pensando... Talvez isso até faça bem pra minha imagem.
- Você acha? – perguntou ainda um pouco chateada por ele ter brincado com os sentimentos dela sem o menor pudor, mas ao mesmo tempo se culpando por ter caído tão fácil na armadilha.
- Claro. Todo mundo adora crianças. Eu só tenho que pensar em alguma estória...
- Por que não diz a verdade?
- E por que eu faria isso? Tenho que inventar uma estória comovente que desperte a simpatia das outras pessoas sem me comprometer. – cruzando os braços e encostando-se à poltrona - Algo como um primo distante que morreu e me nomeou tutor do filho no testamento ou algo assim (3). Ninguém conhece nada sobre minha família mesmo.
- Não é correto fazer algo assim, senhor. – olhando rápido pelo espelho retrovisor para ver o sorriso cínico do coronel.
- Não, não é, mas funciona e a estória da cestinha parece tão irreal quanto qualquer outra.
- Chegamos. - disse ela colocando fim a conversa.
Era uma casa branca, de cortinas azuis e muitas varandas, mas que parecia sem vida, pois havia muitas cores das flores no quintal, mas nenhum movimento.
- O que exatamente você contou pra sua amiga? – perguntou o coronel para saber participar da mentira sem dar nenhum fora.
- Nada. Só pedi pra ela tomar conta do neném. Ela não pediu explicações.
- Que tipo de pessoa faz isso?
- O tipo que confia nas outras pessoas.
- Ainda existem pessoas assim por ai?
- Umas poucas. – disse Riza, depois de tocar a campainha.
- E meu cabelo, como está? – perguntou Roy com um ar quase travesso de quem pretendia aprontar alguma coisa.
Riza nem se deu ao trabalho de responder. Apenas olhou para seu superior com uma expressão de reprimenda e continuou esperando até que a velha senhora veio atender a porta.
...continua...
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(1) Eu não resisti. Desculpa, mas eu tive que fazer essa referência fora do contexto. Imagina só como devia ser difícil antigamente quando as pessoas não tinham computador? Devia dar um trabalho enorme identificar pessoas pelas digitais, por exemplo, pq era preciso ir investigando digital por digital com uma lente e comparando. Hoje é só apertar um botão e pronto. Bom, isso ou quase isso.
(2) Qualquer semelhança com a vizinha do "Denis, o pimentinha" é pura cópia. Eu sempre gostei do Senhor e da Senhora Wilson e como sou péssima pra criar personagens... Já viram no que deu.
(3) Como eu já disse, o argumento é batido. Dá pra achar as dúzias filmes/ seriados em que alguma coisa acontece (morre alguém, alguém viaja, alguém se confunde) e um ou um grupo de caras sozinhos (também é possível com mulheres que só vivem trabalhando) é forçado a criar uma criancinha, normalmente uma menina: O paizão, Três solteirões e uma pequena dama, Bogus, Mafalda, Uma lição de amor, e por ai vai.
