N/A: E eu consegui terminar no prazo. To tão feliz n.n
17 - Despedida
A enfermeira foi o mais delicada que pôde, tentando distrair a criança para que ela olhasse para o outro lado e não prestasse atenção no que estava prestes a acontecer, mas quando a ponta da agulha atravessou a pele, os olhos do nenenzinho se encheram de lágrimas e ele puxou o bracinho que não estava tão bem imobilizado assim, fazendo com que a enfermeira errasse a fina e delicada veia que mais parecia um fio de linha.
O sangue ainda precisava ser colhido, então a enfermeira pulou para o outro braço, mas tudo se complicava com o choro nervoso do bebê que, ainda alerta com a recente e desagradável experiência, não aceitou mais os subornos de mimos e gracinhas que tentavam roubar sua atenção. O jeito foi usar a força para segurá-lo e pronto. O líquido vermelho foi separado e rotulado em um vidro de ensaio.
Roy já tinha seu tipo sanguíneo gravado em seu registro do exército: ABRh negativo. Um tipo bastante raro e um tanto quanto mesquinho, já que só se permitia ser útil para pessoas do mesmo tipo, mas aceitava de todos os outros, desde que com o mesmo fator Rh. Entretanto, não era o aproveitamento do sangue por um banco de sangue que estava em questão, já que ninguém estava pretendendo se cadastrar como doador, então o importante era que o tipo "AB" de Roy já excluía previamente o tipo "0" (1) das combinações possíveis. A vantagem era que, independente de qual seria o tipo de Diana, todas as outras combinações seriam possíveis.
Diana também já sabia qual era seu tipo sanguíneo, que era ARh negativo (2). A única surpresa do exame seria o tipo de Paul.
A criança saiu da sala com os olhinhos molhados no colo da mãe e Roy saiu atrás para se despedir e depois voltou para também tirar sangue. Ele ainda teria que ir para o quartel e trabalhar o restante do dia, por isso, como combinado, deixou Paul aos cuidados de Diana e voltou para a sala de coleta.
Quando Diana ia embora com o filho, cruzou com Riza na sala de entrada. Hawkeye não sabia explicar, mas sentia uma raiva profunda quando encontrava a mulher. A expressão calma que sempre ostentava e a educação no trato era puro disfarce, pois queria arrancar os cabelos da cabeça da cretina que resolveu prejudicar uma pessoa que era querida pra ela e ainda andava por ai como se isso não fosse nada. Ela, diferente de Maes que demonstrou logo estar disposto a entender os motivos de Diana, não gostou nem um pouco da brecha que Mustang deu para a aproximação da mulher, mas guardou seu descontentamento para si, porque discutir o assunto com Roy parecia irreal por demais e com qualquer outra pessoa seria fofoca.
A decisão de permitir que Diana ficasse com a criança durante a manhã e da tarde, período em que antes Paul ficava aos cuidados de Marta, deixou claro que a indignação de Roy havia passado e que agora ele começava a ver os acontecimentos com um pouco mais de distância. Agora ele parecia mais conformado com qualquer que fosse a decisão, o que não significa dizer que estava indiferente a ela. Depois do baque inicial que revolveu tudo, as coisas foram se assentando de novo em seus lugares e as palavras de Maes ainda no dia em que Diana apareceu foram fazendo cada vez mais sentido. Saber se ele era mesmo o pai ou não fazia toda a diferença e o fato de ele não querer reconhecer a diferença significava somente que queria muito que o garotinho fosse seu filho.
Os outros militares, que ficaram sabendo da advogada no dia seguinte ao incidente no restaurante por meio de uma Hawkeye, que ainda estava constrangida pelo que havia acontecido depois, guardaram silêncio quanto ao assunto com um pouco de peso na consciência por terem imaginado que era só mais um encontro e chegado a apostar com o evento. Não que Roy não merecesse a aposta, pois esta teria justificativa em um outro contexto, mas a culpa sempre vem quando se faz julgamento errados, mesmo quando baseados em fundamentos corretos.
Os últimos a saberem foram Ed e Al e aquele ficou incrivelmente bravo por ter sido o último a tomar conhecimento, ou pelo menos foi isso que ele gritou para os quatro cantos quando ficou sabendo o que estava acontecendo por meio do Major Armstrong. Alphonse foi atrás se desculpando pelo irmão e segurou este para que Edward não fosse tirar satisfações com Mustang.
Riza estava sentava na fila de cadeira enfrente da atendente, segurando o casaco azul de Mustang e se levantou quando viu que ele se aproximava com o braço flexionado e segurando o algodão onde havia levado a agulhada.
- O Paul e a mãe dele já foram. – disse Riza, inconformada por ter que chamar a criancinha pelo nome de registro e não pelo nome que ela havia dado ainda no primeiro dia em que o bebê apareceu, porque para ela e para todos no quartel ele era e sempre seria "Andy", não "Paul".
- Eu sei. Fiquei por último. – e chegou o algodão com uma manchinha pequena de sangue, depois o atirou numa lixeira ali perto, desdobrando as mangas da blusa e a abotoando no pulso em seguida.
- E ele chorou muito? – devolvendo o casaco azul que Mustang vestiu e arrumou imediatamente.
- Um pouco. Tiveram que furar o bracinho dele duas vezes, mas ele se comportou direitinho. A gente até ganhou prêmio... – mostrando dois pirulitos, um vermelho em forma de coração embrulhado em um plástico transparente e outro embrulhado em um plástico azul.
- Ele ainda não pode comer isso. – disse Riza – A bala na ponta do palito poderia se soltar e o fazer engasgar ou ele poderia se machucar com o palito também.
- Foi o que a Diana disse, por isso ela me deu o dele... Depois eu ganhei outro, porque a moça que tirou o sangue estava conversando tanto que conseguiu errar meu braço também, então ficou nervosa e errou mais uma vez antes de conseguir. Então ela se desculpou e me deu um pirulito também. Se eu não aceitasse, ela ia ficar ainda mais em graça.
- É só dar pra uma criança no caminho. – a loira foi logo dando uma idéia prática de como solucionar o problema do pirulito, mas, enquanto concluía a frase, Mustang já havia imaginado uma saída menos convencional e ignorou a sugestão de sua subordinada.
- Quer pra você? – oferecendo um dos doces como se fosse uma flor. Talvez uma rosa ou uma tulipa por causa do tom vermelho do corante. Riza virou o rosto para o lado e seus olhos cruzaram com os de Roy que lançou um sorriso e ela sorriu de volta. Mesmo naquelas circunstâncias e sabendo que Roy não estava com o melhor dos humores, ela achou graça da molequice e apanhou a bala e a guardou o bolso. Não ganhava um pirulito de coração de um garoto desde os namoricos de infância em que só se permitiam esse tipo delicado de agrado bobo e açucarado.
Por um instante ela quase esqueceu o motivo pelo qual estavam ali e pensou que Roy também, porque ele não comentou mais nada, só jogou fora o papel de embrulho do outro pirulito e, sem ligar para a tonalidade forte de azul escuro do doce, o colocou na boca e continuou andando.
A essa altura, eles haviam saído do prédio e estavam caminhando para o quartel que ficava há poucas quadras dali.
- Eu conversei com a moça do laboratório... – explicou Riza – Pelo procedimento padrão, eles vão mandar o resultado direto pro tribunal, mas o senhor pode vir aqui amanhã à tarde se quiser dar uma olhada e ficar sabendo mais cedo qual foi o resultado (3).
- A senhora Harrison já havia me falado sobre isso. Ela precisa saber do resultado antes pra formular a linha de argumentação na próxima audiência ou algo do tipo. É o trabalho dela então não vou me meter – como advogada perita na área, Rita também já conhecia os procedimentos fora do tribunal e tinha seus contatos estratégicos que lhe permitiam transitar com tranqüilidade pelo meio.
- E o senhor também não quer saber o resultado antes?
- E estragar a surpresa? – riu sem convicção e continuou - Ela vai me ligar depois.
Ela não comentou mais nada e o assunto morreu ali, mas vez ou outra Riza lançava um olhar desconfiado para Mustang, como que querendo dizer alguma coisa, mas sem coragem para tanto, foi só quando eles chegaram ao quartel que o coronel se sentiu suficientemente incomodando para perguntar qual era o problema.
- Nada. Só acho que o senhor... deveria escovar os dentes. – respondeu séria.
- Eu estou com mau hálito? – colocando a mão sobre a boca e soprando para conferir se a situação estava tão ruim assim, mas só sentiu o cheiro de tutti-frutti do pirulito. Foi quando Riza percebeu que o coronel não sabia de que cor nada natural sua língua estava graças ao corante do pirulito.
- Sua língua, coronel... Ela está azul.
- Como? – empacou.
- Acho que esse pirulito tem um corante especial pra pintar a língua da pessoa que coloca ele na boca.
- Mas quem vai querer comer alguma coisa que deixa a boca azul?
- Geralmente crianças, senhor. – respondeu o óbvio.
- Droga de pirulito! – e segurou a guloseima diante dos olhos, amaldiçoando o pobre doce que foi atirado na primeira lixeira - E a senhorita está achando muito divertido, não é? – continuou escondendo a boca com a mão e se fazendo zangado, mas não dá pra manter a seriedade quando sua língua está azul.
- Desculpa, senhor. Vai logo para o banheiro que eu busco sua escova de dente e entrego pra você lá.
Roy deu meia volta no corredor e saiu apressado com a mão sobre a boca e Riza continuou em frente até a sala onde os outros três militares estavam só coçando, já que estavam sem uma supervisão que os obrigasse a trabalhar.
- Hawkeye... – disse Jean, ficando de pé – Cadê o Coronel?
- Ele já está chegando. – respondeu Riza, abrindo as gavetas da mesa de Mustang até encontrar a escova, já que o alquimista esqueceu de dizer em qual delas a havia guardado.
- Você foi ao laboratório com ele hoje, não é? – insistiu o tenente loiro, formulando mal sua pergunta, já que ele sabia bem onde os dois havia ido e queria saber o que havia acontecido lá.
- Sim... – respondeu Riza que finalmente havia localizou o estojo que procurava e agora estava sem palavras, pois junto dele encontrou um envelope com seu nome escrito e ficou imaginando do que se tratava, deixando de lado a pergunta de Havoc.
- E então?
- E então o que, tenente? – sem lembrar da primeira pergunta.
- Conta pra gente o que aconteceu lá.
- Nada. O resultado só fica pronto amanhã e a advogada do Coronel vai ligar pra ele e dar a notícia. – respondeu anda com sua atenção voltada para o envelope branco e decidindo sobre o dilema de deixá-lo onde estava ou de ver o que estava guardado ali dentro.
- E quando é que a gente vai ficar sabendo?
- Quando o Coronel resolver contar.
- Mas isso não está certo. A gente precisava ficar sabendo disso antes para poder fazer alguma coisa.
- Fazer o que, Breda? – perguntou no modo automático acompanhado de um tom incisivo que não matava qualquer resposta.
- Isso depende do resultado. Se for positivo a gente sai pra beber pra comemorar, se for negativo a gente bebe pra esquecer.
- É... Mas não tem jeito. Só o Coronel poderia ir buscar o resultado ou então alguém com uma procuração e o controle é bem rígido, então não tentem fazer nada desta vez. – explicou Riza, lembrando aos demais que não estavam lidando com informações de acesso ao público em geral.
- As pessoas que trabalham lá têm acesso irrestrito aos dados... – acrescentou Jean, imaginando que sua namorada deveria conhecer alguém ou conhecer alguém que conhecesse alguém que conhecesse a pessoa que tinha acesso ao resultado dos exames.
- E a gente também gente podia ligar para a advogada do coronel e pedir pra ela dar a notícia pra gente antes. – sugeriu Kain, pois seria a forma mais fácil e menos mirabolante de conseguir a informação.
- De jeito nenhum. E o segredo advogado e cliente? Ela nunca vai fazer isso. – refutou logo Breda e emendou em seguida – A gente vai ter que interceptar esse telefonema...
- Ainda prefiro usar nossos contatos lá dentro. Vou ver com a Jane se ela conhece alguém...
- Você está todo metido por causa da sua namorada, não é? – zoando de Jean que realmente estava todo feliz com a namorada e transformava tudo em pretexto para falar que estava namorando.
- Cale a boca, Breda.
A discussão começou entre os três e eles nem deram mais atenção para Riza que não achou oportuno interromper e saiu da sala de mansinho e sem olhar o envelope, lamentando muito tão rígida que não a permitia fazer nada de errado mesmo quando sabia que ninguém estava vendo, porque sua consciência estava sempre ali fazendo o papel de vigia.
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Roy foi direto para o banheiro, mas até chegar lá teve que cruzar com metade do quartel que, coincidentemente, também estava circulando por ali e, é claro, todas as pessoas com quem ele encontrou no caminho fizeram questão de cumprimentá-lo amistosamente só porque ele não podia devolver o cumprimento com a mesma amabilidade e manter a língua colorida escondida.
Quando ele saiu de lá com a língua de volta a coloração natural e o hálito fresco, pronto para saudar a todos, percebeu que as pessoas que estavam circulando por ali sumiram misteriosamente. Tanto melhor, porque Riza, que resistiu em não ver o que havia dentro do envelope, teve coragem de perguntar o que era:
- Senhor eu... – pensando em falar sem fazer parecer que ela era uma mexeriqueira intrometida - Quando fui procurar nas gavetas na sua mesa eu acabei encontrando um com envelope...
- Com seu nome nele? – completou Roy – Desculpa. Eu deveria ter entregado pra você já tem um tempo. É a foto do dia do churrasco e deve ter fotos da Elysia junto. O Maes fez uma cópia extra para você e me pediu pra entregar, mas eu esqueci.
- Não tem problema. – respondeu Riza que não precisava de explicações por estar acompanhando tudo que se passava – A foto ficou boa?
- Muito. Eu sou extremamente fotogênico e você também não ficou anda mal... – parou no meio do corredor e tirou a carteira do bolso. A foto estava escondida entre uma conta antiga de telefone e um calendário para que um engraçadinho que pegasse a carteira não a encontrasse com muita facilidade.
A mulher demorou um instante para estender a mão e pegar a fotografia. Lá estavam os três na sala de Maes, o bebê adormecido e ela agarrada ao braço de Roy que, mesmo surpreso com a reação de Riza na ocasião, teve tempo de se voltar para a câmera e sorrir também. Ela voltou a sorriu com a lembrança e não se importaria de se sentir como quando a foto foi tirada mais vezes.
- Ficou muito boa mesmo... – devolvendo a fotografia - Mas foto na carteira? – implicou Riza com um risinho irônico, uma vez que Mustang já havia declarado que não era o tipo de pessoa sentimental que carrega fotografias por ai – Não esperava isso do senhor.
- Não era um hábito tão ruim mesmo... – guardando a foto de volta em seu lugar e a carteira no bolso.
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O trio entrou em ação assim que a tenente saiu da sala, maquinando como desviariam o telefonema da advogada ou conseguiriam burlar as normas do laboratório para subtrair o exame em segredo.
Eles descobriram que os resultados só eram entregues na parte da tarde, pois a manhã era reservada para a coleta de material, então Rita só poderia ir ou mandar alguém depois do meio dia o que lhes dava mais tempo para agir.
Na tarde seguinte, eles já estavam com o plano esquematizado: o telefone da mesa de Mustang teve a linha desviada por Fuery para que o coronel não pudesse atender e Ed e Al foram escalados para espionar a advogada e roubar a informação quando fosse oportuno. Todavia, eles ficaram tão ocupados em fazer tudo sem serem notados que não notaram quando o superior disse que precisava resolver um assunto e saiu junto com Riza.
Esperar o telefonema não estava fazendo bem aos nervos de Mustang que mudou de idéia e, depois de respirar fundo, resolveu ir ele mesmo conferir o resultado. Hawkeye foi a única que percebeu sua saída estratégica e foi logo atrás, tanto melhor pois a companhia dela deu uma maior determinação para o outro que ainda estava em dúvida de se estava com tanta pressa assim para saber o resultado.
- Aqui – a mocinha da recepção entregou a pasta depois de voltar do arquivo interno – Mas o senhor só pode olhar aqui. Não pode levar com você. – repetiu a mesma explicação que a outra atendente havia dado no dia anterior.
Roy abriu a pasta e foi pulando as linhas até chegar à conclusão e depois entregou os paginas para Riza que estava olhando por cima de seu ombro, mas sem conseguir ler direito. Ela terminou de ler rapidamente, só para confirmar o que já sabia pela cara que Roy fez quando deixou o laudo pra lá e deu uns passos para o canto.
- Que bom que o exame foi conclusivo, não é? – comentou a mocinha satisfeita, já que a quase totalidade dos casos que passavam por ali eram de homens que queriam comprovar que não eram os pais, então um resultado negativo era tudo que eles precisavam para se verem livres. Mas mais do que isso, era o único resultado que dava certeza, já que o outro só indicava possibilidade.
- É sim... – concordou o alquimista para não fazer desfeita e porque a mulher havia sido tão prestativa que sua boa vontade merecia alguma recompensa. Ela não precisava saber que havia atravessado seu coração com uma estaca com a notícia e jogado a última pá de cal sobre suas esperanças, mas Riza sabia e foi exatamente isso que ela viu escondido atrás da tranqüilidade com que o outro concordou.
- O senhor quer mais alguma coisa?
- Não, obrigado. A senhorita foi muito atenciosa.
- Não por isso. É o meu trabalho. Tenha uma boa tarde.
A tenente devolveu a pasta para a mocinha, agradeceu novamente e foi encontrar com Roy que já estava passando pela porta e ganhando o corredor. De todas as combinações possíveis, Paul era justo ARh positivo. O problema ficou no fator Rh, pois mesmo sendo o tipo A um resultado possível da combinação dos tipos A e AB, o fator Rh positivo determinava que um dos genitores também o fosse positivo, mas nem Roy nem Diana eram.
Roy estava esperando do lado de fora da sala, pouco depois da porta.
- Vamos? – chamou o coronel quando Riza parou na sua frente e o olhou com seus olhos castanhos muito sérios - Por que você está me olhando assim, tenente? Minha língua nem está azul hoje. – troçou Roy, tentando mostrar-se indiferente, mas a mágoa presa em sua garganta denunciava a falsidade de seu discurso - Eu falei sério... E isso não faz diferença no processo, porque como eu já expliquei, existe essa presunção legal e ele já não era meu filho de qualquer jeito. Eu já sabia disso. Agora tenho que ligar para a Harrison para...
- Pare com isso, Roy... – usando um tom enérgico, quase que como se estivesse brigando – Eu sei que você ficou decepcionado. Fingir que você não se importa não vai mudar nada para melhor.
Ele ainda resistiu um pouco, o orgulho o segurando e forçando a manter a pose, mas para que? Diminui a pouca distância entre eles com mais um passo, soltou um pesado suspiro e deixou a cabeça cair sobre o ombro de dela.
O coração de Riza se partiu em mil pedacinhos ao vê-lo tão penalizado, mas era melhor assim do que se ele continuasse guardando a magoa para si. Ela, pensando muito pouco no fato de estar em um lugar público, levou a mão até a nuca dele, correndo os dedos com carinho no cabelo escuro de Roy que fechou os olhos e afundou mais no pescoço dela, procurando conforto.
- Tudo bem... Eu estou aqui com você. – sussurrou Riza, envolvendo-o com o outro braço. Ela se sentia frustrada por não poder fazer mais nada a não ser ficar ali parada, pois parecia muito pouco, mas esse pouco era tudo o que o outro precisava e a única coisa que poderia fazê-lo se sentir um pouco melhor.
- Eu não estou chorando. – respondeu com a voz abafada.
- Eu sei que não. – ela concordou.
Os dois ficaram envolvidos um com o outro e perceberam, mas a lata de lixo que estava posicionada no corredor, de frente para a recepção e em um lugar por onde qualquer pessoa que fosse requisitar um exame ou buscar um resultado teria obrigatoriamente que passar, caiu para trás com a cena.
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Os irmãos Elric decidiram que a melhor forma de cumprir sua parte na missão era vigiar o laboratório, quem entrava e quem saia. Era praticamente impossível esconder Alphonse, por isso o caçula ficou do lado de fora esperando enquanto o mais velho entrou. Porém o adolescente esperava ver a advogada loira de quem os oficiais falaram e não uma cena Roy e Riza e muito menos em uma cena tão insólita.
Depois do choque inicial de ver o coronel mulherengo e sua séria subordinada quase se abraçando, o jovem alquimista acabou percebendo o que havia acontecido e apagou a expressão de espanto de seu rosto, pois aquilo não passava de um consolo amigo, sem segundas intenções. Claro, porque a tenente Hawkeye jamais, em hipótese alguma, se interessaria pelo arrogante e prepotente coronel-cabeça-dura... pelo menos essa idéia guiou Edward a esquecer parte do que viu e não entrar em detalhes quando foi dar a notícia para o irmão e resto do grupo que estava no quartel.
Ed e Al sumiram, mas os outros três não podiam abandonar o posto sem dar na cara que haviam metido o bedelho onde não foram chamados, então ficaram ensaiando suas expressões de "não sei de nada" que cada vez mais ganhavam traços de culpa. Qual não foi o alívio dos oficiais quando Hawkeye voltou a entrar na sala sozinha e avisou que o Mustang havia ido embora e que não voltaria mais naquele dia.
- O que vocês aprontaram desta vez? – perguntou depois do longo suspiro que todos os três deram ao mesmo tempo.
- Nada... A gente só... – desconversou Havoc.
- Estava espionando de novo. – confessou Breda, incluindo todo mundo no ato de sabotagem – A gente já sabe o que aconteceu. Tem alguma coisa que possamos fazer?
- Acho que não. E melhor não comentar o assunto... O Coronel foi conversar com a advogada, porque quer retirar o pedido de guarda, por isso não volta mais hoje.
- Ele vai desistir de ficar com o bebê? – perguntou Kain aflito.
- Vocês já ficaram sabendo do resultado do exame. – disse Riza muito contrariada, mas em um tom calmo e controlado - Seria perda de tempo insistir.
- Mas será que não tem um jeito de...
- Não. – respondeu logo a mulher sem dar explicações. Ela havia conversado mais um pouco com Mustang enquanto estavam no laboratório e sabia que o alquimista preferia daquele jeito. Ele havia decidido retirar o pedido assim que possível e deixar a criança com a mãe de uma vez, tanto que nem a buscaria naquele depois do horário do expediente, porque ficou com medo de se despedir e de mudar de idéia novamente e decidir arrastar o processo pra sempre, o que sabia ser uma opção bastante egoísta e que acabaria prejudicando a criança. Era melhor fazer do jeito mais drástico, porque de outro jeito não conseguiria fazer – É assim mesmo.
- Isso é muito chato...
- É sim... Mas fica lamentando não vai adiantar muito. Vamos voltar ao trabalho.
- A gente não vai poder nem se despedir dele? – perguntou Kain, arrumando os óculos.
- Não sei. Acho que a mãe dele deve continuar na cidade por enquanto... É só vocês pegarem o endereço.
- Mas...
- Eu não quero mais continuar neste assunto, está bem? – a paciência de Riza acabou antes que a curiosidade dos outros fosse saciada e sem que eles tivessem entendido os sinais de estresse.
Depois de um comando direto, os resmungos e comentários pararam e todos voltaram para suas mesas. Eles não haviam feito muita coisa naquele dia fora brincar de espião e já era hora de voltar a brincar de soldado, mas sem nenhuma guerra acontecendo, só sobrava a rotina chata de escritório.
Lá pelas tantas, Kain, que havia saído para entregar alguns relatórios, voltou para a sala com uma notícia que sabia que não iria agradar a ninguém ali e que o colocava, como portador da notícia, em uma situação difícil:
- Hawkeye, tem uma pessoa na recepção querendo falar com o Coronel Mustang... – avisou Kain, fechando a porta atrás de si.
- Só que ele não está aqui. O que você quer que eu faça? – respondeu mal-humorada.
- Mas é a mãe do guri quem está aqui fora... – Riza, que havia dado as respostas sem sequer levantar os olhos, parou de escrever. Era ousadia demais da mulher vir cercar Mustang dentro do quartel, já que, pelo que eles haviam resolvido, Roy iria levar e buscar Paul todos os dias exatamente para manter a discrição e para que a situação não começasse a correr de boca em boca. E justo no dia em que o Coronel havia jogado a toalha e decidido não ir buscar a criança, Diana resolveu dar o ar da graça – ou seria desgraça - só para atazanar a vida do outro um pouco mais. Estava claro que não era uma visita gratuita e que Diana pretendia levar alguma vantagem com ela, o que a mulher não sabia era que, sem Mustang por perto, ela entraria bem na linha de tiro.
- Eu vou dar um jeito nisto. – disse a primeira tenente saindo da sala com um ar de quem estava contando até dez para recuperar a calma, mas que não estava adiantando muito. Os outros três ficaram se entreolhando com os olhos arregalados e, curiosos como eram, depois decidiram ir atrás e ainda alcançaram a primeira tenente no corredor.
Ainda faltava duas horas para o final do expediente e pelo ar de leveza que a mulher deixava transparecer, ela com certeza havia sido informada do resultado do exame e se viu no direito de mudar o combinado por conta própria. Quando percebeu a presença de alguém conhecido, Diana abriu um sorriso sonso, mas ele durou pouco e só fez esquentar ainda mais o sangue de Riza que ignorou o cumprimento da outra:
- O que a senhora veio fazer aqui?
- Eu vim entregar o Paul e...
- Pode deixar que eu cuido disso. – pegando a criança do colo da outra e entregando para Havoc.
- E eu também queria conversar com o Roy sobre... – ela não teve tempo de continuar a frase, pois Riza a agarrou pelo braço e saiu arrastando a mulher para fora.
- Vocês voltem pra sala e a senhora vem comigo.
Todo mundo estava sendo gentil com Diana até aquele momento e ela acabou confundindo educação com cumplicidade, porque a lealdade deles estava com outra pessoa. Isso porque ninguém estava do lado da mulher e tampouco ligavam para seus motivos ou para a falta deles. Só a suportavam como mais um fardo social e, se a oportunidade surgisse, gostaria de que isso ficasse bem claro, mas Diana estava protegida por suas condição de mulher que impedia que qualquer um deles lhe desse um chega-pra-la. Qualquer um, menos Riza.
- Você vai sair daqui agora e não vai voltar mais.
- Eu não entendi. Qual é o problema? – Diana continuou andando com passos relutantes, pois não estava entendendo a reação de Riza e começou a ficar com medo da mulher loira – Você está machucando meu braço.
- Ele já sabe o resultado do teste. – fazendo questão de apertar um pouco mais e tomando todas as dores de Mustang - Foi por isso que você veio aqui, não é? Para contar a novidade? Pois pode dar meia volta.
Riza parou de repente e empurrou a outra contra a parede. O movimento foi violento e rápido. Diana não estava esperando e machucou a parte de trás cabeça com o encontrão com a parede:
- Ai!
- Você não acha que já fez o bastante?
- Do que você está falando? Eu só...
- Não quero saber. – cortou logo - Pode guardar suas desculpas pra outra pessoa, porque não vão funcionar comigo. Eu não sei o grau de liberdade que você decidiu que tem só porque foi mais uma das ex-namoradas do Mustang, porém isso não lhe dá o direito de fazer o que bem entende e de ficar o assediando com seu discurso choroso de arrependimento, porque eu não vou deixar. Está na hora de você assumir a responsabilidade completa dos seus atos e parar de transferir sua culpa para os outros só para ganhar a piedade deles e se livrar da sua culpa. Foi você quem decidiu fazer o que fez e por motivos que são só seus e ainda mentiu para o Coronel e o envolveu na sua sujeira. Eu sei que você não vai remediar a besteira que fez, mas pelo menos não vai deixar nada pior do que já está.
Diana escutou tudo silenciosamente sem ter coragem para interromper, primeiro porque a imagem de Riza brava, com as sobrancelhas apertadas e os olhos avermelhados sérios, era bastante intimidadora e segundo porque nada do que a tenente disse era mentira. Ela sabia muito bem porque estava ali, sabia que pretendia encurtar todas as vias legais e ainda voltar pra casa com o filho naquele dia, sem precisar de sentença nenhuma, pois o resultado do exame cumpriu esse papel... e ela teria isso, se não tivesse se sentido tão à-vontade em sua posição e abusado da sorte.
- E como é que o Roy está? – perguntou olhando para o outro lado. Ela ficou tão contente com o resultado que não pensou que havia um outro lado a ser considerado.
- Isso não é da sua conta. – dispensando a preocupação pouco sincera dispensada pela outra e saindo da frente para que ela pudesse ir embora.
Diana baixou a cabeça e foi embora envergonhada e deixou Riza quase tremendo de raiva, pois o que ela queria mesmo era arrancado todos os cabelos da cabeça daquela odiosa criatura, e não só ficar no sermão. Quando olhou para o lado, ainda recuperando o controle, viu os três patetas escondidos atrás de uma pilastra com os olhos arregalados para ela, sem saber se corriam para salvar suas vidas ou se aplaudiam.
- Eu não mandei vocês voltarem pra sala? – bufou Riza, no que eles se aproximaram recalcitrantes.
- A gente não entendeu muito bem essa parte da ordem e veio pedir esclarecimento. – respondeu Havoc.
- Mas gostei de ver, tenente. Meus parabéns. – disse o tenente ruivo – Ganhei meu dia depois desta.
- Isso não tem graça. – pegando o bebê de volta dos braços de Jean.
- Vai dizer que você não gostou de enxotar a mamãe-madrasta-malvada dele? – pegando na mãozinha de Paul para brincar com ele no que a criancinha começou a rir da careta estranha que Breda fez para entretê-lo.
- Não era pra ela ter aparecido aqui... – refletiu Riza pensando que talvez devesse ter pensando um pouco mais antes de expulsar a outra e ficar com a criança - E nem pra ter deixado ele.
- Pelo menos agora a gente pode se despedir. – comentou Kain feliz da vida.
- Você quer fazer um "bota-fora" pra uma criança de seis meses? Porque eu topo. – prontificou-se Jean.
- E nós vamos beber o que ? Leiteachocolatado?
- Leite de gente grande, oras: cerveja. – explicou Havoc fazendo o serviço de atualização da palavra.
- Podem ir vocês. – riu a primeiro tenente – Eu vou levar este garotinho pra casa.
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Roy estava estirado no sofá em uma posição de perfeitamente aconchegante, quase em uma simbiose perfeita, quando escutou alguém bater à porta. Ele levantou a mão do rosto para olhar na direção do barulho sem a menor vontade de levantar. Talvez se ele ficasse em silêncio a pessoa que estava batendo pensasse que não havia ninguém em casa e fosse embora...
- Coronel, abra a porta. - seguindo de mais dois toques. A voz do outro lado da porta fez o sofá não parecer mais tão confortável assim e ele saltou para fora.
- Eu disse que não precisava de ajuda pra... – começou a dizer antes mesmo de abrir a porta e continuou mesmo depois de ver que Riza não estava sozinha do outro lado - ...arrumar as coisas dele. O que ele está fazendo aqui?
- Eu sei que o senhor disse que preferia não se despedir, mas o Paul não concordou com isso. – transferindo para o bebezinho uma idéia que era dela.
- Dá ele aqui... – pegando o garotinho e depois segurando no ar com os braços esticados para ficarem cara a cara - Foi uma idéia estúpida a minha... muito estúpida. Eu vou sentir a sua falta, baixinho.
- O senhor sabe que não é um adeus... Tenho certeza que a mãe dele não vai se opor a que você visite o Paul às vezes.
- Eu sei, mas não vai ser a mesma coisa.
Antes de também ficar desanimada com a observação, Riza mexeu na sacola que estava segurando e sacou a arma que havia trazido para uma emergência:
- Eu tenho um presente pra você. - a mulher loira pegou dentro da sacola que carregava um livro grosso com a capa colorida e cheia de desenhos recordados e o título "Um tesouro de contos de fadas".
- Pra ele, você quis dizer. – corrigiu Roy.
- Não. Pra você mesmo. Aliás, é um presente dele... - Riza abriu o livro de contos de fadas e mostrou a página em que havia a marca da mãozinha de Paul carimbada com tinta azul-claro – Viu só?
- É uma dedicatória interessante... – riu da brincadeira, agradecido por ter alguém que se importasse tanto com ele – Obrigado, Riza.
- Eu vou deixar vocês se entenderem agora... – disse ela tomando sua missão por cumprida.
- Você não quer me ajudar a fazê-lo dormir de novo? – convidou Mustang
- Er... Claro.
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O espetacular berço talhado a mão com o uso da técnica milenar da família Armstrong foi deixado de lado naquela noite e Paul dormiu antes mesmo do final história do "Pássaro de Fogo", que provavelmente era tão grande exatamente para cansar as crianças a fazê-las dormir logo.
- Sabe... – começou Roy, deitado, com o braço apoiando a cabeça, ao lado da criancinha que roncava baixinho seu ronco de criança que ainda consegue ser agradável, bem diferente do ronco dos adultos - No fim eu gostei do que aconteceu. Quero dizer... Eu não estou gostando da dor excruciante que eu estou sentindo agora, mas eu gostei muito de cuidar dele. De sentir que alguém dependia de mim...
- E...? – sussurrou Riza que também estava sentada na cama, logo atrás de Roy, afagando os cabelos dele.
- E eu quero sentir isso de novo. – e girou para o lado, parando com a cabeça no colo de Riza com um sorriso atrevido.
- Você não acha que está abusando?
- Hoje eu posso.
No dia seguinte a criança foi entregue a mãe, desta vez pra sempre.
Diana não via mais sentido em continuar vivendo na Central, então mudou-se para uma cidade do interior para viver junto com seus pais e criar o filho com mais tranqüilidade. Todos ficaram emburrados e Armstrong quase derreteu em lágrimas, mas pouco tempo depois tudo estava de volta ao que era antes e logo novas perturbações surgiram para ocupar a atenção de todos e servir de empecilho entre Roy e Riza, mas eles ainda tinham uma promessa que não seria esquecida (4).
FIM
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(1) Curiosidade: E isso é um "zero" mesmo e não a letra "O", antes que alguém pergunte. Me enganaram durante anos dizendo que era a letra "O" e eu acreditei já que os outros tipos também eram letras, mas se eram letras, pq não A, B e C? Por que pular para o O? Essa dúvida cruel me consumiu até eu descobrir que o "O" na verdade era um "0" pq essas pessoas não têm aglutinogênio nas hemácias.
(2) Curiosidade: mulheres quem têm o sangue tipo negativo têm que tomar uma vacina quando ficam grávidas se os maridos são do tipo positivo, pq se o bebê for do tipo positivo, os anticorpos da mãe atacam o "corpo estranho" e a criancinha nasce com problemas. Chama eritoblastose fetal (eu penei pra decorar esse nome e nem caiu na prova). Mas não me xinguem ainda por não ter olhado do livro de biologia antes de escrever a fic, porque isso só acontece na segunda gravidez de um bebê Rhpositivo pq ai o organismo da mão já produziu os anticorpos.
(3) Não creio que aquele método em que a pessoa só fura o dedo pra fazer a tipagem sanguínea já estivesse em uso na época de fma, mesmo se considerando as próteses avançadíssimas do anime.
(4) E que vai ficar para o epílogo, porque este capítulo já ficou grande o suficiente.
Nota de encerramento: Demorou (muito), mas a fic acabou. Foi a maior fic que eu já me aventurei a escrever e aprendi muito com ela, então o saldo é positivo, apesar dos muitos pontos negativos. O pior de tudo é que eu queria fazer uma fic Royai e meu capítulo favorito foi o 10 que, se muito, faz apologia a RoyxMaes. - depois disso fui levada a perceber que sou intelectualmente incapaz de escrever uma cena romântica com eles (feliz, dona Doris ¬¬?).
Para quem chegou até aqui junto comigo, só posso deixar meu MUITO OBRIGADA pelo apoio de vocês. Não pensei que fosse receber tantos comentários e gostei demais de todos eles, inclusive das críticas, porque são elas que nos ajudam a melhorar. Desculpa por minhas limitações e confusões que não me permitiram fazer uma fic melhor.
TCHAU .
