N/A: Atrasei... mas foi só um dia. O capítulo ficou ligeiramente maior do que eu tinha imaginado (novidade!) e olha que eu usei de todo meu poder de síntese e cortei muita coisa. Só espero não ter cortado coisa demais ...O.o...
10 - Tudo acaba bem quando termina bem
Alphonse bateu a porta com um único golpe:
- Voltei! Tive que andar vários quarteirões até achar a farmácia de plantão, mas consegui comprar sua pomada, irmão. – anunciou para as paredes, pois não havia ninguém na sala.
Quando chamou o irmão por algumas vezes e não teve resposta, Al finalmente entendeu que havia sido enganado e que Ed estava se aproveitando de sua ausência para aprontar e vasculhar as coisas de Mustang atrás de seus livros raros de alquimia.
Todo o orgulho que o caçula sentia do irmão mais velho foi transmutado em desapontamento e, por uma fração de segundo, Alphonse quis esmurrar a cara do irmão por conseguir ser tão egoísta, mesquinho e manipulador... Exatamente como Ed sempre queria fazer com o Coronel Mustang, mesmo eles não sendo irmãos biológicos.
A questão é que Edward havia se valido, sem o menor pudor, de seu sentimento de culpa e fingido um machucado que, provavelmente, nem existia só para tirá-lo do caminho. O pior era a sensação de ser passado para trás que ficava entalada na garganta. De não ter sido esperto o suficiente para ver através das armações e se desviar das armadilhas, mas isso sempre acontece com as pessoas de boa-fé que acabam emprestando seus bons sentimentos para todos a sua volta e dando a eles mais crédito do que realmente merecem.
A armadura saiu pelo apartamento procurando. Olhou por todos os cômodos óbvios até achar uma escada em um mecanismo engenhoso que saía do teto e ia para o andar superior. Algo arquitetado para garantir o acesso restrito ao cômodo, mas que não era a prova de meninos enxeridos.
Al ficou sem saber como Ed alcançou a escada, já que ela ficava bem longe do alcance do irmão, mas como ela estava armada, não havia dúvidas de que o jovem alquimista havia passado por ali.
A escada era bem estreita, então Al precisou subir de lado e quase murchar a barriga, se isso fosse possível, para conseguir passar pelo pequeno beco.
Aquela era a escada para o céu (1) que Edward imaginava, pois dava em um escritório cheio dos livros e arquivos que compunham o acervo particular de Mustang e era em meio a uma pilha de papeis que o primogênito dos Elric estava posicionado, segurando em uma das mãos, não um antipático livro com mil páginas, mas sim uma simpática e colorida revista, pois a coleção do Coronel não se limitava exatamente a livros de alquimia:
- Nii-san! – gritou Alphonse.
- Al, olha só o que encontrei! – disse Edward entusiasmado por seu achado e querendo mostrar tudo para o irmão. Ele estava tão concentrado que nem havia escutado os gritos de antes e nem se lembrava mais da mentira que havia inventado, esperando que Al também já tivesse esquecido.
- Não quero saber. Você mentiu pra mim!
- É... – confirmou Ed sem fingir qualquer arrependimento. O que ele havia encontrado valia qualquer desconforto pelo qual o irmão havia passado – Mas dá uma olhada nisto aqui.
- Não quero saber de livros de alquimia!
- Não é de alquimia que eu estou falando... – mostrando os dentes mexendo as sobrancelhas sugestivamente - É bem melhor do que isso!
Alphonse tampou os olhos no mesmo instante e teria ficado vermelho se sua estrutura fisiológica particular assim o permitisse.
Em se tratando de Edward Elric, era difícil imaginar algo que interessasse mais do que alquimia, mas antes de ser um alquimista nacional, ele ainda era um adolescente, sujeito a todas as curiosidades e descobertas típicas da idade... e estava solto na biblioteca privada de um homem adulto e com uma péssima fama de mulherengo.
- Não quero ver! – o garoto estava tão envergonhado com a idéia que passou por sua cabeça que não achou uma palavra adequada para descrever o tipo de porcaria que havia chamado tanto a atenção do irmão - Mamãe ficaria decepcionada se pegasse você vendo esse lixo!
- Do que você está falando, Al? – perguntou Ed, confuso, sem saber o que havia de tão horrível no que estava tentando mostrar para o irmão.
- Das revistas adultas do Coronel que você está vendo!
- Revistas adultas?! – Edward piscou ainda organizando as idéias, depois soltou uma sonora gargalhada – Não é nada disso, Al. Eu não perderia meu tempo com essa porcaria - explicou Edward, mostrando para o irmão o que havia conquistado sua atenção, porque, afinal de contas, o alquimista de aço não era um adolescente comum que se apega a esse tipo de mesquinharia.
Alphonse destampou os olhos devagar e percebeu logo de onde vinha toda a excitação do irmão.
- Isso é... – disse Al não acreditando no que via. Algo que mexe com a cabeça de qualquer representante do sexo masculino, alquimista ou não.
- A coleção de quadrinhos do Coronel! – mostrando outras revistinhas que já haviam sido lidas e que estavam espalhadas pelo chão.
- Eu não sabia que ele tinha uma coleção de revistinhas. – olhando encantado para os exemplares mais raros.
- Nem eu. Aquele cretino egoísta nunca falou nada, mas dá uma olhada! – mostrando uma edição especial que havia circulado em pouquíssimos exemplares.
- Incrível! – disse Al pegando a revistinha e folheando.
Ele voltou a olhar para o irmão e só ai viu o que o irmão estava comendo.
- Isso ai é... – apontando para o copo duplo que Ed estava segurando.
- Mingau. – levando uma colherada até a boca. Ele havia concluído que leite puro pode até ser uma coisa insossa... sem o menor paladar e que ele tinha toda razão em aprontar seus escândalos, mas que misturando com outras coisas, o tal líquido branco ficava bem saboroso (2).
– Vocês não vivem reclamando que eu tenho que tomar mais leite? Isso é gostoso... e leva leite.
- É... mas você não precisava tomar todo o leite do mundo de uma só vez. - reparando também no monte de copos sujos que estava por ali, prova do quanto Ed havia apreciado a descoberta gastronômica e também que ele não conhecia os limites do bom senso, mas desta última Al já sabia.
- Eu tenho que recuperar o tempo perdido. – pensando que assim ganharia alguns centímetros.
- Você vai passar mal. – alertou Al.
- Não vou.
- Não vou discutir isso com você... – olhando envolta – Cadê o Andy? - Ele havia ficado tão irritado com o irmão e envolvido no ocorrido que tinha esquecido por completo da criança.
- No cercado.
- Não está não. – largando a revistinha e assumindo uma postura preocupada.
- Como assim não está ?
- Ele não está. Eu não o vi quando passei pela sala. Será que ele...
- Droga! – resmungou Ed largando as revistinhas e se precipitando escada abaixo para procurar o bebê.
- Espera por mim! – choramingou Alphonse, seguindo logo atrás todo desajeitado e quase caindo da escada.
Os dois reviraram o apartamento tentando encontrar Andy dentro de algum armário ou debaixo de qualquer móvel e nem perceberam o bilhete debaixo do sofá. Acharam que era um papel qualquer e que Mustang era um preguiçoso que precisava fazer uma faxina melhor na casa. Não dava pra culpá-los... quem prestaria atenção em um pedaço de papel quando um bebê havia desaparecido?
- Não tem como ele ter saído do cercado. Ele está inteiro... e o guri era pequeno demais para pular. – raciocinou Ed segundo as evidências e regras de experiência que tinha reunido.
- Mas ele sumiu! – concluiu Al aflito. Não importava exames de probabilidade que o irmão estava fazendo, já que eles não mudariam em nada o resultado - Não está em lugar nenhum por aqui.
- Como eu poderia imaginar algo assim? – tentou justificar-se – Ele é pequeno demais para ir muito longe sozinho... - quando terminou de dizer a última palavra, Ed arregalou os olhos e encontrou a mesma conclusão na expressão do irmão, mas nenhum dos dois com coragem para dizer em voz alta o que haviam pensando.
- Não pode ser...
- Não mesmo. Ninguém entrou aqui! – concluiu Ed, apressado.
- Como você pode ter tanta certeza? Você estava lá encima... e quando eu voltei a porta estava destrancada. Como você pôde ser tão descuidado, nii-san? – se segurando para não dar um tapa em Ed.
- Me culpar não vai resolver nada.
- Mas a culpa ainda é toda sua! Você me enganou... e ainda perdeu o bebê!
- Eu não perdi nada. Ele deve estar pelas redondezas.
- E se o Scar entrou aqui... ou um Homúnculo (3)... ou ainda um traficante internacional de bebês que vai vender o Andy para a família que pagar mais?
- Controle-se, Al! Você está lendo demais o caderno policial do jornal!
- O que nós vamos fazer?
- Nós temos que achar o moleque...
- Mas antes nós temos que avisar para o Coronel.
- Nós temos mesmo que fazer isso? – imaginando a bronca que levaria de Mustang. E com razão desta vez...
- Claro que sim! – insistiu Al.
- Mas como se nós nem sabemos onde ele está? – lembrando que o Coronel não havia deixado o endereço do lugar onde ia se encontra com o resto do pessoal do quartel.
- Então nós vamos ter que descobrir. Vem logo... – e saiu puxando Edward pelo braço.
- Espera só um pouquinho... – disse Ed cravando os pés no chão e fazendo força no sentido contrário.
- O que foi?
- Meu casaco...
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TRIM –TRIM –TRIM
TRIM –TRIM –TRIM
Ninguém atendeu.
O telefone tocou até a ligação cair e a mulher loira o colocar no gancho novamente:
- Eles devem ter encontrado o bilhete e depois foram embora. – concluiu Riza com toda segurança, acertando Andrew em seu colo.
Black Hayate estava curioso, rondando as pernas da tenente, tanto que ele chegou a dar alguns latidos para tentar chamar a atenção da dona para que ela lhe explicasse o que era aquilo, mas é claro que tendo a Primeira Tenente Hawkeye como proprietária o cachorro já havia entendido que não podia ser muito teimoso, caso contrário seria disciplinado na base de tiros.
- Agora não, Hayate. – disse Riza. No mesmo instante o cachorrinho parou suas tentativas de contato e deitou-se cabisbaixo em seu canto.
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O álcool tem efeito diferente nas pessoas... alguns bebem e esquecem os problemas, outros já bebem e escolhem o momento para se lembrar de todas as mazelas humanas, outros ficam valentes e começam a procurar brigas e ainda alguns só ficam enjoados mesmo. E para os que não bebem... o jeito é tentar se divertir rindo da dignidades dos outros escoa na medida em que os goles entravam.
- Minha vida é uma droga... – resmungou o tenente loiro.
- Você reclama a toa! – disse Roy como se não se lembrasse que acabara de roubar mais uma pretendente do Segundo Tenente. Se bem que provavelmente ele nem se lembrava mesmo.
- Eu acho que aquele cara ali está me olhando de um jeito estranho... – resmungou Heymans encarando um sujeito do outro lado do bar.
- Ele nem está olhando pra você! – disse Kain, querendo que o mundo parasse de girar.
- Exatamente! Ele está tentando me enganar.
- Você não vai querer começar uma briga, não é? Porque eu não posso chegar em casa todo estropiado, ou minha mulher me mata. – disse Maes.
- Sua mulher manda em você? – devolveu o tenente ruivo.
- Com certeza. E eu até bato continência de vez em quando.
- Credo. Eu nunca quero me casar.
- E eu nunca vou me casar... – choramingou Jean.
- Se você parasse de fumar e começasse a se exercitar garanto que mais mulheres se interessariam por você. – aconselhou sabiamente Louis, no que Jean o encarou sério e pensativo.
- Como eu disse... Eu nunca vou casar. – concluiu.
Todos riram, menos Jean, é claro. E situação dele era mais para chorar.
Com algum custo e muita correria, os irmãos finalmente conseguiram encontrar o bar certo, mas Edward não tinha idade, nem tamanho, para entrar, então Alphonse foi sozinho.
O tempo no exército deu uma boa capacidade de percepção para Maes que sentiu em algum lugar na espinha que estar sendo observado, mas só teve certeza disso quando viu Alphonse acenando, nada discretamente, de um canto escondido do bar para chamar a atenção do Tenente Coronel, mas somente dele, pois Al acabou concluindo que era melhor que o Coronel não soubesse de nada por enquanto, caso contrário ele e Edward começariam uma batalha épica e Andrew ficaria esquecido. Alphonse estava bravo com o irmão e este estava quase merecendo ser carbonizado, mas um duelo de vida ou morte não resolveria nada. Além do que, Maes era mesmo o mais racional e pragmático que Roy e, com certeza, não entraria em pânico e saberia o que fazer.
Uma vez que ele percebeu que Maes o havia reconhecido, Al fez sinal para que eles se encontrassem fora do bar, no que o homem esperou um instante e obedeceu, curioso e um pouco preocupado com o que o esperava. Já havia concluído de antemão que não poderia ser anda bom pelo ar sério do garoto.
- Ainda está cedo... – disse Roy segurando Maes pela roupa quando este se levantou para encontrar com os irmãos fora do bar.
- Eu não vou embora.
- Não vai?
- Não.
- Eu já disse que "te amo"? – ficando de pé e dando um abraço afetuoso em Maes, que já sabia que Roy havia passado de sua cota há algum tempo.
- Esse tipo de confissão em público pode dar uma idéia errada para os outros (4) – respondeu Maes em tom de zombaria, tentando se livrar, mas Roy não queria largar – Vou só pegar uns drinks e já volto.
- Se é assim... – convencido a se sentar pela promessa de mais bebibas.
Maes encontrou os meninos do lado de fora.
Ele pensou que só Alphonse estava ali, mas viu Ed no canto da rua, debruçado sobre uma lata de lixo e colocando o que quer que ele tenha comido nas últimas horas para fora, porque correr desembestadamente de um lado para o outro não tinha feito muito bem para o estômago do garoto:
- Você não é muito novo pra já estar neste estado? – troçou Maes.
- Ele bebeu leite demais e agora está passando mal, não é mano? – disse Alphonse com tom de "eu bem que avisei".
- "Leite"? – questionou Maes intrigado. Era a primeira vez que ele via alguém passando mal por causa disso.
- Eu nunca mais bebo essa porcaria. – disse Ed enjoado e se inclinando de novo na lixeira. Agora sim ele havia concluído de uma vez por todas que aquilo era veneno e que nunca mais tentaria beber aquela coisa, não importava se ele ficaria baixinho por causa disso ou não.
- Se vocês estão aqui... –refletiu apontando o dedo para um garoto e depois para o outro – Quem está com o filho do Mustang? Vocês não o deixaram sozinho, deixaram?
- Sim e não... – respondeu Edward tentando amenizar a coisa – Achamos que ele foi...
- Achamos uma ova. O Andy foi seqüestrado! – interrompeu Alphonse e disse de uma vez. Ele já estava no limite e não dava pra ficar esperando que o irmão escolhesse as palavras.
- O QUE?! Conta isso direito!
- Nós deixamos o guri sozinho um instante e quando voltamos ele não estava em lugar nenhum. – disse Ed.
- Não foi bem isso que aconteceu... – resmungou Alphonse, já que Edward não havia revelado sua culpa exclusiva no incidente.
- Sem detalhes agora, Al.
- E vocês não escutaram a porta sendo arrombada?
- A porta não foi arrombada... – confessou o garoto envergonhado.
- Vocês deixaram o bebê sozinho com a porta aberta?! – vociferou Maes, deixando o cabelo de Ed arrepiado para trás com o grito.
- Eu não sabia que a porta estava aberta, tá legal? – justificou-se Ed, enquanto Al se escondia atrás do poste de luz com medo da bronca que acabaria levando por solidariedade fraternal.
O Tenente Coronel passou a mão no rosto pensando no que fazer e procurou seguir o manual padrão para situação daquela ordem, já que não conseguia formular uma resposta pessoal para o problema:
- Vocês já avisaram para a polícia? – racionalizou.
- Não. Nós achamos melhor avisar para o senhor antes. – disse Al. Por mais independentes que os dois irmãos fossem, eles ainda não eram adultos o suficiente para lidar com tudo sozinhos.
- Tudo bem... Eu cuido disso. E o bilhete?
- Que bilhete?
- É. O bilhete do seqüestrador escrito com letras de revista recortadas. – disse Maes se valendo mais da imagem dos livros policiais - Vai me dizer que não tinha nenhum bilhete?
- Não. Não tinha.
- Então o seqüestrador deve ligar... O que vocês estão esperando? Alguém tem que estar lá para atender ao telefone! – mandou Maes num tom tão imperativo que só não dava pra não obedecer. Os dois adolescentes bateram continência e, sem direção, partiram cada um para um lado, trombando um no outro. Al não sentia nada, mas Ed ficou no chão coçando a cabeça – Melhor não. Nenhum seqüestrador levaria algum de vocês a sério. Tenho que mandar um adulto para lá...
Como que por obra da providência divina, a resposta aos anseios de Hughes passou pela porta. O Major Alex Louis Armstrong também conseguiu ver os meninos do lado de fora e não pôde deixar de cumprimentá-los como o gentleman que era.
Desnecessário dizer o estado de nervos em que ficou o Strong Arm Alchemist quando colocado a par do ocorrido:
- Oh, mas isso é uma tragédia! – quase chorando - O Coronel Mustang tem que ser avisado imediatamente! – disse ele voltando para dentro do bar sem nem hesitar.
- Oh, oh, oh... mais devagar. – disse Maes. Ele era mais um que ficaria em maus lençóis quando Roy descobrisse que o que havia acontecido, já havia sido ele quem sugeriu que os Elric cuidassem da criança. E o Coronel já havia declarado, nas entrelinhas, que o culparia por tudo que acontecesse – Deixa que eu faço isso. O assunto é bem delicado... você entende.
- Tem razão, Tenente Coronel. O que você quer mesmo que eu faça?
- Volte para o apartamento do Roy com o Alphonse e fique esperando alguém ligar.
- Certo! – concordou o homem dando um soco com a mão direita na palma da mão esquerda – E no caminho eu vou alertar uma divisão da polícia!
- Boa idéia, mas tente ser discreto, Major. Nós não queremos que a notícia se espalhe além da conta.
- De jeito nenhum. Discrição é uma qualidade que família cultiva há gerações.
- Tudo bem, mas pode ir. Eu invento uma desculpa para o resto do pessoal... – disse Maes para dispensar logo a enorme figura.
Armstrong agarrou a armadura e a jogou sobre seu ombro e saiu em disparada no estilo de corrida desenvolvido por sua família enquanto o homem e o garoto loiro olhavam á distância, sentindo por Al que acabou sendo o sacrifício da ocasião:
- Você não vai contar nada para o Mustang, vai? – perguntou Ed, já desconfiado das intenções de Maes.
- É claro que não. Ele está bêbedo e é possível que esteja com as luvas no bolso.
- Agora a gente tem que achá-lo antes do Coronel descobrir ou então... – um arrepio passou pela espinha dos dois ao imaginarem o que aconteceria.
- Vamos encontrar esse bebê logo.
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Agora Maes precisava passar a notícia para frente ao mesmo tempo em que mantinha o segredo, o que dava certos contornos de conspiração para o que ele estava prestes a fazer. Provavelmente havia algum tipo no Código Penal Militar para aquela conduta, mas isso não impediria o tenente coronel de seguir em frente.
O homem de óculos voltou para a mesa como se nada tivesse acontecido e, em seguida, voltou a se levantar com a desculpa de ir ao banheiro e chamou o Tenente Havoc para ir com ele. Aquilo pareceu muito suspeito, já que só as mulheres vão ao banheiro em bando, mas passou despercebido pelo resto.
A primeira coisa que Jean fez ao voltar para a mesa foi acender outro cigarro e conseguir sua dose nicotina. A segunda foi sugerir, de forma bem convincente, que Kain e Heymans fossem até o balcão.
Aliados conquistados, todos estavam de volta à mesa, menos Maes que teve que voltar para casa por causa da patroa. O importante é que o plano já estava traçado: garantir que Mustang não soubesse nada do que estava acontecendo.
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- É... Eu ainda acho que é muito cedo para colocar impressos com a foto dele nas caixas de leite, mas obrigado mesmo assim. – disse Hughes ao telefone, dispensando um conselho que acabara de receber.
- Caixa de leite? – perguntou Ed, sentindo algo embrulhar em seu estômago, para confirmar se havia escutado certo.
- Nem todas as idéias são boas... - Hughes deu com os ombros - O que nós temos que nos perguntar é quem faria uma coisa dessas e porquê. A patente do Roy não é tão alta assim. – refletiu – Se fosse uma tentativa de golpe ou algo assim, seqüestrariam o filho do marechal... se bem que o filho do marechal não fica sozinho em casa sem escolta.
- Isso foi uma indireta? Eu achei que era pra servir de babá e não de guarda-costas. Não sabia que ia ser um golpe de Estado! – retrucou Ed, que ainda não havia aceitado toda a culpa - Pode ser uma espécie de vingança. Tem muita gente que não gosta do Coronel... – e ele se incluía na lista, é claro... mas não a ponto de comprometer a integridade física de um bebê.
- Vamos trabalhar. - Maes não respondeu. Ele também já havia pensando nessa hipótese e ela era a pior possível, porque anulava a chance de qualquer negociação.
- O senhor deveria deixar alguém de guarda na sua casa – sugeriu Edward, sério.
- Por que isso?
- Você trabalha em um Tribunal Militar! – a frase não exigia mais nenhuma explicação, mas Ed perseguiu mesmo assim - Deve colecionar inimigos às dúzias.
- Não seja idiota, Elric. – disse ele pegando o telefone e mandando a pessoa do outro lado da linha destacar duas unidades para ficarem de guarda em frente a sua casa naquela noite.
Maes continuou os telefonemas até meio mundo de pessoas de confiança terem sido notificadas e logo as ruas estavam tomadas por policiais e as estradas interrompidas com bloqueios. Ninguém sairia da cidade... e provavelmente ninguém dormiria também porque viaturas com sirenes transportando prováveis suspeitos passavam para todos os lados, enquanto as pessoas se refugiavam assustadas em casa achando que a cidade estava sendo tomada por algum exército inimigo ou pior.
- Ninguém confessou nada ainda, mas é só insistir mais um pouco que eles começam a falar. - disse o policial que, contaminado pelo regime político do país e pelo poder absurdo das regras autoritárias, queria uma confissão a qualquer custo sem se importar se se tratava da verdade ou não.
- Certo, capitão, mas não precisa ser tão enérgico.
- Você quer ou não quer saber o paradeiro do garoto?
- Só continue me mantendo informado. – resignou-se Maes. Não era hora para discutir o conteúdo moral do sistema vigente. Só dava para fazer uso dele.
- Eu tenho até medo de perguntar quem eles prenderam... – comentou Edward.
- Três palavras, meu caro: prisão para averiguação. Eu sabia que um dia ia achar algo de útil em viver em um país sem liberdades individuais.
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Convencer Mustang a beber era fácil, convencê-lo a parar, sim, era complicado, principalmente porque ninguém ali exercia qualquer autoridade moral sobre o coronel que bebia em escala industrial sem a influência sensata de uma consciência externa para tomar-lhe o copo da mão e o mandar ir pra casa.
O clima de conspiração, por si, já estava fazendo efeito aos nervos dos outros que tinham uma elevada consideração pelo superior e um forte senso de lealdade. Isso, mais a alta amabilidade etílica, as declarações aleatórias de camaradagem e elogios pródigos do Coronel acabaram por pesar na consciência dos demais que também não estavam lá sóbrios o suficiente para não se deixarem influenciar, o que se deduz já que só bêbado para dar ouvidos para bêbado.
Breda se abaixou entre as cadeiras de Kaine e Havoc para que eles pudessem deliberar, deixando Mustang do outro lado da mesa com a cabeça tombada e estudando as gotículas de água que se formavam do lado de fora do copo:
- Isso não está certo! – disse Breda cheio de convicção.
- É. O Hughes falou pra gente ficar de bico calado, mas eu não concordo com isso. - acompanhou o tenente loiro.
- Tem razão... Você sabe quem tem o direito de saber... você sabe o que. – concordou Kain deixando a fala cheia de lacunas, como se precisasse mesmo disfarçar alguma coisa.
- Eu sei? hic – questionou Breda, com seu raciocínio já bastante comprometido, antes de se lembrar do restante da história e que ele mesmo era o coordenador do movimento de resistência – É mesmo. Então é isso ai... – batendo decididamente o punho fechado na mesa e se levantando – Coronel, nós temos uma coisa para contar para o senhor... Sumiram com o seu filho e não querem que você fique sabendo... hic- perseguiu com máximo de reverência possível, terminando sua fala com um soluço.
Roy continuou tombado sobre a mesa e não deu nenhum sinal de que havia escutado e muito menos de que iria responder.
- Viu só? Ele até reagiu bem à notícia. – concluiu Breda, já que as previsões eram de que o Flame Alchemist explodiria tudo.
- Eu tenho a impressão de que ele não reagiu. – comentou Kain, no que os três se reuniram envolta do superior que continuava imóvel.
- Ele tá vivo? – perguntou Havoc cutucando no braço do homem.
Os três se entreolharam com aquela expressão que pode ser descrita com exatidão nos seguintes termos: merda.
A madrugada foi terminar no pronto-socorro, onde os cúmplices foram logo atendidos por uma enfermeira ruiva que parecia conhecer o paciente e adiantou as coisas na portaria:
- Há quanto tempo, Coronel. As meninas já estavam com saudades. – riu a enfermeira com tom jocoso.
- Também já estava com saudades. Onde elas estão? - disse ele com uma voz pastosa virando a cabeça de um lado para o outro para procurar seu fã clube.
- Agora não, Casanova. E cuidado com onde você coloca sua mão... – ajudando a escorar o homem que não se agüentava em pé. Ela passou o braço de Mustang por trás de seu ombro no lugar antes ocupado por Breda – Peguei.
- O cinco está livre - avisou a recepcionista.
- Você me ajuda aqui? – pediu a enfermeira para Havoc que estava amparando o alquimista pelo outro lado.
- Tá. - respondeu o tenente o mais monossilábico possível, seguindo a direção da outra.
- Foi divertido... Vamos repetir outro dia. – sugeriu Roy, cambaleando.
- É... Ou quase isso... – resmungou Havoc, ainda chateado por ter terminado a noite na companhia de três marmanjos e não de uma linda senhorita.
- Meu nome é Jane Eliade. – disse a moça, sendo um pouco simpática demais, enquanto eles chegavam até o quarto.
- Jean Havoc. – só disse seu nome, pois havia uma grande chance dele falar alguma besteira, já que ele tinha talento para isso.
- Você eu não conhecia... Normalmente é um homem de óculos que traz o Roy.
- O Tenente Coronel Hughes teve outro afazeres hoje... – justificou Havoc.
- Chegamos. Pode subir. – parando em frente a cama. Roy calculou a distância, verificou o grau de inclinação da Terra e esperou a cama passar por ali em uma das muitas voltas que ela estava dando pelo quarto.
- Eu vou querer o de sempre, por favor – pediu Roy, depois que se instalou confortavelmente no travesseiro já desabotoando o pulso da camisa por hábito.
- Você é um caso perdido... – era só isso que a jovem enfermeira pôde dizer enquanto dobrava a manga da camisa do coronel para colocar o soro – E você, também é casado igual ao outro amigo?
A pergunta foi tão direta que Havoc não sabia como responder.
- Er... não. - ele puxou a gola de sua camisa. O lugar tinha ficado abafado de repente.
- Isso é bom... – disse ela lançando um olhar para Havoc. Parecia que nem tudo estava perdido.– Sabe... meu plantão termina às oito.
- Você... Gostaria de tomar um café ou algo assim. – convidou ele, depois da sutil indireta da moça.
- É. Eu gostaria. – respondeu a moça e saiu sorridente.
Alguém precisava se dar bem depois de tudo isso...
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A investigação se seguiu e finalmente chegaram ao perfil do seqüestrador que seria uma mulher loira, com entre vinte e trinta anos e estatura mediana que usava a franja de lado e tinha cabelos compridos. Aquela descrição soou bastante familiar, mas não foi suficientemente clara para que se desse o passo para a conclusão seguinte.
- Deve ter sido a mãe do moleque. Ela sabe onde o Coronel mora e pode ter se arrependido de abandonar a criança e se aproveitou para pegá-la de volta. – raciocinou Edward enquanto caminhava pelo apartamento com Maes, que cansou de fica esperando e resolveu vasculhas a cena do crime com as próprias mãos.
O Major Armstrong estava colado ao telefone, vidrado no aparelho e pronto para atendê-lo antes mesmo do primeiro toque e nem estava prestando atenção no diálogo que se passava.
- Será? – perguntou Alphonse, angustiado por qualquer notícia.
- É bem possível. – confirmou Ed que quase sempre conseguia se convencer com suas idéia e tomá-las como verdades.
- Não é não... –comentou Maes, olhando embaixo dos móveis.
- Por que não? Você sabe de alguma coisa que nós não sabemos. E nós já olhamos ai... – resmungou o garoto.
- Talvez... – disse ele indo verificando embaixo do sofá e encontrando um bilhete, mas antes que ele pudesse lê-lo, o telefone tocou e Alex quase o partiu em dois quando foi atender, já afirmando que pagaria qualquer preço, bastando que não machucassem a criança.
Todavia não era o seqüestrador pedindo o resgate, mas sim a competente polícia dizendo que havia encontrado a criança, prendido o seqüestrador e resolvido todo o caso em tempo recorde. E o mais aterrador era que a seqüestradora havia sido identificada como uma das subordinadas diretas do Coronel Mustang.
- O que foi? – perguntou Ed sem saber o que se passava quando Maes lançou-lhe um olhar assassino enquanto atendia a ligação e olhava o bilhete perdido.
- Acharam a seqüestradora.
- Isso é bom, não é?
- É a Tenente Hawkeye . – disse entre os dentes, quase esfregando o bilhete que explicava tudo na cara do adolescente que pegou a folha de papel, a leu e depois mostrou para o irmão.
- Isso explica tudo... – coçando a cabeça, constrangido – Bom, mas pelo menos tudo acabou bem, não é mesmo?
Várias pessoas detidas... Todo um esquadrão da polícia mobilizado... A Tenente Hawkeye tendo que dar explicações na delegacia... E o sol nascendo sem que nenhum deles tivesse dormido. Aquilo não parecia com um "acabar bem".
- Você acha? – disseram Maes, Alex e Alphonse, todos com sangue nos olhos e armas em punho para desforrarem em Ed a preocupação desnecessária pela qual haviam passado.
Edwar só teve tempo de sair gritando e se escondendo enquanto desviava de facas que lhe eram arremessadas pelo Tente Coronel, da alquimia que saia da parede do Major e dos golpes de caratê de Al.
...continua...
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(1) Musica Stairway to Heaven do Led Zeppelin, musica muito famosa frequentemente usada como referência em tudo que é canto. Gostei muito de uma nos Simpson do Homer falando que "só estava comprando aquela escada para o céu de que Jesus falou" para provocar o Ned, quando a verdade existe várias lendas quanto ao conteúdo satânico da tal musica.
(2) Eu respeito o Ed não gostar de leite porque nenhuma criança come por vontade própria algo que os adultos dizem que faz bem pra saúde (só o garotinho da propaganda da chicória), mas pra leite com Nescau/Toddy não tem como torcer o nariz.
(3)Se o Hughes está vivo, não era pra ter referência aos Humúnculos ainda, mas eles são os vilões principais do desenho então tudo de ruim que acontece tem que ser atribuído a eles de alguma forma, senão perde a graça.
(4) Eu tenho algo contra Roy/Hughes sim, por quê? ¬ ¬ Não sei de onde o povo tira essas idéias malucas. Será que pessoa do mesmo sexo não podem ser só amigas? Se está na cara que os personagens são um casal tudo bem, mas ficar colocando xifre em cavalo não dá.
